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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

A HUMANIDADE MAIOR QUE OS NACIONALISMOS



                  por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Charles Louis de Secondat, barão de La Brède e de Montesquieu – mais conhecido simplesmente como Montesquieu – filósofo e jurista francês e ilustre representante do Iluminismo do século XVIII é autor de uma frase que me marcou desde os primeiros estudos na Aliança Francesa em meu antigo e amado Colégio Sion:
            “Se eu soubesse de algo útil à minha nação, mas nocivo a outra, eu não a proporia a meu príncipe.  Porque sou homem antes de ser francês ou bem porque sou necessariamente homem, não sendo francês senão por acaso. ”
            A crise das queimadas na Amazônia que vive o Brasil nos últimos dias me trouxe de volta esta frase tão luminosa em sua sabedoria e válida através dos tempos.  A pertença à humanidade é e tem de ser maior que nacionalismos, regionalismos ou  qualquer “ismo” que se atravesse no caminho de sua universalidade. 
            A Amazônia arde, queima.  Há tempos já que as chamas ameaçam devorar a floresta.  E o mundo se manifesta, demonstrando algo que o Papa Francisco afirma em sua encíclica “Laudato Si”.  O universo é nossa casa comum.  A terra é nossa mãe. Se não a cuidamos, pior ainda, se a agredimos, ficaremos não apenas sem a natureza e suas belezas e benesses. Nós com ela morreremos, pois nossa vida e nosso destino estão indissolúvel e inapelavelmente ligados ao seu. 
            Desde que o Criador fez Adão do barro e da terra, e soprou em suas narinas o hálito divino, a humanidade é chamada a habitar o universo criado e dele cuidar com desvelo e carinho.  Da natureza vem o alimento que comemos e a água que bebemos, a beleza que vemos, os sons que emitem os seres vivos e chegam a nossos ouvidos, os perfumes diversos do mundo vegetal e animal e, por fim, mas não por isso de menor importância, o ar que respiramos. 
            Por isso, o que acontece com a natureza nos afeta a todos e deve convocar-nos inapelavelmente a agir quando esta se encontra ameaçada.  Saber que a Amazônia, a maior área verde do planeta, vem sendo agredida com seguidas e vastas queimadas não é um problema do Brasil ou das nove nações em cujas áreas se encontra a  Amazônia.  É um problema universal. 
            A mobilização do mundo inteiro com a proporção aumentada das queimadas, portanto, é mais que compreensível, louvável.  E mais ainda o é quando nações estrangeiras oferecem ajuda para minimizar os nocivos efeitos desses incêndios que tanto ameaçam, agridem e ferem de morte a vida em todas as suas formas, inclusive a humana.
            Antes da atual crise, países como a Alemanha e a Noruega doavam somas importantes para a preservação do bioma amazônico. A política do atual governo brasileiro foi por eles contestada e a generosa contribuição ameaçada de ser retirada.  A resposta do Brasil surpreendeu.  Nela não se percebia desejo de escuta e muito menos gratidão, mas um nacionalismo exacerbado que parecia significar dispensar a ajuda oferecida.
            Recentemente, quando explodiu o alerta sobre as queimadas, o diálogo endureceu com a França e o presidente Emanuel Macron. Este contestou a política ambiental do Brasil, houve resposta e discussão.  O conflitivo diálogo perdeu-se em acusações desnecessárias, além de comentários equivocados, que chegaram a envolver até mesmo as primeiras damas francesa e brasileira.  A reunião do G7 aconteceu em meio à polêmica. O presidente Macron, como porta voz do coletivo reunido, em uma atitude bastante louvável, assumiu postura conciliadora, oferecendo uma soma importante ao Brasil para combater os incêndios na Amazônia.
            Leio, porém, perplexa que tal oferta não será aceita?  Apenas se o presidente francês pedir perdão? Caros presidentes, pedir perdão é sempre uma atitude nobre, mas pelo que me parece do caso em pauta, ou o perdão é de parte a parte ou a oferta de ajuda já é um gesto conciliador que dispensa outras explicitações. Não seria o momento de pensar mais no bem comum e menos no amor próprio ferido e em um suposto “nacionalismo” ameaçado? Não seria o momento de reagir não segundo a nacionalidade, mas segundo a condição humana que é comum a todos?
            Às sábias palavras de Montesquieu poderíamos adicionar as de Chico Mendes, herói inconteste do meio ambiente, mártir da causa ecológica: “No início eu defendia os seringueiros, depois compreendi que devia defender a natureza e, por fim, percebi que devia defender a Humanidade.”
É da humanidade que se trata, senhores.  Não de tal ou tal nação.  Somos brasileiros ou franceses por acaso e humanos constitutivamente.     

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “O mistério e o mundo”  (Editora Rocco), entre outros livros.

Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

segunda-feira, 23 de abril de 2018

DONA IVONE LARA E SEU SONHO MAIOR




por Maria Clara Bingemer 

Imagino Dona Ivone Lara entrando no céu e abrindo passagem com sua presença majestosa e suave. Seguramente foi recebida com cuícas, tamborins, cavaquinhos e quantos mais sejam os instrumentos que a acompanharam por toda a vida.  No samba viveu, dele bebeu inspiração e sentido. Ao samba deu o melhor de si, do samba sua vida projetou-se para além dela mesma.  O samba foi sua casa, sua moradia, seu abrigo, sua verdade e sua raiz. Como não havia de acompanhá-la quando entra na vida plena e definitiva pela qual todo ser humano aspira? 
O samba foi o sonho sonhado e realizado dessa que hoje o Brasil chora.  Rainha, primeira dama de todos os enredos e escolas.  Presença inspiradora para o seu querido Império Serrano e luz fulgurante para as mulheres, os negros e quantos buscam nesse Rio de Janeiro e nesse Brasil o caminho para a luz e a paz. Essa mulher negra bebeu música desde que abriu os olhos para o mundo.  Aprendeu a tocar, a cantar e isso a ajudou a atravessar a precoce orfandade e as muitas lutas da vida que se apresentaram.

Nunca se separou do samba.  Entrou no território machista e patriarcal da organização das escolas e foi a primeira mulher a compor um samba enredo escolhido e presente na avenida.  Em território onde os homens predominam e as mulheres ficam em segundo plano, Dona Ivone sempre foi respeitada e reinou soberana. Foi madrinha da ala dos compositores de sua escola Império Serrano.  “Nasci para sonhar e cantar”, dizia ela em um de seus sambas. E sonhou e cantou durante toda a sua vida. 

O sonho da moça nascida em Botafogo foi sendo traduzido e comunicado em suas composições.  Seu coração se derramava em samba e enchia ouvidos e corações, sendo depois cantado em várias bocas e dançado nos pés incansáveis de seu povo. 


“Nasci para sonhar e cantar/ Na busca incessante do amor/Que desejo encontrar”, cantava a rainha do samba.  Nessa busca do amor era incansável, na “madrugada/ que padece e não esquece”. Mas anunciava que “há sempre um amanhã para o seu pranto secar”. 

 Dona Ivone amou e foi amada.  Teve filhos, netos e bisnetos. Viveu a gama de emoções e sentimentos que toda mulher experimenta quando ama e  sonha com o amor feito de entrega total e plenitude.  Mas também conheceu, por experimentar ou por observar nos que a rodeavam, a dor do desejo não satisfeito, do sentimento não correspondido, da saudade, do sonho não realizado. E assim compôs sambas que falam de traição, de volta, de perdão e distanciamento, de coração magoado e de vida retomada, ultrapassando mágoas e ressentimentos. O samba “Sonho meu”, gravado por ela  e por outros grandes intérpretes é um de seus carros-chefes. Fala de um sonho que vai buscar quem mora longe.
Dona Ivone era negra.  Uma negra orgulhosa de sua identidade e de sua negritude. Para cantar a beleza de sua condição compôs sambas inesquecíveis. O mais famoso talvez seja  “Sorriso negro”, no qual canta sua identidade e a maravilha do sorriso negro, do abraço negro, de tudo que traz felicidade porque é a raiz da liberdade. Canta o “negro que já foi escravo”, que é a voz da verdade, é destino, é inspiração, é amor, e também saudade. Sua voz suave e solene ressoou durante décadas, levantantou alto a bandeira da negritude e desse povo a quem o Brasil deve capítulos gloriosos de sua história. 

Dona Ivone Lara jamais parou de sonhar.  E seus sonhos foram em boa parte realizados.  Sua amada escola Império Serrano cresceu e foi campeã.  Ela fez enredo para a escola e também foi enredo em 2012.  Seu talento foi reconhecido e celebrado em todos os tons. À medida que o tempo passava, sua inspiração enchia o cancioneiro brasileiro de beleza e ritmo, e ela se afirmava como rainha do samba que tanto amou. Como mulher e negra, pertencendo portanto a duas categorias que em nosso país ainda devem lutar por seus direitos, conseguiu abrir caminho e ocupar um espaço que jamais lhe será tirado. 

Hoje, quando choramos sua ausência e celebramos o rastro luminoso que deixou atrás de si não podemos deixar de lembrar um dos sonhos de Dona Ivone que ainda não se encontra plenamente realizado.  No samba “Juízo Final”, ela expressa sua utopia, comum a todos os brasileiros e a todos os seres humanos.  Trata-se do sonho de que o bem vença o mal, de que o amor triunfe e seja eterno novamente.  Dona Ivone cantou em seu samba desejar “ter olhos para ver” do mal ser queimada a semente e a maldade desaparecer.  Sonhou ver e viver o triunfo definitivo do bem sobre o mal e do amor sobre o desespero e a tristeza. 

Dona Ivone, primeira dama, estrela maior de nosso samba, creio que agora você sabe que o amor vai triunfar. Lá, de onde você canta samba por toda a eternidade, certamente pode experimentar essa plenitude do amor e da paz.  Só nos resta agradecer pelo tanto de beleza, inspiração, talento que você derramou sobre nós.  A semente do mal ainda não foi totalmente destruída, mas o amor teimosamente levanta a cabeça e a esmaga a cada momento.  Você muito contribuiu para manter viva e desperta  a esperança de que um dia acontecerá o triunfo do amor sobre toda maldade. 

 Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de  Testemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial, entre outros livros.

 Copyright 2018 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

segunda-feira, 12 de março de 2018

UM SEXTO SENTIDO MAIOR QUE A RAZÃO

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer
Já dizia a compositora e cantora – mais que isso, pensadora Rita Lee – que mulher é bicho esquisito porque tem um sexto sentido maior que a razão. Não, não se trata da velha historinha machista de que o homem é a razão e a mulher, a sensibilidade; o homem é o espírito, a mulher é o corpo.  E por aí vai. Séculos de enganos e embustes com essas sandices.
No entanto, há que reconhecer que – graças a Deus! – a mulher é diferente do homem.  E aí me parece perfeita a canção de Rita Lee. Mulher sente de outro modo e isso faz com que pense de outro modo.  Tem um sexto sentido maior que a razão. E este dom que a faz ser o que é permite que traga para o meio do mundo contribuições preciosas que sem ela não existiriam.
Há mulheres que pensam.  E muito! E bem! Com rigor, com profundidade, refletindo sobre coisas sérias, ou fazendo pesquisas de ponta que vão salvar vidas.  Mas enquanto o homem tem necessidade de estar mergulhado cem por cento nas coisas sérias que faz e pensa, a mulher consegue o milagre de fazer e pensar tudo isso e também amamentar uma criança, cozinhar, enfeitar ambientes com flores. Plural, múltipla, a atenção da mulher se dirige a mais de uma coisa ao mesmo tempo, sem que isso prejudique a qualidade com que assimila e trata uma e outra.
Para uma mulher, viver momentos de absoluta transcendência e elevada contemplação jamais foi incompatível com estar com os pés bem fincados no cotidiano, beijando os filhos, arrumando a casa e cuidando de quem precisa.  É Adélia Prado, a grande poeta, quem diz: “aos domingos bato o osso no prato chamando o cachorro. E atiro os restos”. A mesma Adélia, católica praticante, que nesse mesmo domingo certamente foi à missa e escreveu: «a missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum». E que, contemplando Jesus Crucificado na festa do Corpo de Deus, exclama em transe poético: “Eu te adoro, ó Salvador meu, que apaixonadamente me revelas a inocência da carne”.
A transcendência arrancada de sua inacessibilidade é trazida para o chão da vida e para o cotidiano mais simples e despojado.  A mulher, bicho esquisito, com seu sexto sentido maior que a razão, consegue fazer isso. Passa das coisas mais transcendentais às mais concretas sem se sentir por isso dividida, fragmentada ou diminuída. A sublime capacidade de integrar diferentes níveis da existência realizando harmoniosa síntese, este é o dom maior da mulher em meio à vida.
Que nos confirme Santa Teresa de Ávila, a grande, a mística que viveu graças inenarráveis generosamente prodigalizadas a ela pelo Deus a quem amou e que a amou infinitamente.  Ela encontrava o esposo sempre amado nos êxtases aos quais era amorosamente conduzida, mas não menos entre as panelas, cuidando das irmãs doentes, ou viajando em lombo de burro pela Espanha afora. Essa intimidade com o divino através e por meio do humano é própria não só das santas, mas de todas as mulheres em diferentes situações de vida.
Senão como entender os sentimentos e as atitudes de tantas mulheres que enfrentaram na sua fragilidade os poderes mais autoritários e cruéis da história da humanidade apenas para salvar vidas vulneráveis e ameaçadas?  A história do nazismo está cheia de exemplos. Como entender que quando todos já deram por perdida a vida do jovem envolvido com o tráfico, a mãe continue a enfrentar os traficantes ao risco da própria vida para requisitar o corpo do filho, a fim de enterrá-lo dignamente?  Essas mulheres, como todas as outras, não acreditam na morte, têm uma aliança profunda com a vida e sua fonte inexaurível. E seu sexto sentido lhes diz que a vida acaba triunfando...desde que alguém faça sua parte, inclusive elas.
A Escritura está cheia de exemplos de mulheres que mudaram o rumo da história do povo de Deus.  Desde as parteiras egípcias que mentiram descaradamente ao faraó, desobedecendo sua ordem de matar os bebês das mulheres hebreias e salvando assim todo um povo;  passando por Sara, mulher de Abraão, que depois de haver rido incrédula acreditou na promessa de Deus de engravidar na velhice e foi mãe de Isaac; chegando em Maria de Nazaré, que viveu uma gravidez sem pai, enfrentando a sociedade patriarcal de seu tempo; chegando às mulheres, que ao terceiro dia foram ao túmulo para ungir o corpo do crucificado, se depararam  com a boa nova da ressurreição e a espalharam pelo mundo afora.
Sexo frágil não foge à luta, dirá ainda Rita Lee.  O Dia Internacional da Mulher celebra aquela que permite ao mundo continuar em movimento, pois traz em seu corpo o segredo da vida. Aquela que, em comunhão com os ciclos da mãe terra, inscreve uma e outra vez no livro da vida novas letras, caracteres, narrativas e histórias.  Aquela que suspira de gozo, geme de dor, chora de tristeza ou de alegria e mantém sempre as antenas ligadas no canal do sexto sentido, para que o perfume possa ser derramado por toda parte; para que o vinho que alegra a festa não falte; para que o Infinito possa caber no finito; para que o Espírito possa fecundar a argila; para que o Criador caiba todinho em seu ventre.
A elas, a nós, um muito feliz Dia Internacional da Mulher.  Em tempos de denúncias de abusos, assédios, servidões e explorações as mais diversas; quando o Brasil é quase campeão da violência contra a mulher, é bom sentir que temos um sexto sentido maior que a razão; que nossa fragilidade é nossa força; e que o drama da Gata Borralheira terá final feliz não por causa do príncipe e do sapatinho de cristal, mas devido à capacidade de amar que caracteriza a verdadeira nobreza, perceptível no fogão ou nos salões.
Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.
É autora de "Deus amor: graça que habita em nós” (Editora Paulinas), entre outros livros.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

DEUS PAI: O MISTÉRIO MAIOR DA VIDA E DO AMOR

Maria Clara Lucchetti Bingemer

            O Dia dos Pais é sempre um momento propício para refletir sobre a paternidade que anda tão em crise ultimamente.  Na verdade, a ausência ou o vazio da figura paterna é um dos grandes problemas da humanidade hoje.  E talvez um problema ao qual não se presta suficiente atenção. 

Enquanto abundam os estudos sobre as consequências da privação do cuidado materno, não é dito o bastante sobre os efeitos devastadores da falta da figura paterna, que faz tanto ou mais vítimas que a primeira.  Algumas doenças atuais como anorexia, bulimia, toxicodependência, que estão dizimando as últimas gerações de filhos, podem ser vinculadas diretamente a esta realidade.  Também o aprofundamento de fenômenos, tais como o neonazismo e outras formas de delinquência juvenil reconduz ao vazio de uma figura masculina positiva, conectada com uma paternidade forte.  Desde um ponto de vista psicanalítico, estar privado do pai equivale a estar privado da espinha dorsal.

Somos a geração da emancipação sob todas as formas.  Mas é ao mesmo tempo uma geração de filhos sem pai. Esta realidade apresenta graves consequências. Deixou caminho livre nas sociedades mais avançadas ao crescimento de seitas e fundamentalismos.  A falta do pai nas instituições de base, como a família, repercute na estrutura política pelo avanço dos sistemas totalitários e da emergência das "figuras carismáticas", nas quais pode-se ler, em nível simbólico, a busca daqueles atributos paternos que são o ser juiz, protetor etc. e que empalidecem no vácuo da paternidade que marca nossa sociedade. 

Para nós, cristãos, Pai é o nome próprio de Deus.  Reconhecer o Pai, carregar o nome do Pai, buscar a proteção e o amor do Pai em nosso dia a dia é reflexo da experiência primordial da fé que professamos, que nos diz que Deus, o Deus em quem cremos, não é uma ideia, um absoluto sem nome e sem contornos, ou uma muleta da qual lançamos mão nos momentos difíceis.  Trata-se d´Aquele que Jesus de Nazaré ensinou a chamar de Pai. 

Embora a paternidade do Pai seja um dom para toda a humanidade, é no Cristianismo que a nomeação de Deus como Pai toma lugar de forma central. Crer no Pai implica conhecer o Filho, que é quem o revela, e abrir-se à presença do Espírito que conduz ao Pai por mediação do Filho.  

É essa fé num Deus que é Pai que nos une como cristãos. Embora divididos em diversas igrejas, vivemos uma só fé: cremos em Deus-Pai. A humanidade é rica em raças, povos, nações, religiões, culturas. A grande maioria da humanidade, mesmo sem a consciência cristã, trabalha por causas éticas, pela edificação da grande família humana, vive o amor fraterno, a justiça social, a busca da verdade, a luta pela paz, a defesa dos direitos humanos. A fé, porém, permite identificar Deus Pai como fonte e origem de toda essa diversidade. 

Cremos que Ele é o criador de todos os povos e culturas. É o Pai da grande família humana. Ninguém está fora do alcance de sua vontade salvadora, de seu amor paterno, de sua graça. Sendo Pai de Jesus Cristo é, através dele, Pai de todos os seres humanos. Jesus é o Filho sobre o qual o Pai derrama todo o seu amor. Reparte, porém, sua filiação divina, não somente com seus discípulos, mas com toda a humanidade. Temos, em Cristo, um só Pai da grande família humana! 

Mergulhados em dolorosa orfandade, vítimas da pobreza, da violência, da marginalização e da indiferença, muitos não fazem sequer a experiência positiva de um pai humano, quanto mais do Pai divino. Por isso tanto sofrimento, tanto dilaceramento, tanta desorientação em vidas que não tiveram a figura paterna para norteá-las e orientá-las. E por isso também a dificuldade de experimentar um Deus que dê sentido à vida e organize o mundo. 

 Embora Deus seja Pai de todos, muitos não o nomeiam assim porque não o conhecem. Eis por que o Evangelho é boa notícia.  Anuncia e comunica a todos que Deus é amor, e amor de Pai.  Amor tão grande que é de Pai com jeito de mãe.  Pai que não se exclui - como quer a mentalidade machista -  das funções que são próprias da mãe: alimentar, consolar, cuidar, acarinhar. Pai que troca fraldas, que dá mamadeira, que faz dormir quando o escuro da noite ameaça e explode em desamparado choro.  Pai que toma nos braços, que põe no colo, que embala e canta cantigas de acalanto. 

Mas é o Pai também quem ensina o caminho do bem e da justiça, que corrige os rumos e sabe introduzir o princípio da realidade quando o filho embarca em viagens desastrosas ou em perigosas aventuras, quando a sociedade regida unicamente por um desordenado princípio do prazer quer cooptá-lo em suas voragens.  Pai ensina que o que importa na vida não é o dinheiro, o êxito, o poder.  Mas a responsabilidade.  E esta implica dar de comer ao faminto, de beber ao sedento, vestir o nu, abrigar o errante, visitar o doente ou o encarcerado. 

A esses e essas Jesus ensina que ouvirão no final de suas vidas: “Vinde benditos de meu Pai”. São benditos por estarem sintonizados com a paternidade divina, que assume amorosamente a responsabilidade e o cuidado dos que não têm quem os auxilie.  São benditos porque caminham ao encontro dos outros para auxiliá-los e redimi-los.

Que sejam benditos os pais no seu dia.  Sobretudo os pais que amam seus filhos e os orientam por esses caminhos. Aos filhos desses pais, Deus mostra Seu rosto paterno e bondoso e os recebe na alegria da vida em plenitude.

  Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ. A   teóloga é autora de “O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora Rocco.

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segunda-feira, 25 de julho de 2016

VIVER: UM PERIGO CADA VEZ MAIOR

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 


             E agora foi a Festa Nacional Francesa: o 14 Juillet, a Queda da Bastilha em 1789, inicio da Revolução Francesa.  Em Paris havia arquibancadas no Champs Elysées para o desfile.  Em todas as cidades do país, comemorações.  Em Nice, na tradicional Promenade des Anglais, os fogos de artifício, programa das famílias, havia terminado e todos voltavam tranquilos para casa,  quando irrompeu o caminhão dirigido por Mohamed Lahouaiej Bouhlel, em velocidade furiosa por mais de dois quilômetros.

E a festa cívica transformou-se em uma quantidade impressionante de corpos mutilados, muitos deles de crianças.  Os feridos foram levados aos hospitais e os parentes iniciaram a via dolorosa para encontrá-los ou pelo menos saber notícias. Crianças gritavam desesperadas, perdidas de seus pais.  Um carro de bebê foi encontrado e resgatado por uma senhora, e os pais conseguiram encontrar o filho perdido no pânico.  Os habitantes da cidade abriam as portas para acolher os que fugiam desesperados.

O mundo soube horas depois.  As vítimas começaram a ser identificadas e as autoridades a se pronunciarem. E o Estado Islâmico a reconhecer a autoria.  Todos nós, observando, tínhamos a estranha sensação de já haver visto este filme, estas cenas, este enredo de horror.  Assim foi em Paris em novembro de 2015. Em Bruxelas, no metrô, poucos meses depois, e na redação do Charlie Hebdo, em janeiro de 2015.  E etc etc etc.

Sempre a sensação do susto, da surpresa nefasta, do lugar escolhido a dedo para ter força simbólica, em macabra coerência, o terrorismo não quer apenas matar e destruir pessoas físicas.  Quer atingir símbolos, estilo de vida, valores, tudo aquilo que compõe a identidade cultural de uma nação.  Não mata apenas homens e mulheres, mas atinge em cheio a liberdade de expressão, o lazer, o prazer de viver, a participação em uma comemoração lúdica e patriota. Faz-se presente com seu potencial destruidor ali onde não seria esperado que estivesse, onde não era esperado, onde não havia por que estar presente.

Por isso, colhe as pessoas no exercício de sua identidade mais profunda, vivendo seus valores mais arraigados e queridos, atingindo não só as vidas, mas a forma como as pessoas escolheram viver suas vidas.  É como se dissesse: nada mais de lazer, de casa de shows, de restaurantes ao ar livre, de festas cívicas com fogos de artifício.

Como pode uma população defender-se contra isso?  Como, se justamente a estratégia é anular a capacidade de defesa, embotar a inteligência que procura antecipar-se à ação do terror, cercear a vigilância que sempre sai ludibriada?  Como se nada é coerente, se nada faz sentido, se tudo é um festival de perplexidades?

Por isso, mesmo é o terrorismo tão difícil de ser combatido.  Em situações como a nossa, na cidade e no país, a violência também é terrível e altamente mortífera.  Mas há algumas convergências que pelo menos nos permitem gestos e ações de autoproteção, que se não dão segurança real, pelo menos fazem efeito psicológico: não levar dinheiro consigo, não caminhar em certos lugares quando já é noite, não andar na rua e sim no shopping, não saltar do ônibus em lugares isolados, colocar trava elétrica nos carros para trancá-los.

 Porém, o que acontece na Europa e, sobretudo em certos países como a França, é diferente.  O perigo pode estar em qualquer tempo e espaço.  Todo lugar, toda situação é perigosa.  E quando se vê, a vida como um todo é perigosa e as pessoas passam a viver acuadas, com medo e insegurança permanentes.  As famílias voltam de férias antes da hora porque houve atentados.  E os que não voltam não conseguem mais aproveitar as férias.  Os terraços dos bares já não são cenários de despreocupação e alegria. Sobre eles pesa o estigma do acontecido em outros terraços, em outros espaços destinados ao lazer e à alegria de viver.

A lógica do terror é incompreensível e inassimilável.  Porque seu objetivo é o terror mesmo. A morte é parte do jogo.  O que importa é semear a insegurança e o medo, e transformar o mundo em espaço de perigo. Os desdobramentos de Nice não se sabe quais serão.  Em termos de discursos parecem bem semelhantes aos eventos anteriores.  Será, porém, que as potências ocidentais pretendem assumir ações efetivas, tais como fazer mudanças nas políticas migratórias, alterar seu modelo de vida a fim de incluir os que até agora se sentem intrusos e indesejados?  Em nome das vítimas, sobretudo das crianças de cá e de lá, que tiveram suas vidas e seu futuro roubados, é de se esperar e de se rezar por um SIM.

   Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ. A teóloga é autora de Teologia e literatura - Afinidades e segredos compartilhados (Ed. Vozes)   
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sexta-feira, 24 de julho de 2015

A AMIZADE: FORMA MAIOR DO AMOR

Por Maria Clara Bingemer



            Amigo é coisa pra se guardar...debaixo de sete chaves... já cantava Milton Nascimento com sua monumental voz.  Amigo é feito casa, que se faz aos poucos e com paciência para durar pra sempre... afirma Zélia Duncan...Amigo é pra essas coisas... cantava o MPB4 nos meus tempos de menina.

            No Brasil não se comemora tanto o Dia do Amigo.  Não é assim em outros países, como a Argentina e o resto da América hispânica.  A data é bem celebrada e amigos se paparicam uns aos outros, jantam fora, se dão presentes etc.  Já o grande escritor argentino Jorge Luis Borges dizia que a única virtude de seus conterrâneos é o vício da amizade.  E é verdade – eu concordo porque tenho marido portenho. Os argentinos são convencidos, selvagens no futebol e muitas coisas mais.  Mas quando são amigos, demonstram lealdade a toda prova e morrem por você.

            Na realidade, a amizade tem tudo a ver com o amor e é deste uma das formas mais excelentes e profundas.  A palavra tal como a pronunciamos deriva do latim “amicus” (amigo), que possivelmente se derivou de amor, amar. É uma relação afetiva profunda entre pessoas sem características romântico-sexuais. Envolve conhecimento mútuo e afeição, e supõe lealdade até a morte, até o ponto do altruísmo e do sacrifício. Pode e efetivamente acompanha igualmente relações de outro tipo: entre pais e filhos, entre irmãos e mesmo entre namorados e cônjuges.

            Envolve um tanto de gratuidade e dedicação, e de aceitação do outro tal como ele é.  Amigos podem ser diferentes, mas se aceitam e se acolhem com todas as suas diferenças, amando-as e não rejeitando-as. Por isso, os amigos são pessoas que se conhecem muito entre si, mais que os próprios familiares e cônjuge.  São depositários de toda a confiança recíproca e muitas vezes são confidentes privilegiados.

            Esta é a razão pela qual a amizade é cantada pela música, celebrada pela poesia e santificada pelas religiões.  Seu valor é ser uma experiência humana de vital importância.  A Bíblia narra e comenta casos de amizade prototípicos que inspiraram a humanidade ao longo dos séculos.  No primeiro livro de Samuel, a amizade entre Davi, que depois seria rei, e Jonatas, filho do rei Saul, é uma dessas. E o glorioso rei Salomão  escreveu a sabedoria da Amizade em seus Provérbios: "Em todo o tempo ama o amigo, e na angustia se faz o irmão"

No Novo Testamento, Jesus de Nazaré exalta a amizade – philia – e a cita como exemplo de sua relação com os discípulos.  “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai.” Pronuncia essas palavras ao comparar-se a uma videira da qual os discípulos são os ramos e Deus Pai o agricultor.  E acrescenta:  “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos...Vós sois meus amigos, se fazeis o que vos mando.”

Já na Antiga Grécia, o termo “philia” – o mesmo que emprega o Novo Testamento – é traduzido geralmente como “amizade” e, às vezes, também como “amor”. Aristóteles dá vários exemplos de “philia”, desde amantes até membros da mesma comunidade religiosa, mas destaca os amigos para toda a vida. E o Estagirita não deixa de sublinhar que se trata de uma experiência eminentemente humana, e não pode ser vivida com animais, sendo possível apenas usar o termo “philia” com animais de estimação.

O conteúdo central da “philia” é, portanto, o de fazer bem a alguém e também recebê-lo de alguém.  Aristóteles ainda ousa acrescentar que a “philia” é necessária como um meio para atingir a felicidade, afirmando literalmente: “Ninguém escolheria viver sem amigos, mesmo se tiver todos os outros bens”.

Assim tenta explicar Jesus de Nazaré aos discípulos quanto os ama e quanto os considera seus amigos.  E isso certamente não é pelas virtudes desses: o covarde Pedro, o traidor Judas, os violentos filhos de Zebedeu, o corrupto Mateus e os outros que nada entendiam por mais que ele explicasse.

Ser amigo é assim.  É amar pelo que o outro é, com virtudes e defeitos.  E por isso é tão bela a amizade, ungida inclusive pela vivência e ensinamento do Filho de Deus Encarnado.  Amigos devem ser os cônjuges senão nada sobrará da ardente paixão dos primeiros tempos.  E os namorados, para que o namoro dure e se transforme em união durável.  E os pais, porque senão os filhos crescem e vão querer partir e não dar mais notícias. E os irmãos, senão no momento da herança se engalfinharão de maneira lamentável.

E os simplesmente amigos... bênção maior da vida, que são como casa que se faz aos poucos, tesouro a se guardar debaixo de sete chaves, alguém com quem contar em qualquer momento, mão estendida quando todos se foram. 

Bendito seja Deus pela amizade.  E benditos os amigos que ao longo da vida me amam como sou e não como desejariam que eu fosse.  Obrigada de coração a todos vocês.  E vocês sabem que podem contar comigo.  Sempre... Para o que der e vier.

 A teóloga é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco. 

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