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sexta-feira, 20 de maio de 2022

A sombra tenebrosa do bolsonarismo


 Leonardo Boff


 

Tempos atrás publiquei no meu blog (facebook e twitter) um artigo com o título “O peso kármico da história do Brasil”. Hoje vejo a necessidade de retomar o tema pois a situação nacional, num cenário eleitoral, se obscureceu e ganhou contornos perturbadores, seja de ruptura constitucional, seja de grave e violenta convulsão social.Quando o atual e sinistro presidente afirma, publicamente, que só reconhecerá um resultado eleitoral, vale dizer, a sua reeleição, caso contrário, questionaria as urnas eletrônicas ou convocaria seus seguidores armados, provavelmente, os milicianos e então ocorreria grave perturbação.

Ele é tão pouco político e desvairado que nem esconde o jogo. Revela-o às claras.Tal comportamento de um chefe de estado que se caracteriza por constantes ameaças às instituições e pelo permanente descaso da situação dramática do país, em especial, dos mais de 660 mil vítimas do Covid-19, dos milhões de famintos, dos de insuficiência alimentar, dos desempregados nos provoca graves preocupações e sérias apreensões.

         As razões da irrupção da sombra bolosonarista

 

Precisamos tentar entender o porquê irrompeu esta onda de ódio,de mentiras como método de governo, de fake news, de calúnias e de corrupção governamental, impedida de ser investigada. Vieram-me à mente duas categorias: uma da psicanálise junguiana, a da sombra e outra da grande tradição oriental do budismo e afins e entre nós, do espiritismo, o karma.

A categoria de sombra, presente em cada pessoa ou coletividade, é constituída por aqueles elementos negativos que nos custa aceitar, que procuramos esquecer ou mesmo recalcar, enviando-os ao inconsciente  seja pessoal seja coletivo.

 

             Cinco sombras na história do Brasil

 

Efetivamente, cinco grandes sombras marcam a história político-social de nosso país: o genocídio indígena, persistente até hoje; o colonização que nos impediu que ter um projeto próprio, de um povo livre; o escravagismo, uma de nossas vergonhas nacionais, pois, implicava tratar o escravo como coisa, ”peça”, posta no mercado para ser comprada e vendida e submetida constantemente à chibata e ao desprezo; a permanência da conciliação entre si, dos representantes das classes dominantes, seja herdeiras da Casa Grande ou do industrialismo especialmente a partir de São Paulo. Estes nunca pensaram num projeto nacional que incluísse o povo, projeto somente deles para eles, capazes de controlar o estado, ocupar seus aparelhos e ganhar fortunas nos projetos estatais. Por esta razão emerge uma quinta sombra a democracia  de baixa intensidade que perdura até hoje e atualmente mostra grande debilidade. Medida pelo respeito à constituição, aos direitos humanos pessoais e sociais e pelo nível de participação popular comparece antes como uma farsa do que, realmente, uma democracia consolidada.

 

Sempre que algum líder político com ideias reformistas, vindo do andar de baixo, da senzala social, apresenta um projeto mais amplo que abrange o povo com políticas sociais inclusivas, estas forças de conciliação, com seu braço ideológico, os grandes meios de comunicação, como jornais, rádios e canais de televisão, associados a parlamentares e a setores importantes do judiciário, usaram o recurso do golpe seja militar (1964), seja jurídico-político-mediático (1968) para garantir seus privilégios. Difamam, perseguem e até, sem base jurídica, colocam na prisão as lideranças populares. O desprezo e o ódio, outrora dirigidos aos escravos, foi transferido covardemente aos pobres e miseráveis, condenados a viver sempre na exclusão. É o método denunciado pelo eminente  sociólogo Jessé Souza em seu clássico A elite do atraso (2017).Esta sombra paira sobre a atmosfera social de nosso país. É sempre ideologicamente escondida, negada e recalcada.

 

                  A visibilidade da sombra bolsonarista

 

Com o atual inominável como presidente e com o séquito de seus seguidores, o que era oculto e recalcado saiu do armário. Sempre estava lá, recolhido mas atuante, impedindo que nossa sociedade, dominada pela elite do atraso, fizesse as transformações necessárias e continuasse com uma característica conservadora e, em alguns campos,  como nos costumes, até reacionária.

As cinco sombras referidas acima se tornaram visíveis no bolsonarismo e em seu “cappo”: a magnificação da violência até da tortura, o racismo cultural, a homofobia, os de outra opção sexual,  o desprezo ao afrodescendente, ao indígena, à mulher e ao pobre. É de estranhar que muitos, até pessoas sensatas, possam seguir uma figura tão boçal, deseducada e sem qualquer empatia pelos sofredores deste nosso país e do mundo.

Essa é uma explicação, certamente, não exaustiva, através da sombra que sub-jaz às várias crises que atravessam toda a sociedade.

A outra categoria é a do karma.Para conferir-lhe algum grau analítico e não apenas metafísico (o destino humano) valho-me de um longo diálogo entre o grande historiador inglês Arnold Toynbee e Daisaku Ikeda, eminente filósofo japonês, recolhido no livro. Elige la vida ( Emecé. Buenos Aires 2005).

karma é um termo sânscrito originalmente significando força e movimento, concentrado na palavra “ação” que provocava sua correspondente “re-ação”. Aplica-se aos indivíduos e também às coletividades.

 

Cada pessoa é marcada pelas ações que praticou em vida. Essa ação não se restringe à pessoa mas conota todo o ambiente. Trata-se de uma espécie de conta-corrente ética cujo saldo está em constante mutação consoante as ações boas ou más que são feitas, vale dizer, os “débitos e os créditos”. Mesmo depois da morte, a pessoa, na crença budista, carrega esta conta; por isso se reencarna para que, por vários  renascimentos,  possa zerar a conta negativa.

Para Toynbee não se precisa recorrer à hipótese dos muitos renascimentos porque a rede de vínculos garante a continuidade do destino de um povo (p.384). As realidades kármicas impregnam as instituições, as paisagens, configuram as pessoas e marcam o estilo singular de um povo. Esta força kármica atua na história, marcando os fatos benéficos ou maléficos, coisa já vista por C.G.Jung em suas análises psico-sócio-históricas.

Toynbee em sua grande obra em dez volumes “Um Estudo da História”(A Study of History) trabalha a chave Desafio-Resposta (Challange – Response) e vê sentido na categoria do karma. Mas dá-lhe outra versão que me parece esclarecedora e nos ajuda entender um pouco as sombras nacionais e a sombra bolsonarista.

A história é feita de redes relacionais dentro das quais está inserida cada pessoa, ligada com as que a precederam e com as presentes. Há um funcionamento kármico na história de um povo e de suas instituições consoante os níveis de bondade e justiça ou de maldade e injustiça que produziram ao largo do tempo. Este seria uma espécie de campo mórfico que permaneceria impregnando tudo.

                  A arrogância europeia e a bolsonarista

 

Vejamos o exemplo da cultura europeia ocidental. Ele criou a modernidade e projetou o ideal do ser humano como dominus, senhor de tudo, dos povos, dos continentes, da Terra, da vida e até os últimos elementos da matéria. Impôs-se globalmente a ferro e fogo e gerou as principais guerras, especialmente, as duas mundiais e atualmente, através da NATO, apoiando a guerra na Ucrânia.

No dizer do grande e discutido analista Samuel P.Huntington em seu conhecido livro Choque de civilizações (1997):”A intervenção ocidental nos assuntos de outras civilizações provavelmente constitui a mais perigosa fonte de instabilidade e de um possível conflito global num mundo multi-civilizacional”(p.397). É a famosa arrogância ocidental de possuir a melhor religião (cristianismo), a melhor ciência e tecnologia, a melhor sociedade, a melhor democracia, a melhor cultura, tudo melhor etc. Respeitadas  as diferenças semelhante juízo se aplica também à arrogância bolsonarista,do presidente e de muitos de seus ministros.

 

 

Tanto Toynbee quanto Ikeda concordam nisso:”a sociedade moderna (nós incluídos) só pode ser curada de sua carga kármica, acrescentaríamos, de sua sombra, através de uma revolução espiritual no coração e na mente (p.159), na linha da justiça compensatória e de políticas sanadoras com instituições justas.

         Como desfazer as sombras e o karma negativo

 

Entretanto, elas sozinhas não são suficientes e não  desfarão as sombras e o  kama negativo. Faz-se mister  o amor, a solidariedade, a compaixão e uma profunda humanidade para com as vítimas. O amor será o motor mais eficaz porque ele, no fundo, afirmam Toynbee e Ikeda “é a Última Realidade”(p.387).

Uma sociedade, perpassada pelo ódio e pela mentira como no bolsonarismo e incapaz de efetivamente amar e de ser menos malvada, jamais desconstruirá uma história tão marcada pelas sombras e pelo karma negativo como a nossa. Isso vale especificamente pelos modos rudes, ofensivos e mentirosos do atual presidente do Brasil.

Não apregoam outra coisa os mestres da humanidade, como Jesus, São Francisco de Assis, Dalai Lama, Gandhi, Luther King Jr e o Papa Francisco? Só a dimensão de luz e o karma do bem livram e redimem  a sociedade da força das sombras tenebrosas e das  kármicas do mal. 

Se não derrotarmos eleitoralmente o inominável atual presidente, o país se moverá de crise em crise, criando uma corrente de sombras e karmas destrutivos, comprometendo seu próprio futuro. Mas a luz e a energia do positivo sempre se mostraram historicamente mais poderosas que as sombras e o karma negativo.Estamos seguros de que serão elas que escreverão  a página definitiva da história de um povo.

Leonardo Boff é teólogo e filósofo e escreveu Brasil:concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018.

 

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

“AINDA QUE DEVESSE PASSAR PELO VALE DA SOMBRA DE MORTE”

 


Leonardo Boff


Nestes tempos sombrios sob a ação perigosa do Covid-19 um manto de temor e de angústia se estende sobre nossas vidas. Vivemos cansados existencialmente, pelas pessoas queridas que perdemos,  pelas ameaças de sermos contaminados e ainda mais por não entrevermos quando tudo isso vai acabar. O que virá depois?

taUm israelita piedoso passou pela mesa angústia e nos deixou retrada a sua situação no famoso salmo 23:”O Senhor é meu pastor e nada me falta”. Nele há um verso que vem a calhar exatamente para a nossa  situação:”Ainda que devesse passar pelo vale da morte, nada temerei porque tu vais comigo”.

Morte biblicamente, deve ser entendida não apenas como o fim da vida, mas existencialmente como a experiência de crises profundas como grave risco de vida, perseguição feroz de inimigos, humilhação, exclusão e  solidão devastadora. Fala-se então, de descer aos infernos da condição humana.

Quando se reza no credo cristão que Jesus desceu aos infernos se quer expressar que ele conheceu a solidão extrema e o absoluto abandono, até por parte de seu Pai (cf. Mc 15,34). Ele passou, efetivamente, pelo vale da sombra de morte, pelo inferno da condição humana. É consolador, então, ouvir a palavra do Bom Pastor:”não temas eu estou contigo”.

Nosso grande romancista João Guimarães Rosa em Grande Sertão:Veredas bem observou: “viver é perigoso”. Sentimo-nos expulsos do jardim do Eden. Estamos sempre buscando construir um paraíso possível. Vivemos fazendo travessias arriscadas. Ameaças nos espreitam por todos os lados. E nesse momento com o vírus, como nunca antes.

Por mais que nos esforcemos e as sociedades para isso se organizem, nunca podemos controlar todos os fatores de risco. O Covid-19 nos mostrou a imprevisibilidade e a nossa vulnerabilidade Por isso, é dramática e, por vezes trágica, a travessia humana. No termo, quando se trata de assegurar nossa vida, somos forçados a  nos confiar, além da medicina e da técnica, a um Maior que pode levar-nos”a pastagens verdejantes e à fontes tranqulas”, ao Deus-Bom-Pastor. Essa entrega  supera a desesperança.

Alarguemos um pouco o horiconte: grande dramaticidade pesa sobre o futuro da vida e da biosfera. Milhares de espécies estão desparecendo por causa da  cobiça e da incúria humana. O aquecimento crescente do Planeta unido à escassez de água potável pode nos confrontar com uma crise dramática de alimentação. Milhões poderão  se deslocar em busca da sobrevivência ameaçando o já frágil equilíbrio político e social das nações.

Aqui cabe invocar de novo o Pastor do universo, Aquele que tem poder sobre o curso dos tempos e dos climas para que crie situações oportunas e suscite o sentido da solidariedade e da responsabilidade nos povos e nos chefes de Estado.

Hoje o que destrói nossa alegria de viver é o medo.  É consequência de um tipo de sociedade que se construiu nos últimos séculos assentada sobre a competição e não sobre a cooperação,  sobre a vontade acumulação de bens materiais, o consumismo e sobre o uso da violência como forma de resolver os problemas pessoais e  sociais.

O que invalida o medo e suas sequelas é o cuidado de uns para com os outros, especialmente agora, para não sermos contaminado pelo viírus nem contaminar  os outros. O cuidado é fundamental para entendermos a vida e as relações entre todos os seres. Sem cuidado a vida não nasce nem se reproduz. Cuidar de alguém é mais que administrar seus interesses, é envolver-se afetivamente com ele, importar-se pelo seu bem-estar, é sentir-se corresponsável pelo seu destino. Por isso, tudo o que amamos também cuidamos e tudo o que cuidamos também amamos.

O cuidado é  também o antecipador prévio dos comportamentos para que seus efeitos sejam bons e fortaleçam a convivência.  

Uma sociedade que se rege pelo cuidado, pela Casa Comum, a Terra, cuidado com os ecosistemas que garantem as condições da biosfera e de nossa vida, cuidado com a segurança alimentar de cada um dos seres humanos, cuidado com água doce, o bem mais ecasso da natureza, cuidado com a saúde das pessoas, especialmente das mais desprovidas, cuidado, com  relações sociais mais participativas, equitativas, justas e pacíficas, cuidado com o ambiente espiritual da cultura para que todos possam viver com sentido, vivenciar e acolher, sem maiores dramas, as limitações, o envelhecimento e a travessia da morte, essa sociedade de cuidado gozará de paz e concórdia, necessárias para a convivialidade humana.

É confortador, no meio de nossas tribulações atuais, ameaçados pelo Covid-19, ouvir Aquele que nos sussurra:”Não temas,  eu estou contigo”(Salmo 23) e através de Isaías nos assegura:”não olhes apreensivo, pois eu sou teu Deus, eu te fortaleço sim, eu te ajudo, sim, eu te sustento na palma de minha mão”(Is 41,10).

Desta forma, nossa vida pessoal ganha certa leveza e conserva, mesmo no meio de riscos e ameaças, serena jovialidade ao sentirmos que jamais estamos sós. Deus caminha em nosso próprio caminhar como o  Bom Pastor que cuida para que “nada nos falte”.

Leonardo Boff é teólogo e filósofo e escreveu: O Senhor é meu pastor: consolo divino para o desamparo humano, Vozes 2013.

 

sexta-feira, 25 de maio de 2018

A CRISE BRASILEIRA E A DIMENSÃO DE SOMBRA




por leonardo boff

A crise brasileira generalizada, afetando todos os setores, pode ser interpretada por diferentes chaves de leitura. Até agora prevaleceram as interpretações sociológicas, políticas e históricas. Pretendo apresentar uma derivada das categorias de C.G.Jung com sua psicologia analítica pois é esclarecedora.
Avanço já a hipótese de que o atual cenário não representa uma tragédia, por mais perversas que continuam sendo as consequências para as maiorias pobres e para o futuro do país com o estabelecimento do teto de gastos (PEC 55). É mais que o congelamento de gastos, significa a impossibilidade de se criar um Estado Social e com isso jogar no lixo o bem comum que inclui a todos.
A tragédia, como mostram as as tragédias gregas, terminam sempre mal. Creio que não é o caso do Brasil. Estimo que estamos no centro de uma incomensurável crise dos fundamentos de nossa sociedade. A crise acrisola, purifica e permite um salto de qualidade rumo a um patamar mais alto de nosso devir histórico. Sairemos da crise melhores e com nossa identidade mais integrada.
Cada pessoa e também os povos revelam em sua história, entre outras, duas dimensões: a de sombra e a de luz. Outros falam de demens (demente) e sapiens (sapiente) ou da força do positivo e a força do negativo, da ordem do dia e da ordem da noite ou do thanatos (morte) e de eros (vida) ou do reprimido e do conscientizado. Todas estas dimensões sempre vêm juntas e coexistem em cada um.
A atual crise fez aparecer as sombras e o reprimido por séculos em nossa sociedade. Como observava Jung o “reconhecimento da sombra é indispensável para qualquer tipo de autorealização e, por isso, em geral, se confronta com considerável resistência”(Aion &14). A sombra é um arquétipo coletivo (imagem orientadora do insconsciente coletivo) de nossas nódoas e chagas e fatos repugnantes que procuramos ocultar porque nos causam vergonha e até despertam culpa. É o lado “sombrio da força vital”que atinge pessoas e inteiras nações, observa o psicólogo de Zurique.(&19).
Assim existem nódoas e chagas que constituem o nosso recalcado e a nossa sombra como o genocídio indígena em todo tempo de nossa história até hoje; a colonização que fez o Brasil não uma nação mas uma grande empresa internacionalizada de exportação e que, na verdade, continua até os dias atuais. Nunca pudemos criar um projeto próprio e autônomo porque sempre aceitamos ser dependentes ou fomos refreados. Quando começou a se formar, como nos últimos governos progressitas, logo foi atacado, caluniado e barrado por mais um golpe das classes endinheiradas, descendentes da Casa Grande, golpe sempre ocultado e reprimido como o de 1964 e a de 2016.
A escravidão é a nossa maior sombra pois durante séculos tratamos milhões de humanos trazidos à força de Àfrica como “peças”, compradas e vendidas. Uma vez libertos, nunca receberam qualquer compensção, nem terra, nem instrumentos de trabalho,nem casa; eles estão nas favelas das nossas cidades. Negros e mestiços constituem a maioria do povo. Como mostrou bem Jessé Souza, o desprezo e ódio jogado contra o escravo foi transferido aos seus descententes de hoje.
O povo em geral segundo Darcy Ribeiro e José Honório Rodrigo, são os que nos deram o melhor de nossa cultura, a língua e as artes mas, como Capistrano de Abreu bem sublinhava foi “capado e recapado, sangrado e ressangrado”, considerado um jeca-tatu, um ignorante e por isso colocado à margem de onde nunca deveria sair.
Paulo Prado em seu Retrato do Brasil :ensaio sobre a tristeza brasileira,1928) de forma exagerada mas, em parte, verdadeira, anota esta situação obscura de nossa história e conclui:”Vivemos tristes numa terra radiosa”(em Intérpretes do Brasil,vol.2 p.85). Isso me faz lembrar a frase de Celso Furtado que levou ao túmulo sem resposta: “Porque há tantos pobres num país tão rico?” Hoje sabemos: o porquê: fomos sempre dominados por elites que jamais tiveram um projeto Brasil para todos apenas para si e sua riqueza. Como é possível que 6 milhardários tenham mais riqueza que 100 milhões de brasileiros?
A atual crise fez irromper a nossa sombra. Descobrimos que somos racistas, preconceituosos, de uma injustiça social de clamar aos céus e que ainda não nos foi possível refundar um outro Brasil sobre outras bases, princípios e valores. Daí a difusão da raiva e da violência. Ela não vem das maiorias pobres. Vêm difundidas pelas elites dominantes, apoiadas por meios de comunicação que conformam o imaginário dos brasileiros com suas novelas e a desinformação. Para Jung “a totalidade que queremos não é uma perfeição, mas sim um ser completo”(Ab-reação,análise dos sonhos e transferência & 452) que integra e não recalca, a sombra numa dimensão maior de luz. É o que desejamos como saída da atual crise: não reprimir a sombra mas incluí-la, conscientizada, no nosso devir superando os antagonismos e as exclusões, para vivemos juntos no mesmo Brasil que Darcy Ribeiro costumava dizer ser:”a mais bela e ridente provincia da Terra”.
Leonardo Boff é filósofo,eco-teólogo e escreveu Brasil: Concluir a refundação ou prolongar a dependência (Vozes 2018


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A IDEOLOGIA É COMO A SOMBRA: SEMPRE NOS ACOMPANHA



Por Leonardo Boff

O tema da ideologia está em pauta: ideologia de gênero, política, econômica, religiosa etc.Tentemos tirar a limpo esta questão.
1. Todos têm uma determinada ideologia. Quer dizer, cada um se faz uma ideia (daí ideologia) da vida e do mundo. Tanto o pipoqueiro da esquina, quanto a atendente do telefone ou o professor universitário. Esta é inevitável, porque somos seres pensantes com ideias. Querer uma escola sem ideologia é não entender nada de ideologia.
2. Cada grupo social ou classe projeta uma ideologia, uma visão geral das coisas. A razão é que a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Se alguém tens os pés na favela, tem uma certa ideia de mundo e de sociedade. Se alguém tem os pés num apartamento de luxo junto à praia, tem outra ideia do mundo e da sociedade. Conclusão: não só o indivíduo, mas também cada grupo social ou classe, inevitavelmente elaboram sua visão da vida e do mundo a partir de seu lugar social.
3. Cada ideologia pessoal ou social, bem como todo saber, tem por detrás interesses, nem sempre explicitados. O interesse do operário é aumentar o seu salário. O do padrão, o de aumentar o seu lucro. O interesse de um morador da favela é sair daquela situação e ter sua casa decente. O interesse do morador de um apartamento de classe media é poder manter esse status social, sem ser ameaçado pela ascensão de gente do andar de baixo. Os interesses não convergem porque se aumenta o salário, diminui o lucro e vice-versa. Aqui se instaura um conflito.
4. O interesse escondido atrás do discurso ideológico deve ser qualificado: ele pode ser legítimo e importa explicitá-lo. Por exemplo: tenho interesse que esse grupo de famílias crie uma pequena cooperativa de produtos orgânicos, de hortaliças, tomates, milho etc. Esse interesse é legítimo e pode ser dito publicamente. O interesse pode ser ilegítimo e é mantido oculto para não prejudicar quem o propõe. Exemplo: há grupos que combatem o nu artístico para, na verdade, encobrirem a homofobia, a supremacia da raça branca e a perseguição aos grupos LGBT. Ou um politico de um partido neoliberal cujo projeto é diminuir salários, reduzir as aposentadorias e privatizar bens públicos apresenta-se como alguém que vai lutar pelos direitos dos trabalhadores, dos aposentados e defender a riqueza do Brasil. Ele ideologicamente oculta os reais interesses partidários para não perder votos. Essa ocultação é a ideologia como falsidade e ele, um hipócrita.
5. A ideologia é o discurso do poder especialmente do poder dominante. O poder é dominante porque ele domina várias áreas sociais. As elites brasileira têm tanto poder a ponto de comprarem as demais elites. Pelo fato de serem dominantes, impõem sua ideia sobre a crise brasileira, culpando o Estado como ineficiente e perdulário, os líderes como corruptos e a política como o mundo do sujo. Por outro lado, exaltam as virtudes do mercado, as vantagens das privatizações e a necessidade de reduzir as reservas florestais da Amazônia para permitir o avanço do agro-negócio. Aqui se oculta conscientemente a corrupção do mercado onde atuam as grandes empresas que subtraem milhões dos impostos devidos, mantém caixa dois, promovem juros altos que favorecem o sistema especulativo financeiro que drena dinheiro público, tirado do povo, para os bolsos de minorias, que, no caso brasileiro, são seis bilionários, possuindo igual riqueza que 100 milhões de brasileiros pobres. Essas elites ocultam as agressões ecológicas, a desnacionalização da indústria e fazem propaganda do  Agro  porque é pop. Praticam deslavada ideologia como enganação. Há redes de televisão que são máquinas produtoras de ideologia de ocultação, negando ao povo, dados sobre a gravidade da situação atual, gerando espectadores alienados, pois creem em tais versões irreais. Para encobrir sua dominação, apoiam projetos que beneficiam crianças ou secundam grandes eventos artísticos para parecerem benfeitores públicos. Por detrás ocultam falcatruas e apoiam abertamente determinados candidatos, satanizando a imagem do principal opositor.
6. Há também a ideologia dos sem-poder, dos sem terra e sem teto e outros que para se sustentaram, elaboram discursos de resistência e de esperança. Mas essa ideologia é benéfica pois os ajuda a viver e a lutar.
A ideologia é como uma sombra: sempre nos acompanha. Para superar as ilegítimas, faz-mister desmascará-la e trazer à luz os interesses escusos. E quando falamos a partir de um determinado lugar social, convém explicitar no discurso nossa ideologia. Conscientizada, a ideologia se legitima e democraticamente pode ser discutida ou aceita.
Leonardo Boff é articulista do JB online, terminou um livro sobre:Concluir a refundação ou prolonger a dependência do Brasil? Reflexões sobre a crise brasileira, a sair.


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

QUEM ESTÁ MESMO NA SOMBRA DO NAZARENO?

Por Gilbraz Aragão



Sobre o livro Em busca de Jesus de Nazaré, uma análise literária, de Eduardo Hoornaert, Paulus, 2016.


No meio de uma feira, uns poucos palhaços
Andavam a mostrar, em cima dum jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.

Os magos histriões, hipócritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento.
E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.

E toda aquela gente deu esmola aos tais ciganos:
Deram esmola até mendigos quase nus.

E eu ao ver este quadro, apóstolos romanos,
Lembrei-me de vós, funâmbulos da cruz,
Que andais pelo universo há mil e tantos anos,
Exibindo, explorando, o corpo de Jesus
             (Abílio Manuel Guerra Junqueiro).


Das imagens ou símbolos ninguém se livra no jogo do conhecimento: a questão é como interpretamos as coisas. Dizer que “Jesus Cristo é o Senhor”, então, pode relativizar e questionar os senhores deste mundo (o pai, o padre ou pastor, o político, o professor, o patrão), como pode também sacralizá-los como enviados ou legados de Deus. O símbolo, escrito ou esculpido, liberta ou submete a gente. Posso olhar pra Jesus, por exemplo, e encontrar força para enfrentar as cruzes injustas, como a sua, ou então achar consolo ("Mais sofreu Jesus") para carregar como ele uma cruz tida como destino divino - porque eu ou a humanidade ofendemos a deus e precisamos pagar com o nosso suor e sangue! Durante mil anos, Orígenes e Agostinho ajudaram os cristãos a pensar na cruz de Cristo como resgate pago ao maligno pelas nossas almas; no século XI Anselmo pensou mais em satisfação devida a Deus pelos nossos pecados e, no século da Reforma, falava-se ainda em punição justa pelo pecado humano - não é à toa que o cristianismo foi associado à culpa e não ao perdão.

Depois da ciência moderna e de Darwin, sabe-se que o ser humano é criado em um processo de evolução, não havendo, portanto, um pecado "original" histórico - senão como uma tendência "originante" da “natureza” da gente para o ensimesmamento. E assim a hermenêutica transforma a saudade do "paraíso" em esperança: não nos é natural sermos naturais, podemos nos educar para uma amorosidade sempre maior, na direção do "ajardinamento" de tudo e com todos. Com isso, fica sem sentido a interpretação de que Jesus foi um emissário divino que veio para resgatar as vítimas da "queda original", juntamente com a visão da cruz como o momento do sacrifício divino que pagou o resgate do pecado.

Os bons teólogos cristãos discutem isso agora, articulando a possibilidade salvífica como uma experiência mais-que-natural de descentramento - vivida exemplarmente por Jesus Cristo, que com gosto amoroso acolheu o Outro, até em seus braços abertos na cruz. Cruz que foi consequência indesejada do seu amor histórico e político pelos outros, pelos pobres e desprezados (basta ver a irônica tabuleta nela dependurada, relacionando a pena às suas supostas pretensões de poder).

O livro que Eduardo está lançando, nessa linha, desenvolve uma leitura histórico-literária dos primeiros anos do movimento cristão, mostrando como, nos anos 50, Paulo apresenta Jesus como “o Ungido”; nos anos 60 a Carta aos Hebreus interpreta Jesus a partir da figura bíblica de Melquisedec e como depois, nos anos 70, Marcos retoma tudo isso e faz a memória de Jesus em um novo gênero literário que dá origem aos Evangelhos. O livro de Eduardo, assim, na contramão de leituras ortodoxas e descontextualizadoras (como a trilogia de Ratzinger sobre Jesus ou o best-seller Uma história politicamente incorreta da Bíblia, de Hutchinson), recupera e atualiza para nós a pesquisa sobre o Jesus Histórico, ajudando-nos a responder a uma questão atualíssima: alguém que se declara sem religião hoje, mas procura o seguimento de Jesus de Nazaré, é cristão? Ele parte do pressuposto pelas teologias contextuais, que consideram o processo histórico da experiência religiosa, lembrando que um cristão precisa saber qual foi a fé de Jesus, para poder orientar a sua fé (ainda que antropológica) em Jesus!

Em sua hermenêutica da Carta aos Hebreus, sobretudo, Eduardo afirma que ser cristão é tomar uma atitude diante da morte e se preparar para encarar a morte, se preciso for. Porque Jesus, pendurado numa cruz, dá testemunho da perversão do mundo e até de uma religião que mata inocentes em nome da moral. “O sacerdote segundo Melquisedec revela a maldade por trás da moralidade estabelecida. Diante da cruz, o mundo fica nu, revela a dinâmica que o move” (pg. 93).

Jesus nos ajuda a ter fé direito, justo na sua cruz (afinal, o sentido de uma vida se revela na sua morte, e o Homão da Galileia não morreu de hepatite numa cama ou atropelado por um camelo na rua!), e não por causa de algum milagre, mas sim apesar da ausência do divino ("Por que me abandonaste?!"). E não uma crença esotérica na temperatura dos infernos ou no mobiliário do céu, porém uma aposta obediente no mistério da vida, que nos escapa - o que tira o medo de morrer e de amar existencialmente, e de perdoar até aos inimigos ("Eles não sabem o que fazem!").

Então se a gente olha pras imagens de Jesus em crucifixos barrocos ou mesmo em cinema e teatro que atualmente apresentam um Cristo sanguinolento e contristado, deve descobrir que se trata de uma mística penitencial (vejam o "Senhor Morto" aplaudido na Semana Santa e as Vigílias da Páscoa esvaziadas!), de uma espiritualidade cristã que nos veio com a colonização do mundo ibérico do século XVI, acentuando a intervenção divina (Providência) em todos os momentos e cultivando um apreço pela humanidade empobrecida e humilhada - principalmente no presépio e na paixão - do santo maior, Cristo, que se liga à aceitação resignada do sofrimento humano e da morte. Aí não se espera seguimento ético histórica e existencialmente recontextualizado, mas pura imitação estética do santo (lembram dos crucificados das Filipinas?!).

Atribui-se já a Cirilo de Jerusalém a afirmação de que "o mundo inteiro se encheu de pedaços do lenho da cruz", e de toda sorte essa mística que perdura entre nós remonta à Idade Média, quando "o poder da cruz de Cristo encheu o mundo", como disse Atanásio de Alexandria. Não é de hoje (o poema acima é do final do século XIX) que há protesto contra uma imagem do crucificado que parece não ter ressuscitado, e muito menos brincado e dançado em vida - como todo moleque judeu em festa de casamento. Mas nas igrejas e muito além de suas paredes, a pessoa e mensagem de Jesus renovam-se atualmente como uma "Beleza tão antiga e tão nova". Aliás, foi pensando no Cristo que Dostoievsky sentenciou "A beleza salvará o mundo"!

Precisamos recontextualizar e descolonizar as imagens sagradas que nos foram passadas em certas interpretações dos textos sagrados. Pois é preciso passar da dependência do milagre “sobrenatural” que traz benefício do “santo” imitado, para a crença na possibilidade de sermos igualmente “santos” e capazes de fazer das nossas vidas um milagre “mais-que-natural” para a vida dos outros – pelo amor, que é (de) Deus! Qual deve ser mesmo o lugar de Jesus na vida dos cristãos?! Um objeto sagrado de culto mágico, do qual nos tornamos dependentes, ou uma pessoa mesmo de quem fazemos memória e a quem procuramos seguir, tornando-nos livres até de "nós" mesmos?

"Somos fuliginosos, perplexos, desgarrados e tristes. Somos seres humanos, transmudados por Cristo, homem divino. Somos bichos da terra, tão pequenos, mas o fogo do amor de Deus mora em nós. Por isto, temos a possibilidade da louca alegria. Cristo bailarino. Cristo dançarino. O mais próximo Próximo. Ali, na esquina, está ele, e nos olha. Naquele bar, naquele beco, naquela masmorra, hospital ou cortiço. Onde a carne sofre, aí está o Cristo, crucificado. Onde a carne ama, aí está o Cristo, glorificado. Onde está o homem, aí está o Cristo, suprema possibilidade do humano. Aqui" (Hélio Pellegrino. A burrice do Demônio. Rocco, 1989). A igreja medieval associou Apolo com o Diabo, mas as crônicas de Pelegrino nos ajudam a equilibrar a imagem de Jesus, recuperando a sua dimensão apolínea: "Cristo, à cabeceira da mesa, nos convoca para o ágape. O pão, o vinho, a alegre - e leve - embriaguez apolínea. Cristo Apolo, elegantíssimo na sua túnica, pregando pelos campos...".

A exegese romanceada de Gerd Theissen, em A sombra do Galileu (Vozes, 1991), é outro livro que guardo na cabeceira, porque nos ajuda a perguntar: Jesus foi um revolucionário? Um risco para a segurança? Ou apenas um sonhador, um poeta aldeão, um místico ambulante, como tantos houve na época entre gregos e romanos? Então, um jovem judeu é pressionado por Pilatos a colher informações sobre novos movimentos religiosos na Palestina e ele constantemente esbarra na figura de Jesus, a quem tenta encontrar. Sai à procura desse Galileu por toda parte, visando reconstruir uma imagem dele a partir das histórias que ouve da boca do povo. Mas não consegue alcançar o seu personagem a tempo: “... Sobre eles o sol descia. Espargia seus raios sobre a cruz de Jesus e as dos zelotas, sobre o morto e os dois agonizantes. Projetava sua luz sobre os soldados romanos e os espectadores que seguiam os acontecimentos, alguns curiosos e outros
aterrorizados. Estávamos à sombra do Galileu...”.

Pois bem, agora, essa história literária, Em busca de Jesus de Nazaré, de Eduardo Hoornaert, vai entrar com esses outros dois bons livros na minha mochila de mochileiro das galáxias, no meu saco de seguidor do Caminho do Galileu. Pois ele me ajuda a compreender que Jesus de Nazaré iniciou sua busca espiritual no grupo do Batista, mas o abandonou, revelando sua liderança natural e demonstrando insustentável liberdade (seu milagre providenciando vinho escandalizou puristas e legalistas, como o lava-pés até hoje escandaliza devotos), ele é impulsionado por afetividade e exibe um comportamento ético que espanta, ele sente necessidade de se abrir para um divino sempre maior e incluir sempre mais outros em seu cuidado, ele é condenado à morte em nome da moralidade vigente e resguardada pelos anciãos e religiosos do Templo. Eduardo, muitas vezes com passagens poéticas, ajuda a gente a recuperar uma estética jesuânica, na linha do Poeta:

Num meio-dia de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro

(Fernando Pessoa/ Alberto Caeiro).

Gilbraz Aragão é professor e Pesquisador no campo dos estudos de religião na Universidade Católica de Pernambuco. É coordenador do Observatório Transdisciplinar das Religiões no Recife