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quinta-feira, 3 de maio de 2018

BRASILEIROS CADA VEZ MAIS POBRES



 por Frei Betto

       O Brasil se destaca como um dos países mais injustos do mundo. Os dados são do governo Temer, divulgados a 11 de abril deste ano, pela  Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, feita pelo IBGE.

       Nossa população atual é de 213 milhões de habitantes. Apenas 1% da população, 2.130 pessoas, recebe 36,1 vezes mais do que ganha a metade mais pobre da população. O rendimento médio mensal dessa metade mais pobre era de R$ 754 em 2017, enquanto a média recebida pelos mais ricos, de R$ 27.213.

       Se todas as pessoas que têm algum tipo de renda no Brasil recebessem o mesmo valor mensal, este seria de R$ 2.112. Não é o que acontece. Metade dos trabalhadores com menores rendimentos ganha, em média mensal, R$ 754, enquanto o 1% com os maiores rendimentos recebe, em média, R$ 27.213, ou seja, 36,1 vezes mais.

       Em 2017, 5% dos trabalhadores tinham rendimento médio mensal de apenas R$ 47. Houve uma queda de 38% em relação a 2016, quando a renda média mensal desses 5% era de R$ 76.

       Houve também queda no percentual de domicílios beneficiados pelo Bolsa Família. Passou da fatia de 14,3% em 2016 para 13,7% em 2017. Temer corta sem dó nem piedade.

       Em 2017, 60,2% da população brasileira, (124,6 milhões de pessoas) tinham algum tipo de renda, sendo 41,9% (86,8 milhões de indivíduos) provenientes do trabalho, e 24,1% (50 milhões) originários de outras fontes.

       Entre rendimentos de outras fontes, o mais frequente era aposentadoria ou pensão, recebido por 14,1% da população, seguido por pensão alimentícia, doação ou mesada (2,4%); aluguel e arrendamento (1,9%); e outros rendimentos (7,5%), categoria que inclui seguro-desemprego, programas de transferência de renda (como Bolsa Família) e poupança, entre outros.

       Em 2017, do total de 207,1 milhões de pessoas residentes no Brasil, 124,6 milhões (60,2%) possuíam algum tipo de renda, seja proveniente de trabalho (41,9% das pessoas) ou de outras fontes (24,1% das pessoas), como aposentadoria, aluguel e programas de transferência de renda.

       Outra maneira de constatar a distribuição de renda no Brasil é através da renda domiciliar per capita (por pessoa), calculada da seguinte forma: somam-se todos os rendimentos de um domicílio e divide-se pelo número de moradores.

       Em 2017, a renda média domiciliar per capita foi de R$ 1.271. Da massa de R$ 263,1 bilhões gerados, os 20% da população com os maiores rendimentos ficaram com uma parcela superior à dos 80% com os menores rendimentos.

       Em 2017, os 10% mais pobres da população detinham apenas 0,7% de toda a massa de renda do País. Já os 10% com mais ricos concentravam 43,3% de toda a riqueza, montante superior à massa detida por 80% da população com renda mais baixa.

       Combater a desigualdade social é o principal desafio de um Brasil bem administrado.



Frei Betto é escritor, autor do romance “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.

 Copyright 2018 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

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Maria Helena Guimarães Pereira

MHP Agente Literária - Assessoria

E-mail - mhgpal@gmail.com

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Mais uma vez Natal...

POR Maria Clara Lucchetti Bingemer



       E mais uma vez é Natal.  Mais uma vez o ritmo da vida se torna frenético por algumas semanas, o trânsito insuportável, as lojas repletas.  Mais uma vez as pessoas se acotovelaram com listas nas mãos, comprando presentes inúteis e supérfluos em sua maioria, para outras pessoas que deles não necessitam.

       E mais uma vez é Natal. Mais uma vez os supermercados aquecem suas vendas com os inevitáveis perus, pernis, presuntos tender e frutas secas. Homens vestidos de Papai Noel desidrataram-se sob o calor tropical, com longas barbas brancas para estimular nas criancinhas desde cedo os desejos de consumo de presentes a não mais poder.

       Mais uma vez é Natal.  E uma vez mais aqueles para quem nunca é festa continuarão sem ter nada para celebrar.  Mesmo com as meritórias campanhas do Natal sem Fome, das ceias organizadas por esta ou aquela igreja, sempre haverá gente sob as pontes, nas ruas, que não tem sequer para onde ir, nem onde morar, nem onde comer na noite de Natal.

       Mais uma vez é Natal e a ocasião desta festa porá a nu os contrastes injustos e inexplicáveis de que é formada nossa sociedade, onde o que sobra para uns não vai suprir a falta e as carências de outros.  Mais uma vez as festas em família se farão sobretudo em torno de comida e presentes, e quando o último gole de champanhe for saboreado, juntamente com a última fatia de peru, o tédio se abaterá sobre mais uma festa  sem que se saiba o que foi celebrado.  Ou melhor, esqueceu-se o motivo da sua existência e celebração.

       Porém, mais uma vez é Natal e será verdadeiramente Natal em alguns lares e em algumas vidas nas quais a escala de valores e prioridades se harmoniza com o Mistério que é a razão de ser da festa. E mais uma vez será vivido com devoção e profundidade o evento de salvação, o Mistério inaudito do Amor de Deus, que toma carne em um indefeso Menino que nasce de uma pobre mulher e não tem lugar para ficar, a não ser o estábulo onde dormem e comem os animais.

       Mais uma vez é e será Natal para gente que celebra na simplicidade este Mistério do amor humilde e oblativo de um Deus que não se aferra a suas prerrogativas e se faz carne, se faz criança, se faz um de nós, em um mundo dividido e violento.  Mais uma vez é e será Natal para aqueles e aquelas que, mesmo nomeando-o de diferentes maneiras, acreditam que Esse que vem na forma de criança indefesa e desvalida é o Único capaz de trazer a paz, a harmonia, a concórdia a este mundo que insiste em destruir-se a si mesmo.

       Nossa sociedade e nossa cultura são tão pobres e vazias de transcendência que muitos custamos a perceber, por trás das ceias e presentes que nos obnubilam e ofuscam, o Mistério translúcido e discreto da Encarnação de Deus no seio de uma mulher, e de seu nascimento do ventre livre e pobre desta mesma mulher.  E, no entanto, mais uma vez  é Natal.  Mais uma vez Deus nos diz com o nascimento desta criança que Sua Aliança conosco é para sempre. Que por mais que façamos ou desfaçamos nunca poderemos atingir mortalmente ou acabar com Seu amor, que resiste a todas as barbaridades que possamos cometer.

       Por isso é Natal. Não apenas nas casas bem equipadas com bens perecíveis, alimentos sofisticados e presentes.  Não apenas nas casas não tão aparelhadas, mas nas quais foi e continua sendo possível uma ceia melhor que aqueça o estômago e o coração.

       É Natal igualmente nas ruas e pontes onde famílias inteiras se defendem contra a fome e desabrigo pela proximidade dos corpos  que se transmitem um a um  humano calor.  É Natal nas penitenciárias, onde homens e mulheres sofrem a privação da liberdade, mas também e não menos a privação dos mais elementares direitos humanos.  É Natal em todas as regiões do globo, mesmo naquelas onde as armas mortais fazem estragos e destruições aparentemente irreparáveis.

       É Natal em Falluja, em Beslan, no Iraque, na faixa de Gaza.  É Natal na Ucrânia e no país basco.  É Natal nas Antilhas.  É Natal na África, em cada um de seus países, onde as crianças foram riscadas do mapa do mundo e estão condenadas pelas grandes potências a morrer de inanição e onde as mulheres, além da pobreza, têm que lutar contra o encurtamento inexorável de suas vidas pelo avanço assustador da AIDS.

       É Natal para sempre em todo lugar, mesmo onde os números, as estatísticas e - mais que isso - a realidade, negam cinicamente que seja ou possa ser Natal. Pois Aquele que vem é cantado pela boca da comunidade cristã que interpreta as profecias.  E é cantado e celebrado como Conselheiro Admirável, Deus Forte, Príncipe da Paz. Filho primogênito do Criador do Universo, cujo Reino se estende por toda a Terra, o Menino que vem fará com que as armas sejam transformadas em arados, os instrumentos mortais em meios de paz, o deserto em jardim, a violência em concórdia e comunhão.

       Diante da simplicidade inaudita do Mistério de uma criança que nasce de uma mulher, façamos silêncio, tomemos uma atitude de contemplação e adoração.  Mais uma vez é Natal e será Natal para sempre. Porque apesar de tudo, Deus não deixa de acreditar na pobre humanidade que somos e nos oferece a cada ano, com infinito amor, este presente admirável que é Seu Filho.

 Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora de Teologia da PUC-RJ.  A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc)

segunda-feira, 25 de julho de 2016

VIVER: UM PERIGO CADA VEZ MAIOR

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 


             E agora foi a Festa Nacional Francesa: o 14 Juillet, a Queda da Bastilha em 1789, inicio da Revolução Francesa.  Em Paris havia arquibancadas no Champs Elysées para o desfile.  Em todas as cidades do país, comemorações.  Em Nice, na tradicional Promenade des Anglais, os fogos de artifício, programa das famílias, havia terminado e todos voltavam tranquilos para casa,  quando irrompeu o caminhão dirigido por Mohamed Lahouaiej Bouhlel, em velocidade furiosa por mais de dois quilômetros.

E a festa cívica transformou-se em uma quantidade impressionante de corpos mutilados, muitos deles de crianças.  Os feridos foram levados aos hospitais e os parentes iniciaram a via dolorosa para encontrá-los ou pelo menos saber notícias. Crianças gritavam desesperadas, perdidas de seus pais.  Um carro de bebê foi encontrado e resgatado por uma senhora, e os pais conseguiram encontrar o filho perdido no pânico.  Os habitantes da cidade abriam as portas para acolher os que fugiam desesperados.

O mundo soube horas depois.  As vítimas começaram a ser identificadas e as autoridades a se pronunciarem. E o Estado Islâmico a reconhecer a autoria.  Todos nós, observando, tínhamos a estranha sensação de já haver visto este filme, estas cenas, este enredo de horror.  Assim foi em Paris em novembro de 2015. Em Bruxelas, no metrô, poucos meses depois, e na redação do Charlie Hebdo, em janeiro de 2015.  E etc etc etc.

Sempre a sensação do susto, da surpresa nefasta, do lugar escolhido a dedo para ter força simbólica, em macabra coerência, o terrorismo não quer apenas matar e destruir pessoas físicas.  Quer atingir símbolos, estilo de vida, valores, tudo aquilo que compõe a identidade cultural de uma nação.  Não mata apenas homens e mulheres, mas atinge em cheio a liberdade de expressão, o lazer, o prazer de viver, a participação em uma comemoração lúdica e patriota. Faz-se presente com seu potencial destruidor ali onde não seria esperado que estivesse, onde não era esperado, onde não havia por que estar presente.

Por isso, colhe as pessoas no exercício de sua identidade mais profunda, vivendo seus valores mais arraigados e queridos, atingindo não só as vidas, mas a forma como as pessoas escolheram viver suas vidas.  É como se dissesse: nada mais de lazer, de casa de shows, de restaurantes ao ar livre, de festas cívicas com fogos de artifício.

Como pode uma população defender-se contra isso?  Como, se justamente a estratégia é anular a capacidade de defesa, embotar a inteligência que procura antecipar-se à ação do terror, cercear a vigilância que sempre sai ludibriada?  Como se nada é coerente, se nada faz sentido, se tudo é um festival de perplexidades?

Por isso, mesmo é o terrorismo tão difícil de ser combatido.  Em situações como a nossa, na cidade e no país, a violência também é terrível e altamente mortífera.  Mas há algumas convergências que pelo menos nos permitem gestos e ações de autoproteção, que se não dão segurança real, pelo menos fazem efeito psicológico: não levar dinheiro consigo, não caminhar em certos lugares quando já é noite, não andar na rua e sim no shopping, não saltar do ônibus em lugares isolados, colocar trava elétrica nos carros para trancá-los.

 Porém, o que acontece na Europa e, sobretudo em certos países como a França, é diferente.  O perigo pode estar em qualquer tempo e espaço.  Todo lugar, toda situação é perigosa.  E quando se vê, a vida como um todo é perigosa e as pessoas passam a viver acuadas, com medo e insegurança permanentes.  As famílias voltam de férias antes da hora porque houve atentados.  E os que não voltam não conseguem mais aproveitar as férias.  Os terraços dos bares já não são cenários de despreocupação e alegria. Sobre eles pesa o estigma do acontecido em outros terraços, em outros espaços destinados ao lazer e à alegria de viver.

A lógica do terror é incompreensível e inassimilável.  Porque seu objetivo é o terror mesmo. A morte é parte do jogo.  O que importa é semear a insegurança e o medo, e transformar o mundo em espaço de perigo. Os desdobramentos de Nice não se sabe quais serão.  Em termos de discursos parecem bem semelhantes aos eventos anteriores.  Será, porém, que as potências ocidentais pretendem assumir ações efetivas, tais como fazer mudanças nas políticas migratórias, alterar seu modelo de vida a fim de incluir os que até agora se sentem intrusos e indesejados?  Em nome das vítimas, sobretudo das crianças de cá e de lá, que tiveram suas vidas e seu futuro roubados, é de se esperar e de se rezar por um SIM.

   Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ. A teóloga é autora de Teologia e literatura - Afinidades e segredos compartilhados (Ed. Vozes)   
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