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segunda-feira, 17 de agosto de 2020

PEDRO CASALDÁLIGA: DEUS PASSOU PELO BRASIL

                                               

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

 

Estive com Pedro Casaldáliga pessoalmente em duas ocasiões.  Na primeira, eu era estudante de graduação em teologia na PUC-Rio e um colega, estudante jesuíta, me disse:  Dom Pedro Casaldáliga está na PUC.  Corremos para vê-lo no auditório do RDC.  A impressão foi marca indelével que até hoje me acompanha.  A pequena estatura e o corpo magro ocupavam espaço estreito no grande auditório. Quando abriu a boca, aquele homem de compleição frágil agigantou-se e incendiou a sala inteira com sua voz de trovão e sua língua de profeta.  Saí ungida e comecei a buscar avidamente seus escritos e poesias para conhecê-lo melhor. 

Uma segunda vez encontrei-o em Itaici, em congresso de teologia promovido pelos Passionistas sobre a Cruz no mundo de hoje.  Pedro viera de ônibus, recusando a passagem de avião oferecida pelos organizadores. O moderador da mesa o apresentou relatando esse fato. Diante dos aplausos que se seguiram, o bispo fez um gesto para que aquilo cessasse. E disse: “Isso não tem nada de extraordinário. Deveria ser normal”.  Sua oratória de profeta calou fundo em um auditório sedento de verdade e de pathos teológico. 

Depois disso não mais o vi em pessoa, mas seguia-o sempre: quando foi a Roma para audiência com o então cardeal Ratzinger; quando a mídia filmava seus depoimentos, declarações e testemunhos; quando foi à Nicarágua acompanhar Miguel d´Escoto em sua greve de fome. Impressionava-me a radicalidade de sua vida impregnada de evangelho, seu amor profundo pelo Deus de Jesus, sua lucidez diante de uma realidade injusta e oprimida que ele tentava denunciar e transformar. 

Sua poesia sempre foi para mim profundamente inspiradora.  Em sua pessoa era visível  a síntese feliz e indissolúvel entre mística e política que sempre busquei em meu itinerário teológico e hoje ainda me alimenta em meu trabalho. Porém, um de seus poemas me acompanhou especialmente.  Trata-se de “Deus é Deus”, que uso frequentemente no início de cada curso sobre o Deus da Revelação que venho ensinando há quase quarenta anos. 

Ali o poeta e profeta busca dizer em versos quem é o  Deus que inspira e move sua vida.  E começa por seu próprio ofício de poeta: “Eu faço versos e creio em Deus; meus versos andam cheios de Deus como pulmões estão cheios de ar vivo”. Mas outros poetas, que Pedro humildemente reconhece fazerem versos melhores que os seus, como Drummond, não creem em Deus.  Deus não é somente a beleza.  Assim também o Che (Ernesto Che Guevara), figura muito admirada pelo bispo, deu a vida pelo povo, mas não via a Deus na montanha.  Deus não é apenas a Justiça. E Pedro afirma: “Não poderia conviver com os pobres se não topasse com Deus em seus farrapos, se não estivesse Deus como uma brasa queimando meu egoísmo lentamente”. 

O poeta se refere, em seguida, aos cantores que içam suas bandeiras e soltam a voz mas não referem seu canto a Deus. “Eu só sei cantar dando seu nome.  Deus não é somente a alegria”. Os sábios pesquisam e “caminham imperturbavelmente contra o rosto de Deus fazendo história, desvelando mistérios e perguntas”. Pedro reconhece humildemente: “Eu não seria capaz desses caminhos se não estivesse Deus como uma aurora rompendo minha  névoa e meu cansaço. Deus não é somente a verdade”.

Nesse poema, o bispo que durante sua vida teve um chapéu de vaqueiro como mitra, o anel de tucum e um calo nas mãos como anel episcopal e um bastão tosco como báculo, exprime quem não é seu Deus.  Não é nenhuma das mediações que lhe permitem experimentá-lo: a beleza, a justiça, a verdade, a alegria. O Deus que anima e move o bispo catalão, que dedicou boa parte de sua vida ao Brasil,  se revela como Mistério Santo que a tudo dá sentido. E Pedro termina o poema proclamando quem é seu Deus:  “Beleza sem ocaso, Verdade sem argumentos, Justiça sem retornos, Amor inesperado, Deus é Deus simplesmente!”

Neste momento, a Igreja do Brasil chora a partida de seu profeta e poeta, do pastor que confirmava esperanças e acendia vocações com o fogo de suas palavras e de sua vida. Enterrado ao lado dos pobres, em um obscuro cemitério da sua querida diocese São Félix do Araguaia, Pedro não será mais visto, ouvido, tocado por nós.  Mas suas palavras e sobretudo seu testemunho permanecem conosco para sempre. 

Em 1980, quando assassinaram Monsenhor Romero em El Salvador, Ignacio Ellacuria dele dizia: “Com Monsenhor Romero, Deus passou por El Salvador”.  Agora, nós, em lágrimas mas cheios de gratidão a Pedro e Àquele que o criou, o chamou e o enviou, dizemos: “Com Pedro Casaldáliga, Deus passou pelo Brasil”. Que essa certeza nos anime durante os tenebrosos momentos que o país vive agora.  Amém e obrigada por tudo Pedro. 

 --  Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros

 Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

 

terça-feira, 21 de março de 2017

"UM RIO QUE PASSOU EM MINHA VIDA"



Por Marcelo Barros

No Rio de Janeiro, a Portela, escola de samba, campeã do Carnaval de 2017, ganhou o troféu de vencedora com o samba-enredo "Foi um rio que passou em minha vida. O meu coração se deixou levar". A partir dessa homenagem a Paulinho da Viola, autor do samba clássico que tem esse título, a escola falou dos rios do Brasil e do encanto de suas águas e da necessidade de defendermos as bacias hídricas, hoje ameaçadas. De fato, a imagem usada pelo clássico samba-canção pode se tornar uma verdade literal a ser dita por brasileiros de norte a sul do país: Se não fizermos algo para mudar a realidade, os rios brasileiros passarão. Deixarão de ser reais. Segundo se conta, há 300 anos, pescadores encontraram uma imagem de Nossa Senhora Aparecida no fundo do rio Pa raíba do Sul. Hoje esse rio está tão seco e esquecido que não tem pescadores e nem fundo para esconder nenhuma imagem sagrada. O Rio São Francisco, antigamente rio da integração nacional, hoje está moribundo e resistindo com dificuldade a mais de cinco anos de seca. Desse modo, estão praticamente todos os rios brasileiros.
Nessa quarta-feira, 22, a ONU celebra mais um dia internacional da água. Em vários países, devido à urgência do problema, as reflexões e eventos sobre esse dia ocupam toda essa semana. De fato, estamos em situação de risco. O sistema de vida no planeta Terra está ameaçado e a água se torna o bem mais precioso. Hoje, 1,1 bilhão de pessoas não têm acesso à água potável, e 2,4 bilhão de pessoas não contam com saneamento básico. Cada ano, seis milhões de pobres, dos quais quatro milhões de crianças, morrem de enfermidades ligadas a águas contaminadas. Até o ano 2025, conforme um estudo da ONU, esse problema afetará metade da humanidade.
Há diversos motivos para esta crise. O planeta Terra tem 75% de sua superfície ocupada por oceanos, mas a água doce representa apenas 2,5% deste total. No último século, a população mundial aumentou muito e na maioria dos países, a urbanização se fez de modo descontrolado. Toda a população da humanidade se concentra ao redor das 217 bacias fluviais internacionais que irrigam o planeta. Por causa do crescimento demográfico e da poluição, nos últimos 30 anos, os recursos hídricos foram reduzidos em 40%. Da água disponível que tínhamos, a humanidade acabou com 5000 Km2. E muitos, ainda se comportam como se a água fosse um bem inesgotável. Usam os recursos hídricos de modo irresponsável e injusto.
A água é um recurso natural limitado e pode acabar. Tem valor econômico e competitivo no mercado. Não pode ser desperdiçada (cada vez que se toma um banho com chuveiro aberto durante todo o tempo desperdiça-se mais água do que se usa). Quase todos os países atualizam legislações sobre a água. Em vários lugares, por causa da água, há conflitos entre povos. Há quem diga que as guerras do futuro serão provocadas pela carência ou pelo domínio da água. Organizações não Governamentais e movimentos populares defendem que a água não deve ser mercantilizada – ela é mais do que uma mercadoria. Mais grave ainda seria privatizá-la, o que está ocorrendo em vários países, inclusive em várias regiões do Brasil.
A Pastoral da Terra declara: “A água é constitutiva do ser humano. É necessária à vida como um todo e ao meio ambiente. Por isso, ela é um direito natural, patrimônio da humanidade, dádiva divina e não obra humana. Por isso, ela não pode ser reduzida a uma mercadoria e a um bem particular. Nenhum ser humano pode arrogar a si o poder de negar a qualquer semelhante ou ser vivo este bem essencial à vida”.
O cuidado com a água tem, então, motivos sociais e econômicos. Mas, a nossa relação com a água só mudará se aprendermos com as culturas religiosas antigas a nos relacionarmos com a terra e com a água de forma amorosa e espiritual. A Bíblia fala da água como símbolo do Espírito de Deus que derrama sobre o universo uma vida nova. Cuidar bem da água e defender os rios e fontes é uma forma de reconhecer a presença divina no universo, defender a vida e participar da Páscoa pela qual Deus “renova todas as coisas” (Ap 21, 5)[1]. No sul do Chile, Dom Luiz Infanti, bispo de Iassen, escreveu uma carta cujo título, nós todos podemos orar parafraseando o Pai Nosso: "A água nossa de cada dia, nos dai hoje".

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.    








[1] - Quem quiser aprofundar mais este assunto, leia o livro: MARCELO BARROS, O Espírito vem pelas Águas, Ed. Loyola, Rede, 2003.