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terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

DIÁLOGO, COMPROMISSO DE AMOR E AMIZADE SOCIAL

 


Marcelo Barros

 

Pela primeira vez na história, neste 2021 ainda tão excepcional, vivemos esta quarta-feira de cinzas sem ter tido Carnaval. Ainda há católicos que pensam: a quarta-feira de cinzas e a Quaresma existem para se pedir perdão pelos pecados cometidos no Carnaval. Seria como as  cinzas da quarta-feira fossem as fantasias queimadas do Carnaval apenas concluído.

É verdade que, em tempos medievais, os dias de folia surgiram como a última liberdade antes da Quaresma. No entanto, no plano mais profundo, a Quaresma nada tem a ver com a negação das alegrias da vida. Já na Idade Média, Santa Mectildes, monja beneditina, afirmava que Deus é como uma criança que gosta de brincar e nos quer como companheiros/as para criar alegria. Antes dela, no século IV, João Crisóstomo, bispo e pai da Igreja, ensinava: “Mesmo em meio aos sofrimentos do dia a dia, o Cristo ressuscitado vem fazer da nossa vida, uma festa contínua”.

Assim, na antiguidade, a Quaresma surgiu, não para organizar a rotina de quem já peca pensando em depois pedir perdão e sim como tempo no qual se curte a alegria de preparar a celebração anual da Páscoa, sacramento da nossa libertação. Nesta preparação da festa pascal, é fundamental responder ao chamado de Jesus à conversão (metanoia). Ela significa mudança dos critérios e padrões que regem nosso estilo de vida. Isso nada tem a ver com a figura de um Deus mesquinho, recalcado sexualmente, como se fosse um Coronavirus divino, que exige isolamento social e não permite abraços, beijos e contatos corporais.

A conversão proposta por Jesus pede  transformação na nossa forma de olhar o outro. Ensina a nos relacionar com as pessoas e comunidades, de qualquer raça, cultura e religião. Faz-nos assumir o cuidado com todos os seres vivos e com o universo, sacramento da presença divina.   

Neste ano, no Brasil, temos a possibilidade de responder juntos a este apelo pascal do Espírito, através da 5a Campanha da Fraternidade Ecumênica, como sempre, proposta e coordenada pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC). Ela tem como lema: Fraternidade e Diálogo: Compromisso de Amor. O tema “Cristo é nossa Paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2, 14).

Se as Igrejas cristãs obedecessem à palavra da carta do apóstolo aos efésios e compreendessem a missão de Jesus de forma universal, em relação ao mundo e não apenas à religião, nem precisariam dessa Campanha da Fraternidade. Elas mesmas seriam permanentemente e de modo profundo isso que essa campanha nos traz como tema e como lema. No entanto, alguns grupos eclesiais continuam se comportando como seitas. O primeiro sinal disso é chamar de seitas a outras Igrejas. Por isso, a CFE 2021 se faz necessária e mesmo urgente. Ela faz com que esta celebração da Páscoa nos confirme que a atual separação das Igrejas cristãs chega a ser uma dor muito grande para o Cristo ressuscitado. A divisão entre Igrejas parece tornar inútil tudo o que Jesus, viveu e realizou, já que “ele morreu para reunir na unidade os filhos e filhas de Deus dispersos pelo mundo” (Jo 11, 52).  

Em seu tema, a CFE 2021 repete: “Cristo é a nossa Paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2. 14). Poderia ter continuado: “Como as Igrejas parecem ter desfeito o que Jesus fez e terem reconstruído o muro de divisão que o próprio Cristo tinha derrubado (Ef 2, 13), esta Páscoa é ocasião para recompor esta diversidade reconciliada que o Cristo tanto deseja.

Concretamente, toda Campanha da Fraternidade propõe ações de solidariedade que expressem e concretizem o apelo à conversão que acolhemos. Sem dúvida, todos nós somos chamados, em nome da fé e como caminho pascal, a apoiar e fortalecer os grupos, entidades e organismos que buscam politicamente uma frente ampla pela democracia e em defesa dos direitos dos pobres. Precisamos nos posicionar mais efetivamente do lado de profetas como Júlio Lancelotti e tantos outros/as, na defesa das pessoas em situação de rua. Precisamos acolher e valorizar a profecia da solidariedade manifestada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), durante este longo tempo de pandemia, ao partilhar toneladas de alimento com famílias em situação de insegurança alimentar. Assim, poderíamos elencar dezenas de outras ações, nas quais as Igrejas cristãs devem se mostrar verdadeiramente o que o papa Francisco chama “Igreja em saída”. 

No entanto, no mais cotidiano da vida, o primeiro compromisso ao qual esta Campanha da Fraternidade Ecumênica nos chama é passar da incomunicabilidade e da indiferença social à espiritualidade do diálogo como mística pascal. No tempo dos evangelhos, a incomunicabilidade era considerada sinal de que a pessoa era dominada por uma energia negativa. O surdo-mudo era tido como endemoniado. E Jesus expulsava esse espírito impuro, mesmo de alguém que se manifestasse com esta energia, mesmo no lugar mais sagrado, como era a sinagoga. Hoje, infelizmente, não são apenas pessoas. São grupos eclesiásticos e mesmo alguns ligados ao clero.

Essa CFE 2021 pode ser excelente ritual de exorcismo laical e traduzido na cultura contemporânea. Em seu idioma, Jesus dizia: Effata, que quer dizer: Abre-te. E os ouvidos dos surdos se abriam à escuta e a língua dos mudos se soltava. Hoje, há irmãos e irmãs na fé que nos olham como traidores, porque nos posicionamos contra a discriminação social, a marginalização da mulher, a homofobia e outras expressões de uma sociedade injusta. A eles e elas, podemos dizer também em nome de Jesus: Effata! Abre-te ao diálogo e testemunha que Deus é Amor Incondicional.

Quanto a nós que cremos no Amor, como propunha Gandhi, comecemos por nós mesmos isso que propomos ao mundo.

 

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

O CARISMA DA AMIZADE

 


Marcelo Barros

 

Apesar das vacinas que chegam mais lentamente do que seria necessário, este momento do mundo ainda não permite que o povo se reúna para o Carnaval, como a maioria desejaria. No entanto, em muitos países do mundo, este próximo domingo, 14 de fevereiro, é um dia importante para as pessoas apaixonadas e para os amigos. O motivo é que, além de ser, neste ano, o domingo do Carnaval, é bom sabermos que, no antigo calendário católico, nesta data, se fazia memória de São Valentim.

Trata-se de uma figura do Cristianismo primitivo. Conforme a lenda, no século III, para que os jovens pudessem permanecer disponíveis para ir à guerra, o imperador proibiu que, por um tempo, a Igreja abençoasse casamentos. No entanto, o bispo Valentim os celebrava escondidos. Um dia, isso foi descoberto. O bispo foi preso e condenado à morte. Mesmo na prisão, continuou a abençoar o amor dos jovens. Por isso, em muitos países, até hoje, o "Valentine days" é o dia dos namorados.

Outra lenda antiga fala de um cristão chamado Valentim que se entregou aos guardas do imperador para ser preso e morto no lugar de um amigo, denunciado como cristão. Baseado nisso, a ONU considera o 14 de fevereiro como "o dia da amizade".

Hoje, vivemos mergulhados em um mundo virtual, no qual as redes sociais nos classificam em grupos. Com apenas um clique fazemos um amigo virtual. No entanto, no mundo real, não pode ser assim.

Há alguns anos, um militante de direitos humanos visitava uma aldeia dos índios Bororo, no Mato Grosso. Interessado em ouvir as histórias dos antigos daquele povo, conversava com um dos mais velhos da aldeia. O velho índio se mostrou muito aberto. Mas, quando o outro perguntou se poderia ir à sua casa, o índio respondeu:

- Quando formos amigos, convido você à minha casa.

Isso pode parecer rude, mas é importante para nos darmos conta de como é verdade o que Saint Exupery escreveu: “Amigos não se encontram como produtos em lojas. Não existem lojas de amigos. Para que as pessoas se tornem amigas, precisam de tempo e de gratuidade”.

Atualmente, a maioria da juventude continua repetindo a palavra de ordem dos anos 70: "Faça o amor, não faça a guerra". E, para muitas pessoas, as questões afetivas ainda parecem ser o único eixo de vida que interessa. Até hoje, em forma de novelas, a televisão oferece o amor romântico como pão e circo para as carências da massa.

A partir da 4ª feira de cinzas, 17 de fevereiro, oito Igrejas e grupos ligados ao Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) iniciam a Campanha da Fraternidade 2021 com o tema “Fraternidade e Diálogo, a serviço da paz e da justiça”.

De fato, um grande desafio para os nossos tempos é valorizar as relações pessoais e aprofundá-las, ao mesmo tempo que construir o que o papa Francisco em sua recente encíclica Fratelli Tutti chama de “amizade social”. Alguns grupos de juventude falam em “socializar o amor”.

Na América Latina, temos aprendido que as lutas políticas se tornam superficiais e até inúteis se não procedem do amor e não são permanentemente embebidas de amorosidade. Nesses dias difíceis que atravessamos, em um Brasil incendiado por ondas de violência e de ódio, qualquer brisa de amor refrigera. 

Embora tome formas e expressões diferentes, qualquer forma de amor tem o mesmo DNA. Seja amor de mãe, seja de irmãos, de namorados ou de amigos, todo amor vem da mesma fonte. Trata-se da inteligência amorosa, presente no universo e atuante nas pessoas e em todo ser vivo. As religiões e tradições espirituais a chamam de Deus. A tradição judaica ensina que ao criar o mundo, a luz divina se espalhou como chamas de amor por todo o universo. Ao receberem essas faíscas do Amor maior, fonte de todo amor, todos os seres vivos foram divinizados. Entre eles, cada ser humano é chamado a cultivar e desenvolver essa chama para que ela não se apague. As relações familiares, a participação comunitária e os relacionamentos de amizade e de amor conjugal são instrumentos para a realização plena dessa vocação para o amor.

O amor conjugal tem uma dimensão mais exclusiva. O amor de amizade é mais aberto, gratuito e incondicional. Por isso, místicos de diferentes religiões consideram a amizade como o sinal por excelência do amor divino no mundo. Amar é nossa vocação. Todos os seres humanos são chamados a viver esse caminho. Somos felizes quando nos sentimos nele e por ele nos deixamos conduzir.

Todas as formas de amor são assumidas pelo Espírito Divino que se manifesta em todo e qualquer amor humano. No entanto, o Espírito de Amor nos chama a sermos cada vez capazes de um amor gratuito e mais generoso. Trata-se de amar até quem não ama. ,É levar amor onde não há amor, de modo incondicional e sem limites. Como afirma a carta apostólica: "Deus é amor. Quem vive o amor permanece em Deus e Deus está nessa pessoa" (1Jo 4, 16). 

 

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

 

   

segunda-feira, 20 de julho de 2020

9ª Circular da quarentena – 20 de julho 2020 A amizade, terapia para as pandemias da vida


por Marcelo Barros

Queridos irmãos e irmãs, 

Em várias mensagens de zap, descobri que hoje é o dia da Amizade. Estas datas são meio artificiais e algumas puramente comerciais ou propagandísticas. No entanto, para quem valoriza a amizade como caminho espiritual e projeto de comunhão profunda, é ótimo ter um dia especial para dar graças e celebrar a importância que a amizade pode ter na construção de uma vida. De fato, as pessoas celebram aniversário de nascimento, a cada ano comemoram a data do casamento, os padres valorizam a data de sua ordenação, mas não conheço ninguém que faça festa por aniversário de amizade. E penso que minha vida teria tido outro rumo se não fossem algumas amizades que Deus me deu e me dá a graça de viver até agora. 

Rubem Alves dizia que Roberto Carlos, ao cantar: “eu quero ter um milhão de amigos”, dava a impressão de não saber o que é um amigo. Amizade é algo especial e raro e ninguém pode ter um milhão e se tivesse não seria amizade. Quando eu era jovem, nos ambientes religiosos se falava mal e com suspeita do que chamavam de “amizades especiais”, como se toda amizade não fosse especial. 

Parece que, comumente, as pessoas não distinguem muito um/a amigo/a de um colega ou companheiro, parceiro, camarada. É claro que, às vezes, para mim ou para vocês, uma ou outra pessoa preenche algumas destas diversas funções ou até todas. No entanto, é sempre bom diferenciar. 

Na Idade Média, o místico cisterciense Elredo de Rielvaux escreveu belas páginas sobre a espiritualidade da amizade. Deixou claro que a construção de uma amizade pode ser caminho maravilhoso para o aprofundamento da intimidade com Deus. Ele dizia: “Irmão, somos de todo mundo e devemos ser. Amigo, não. Amigo, a gente escolhe”.  

Esta diferença é fundamental. Colega  a gente se torna por acaso, parceiro ou sócio é coisa de comércio ou de trabalho. Camarada ou companheiro é quem está conosco na caminhada social e política. Amigo a gente escolhe. Elege e aí cada amigo ou amiga se torna único/a. Já nos anos 50, a raposa dizia ao Pequeno Príncipe: “Eu não como trigo e o trigo para mim seria indiferente. Mas, se eu e você nos tornarmos amigos, eu vou passar a gostar do trigo porque as espigas têm a cor dourada dos seus cabelos e aí o trigo vai me lembrar você e ao ver o trigo, eu já serei feliz”.

E concluía uma teologia laical e secularizada da amizade com a famosa afirmação: “A gente se torna eternamente responsável por alguém que a gente cativa”. Nunca encontrei outra definição melhor para a amizade.

Quando estudei a espiritualidade dos monges beneditinos medievais, descobri que em algumas Igrejas locais, nos séculos X e XI, se faziam ritos de juramentos de amizade, assim como se expressava a aliança de vida no ritual do casamento. Ao pensar nisso, me lembro de Jesus no momento forte da santa ceia e na véspera de sua partida dizendo ao grupo de seus discípulos e discípulas: “Eu não chamo vocês de servos e servas. Chamo-os/as de amigos/as, porque revelei a vocês as coisas mais íntimas que recebi do meu Pai...” (Jo 15, 15). 

Realmente, é o que posso testemunhar. No decorrer de minha vida, recebi como presente divino amigos e amigas que considero a maior riqueza que a vida me deu. Alguns são amigos/as há mais de 40 e 50 anos. Outros são bem mais recentes e me ajudam viver o diálogo com a juventude.  Como Jesus contou na parábola dos trabalhadores da vinha, o Senhor quis pagar aos trabalhadores da última hora o mesmo que receberam aqueles que trabalharam o dia inteiro. Amizade não se mede por tempo. Não tem medida. 

Sinto que quando a amizade se vive como projeto de vida e espiritualidade a subversão ao sistema dominante é radical e profunda por uma força misteriosa que só quem sabe a delícia de ser amigo pode compreender. 

Neste dia da amizade, saúdo com gratidão a cada amigo/a e lhe dedico um poema atribuído ao grande Fernando Pessoa que o teria escrito, há quase cem anos:  

Poema do amigo aprendiz
   
Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, (se for assim sempre mais)
Intimidade sem véus que separem 
E se estar juntos sem tomar espaço. 
mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias…
Deus abençoe a cada um/ uma de vocês. 
Com carinho, o irmão Marcelo

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

O CHAMADO DA ALIANÇA DE AMIZADE



Por Marcelo Barros


Ninguém larga a mão de ninguém” se tornou palavra de ordem nos grupos e movimentos sociais diante da demência assassina que, em nosso país, se tornou forma de governo. A decisão de estar juntos pode ser como caminhada de companheiros na mesma luta, mas pode também ser mais profunda, ao tomar a expressão de aliança de amizade. A amizade afetuosa é gratuita e tem em si mesma sua razão de ser. No entanto, em uma sociedade marcada pelo desvínculo e por uma cultura que torna as pessoas imunes umas às outras, a amizade se torna também projeto sócio-político que aponta para outra forma de viver em sociedade.
Em muitos países, o 14 de fevereiro é um dia importante para as pessoas apaixonadas e para os amigos. O motivo é que, nesse dia, no calendário católico, se faz memória de São Valentim. Uma lenda antiga fala de um cristão chamado Valentim que se entregou aos guardas do imperador para ser preso e morto no lugar de um amigo, denunciado como cristão. Há alguns anos, a ONU considera o 14 de fevereiro como "o dia da amizade".
No mundo atual, fala-se muito de amor. No entanto, muitas canções, telenovelas e filmes ressaltam mais impulsos egoístas de posse do outro do que uma peregrinação de amor que conduz a pessoa ao coração da outra. E quando, nessas obras comerciais, o amor chega a ser mostrado, é de um modo idealizado, irreal e longínquo de nós, pobres mortais, envolvidos em uma realidade de vida bem mais complexa.
Atualmente, o desafio das pessoas e grupos comprometidos com a vida é unir as pontas de uma realidade que, embora complexa, é uma só. O presidente Hugo Chávez afirmava que a política se não se concretizar em ato de amor se torna inútil e contraproducente. Assim, nesses dias difíceis que atravessamos, em um Brasil incendiado por ondas de violência e de ódio, qualquer brisa de amor refrigera e toda forma de carinho vale a pena.  
Embora tenha muitas expressões diversas (amor de mãe, de esposos, de amizade ou de irmãos), o amor é um só. Todas as formas têm o mesmo DNA. Vêm todos da mesma fonte. Há uma inteligência amorosa, presente no universo e atuante nas pessoas e em todo ser vivo. As religiões e tradições espirituais a chamam de Deus. A tradição judaica ensina que ao criar o mundo, a luz divina se espalhou como chamas de amor por todo o universo. Então, ao receberem essas faíscas do Amor maior, fonte de todo amor, todos os seres vivos foram divinizados. Entre eles, cada ser humano é chamado a cultivar e desenvolver em si mesmo e nos outros essa chama para que ela não se apague. As relações familiares, a participação comunitária e os relacionamentos de amizade e de amor conjugal são instrumentos para a realização plena dessa vocação para o amor.
O amor de amizade é aberto, mais gratuito e incondicional. Por isso, místicos de diferentes religiões o consideram o sinal por excelência do amor divino no mundo. Amar é nossa vocação.
Todas as formas de amor são assumidas pelo Espírito Divino que se manifesta em todo e qualquer amor humano. No entanto, o Espírito de Amor nos chama a sermos cada vez capazes de um amor gratuito e mais generoso. Trata-se de amar até quem não ama, de levar amor onde não há amor, de modo incondicional e sem limites. Esse amor de doação total pode conter em si a dimensão erótica. Pode também assumir a expressão de uma amizade bela e madura. Mas é,  principalmente, amor de solidariedade e bem querer gratuito. No grego bíblico, se chama agapé e está contido na expressão "Deus é amor. Quem vive o amor permanece em Deus e Deus está nessa pessoa" (1Jo 4, 16).  

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

   

segunda-feira, 19 de junho de 2017

QUANDO A AMIZADE CHEGA TARDE

 Maria Clara Lucchetti Bingemer



            A amizade é uma das formas mais nobres de amor.  Já o grande filósofo Aristóteles, na Grécia Antiga, a definia como  "uma forma de excelência moral" ou "concomitante com a excelência moral", "extremamente necessária à vida".  E prosseguia:  "De fato, ninguém deseja viver sem amigos, mesmo dispondo de todos os outros bens".

            Em seu livroÉtica a Nicomaco, o Estagirita disserta sobre a amizade:  "Com efeito, a amizade é uma parceria, e uma pessoa está em relação a si própria da mesma forma que em relação ao amigo; em seu próprio caso, a consciência de sua existência é um bem, e, portanto, a consciência da existência de seu amigo também o é, e a atuação desta conscientização se manifesta quando eles convivem; é, portanto, natural que eles desejem conviver. E qualquer que seja a significação da existência para as pessoas e seja qual for o fator que torna a sua vida digna de ser vivida, elas desejam compartilhar a existência de seus amigos; sendo assim, alguns amigos bebem juntos, outros jogam dados juntos, outros se juntam para os exercícios do atletismo ou para a caça, ou para o estudo da filosofia, passando seus dias juntos na atividade que mais apreciam na vida, seja ela qual for; de fato, já que os amigos desejam conviver, eles fazem e compartilham as coisas que lhes dão a sensação de convivência".

            Os amigos de Carlos Eduardo Albuquerque Maranhão, o Sarda, o Cadu, desejavam com ele conviver como faziam no tempo em que eram alunos do Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro.  Naquele tempo, todos admiravam o colega rebelde, de cabelos longos, luminosa inteligência e grande sensibilidade artística.  Diferente, Cadu contestava a disciplina, as diretrizes do colégio, mas era alguém alegre, do bem, querido e com muitos amigos entre os colegas.

            Essa convivência um dia foi interrompida quando o Sarda tropeçou com as drogas em seu caminho.  Aliás, esse fantasma disfarçado de amigo aparece e assombra muito pessoas de grande sensibilidade, que buscam seu lugar no mundo com mais trabalho que os outros. E Cadu, ou Sarda, ou Carlos Eduardo cedeu às seduções das substâncias que o faziam viajar e certamente nos primeiros tempos lhe proporcionavam euforia, gostosas sensações; que lhe aguçavam a inteligência e aumentavam ainda mais a sensibilidade e o gosto musical. A morte do melhor amigo contribuiu certamente para que a “viagem” do querido colega e companheiro de tantos se aprofundasse em mergulho sem volta que foi acabar na Cracolândia, em São Paulo.

            Ali ele foi encontrado, muitos anos depois, pelos amigos que nunca o esqueceram.  Ao verem sua foto no jornal, em meio ao reboliço da polícia que invadia o local, retirando dali os habitantes, os que nunca haviam esquecido Carlos Eduardo foram à sua procura.  Pois amigo não esquece.  Pode ficar longe no tempo e no espaço, mas quando recebe um alerta, a amizade reemerge, volta e sai no encalço do amigo para encontrá-lo, abraçá-lo e retomar a convivência.  Igualmente para ajudá-lo se necessário.

            E Sarda estava em situação de extrema necessidade.  Chegara a um grau perigoso de uso de drogas.  Sua saúde se encontrava seriamente debilitada.  Perdera peso, dentes.  Só não perdera a sabedoria e a alegria que o levavam a fazer declarações extremamente articuladas sobre a ação da prefeitura na Cracolândia e outras coisas mais. Foi encontrado pelos amigos, que o atenderam no mais urgente e imediato: deram-lhe banho, roupas, alimento.  Buscaram uma clínica para interná-lo, a fim de quí se tratasse e tornasse a ser livre. Abriram uma lista de doações para custear-lhe o tratamento, caro e dispendioso, em uma clínica especializada. 

            Sarda estava alegre, feliz com o reencontro.  A mídia publicou suas fotos e tudo levava a esperar por um final feliz.  Ele queria tratar-se, desejava libertar-se do vício.  E os amigos se desvelavam e punham à disposição tudo que podiam para ajudar a que esse desfecho acontecesse. No entanto, a morte se antecipou e colheu Sarda pelo coração.  Aquele coração sensível, enfraquecido ao máximo pelo uso contínuo de substâncias químicas, parou de bater poucos dias após o ingresso na clínica.

            A amizade chegou tarde e não conseguiu arrancar Sarda ou Cadu das garras dessa que é a inevitável companheira de todo viciado.  Mas – e isso é talvez o mais importante – alegrou seus últimos dias de uma maneira que apenas a relação gratuita e amorosa consegue fazer.  Sarda se sentiu acompanhado, querido, amado.  Voltou a ver que era importante para outras pessoas, que sua vida tinha valor e sentido para aqueles que com ele cresceram e se formaram nos bancos escolares, nos recreios, nas conversas intermináveis, nos passeios a pé de volta do colégio. 

            A tristeza e a frustração dos amigos foram pungentes.  Agora que ele estava começando a viver, como aconteceu isso que ceifou seu projeto tão brutalmente?  Agora que o tinham reencontrado era muito cruel perdê-lo novamente. No entanto, que os acompanhe novamente o grande Aristóteles, que diz: "Quando as pessoas são amigas não têm necessidade de justiça, enquanto mesmo quando são justas necessitam da amizade". 

            Esse grupo que se dispôs a ajudar o colega em situação de rua e de vício com o mesmo carinho dos anos da infância e da adolescência experimentou a graça da amizade que independe do êxito das iniciativas e ultrapassa as maiores frustrações.  Foi bom experimentar que é possível amar alguém profundamente mesmo quando ele ou ela não tem absolutamente nada para dar em troca.  É bom sentir a gratuidade da relação que sempre os ligará a Sarda/Cadu, para além dos limites da vida e da morte. 

            Sarda descansa em paz.  Sem crises de abstinência, angústia, fissura ou outros incômodos e distúrbios provocados pela droga.  A seus amigos fica a saudade, temperada por aquilo que o grande Jorge Luis Borges chamou de vício: a amizade que não pode não amar, não ajudar, não conviver, não se relacionar.  A amizade que dispensa até a justiça, pois pertence à ordem da graça e da gratuidade.  Bendito Sarda, que do fundo do poço onde caiu ainda pôde ensinar tudo isso a seus colegas e amigos que agora se sentem mais unidos graças à sua passagem tardia e efêmera em meio a eles. 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.

Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


sexta-feira, 24 de julho de 2015

A AMIZADE: FORMA MAIOR DO AMOR

Por Maria Clara Bingemer



            Amigo é coisa pra se guardar...debaixo de sete chaves... já cantava Milton Nascimento com sua monumental voz.  Amigo é feito casa, que se faz aos poucos e com paciência para durar pra sempre... afirma Zélia Duncan...Amigo é pra essas coisas... cantava o MPB4 nos meus tempos de menina.

            No Brasil não se comemora tanto o Dia do Amigo.  Não é assim em outros países, como a Argentina e o resto da América hispânica.  A data é bem celebrada e amigos se paparicam uns aos outros, jantam fora, se dão presentes etc.  Já o grande escritor argentino Jorge Luis Borges dizia que a única virtude de seus conterrâneos é o vício da amizade.  E é verdade – eu concordo porque tenho marido portenho. Os argentinos são convencidos, selvagens no futebol e muitas coisas mais.  Mas quando são amigos, demonstram lealdade a toda prova e morrem por você.

            Na realidade, a amizade tem tudo a ver com o amor e é deste uma das formas mais excelentes e profundas.  A palavra tal como a pronunciamos deriva do latim “amicus” (amigo), que possivelmente se derivou de amor, amar. É uma relação afetiva profunda entre pessoas sem características romântico-sexuais. Envolve conhecimento mútuo e afeição, e supõe lealdade até a morte, até o ponto do altruísmo e do sacrifício. Pode e efetivamente acompanha igualmente relações de outro tipo: entre pais e filhos, entre irmãos e mesmo entre namorados e cônjuges.

            Envolve um tanto de gratuidade e dedicação, e de aceitação do outro tal como ele é.  Amigos podem ser diferentes, mas se aceitam e se acolhem com todas as suas diferenças, amando-as e não rejeitando-as. Por isso, os amigos são pessoas que se conhecem muito entre si, mais que os próprios familiares e cônjuge.  São depositários de toda a confiança recíproca e muitas vezes são confidentes privilegiados.

            Esta é a razão pela qual a amizade é cantada pela música, celebrada pela poesia e santificada pelas religiões.  Seu valor é ser uma experiência humana de vital importância.  A Bíblia narra e comenta casos de amizade prototípicos que inspiraram a humanidade ao longo dos séculos.  No primeiro livro de Samuel, a amizade entre Davi, que depois seria rei, e Jonatas, filho do rei Saul, é uma dessas. E o glorioso rei Salomão  escreveu a sabedoria da Amizade em seus Provérbios: "Em todo o tempo ama o amigo, e na angustia se faz o irmão"

No Novo Testamento, Jesus de Nazaré exalta a amizade – philia – e a cita como exemplo de sua relação com os discípulos.  “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai.” Pronuncia essas palavras ao comparar-se a uma videira da qual os discípulos são os ramos e Deus Pai o agricultor.  E acrescenta:  “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos...Vós sois meus amigos, se fazeis o que vos mando.”

Já na Antiga Grécia, o termo “philia” – o mesmo que emprega o Novo Testamento – é traduzido geralmente como “amizade” e, às vezes, também como “amor”. Aristóteles dá vários exemplos de “philia”, desde amantes até membros da mesma comunidade religiosa, mas destaca os amigos para toda a vida. E o Estagirita não deixa de sublinhar que se trata de uma experiência eminentemente humana, e não pode ser vivida com animais, sendo possível apenas usar o termo “philia” com animais de estimação.

O conteúdo central da “philia” é, portanto, o de fazer bem a alguém e também recebê-lo de alguém.  Aristóteles ainda ousa acrescentar que a “philia” é necessária como um meio para atingir a felicidade, afirmando literalmente: “Ninguém escolheria viver sem amigos, mesmo se tiver todos os outros bens”.

Assim tenta explicar Jesus de Nazaré aos discípulos quanto os ama e quanto os considera seus amigos.  E isso certamente não é pelas virtudes desses: o covarde Pedro, o traidor Judas, os violentos filhos de Zebedeu, o corrupto Mateus e os outros que nada entendiam por mais que ele explicasse.

Ser amigo é assim.  É amar pelo que o outro é, com virtudes e defeitos.  E por isso é tão bela a amizade, ungida inclusive pela vivência e ensinamento do Filho de Deus Encarnado.  Amigos devem ser os cônjuges senão nada sobrará da ardente paixão dos primeiros tempos.  E os namorados, para que o namoro dure e se transforme em união durável.  E os pais, porque senão os filhos crescem e vão querer partir e não dar mais notícias. E os irmãos, senão no momento da herança se engalfinharão de maneira lamentável.

E os simplesmente amigos... bênção maior da vida, que são como casa que se faz aos poucos, tesouro a se guardar debaixo de sete chaves, alguém com quem contar em qualquer momento, mão estendida quando todos se foram. 

Bendito seja Deus pela amizade.  E benditos os amigos que ao longo da vida me amam como sou e não como desejariam que eu fosse.  Obrigada de coração a todos vocês.  E vocês sabem que podem contar comigo.  Sempre... Para o que der e vier.

 A teóloga é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco. 

 Copyright 2015 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>