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sábado, 19 de junho de 2021

AS MAIORES VÍTIMAS DA VIOLÊNCIA

 Por Francisco de Aquino Júnior


 

O ambiente de violência generalizada em que nos encontramos faz com que ninguém esteja completamente imune ou protegido. De uma forma ou de outra, a violência atinge todas as pessoas, ainda que seja pelo sentimento comum de insegurança e medo. Nem mesmo a classe média/alta está livre. Basta ver a busca por condomínios fechados e o crescimento do mercado de segurança privada.

Mas não nos iludamos: Se a violência de alguma forma atinge todas as pessoas, não atinge todas as pessoas na mesma proporção e intensidade. Não “estamos todos no mesmo barco”. Na “melhor” das hipóteses, estamos todos no mesmo oceano de violência generalizada. Mas, enquanto alguns estão em iates, outros estão em barcos, outros estão agarrados a um tronco e milhares já morreram afogados num mar de sangue. Enquanto alguns são protegidos, outros são exterminados – até pelo próprio Estado. É falso e cínico o discurso ideológico de universalização da violência que trata todas as pessoas como igualmente vítimas da violência

Mesmo entre as maiores vítimas da violência (pobres, negros, indígenas, mulheres, população LGBT etc.) há diferenças que não se podem negar nem minimizar. É verdade que há muitas formas de violência (econômica, racial, de gênero, sexual etc.) e nenhuma delas pode ser banalizada e minimizada. E é verdade que essas diversas formas de violência estão muito mais implicadas umas nas outras do que parece, formando um tecido social extremamente violento. Mas é verdade também que quando qualquer dessas formas de violência está associada à violência econômica, que nega as condições materiais de reprodução da vida, ela adquire dimensões e proporções muito mais graves: Entre uma mulher rica e uma mulher pobre, entre um gay rico e um gay pobre, entre um negro rico (coisa muito mais rara) e um negro pobre, por exemplo, há diferenças consideráveis que não se podem minimizar. Nem se pode banalizar nenhum tipo de violência, nem se pode colocá-las todas no mesmo nível.

É curioso que o discurso de universalização da violência tende a tratar todas as pessoas como vítimas da violência, mas não como sujeitos da violência. Aqui a violência não aparece como um fato universal que diz respeito a todas as pessoas: ela tem classe e raça. Violenta é a população pobre e negra das periferias que está encarcerada ou é candidata nata ao encarceramento ou mesmo ao extermínio: são “bandidos”, são uma ameaça à sociedade, devem ser exterminados – “bandido bom é bandido morto”! A elite que se proclama vítima da violência dos bandidos (medo, assalto, agressão etc.) não se reconhece como sujeito da violência (econômica, psíquica, estatal/policial etc.) contra os pobres. Mesmo uma mulher que é vítima do machismo ou um gay que é vítima de homofobia nem sempre se reconhece como sujeito de violência contra a empregada doméstica ou contra os pobres em geral. A tentação é sempre responsabilizar o outro pela violência. E o outro normalmente é o que se encontra numa situação de dominação: a mulher, o gay, o negro e, sobretudo e em última instância, o pobre.

O discurso de universalização da violência (todos são igualmente vítimas!) é sempre um discurso classista-racista (os pobre e negros são os responsáveis pela violência!). O resultado dessa lógica perversa se traduz numa cultura de preconceito, desprezo, aversão e violência contra as vítimas e em políticas públicas de defesa dos interesses das elites e criminalização da pobreza e dos pobres.

Atenção: Não estamos todos no mesmo barco! Não somos igualmente vítimas da violência! Por isso não se pode tratar todos da mesma forma: onde há dois pesos, tem que haver duas medidas. No centro de nossas preocupações tem que está sempre a defesa dos direitos das maiores vítimas da violência. Elas são, n’Ele, juízes e senhores de nossas vidas, Igrejas e sociedades (Mt 25, 31-46).

**Portal das CEBs   postagem original

Francisco Junior Aquino é Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

sexta-feira, 14 de maio de 2021

O PERDÃO: A GRANDEZA E A DIGNIDADE DAS VÍTIMAS DE EXTENSA VIOLÊNCIA



                                    Leonardo Boff* 


Por iniciativa do bispo Dom Vicente Ferreira, pastor da região da tragédia de Brumadino-MG e do professor e psicanalista René Dentz, foi organizado um livro que recolhe  excelentes estudos sobre o perdão:”Horizontes de Perdão” (Editora Ideias & Letras 2020,pp.180). Sua singularidade reside no fato de  terem sido escolhidos exemplos de perdão de  diferentes países com suas culturas e tradições próprias.

Queremos comentar esta obra por sua alta qualidade e por abordar um tema de grande atualidade, também largamente abordada pelo Papa Francisco na sua encíclica social Fratelli tutti (2020).

O livro “Horizontes de Perdão” tem como foco  pensar o perdão a partir do sofrimento concreto e terrível, suportado por vítimas humanas inocentes ou por todo um povo vitimado durante séculos. Aqui reside sua grande força e também o seu poder de convencimento.

Um exemplo, descrito e analisado pelo bispo Dom Vicente Ferreira e de René Dentz, também organizador desta obra, vem do Brasil, das tragédias criminosas do rompimento de duas barragens da mineradora Vale, em Mariana-MG no dia 05 de maio de 2015, matando 19 pessoas e destruindo a bacia do Rio Doce, com 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério e Brumadinho-MG, no dia 25 de janeiro de 2019, com a ruptura da barragem da mesma mineradora Vale, vitimando 272 pessoas, soterradas  sob 12,7 milhões de metros cúbicos de lama e detritos.

O livro abre com um minucioso estudo do bispo Dom Vicente Ferreira, pastor, poeta, músico e profeta: “Brumadinho: o perdão a partir das vítimas de crimes socioambientais”. Precede-o uma pertinente  análise de conjuntura global, sob a hegemonia do capital, uma máquina de fazer vítimas no mundo inteiro. A mineradora Vale representa a lógica do capital que prefere o lucro à vida, aceitando o risco de dizimar centenas pessoas e de danificar profundamente a natureza.Mesmo consciente dos danos perpetrados, reluta  em compensar com justiça e equidade as famílias e pessoas afetas.

Dom Vicente procura entender o processo vitimatório da globalização do capital com as categorias do sociólogo português, Boaventura de Souza Santos e a compreensão da violência com a psicanálise de Sigmund Freud que face à nossa capacidade de superar a violência  se mostra, de certa forma, cético e  resignado.

Dom Vicente supera esta resignação com a contribuição da mensagem cristã bem no espírito da Fratelli tutti do Papa Francisco. Esta testemunha o sacrifício da vítima inocente, do Crucificado que rompeu o círculo da vingança e do ressentimento com o perdão a seus algozes. Esta visão foi bem desenvolvida pelo pensador René Girard referido no estudo. Este pensador francês emerge como um dos que melhor estudou a dinâmica da  violência que se origina pelo desejo mimético excludente (alguém quer só para si um objeto excluindo a terceiros), mas que a proposta cristã mostrou que este desejo mimético pode ser transformado em includente (desejamos juntos  e compartilhamos o mesmo objeto) pelo perdão incondicional.

Mas esse perdão coloca a exigência de justiça a ser praticada por aqueles que provocaram o desastre criminoso, no caso os responsáveis da mineradora Vale. Essa luta, o bispo a leva com determinação e ternura, com canto, poesia e oração junto com a comunidade dos sofredores que ele incansavelmente, com uma  generosa equipe, acompanha. Cabe citar novamente o que diz a Fratelli tutti:.”Não se trata de propor um perdão renunciando aos próprios direitos perante um poderoso corrupto… Quem sofre injustiça tem de defender vigorosamente os seus direitos e os da sua família, precisamente porque deve guardar a dignidade que lhes foi dada, uma dignidade que Deus ama”(n.241)

Para entender melhor a dinâmica da violência e do perdão, alguns autores foram seminais: o filósofo francês Paul Ricoeur com seu livro “La mémoire, l’histoire, l’oubli” (Paris, Seuil 2000) e Franz Fanon, “Os condenados da Terra” (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira 1968).

A reconciliação e o perdão não terminam em si mesmos. Novamente  a Fratelli tutti  é inspiradora:

Como ensinaram os bispos da África do Sul, a verdadeira reconciliação alcança-se de maneira proativa, «formando uma nova sociedade baseada no serviço aos outros, e não no desejo de dominar; uma sociedade baseada na partilha do que se possui com os outros, e não na luta egoísta de cada um pela maior riqueza possível; uma sociedade na qual o valor de estar juntos como seres humanos é, em última análise, mais importante do que qualquer grupo menor, seja ele a família, a nação, a etnia ou a cultura» (n.213). E os bispos da Coreia do Sul destacaram que uma verdadeira paz «só se pode alcançar quando lutamos pela justiça através do diálogo, buscando a reconciliação e o desenvolvimento mútuo”(n.229)

Releva enfatizar: cada povo e cada grupo encontraram caminhos próprios para chegar ao perdão. Assim, por exemplo, para os afrodescendentes brasileiros é imprescindível para um perdão real que os brancos que os vitimizaram pela escravidão, reconheçam a desumanidade que cometerem, reforcem a identidade africana e os restaurem na sua dignidade ofendida. Bem se disse: “o perdão é mais que uma justa justiça, antes é da ordem da doação- doação aos outros”.

No Congo Brazzaville, país marcado por sangrentas guerras civis, o conceito chave foi “palaver”, recorrente nos países do sul do Saara. “Palaver” implica buscar a verdade pelo diálogo, pela liberdade de todos falarem, independemente de seu lugar social e de gênero, até se elaborar um consenso em função da paz social; todos se perdoam mutuamente, sem penalizar ninguém mas todos se propõem corrigir os erros. O texto mostra como esse pacto pela ganância do poder de grupos e pela vasta corrupção que assola o  país, não conseguiu prevalecer e ter sua sustentabilidade garantida. Mas velu a tentativa.

Na Africa do Sul, o conceito-chave no processo de reconciliação e de perdão, conduzido pelo arcebispo anglicano Desmod Tutu, foi a categoria “Ubuntu”. Ela fundamentalmente expressa essa profunda verdade antropológica: “eu só sou eu através de você”. Todos se sentem interligados. A estratégia era: o vitimador confessa seu crime com toda sinceridade; a vítima escuta atentamente e narra a sua dor; restaura-se a justiça  reparadora e restaurativa, eventualmente aceita-se uma punição curativa, exceto para os crimes mais hediondos de  lesa-humanidade que são encaminhados ao tribunal competente.

Outra contribuição trabalha estudos avançados de mereologia (como as partes se relacionam com outras partes, como elas se situam no todo e como dentro dele se movem). Os dois autores articulam os dados numa certa harmonia, base para o perdão, assim definido por eles: 

A superação do afeto negativo e do julgamento em relação ao ofensor, não negando a nós mesmos o direito a tal afeto e julgamento, mas se esforçar em ver o ofensor com compaixão, benevolência e amor.

O pressuposto antropológico é que por mais criminoso que alguém seja, nunca é só criminoso, jamais deixa de ser humano com muitas outras virtualidades também positivas. Da mesma forma, por mais que a população trazida violentamente de Africa para ser escrava no Brasil, nunca os senhores de escravos conseguiram matar-lhes a liberdade. Eles resistiram e procuraram sempre conservar sua identidade cultural e religiosa. O quilombolismo é disso uma prova ainda hoje visível nas centenas de quilombos existentes, onde se vive uma vida mais comunitária, igualitária, na linha do “Ubuntu”.

 Entretanto, enquanto não se parar de dar um dowload do ressentimento e do espírito de vendetta, nunca se rasgará o caminho para um verdadeiro perdão. Não se trata de esquecimento, mas de não deixar de ser refém de um interminável ciclo de amargura e de mágoa.

Nesse ponto do perdão generoso, o cristianismo mostrou seu capital humanístico. Como o texto de Dom Vicente o mostra e especialmente o da Colôambia que assim o expressa: perdoar o  imperdoável não é só uma amostra como o expírito humano pode revelar a sua transcendência, a sua capacidade de estar para além de qualquer situação por mais desumana que se apresente, mas é acima de tudo o dom da graça divina. Perdoamos porque fomos perdoados por Deus e por Cristo cuja misericórdia não sofre nenhuma limitação.

A justiça é irrenunciável. Mas não é ela que escreve a última página da história humana. Excelentemente respondeu um filósofo Roger Icar a Wiesenthal, aquele que  buscava no mundo todo criminosos nazistas: “O perdão sem justiça revela fraqueza, mas uma justiça sem perdão representa uma força desumana”.

Estes textos revelam a excelência das reflexões sobre o perdão, dos melhores publicados nos últimos tempos. A parte desumana no ser humano, pode pelo perdão e pela reconciliação ser resgatada e transformada. Essa é a grande lição que esta notável obra “Horizontes de Perdão” nos quer transmitir, tão bem organizada pelo bispo-pastor Dom Vicente de Brumadinho e pelo erudito  psicanalista Renê Dentz.

*Leonardo Boff é teólogo e filósofo e a propósito do tema Paixão de Cristo-Paixão do mundo, Vozes 1977; Princípio de compaixão e cuidado,Vozes 2009; Reflexões de um velho teólogo e pensador, Vozes 2018.

 

segunda-feira, 1 de abril de 2019

VIOLÊNCIA: JOGO MASCULINO




  Por Maria Clara Bingemer

            A grande escritora, filósofa e cineasta estadunidense Susan Sontag sempre foi muito atenta, quase obcecada, pelo mistério da guerra e da violência protagonizados pela espécie humana. Sobre isso escreveu vários ensaios, fez trabalhos fotográficos e filmes em regiões como Sarajevo, tornando-se uma figura icônica de intelectual comprometida com os problemas de seu tempo. 

            Em seu livro “Sobre a dor dos outros” (Regarding the pain of others), de 2004, ela explora as raízes da guerra.  E, a partir de um escrito de Virginia Woolf, reflete sobre a pergunta feita à escritora inglesa por um homem sobre a possibilidade de prevenir a guerra.  Woolf responde com uma perturbadora afirmação:  Os homens fazem a guerra.  A maioria dos homens gosta da guerra, já que para eles há “alguma glória, alguma necessidade, alguma satisfação em lutar” que as mulheres, ou pelo menos a maioria delas não sente nem desfruta. Segundo Woolf - secundada em sua convicção por Sontag – a guerra é um jogo de homens.  A máquina de matar tem um gênero, e é macho. 

            Escrevo isso tendo ainda frescos no coração e na mente os terríveis eventos da escola de Suzano, em São Paulo, quando dois jovens rapazes, ex alunos da instituição, entraram atirando para matar.  Mataram cinco jovens estudantes, além de duas educadoras e o tio de um dos assassinos.  Depois se mataram.  Não havia um objetivo definido: nem vingança, nem roubo, nem intolerância religiosa. Não se tratava tampouco de uma guerra entre nações ou da invasão de um país por uma grande potência estrangeira. E neste sentido o evento difere daquele comentado por Virginia Woolf e refletido por Susan Sontag. Não há nada além da morte alheia e a própria. Apenas o gozo de atirar e atirar para matar. Matar e morrer, esse é o jogo. 

            A tragédia de Suzano tem antecedentes na história recente.  Nos Estados Unidos, em Columbine (Colorado), em 1999, quando dois adolescentes assassinaram 13 pessoas, ou em Newton (Connecticut), onde um jovem matou 20 crianças e seis adultos numa escola infantil.   No Brasil, cabe mencionar a tragédia de Realengo (Rio de Janeiro), em 2011: doze estudantes de uma escola em Realengo, bairro localizado na Zona Oeste, morreram depois que um homem abriu fogo. O agressor, um jovem de 24 anos, era um ex-aluno da escola e cometeu suicídio após o massacre.

            Em todos os casos, o rastro deixado pelas armas é de sangue, dor e lágrimas inconsoláveis.  As mães, os familiares, os amigos, enterram as vítimas perplexos diante da brutalidade de uma violência para a qual não se consegue encontrar explicações. 

            Se observarmos esses tristes eventos, vamos encontrar neles protagonistas e atores masculinos.   Meninos.  Não há meninas em nenhum dos casos.  A violência deliberada tornada matança, gestada em um site da internet, onde os membros incentivam uns aos outros ao ódio e à violência, é coisa de homem, de menino.  Meninos que se vestem de matadores inspirados em filmes ou séries americanas e descarregam suas armas sobre outros e sobre si mesmos, declarando que esse é o sentido de suas vidas. 

            Não se quer aqui afirmar que todos os homens são violentos e as mulheres, pacíficas.  Isso não seria verdade. Porém, se afirma, sim, que o jogo, o ritual, as vestes, o instrumental da violência e da guerra predominam no imaginário masculino muito mais do que no feminino.  A razão disso estaria na forma tradicional como meninos e meninas são educados.  Desde muito cedo  são dadas armas de brinquedo aos meninos,  incentivados a brincadeiras brutas.  E suas brigas são violentas e machucam, enquanto no campo das meninas as atividades são mais tranquilas, criativas e lúdicas.

            Muito se tem questionado esse tipo de educação, que reduziria a mulher a um papel passivo na sociedade e empurraria o homem em direção à violência e à agressividade.  Não se trata, pois, de fazer aqui o elogio deste tipo de dicotomia, em que mulher é princesa e homem, guerreiro. Mas sim de questionar se a formação das novas gerações não estaria sendo reduzida em suas potencialidades a um vazio desesperador, formando homens violentos que só vão encontrar motivação em jogos perigosos e vorazes.  Ao mesmo tempo em que produz mulheres insatisfeitas e frustradas, que se realizarão no consumo e na futilidade. 

            Assim como frente ao crescimento exponencial da violência urbana que mata milhares de jovens do sexo masculino todo ano, e do aumento preocupante do feminicídio, que mata mulheres pelo simples fato de serem mulheres, impõe-se uma conversão.  Formar para a paz e a convivência.  Mais atenção aos meninos, não deixando que os jogos violentos lhes devorem o imaginário e o futuro.  E às meninas, para que ponham a serviço da sociedade como um todo sua profunda e visceral aliança com a vida. 

    Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora  de  Testemunho: profecia, política e sabedoria ( Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial), entre outros livros.



segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

VIOLÊNCIA URBANA E SEGURANÇA PÚBLICA



 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer


A violência urbana é um dos maiores problemas que, hoje em dia, atinge não só o Rio de Janeiro, como a maioria das cidades brasileiras. Trata-se, além disso, de uma situação que acontece igualmente em nível mundial. No entanto, apesar da gravidade do problema, sente-se que faltam luzes, perspectivas, no seu  enfrentamento  e, sobretudo, idéias que tenham uma dimensão prática, concreta, que possam ser traduzidas em ações. Neste sentido, é  fundamental a participação ativa da Igreja Católica, não só em termos de ação pastoral, como igualmente na elaboração de uma reflexão no combate à violência.

A Igreja tem a tradição de um pensamento que se transforma em ação. Foi muito atuante nos anos 60, 70, 80, em toda a questão social no país. Durante a Ditadura, a Igreja foi, sem dúvida, um santuário não só da resistência ao autoritarismo, como porta de  abertura de uma agenda social muito forte. Feita a democratização, vejo que entramos em outros períodos, outro contexto, no qual o tema da violência foi ocupando um lugar central. E é justamente aí que uma participação forte da Igreja se faz necessária e mesmo indispensável no momento desse debate. Trata-se, em síntese, de refletir e atuar sobre a relação entre direitos humanos, segurança pública e violência.

O Brasil tem uma memória na qual se encontra a temática dos direitos humanos, seus valores,  operadores, e seus militantes  formados em confronto com os teóricos,  valores e  operadores da segurança. A memória do tempo da Ditadura Militar coloca a militância dos direitos humanos em confronto com a  da segurança pública, trocando acusações entre si, trocando, às vezes, até cadáveres.

Há uma forte dicotomia  entre essas duas tradições: a dos direitos humanos e a da segurança pública, a ponto de o tema direitos humanos no Brasil com freqüência ser associado, na opinião pública, a um discurso que ignora o problema da segurança e defende os bandidos e criminosos, sob alegação de motivos ideológicos.  A origem de tal oposição vem do fato de que a afirmação dos direitos humanos foi feita num momento em que o Estado, não só no Brasil, estava numa situação de totalitarismo, como o nazismo, ou com o socialismo totalitário; ou em situações de regimes militares, ditaduras.

A afirmação dos direitos humanos era, pois,  a afirmação de direitos, individuais ou de grupos, diante de uma autoridade do Estado. É como se fosse a defesa do indivíduo e dos grupos contra um poder que vem de cima. Foi nesse contexto que tudo se formou, com base nas denúncias de prisões arbitrárias, de tortura, do abuso da autoridade e da violência. Os direitos humanos se formaram nesse contexto, de defesa de direitos dos indivíduos diante de um poder externo, um poder autoritário de Estado. É nessa posição que a temática dos direitos humanos se firmou na nossa memória recente da segunda metade do século XX, depois da Segunda Guerra. Porém, a impostação do problema foi superada pelo processo de democratização no qual tivemos o fim do poder autoritário, mas a continuação da violência.

O que percebemos, sobretudo nas comunidades pobres do Brasil e da América Latina, é que o fato de viverem em tamanha insegurança implica uma perda efetiva dos direitos básicos associados aos direitos humanos. Ou seja, numa situação de insegurança, as pessoas têm dificuldade de liberdade de expressão. Sabemos da prática da lei do silêncio, como é chamada, a qual resulta justamente da profunda insegurança em que as pessoas vivem.

Se alguém é violentado ou tem alguma pessoa próxima agredida hoje no Brasil, o mais comum é que as pessoas próximas, ou a família, perguntem-se e acabem concluindo que não é negócio, não faz sentido chamar a polícia, a Justiça para ajudar.

O direito básico, elementar de recorrer à Justiça, e de reportar uma violência da qual se foi vítima está eliminado pela insegurança. O direito de associação, por sua vez, é muito complicado em condições de insegurança. Em muitos bairros, vemos, até mesmo, dificuldade do chamado ir e vir. Temos, dentro de algumas das grandes cidades brasileiras, comunidades que, em certos períodos, vivem uma realidade de Estado de Sítio. Quer dizer, há horário para voltar para casa correndo o mínimo de perigo possível.

 Chegamos a esse nível de interferência nos direitos elementares. E a experiência que viemos fazendo nas últimas décadas mostra claramente que a insegurança acarreta perda, de fato, dos direitos elementares que compõem a agenda dos direitos humanos. Isso significa que segurança é uma condição desses direitos, não se opondo, em seus princípios, a eles. É essencial para que os vários direitos individuais e coletivos possam ser exercidos.

É uma idéia que contraria a nossa memória recente, embora esteja na origem do pensamento político democrático. O grande debate dessa área de reflexão se dá sobre quem controla as armas. Existem armas na sociedade, e alguém precisa controlá-las. Essa fiscalização é realizada pelo Estado. Mas agora a pergunta é: Quem controla o Estado, que controla as armas? Existe, portanto, todo um debate sobre as formas democráticas de participação de controle.

Por isso, o grande desafio hoje é conseguir integrar essas duas histórias, esses dois temas, e produzir uma dinâmica que é difícil, porque evidentemente o tema da segurança impõe o tema da força, o uso da força na sociedade, seus limites e seu controle. Mas há uma tensão inerente a essa relação, uma tensão constitutiva. Sem segurança, não se tem direitos humanos. Isso implica numa abordagem do tema da segurança pública inseparável do tema  dos direitos humanos.

A dificuldade central é que se tem, de um lado, o uso da força, a imposição de limites e, de outro, o comportamento das pessoas. Sabemos que a autoridade da lei implica uma combinação: o uso da força, da capacidade de impor limites, que é uma capacidade distintiva da polícia, e a legitimidade dessa lei, dessa ação. Essa relação entre legitimidade e uso da força é difícil, mas é óbvio que, quanto maior a legitimidade, menor o uso da força, e vice-versa.

O que vivemos hoje no nosso país é um uso da força que, na maioria absoluta dos casos, aparece como ilegítima. O típico trabalho policial que encontramos na sociedade é um trabalho que só aparece quando alguma tragédia já aconteceu. É por causa disso que a polícia está associada à tragédia. Ela aparece para reagir a alguma crise, algum problema, alguma desordem ou tragédia. É uma reação, na maior parte das vezes, que não resolve problema algum.

O que está em jogo é recuperar um sentido de segurança que seja reconhecido, e, portanto, legitimado, como um princípio viabilizador dos direitos e do desenvolvimento. Dos direitos num sentido bem pleno, não apenas daquele direito mínimo do exercício da liberdade individual, mas num sentido maior, de propiciador da superação de conflitos e contradições que são geradores de violência.

Se a polícia tivesse, com a comunidade, uma agenda de resolução de problemas, teríamos o que chamamos de trabalho preventivo. Não existe esse tipo de planejamento para a resolução de problemas. Para se ter um trabalho desse tipo, é preciso que os policiais sejam formados e tenham uma agenda que reconheça a sua capacidade de agir. Não só receber ordens, mas agir na situação.

Não há dúvidas de que há um trabalho a ser feito, e há muito espaço para a sociedade civil, a Universidade, as ONG‚s e a Igreja participarem dele. Talvez  uma Pastoral da Policia precise ser desenvolvida com urgência. Já existe um trabalho na polícia, mas está mais limitado aos eventos rituais.

Em todo caso, o Evangelho tem certamente muito a dizer com sua mensagem de amor e perdão até as últimas conseqüências, seguindo o exemplo do próprio Jesus Cristo.  Mas há que haver uma mobilização lúcida e esclarecida para que essa mensagem evangélica possa dar todos os frutos que é capaz de dar.

 Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de  de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), sua mais recente obra, entre outros livros.

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

VIOLÊNCIA E AGRESSÃO




Por Frei Betto

      Friedrick Hacker (1914-1989), psiquiatra usamericano, analisou com propriedade as raízes da violência nesse mundo globocolonizado que se ajoelha reverente ao deus Mercado. A agressividade é própria da natureza animal, incluída a espécie humana. Denota o espírito de sobrevivência. Frente a determinadas circunstâncias, cada um é agressivo a seu modo: ironia, humor, astúcia desprezo, presunção etc. Violência é quando se rompe a barreira da alteridade e a força física se impõe sobre o mais frágil ou indefeso.

      Quase nunca entendemos como violenta a ação que atinge o outro, exceto quando nós somos vítimas. Se na saída do cinema a polícia cerca nosso grupo de amigos, e exige que fiquemos todos de mãos na parede e pernas abertas, enquanto nos revista, consideraremos violência. Se da janela do apartamento vemos a mesma cena, com a diferença de que os detidos são jovens de periferia, admitimos que a polícia cumpre seu dever. 

      Se um dos amigos protesta pelo modo como está sendo apalpado e recebe em resposta um empurrão, fica patente a violência. Para o policial em nenhum momento houve violência. Julga apenas que impôs sua autoridade. É o caso do pai que, ao retornar do trabalho, descobre que o filho mais velho bateu no mais novo. Para dar-lhe uma lição de que nunca se deve bater em alguém mais fraco, o pai dá uma surra no mais velho. Sem consciência de que fez exatamente o que recriminou. É essa contradição entre o discurso e o método que dissemina o comportamento violento.

       A violência é sempre praticada como se fosse ato de justiça, legitimada por razão superior, seja o Deus dos cruzados ou dos fundamentalistas; a defesa da propriedade privada; a liberdade do Mercado; os deveres de uma boa educação etc.

      A violência é a mais primária forma de manifestação da agressão. Toda a estrutura da sociedade, com suas leis e instituições, contém boa dose de agressividade, assim como a disciplina que os pais impõem à boa educação dos filhos. Ela favorece a nossa convivência social e reprime nossas tendências autodestrutivas. Em princípio, o melhor exemplo de agressividade sem violência é o esporte. 

      Já a violência é cruel e repetitiva, o que permite à polícia identificar o modus operandi de criminosos, pois ela se propaga sem a menor criatividade. Para saber lidar com a agressividade é preciso de refinamento de espírito. Já a violência é burra, não exige educação, está ao alcance de qualquer um. 

      O mais grave é que nos acostumamos à violência. Covardes, não usamos as próprias mãos, mas aplaudimos quando a polícia espanca o bandido; a lei retroage a idade penal; o plebiscito libera o comércio de armas; o Estado decreta a pena de morte etc. Sem nos dar conta de que nos deixamos dominar pela parte mais primária de nosso cérebro, lá onde se aloja o réptil que nos precede na escala evolutiva e do qual somos tributários. 

      Se uma sociedade ignora a limite entre violência e agressividade, isso aquece o caldo de cultura do autoritarismo. O sentimento de humilhação que a Primeira Grande Guerra impôs ao povo alemão favoreceu a ascensão do “vingativo” Hitler. A derrota do Bush pai no Iraque, em 1991, impeliu a opinião pública dos EUA a apoiar, em 2003, o filho disposto a “lavar a honra”. 

      Ninguém é capaz de atacar seu semelhante, a menos que produza, entre si e o outro, a dessemelhança. Assim, o homem bate na mulher por considerá-la imbecil; o branco agride o negro por encará-lo como inferior; a grande nação decreta guerra à pequena que se nega a abrir mão de sua soberania; o líder popular passa a ser demonizado pela poderosa mídia, de modo a deslegitimar a causa que defende. Tal postura desculpabiliza e abre caminho à violência como legítima e até legal. 

      Não se trata de erradicar a agressividade própria do humano e que nos impele a alcançar metas e conquistas. O desafio é fazer a distinção ensinada por Hacker e criar uma cultura baseada no mais primordial paradigma da alteridade, que tem a sua origem Naquele que, radicalmente diferente de nós, nos criou à Sua imagem e semelhança. 

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Anfiteatro), entre outros livros. 

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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

COMO SEMEAR VIOLÊNCIA


                                     


Por Frei Betto
      
       Tome-se um país de 208 milhões de habitantes. Desses, 104 milhões e 200 mil se encontram em idade laboral. Mas o país não oferece trabalho para todos. Estão desempregados 12 milhões e 966 mil. E 65 milhões e 642 mil se encontram fora do mercado de trabalho. (IBGE 31.07.2018). De que vive tanta gente?

       Desses 65,6 milhões que não estão empregados nem à procura de empregos, há jovens que preferem se dedicar aos estudos, aposentados e desalentados, ou seja, os que cansaram de buscar emprego. Vivem de quê?

       Qualquer anúncio de vagas de emprego atrai milhares de pessoas. Filas quilométricas se formam. A maioria deixa o local sem contratação. São mulheres chefes de família que, ao declararem terem filhos pequenos, são preteridas; jovens sem qualificação profissional; analfabetos funcionais (eles são 15 milhões no país, pessoas com mais de 15 anos que mal sabem ler e escrever).

       Hoje, são 17,9 milhões de trabalhadores sem carteira assinada. E o número de trabalhadores com carteira assinada no Brasil é de apenas 35,9 milhões.

       O rendimento médio mensal dos trabalhadores ocupados gira em torno de R$ 2.095. Como comparação, o salário mínimo necessário, calculado pelo DIEESE, deveria ser de R$ 3.674 – quase duas vezes mais que a renda média dos ocupados, e quase quatro vezes o salário mínimo nacional, de R$ 954,00. Ou seja, somos uma nação de salários muito baixos.

       Um dos fatores que levam empregadores a diminuírem contratações com carteira assinada é a reforma trabalhista do governo Temer, que “flexibilizou” (leia-se: precarizou) as condições de trabalho e aumentou os direitos dos patrões ao reduzir os dos empregados.

       Ora, se há cerca de 105 milhões de pessoas em idade laboral no Brasil, das quais 12,9 milhões estão sem emprego e 65,6 milhões sobrevivem da economia informal; se há 15 milhões de analfabetos funcionais; se 63,6 milhões de brasileiros(as) são considerados “ficha suja” pelo mercado, enquadrados no SPC por endividamento; o que esperar do futuro desta nação? O Unicef divulgou, em 13 de agosto, que 60 milhões de crianças e jovens brasileiros vivem na pobreza.

       No Enem de 2017, a nota máxima em redação era 1.000. Foram entregues 4 milhões de redações. Apenas 53 mereceram a nota máxima. Como obter emprego qualificado e salário digno quando sequer se sabe redigir?

       Para muitos jovens semianalfabetos e excluídos do mercado de trabalho – e eles são milhões – a “saída” é ingressar na criminalidade, em especial no narcotráfico. Não adianta o governo atuar apenas nos efeitos, como aumentar o efetivo policial e multiplicar o número de cadeias. Há que enfrentar as causas. A principal delas é a desigualdade social, seguida da falta de escola pública gratuita e de qualidade.

       Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2017 ocorreram 63.880 assassinatos no Brasil. São 175 mortes por dia! Em comparação com 2016 houve aumento de 2,9%.

       Como deter essa escalada da violência? Entregando uma arma a cada cidadão, como propõe certo candidato à presidência da República? Instituindo a pena de morte? Ora, se tais medidas fossem eficazes os EUA não seriam um país violento, com a maior população carcerária do mundo: mais de 2 milhões de prisioneiros (o Brasil ocupa o terceiro lugar, logo após a China).

       Conclusão: para semear a violência bastam um governo desprovido de políticas sociais; o ensino sucateado; leis trabalhistas que protegem o capital e prejudicam o trabalhador; políticos indiferentes ao bem comum; e cidadãos incapazes de transformar sua indignação em luta por um país melhor.

Frei Betto é escritor, autor do romance “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.
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segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

A ESTERILIDADE DA VIOLÊNCIA


 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            O ano já começou com as habituais ameaças entre nações.  Por um lado, Kim Jong-um, o temível líder norte-coreano, saudou o novo ano declarando que o botão nuclear está sempre ao seu lado, em sua mesa de trabalho. A ameaça dirigia-se claramente aos Estados Unidos e a resposta do presidente Donald Trump não se fez esperar: "O líder norte-coreano Kim Jong-un disse que o botão nuclear está na mesa dele todo tempo. Alguém... pode avisá-lo que eu também tenho um botão nuclear, mas é  muito maior e mais poderoso que o dele. E o meu botão funciona!”.

                Não! Não são – como poderia parecer - dois meninos disputando vantagem em uma brincadeira de soldados e guerra.  São dois líderes mundiais que avisam à humanidade ter ao alcance de suas mãos a destruição ou a sobrevivência do planeta. Se dependêssemos apenas deles, estaríamos agora amedrontados, vivendo talvez os últimos dias de uma humanidade estéril e sem futuro. 

                Graças a Deus existem outras vozes dirigindo-se a essa humanidade amedrontada que hoje somos.  Entre elas destaca-se a do Papa Francisco.  Em sua mensagem de Ano Novo, o pontífice não quis enviar ao mundo uma saudação apenas calcada na linguagem e nos símbolos católicos.  Dirigiu-se ao mundo inteiro e para isso escolheu uma imagem impressionante: um menino de uns nove, dez anos carregando às costas o cadáver do irmão menor. A foto foi tomada pelo fotógrafo Joseph Roger O´Donnell, após o bombardeio atômico em Nagasaki. 

  O menino maior está na fila do crematório em Nagasaki esperando sua vez para entregar o pequeno corpo do irmãozinho, vítima fatal da bomba nuclear despejada sobre a cidade.  Ereto, de uma seriedade impressionante, o rostinho do menino tem uma dignidade impenetrável.  Sua dor só se deixa perceber pelos lábios fortemente apertados e os olhos secos muito abertos. 

                A legenda da imagem: Os frutos da guerra completa a mensagem. A morte das crianças, a destruição do futuro, esses são os frutos da guerra. Na imagem há duas crianças, uma viva e outra morta.  Esta teve sua vida ceifada antes mesmo de começar a desenvolver-se.  A maior continua vivendo, mas teve sua infância roubada da maneira mais dolorosa, quando a violência levou seu irmão pequeno.  E sabe-se lá que outros membros da família também teriam sido assassinados pela crueldade da bomba. 

                A imagem não registra adultos.  Por que o menino ainda tão pequeno foi encarregado da tristíssima tarefa de levar o cadáver do irmãozinho à cremação?  Isso permite suspeitar talvez que os pais não estivessem já presentes, vitimados igualmente pela força destruidora do cogumelo atômico. Parece amarga ironia que hajam sido batizadas de “meninos” (Little Boy e Fat Boy) as duas bombas atômicas que há mais de sete décadas caíram sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão, lançadas por aviões norte-americanos. No dia 6 de agosto, o avião Enola Gay deixava cair seu fardo destruidor sobre Hiroshima. Três dias depois era a vez de Fat Boy ser lançada sobre a cidade de Nagasaki. As duas bombas mataram cerca de 140 mil pessoas em Hiroshima e 74 mil em Nagasaki. Este número aumentou expressivamente nos anos seguintes devido às sequelas causadas pela radiação. 

             Vinicius de Moraes, em sua poesia musicada por Gerardo Rocha e imortalizada na interpretação de Ney Matogrosso, “Rosa de Hiroshima”, alertou a humanidade de memória curta que somos.  “Pensem nas crianças mudas, telepáticas. ...Porém não se esqueçam da rosa da rosa.... A rosa de Hiroshima, a rosa hereditária. A rosa radioativa, estúpida inválida. A rosa com cirrose, a antirrosa atômica. Sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada.”

            Isso parece querer dizer-nos o Papa.  Os frutos da guerra são... a ausência de frutos.  A guerra é estéril por natureza.  Não existe nela o mínimo de fecundidade.  Seus frutos são já natimortos e desconhecem o movimento e a beleza da vida.  As crianças mudas, telepáticas não estão vivas.  Vagam sem esperança ou alegria, carregando a morte às costas como o menino japonês em sua dolorosa dignidade e em seu silêncio mais eloquente que um milhão de palavras. Mortas antes de viver. 

            As armas – cujos fabricantes foram acusados por Francisco de não poderem ser chamados de cristãos – acabam com a fecundidade do mundo.  Só produzem rosas radioativas, estúpidas e inválidas.  Só partejam crianças natimortas, assassinadas externa e interiormente.  Os frutos da guerra são não frutos.  Só a paz é fecunda e dá frutos.  Não se preocupa em gerar mais poder, mas vida.
            Essas brincadeiras de “meninos” apostando quem tem o arsenal mais poderoso ou o botão que melhor funciona assustam.  Sobretudo depois do estrago que os dois “meninos” atômicos fizeram em 1945. Contra isso a voz de Francisco convoca a paz.  Não a dos cemitérios ou a da passividade.  Mas a paz dinâmica e geradora de vida em abundância, que faz as flores desabrocharem, os frutos serem saboreados e as crianças brincarem livres de correr, saltar, nadar, aprender, ouvir e contar historias. Um 2018 cheio de paz para todos nós. 

Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio,  teóloga, é autora de “O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora Rocco.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

VIOLÊNCIA E IMPUNIDADE NO BRASIL RURAL


Por Frei Betto



       O (des)governo Temer agravou a escalada de violência no campo. Em apenas 35 dias, ocorreram três massacres e uma tentativa, quase um por semana, com 22 trabalhadores mortos na luta pelo direito à terra, defendido pelo papa Francisco ao enfatizar que a dignidade humana depende de três T: terra, trabalho e terra.

       O primeiro, em Colniza (MT), em 20 de abril, com nove trabalhadores torturados e mortos por jagunços encapuzados. O líder dos posseiros foi degolado.

       Em Vilhena (RO), em 29 de abril, três corpos carbonizados foram encontrados dentro de um carro, na mesma fazenda em que cinco trabalhadores haviam sido assassinados em 2015, três deles queimados ainda vivos. O crime permanece impune.

       O ataque aos índios Gamela ocorreu em 30 de abril, em Viana (MA), e resultou em 22 feridos, dois com mãos decepadas por populares insuflados por ruralistas e políticos, com envolvimento da Polícia Militar, conforme registro de uma viatura da própria corporação.

       O mais recente massacre foi em Pau d’Arco, no sul do Pará, em 24 de maio: nove homens e uma mulher assassinados por policiais civis e militares. A versão oficial é a de que as mortes ocorreram em confronto armado, pois os policiais teriam sido recebidos a bala.

       Esta versão é uma afronta à inteligência da opinião pública nacional e internacional. Como em um confronto armado nenhum dos 29 policiais envolvidos sequer foi ferido? Mas não só: a cena do crime foi desmontada e os  policiais transportaram os corpos para a cidade.

       Tais circunstâncias, bem como o depoimento de alguns sobreviventes do massacre, feita a integrantes do Ministério Público e a outras entidades que investigam o caso, indicam que houve execução fria e planejada.

       A versão oficial tenta revestir a chacina de Pau d’Arco de aparência legal ao alegar “cumprimento de mandados de prisão” e de “prestação de socorro” à retirada dos corpos das vítimas. Na verdade, o que se fez foi apagar vestígios e encobrir um massacre premeditado e cruelmente realizado, às gargalhadas, conforme testemunhas. A barbárie se consumou com o tratamento dispensado aos corpos das vítimas, jogados como animais em carrocerias de camionetes, levados a distâncias de até 350 km para perícias, e devolvidos, do mesmo modo, aos familiares, largados ao chão de uma funerária, já putrefatos, para serem enterrados às pressas e à custa deles, sem chance nem de um breve velório.

       A diversidade dos autores revela a barbárie generalizada provocada pelo descaso do governo na solução dos problemas de terra no Brasil, com agravamento de suas consequências, sobretudo nos últimos três anos. Tudo indica que este ano de 2017 vai superar 2016, recordista em ocorrências de conflitos por terra no Brasil nos últimos 32 anos. Foram 1.079 ocorrências, quase três por dia, o maior número desde 1985, quando a Comissão Pastoral da Terra (CPT) começou a publicar sistematicamente seus registros. Já são 37 os trabalhadores rurais assassinados nos últimos cinco meses de 2017, oito a mais que em igual período no ano passado, quando houve o registro de 29 assassinatos.

       Essa exacerbação dos conflitos agrários está ligada à crise política que o país atravessa  e ao avanço criminoso do agronegócio sobre o Estado brasileiro. Os desmandos autoritários da cúpula da República, com seu jogo de poder servil aos interesses da minoria do capital, vilipendiam os direitos sociais e relativizam os direitos humanos.
       O Estado brasileiro tem ultrapassado os limites do desrespeito à cidadania e aos interesses do povo, numa democracia de fachada, cinismo e desfaçatez, que se alimenta de desmandos criminosos impunes, conforme o comprova a Lava Jato. A desobediência ou manipulação da legalidade é senha para os excessos na repressão aos pobres. É licença para matar e tripudiar sobre eles. Nega-se um mínimo de dignidade a camponesestrabalhadores sem terra,  pescadoresquilombolas e indígenas.

       É inaceitável que o poder público se faça de cego frente à manifestação de ruralistas e parlamentares, em 29 de maio, em Redenção, no sul do Pará, em solidariedade aos policiais que praticaram o massacre em Pau d’Arco, e ali proclamados heróis da causa ruralista.

Frei Betto é escritor, autor do romance “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.
  
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