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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

FRATERNIDADE: A DIFÍCIL CONSTRUÇÃO ECUMÊNICA

 



     Maria Clara Lucchetti Bingemer

 

            A palavra ecumenismo encontra suas raízes na cultura grega e significa: mundo habitado. O conceito não pretendia avançar em questões demográficas ou estatísticas, mas carregava o belo sentido de povo civilizado, de cultura aberta em termos não apenas geográficos como também civilizacionais. O Cristianismo nascente adotou a ideia e o conceito, fazendo dos mesmos um ideal e uma missão: fazer habitável a obra de Deus, que é toda a criação, promovendo a unidade e a concórdia. 

            Desde muito cedo, a Igreja percebeu não apenas a necessidade dessa unidade como também o enorme desafio que significava construí-la a partir e por meio da diversidade. Os Concílios da Antiguidade procuraram superar propostas e doutrinas que dividiam a Igreja, e chegar a consensos que pudessem uni-la em termos de conteúdos da fé, para que fossem aceitos e praticados por todos os cristãos. 

            A história avançou e houve esforços de unidade, mas também ataques.  Houve guerras de religião em que se matava em nome de Deus e empreendimento ideológicos e políticos unilaterais, nos quais tristemente cristãos chegaram a considerar prestar um serviço a Deus eliminando os que professavam religiões diferentes. E houve um momento em que os próprios cristãos se dividiram, permanecendo em campos opostos e considerando hereges e apóstatas os que entendiam e viviam a fé cristã em outros termos. 

            A partir dessa divisão entre cristãos surgiu o movimento ecumênico moderno, que fomentou o diálogo e a cooperação entre os cristãos, para fazer frente à evangelização em um mundo sempre mais secularizado e mais plural. O ecumenismo tornou-se uma iniciativa entre diversas denominações cristãs, na busca do diálogo e da unidade, de superar divergências e divisões históricas, culturais e mesmo doutrinais.  Para isso, houve muito trabalho para aceitação da diversidade entre as igrejas já que todas buscam encontrar em Cristo seu ponto de unidade.  Professam um só Credo, recebem um só Batismo, e veem cada vez com maior clareza que estar divididos é um escândalo e um contratestemunho. 

            Por parte da Igreja Católica, o Concílio Vaticano II é um marco por assumir para dentro do magistério oficial da Igreja Católica Romana o desejo e o compromisso de aproximar-se sempre mais dos irmãos que adoram o mesmo Deus e reconhecem como Senhor o mesmo Cristo.  Porém, mais longe ainda foi o Concílio, acompanhando  um movimento que já se fazia sentir no campo religioso como um todo e na sociedade.  Compreendeu que a caminhada ecumênica implica passar mesmo as fronteiras do cristianismo como tal e abraçar as outras religiões, que nomeiam Deus de forma diferente e organizam sua fé de outro modo. 

            O ecumenismo, portanto, nestas quase seis décadas que nos separam do Concílio Vaticano II, se alarga sempre mais, convertendo-se progressivamente em um macro ecumenismo.  Com isso nada mais faz do que seguir fielmente o que o texto do documento mais importante do evento conciliar, a Constituição Gaudium et Spes diz: a Igreja quer ser perita em humanidade e não deseja que nada de humano lhe seja estranho.  Portanto, para fazer um mundo habitado pelos filhos de Deus é preciso ampliar o horizonte além mesmo das fronteiras institucionais e religiosas e ir ao ser humano. 

            A Campanha da Fraternidade, lançada todos os anos pela CNBB durante o período da Quaresma, traz este ano uma bela novidade.  Não apenas seu tema é o ecumenismo pensado amplamente, em termos de uma inclusão universal que conduza toda a humanidade à paz verdadeira cuja fonte é Cristo.  Mas ela é ecumênica desde as origens.  Seu texto base foi pensado e preparado por uma equipe ecumênica, sob a responsabilidade do Conic (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs).         

            O sopro ecumênico, que busca a unidade, o diálogo e o amor, se fazem sentir ao longo de todo o texto e de suas propostas que soam como convite amoroso aos fiéis cristãos que desejam deixar para trás a divisão e construir a unidade.  Uma unidade plena, universal, que só pode dar-se através da integração das diferenças, enriquecendo-se do que todos e cada um podem trazer. 

            A isso aspira a Campanha da Fraternidade.  Só pode haver fraternidade se for universal.  E não à toa a palavra “católico” significa universal.  A CNBB testemunha luminosamente seu desejo de ser plenamente universal - ou seja, católica – abrindo sua campanha, que acontece no momento de mais densa convergência de fé e testemunho, a todos os irmãos que comungam da fé em Jesus Cristo. 

            A CF 2021 em tempos de tanta divisão dá uma decisiva contribuição ao diálogo e uma real chance à paz.  O lema da Campanha, tomado da epístola aos Efésios, diz: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade”. Superar as divisões e buscar a unidade com coragem e alegria, eis a conversão pedida a todo discípulo e discípula de Jesus Cristo nesta Quaresma. 

  A   teóloga é autora de “Santidade:chamado à humanidade” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

 Copyright 2021 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

A CONSTRUÇÃO DE UM NOVO NATAL



Por Marcelo Barros

No começo deste mês, o papa Francisco iniciou a celebração do Advento por uma peregrinação à localidade de Greccio, em meio aos bosques do Lácio, na Itália, onde, em 1223, São Francisco de Assis construiu o primeiro presépio de Natal. Ali, o papa no, o papa Francisco assinou a carta apostólica Admirabile Signum sobre o significado e o valor do presépio. Ao armar em nossas casas e comunidades um presépio, estamos significando que queremos nós mesmos ser os personagens verdadeiros de um presépio vivo de Natal. Não se trata de representar ou repetir o conto de Belém e sim manifestar hoje no mundo o fato de que Deus assume nossa humanidade e se manifesta nas pessoas que aceitam ser testemunhas do seu amor pela humanidade.

O evangelho conta que, na primeira noite de Belém, assim que os anjos se foram, os pastores correram para ver o que de fato acontecera. Os anjos haviam dado um sinal: “vocês encontrarão um menino recém-nascido deitado em uma manjedoura”. E eles encontraram tudo, conforme lhes fora anunciado. Nesse relato do Natal, a primeira coisa que chama a atenção é a enorme contradição entre o esplendor do anúncio dos anjos e a pobreza do que os pastores encontraram: uma manjedoura e uma criança pobre, nela depositada. Ali aprendemos a reencontrar a presença divina no que há de mais humano e, principalmente, na realidade das pessoas feridas pela pobreza, pela injustiça e pela marginalidade. Ao insistir que Jesus nasceu como migrante, em uma Belém “onde não havia lugar para eles na hospedaria”, a tradição não quer apenas sublinhar que Deus está presente junto aos empobrecidos, mas que está para lutar a seu favor contra as injustiças do mundo.

Os antigos pastores da Igreja ensinavam que a cruz de Jesus foi feita com a mesma madeira do presépio de Belém. Era o seu modo de dizer que, ao deitar na manjedoura, Jesus já estava assumindo sua condição de pobre, marginal e condenado pelo poder do mundo. Assim como a cruz, também o presépio não era apenas um enfeite piedoso, como, às vezes, ocorre em nossas casas. O presépio é um sinal da solidariedade de Deus conosco; um modo de dizer a toda pessoa injustamente marginalizada: Deus está do seu lado e vem lutar junto com você por sua libertação.

No Natal de hoje, temos também os que continuam a função de Herodes. De acordo com a cultura dominante no atual desgoverno brasileiro, a violência policial toma proporções inimagináveis. Inimigos da humanidade reabrem a temporada de caça a líderes e representantes dos povos indígenas, de trabalhadores rurais e de defensores dos direitos humanos. No entanto, as comunidades continuam a caminhada. Nesse Natal, o presépio de Jesus se apresenta a nós no leito de dor e de paciência do querido profeta Dom Pedro Casaldáliga, que, com toda a sua fragilidade continua sendo símbolo e testemunha do amor e da predileção divina pelos pequeninos. Cada um/uma de nós tem em sua vida pessoal aspectos que parecem menos nobres e apresentáveis. Esse lado de nossa vida é como manjedoura na qual a presença divina vem se manifestar. Jesus repousa nas palhas de nossa vida para nos conduzir a uma mudança de vida e à transformação do mundo. Esse é o caminho novo do Natal.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados, dos quais os mais recentes são: “Labirintos", Ed. Sensu e ”Teologias para os nossos dias, Editora Vozes. Email: irmarcelobarros@uol.com.br   



terça-feira, 22 de outubro de 2019

A ONU E A OMHU NA CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA POLÍTICA




Por Marcelo Barros

No dia 24 de outubro, a ONU celebra mais um aniversário de sua fundação, ao publicar a Carta das Nações Unidas, em 1945. Embora frágil e com muitos desafios a superar, esse organismo internacional tem sido útil a conduzir a humanidade nos caminhos do diálogo e da paz. A ONU cumpre uma importante missão. Deve zelar para que a sociedade internacional seja impregnada de valores como o respeito à dignidade de todos os humanos, a supremacia da justiça, a consciência ecológica e a abertura à transcendência. No entanto, é organismo de governos. Seus membros são Estados nacionais e governantes. Já há mais de uma década, através da FAO, a ONU reconheceu que a Venezuela superou o analfabetismo e em todo o país estava superada a fome e a desnutrição. No entanto, o império norte-americano armou um bloqueio internacional. Isolou o país que não pode receber de fora nem medicamentos. Além disso, incentivou os comerciantes a boicotarem os gêneros alimentícios. Por isso, a população sofre a ausência de bens necessários para o consumo.

Cada vez mais fica claro que a hegemonia e o controle exercidos pela Economia sobre a Política, no decorrer dos últimos 30 anos, foi uma catástrofe para o mundo. É preciso unir todas as pessoas de boa vontade e grupos da sociedade civil para “democratizar a democracia”. Isso significa elaborar novo estilo modelo de Política, efetivamente, centrado no bem comum. Dom Oscar Romero, o santo arcebispo de El Salvador, martirizado em 1980, propunha o retorno ao que ele chamava  de “grande Política”.

O Banco Mundial afirma que 20% da população mundial, pouco menos de um bilhão de pessoas, consomem sozinhos 83% dos recursos disponíveis na terra. Metade da humanidade, mais de três bilhões de pessoas, devem viver com dois dólares por dia. A UNICEF adverte que mais de um bilhão de crianças vive abaixo da pobreza. Por causa disso, a cada ano morrem de fome de 40 a 60 milhões de pessoas. Conforme cálculos do Banco Mundial, com 40 bilhões de dólares, se poderia resolver o problema da fome e da saúde dos pobres do mundo. Ora somente, em um ano, um país como os Estados Unidos gastam mais de um bilhão de dólares em armas para as guerras que mantêm no mundo. Ao mesmo tempo, a sociedade dominante que provoca as guerras contra os povos pobres, fecha suas fronteiras aos migrantes que tentam sobreviver ao extermínio. Decreta que o destino deles deve ser a morte em seus países ou o fundo do mar nas portas das ilhas de luxo do primeiro mundo. 

Por isso, grande parte da humanidade sonha com um organismo mundial que abranja não somente governos, mas também uma representação legítima da sociedade civil internacional. Só uma organização internacional que, além de Estados, reúna também representantes das organizações civis terá força para exigir do governo das grandes potências respeito pelas leis e decisões internacionais. Só um organismo assim poderá intervir para que o governo de Israel pare de massacrar o povo palestino e proíba os países ricos de estabelecer leis agrícolas protecionistas que destroem a economia dos países africanos.

A humanidade não pode mais aceitar a fome e a miséria como condições normais no mundo. Não basta garantir o cumprimento das leis. É preciso e urgente estimular uma nova cultura que não permita mais a insensibilidade vigente com o que se passa com milhões de seres humanos. O papa Francisco pede que superemos “a cultura da indiferença”.

É preciso que a ONU, as organizações internacionais e cada grupo humano tenha um coração que opte pela vida e nos faça amar. A humanidade está descobrindo a espiritualidade social e política da paz e da justiça.  Organismos internacionais da sociedade civil estão propondo a criação de uma OMHU, Organização Mundial da Humanidade. Não se trata de substituir a ONU e sim de assessorá-la e ajudá-la em sua missão pela paz e pela justiça eco-social. Para isso, no mundo inteiro, as pessoas e grupos estão se organizando em Ágora dos/das Habitantes da Terra. Essa organização se propõe falar em nome da humanidade e defender a vida ameaçada no planeta. Esse tipo de projeto não é apenas importante no plano social e político. É objetivo da fé e da espiritualidade. O evangelho diz que Jesus deu a sua vida para reunir na unidade todos os filhos e filhas de Deus dispersos pelo mundo (Jo 11, 52).

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br  

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O GOLPE DE 2016 INTERROMPEU CONSTRUÇÃO DE UM BRASIL AUTÔNOMO



Por Leonardo Boff

Observador atento dos processos de transformação da economia mundial em contraponto com a brasileira, Celso Furtado, um dos nossos melhores nomes em economia política, escreveu em seu livro “Brasil: a construção interrompida”(1993):

“Em meio milênio de história, partindo de uma constelação de feitorias, de populações indígenas desgarradas, de escravos transplantados de outro continente, de aventureiros europeus e asiáticos em busca de um destino melhor, chegamos a um povo de extraordinária polivalência cultural, um país sem paralelo pela vastidão territorial e homogeneidade linguística e religiosa. Mas nos falta a experiência de provas cruciais, como as que conheceram outros povos cuja sobrevivência chegou a estar ameaçada…Não ignoramos que o tempo histórico se acelera e que a contagem desse tempo se faz contra nós. Trata-se de saber se temos um futuro como nação que conta na construção do devenir humano. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação” (Paz e Terra, Rio de Janeiro 1993, p.35).

A atual sociedade brasileira, há que se reconhecer, conheceu avanços significativos sob os governos do Partido dos Trabalhadores (PT) e de seus aliados . Nunca ocorreu issso antes nas fases históricas hegemonizadas pelas oligarquias tradicionais que sempre detiveram o poder de Estado, nunca tiveram um projeto de nação, apenas o propósito corporativo de enriquecimento ilimitado. Agora com um Estado pós-democrático (cf;Rubens Casara) e de exceção está ocorrendo celeremente a desmontagem destas políticas aumentando o sofrimento do povo.

Estamos nos aproximando daquilo que Celso Furtado chamava de “provas cruciais”. Talvez como nunca antes em nossa história, atingimos este estágio crítico das “provas” como atualmente após o golpe de 2016. Dada a aceleração da história, impulsionada pela crise sistêmica mundial, seremos forçados a tomar uma decisão: ou aproveitamos as oportunidades reafirmando nossa soberania e garantindo nosso futuro autônomo ou as desperdiçamos e viveremos atrelados ao destino sempre decidido por eles que nos querem condenar a sermos apenas os fornecedores dos produtos in natura que lhes falta e assim voltam a nos recolonizar.

Não podemos aceitar esta estranha divisão internacional do trabalho. Temos que retomar o sonho de alguns de nossos melhores analistas do quilate de Darcy Ribeiro, Luiz Gonzaga de Souza Lima e de Celso Furtado, de Jessé Souza entre outros que propuseram uma reinvenção ou refundacão do Brasil sobre bases nossas, gestadas pelo nosso ensaio civilizatório tão enaltecido e reconhecido mundialmente.

Este desiderato foi profundamente ferido pelo golpe parlamentar que por detrás dele estão as classes dominantes internacionalizadas que tentam impor uma agenda política de um neoliberalismo radical, que lhes devolva os privilégios históricos, ameaçados pelas políticas sociais populares que tiraram da miséria e da invisibilidade milhões de brasileiros pobres.

O sonho de uma reinvenção e refundação do Brasil não pode ser perdido, nem sepultado pela voracidade destruidora dos donos do ter, do poder e do saber. Seu tempo já passou. Cresceu uma nova consciência política, especialmente, a partir dos movimentos sociais populares que se contam às centenas. Aí sempre se coloca a questão: que Brasil nós queremos (cf.L. Boff, Concluir a refundação ou prolongar a dependência, 2018)? Como vamos juntos construí-lo?

 Com que forças e aliados podemos contar para essa tarefa gigante?

Poderão elas ser coparteiras de uma cidadania nova – a cocidadania e a cidadania ecológica e terrenal – que articula o cidadão com o Estado, o cidadão com o outro cidadão, o nacional com o mundial, a cidadania brasileira com a cidadania planetária, ajudando assim a moldar o devenir humano? Ou elas se farão cúmplices daquelas forças que não estão interessadas na construção do projeto-Brasil porque se propõem inserir o Brasil no projeto-mundo globalizado de forma subalterna e dependente, com as vantagens concedidas às classes opulentas.Pois este é o projeto dos que deram o golpe parlamentar,jurídico e mediático de 2016.

A atual crise brasileira nos força a decidir não que partido apoiamos, mas de que lado estamos. A situação é urgente pois, como advertia pesaroso Celso Furtado: “tudo aponta para a inviabilização do país como projeto nacional” (op.cit. 35). Mas não queremos aceitar como fatal esta severa advertência.

Ainda há tempo, nestas eleições, para mudanças que podem reorientar o país para o seu rumo certo, especialmente agora que, com a crise ecológica, se transformou num peso decisivo da balança e do equilíbrio buscado pelo planeta Terra. Importa crer em nossa missão planetária.

Tudo está a clamar para uma refundação do Brasil sobre outras bases porque as vigentes são altamente antipovo, destrutivas das pessoas, desrespeitosas da natureza, espoliadoras dos bens públicos, violadoras da soberania nacional e negadores de um futuro melhor.

Leonardo Boff escreveu: Brasil, Concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018.


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A DIFÍCIL CONSTRUÇÃO DA PAZ

Por Marcelo Barros



Nesses dias, em todo o mundo, ocorrem diversas iniciativas de encontros e diálogos internacionais que visam a paz no mundo ou em determinada região. A partir do dia 18, estiveram reunidos em Roma rebeldes da Frente Democrática Nacional das Filipinas com representantes do governo para pôr fim a anos e anos de guerra civil que já matou mais de 40 mil pessoas. A partir da 2a feira, (23), em Astana, na Síria, grupos rebeldes e representantes do governo tentam um acordo que acabe com a guerra civil que destrói o país. Na Colômbia, depois que grupos radicais conseguiram que a maioria do povo desaprovasse os termos do acordo de paz entre governo e guerrilha, um novo acordo foi assinado e parece que, finalmente, o país verá a paz.

A maior dificuldade para todos é como construir a paz sem o mínimo de justiça e em um mundo no qual a desigualdade social e as injustiças estruturais se agravam a cada dia. Nesses dias, como sempre ocorre, cada ano em janeiro, está reunido em Davos na Suiça, o Fórum Econômico Mundial que reúne dessa vez mais de três mil pessoas da elite do mundo. Uma das primeiras declarações do Fórum foi o reconhecimento de que as desigualdades sociais aumentaram em todos os continentes. Conforme a declaração dos coordenadores do fórum, em uma humanidade que conta com mais de sete bilhões de pessoas, apenas oito pessoas (multimilionárias) possuem uma riqueza equivalente a 3, 6 bilhões de seres humanos. O que esse fórum dos mais ricos não deixa claro é que isso é resultado direto de uma organização econômica que tem a finalidade de tornar os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.

Tudo isso ocorre no momento em que, nos Estados Unidos, o novo presidente assume o governo com a promessa de começar a sua gestão cancelando a reforma do sistema de saúde que previa beneficiar os mais pobres e reforçando as fronteiras do país contra os migrantes.

Recentemente, circulou na internet um comentário jornalístico no qual alguém afirmava que o povo brasileiro tinha sido o primeiro que tinha ido às ruas para pedir sua própria ruína. E isso lhe foi imediatamente concedido com o governo que está aí. Alguém poderia continuar que o povo dos Estados Unidos seguiu o mesmo exemplo e aí está o resultado. No entanto, mais do que simplesmente afirmar isso, se trata de perguntar porque, no atual sistema do mundo, a maioria das pessoas vota como a barata que se refugia debaixo do chinelo que vai esmagá-la. Sem dúvida, a propaganda e a guerra insistente e contínua dos grandes meios de comunicação têm um papel importante, embora não único. A decepção com as alternativas ditas de esquerda também cumpre, infelizmente, o seu papel de desagregação e de um inconformismo que parece explodir no "já que é assim, quanto pior, melhor".   

Para quem tem fé na vida e busca uma espiritualidade humana, seja em alguma religião, seja fora de qualquer tradição religiosa, é imperativo o compromisso com a solidariedade que nos confirma na esperança de novas formas de organizar o mundo e na missão que temos com relação a isso.

Se na sociedade mundial, acontecem tantos colóquios de paz, é importante que também nos nossos grupos de base, tenhamos a coragem de nos desafiar. Precisamos exigir de nós mesmos capacidade de diálogo e de superação não violenta dos conflitos. E darmos ao mundo um testemunho de que começamos a ensaiar relações mais horizontais e comunitárias. Embora, nesse momento, o mundo esteja mais desigual e injusto e que a sociedade dominante pareça achar isso normal e até positivo (para ela), é verdade também que os movimentos sociais e os grupos de base se rearticulam e se organizam para enfrentar esses novos desafios. Nesse ano, teremos vários fóruns regionais e temáticos e neles todos, um refrão será comum a todos: "Um novo mundo é necessário. Juntos, podemos torná-lo possível".

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.  


terça-feira, 20 de outubro de 2015

NA CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA POLÍTICA

Por Marcelo Barros


Nesses dias, o Brasil se debate em uma violenta onda de ódio. A elite nacional e os grandes meios de comunicação tudo fazem para que, além de derrubarem um governo frágil e autista, o próprio exercício da Política caia em descrédito geral. Enquanto isso, a ONU celebra o 70o aniversário de sua fundação (24 de outubro de 1965), com atividades contra o armamentismo e em favor da paz. A ONU cumpre a importante missão de zelar para que a sociedade internacional seja impregnada de valores fundamentais como o respeito à dignidade de todos os seres humanos, a supremacia da justiça, a consciência ecológica e a abertura à diversidade cultural e religiosa. Grande parte da humanidade apoia a ONU, mas sonha com um organismo mundial que abranja não somente governos, mas também uma representação legítima da sociedade civil internacional. Só uma organização internacional que reúna Estados e representantes das organizações civis terá força para exigir das grandes potências respeito pelas leis e decisões internacionais. Somente um organismo assim poderá intervir para que o governo de Israel pare de massacrar o povo palestino. E proíba os países ricos de estabelecer leis agrícolas protecionistas que destroem a economia dos países africanos. Através da FAO, a ONU reconheceu que a Venezuela superou o analfabetismo e em todo o país está superada a fome e a desnutrição. Por que, então, não se coloca decididamente a favor dos governos e dos povos da Bolívia, Venezuela e Equador que enfrentam o imperialismo e refazem o sonho da integração e da libertação?

Os organismos da ONU mostram que, se os alimentos produzidos no mundo e a riqueza que existe, fossem repartidos de forma mais justa, daria para alimentar toda a humanidade e garantir saúde e vida digna para todos. No entanto, a riqueza está cada vez mais concentrada nas mãos de uma pequena elite e a sobrevivência da imensa maioria de pobres tem sido, cada dia, mais difícil e exigente.

A UNICEF adverte que, por causa dessa organização injusta da sociedade, a cada ano, 40 a 60 milhões de pessoas morrem de fome ou de doenças ligadas à desnutrição. Mais de um bilhão de crianças vive abaixo do nível da pobreza. Mesmo o Brasil que, em 12 anos, conseguiu tirar milhões de pessoas da miséria, a realidade das aldeias indígenas e das comunidades remanescentes de Quilombo é dramática e terrível. Conforme cálculos do Banco Mundial, com 40 bilhões de dólares, se poderia resolver todo o problema da fome e da saúde dos pobres do mundo. Ora somente, em um ano, os Estados Unidos gastam mais de um bilhão de dólares em armas para as guerras que mantêm no mundo. Ao mesmo tempo, a sociedade dominante que provoca as guerras contra os povos pobres, fecha suas fronteiras aos migrantes que tentam sobreviver ao extermínio e decreta que o destino deles deve ser a morte em seus países ou o fundo do mar nas portas das ilhas de luxo do primeiro mundo. 

A maioria das pessoas que pensam percebe que a hegemonia e o controle exercido pela Economia sobre a Política, no decorrer dos últimos 30 anos, foi uma catástrofe para o mundo. Quando, na crise de 2008, a situação tornou-se incontrolável e sem saída, as empresas recorreram de novo à Política. Mas, que tipo de Política?”. Na encíclica sobre o cuidado com a Terra, nossa casa comum, o papa Francisco pondera: “A política não deve submeter-se à economia e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. Pensando no bem comum, hoje, precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente a serviço da vida, especialmente da vida humana” (L. S., 189).

É preciso unir todas as pessoas de boa vontade e grupos articulados da sociedade civil para “democratizar a democracia”, ou seja, elaborar um novo modelo de Política, efetivamente, centrado no bem comum. Dom Oscar Romero, arcebispo de El Salvador, martirizado em 1980, propunha um retorno ao que ele chamava  de “grande Política”. Em meio à crise política em que estamos mergulhados, as pessoas que creem em Deus e em seu projeto para o mundo devem ser testemunhas de que todo sofrimento e decepção podem se transformar em dores de parto através das quais podemos gerar uma realidade nova que nos ajude a viver o projeto divino de paz e justiça para esse mundo.
  
 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.