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terça-feira, 20 de julho de 2021

FALAR EM NOME DA VIDA

 Marcelo Barros


 

A vida é o que há de mais sagrado e está acima seja dos interesses econômicos, seja mesmo dos preceitos religiosos.

Após quase um ano e meio da Covid-19, já está evidente que Bolsonaro e seu governo colocaram a população brasileira para se contaminar pelo coronavírus e fizeram isso de propósito, cientes do risco à vida das pessoas. Durante meses e meses com o Brasil mergulhado na pandemia, Bolsonaro boicotou a estratégia nacional de vacinação. Apostou na infundada imunidade de rebanho por contágio. Nestes dias mais recentes, ainda em meio a toda a tragédia desta pandemia, sem usar máscara,  o presidente do Brasil passeia e promove “motociatas” com seus apoiadores por algumas capitais do país.  

A consciência da dignidade e da igualdade de todos os seres humanos, assim como a compreensão de uma cidadania universal é, de certa forma, recente. Para que tais conquistas possam ter ocorrido, foi importante uma evolução da cultura. Hegel dizia que nós não somos donos das nossas ideias. São as ideias que entram em nós e, então, têm um poder transformador. A luta pelas ideias está na base das grandes lutas emancipatórias da sociedade.

Uma das tragédias atuais é ver que muitas vezes, as pautas mais retrógradas e claramente contrárias ao interesse dos pobres chegam a ser apoiadas e defendidas até por parcelas mais pobres da população. Ao se deixar orientar por meios de comunicação, controlados pela elite, os pobres tendem a ser conservadores. Nos tempos antigos, as massas defendiam a escravidão e o racismo. Hoje, muitos brasileiros apoiam governos neofascistas. Revelam-se favoráveis à pena de morte, ao uso livre de armas de fogo e à violência policial contra pobres e negros.

Esta realidade só mudará quando a sociedade conseguir se organizar por grupos e comunidades que busquem compreender com mais profundidade a realidade social. Movimentos sociais e comunidades humanas de base são grupos que ajudam o povo a se tornar mais consciente de ser povo como conjunto unido. No mundo romano antigo, o latim fazia a distinção entre plebs (massa) e populus (povo organizado). O Concílio Vaticano II define que a Igreja é uma porção do povo de Deus (populus Dei) e não massa de fieis.

Infelizmente, na história, muitas vezes, Igrejas e religiões foram contrárias aos grandes movimentos de libertação e promoção humana. Nos séculos passados, muitos pastores e ministros cristãos defenderam a monarquia contra a república. Consideravam a superioridade masculina sobre as mulheres como vinda do próprio Deus. Eram contra a igualdade de gêneros e contra a liberdade de expressão e de religião. Atualmente, em todo o mundo, pastores e ministros ainda organizam cruzadas contra o direito das pessoas à diversidade sexual. Acima de tudo, acham que religião deve estar sempre ligada à direita política. Nos Estados Unidos, um presidente promove golpes agitações sociais em outro país, mantém um bloqueio contra Cuba que já dura mais de sessenta anos e decide o grau de tensão em países da Ásia. Se esse presidente se pronunciar contra o aborto e contra a união gay contará com o apoio explícito de muitos bispos, padres católicos e pastores evangélicos.

No Brasil, cristãos católicos e evangélicos continuam dando apoio apoio político ao presidente da República, em troca de benesses para as suas Igrejas. No evangelho, falou Jesus dos escribas e fariseus: vestem roupas religiosas, fazem longas orações, enquanto exploram as viúvas pobres (Mc 12, 39- 40). Hoje, esses doutores da  religião nem precisam explorar diretamente pobres e viúvas. Podem se beneficiar de verbas que vêm diretamente da exploração dos pobres. Para eles, mais vale uma boa reza do que a ética humana e social.  

Precisamos com urgência voltar ao evangelho de Jesus que afirmou: “O sábado foi feito para o ser humano e não o ser humano para o sábado”. Mesmo as leis mais sagradas devem servir à vida e à felicidade das pessoas. Ao afirmar isso, Jesus enfrenta a tensão entre pessoa e sociedade. Claramente, optou pelas pessoas. Revelou o amor divino aos pecadores públicos que eram discriminados. Paulo escreveu: “Onde está o Espírito Divino, aí há liberdade” (2 Cor 3, 17).

sábado, 22 de agosto de 2020

EM NOME DE DEUS OU DO PATRIARCADO?

 

 

Kinno Cerqueira [1]

 

Nosso modo de pensar parte de um conjunto de valores e princípios construídos ao longo de milênios de anos, os quais, de tanto serem repetidos e impostos, moldam nossa visão e determinam nossa compreensão sobre nós no mundo.

 No mundo ocidental como um todo, e particularmente no Brasil, a eleição e fixação de valores e princípios contou com a participação crucial da religião cristã. Tenhamos presente que a espécie de religião cristã que desembarcou aqui há cinco séculos, embora ostentando o nome de Jesus, nada tinha a ver com este ou com seu projeto de amor, justiça e solidariedade: tratava-se, fundamental e substancialmente, de um cristianismo colonizador, assassino e patriarcal.

 Os protestantismos que por aqui chegaram, não obstante se autocompreendessem continuadores da tradição da Reforma Protestante, há muito que também haviam abandonado o cerne do “princípio protestante”: protestar contra quaisquer absolutismos – sejam de natureza civil, política ou religiosa – e garantir o direito ao pleno exercício da liberdade conduzida pelo amor. Salvo raras e isoladas exceções, os protestantismos que se fixaram por aqui deram continuidade à colonização das mentes, ao assassinato da liberdade e à absolutização do patriarcado.

 No século XX, afloraram, no mundo e no Brasil, diversos movimentos de libertação, tanto no âmbito civil quanto nos espaços eclesiais e teológicos. Tratava-se, no âmbito dos espaços eclesiais e teológicos, de movimentos que punham às claras as ideologias brancas e patriarcais das igrejas e interpelavam o povo a ser comunidade libertada para a liberdade, ao invés de ser gado de bispos, padres e pastores.

 A plena efervescência de movimentos de libertação estimulou teólogos e teólogas a empreender uma releitura da Bíblia e da Tradição à luz do êxodo, da crítica do movimento profético, da prática libertadora de Jesus e, em especial, da experiência de redescoberta de Deus nos corpos mutilados pelas injustiças. Dentre as teologias da libertação, as teologias feministas foram as que melhor desnudaram e afrontaram a coluna de sustentação das desigualdades e injustiças, a saber, o “patriarcado” ou “machismo”.

 As teólogas feministas ajudaram-nos a compreender que o patriarcado – a dominação masculina sobre as mulheres – é estrutural e estruturante: dizemos que é “estrutural” porque as estruturas psíquicas, familiares, culturais, sociais, políticas, econômicas e religiosas foram construídas a partir e em função das aspirações e dos desejos masculinos; consequentemente, é “estruturante”, uma vez que nosso modo de pensar e agir reproduz, na maioria das vezes, a lógica própria das estruturas patriarcais supracitadas.

Dentre os traços característicos do patriarcado, salta aos olhos “a dominação sobre os corpos das mulheres”. O que explica a ênfase dada à apresentação de Maria como uma virgem silenciosa que pariu sem sexo nem prazer? Por que motivo as igrejas protestantes ainda insistem em identificar feminilidade com subserviência? Por que bispos, padres e pastores sentem-se tão perturbados quando uma mulher reclama ter direito sobre seu próprio corpo? Os discursos contra a interrupção da gravidez não seriam, no fundo, a exteriorização do medo de que a mulher conquiste algum direito de decisão?  

 Ao que parece, são homens frágeis, inseguros, profundamente assustados com a possibilidade de que as mulheres rompam com a lógica de submissão ao macho. A emergência de uma nova consciência de igualdade de gênero ameaça o clericalismo – tanto católico quanto protestante – em sua base mais fundamental. Atemorizados ante a possibilidade de deixarem de ser os donos dos corpos das mulheres, bispos, padres e pastores alçam suas vozes em nome de Deus e da Igreja quando, na verdade, estão a reclamar a manutenção daquilo que lhes concede honra, poder e glória: o patriarcado.

Nós, se quisermos ser fiéis à mais original tradição de Jesus, da Igreja Católica e da Reforma Protestante, devemos deixar claro – pessoal e comunitariamente, no discurso e na prática – que rejeitamos os ídolos patriarcais apresentados por bispos, padres e pastores e optamos pelo Deus-Amor que se nos revela nos corpos reprimidos e flagelados das mulheres. 

 

[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.

 

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

COVID 19 - QUINQUAGÉSIMA QUARTA REFLEXÃO - FREI ALOÍSIO FRAGOSO O NOME DE DEUS EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS

 por FREI ALOÍSIO FRAGOSO

     Nestes dias pude ler uma matéria das mais esclarecedoras para a nossa compreensão sobre a realidade. Rita de Almeida, psicanalista, é o nome da sua autora e seu mérito é fazer-nos entender os fatos reais do momento presente em suas causas subterrâneas, conhecer a alma destes fatos e de seus protagonistas. As idéias dela me inspiraram esta reflexão.

    Faz alguns anos, um escritor iraniano, Salman Rushdie, publicou uma obra intitulada "Versos Satânicos". Por conta disso tornou-se um fugitivo permanente da morte, decretada por grupos islâmicos. Qualquer pessoa, em qualquer parte do planeta, estava autorizada a matá-lo, em nome de Alá e de seu profeta Maomé.

     Tempos depois, de algum de seus esconderijos, ele denunciou a existência de um grave obstáculo boicotando os esforços de quem se empenha pela utopia da paz universal. O núcleo deste problema estava em um Ser Supremo chamado Deus. Deus era o nome do problema, segundo ele.

     Quem o lê com atenção e sem preconceitos se dá conta de quanto sua denúncia encerra de sério e desafiador para uma consciência religiosa esclarecida.

     Uma coisa é Deus, outra coisa é o nome que lhe damos, outra coisa ainda, é o uso que fazemos deste nome. Nós cristãos, por exemplo, temos uma perfeita definição: "Deus é Amor". No entanto, nestes mais de 20 séculos, o seu nome tem sido instrumentalizado em favor de objetivos claramente opostos a esta concepção: assustar crianças, atormentar consciências, levar dissidentes à fogueira, manter déspotas e tiranos no poder, legitimar guerras, espalhar doutrinas expressamente condenadas por Jesus.

     Hoje em dia, frente à perda quase total de referências humanas capazes de manter vivas suas esperanças e conferir-lhe segurança, um grande número de pessoas se rende ao fascínio de líderes paranóicos que se arvoram em novos messias. O sucesso deles está na habilidade de ocupar o lugar de Deus.

     É aí que descobrimos a parte de razão que cabe ao escritor iraniano. A divindade que ele acusa não é o Deus único e verdadeiro da nossa Fé, o Deus revelado por Jesus Cristo e seus apóstolos. É antes o "Deus" projetado nestas figuras idolátricas, travestidas de divindade.

     Em sua dissertação, a psicanalista Maria Rita pergunta: "O que faz tantas pessoas depositarem sua fé e se entregarem de modo subserviente a esta espécie de charlatões"? E analisa a resposta de Freud: "eles representam o recurso humano mais primário de lidar com o desamparo....o lugar mais confortável psiquicamente de conviver com afetos como angústia e medo". Daí a adesão irracional. "Não há argumento suficientemente forte para mostrar a verdade a quem não deseja encontrá-la, mesmo que isso signifique um risco de morte", escreve ela. "Preferem arriscar-se a uma morte real do que a uma morte subjetiva, que seria ter de admitir que estavam vivendo uma grande mentira".

     Por trás destes sentimentos se escondem os ideólogos fascistas, prontos a manipular o sagrado com eloquência e eficácia. Quem desconfiará da segunda intenção oculta na legenda "Deus acima de tudo"? Quem se lembrará de associá-la a outras legendas equivalentes: "Alemanha acima de tudo" (Hitler). "América grande novamente" (Trump)?

    Daí muitos são induzidos a aceitar que Deus permite os desmandos e crimes destes seus ídolos; antes isso do que admitir que se deixaram enganar por uma torpe mentira.

     Chegamos ao absurdo de ter que defender a inocência de Deus, como se o Todo Poderoso não se bastasse em sua própria defesa. Na verdade, estamos nos defendendo de nós mesmos, pelo que fizemos com o seu nome. Criamos um Deus à nossa imagem e semelhança. Um Deus para o ocidente, outro para o oriente. Um Deus para os brancos, outro para as demais raças. Um Deus para os tubarões, outro pra raia miúda. Um Deus para a guerra, outro para a paz. Os bilhões de dólares que financiam as guerras trazem em cada cédula a inscrição "In God we trust" (em Deus nós confiamos).

    O realismo da pandemia do coronavirus obriga-nos a purificar nossas idéias de Deus. O único nome que tem sentido invocar, neste momento, é o "Pai Misericordioso e Compassivo". E  o  invocamos, em meio aos esforços para combater a pandemia, sabendo, por experiência milenar, que a Fé, juntamente com o Amor, é a maior força de que dispomos nesta vida.

     Enquanto isso, esses falsos deuses, como sugere a Bíblia, "tem cabeça de ouro maciço, tronco de prata, coxas de bronze e pernas de barro" Dan.2,32.  Não se sustentam.

    E, da nossa parte, rezamos com o sl.37: "Todas as nossas angústias, Senhor, estão na vossa presença. E nenhum gemido de ninguém na face da terra será oculto aos olhos do Senhor".  Amém.

 

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

terça-feira, 23 de junho de 2020

FALAR EM NOME DA VIDA


 


Por Marcelo Barros

 

A vida é o que há de mais sagrado e está acima seja dos interesses econômicos, seja mesmo dos preceitos religiosos.

 

Nestes dias, nos Estados Unidos e por todo o mundo, muitas pessoas reagem contra o racismo revelado no assassinato cruel e covarde de George Floyd. Brasileiros protestam contra o genocídio de jovens negros nas periferias das cidades. No Recife, pessoas conscientes manifestam consternação diante da morte de Miguel Otávio, criança negra de 5 anos, vítima do classismo e racismo dominante na sociedade.

Enquanto a humanidade sofre a tragédia desta pandemia, o presidente dos Estados Unidos cancela o financiamento de 400 milhões de dólares que a Organização Mundial da Saúde (OMS) deveria receber. Atualmente, estão em fase de testes oito tipos de vacinas contra o Covid 19. Destas, a metade (4) vem da China. Donald Trump usa todo o seu poder para impedir que vacinas chinesas cheguem ao mercado antes de novembro. Isso seria prejudicial à sua campanha para a reeleição. Para ele, isso pesa mais do que a vida de milhares de pessoas que seriam salvas.

No meio desta realidade, o presidente da África do Sul lança um desafio à ONU: a vacina contra um vírus que é mortal e ameaça toda a  humanidade não pode ser comercializado. A vida não pode comercializada. Em vários países e inclusive no Brasil, entidades da sociedade civil  se unem em uma Campanha internacional para declarar vacinas e remédios contra as epidemias como bens comuns de toda a humanidade. Esta campanha é coordenada por uma Fundação Internacional que tenta unir a humanidade em uma Ágora dos/das Habitantes da Terra.

A consciência da dignidade e da igualdade de todos os seres humanos e a compreensão de uma cidadania universal é, de certa forma, recente. Para que tais conquistas possam ter ocorrido, foi importante uma evolução da cultura. Hegel dizia que nós não somos donos das nossas ideias. São as ideias que entram em nós e aí elas têm um poder transformador. A luta pelas ideias está na base das grandes lutas emancipatórias da sociedade.

Uma das tragédias atuais é ver que muitas vezes, as pautas mais retrógradas e claramente contrárias ao interesse dos pobres são apoiadas e defendidas pela parcela mais pobre da população. Ao se deixar formar por meios de comunicação, dominados pela elite, os pobres tendem  a ser conservadores. Nos tempos antigos, as massas defendiam a escravidão e o racismo. Hoje, muitos brasileiros apoiam governos neofascistas. Revelam-se favoráveis à pena de morte, ao uso livre de armas de fogo e à violência policial contra pobres e negros. Esta realidade só muda quando a sociedade passa a se organizar por grupos e comunidades que buscam compreender com mais profundidade a realidade social. São os movimentos sociais e as comunidades humanas de base que formam o povo mais consciente de ser povo. No mundo romano antigo, o latim fazia a distinção entre plebs (massa) e populus (povo organizado). O Concílio Vaticano II define que a Igreja é uma porção do povo de Deus (populus Dei) e não massa de fieis.

Infelizmente, na história, muitas vezes, Igrejas e religiões foram contrárias aos grandes movimentos de libertação e promoção humana. Nos séculos passados, muitos pastores e ministros cristãos defenderam a monarquia contra a república. Consideravam a superioridade masculina sobre as mulheres como vinda do próprio Deus. Eram contra a igualdade de gêneros e contra a liberdade de expressão e de religião. Atualmente, em todo o mundo, pastores e ministros ainda organizam cruzadas contra o direito das pessoas  à diversidade sexual. Acima de tudo, acham que religião deve estar sempre ligada à direita política. Nos Estados Unidos, um presidente de direita faz guerras, destrói a vida em muitos países, manda prender crianças de cinco anos de idade e as isolar de seus pais. Se este presidente for contra o aborto e a união gay contará com o apoio explícito de muitos bispos, padres católicos e pastores evangélicos. No Brasil, nestes dias, conforme órgãos da imprensa, televisões que se dizem católicas ofereceram apoio político ao presidente da República, em troca de ajuda econômica. No evangelho, falou Jesus dos escribas e fariseus: vestem roupas religiosas, fazem longas orações, enquanto exploram as viúvas pobres (Mc 12, 39- 40). Hoje, esses doutores da  religião não precisam explorar diretamente pobres e viúvas. Têm televisão para inundá-los de campanhas de arrecadação econômica. Agora, pedem ao governo para se beneficiar de verbas que vêm diretamente da exploração dos pobres. Para eles, mais vale uma boa reza do que a ética humana e social.  

Precisamos com urgência voltar ao evangelho de Jesus que afirmou: “O sábado foi feito para o ser humano e não o ser humano para o sábado”. As leis, mesmo as mais sagradas, devem servir à vida e à felicidade das pessoas. Ao afirmar isso, Jesus enfrenta a tensão entre pessoa e sociedade. Claramente, optou pelas pessoas. Defendeu a mulher adúltera que a religião do templo mandava apedrejar. Revelou o amor divino aos pecadores públicos que eram discriminados. Paulo escreveu: “Onde está o Espírito Divino, aí há liberdade” (2 Cor 3, 17).

 

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com


terça-feira, 16 de junho de 2020

FALAR EM NOME DA VIDA


 

Por Marcelo Barros

 

A vida é o que há de mais sagrado e está acima seja dos interesses econômicos, seja mesmo dos preceitos religiosos.

 

Nestes dias, nos Estados Unidos e por todo o mundo, muitas pessoas reagem contra o racismo revelado no assassinato cruel e covarde de George Floyd. Brasileiros protestam contra o genocídio de jovens negros nas periferias das cidades. No Recife, pessoas conscientes manifestam consternação diante da morte de Miguel Otávio, criança negra de 5 anos, vítima do classismo e racismo dominante na sociedade.

Enquanto a humanidade sofre a tragédia desta pandemia, o presidente dos Estados Unidos cancela o financiamento de 400 milhões de dólares que a Organização Mundial da Saúde (OMS) deveria receber. Atualmente, estão em fase de testes oito tipos de vacinas contra o Covid 19. Destas, a metade (4) vem da China. Donald Trump usa todo o seu poder para impedir que vacinas chinesas cheguem ao mercado antes de novembro. Isso seria prejudicial à sua campanha para a reeleição. Para ele, isso pesa mais do que a vida de milhares de pessoas que seriam salvas.

No meio desta realidade, o presidente da África do Sul lança um desafio à ONU: a vacina contra um vírus que é mortal e ameaça toda a  humanidade não pode ser comercializado. A vida não pode comercializada. Em vários países e inclusive no Brasil, entidades da sociedade civil  se unem em uma Campanha internacional para declarar vacinas e remédios contra as epidemias como bens comuns de toda a humanidade. Esta campanha é coordenada por uma Fundação Internacional que tenta unir a humanidade em uma Ágora dos/das Habitantes da Terra.

A consciência da dignidade e da igualdade de todos os seres humanos e a compreensão de uma cidadania universal é, de certa forma, recente. Para que tais conquistas possam ter ocorrido, foi importante uma evolução da cultura. Hegel dizia que nós não somos donos das nossas ideias. São as ideias que entram em nós e aí elas têm um poder transformador. A luta pelas ideias está na base das grandes lutas emancipatórias da sociedade.

Uma das tragédias atuais é ver que muitas vezes, as pautas mais retrógradas e claramente contrárias ao interesse dos pobres são apoiadas e defendidas pela parcela mais pobre da população. Ao se deixar formar por meios de comunicação, dominados pela elite, os pobres tendem  a ser conservadores. Nos tempos antigos, as massas defendiam a escravidão e o racismo. Hoje, muitos brasileiros apoiam governos neofascistas. Revelam-se favoráveis à pena de morte, ao uso livre de armas de fogo e à violência policial contra pobres e negros. Esta realidade só muda quando a sociedade passa a se organizar por grupos e comunidades que buscam compreender com mais profundidade a realidade social. São os movimentos sociais e as comunidades humanas de base que formam o povo mais consciente de ser povo. No mundo romano antigo, o latim fazia a distinção entre plebs (massa) e populus (povo organizado). O Concílio Vaticano II define que a Igreja é uma porção do povo de Deus (populus Dei) e não massa de fieis.

Infelizmente, na história, muitas vezes, Igrejas e religiões foram contrárias aos grandes movimentos de libertação e promoção humana. Nos séculos passados, muitos pastores e ministros cristãos defenderam a monarquia contra a república. Consideravam a superioridade masculina sobre as mulheres como vinda do próprio Deus. Eram contra a igualdade de gêneros e contra a liberdade de expressão e de religião. Atualmente, em todo o mundo, pastores e ministros ainda organizam cruzadas contra o direito das pessoas  à diversidade sexual. Acima de tudo, acham que religião deve estar sempre ligada à direita política. Nos Estados Unidos, um presidente de direita faz guerras, destrói a vida em muitos países, manda prender crianças de cinco anos de idade e as isolar de seus pais. Se este presidente for contra o aborto e a união gay contará com o apoio explícito de muitos bispos, padres católicos e pastores evangélicos. No Brasil, nestes dias, conforme órgãos da imprensa, televisões que se dizem católicas ofereceram apoio político ao presidente da República, em troca de ajuda econômica. No evangelho, falou Jesus dos escribas e fariseus: vestem roupas religiosas, fazem longas orações, enquanto exploram as viúvas pobres (Mc 12, 39- 40). Hoje, esses doutores da  religião não precisam explorar diretamente pobres e viúvas. Têm televisão para inundá-los de campanhas de arrecadação econômica. Agora, pedem ao governo para se beneficiar de verbas que vêm diretamente da exploração dos pobres. Para eles, mais vale uma boa reza do que a ética humana e social.  

Precisamos com urgência voltar ao evangelho de Jesus que afirmou: “O sábado foi feito para o ser humano e não o ser humano para o sábado”. As leis, mesmo as mais sagradas, devem servir à vida e à felicidade das pessoas. Ao afirmar isso, Jesus enfrenta a tensão entre pessoa e sociedade. Claramente, optou pelas pessoas. Defendeu a mulher adúltera que a religião do templo mandava apedrejar. Revelou o amor divino aos pecadores públicos que eram discriminados. Paulo escreveu: “Onde está o Espírito Divino, aí há liberdade” (2 Cor 3, 17).

 

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com


quarta-feira, 3 de maio de 2017

NO BRASIL, MASSACRES DE LATIFUNDIÁRIOS CONTRA POSSEIROS. PELO MUNDO, VIOLÊNCIA EM NOME DE DEUS


 por Juracy Andrade



“Nenhum camponês sem terra, nenhuma família sem casa, nenhum trabalhador sem direitos” disse o papa Francisco em sua visita à Bolívia, terra de vários povos indígenas que somente agora estão sendo resgatados de plurissecular omissão e exploração dos que se consideram brancos e cristãos. Do lado de cá da fronteira, o governo golpista de Michel Miguel prepara o bote final nos povos indígenas, desmontando a Funai e seu privilégio constitucional de demarcar e homologar terras indígenas. E os grileiros avançam nas terras indígenas e assentamentos de homens do campo.

Recentemente, nove trabalhadores rurais foram mutilados e assassinados, a mando de fazendeiros, no norte do Mato Grosso. Já são cerca de 60 mil mortes violentas por ano. Um dos assassinados em Taquaruçu do Norte (MT) ainda estava com um machado cravado nas costas quando jornalistas conseguiram chegar à remota localidade. É uma luta longa e violenta que, sob o atual desgoverno, tende a se intensificar, sem nenhum respeito a direitos adquiridos, como no caso dos trabalhadores em geral, que estão perdendo até o direito à aposentadoria. Um escândalo que não repercute muito pelo mundo, pois o que os países ricos querem é um Brasil submisso, como nos tempos de Fernando 2º (FHC) e companhia. E não é que o sociólogo sem alunos saiu do armário golpista?

O tema praticamente desapareceu da imprensa. E o desgoverno pouco está ligando para os desmandos do agronegócio, que incluem roubo de terras, assassinatos, desmatamento ilegal, destruição ambiental. A Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica, contabiliza os desmandos e atrocidades. Que prosseguirão inevitáveis. Em 2004, 185 famílias que cultivavam terras naquela área foram expulsas e a pressão continua sobre quem ficou, centenas de pessoas. A impunidade faz com que os latifundiários e grileiros continuem sem temor. A polícia não age.

Voltando a Francisco, um papa realmente cristão, mais uma vez condenou, em recente visita ao Egito, a violência cometida “em nome de Deus”. Referia-se a atentados contra a minoria cristã daquele país, que conviveu em paz com os muçulmanos por séculos. O ideal do papa e de muitos muçulmanos pacifistas é que as religiões convivam numa boa, sem atritos, ofensas e principalmente sem a violência que explode ultimamente no terrorismo. Terrorismo, aliás, que começou com os ataques dos Cruzados aos islamitas na Terra Santa, prosseguiu com a colonização e, hoje, com os interesses petrolíferos.



O autor é jornalista com formação em filosofia e teologia