O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador nova. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador nova. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Construir uma Política nova e renovadora

 Marcelo Barros


 

Cada vez mais, no Brasil, se manifesta um modo de fazer Política que consiste em fomentar ódio e violência e em nome de princípios sociais e religiosos. Basta um bispo explicar que “pátria amada” não pode ser “pátria armada” e, logo, um deputado o  insulta publicamente  e destila o seu ódio à conferência dos bispos católicos e ao papa Francisco. Grandes meios de comunicação colaboram para que o próprio exercício da Política caia em descrédito geral. Enquanto isso, a ONU celebra o 76o aniversário de sua fundação (24 de outubro de 1965), com atividades contra o armamentismo e em favor da justiça eco-social e da Paz.

A ONU cumpre a importante missão de zelar para que a sociedade internacional seja impregnada de valores fundamentais como o respeito à dignidade de todos os seres humanos, a supremacia da justiça, a consciência ecológica e a abertura à transcendência. Grande parte da humanidade, mais consciente da realidade internacional, sonha com um organismo mundial que abranja não somente governos, mas também uma representação legítima da sociedade civil internacional. Só uma organização internacional que reúna Estados e também representantes das organizações civis terá força para exigir do governo das grandes potências respeito pelas leis e decisões internacionais. Somente um organismo assim poderá ajudar a humanidade a recuperar a consciência de que somos todos e todas uma só família humana. Que as vacinas contra todas as doenças sejam consideradas bens comuns da humanidade e não devam ser vendidas. É preciso deter a crueldade do governo dos Estados Unidos que, em meio à pandemia, impede que países como Cuba e Venezuela recebam insumos e matérias primas para medicamentos essenciais para a saúde do povo.  

 Nos últimos séculos, o controle cada vez maior, exercido pela Economia sobre a Política tem sido uma catástrofe para o mundo. A Terra tem quase oito bilhões de habitantes. Menos de um bilhão consome sozinho mais de 83% dos recursos disponíveis na terra. Metade da humanidade, mais de três bilhões de pessoas, devem viver com menos de dois dólares por dia. A cada ano, mais de 60 milhões de pessoas morrem de fome. Mais de um bilhão de crianças vive abaixo da pobreza. Conforme cálculos do Banco Mundial, com 40 bilhões de dólares, se poderia resolver todo o problema da fome e da saúde dos pobres no mundo. Ora somente, em um ano, os Estados Unidos gastam dois bilhões de dólares em armas para as guerras que mantêm no mundo. Ao mesmo tempo, a sociedade dominante fecha suas fronteiras aos migrantes que tentam sobreviver ao extermínio.

A sociedade civil não aceita mais essa iníqua organização do mundo. O papa Francisco pede que superemos “a cultura da indiferença”. É urgente estimular uma nova cultura contra a insensibilidade vigente com o que se passa com milhões de seres humanos.

A crise atual aponta para a necessidade de uma nova política econômica e social a serviço da construção de uma sociedade internacional e dos Estados. É preciso unir todas as pessoas de boa vontade e grupos articulados da sociedade civil para “democratizar a democracia”, ou seja, elaborar um novo estilo modelo de Política, efetivamente, centrado no bem comum. Dom Oscar Romero, arcebispo de El Salvador, martirizado em 1980, propunha um retorno ao que ele chamava  de “grande Política”.

Nestes próximos dias, a ONU organiza duas conferências mundiais, uma sobre Biodiversidade e outra sobre Mudanças Climáticas. O papa Francisco e 40 líderes de diversas religiões publicaram um Apelo pela sustentabilidade do planeta e pelo cuidado com a Vida. É importante que em nossos países reforcemos as políticas que garantam esse direito da Vida. 

 

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br  

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

O CAOS DA PANDEMIA ESCONDE UMA NOVA ORDEM NA TERRA

                                Leonardo Boff


Raramente na história já longa da vida, ocorreu uma situação de caos planetário como nos dias atuais. Estávamos acostumados a regularidades e a ordens sistêmicas embora nos últimos decênios temos experimentado também com crescente frequência irregularidades como tsunamis, tufões, terremotos e eventos extremos de calor e de frio.Tais fenômenos levaram os cientistas a pensar e a tentar compreender como dentro da ordem dada podiam ocorrer situações caóticas.

Dai surgiu toda uma ciência, a do caos,tão importante como as outras a ponto de alguns chegaram a dizer que o século XX será lembrado pelo teoria da relatividade de Einstein, pela mecânica quântica de Heisenberg/Bohr e pela teoria do caos de Lorenz/Prigogine.

A essência da teoria do caos reside em que uma mudança muito pequena nas condições iniciais de uma situação leva a efeitos imprevisíveis. Dá-se como exemplo o “efeito borboleta”. Pequenas modificações iniciais, aleatórias, como farfalhar das asas de uma borboleta no Brasil, podem provocar modificações atmosféricas até culminar numa tempestade em Nova York. O pressuposto teórico é que todas as coisas estão interligadas e vão assumindo elementos novos, criando complexidades no curso de sua existência (no caso, calor, umidade, ventos, energias terrestres e cósmicas) de forma que a situação final é totalmente diversa da inicial.

O caos está em todas  as partes, no universo, na sociedade e em cada pessoa. Quer dizer, as ordens não são lineares e estáticas. São dinâmicas e sempre buscando um equilíbrio que as mantém atuantes.

O universo se originou de um tremendo caos inicial (big bang). A evolução se fez e se faz para colocar ordem neste caos pelos milênios afora.

Mas aqui surge uma novidade: o caos nunca é só caótico, ele guarda dentro de si, em gestação, uma nova ordem. Logicamente ele possui seu momento destrutivo, caótico, sem o qual a nova ordem não poderia irromper. O caos é generativo desta nova ordem.

Quem analisou com detalhe este fenômeno foi o grande cientista russo/belga Ilya Prigogine (1917-2003),prêmio Nobel de Química em 1977.  Estudou particularmente as condições que permitem a emergência da vida. Segundo este grande cientista, sempre que existir um sistema aberto, portanto em permanente diálogo e trocas com o meio e sempre que houver uma situação de caos, (portanto, fora da ordem e longe do equilíbrio) e vigorar uma não-linearidade é a conectividade entre as partes que gera uma nova ordem, que seria a vida. (cf. Order out of Chaos,1984).

Esse processo conhece bifurcações e flutuações. Por isso a ordem nunca é dada a priori. Ela depende de vários fatores que a levam a uma direção ou à outra, dai a imensa biodiversidade.

Fizemos toda esta reflexão sumaríssima para nos ajudar a entender melhor o atual caos pandêmico. Inegavelmente vivemos numa situação de completo caos, caos destrutivo de milhões de vidas humanas. Ninguém pode dizer quando termina nem  para onde vamos.Ele conhece múltiplas variantes, é o seu triunfo sobre nossas células. É inegavelmente caótico e está apavorando a inteira humana. Coloca-nos questões fundamentais: que fizemos com a natureza para ela nos castigar com um vírus tão letal? Onde erramos? Que mudanças devemos fazer em relação com a natureza  para impedir que ela nos envie uma verdadeira gama de outros vírus?

Sabemos que há oculto dentro dele uma ordem mais alta e melhor. O pior que nos poderia acontecer seria a continuidade ou a volta ao  passado que criou o caos. Temos que usar nossa fantasia criadora e mais que tudo forjar, por uma prática histórica, uma ordem mais amiga da vida, terna, fraterna e justa. Seria o caos generativo.

Temos que entender o contexto de onde veio o coronavírus. Ele é uma expressão do antropoceno, vale dizer, da sistemática agressão do ser humano à natureza e à Gaia, a Mãe Terra. É a consequência de havermos tratado a Terra como uma mera reserva inerte de recursos ao nosso dispor e não como um super-realismo vivo que merece cuidado e respeito.

A partir da revolução industrial a exploramos tanto que ela já não consegue se autorregenerar e nos oferecer todos os bens e serviços vitais. Temos que inaugurar uma relação de sinergia e sustentável para com a natureza, sentindo-nos parte dela, responsáveis por sua perpetuidade e não seus donos e senhores. Senão operarmos esta conversão ecológica poderemos conhecer catástrofes inimagináveis.

No caso brasileiro, o primeiro que temos que fazer é preservar a imensa riqueza ecológica que herdamos da natureza, em termos de florestas úmidas, abundância de água, de solos férteis e da imensa biodiversidade.

Em seguida  temos que superar a marginalização, o ódio covarde que tributamos aos pobres. O desprezo e as humilhação feitas cruelmente contra a pessoas escravizadas passou a esses empobrecidos. Tal desumanidade deixou marcas profundas na população.

Não em último lugar temos que liquidar o perverso legado da Casa Grande traduzida pelo rentismo e pelos poucos miliardários que controlam grande parte de nossas finanças. Fazem fortunas com a pandemia, sem empatia com os familiares que perderam mais de meio milhão de entes queridos. Eles são o sustentáculo do atual governo necrófilo, cujo presidente se fez aliado do vírus. Esses pontos constituem  o maior obstáculo para superação do caos instalado no Brasil..

Precisamos constituir uma frente ampla de forças progressistas e inimigas da neocolonização do país para desentranhar a nova ordem, abscôndita no caos atual mas que quer nascer. Temos que fazer esse parto mesmo que doloroso. Caso contrario, continuaremos reféns e vítimas daqueles que sempre pensaram corporativamente só em si, de costas para o povo e que devastaram a natureza com seu agronegócio e reforçaram a intrusão no coronavírus entre nós.

Devemos nos inspirar no universo, nascido do caos primordial, mas que, ao evoluir, foi criando ordens novas e cada vez mais complexas até gerar a espécie humana. Nossa missão é garantir a vida, a Mãe Terra e a nós mesmos, criar a Casa Comum dentro da qual todos possam viver em justiça, paz e alegria.Esse modelo deverá sair das entranhas do atual caos e fundar um novo começo para a humanidade.

Leonardo Boff, filósofo e teólogo e escreveu Covid-19 A Mãe Terra contra-ataca a humanidade, Vozes 2020.

 

sábado, 3 de abril de 2021

A PÁSCOA DE UMA NOVA CIVILIZAÇÃO

                                                                     

Mauro Morelli 

Eis que de novo chega a Semana Santa reinando a pandemia com os males que a acompanham, obrigando-nos a fechar portas e portões, em debandada para salvar a própria pele! Na reclusão, perdendo fôlego e alegria de viver, batemos de frente com a angústia e o calafrio do risco eminente da morte se esgueirando para se aninhar nas profundezas de nosso ser.

Pouco a pouco janelas e portas vão se abrindo, pois o alarme para alguns é falso, nada mais do que uma gripezinha, que se afasta com tratamento precoce e, mais ainda, pelo poder de Deus acima de tudo. Vamos pois, porta a fora, para tocar a vida. Afinal, religião é religião; negócio é negócio. Como viver sem nossos botecos, restaurantes, supermercados e shopping centers, sem nossas festas, cultos e procissões?

Pe Dênis Cândido da SIlva

Nos templos e igrejas, sinagogas e terreiros, como nos demais espaços sagrados, com nossos ministros, guias espirituais, padres e pastores, ganhamos o céu sem perder a terra! Tudo continua como dantes, uns com muito, outros com muito pouco e a imensa maioria com quase nada! Sempre foi assim, é o normal da vida. Assim será e Deus seja louvado!

Porém, o tempo passa e o vírus vai ganhando mais força por causa de nossas falsas certezas. Mais do que uma gripe, a peste avança penetrando a fundo em casebres e palácios, uns morrendo à míngua, enquanto outros gozam de recursos que permitem atravessar a tormenta. Gritos e alaridos, protestos são ensaiados para defender a economia, enquanto a saúde despenca ladeira abaixo. O desespero bate nas portas das casas, dos templos e hospitais. Os centros de poder; alicerçados na falsidade de seus objetivos escusos e de alianças espúrias, permanecem omissos e coniventes com o genocídio galopante.

Nas entranhas degradadas da Mãe Terra, não mais fonte de vida, são gestados os vírus da peste que devora crianças, jovens e velhos. O senhorio humano desvairado e insano, rompeu a harmonia da Casa Comum. O tempo se esgota e nossa presença na Casa Comum se torna cada vez mais insuportável. Apelamos para o milagre, quando a resposta está com a ciência e com a consciência que exaltam e honram a biodiversidade e a unidade do pluralismo das formas de vida em comunhão.

Desta forma, confusos e perplexos, “provavelmente viveremos a Páscoa mais insólita de toda a história cristã. Talvez, com exceção de alguns períodos de perseguição em alguns países e em certas épocas da história, as maiores festas cristãs nunca ocorreram sem celebrações públicas. Talvez não tenha havido até agora uma Páscoa, numa tão grande parte do mundo, com as igrejas vazias e em muitos casos fechadas” (Tomáš Halík, O Tempo das Igrejas Vazias, ed. Paulinas, pp. 67-77).

Vamos, então, celebrar a Páscoa?! Mas qual Páscoa? Onde e como? Assim como nos questiona o teólogo tcheco Tomáš Halík, criado num regime ateu diverso do nosso, pretensamente católico e evangélico, estamos dispostos a superar as barreiras ideológicas para encontrar o caminho da fé em Deus que se revela identificado com os descartados, deserdados e crucificados da civilização do ter, do poder e do prazer?

Em plena crise civilizatória, estamos sonhando com a volta à normalidade? Logo mais com meio milhão de vidas ceifadas pela peste nutrida pelo descaso, deboche e omissão, vamos continuar delirando alicerçados em nossas crendices e religiosidade? Ou, rompendo com as amarras que nos escravizam, ousaremos passar pelo vale da morte onde sepultaremos as caricaturas de nossa idolatria e de nosso modo de viver que nos transformou em hóspedes insuportáveis na Casa Comum?

A pandemia torna-se para nós Kairós, uma dádiva do Amor Misericordioso que transforma a desgraça em graça! Muita coisa vai morrer e precisa morrer para o amanhecer do novo. Páscoa é a celebração da Vida triunfando sobre a Morte. Segundo Halík, “neste tempo, a fé de muitos crentes é sacudida, e também muitos “não-crentes” começam a interrogar-se sobre questões fundamentais” (Tomáš Halík, A Pandemia como Experiência Ecumênica. Demolição e Reconstrução, 2020).

A Páscoa é uma história de morte e ressurreição! Celebrar a Páscoa é uma decisão muito exigente, com implicações e desdobramentos que mudam o curso da história, seja a primeira reinando o Faraó, ou a de Jesus de Nazaré, que encerra a disputa entre Jerusalém e Garizim, pois Deus se encontra e se revela em Espírito e na Verdade da Vida; ou agora na pandemia, inaugurando uma nova civilização, em que tudo será novo ou não será!

Estamos dispostos a enterrar nosso modo de ser e de crer como Igreja? Como posso dizer que sou evangélico e católico, reduzindo a fraternidade ao círculo fechado e restrito dos que pensam e creem como nós cremos e pensamos?  Nada resolve mudar de Igreja ou descobrir novas estratégias e fazer piruetas mirabolantes para garantir a relevância e a adesão à nossa Igreja!

Coisa mais estéril e ridícula os gritos histéricos e a pressão para abrir e lotar os templos para louvar a Deus, bem como para acolher as generosas ofertas que garantam o esplendor e os serviços de seus templos.

Quantas coisas nos amarram e desfiguram, distanciando-nos dos primórdios da nossa herança e legado. Não havia senhores e nem servos, nem príncipes ou plebeus, nem ala masculina ou feminina, abastados e carentes; o ministério pastoral era exercido para uma Igreja toda ministerial, uma nova criatura que nasce mergulhando no mar de sangue e água que jorram da cruz.

Esperamos voltar com novas reflexões sobre o serviço convertido em poder, sobre as alianças que transformaram um pobre pescador em rei dos reis, pastores em príncipes revestidos com as pompas das cortes e palácios.

Quais os critérios que nos congregam e regem? Unidade no Pluralismo, Autonomia e Comunhão? Ou Centralização e Subserviência, Feudos e Senhorios?

Uma imagem contendo mesa, quarto

Descrição gerada automaticamente

Kcho, La Ultima Cena. 2011.Óleo sobre tela. 

 

Nesta Quinta Feira Santa, ao recordar a Santa Ceia, em nossos cultos e missas, estamos celebrando e vivendo a Eucaristia? O Concílio Vaticano II nos ensina que “a liturgia é o cume para o qual tende toda a ação da Igreja”. (Constituição Sacrosanctum Concilium, 10).

Jesus de Nazaré, o Verbo encarnado, despojado de glória e poder faz um gesto de escravo que lava os pés de seu senhor! Na Igreja, os últimos são os primeiros, os descartados são acolhidos, os chagados são curados?! Os impuros são acolhidos e purificados com o manto da misericórdia?!

A Eucaristia bem celebrada dispõe de duas Mesas para a Palavra e o Pão, pois a Palavra se fez Gente como nós e Pão que sustenta o peregrino. Eucaristia é Diálogo e Partilha do Amor Misericordioso. Acolher, entender, respeitar e amar as diferenças em suas variantes. Repartir o bocado, isto é, aquilo que é vida para mim.

Vamos celebrar a Páscoa em nossas casas, como nos primórdios, em volta da mesa, melhor se redonda, para o diálogo e a partilha que ajudem a entender quem nós somos, em que mundo vivemos e caminhar em busca de vida sempre mais plena.

“Se para muitos católicos a ida à missa dominical era um dos principais pilares da sua identidade cristã, agora terão de se questionar sobre o que pode ser uma nova e mais profunda fonte da sua vida de fé. O que faz de um cristão verdadeiro cristão, quando o funcionamento da Igreja tradicional de repente deixa de funcionar?” (Tomáš Halík, O Tempo das Igrejas Vazias, p.13).

Essa pandemia tornou nossas mesas mais vazias. Há uma ausência, um vazio, uma saudade. A mesa é profundamente um lugar eucarístico. Os evangelhos nos mostram Jesus em várias mesas, rodeado de gente, sobretudo de pecadores. O cardeal José Tolentino diz: “no centro da liturgia encontrarás a mesa. A mesa onde Jesus quis comer a Páscoa com os discípulos, a mesa de todas as refeições abertas onde acolheu os pecadores, a mesa da Eucaristia onde ele repetidamente se oferece” (José Tolentino Mendonça, Rezar de olhos abertos, ed. Quetzal, p.186).

Votos e preces para a Páscoa de uma nova civilização!

 

 

 

Dom Mauro Morelli é bispo emérito da Diocese de Duque de Caxias (Rio de Janeiro, Brasil); Padre Dênis Cândido da Silva é da Diocese de Luz (Minas Gerais, Brasil) e mestrando em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia em Belo Horizonte (Minas Gerais). 

 

 


terça-feira, 22 de outubro de 2019

A ONU E A OMHU NA CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA POLÍTICA




Por Marcelo Barros

No dia 24 de outubro, a ONU celebra mais um aniversário de sua fundação, ao publicar a Carta das Nações Unidas, em 1945. Embora frágil e com muitos desafios a superar, esse organismo internacional tem sido útil a conduzir a humanidade nos caminhos do diálogo e da paz. A ONU cumpre uma importante missão. Deve zelar para que a sociedade internacional seja impregnada de valores como o respeito à dignidade de todos os humanos, a supremacia da justiça, a consciência ecológica e a abertura à transcendência. No entanto, é organismo de governos. Seus membros são Estados nacionais e governantes. Já há mais de uma década, através da FAO, a ONU reconheceu que a Venezuela superou o analfabetismo e em todo o país estava superada a fome e a desnutrição. No entanto, o império norte-americano armou um bloqueio internacional. Isolou o país que não pode receber de fora nem medicamentos. Além disso, incentivou os comerciantes a boicotarem os gêneros alimentícios. Por isso, a população sofre a ausência de bens necessários para o consumo.

Cada vez mais fica claro que a hegemonia e o controle exercidos pela Economia sobre a Política, no decorrer dos últimos 30 anos, foi uma catástrofe para o mundo. É preciso unir todas as pessoas de boa vontade e grupos da sociedade civil para “democratizar a democracia”. Isso significa elaborar novo estilo modelo de Política, efetivamente, centrado no bem comum. Dom Oscar Romero, o santo arcebispo de El Salvador, martirizado em 1980, propunha o retorno ao que ele chamava  de “grande Política”.

O Banco Mundial afirma que 20% da população mundial, pouco menos de um bilhão de pessoas, consomem sozinhos 83% dos recursos disponíveis na terra. Metade da humanidade, mais de três bilhões de pessoas, devem viver com dois dólares por dia. A UNICEF adverte que mais de um bilhão de crianças vive abaixo da pobreza. Por causa disso, a cada ano morrem de fome de 40 a 60 milhões de pessoas. Conforme cálculos do Banco Mundial, com 40 bilhões de dólares, se poderia resolver o problema da fome e da saúde dos pobres do mundo. Ora somente, em um ano, um país como os Estados Unidos gastam mais de um bilhão de dólares em armas para as guerras que mantêm no mundo. Ao mesmo tempo, a sociedade dominante que provoca as guerras contra os povos pobres, fecha suas fronteiras aos migrantes que tentam sobreviver ao extermínio. Decreta que o destino deles deve ser a morte em seus países ou o fundo do mar nas portas das ilhas de luxo do primeiro mundo. 

Por isso, grande parte da humanidade sonha com um organismo mundial que abranja não somente governos, mas também uma representação legítima da sociedade civil internacional. Só uma organização internacional que, além de Estados, reúna também representantes das organizações civis terá força para exigir do governo das grandes potências respeito pelas leis e decisões internacionais. Só um organismo assim poderá intervir para que o governo de Israel pare de massacrar o povo palestino e proíba os países ricos de estabelecer leis agrícolas protecionistas que destroem a economia dos países africanos.

A humanidade não pode mais aceitar a fome e a miséria como condições normais no mundo. Não basta garantir o cumprimento das leis. É preciso e urgente estimular uma nova cultura que não permita mais a insensibilidade vigente com o que se passa com milhões de seres humanos. O papa Francisco pede que superemos “a cultura da indiferença”.

É preciso que a ONU, as organizações internacionais e cada grupo humano tenha um coração que opte pela vida e nos faça amar. A humanidade está descobrindo a espiritualidade social e política da paz e da justiça.  Organismos internacionais da sociedade civil estão propondo a criação de uma OMHU, Organização Mundial da Humanidade. Não se trata de substituir a ONU e sim de assessorá-la e ajudá-la em sua missão pela paz e pela justiça eco-social. Para isso, no mundo inteiro, as pessoas e grupos estão se organizando em Ágora dos/das Habitantes da Terra. Essa organização se propõe falar em nome da humanidade e defender a vida ameaçada no planeta. Esse tipo de projeto não é apenas importante no plano social e político. É objetivo da fé e da espiritualidade. O evangelho diz que Jesus deu a sua vida para reunir na unidade todos os filhos e filhas de Deus dispersos pelo mundo (Jo 11, 52).

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br  

segunda-feira, 27 de maio de 2019

UMA NOVA DÉCADA



   por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Quando se celebra um novo ano de vida, é costume haver parabéns, bolos e velas.  Mais se faz necessário quando a nova data inaugura uma década. Assim sinto-me eu agora, quando entro nos 70 anos.  Nem em minhas mais longínquas e graves profecias exercitadas sobre mim mesma cheguei a pensar concretamente nisso. E, no entanto, chegou.  Tenho 70 anos.

            O que dizer diante disso?  Primeiro que não me sinto com essa idade toda.  Ou melhor, sinto-me e ao mesmo tempo não.  Sim, porque olhando para os lados e para trás vejo quanto já foi vivido e quantas testemunhas existem que podem atestar de minha vida com eles e elas compartilhada em todos esses anos. Igualmente quantas testemunhas já se foram. e me olham e esperam do outro lado da vida. 

            Porém, não me sinto configurada pelo estereótipo de uma mulher – ou seja uma senhora – de 70 anos.  Quando olhava para minha avó, em sua sétima década de vida, via uma senhora já bem avançada em anos, recolhida ao recinto do lar. Minha mãe, ao entrar nos 70, era mais ativa que minha avó, mas mesmo assim deixava ver pelo branco dos cabelos e pela postura corporal que o tempo avançava sobre seu corpo.

            Não me sinto com 70 porque minha vida tem mudado pouco em relação a anos anteriores.  E acontece hoje como quando tinha 50 ou 60.  A não ser um cansaço mais fácil e uma paciência escassa, trabalho e me movimento tanto ou mais do que antes.  Faço planos, curto a vida, tenho expectativas e acho uma delícia fazer programa com pessoas mais ou mesmo muito mais jovens.  Dentre estes últimos, os preferidos são meus netos Carol, Maria Antônia, Cadu, Lucas e Vicky.  Eles me mantêm acesa e maravilhada, brigam comigo devido a minhas ignorâncias tecnológicas, me contam casos e me fazem perguntas, tantas perguntas, às quais adoro me esforçar por responder.

            Por tudo isso e porque permaneço nessa tensão escatológica entre já me sentir com 70, mas ainda não me experimentar velha, esse aniversário é sobretudo o tempo da gratidão.  Há muito que agradecer, muito mais do que lamentar.  É um rosário de agradecimentos que devem ser verbalizados hoje, do lado de cá da fronteira que ultrapassei.
            E o primeiro é dirigido a Deus, fonte da vida, meu princípio e fundamento, o Senhor da história e das surpresas.  Ele que deu uma reviravolta em minha vida quando me fez assumir uma profissão que ninguém entendia quando eu pronunciava: teologia. Perguntavam: biologia?  E como você vai ganhar a vida com isso?  Aqui estou, aos 70 anos, trabalhando exclusivamente nisso e vivendo.  Aquele que me chamou e me enviou sabe por que o fez.  Eu teria lhe sugerido melhores escolhas, mas parece que ele tem seus critérios independentes dos nossos.  E cá estou, disponível como no primeiro dia.
            O segundo é para a minha família.  Órfã de pai aos 9 anos, filha única, tive uma infância e juventude um tanto “despovoadas” de pessoas, crianças, companheiros.  Agradecidíssima sinto-me por ter podido formar a família que é a minha, com meu marido há 50 anos.  Igualmente por meus três filhos, Lalá, Carlos e Candida, que habitaram meu corpo e dele saíram para serem pessoas, únicas, amadas e encantadoras.  Cada um com seu perfil e sua particularidade, são três graças maiores dessa vida já longa. E obviamente meus netos, crianças que me devolveram um sabor vital que já andava esquecido pelos anos de maternidade e o ninho vazio dos filhos adultos.  Poder ver e ouvir vocês, rir junto e viver esse amor sem ansiedade, repousado e pleno, é algo inestimável.

            Em seguida, vêm meus alunos.  Creio que elas e eles são os grandes responsáveis pelo fato de o envelhecimento ser por mim sentido de forma amena. Sua juventude, seus progressos, seus sucessos e êxitos acadêmicos me enchem de orgulho e me fazem vibrar intensamente.  Como é bom vê-los descobrindo veios e explorando-os; lendo obras de autores difíceis e fazendo suas próprias interpretações, diferentes da minha!  Como é bom vê-los criar, pensar, entender enfim conhecer!  Nessa aventura do conhecimento eles são não apenas aprendizes, mas companheiros em perpétuo e prazeroso diálogo.  Assim também meus colegas pesquisadores.  Vejo-me em grupos de pesquisa e de trabalho onde muitas vezes sou a mais velha.  E é muito estimulante ser assim, matriarca, decana, rejuvenescida pelas jovens e novas mentes que se somam à minha a fim de produzir o saber. 

            Por último, mas não em último lugar, vêm os amigos.  Amigos, como vocês sempre foram importantes em minha vida!  Mas como o são sobretudo agora. Porque os filhos vão voar seus próprios voos, sonhar seus próprios sonhos.  Os alunos se formam e se tornam colegas.  Ficam os amigos.  São elas e eles que estão aí, presentes e ativos, ensinando e aprendendo essa derradeira e bela forma de amor que é a amizade.  Com elas e eles posso recordar momentos que só nós compreendemos. Posso fazer memória de pessoas que já se foram e chorá-las em conjunto.  Posso rir a bandeiras despregadas com situações das quais só nós temos os códigos.  Amigos, poderia viver sem tudo, menos sem vocês. Merecem todos os agradecimentos do mundo. 

            Sem medo, mas com certa expectativa, olho para a frente.  O que me reservará a vida nesses próximos tempos? Não sei nem posso saber, porém me é permitido esperar.  Que seja o que é: vida.  Com mais experiência, mais maturidade e ainda uma certa juventude de espírito que espero jamais perder. Melhor idade?  Pode ser.  Apesar dos pesares e com todas as alegrias. 

       Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc).
.


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

CHAMADO A UMA NOVA HUMANIDADE




Por Marcelo Barros

Ninguém se dá vida a si mesmo. A mãe dá a luz ao filho ou filha. Todos nós recebemos a vida de nossos pais e mães. Maria Zambrano, filósofa espanhola do século XX, afirmava que se a vida é sempre doada de um ser a outro, é dada para ser desenvolvida. Ninguém nasce de uma vez por todas. O nascimento é apenas começo de um processo que consiste em nascimentos constantes. Assim, nascer não é apenas um evento do passado que lembramos no dia do aniversário. Coloca-se diante de nós, como algo a ser aperfeiçoado e completado. Viver é renascer continuamente, como renasce a aurora de cada novo dia.

A transformação interior das pessoas não pode ser desligada da tarefa de mudar a sociedade. Os grupos de esquerda tendem a privilegiar o coletivo e nem sempre educam as pessoas para o processo de permanente mudança interior. Os espiritualistas têm a sensibilidade oposta. Pensam que, à medida que cada pessoa mudar interiormente, o mundo inteiro começa a mudar. Conta-se a parábola do passarinho que, ao ver a floresta pegar fogo, voa até o rio e traz no bico uma gota d’água para apagar o incêndio. Joga a gota d’água e volta ao rio para buscar outra gota d’água. Outros pássaros lhe dizem que aquele seu trabalho não conseguirá apagar o incêndio. Mas, o herói alado responde: - Ao menos, estou fazendo a minha parte. 

Quem analisa melhor a sociedade sabe que é importante, como dizia Gandhi “começar por si mesmo a mudança que se quer para o mundo”. No entanto, isso só funciona se a parte mais sadia da sociedade conseguir se organizar para lutar contra estruturas que vão além das vontades humanas e do coração das pessoas. Esse processo supõe que a dimensão pessoal se articule dialeticamente com a social. É preciso uma mudança que atinja o plano interior das pessoas e concomitantemente a dimensão social.

Esse tem sido sempre o apelo que todas as religiões e caminhos espirituais acolhem como apelo divino. Conforme a maioria das tradições, é o Espírito de Deus em nós que nos chama permanentemente a uma renovação total do mais íntimo do nosso ser e à transformação do mundo. É isso que o Cristianismo se propõe a celebrar no Natal. Os antigos pastores das Igrejas cristãs afirmavam: “No Natal, o Espírito de Deus se manifestou no homem Jesus, para que o ser humano se tornasse divino”. Isso significa que para os cristãos não é apenas Jesus que se parece com Deus (o Pai). É Deus que se apresenta a nós parecido com Jesus, pessoa humana como qualquer um de nós. Isso nos leva a assumir mais e melhor nossa realidade humana. Deus nos ama como somos. Como a vida é constante processo de renovação interior, somos chamados a sim a nos transformar e amadurecer permanentemente, mas sem que isso nos leve lutar contra nós mesmos. Só seremos capazes de conviver com os outros e compreendê-los, se aprendermos a conviver melhor conosco mesmos.

No Natal, ao nos dar Jesus como sua palavra de amor, Deus puxou o diálogo conosco. Ele tinha iniciado esse diálogo através das mais diferentes revelações de sua presença e seu amor, nas mais diferentes religiões e caminhos espirituais. Na Bíblia, revelou o seu projeto para o mundo: uma humanidade de irmãos que cuidam do mundo com amor e cuidado. No nascimento de Jesus, se revela como pequeno e pobre. É uma indicação de caminho de como podemos nos tornar mais humanos e mais capazes de dialogar.

Não é fácil dialogar em um mundo no qual a sociedade é organizada contra o respeito aos diferentes e o diálogo com o outro. Em um Brasil no qual muitos escolheram como caminho de organização social e política uma proposta de intolerância e mesmo de violência, mais ainda do que antes, o diálogo claro e positivo será a nossa profecia. Não cansaremos de afirmar nossa opção pela vida da humanidade e do planeta. Não deixaremos de combater as desigualdades sociais e a injustiças. Estaremos sempre do lado dos índios, negros e de todas as minorias sociais e sexuais.

Em Gênova, na Itália, o padre e biblista Paulo Farinella anuncia que nesse Natal, ele e sua comunidade não celebrarão nenhum culto público como protesto contra a lei do governo italiano que discrimina estrangeiros e persegue migrantes. Assim como Jesus, ainda criança, teve de fugir para o Egito afim de não ser morto por Herodes, atualmente os migrantes se tornam clandestinos para não morrerem. Não tem sentido celebrar Natal nesse contexto e quando muitos cristãos parecem insensíveis a essa tragédia.

No Brasil, celebraremos o Natal com esse sabor de festa e de dor. É através da solidariedade humana e da opção pelos excluídos que aprofundamos juntos o caminho de Jesus e reafirmamos o sentido do Natal. 


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br


 


terça-feira, 30 de outubro de 2018

PARA UMA NOVA REFORMA DA IGREJA




Por Marcelo Barros

A cada 31 de outubro, as Igrejas evangélicas celebram o “Dia da Reforma” e a própria Igreja Católica recorda o princípio medieval invocado por Lutero em 1517: A Igreja deve sempre se renovar.

Atualmente, tanto na Igreja Católica, como em várias Igrejas evangélicas, muita gente sente a necessidade de uma renovação profunda na forma de compreender a fé cristã e também sobre a missão e o modo de organizar a própria Igreja. Em todas as Igrejas, se debatem questões de gêneros e o desafio do diálogo da Igreja com o mundo. Tanto na Igreja Católica, como mesmo nas Igrejas evangélicas que nasceram da Reforma do século XVI, muitos fieis e ministros estão convencidos de que toda a Igreja precisa de uma nova reforma.

Não sabemos qual a proporção de católicos e evangélicos favoráveis ao processo de renovação e quantos se posicionam contra quaisquer propostas de mudança. As Igrejas estão divididas e a divisão não é mais entre instituições. Ela acontece entre pastores e fieis dentro da mesma Igreja. Diz respeito à compreensão da fé, a missão e a postura diante do mundo e da Política.  No Brasil, nessas eleições  presidenciais, em todas as Igrejas e dentro de cada uma delas, fieis e ministros se colocaram em posições opostas  e antagônicas. 

Apesar de não ter se posicionado para o primeiro turno, ao menos para o segundo, a presidência da CNBB se pronunciou claramente pela Democracia e contra candidaturas que defendem violência e discriminações sociais. Já antes do primeiro turno, a presidência da CRB (Conferência dos Religiosos/as do Brasil) emitiu um pronunciamento claro na mesma direção.

Na Igreja Católica, a norma tradicional de que a Igreja não assume postura partidária foi totalmente desrespeitada. Apesar disso, alguns bispos, muitos padres e vários movimentos leigos desrespeitaram claramente a norma e fizeram campanha pelo candidato das elites empresariais, do mercado e da indústria de armas. Desses, muitos revelaram claramente o ódio à esquerda. Por que fizeram essa escolha, deve ser tema de um estudo mais profundo de como as Igrejas cristãs puderam chegar a esse ponto.

É triste que, no Brasil, a Igreja Católica que, em outros tempos tinha líderes como Dom Helder Camara, Dom Luciano Mendes de Almeida, Dom Tomás Balduíno e tantos outros profetas, dê agora ao mundo o testemunho de que diversos bispos e muitos padres até um cardeal tomaram posição contrária aos direitos humanos e à Democracia.

Certamente alguns apoiaram o candidato da extrema direita porque não ligam fé e compromisso social e político. Ao mesmo tempo que se proclamam muito religiosos, essa espiritualidade parece não ter nada a ver com a postura social e política que tomam. No caso de bispos e pastores pentecostais, muitos fazem isso por interesses comerciais e institucionais a preservar. Nenhuma preocupação com o bem do povo. A questão única é qual candidato favorecerá mais a sua Igreja e aos interesses comerciais do próprio bispo. No entanto, será que um cardeal e vários bispos católicos também agem assim? Conforme a imprensa, ao menos alguns deles declararam que votam em qualquer candidato por pior que seja para o povo, desde que assuma o compromisso de não mudar as leis contra aborto e união gay. O candidato pode fazer guerra e praticar todo tipo de violência, mas é chamado de “defensor da vida”.

Até hoje, mais de 70 anos depois, os católicos da Alemanha sabem que, no tempo do Nazismo, muitos padres e bispos apoiaram Hitler e, ao menos no início, fizeram acordos com ele. Na França, a maioria do episcopado católico colaborou com as forças alemãs que ocuparam o país e o governo fantoche que presidiu a França naquele tempo. Na Alemanha, a Igreja que se colocou como “confessante” e na resistência era uma minoria.

O mais triste é que essa realidade da Igreja Católica no Brasil acontece em um momento no qual, no mundo todo, essa Igreja se debate com uma das maiores crises de sua história. Os escândalos morais chegaram até as cúpulas e exigem mudanças radicais. Bispos e até cardeais são destituídos dos seus cargos. Por outro lado, o próprio papa enfrenta uma oposição cerrada, como nenhum outro papa dos tempos contemporâneos sofreu. Repetidas vezes, Francisco tem afirmado que por trás dos abusos e do sistema que os favoreceu, está o Clericalismo, doença grave da fé.  

Provavelmente, é essa mesma doença que faz alguns bispos e muitos padres tomarem posição contra o próprio evangelho de Jesus. Eles não têm escrúpulos em ajudar o povo desinformado a votar contra si mesmo, escolhendo alguém que, de todas as formas, vai oprimi-lo. É o mesmo grupo eclesiástico que se coloca contra o papa Francisco e quer impedir qualquer reforma que ameace o poder sagrado que ostentam. Diante disso, o evangelho chama as pessoas mais conscientes à lucidez da profecia e da resistência.   

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A CRISE BRASILEIRA NO CONTEXTO DA NOVA GUERRA FRIA


Por Leonardo Boff


  
O problema fundamental da crise brasileira não está na corrupção que é endêmica e tolerada pelas instâncias oficiais, porque dela se beneficiam. Se fossem resgatados os milhões e milhões de reais que anualmente os grandes bancos e as empresas deixam de recolher ao INSS, tornaria supérflua uma reforma da Previdência.

O problema não é apenas Lula ou Dilma e muito menos Temer.  O centro da questão é a disputa no quadro da nova guerra-fria entre USA e China: quem vai controlar a sétima economia mundial e como alinhá-la à lógica do Império norte-americano, impedindo a penetração da China nos nossos países, especialmente no Brasil pois ela precisa manter seu crescimento com recursos que nós possuímos.

Esta estratégia começou a ser implementada com a Lava-Jato e seu juiz Sérgio Moro e a entourage de promotores, vários preparados nos USA. Prosseguiu com o impeachment da presidenta Dilma via parlamento, incorporou, setores do ministério público, da polícia federal, parte do STF e dos partidos conservadores, claramente neoliberais e ligados ao mercado.

Todas estas instâncias servem de forças auxiliares ao projeto maior do Império. Com uma vantagem: essa submissão vem ao encontro dos propósitos dos herdeiros da Casa Grande que jamais toleraram que alguém da senzala ou filho da pobreza, chegasse à Presidência e inaugurasse políticas sociais de inclusão das classes subalternas, capazes de pôr em xeque seus privilégios. Preferem estar seguros ao lado dos USA, como sócios menores, do que aceitar transformações no status quo favorável a eles.

Para os USA, o Brasil é um espaço no Atlântico Sul, a descoberto. Não pode continuar, pois consoante uma das ideias-força do Pentágono: o “full spectrum dominance”(a dominação de todo espectro territorial), o Brasil deve estar sob  controle. Daí a presença da quarta frota próxima a nossas águas territoriais e ao pré-sal. A visão imperial e belicista se expressa pelas 800 bases militares pelo mundo afora também várias na América Latina.

A China, em contrapartida, segue outra estratégia. Escolheu o caminho econômico e não o belicista. Por aí pensa ter chances de triunfar. O grande projeto da Eurásia, “O caminho da Seda” que envolve 56 países com um orçamento de ajuda ao desenvolvimento de 26 trilhões de dólares, faz com que marque sua presença também no Brasil e na América Latina.

Nesse jogo de titãs, a estratégia norte-americana conta no Brasil com fortes aliados: os que perpetraram o golpe parlamentar, jurídico e mediático contra Dilma. Estão impondo um neoliberalismo mais radical que nos países centrais. Ele implica liquidar politicamente com a liderança popular de Lula através dos vários processos movidos contra ele pelo juiz justiceiro Sergio Moro da Lava-Jato. Eles todos seguem o figurino imperial imposto. Por isso, Moro se viu obrigado a condenar Lula, mesmo sem base jurídica suficiente, como o tem revelado eminentes juristas, do quilate de Dalmo Dalari e de Fábio Konder Comparato e por outra via, o grande analista político Moniz Bandeira.

Em termos gerais, para os USA trata-se de impedir que governos progressistas cheguem ao poder com um projeto de soberania e que reforcem um novo sujeito político, vindo debaixo, das periferias, com políticas anti-sistêmicas mas que implicam a inclusão de milhões na sociedade, antes comandada por elites retrógradas, excludentes e inimigas de qualquer avanço que venha a ameaçar seus privilégios. Precisamos ter clareza: partidos com projetos claramente neoliberais, que colocam todo valor no mercado e todos os vícios no Estado que deve ser diminuído, como tem mostrado com vigor Jessé Souza e que freiam até com violência a ascensão das classes subalternas, são representantes subalternos desta estratégia imperial norte-americana e contra a China, envolvendo o Brasil nesta trama, que para nós, no fundo, é anti-povo e anti-nacional.

Às nossas oligarquias não interessa um projeto de nação soberana com um governo que com políticas sociais diminua a nefasta desigualdade social (injustiça social) e que aproveite nossas virtualidades seja da riqueza ecológica, da criatividade do povo e da posição estratégica geopoliticamente. Basta-lhes ser aliados agregados do Império norte-americano com o suporte europeu, pois assim veem garantidos seus privilégios e salvaguardada a natureza de sua acumulação absurdamente concentradora e anti-social. Daí que reeleger Lula seria a maior desgraça para o projeto imperial e aos oligopólios nacionais internacionalizados.

Essa é a real luta que se trava por debaixo das lutas político-partidárias, do combate à corrupção e à punição de corruptos e corruptores. Esta é importante, mas não acaba em si mesma. Não podemos ser ingênuos. Importa ter claro que ela se ordena ao alinhamento ao Império norte-americano de costas ao povo, negando-lhe o direito de construir o seu próprio caminho e de, com outros, dar uma feição menos malvada à planetização, impondo limites ao Grande Capital em escala mundial.


Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu”Paixão de Cristo, paixão do mundo”, Vozes 2001.