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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O CRISTIANISMO É UMA RELIGIÃO?


por Eduardo Hoornaert



Um termo impreciso.

O termo ‘religião’ pode significar carisma ou poder, brotar do ‘cérebro sensível’ (Damásio: ‘the feeling brain’) ou do ‘cérebro matemático’ (o cérebro calculador, como escreve o mesmo autor. Veja os diversos livros de Damásio publicados pela Companhia das Letras de São Paulo). O termo religião pode indicar a capacidade humana em sonhar e sentir, mas significa igualmente instituição, representação, aquilo que chamamos ‘confissão religiosa’. Assim falamos em religião católica, protestante, afro-brasileira. Pensando bem, ‘religião’ não é um termo preciso, mas por enquanto não há como evitá-la. É como tantos outros que utilizamos para nos fazer entender, sem que sintamos necessidade de indicar com maior precisão de que estamos falando. Isso pode levar a confundir as coisas, pois, no Ocidente, as instituições cristãs desde muito se apropriaram do termo e criaram um vocabulário complexo do qual fica difícil se livrar. Assim falamos em ‘aula de religião’ e não fica claro o que entendemos com isso (aulas de catecismo ou descrição das diversas formas religiosas existentes), assim como falamos em ‘doutrina religiosa’, mesmo sabendo que religião, no sentido de produto do ‘cérebro sensível’, não produz ‘doutrina’, ou seja, conhecimento de tipo cognitivo. A redescoberta da religião do cérebro sensível e da abertura de um campo de estudos da religião no sentido antropológico e sociológico (as chamadas ‘ciências religiosas’) é resultado de uma árdua luta travada por sociólogos como Durkheim e fenomenologistas como Eliade, além de antropólogos e neurocientistas, enfim, por ‘cientistas da religião’, contra a ‘ortodoxia’. A abertura de um campo de estudos chamado ‘ciências religiosas’ se fez à revela da teologia, que durante séculos reinou inconteste e sempre utilizou o termo ‘religião’ em termos nebulosos.  A confusão ainda permeia muitas pesquisas de ‘sociologia religiosa’. O grande sociólogo francês Gabriel le Bras (1891-1970) ainda ignora a diferença entre ‘sociologia religiosa’ e ‘sociologia das religiões’. Assim declara que quem é batizado, ou, em outros estudos, quem frequenta a missa dominical, é católico. Os não praticantes (leia: o que não vão à missa nos domingos) não são católicos.

 Os ‘sem religião’.

As estatísticas sobre as religiões organizadas no Brasil, realizadas pelo IBGE, trazem ultimamente números impressionantes sobe um segmento da população que se declara ‘sem religião’. É o grupo que cresce mais nos últimos anos em termos porcentuais. Em 1980 eram 3 % da população, em 1990 4,7 %, em 2000 7,4 %, em 2010 7, 9 % e em 2014 8,9 %. Artur Peregrinoprofessor no Curso de Teologia da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), analisou os dados desse ‘Mapa das Religiões no Brasil’ e chegou à conclusão que os (as) ‘sem religião’ estão na categoria de pessoas com maior renda e escolaridade, que vivem em centros mais urbanizados, nas regiões mais ricas do país e que sua a idade média é de 26 anos, ou seja, que se trata aqui de um fenômeno que atinge principalmente a população jovem (veja Internet).


Esse dado estatístico coloca no horizonte uma pergunta raramente formulada antes: O cristianismo é uma religião? É possível ser cristão sem praticar gestos religiosos ou frequentar alguma Igreja? O primeiro questionamento em torno dessa questão que encontrei na literatura latino-americana encontra-se numa série de palestras que o sacerdote peruano Gustavo Gutiérrez pronunciou na década de 1960 e que foram publicadas em francês sob o título ‘Réinventer le visage de l’ Église’ (reinventar a face da Igreja, Cerf, Paris, 1971). Na página 81 desse livro, Gutiérrez escreve: ‘o cristianismo não é uma religião’, e menciona teólogos como Karl Barth, Dietrich Bonhoeffer e John Robinson para confirmar o que afirma. Ele aponta o tema da secularização. Cinquenta anos mais tarde, numa conferência, José Comblin retoma o tema, desta vez em torno do tema da vivência evangélica. No dia 18 de março de 2010, em San Salvador, no contexto da celebração dos trinta anos do martírio do arcebispo Romero (Revista de Teologia latino-americana, 2010), o teólogo descreve a distinção entre religião e evangelho nas seguintes palavras: ‘Na vida e no funcionamento da Igreja, a religião ocupa mais espaço e tem maior importância do que o evangelho. A religião é um fato cultural, enquanto o evangelho é um apelo à ação. Na cultura ocidental, a religião é mais determinante que o evangelho, que teria que ser a força de contestação e transformação da cultura do Ocidente, sobrecarregada de desigualdades, injustiças e violências. No Ocidente, Jesus é mais ‘objeto de culto’ que modelo de seguimento. Na Igreja sobram ritos e cerimônias, e falta a mística do seguimento a Jesus, que veio para mostrar o caminho para que o sigamos. Isso é o básico, é o evangelho. Em seu âmago, o cristianismo não é religião, embora se expresse em termos religiosos. O que Jesus pediu aos seus discípulos era seguimento, não adoração, reza, culto, liturgia. A maioria, dos que hoje seguem o cristianismo, não trilha no caminho de Jesus, mas está no outro polo, na religião, ou seja, se dedica à doutrina, ensina a doutrina, defende a doutrina contra os hereges e as heresias’.  Quer me parecer que as colocações de Gutiérrez e Comblin ganham densidade quando confrontadas com dados históricos.

Consultando a história.

Durante séculos, a instituição religiosa dominante do Ocidente, a Igreja Católica, se definiu como o único local indicado para a vivência de experiências religiosas. Ela praticava uma leitura ‘ortodoxa’ da Bíblia, o que significa que ela seguia o modelo de leitura bíblica usado pelos intelectuais cristãos do primeiro milênio, os chamados Padres da Igreja. Ora, esse modelo dispensa investigação histórica e literária dos textos. Quando, na Renascença (século XVI), exegetas como Erasmo passaram a contextualizar textos bíblicos, a primeira reação, entre os comentaristas clássicos, foi de pânico. Um pânico que, com o tempo, evoluiu para um clima de suspeita e discriminação mútua entre ‘ortodoxos’ e ‘modernos’ (‘descrentes’), ou seja, os que abriam um campo para leituras bíblicas diferenciadas, inclusive secularizantes. Esses últimos encontraram abrigo em Universidades e outras instâncias independentes e, com o tempo, aperfeiçoaram seus instrumentos de pesquisa (arqueologia, filologia, semiologia) e interpretação (história, sociologia, psicologia social). Isso intimidou os eclesiásticos, mas não eliminou as suspeitas de ambos os lados. Essas suspeitas permanecem até hoje. Enquanto os ‘descrentes’ dizem que a leitura eclesiástica facilmente descamba para fundamentalismo e fanatismo, os eclesiásticos são de opinião que a leitura moderna leva ao ‘abandono da fé’. Trabalhei esse tema em meu recente livro 'Em busca de Jesus de Nazaré' (Paulus, São Paulo, 2016).

Depor as armas.

A situação em que nos encontramos hoje apela para o reconhecimento que tanto a abordagem eclesiástica como a moderna tem sua razão de ser. Todos reconhecemos o eventual valor pedagógico da clássica leitura ortodoxa da Bíblia, demonstrado ao longo de séculos, e ao mesmo tempo percebemos que uma rigorosa análise histórica e literária crítica dos textos é salutar, para não dizer necessária. Ela nos traz uma imagem mais nítida de Jesus de Nazaré, por exemplo, que vai além da imagem de Jesus Cristo. Há, portanto, abertura para o acolhimento de ‘sem religião’ no seio do cristianismo, que, como se expressa José Comblin, não é constituída na qualidade de religião, embora costume expressar-se em termos religiosos.

Jesus Cristo e Jesus de Nazaré.

Um tópico em que se expressa significativamente o atual embate entre ‘eclesiásticos’ e ‘modernos’ diz respeito às atuais pesquisas em torno de ‘Jesus histórico’, como realço no meu livro, acima citado. Ali defendo a ideia que Jesus Cristo é uma interpretação religiosa da figura de Jesus de Nazaré, uma 'narrativa mítica' acerca do líder galileu, que não atua em terreno especificamente religioso, mas é, desde os inícios, interpretado como figura religiosa.
Seja-me permitido tecer, em seguida, algumas considerações sobre esse tema, em cinco pontos. Mas antes de tudo temos de ver de que estamos falando. Hoje, a expressão Jesus Cristo serve como nome completo de Jesus: nome e sobrenome. Algo como João Ribeiro ou José Alencar. Não é nesse sentido que falamos aqui em Jesus Cristo. No tempo em que foram elaborados os primeiros escritos da tradição de Jesus, o adjetivo ‘cristo’ (ungido) aparece como qualificativo, não como indicativo. Um qualificativo de ordem religiosa, como fica claro nas Cartas de Paulo. Para o apóstolo, Jesus é o Ungido de Deus, que desce do céu para divulgar na terra uma mensagem importante e depois volta ao céu, levando consigo os eleitos. Paulo interpreta Jesus religiosamente, ele pratica uma interpretação que, a rigor, pode ser substituída por outra, de caráter não religioso. Desenvolvo essa afirmação em alguns pontos.

Nosso conhecimento de Jesus de Nazaré passa por mediações.

A conclusão praticamente unânime a que chegam os mais conhecidos estudiosos atuais da história de Jesus de Nazaré, nas últimas décadas, como Meier, Crossan, Aslan, Pagola, Vermes, Theissen, Horsley, Dunn, Brown, Reed, Elliott e Ehrman, por exemplo, é a seguinte: nosso conhecimento de Jesus de Nazaré passa por mediações. No Anexo 6 (p. 607) do livro de Pagola ('Jesus, aproximação histórica', Vozes, Petrópolis, 2010), você encontra uma lista de ponderações que alguns desses escritores fazem a respeito dessa questão.
Como Jesus viveu num mundo em que não se anotavam as coisas por escrito (97 % das pessoas na Palestina eram analfabetas), os que com ele conviveram nada escreveram a seu respeito. Falaram muito, mas nada escreveram. Vinte anos após a sua morte, na década de 50, um fariseu chamado Paulo de Tarso escreveu quatro Cartas (1Ts, 1Cor, Gl e Rm), que constituem a primeira apresentação escrita da figura de Jesus de Nazaré. Depois apareceu o Evangelho de Marcos (nos anos 70), Mateus e Lucas (nos anos 80) e João (nos anos 100). Essas são as primeiras mediações literárias.

Os escritos do Novo Testamento são elaborações literárias.

Os escritos do Novo Testamento são textos literários, com tudo que isso significa em termos de construção de um enredo (de uma ‘história’), uso de metáforas e contextualização (condições de tempo e espaço, intencionalidades próprias, universo simbólico). Os três primeiros escritores do movimento de Jesus montam um enredo, trabalham com metáforas e se comunicam com o universo simbólico de seus ouvintes/leitores. Não são apenas compiladores (como se disse tantas vezes acerca de Marcos, por exemplo) ou repórteres.
Depois desses primeiros escritores, vieram outros, ao longo de vinte séculos. Quando se contempla a variedade imensa (frequentemente caótica) das imagens literárias e iconográficas de Jesus, ao longo desses tempos todos, uma evidência se impõe. A figura de Jesus, historicamente, não costuma ser interpretada por meio de abordagens que sigam regras fundamentais de análise linguística e historiográfica. O escritor americano Jaroslav Pelikan editou em 1985 um livro que apresenta uma impressionante variedade de imagens de Jesus ao longo dos séculos: vencedor, glorioso em cima da cruz (pantôcrator), caçador de hereges, animador da Cruzada contra o Islã, ortodoxo, católico, protestante, aliado aos poderosos, defensor dos pobres, opressor, libertador. Quem consulta livros como o de Pelikan não pode deixar de constatar: Jesus Cristo é uma interpretação, uma 'narrativa'.

Jesus Cristo é uma das possíveis interpretações da figura de Jesus de Nazaré.

As primeiras palavras da Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses, provavelmente do ano 49 (são cronologicamente as primeiras palavras escritas da tradição de Jesus), rezam:

Paulo, Silvano e Timóteo,
À igreja dos Tessalonicenses
Que tem sua origem em Deus, o Pai,
E no Senhor Jesus, o Ungido (Cristo).
A vocês favor (divino) e paz!

Aqui não aparece Jesus de Nazaré, mas Jesus ‘o Ungido’ (Cristo). É Jesus interpretado pelos militantes Paulo, Silvano e Timóteo. Como Paulo escreve vinte anos aproximadamente após a morte de Jesus, é importante descobrir o que houve nesses vinte anos ‘silenciosos’ que explicasse a leitura feita por Paulo. Crossan ('O nascimento do cristianismo, Paulinas', São Paulo, 2004) investigou esses primeiríssimos anos e chegou à conclusão que os primeiros discípulos interpretaram a figura de Jesus de Nazaré segundo o modelo imaginário apocalíptico em voga na época. Outros pesquisadores, como Reza Aslan ('Zelota', Zahar, Rio de Janeiro, 2012) chegaram à mesma conclusão.  

Jesus Cristo é uma interpretação de cunho apocalíptico.

Crossan escreve que os primeiros discípulos cultivavam uma ardente religiosidade apocalíptica. Jesus lhes apareceu como um ser cósmico, o enviado de Deus ao mundo, a revelação definitiva de Deus. Por ocasião da refeição fraterna que eles celebravam segundo antiga tradição judaica, o imaginário apocalíptico lhes era comum, apesar das diferenças existentes entre si: uns mais céticos, outros mais entusiasmados, uns realistas e outros sonhadores.
Estamos acostumados a relacionar apocalipse com cenas de horror, desastre cósmico, transtorno total, fim de mundo, ‘último juízo’, inferno. Para a maioria das pessoas hoje, apocalipse significa catástrofe. Isso é uma sedimentação histórica de séculos de sermões, provenientes da Idade Média, feitas para traumatizar os camponeses e os levar à prática dos sacramentos. Pois o termo ‘apocalupsis’, em grego, não significa catástrofe, mas ‘revelação de Deus’. Os historiadores dizem que a origem do gênero literário apocalíptico deve ser procurada na sensacional vitória dos irmãos Macabeus contra os Sírios, no século II aC. Um judeu piedoso, o pai dos Macabeus, tomou as armas, formou um exército com seus filhos e, contrariando todas as expectativas, expulsou os Sírios. Uma vitória tão inesperada repercutiu pela região inteira, inspirou poetas, escritores, cantadores populares e artistas em geral. Suscitou um poderoso imaginário positivo. A vitória dos Macabeus foi vista como uma vitória de Ihwh. Israel venceu porque ficou fiel a Ihwh e lutou por ele.
O imaginário apocalíptico esteve na base de toda a literatura religiosa judaica entre o século II aC e o século I dC, incluindo a época da redação dos escritos do Novo Testamento. Nos capítulos 10 a 12 do Livro de Daniel aparece a peculiar estética apocalíptica: Satanás com milhares de demônios combate o Arcanjo Miguel, secundado por miríadas de anjos e arcanjos. O rio de fogo, o juiz soberano, o livro que contém tudo, o carneiro com chifres ameaçadores, o país das cinzas, o céu (onde mora Deus) e o inferno (onde impera Satanás), imagens impactantes. Os Macabeus são anjos de Deus a combater os demônios de Satanás. Pequeno e frágil, o Macabeu representa a força de Ihwh. O pequeno vence o grande, o fraco supera o forte, o cordeiro abatido no matadouro se transforma em cavaleiro invencível no Apocalipse de João. Isso nos leva a observar que a Apocalíptica constitui uma análise consistente da sociedade, que nada deve a análises modernas.
Nos escritos do Novo Testamento, Jesus é uma figura apocalíptica. É a ‘nova criatura’, elevada ‘ao mais alto dos céus’ (At 2, 40) e sentada ‘à direita de Deus’ (Hb 1, 3 e 13). Uma figura de dimensões cósmicas, profeta universal. Ele supera os profetas do antigo Israel, que apenas focalizavam situações locais de opressão (criticando um rei injusto, um proprietário cruel, um administrador corrupto ou ainda um cobrador de impostos perverso). Jesus apocalíptico, pelo contrário, critica o sistema como um todo, aparece dentro de um cenário cósmico. É Filho de Deus, envia o Sopro Santo.

É legítimo perguntar se existem alternativas a Jesus Cristo.

Basta comparar o Evangelho de Marcos com as Cartas de Paulo e a Carta aos Hebreus (para só falar dos primeiros escritores do movimento de Jesus, entre os anos 50 e 70) para verificar que existem diversas interpretações da figura de Jesus de Nazaré.
Marcos apresenta Jesus como reformador da religião judaica e o compara a Elias, o profeta mais popular da tradição hebraica. Para Paulo, Jesus é o Ungido de Deus, o Senhor do mundo e o Filho de Deus Pai. Por sua vez, a Carta aos Hebreus apresenta Jesus como um Sacerdote que segue o ‘modelo Melquisedec’. Cada um dos três primeiros escritores coloca Jesus em cena de forma diferente, em consonância com as circunstâncias em que escreve, o público que visualiza, a intenção que o motiva e o ambiente cultural em que está inserido.
Por conseguinte, há como falar em Jesus de Nazaré sem qualificá-lo necessariamente como Jesus Cristo. Quem deixa de falar em Jesus Cristo não deve ser ipso facto considerado fora da comunhão dos seguidores de Jesus, pois, em última análise, trata-se de seguir Jesus de Nazaré.

Conclusão.

 O pano de fundo destas minhas ponderações é a consciência que um crescimento sem limite do fundamentalismo cristão é iminente. A curto ou médio prazo, o tema do fundamentalismo entrará na agenda daquelas Igrejas cristãs que demonstrem responsabilidade pelo modo como seus fiéis leem os textos do Novo Testamento e entendem sua fé. O que se verifica hoje é uma maré de interpretações irresponsáveis e injustificadas de textos evangélicos e bíblicos em geral, a inundar os campos confessionais. Há de se erguer um dique seguro, que só pode ser construído por meio de interpretações justificadas dos textos fundantes, que respeitem o contexto em que eles foram redigidos, as intencionalidades próprias de seus escritores, a cultura e os condicionamentos históricos concretos.
Além da necessidade de se erguer um dique contra os fundamentalismos, as considerações feitas acima abrem um campo de diálogo com o mundo dos ‘sem religião’, ou seja, de pessoas que ficam descrentes da forma em que o cristianismo lhes está sendo apresentado.

  Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

www.eduardohoornaert.blogspot.com.br/

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

TRUMP: UMA NOVA ETAPA DA HISTÓRIA?


Por Leonardo Boff


          Já há anos se notava, um pouco em todas as partes do mundo, a ascensão de um pensamento conservador e de movimentos que se definiam como de direita. Com isso se sinalizava um tipo de sociedade na qual a ordem prevalecia sobre a liberdade, os valores tradicionais se impunham aos modernos, e a supremacia da autoridade se sobrepunha à liberdade democrática.

         Esse fenômeno se deriva de muitos fatores mas principalmente pela erosão das referências de valor que conferiam coesão a uma sociedade e forneciam um sentido coletivo de convivência. O predomínio da cultura do capital com seu propósito ligado ao individualismo, à acumulação ilimitada de bens materiais e principalmente à competição deixando praticamente parco espaço para a cooperação, contaminou praticamente toda a humanidade, gerando confusão ético-espiritual e perda de sentimento de pertença a uma única humanidade, habitando uma Casa Comum. Emergiu a sociedade líquida, na linguagem de Bauman, na qual nada é sólido, acrescido com o espírito pós-moderno do every thing goes do vale tudo, na medida em que conta é o que realiza um objetivo buscado por cada um, consoante suas preferências.

         Estamos, pois, diante de uma profunda crise de civilização. Diluiram-se as estrelas-guias e surgiu seu oposto dialético: a busca de segurança, de ordem, de autoridade, de normas claras e de caminhos bem definidos. Na base do conservadorismo e da direita em política, em ética e em religião se encontra este tipo de percepção das coisas. Ela está a um passo do fascismo como se verificou na Alemanha de Hitler e na Itália de Mussolini.

         Na Europa, na América Latina e nos Estados Unidos estas tendências foram ganhando força social e política. No Brasil foi este espírito conservador e direitista que projetou o golpe de classe jurídico-parlamentar que destituiu a Presidenta Dilma Rousseff. O que se seguiu foi a implantação de políticas claramente de direita, anti-povo, negadoras de direitos sociais e retrogradas em termos culturais.

         Mas essa tendência conservadora alcançou sua dimensão mais expressiva na potência central do sistema-mundo: os Estados Unidos, confirmada pela eleição de Donald Trump à presidência daquele país. Aqui o conservadorismo e a política de direita se mostram sem metáforas e de forma deslavada e até rude como ocorreu na quebra de relação por parte de Tump com o presidente do México que foi grosseiramente humilhado.

         Trump, em seus primeiros atos, começou a desmontar as conquistas sociais alcançadas por Obama. Populismo, nacionalismo, patriotismo, conservadorismo, isolacionismo são suas características mais claras.

         Seu discurso inaugural é aterrador:”de hoje em diante uma nova visão governará a nossa terra. A partir deste momento só os Estados Unidos serão o primeiro”. O “primeiro” (first) aqui deve ser entendido como “só (only) os Estados Unidos vão contar”. Radicaliza sua visão ao término de seu discurso com evidente arrogância:”Juntos faremos que os Estados Unidos voltem a ser fortes. Faremos que os Estados Unidos voltem a ser prósperos. Faremos que os Estados Unidos voltem a ser orgulhosos. Faremos que os Estados Unidos voltem a ser seguros de novo. E juntos faremos que os Estados Unidos sejam grande de novo”.

         Subjacente a estas palavras funciona a ideologia do “destino manifesto”, da excepcionalidade dos Estados Unidos, sempre presente nos presidentes anteriores inclusive em Obama. Quer dizer, os Estados Unidos presumem possuir uma missão única e divina no mundo, a de levar seus valores de direitos, da propriedade privada e da democracia liberal para o resto da humanidade.

         Para ele o mundo praticamente não existe. E se existe é visto de forma negativa. Quebrou os laços de solidariedade para com os aliados tradicionais como a União Européia e retirou-se da cena internacional deixando cada país livre para eventuais aventuras contra seus contendores históricos e abrindo espaço para o expancionismo de potências regionais eventualmente incluindo guerras letais.
         Da personalidade de Trump se pode esperar tudo. Habituado a negócios tenebrosos como são, de modo geral, os empreendimentos imobiliários novaiorquinos, sem qualquer experiência política, pode deslanchar crises para a sociedade norte-americana e  altamente ameaçadoras para o resto da humanidade, como por exemplo, uma eventual guerra contra China ou a Coreia do Norte, onde não se exclui a utilização de armas nucleares.
         Sua personalidade denota características psicológicas desviantes; é narcisista, com um ego super-inflacionado, maior que seu própro país.
         A frase que nos assusta é esta:”de hoje em diante uma nova visão governará a terra”. Não sei se está pensando apenas nos Estados Unidos ou no planeta Terra. Provavelmente as duas coisas para ele se identificam. Se for verdade, teremos que rezar para que o pior não aconteça para o futuro da civilização.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu, Convivência, respeito e tolerância, Vozes 2006.


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Mais uma vez Natal...

POR Maria Clara Lucchetti Bingemer



       E mais uma vez é Natal.  Mais uma vez o ritmo da vida se torna frenético por algumas semanas, o trânsito insuportável, as lojas repletas.  Mais uma vez as pessoas se acotovelaram com listas nas mãos, comprando presentes inúteis e supérfluos em sua maioria, para outras pessoas que deles não necessitam.

       E mais uma vez é Natal. Mais uma vez os supermercados aquecem suas vendas com os inevitáveis perus, pernis, presuntos tender e frutas secas. Homens vestidos de Papai Noel desidrataram-se sob o calor tropical, com longas barbas brancas para estimular nas criancinhas desde cedo os desejos de consumo de presentes a não mais poder.

       Mais uma vez é Natal.  E uma vez mais aqueles para quem nunca é festa continuarão sem ter nada para celebrar.  Mesmo com as meritórias campanhas do Natal sem Fome, das ceias organizadas por esta ou aquela igreja, sempre haverá gente sob as pontes, nas ruas, que não tem sequer para onde ir, nem onde morar, nem onde comer na noite de Natal.

       Mais uma vez é Natal e a ocasião desta festa porá a nu os contrastes injustos e inexplicáveis de que é formada nossa sociedade, onde o que sobra para uns não vai suprir a falta e as carências de outros.  Mais uma vez as festas em família se farão sobretudo em torno de comida e presentes, e quando o último gole de champanhe for saboreado, juntamente com a última fatia de peru, o tédio se abaterá sobre mais uma festa  sem que se saiba o que foi celebrado.  Ou melhor, esqueceu-se o motivo da sua existência e celebração.

       Porém, mais uma vez é Natal e será verdadeiramente Natal em alguns lares e em algumas vidas nas quais a escala de valores e prioridades se harmoniza com o Mistério que é a razão de ser da festa. E mais uma vez será vivido com devoção e profundidade o evento de salvação, o Mistério inaudito do Amor de Deus, que toma carne em um indefeso Menino que nasce de uma pobre mulher e não tem lugar para ficar, a não ser o estábulo onde dormem e comem os animais.

       Mais uma vez é e será Natal para gente que celebra na simplicidade este Mistério do amor humilde e oblativo de um Deus que não se aferra a suas prerrogativas e se faz carne, se faz criança, se faz um de nós, em um mundo dividido e violento.  Mais uma vez é e será Natal para aqueles e aquelas que, mesmo nomeando-o de diferentes maneiras, acreditam que Esse que vem na forma de criança indefesa e desvalida é o Único capaz de trazer a paz, a harmonia, a concórdia a este mundo que insiste em destruir-se a si mesmo.

       Nossa sociedade e nossa cultura são tão pobres e vazias de transcendência que muitos custamos a perceber, por trás das ceias e presentes que nos obnubilam e ofuscam, o Mistério translúcido e discreto da Encarnação de Deus no seio de uma mulher, e de seu nascimento do ventre livre e pobre desta mesma mulher.  E, no entanto, mais uma vez  é Natal.  Mais uma vez Deus nos diz com o nascimento desta criança que Sua Aliança conosco é para sempre. Que por mais que façamos ou desfaçamos nunca poderemos atingir mortalmente ou acabar com Seu amor, que resiste a todas as barbaridades que possamos cometer.

       Por isso é Natal. Não apenas nas casas bem equipadas com bens perecíveis, alimentos sofisticados e presentes.  Não apenas nas casas não tão aparelhadas, mas nas quais foi e continua sendo possível uma ceia melhor que aqueça o estômago e o coração.

       É Natal igualmente nas ruas e pontes onde famílias inteiras se defendem contra a fome e desabrigo pela proximidade dos corpos  que se transmitem um a um  humano calor.  É Natal nas penitenciárias, onde homens e mulheres sofrem a privação da liberdade, mas também e não menos a privação dos mais elementares direitos humanos.  É Natal em todas as regiões do globo, mesmo naquelas onde as armas mortais fazem estragos e destruições aparentemente irreparáveis.

       É Natal em Falluja, em Beslan, no Iraque, na faixa de Gaza.  É Natal na Ucrânia e no país basco.  É Natal nas Antilhas.  É Natal na África, em cada um de seus países, onde as crianças foram riscadas do mapa do mundo e estão condenadas pelas grandes potências a morrer de inanição e onde as mulheres, além da pobreza, têm que lutar contra o encurtamento inexorável de suas vidas pelo avanço assustador da AIDS.

       É Natal para sempre em todo lugar, mesmo onde os números, as estatísticas e - mais que isso - a realidade, negam cinicamente que seja ou possa ser Natal. Pois Aquele que vem é cantado pela boca da comunidade cristã que interpreta as profecias.  E é cantado e celebrado como Conselheiro Admirável, Deus Forte, Príncipe da Paz. Filho primogênito do Criador do Universo, cujo Reino se estende por toda a Terra, o Menino que vem fará com que as armas sejam transformadas em arados, os instrumentos mortais em meios de paz, o deserto em jardim, a violência em concórdia e comunhão.

       Diante da simplicidade inaudita do Mistério de uma criança que nasce de uma mulher, façamos silêncio, tomemos uma atitude de contemplação e adoração.  Mais uma vez é Natal e será Natal para sempre. Porque apesar de tudo, Deus não deixa de acreditar na pobre humanidade que somos e nos oferece a cada ano, com infinito amor, este presente admirável que é Seu Filho.

 Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora de Teologia da PUC-RJ.  A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc)

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

ENCONTRO ECUMÊNICO DE FRANCISCO COM LUTERANOS É UMA REFORMA E TANTO


Por Juracy Andrade



Não podia faltar esta. Dia 31 passado, o papa Francisco dirigiu-se à Suécia, a convite da Federação Luterana Mundial, para o início das comemorações dos 500 anos da Reforma de Martinho Lutero. Atitudes ecumênicas dos dois lados. Apesar de luteranos e católicos romanos dialogarem há algum tempo sobre o que os une e o que os separa, nenhum outro bispo de Roma se aproximara pessoalmente de um diálogo. Mas, na manhã do dia 31 de outubro, Francisco partiu do aeroporto romano de Fiumicino para uma comemoração ecumênica luterano-católica em Lund, na Suécia. A celebração central da Reforma será nos dias 10 a 16 de maio de 2017 na capital da Namíbia, Windhoek.

Se não fosse a intransigência do papado, a desunião não teria ocorrido e sim a reforma da Igreja Romana, envolvida em escândalos de venda de indulgências e afastamento dos ensinos do Evangelho. Já escrevi neste O Porta-Voz sobre isso, baseando-me na excelente obra Martinho Lutero – Obras selecionadas vol 2, editada pela Comissão Interluterana de Literatura de São Leopoldo (RS).

A propósito dos 500 anos da Reforma de Martinho Lutero, faço aqui um breve resumo dos acontecimentos daquele início do século 16. Em um momento em que muitas mudanças políticas, econômicas e sociais aconteciam na velha Europa, o poder e influência da Igreja começavam a ser contestados. Enquanto o Renascimento avançava e o pensamento se difundia mais rapidamente com a invenção da imprensa, o papado se apegava cada vez mais a velhos e inconcebíveis privilégios. Era o tempo das grandes navegações e o que se convencionou chamar eurocentricamente de “descobrimentos”.

Como vimos, Lutero não tinha nenhuma intenção de refundar a Igreja, simplesmente de reformá-la. Implicitamente o próprio papado reconheceu essa necessidade de reforma ao convocar o Concílio de Trento. O reformador condenava a prática de venda de indulgências: você pingava dinheiro nos cofres papais e com isso garantia o Reino dos Céus. Daí se vê como muitas das vertentes atuais que se autointitulam evangélicas e são apenas caça-níqueis se afastaram do espírito da Reforma. Em vez de amor e fraternidade, um dos exemplares desses “evangélicos”, Marcelo Crivella (recém-eleito prefeito do Rio), que se autointitula bispo, atribui à Igreja Romana ações demoníacas.

Lutero condenava também a supercentralização de poderes nas mãos dos papas. O ano de 1517 é um marco decisivo, quando ele pregou, no dia 31 de outubro, à porta da igreja do Castelo de Wittenberg, suas famosas 95 teses questionando poderes papais e práticas religiosas. Como as comunicações eram lentas na época, o prepotente papa Leão 10º levou três anos para exigir uma retratação do reformador. Ele não o fez e ainda queimou o documento papal na praça. Como Leão não era nenhum Francisco, excomungou-o e o declarou herege. Uma de suas primeiras preocupações foi iniciar a tradução da Bíblia para a língua alemã tornando-a acessível ao povão.

Podemos resumir a doutrina luterana em alguns pontos, como salvação pela fé e não por obras (ponto em que luteranos e católicos romanos já começam a se entender); verdade somente na Bíblia; batismo e eucaristia são os únicos sacramentos; proibição do uso de imagens nas igrejas; uso do alemão nos cultos religiosos; fim do celibato dos padres; livre interpretação da Bíblia; extinção das ordens religiosas, entre outros. O reformador pretendia livrar a Igreja da política, mas terminou se aliando a príncipes alemães, o que desembocou nas guerras motivadas por religião em grande parte da Europa. A livre interpretação da Bíblia por cada fiel também desembocou em algo esdrúxulo como certas igrejas que se dizem “evangélicas” e têm pastores e até “bispos” que se agarram a alguns trechos avulsos das Sagradas Escrituras para justificar suas atitudes com uma livre interpretação.


Concluo dizendo que ver um papa comemorar a Reforma junto com luteranos é realmente uma reforma e tanto.



Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

terça-feira, 25 de outubro de 2016

PARA UMA ONU DOS POVOS

Por Marcelo Barros



Nessa segunda-feira, 24 de outubro a ONU completa 71 anos, desde que a Carta de sua fundação foi aprovada em 1945. Desde então, a utopia da unidade entre todos os povos sofreu muitos desgastes. A ONU continua controlada pelas grandes potências. É urgente uma profunda reforma nos estatutos da ONU e dos organismos internacionais. Precisamos avançar para a união de uma sociedade planetária que respeite a autonomia de cada país, mas garanta que todos os seres humanos possam sentir a Terra como sua casa comum.

Desde que a ONU foi fundada, os governos-membros foram aprovando vários estatutos e convenções que complementam a Carta da ONU, a Declaração de Direitos Humanos e as convenções internacionais. No entanto, todos os dias, as grandes potências mostram que fazem o que querem. Todos os dias, as convenções internacionais são desrespeitadas e as leis burladas. Isso é praticado principalmente pelas grandes potências das quais a ONU depende. Os impérios continuam a dominar e explorar sem que haja um organismo internacional que tenha força de impedir a invasão de outros países e o massacre de populações inteiras, na Ásia e na África, apenas para garantir aos Estados Unidos a exploração de reservas petrolíferas ou outras riquezas do subsolo. Apesar de todas as convenções assinadas sobre o direito dos migrantes e refugiados, diariamente, milhares de famílias são confinadas em novos campos de concentração construídos pelos países europeus ou devolvidos ao mar para morrerem.  

Nas últimas décadas, os países do Sul tentaram se organizar entre si para fazer valer os seus direitos. Na África, a Organização dos Estados Africanos tentou se tornar um espaço de autonomia para os países africanos. Depois que os Estados Unidos mataram Kadafi e dominaram a Líbia, tudo voltou atrás. Na América Latina, Hugo Chávez, Evo Morales e outros fundaram a Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC), a União das Nações Sul-americanas (UNASUL). Os diversos golpes militares ou parlamentares, patrocinados pelo governo norte-americano na região, fazem de tudo para esvaziar esse projeto. Entre 2014 e 2015, mais de seis bilhões de dólares foram dados à Sociedade Interamericana de Imprensa que reúne 88 grandes meios de comunicação na América Latina para diariamente mostrar que a Bolívia vai mal, o governo da Venezuela não presta e o Equador é um caos. As televisões distorcem as notícias, a maioria acredita e as intervenções do império se tornam possíveis.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgou um estudo que mostra: o topo da pirâmide social brasileira é composto por cerca de 71 mil super-ricos. Eles representam 0, 05 da população adulta do Brasil, o que representa um escândalo de desigualdade social de dimensões planetárias". Nessas eleições municipais, vários desses milionários foram eleitos. No atual governo federal, vários deles são direta ou indiretamente responsáveis pela situação política e pela crise que vivemos. Enquanto isso, a imensa população brasileira vota nos seus opressores. Nessas eleições municipais, a população mais pobre votou como uma barata tonta que escolhesse se proteger embaixo do chinelo que vai esmagá-la. Nossos telejornais conseguem milagres. Mulheres pobres pregam contra a igualdade entre o homem e a mulher. Negros de periferia falam contra as cotas raciais. Até o povo pobre da Colômbia, esmagado por uma guerra de mais de 50 anos e que produziu quase oito milhões de mortos, vota contra a Paz.
Nesse contexto, movimentos sociais, organizações de base e povos tradicionais se articulam e se unem por uma pauta comum. A partir das bases, ressurge o projeto de uma organização internacional que não seja apenas de governos e sim representativo da sociedade civil. Seu objetivo é dar voz e vez às pessoas comuns e fazer ressoar aos governos que há uma insatisfação geral com o sistema social e político atual. Como afirma o Fórum Social Mundial: "Uma outra forma de organizar o mundo é necessária. Juntos podemos torná-la possível".

Todas as religiões têm como missão tornar a humanidade melhor e o mundo mais amoroso. Se olhamos a realidade internacional e o Brasil, podemos pensar que as religiões fracassaram. O que mais se vê hoje é uma onda de ódio, intolerância e incapacidade de conviver com o diferente. Infelizmente, os próprios religiosos das mais diversas tradições nem sempre têm dado um exemplo diferente das pessoas sem religião. No entanto, de um modo ou de outro, todos os caminhos espirituais propõem conversão e transformação interior. Através do diálogo e da colaboração, elas podem ajudar a humanidade a construir uma sociedade planetária unida. Ao fazer isso, darão um testemunho que irá além de todas as suas pregações e ensinamentos. Revelarão que "Deus é amor e só quem vive o amor vive em Deus e Deus vive com essa pessoa" (Cf. 1 Jo 4, 16).  



  Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

UMA NOVA PRIMAVERA NA IGREJA

No dia 13 de outubro, estando em Recife, Leonardo Boff reuniu mais de 500 pessoas no auditório G2, da Universidade Católica, para falar sobre a nova primavera que o papa Francisco trouxe para a Igreja. 

O evento foi promovido por dois grupos locais: o Encontro da Partilha e o o Fé e Política Dom Helder Camara e contou com o apoio do Instituto Humanitas, da Universidade Católica.


Assistam abaixo, na íntegra, a palestra de Leonardo Boff




quarta-feira, 13 de julho de 2016

ISSO É UMA FARSA


Por Eduardo Hoornaert



O que hoje acontece com a política no Brasil não é novidade. É a continuação de uma longa série de farsas revestidas de seriedade, que a história registra ao longo dos tempos. Como interpretar de forma diferente a recente declaração do Presidente do Senado, Renan Calheiros, quando diz que no final de agosto os exaustivos trabalhos do julgamento final do impeachment de Dilma devem estar concluídos? Que trabalhos hercúleos são esses, para exigir tanto tempo e tanto empenho? Os senadores estão trabalhando tanto que não têm tempo para rir, de tanto se aprofundar em pilhas de documentos. Isso me lembra uma anotação no Diário do escritor americano Henry Miller, em 1938. Após visitar Adolfo Hitler, ele escreveu: Aqui as coisas andam mal. O homem não sabe rir. Não, neste momento senadores e senadoras não riem, pois não é brincadeira revestir todo esse calhamaço de roupa séria. A cada momento se arrisca soltar uma palavra errada e fazer com que apareça, num rasgo da cortina, a cara farsante de todo o empreendimento. 

Uns dias atrás, Eduardo Suplicy fez em público um apelo à sua ex-mulher Marta, atualmente senadora, dizendo: ‘Marta, você sabe que é golpe. Então diga o que sabe’. Mas Marta não diz o que sabe, pois ela pensa no futuro. Como reza o provérbio espanhol:El dia que diga lo que pienso, me borran del mapa. Mesmo o ex-senador Pedro Simon, homem esclarecido, numa entrevista concedida no dia 13 de abril deste ano, seis dias antes da sessão do impeachment na Câmara, pareceu não acreditar que tudo daria em farsa, pois deu a impressão de ainda acreditar que fosse possível que empreiteiros assumissem posições independentes, ao citar o nome do empreiteiro Antônio Ermírio de Moraes. Como isso fica hoje, quando assistimos (pelo menos os/as que assistem à TV) a efusivos abraços entre Michel Temer e empreiteiros?

Uma resposta válida à farsa consiste na paródia e na ironia, como mostram escritores particularmente lúcidos. Se não for por um agudo senso de um mundo às avessas, totalmente injusto, como teria nascido Dom Quixote de Cervantes, o Idiota de Dostoievski, o Rei Lear de Shakespeare? Mas parece que nossos irônicos sumiram do mapa. Onde está Millôr Fernandes, o ‘Amigo da Onça’ da saudosa Revista ‘Realidade’, o ‘Professor Raimundo’ de Chico Anísio? Onde está Macunaíma, o ‘herói sem caráter’? Hoje ficamos condenados a ver a pantomima de Tiririca que troca a honrada roupa de cômico pelo paletó de deputado farsante. Parece que o mundo está contaminado pela suprema seriedade de Bonner no Jornal Nacional, que é capaz de dizer as maiores barbaridades com a cara mais lisa do mundo. Certo, Bonner é a cara da Globo. Mas não é só a Globo, praticamente todos os canais de TV nos condenam a ver e ouvir sempre as mesmas coisas, ditas com uma seriedade que assusta.

Se tudo isso é farsa para uns poucos, é tragédia para muitos. 

Tragédia para os desempregados, as mães que vivem com crianças em bairros populares, os pais de família que procuram dar do melhor a seus filhos. Mas parece que estamos diante de um regime que ‘joga duro’, ‘não brinca em serviço’ e ensina ao povo que é preciso sofrer (o termo politicamente certo é ‘superar a crise’)? O rosto de Michel Temer mostra que a seriedade é a marca registrada desse tipo de regime. Parece que esse rosto fala e diz: ‘Saiba manter a postura. Você não vê que são os empreendedores que fazem o Brasil, não os malandros? ’. Então é preciso fazer como o Presidente Temer: exibir sempre um controle emocional, calcular bem o que se diz e principalmente fugir da espontaneidade, do riso e da brincadeira, que são atributos de descendentes de escravos.


Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.


www.eduardohoornaert.blogspot.com.br/