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sexta-feira, 10 de julho de 2020

EM HOMENAGEM AOS INDÍGENAS MORTOS PELO COVID-19


Por Leonardo Boff


São muitos irmãos e irmãs nossos indígenas que estão morrendo por causa do Covid-19 e o descaso das políticas genocidas e etnocida do atual Governo.

Dedico-lhes este belo mito-estória dos povos amazônicos sobre o sentido da morte e da entrada na suprema Felicidade. Ela vale também para os familiares dos milhares de falecidos por causa do Coronavírus. Eles merecem a nossa solidariedade e também nossas palavras de consolo.

Sempre nos perguntamos: como as pessoas falecidas chegam ao céu? Há uma convicção entre os povos de que todos devem fazer uma viagem. Nessa viagem há provas a passar. Segundo este relato dos povos amazônicos, cada um deve se purificar, tornar-se leve para poder mergulhar para dentro daquele mundo de alegria e de festa onde estão tdos os antepassados e os parentes falecidos.

A nossa tristeza é que, por causa do descaso das atuais autoridades que desprezam e até odeiam os povos originários, muitos pajés estão morrendo, vítimas do Covid-19. Com eles desaparece uma inteira biblioteca de conhecimentos que eles herdaram, enriqueceram e sempre passam às novas gerações. Com sua morte há uma ruptura dolorosa dessa tradição. Eles e nós sofremos e ficamos mais pobres. A todos eles nossa profunda solidariedade e com-paixão, sofrendo também a dor que eles sofrem: LBoff

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Em muitas tribos da Amazônia acredita-se que os mortos se transformam em borboletas. Durante o tempo necessário para a purificação, cada qual ganha uma forma adequada. As que se purificam logo, são alvíssimas, com poucas horas de vida e com cores brancas. Penetram diretamente no mundo da felicidade.

As que precisam de mais tempo, são menores, leves e multicores. E as que precisam de muito tempo são maiores, pesadas e com cores escuras.

Todas elas voam de flor em flor, sugando nectar e fortalecendo-se para carregar o próprio peso ao se alçarem ao céu, onde viverão felizes com todos os antepassados e parentes que estão apenas no outro lado da vida. Conta-se naquela floresta a seguinte estória:

Coaciaba, era uma jovem índia, esbelta e de rara beleza. Ficara viúva muito cedo, pois seu marido, valente guerreiro, tombara sob uma flecha inimiga. Cuidava com extremo carinho da única filhinha, Guanambi.

Para aliviar a saudade interminável do marido, passeava, quando podia, pelas margens do rio, vendo as borboletas ou na campina, perto do roçado, onde também esvoaçavam os colibris e outros insetos.

De tanta tristeza, Coaciaba acabou morrendo. Não se morre só de doença, por velhice ou por causa de um vírus maligno da natureza. Morre-se também por saudade da pessoa amada.

Guanambi, a filha, ficou totalmente sozinha. Inconsolável, chorava muito, especialmente, nas horas em que sua mãe costumava levá-la a passear. Mesmo pequena, só queria visitar o túmulo da mãe. Não queria mais viver. Pedia a ela e aos espíritos que viessem buscá-la e a levassem lá onde estivesse a sua mãe.

De tanta tristeza, Guanambi foi definhando dia após dia até que também ela morreu. Os parentes ficaram muito penalizados, com tanta desgraça sobrevindo sobre a mesma família.

Mas, curiosamente, seu espírito não virou borboleta como a dos demais índios da tribo. Ficou aprisionado dentro de uma linda flor lilás, pertinho da sepultura da mãe. Assim podia ficar junto da mãe, como havia pedido aos espíritos.

A mãe Coaciaba, cujo espírito fora, sim, transformado em borboleta, esvoaçava de flor em flor sugando néctar para se fortalecer e encetar sua viagem ao céu.

Certo dia, ao entardecer, ziguezagueando de flor em flor, pousou sobre uma linda flor lilás. Ao sugar o néctar, ouviu um chorinho triste e doce. Seu coração estremeceu e quase desfaleceu de emoção. Reconheceu dentro dela   a vozinha da filha querida Guanambi. Como poderia estar aprisionada ai? Refez-se da emoção e disse:

-Filha querida, mamãe está aqui com você. Fique tranquila que vou libertá-la para juntos voarmos para o céu.

Mas deu-se logo conta de que ela era uma levíssima borboleta e que não teria forças para abrir as pétalas, romper a flor e libertar a filhinha querida. Recolheu-se, então, a um canto e, em lágrimas, suplicou ao Espírito criador e a todos os ancestrais da tribo:

-Por amor ao meu marido, valente guerreiro, morto em defesa de todos os parentes, por compaixão de minha filha órfã, Guanambi, presa no coração da flor lilás, eu vos imploro, Espírito benfazejo e a vós todos, anciãos de nossa tribo: transformem-me num passarinho veloz e ágil, dotado de um bico pontiagudo para romper a flor lilás e libertar a minha querida filhinha.

Tanta foi a compaixão despertada por Coaciaba que o Espírito criador e os anciãos da tribo atenderam, sem delongas, a sua súplica. Transformaram-na num belíssimo beija-flor, leve, ágil, que pousou imediatamente sobre a flor lilás. Sussurrou com voz carregada de enternecimento:

-Filhinha, sou eu, sua mãe. Não se assuste. Fui transformada num beija-flor para vir libertá-la.

Com o bico pontiagudo, foi tirando com cuidado pétala por pétala até abrir o coração da flor. Lá estava Guanambi sorridente, estendendo os bracinhos em direção da mãe.

Purificadas e abraçadas voaram alto, cada vez mais alto até chegarem juntas ao céu.

Desde então se introduziu entre indígenas amazônicos, o seguinte costume: sempre que morre uma criança órfã, seu corpinho é coberto de flores lilás, como se estivesse dentro de uma grande flor, na certeza de que a mãe, na forma de um beija-flor, venha buscá-la para, abraçadas, voarem para o céu, onde estarão eternamente juntas e felizes com todos os antepassados e com todos os demais parentes.

Leonardo Boff reescreveu mitos-estórias de nossos povos indígenas: ”O casamento entre o céu e a Terra”, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2014.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

CINZAS DOS MORTOS

Por Frei Betto



       Há quem, ao chegar à cúpula do poder, se deixa embriagar pelas alturas. O Vaticano acaba de proibir que as cinzas de defuntos cremados sejam jogadas na natureza por seus parentes católicos. Só faltava esta: doutos cardeais do Vaticano preocupados com o destino que damos às cinzas de nossos mortos! Até parece que andam de conchavos com a máfia das funerárias.

       Bem fez a Luiza Erundina, quando prefeita de São Paulo, que estatizou o serviço funerário. Nunca soube de um vivo, na capital paulista, reclamar do tratamento dado a seu morto. Tudo funciona bem, exceto a ameaça do prefeito eleito, movido a apetite privatizador, de acabar com o monopólio municipal dos funerais.

       Minha mãe, falecida em 2011, deixou explícito que desejava ser cremada, pois o túmulo da família se encontra em um cemitério infestado de baratas, das quais ela tinha horror. “Nem morta!”, exclamava. Orientou os filhos a espargir suas cinzas no mar de Copacabana, bem defronte ao mais famoso hotel da orla. Não por requinte post-mortem, e sim porque ali ela viveu momentos felizes. Com o privilégio de poder vestir o maiô e tomar banho no Copacabana Palace, já que a filha do dono era casada com o primo dela.

       Agora, os senhores cardeais da Cúria Romana proíbem espalhar cinzas dos mortos na natureza. "Para evitar qualquer tipo de equívoco panteísta, naturalista ou niilista, não é permitida a dispersão das cinzas no ar, na terra, na água ou de outro modo", afirma o documento.Deveriam, sim, é estar ocupados com a excomunhão post-mortem do legendário mexicano Marcial Maciel, ultramontano pedófilo e corrupto, e não em prescrever, urbi et orbi, que as cinzas de mortos católicos devem ser depositadas em cemitérios.

       A cremação é permitida pela Santa Sé desde 1963. E o documento agora divulgado frisa que "a Igreja não tem razões doutrinárias para impedir tal praxe, já que a cremação do cadáver não atinge a alma e não impede a onipotência divina de ressuscitar o corpo.” Ora, será que ainda o dualismo platônico não foi incinerado pelo Vaticano? Afinal, a alma não é uma joia virtual guardada no receptáculo chamado corpo. Segundo a ciência, toda matéria, incluído o nosso corpo, é energia condensada. E de acordo com a teologia, a alma é a nossa semelhança com o divino, do qual somos morada, na expressão de Jesus.

       Quem paga a conta para armazenar cinzas em cemitérios? Jogá-las junto à muda de uma árvore frondosa, como fizemos com as do jornalista Sérgio de Souza, na fazenda de Raduan Nassar, foi bem mais litúrgico do que enfiá-las numa caixa e desembolsar o custo funerário.

       Aliás, será que aquelas cinzas eram mesmo de minha mãe e do Serjão? Ouvi dizer que é muito caro elevar a temperatura a 1,2 mil graus centígrados para cremar um defunto. Para economizar dinheiro e energia, há crematórios que esperam juntar uns tantos falecidos para, então, transformá-los em cinzas. Por isso nunca elas são entregues no mesmo dia à família. O caixão desce ao som de uma trilha musical e fica ali nos porões à espera de seus companheiros de fornalha.

       Parece que a preocupação dos doutos cardeais é com certos ritos fúnebres, eivados de sincretismo, celebrados na África. Ora, já que a questão é limpar o terreno católico de eventuais impurezas, a faxina deveria começar pelo próprio Vaticano: rebatizá-lo com um nome menos pagão, pois Vaticano deriva do deus etrusco Vagitanus, que abria a boca do bebê para ele dar o primeiro grito; livrar a guarda suíça daquela roupa de pajem medieval; proibir o uso anacrônico de batinas; e obrigar os cardeais romanos a seguirem o exemplo do papa Francisco e, em suas espaçosas residências, abrigarem ao menos uma família de refugiados.

Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus” (Fontanar), entre outros livros.
           
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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

DIA DOS MORTOS



Por Frei Betto
    
      Hoje é dia dos mortos ou finados, daqueles que findaram sua trajetória entre nós. Será, no futuro, o dia de cada um de nós. Quem ousa encarar este destino inelutável?

      O ideal de infinitude fomenta a cultura da imortalidade disseminada pela lucrativa indústria do elixir da eterna juventude: cosméticos, academias de ginástica, livros de autoajuda, cuidados nutricionais, drágeas e produtos naturais que prometem saúde e longevidade. Nada disso é contraindicado, exceto quando levado à obsessão.

      Conto sete amigos com câncer nos últimos anos. Um deles observou: “Outrora, era tabu falar de sexo. Hoje, é falar de morte.” Concordei. Antes, a morte era vista como um fenômeno natural, coroamento inevitável da existência. Hoje, é sinônimo de fracasso, quase vergonha social.

      A morte clandestinizou-se nessa sociedade que incensa a cultura da juventude perene. Sequer se tem o direito de ficar velho. Nós, que já temos acesso ao Estatuto do Idoso, somos tratados por eufemismos que visam a aplacar a “vergonha” da velhice: terceira idade, melhor idade etc. A usar eufemismos, sugiro o mais realista: turma da eterna idade, já que estamos próximos a ela...

      No tempo de meus avós, morria-se em casa, cercado de parentes e amigos. Hoje, morre-se no hospital, um lugar estranho, rodeado de profissionais cujos nomes ignoramos. A agonia é suprimida pelos avanços da ciência - o coma induzido, a medicação contra a dor. Não há choro nem vela nem fita amarela. O rito de passagem – unção dos enfermos, luto, missa de 7º dia, proclamas – está em extinção.

      “Morrer é fechar os olhos para enxergar melhor”, disse José Martí. As religiões têm respostas às situações limites da condição humana, em especial a morte. É um consolo e uma esperança para quem tem fé. Fora do âmbito religioso, entretanto, a morte é um acidente, não uma decorrência normal da condição humana.

      Morre-se abundantemente em filmes e telenovelas, mas não há velório nem enterro. Os personagens são seres descartáveis como as vítimas inclementes do narcotráfico. Ou as figuras virtuais dos jogos eletrônicos que ensinam crianças a matar sem culpa.

      A morte, frisou Sartre, é a mais solitária experiência humana, quebra definitiva do ego. Na ótica da fé, o desdobramento do ego no seu contrário: o amor, a comunhão com Deus.

      A morte nos reduz ao verdadeiro eu, sem adornos de condição social, sobrenomecracia, títulos, propriedades, importância ou conta bancária. É a ruptura de todos os vínculos que nos prendem ao acidental.

      Os místicos a encaram com tranquilidade por exercitarem o desapego frente aos os valores finitos. Cultivam valores infinitos. Fazem da vida dom de si – amor. Por isso, Teresa de Ávila suspirava: “Morro por não morrer.”

      Padre Vieira advertia no Sermão do 1º domingo do Advento, em 1650: “No nascimento, somos filhos de nossos pais; na ressurreição, seremos filhos de nossas obras.” 

Frei Betto é escritor, autor de “A obra do Artista – uma visão holística do Universo” (Ática), entre outros livros.