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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

FRATERNIDADE: A DIFÍCIL CONSTRUÇÃO ECUMÊNICA

 



     Maria Clara Lucchetti Bingemer

 

            A palavra ecumenismo encontra suas raízes na cultura grega e significa: mundo habitado. O conceito não pretendia avançar em questões demográficas ou estatísticas, mas carregava o belo sentido de povo civilizado, de cultura aberta em termos não apenas geográficos como também civilizacionais. O Cristianismo nascente adotou a ideia e o conceito, fazendo dos mesmos um ideal e uma missão: fazer habitável a obra de Deus, que é toda a criação, promovendo a unidade e a concórdia. 

            Desde muito cedo, a Igreja percebeu não apenas a necessidade dessa unidade como também o enorme desafio que significava construí-la a partir e por meio da diversidade. Os Concílios da Antiguidade procuraram superar propostas e doutrinas que dividiam a Igreja, e chegar a consensos que pudessem uni-la em termos de conteúdos da fé, para que fossem aceitos e praticados por todos os cristãos. 

            A história avançou e houve esforços de unidade, mas também ataques.  Houve guerras de religião em que se matava em nome de Deus e empreendimento ideológicos e políticos unilaterais, nos quais tristemente cristãos chegaram a considerar prestar um serviço a Deus eliminando os que professavam religiões diferentes. E houve um momento em que os próprios cristãos se dividiram, permanecendo em campos opostos e considerando hereges e apóstatas os que entendiam e viviam a fé cristã em outros termos. 

            A partir dessa divisão entre cristãos surgiu o movimento ecumênico moderno, que fomentou o diálogo e a cooperação entre os cristãos, para fazer frente à evangelização em um mundo sempre mais secularizado e mais plural. O ecumenismo tornou-se uma iniciativa entre diversas denominações cristãs, na busca do diálogo e da unidade, de superar divergências e divisões históricas, culturais e mesmo doutrinais.  Para isso, houve muito trabalho para aceitação da diversidade entre as igrejas já que todas buscam encontrar em Cristo seu ponto de unidade.  Professam um só Credo, recebem um só Batismo, e veem cada vez com maior clareza que estar divididos é um escândalo e um contratestemunho. 

            Por parte da Igreja Católica, o Concílio Vaticano II é um marco por assumir para dentro do magistério oficial da Igreja Católica Romana o desejo e o compromisso de aproximar-se sempre mais dos irmãos que adoram o mesmo Deus e reconhecem como Senhor o mesmo Cristo.  Porém, mais longe ainda foi o Concílio, acompanhando  um movimento que já se fazia sentir no campo religioso como um todo e na sociedade.  Compreendeu que a caminhada ecumênica implica passar mesmo as fronteiras do cristianismo como tal e abraçar as outras religiões, que nomeiam Deus de forma diferente e organizam sua fé de outro modo. 

            O ecumenismo, portanto, nestas quase seis décadas que nos separam do Concílio Vaticano II, se alarga sempre mais, convertendo-se progressivamente em um macro ecumenismo.  Com isso nada mais faz do que seguir fielmente o que o texto do documento mais importante do evento conciliar, a Constituição Gaudium et Spes diz: a Igreja quer ser perita em humanidade e não deseja que nada de humano lhe seja estranho.  Portanto, para fazer um mundo habitado pelos filhos de Deus é preciso ampliar o horizonte além mesmo das fronteiras institucionais e religiosas e ir ao ser humano. 

            A Campanha da Fraternidade, lançada todos os anos pela CNBB durante o período da Quaresma, traz este ano uma bela novidade.  Não apenas seu tema é o ecumenismo pensado amplamente, em termos de uma inclusão universal que conduza toda a humanidade à paz verdadeira cuja fonte é Cristo.  Mas ela é ecumênica desde as origens.  Seu texto base foi pensado e preparado por uma equipe ecumênica, sob a responsabilidade do Conic (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs).         

            O sopro ecumênico, que busca a unidade, o diálogo e o amor, se fazem sentir ao longo de todo o texto e de suas propostas que soam como convite amoroso aos fiéis cristãos que desejam deixar para trás a divisão e construir a unidade.  Uma unidade plena, universal, que só pode dar-se através da integração das diferenças, enriquecendo-se do que todos e cada um podem trazer. 

            A isso aspira a Campanha da Fraternidade.  Só pode haver fraternidade se for universal.  E não à toa a palavra “católico” significa universal.  A CNBB testemunha luminosamente seu desejo de ser plenamente universal - ou seja, católica – abrindo sua campanha, que acontece no momento de mais densa convergência de fé e testemunho, a todos os irmãos que comungam da fé em Jesus Cristo. 

            A CF 2021 em tempos de tanta divisão dá uma decisiva contribuição ao diálogo e uma real chance à paz.  O lema da Campanha, tomado da epístola aos Efésios, diz: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade”. Superar as divisões e buscar a unidade com coragem e alegria, eis a conversão pedida a todo discípulo e discípula de Jesus Cristo nesta Quaresma. 

  A   teóloga é autora de “Santidade:chamado à humanidade” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

 Copyright 2021 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

quarta-feira, 24 de abril de 2019

A DIFÍCIL ARTICULAÇÃO ENTRE O JESUS DA FÉ E O JESUS DA HISTÓRIA.




Por Eduardo Hoornaert.

O Jesus da fé.

Sem dúvida, a pergunta fundamental acerca de Jesus continua sendo: Quem é Jesus para mim hoje? Onde encontro Jesus? Como? Eis a pergunta deveras mais importante. O primeiro escritor cristão, Paulo de Tarso, que começa a redigir suas cartas apenas vinte anos após a morte de Jesus, não demonstra interesse em conhecer a biografia de Jesus de Nazaré, mas vai direto ao âmago: quem é esse Jesus, que aprendi a conhecer entre militantes de seu movimento? O que ele traz para minha vida? A resposta de Paulo, que repercute por séculos: Jesus é liberdade, amor, universalismo. Eis o primeiro Jesus da fé.

O Evangelho de Marcos, escrito por volta do ano 70, procura igualmente fazer com que as pessoas descubram o Jesus da fé. Apresenta um Jesus que não quer atrair a atenção sobre si mesmo, mas que orienta as pessoas a viverem sua vida numa perspectiva de amor, perdão, liberdade, fraternidade, cuja alegria consiste em ver que as pessoas entendem sua proposta e a traduzem em ações concretas.

E assim, ao longo desses dois mil anos de cristianismo, inúmeras pessoas se fizeram a mesma pergunta: quem é Jesus para mim? O que ele significa na minha vida? O que ele tem a me dizer hoje, nas circunstâncias em que vivo? Onde o encontro? Na igreja, na missa, na prece, nos doentes acamados em corredores de hospital, na interminável fila de pessoas que procuram emprego, nos presídios, entre pobres, negros, indígenas, sem terra, sem teto, sem amparo, sem voz?

O Jesus da história.

O Jesus da fé tem de se articular com o Jesus da história, pois este constitui a condição indispensável para que se chegue a uma fé consistente. Há de se evitar, a todo custo, de firmar sua fé num Jesus imaginativo, produto da imaginação. Infelizmente, esse Jesus imaginativo funcionou ao longo de séculos por meio de imagens nem sempre justificadas. Assim se entende que, no século XIX, pessoas, como o francês Ernest Renan, começam a falar em ‘Jesus histórico’ e acabam criando um movimento consistente de pesquisa histórica, linguística, arqueológica. Hoje existem diversos centros em que se estuda o Jesus da história sem interferências por parte de confissões religiosas ou interesses políticos. Assim, por exemplo, o ‘Jesus Seminar’, fundado nos Estados Unidos em 1985 por Robert Funk e John Dominic Crossan, que hoje se constitui num espaço livre em que se discute o Jesus da história. Esse ‘Jesus Seminar’ já produziu excelentes resultados nos trabalhos de John Gager, John Kloppenborgh, Jonathan Reed, Marcus Borg, John Spong (bispo anglicano), Bart Ehrman, Karen Armstrong (ex-religiosa católica), Elaine Pagels, Luke Johnson, Reza Aslan (iraniano), etc. A Alemanha não deixa por menos e continua publicando textos fundamentais (por meio da Casa Editora Mohr Siebeck de Tübingen, por exemplo). A França perdeu espaço nesse terreno, enquanto a América Latina, até hoje, pouco contribui nesse campo.

A difícil articulação.

O que instigou pessoas como Ernest Renan a empreender estudos acerca de Jesus histórico? E por que esses estudos costumam encontrar oposição em ambientes eclesiásticos? A razão é simples: mais de dois mil anos nos separam do Jesus da história, do Jesus que atuou na Galileia.
Ao longo desse tempo todo, muita gente ‘mexeu’ com sua imagem. O escritor americano Jaroslav Pelikan publicou em 1985 um livro intitulado ‘Jesus through the Centuries’, publicado em São Paulo em 2000 (Cosac & Naify) sob o título: ‘A imagem de Jesus ao longo dos séculos’. Nele se mostra que a imagem Jesus passou pelas mãos de muita gente, foi muito ‘manipulada’. Há o Jesus do Império Romano, do Império Bizantino, das Cruzadas, da Inquisição, da colonização europeia, da reação contra essa colonização. Há o Jesus da libertação, da prosperidade, do sucesso nos negócios, da boa saúde, do bem-estar. Há o Jesus católico e o Jesus luterano, judeu e islamita, espírita, africano, indígena, feminista. Há mesmo um Jesus ateu. Na maioria dessas imagens não se percebe interesse em saber como Jesus viveu efetivamente, o que ele fez, o que disse, o que pensou. Pelo contrário, essas imagens, na maioria dos casos, revelam como instâncias interesseiras, sejam elas romanas, bizantinas, medievais, islamitas, católicas, protestantes, espíritas, ateias, apresentaram Jesus. Muitos teólogos se deixam levar por essas instâncias interesseiras, a tal ponto que se imaginaram e ainda hoje se imaginam um Jesus ‘conveniente’.

O fundamentalismo.

Você já percebeu onde quero chegar. Quero falar com você sobre o fundamentalismo.Quando um pregador, hoje, cita textos bíblicos para defender sua própria maneira de pensar, quando ele parte do pressuposto que a Bíblia e os Evangelhos estão de acordo com o que sua igreja prega e propaga, ele está sendo fundamentalista. Um professor meu, nos idos de 1954, certa feita, terminou a exposição de uma matéria do nosso curso teológico com as seguintes palavras: ‘Mais uma vez conseguimos provar que a Bíblia está de acordo conosco’. Não podia definir melhor o fundamentalismo. A Bíblia e os Evangelhos de acordo conosco.

Ora, atualmente, esse fundamentalismo virou uma onda crescente, que ameaça inundar os campos cristãos, em todas as denominações. Para dizer a coisa em toda franqueza: o que me motiva a escrever estas palavras é que nelas encontro uma oportunidade de refletir com você sobre o fundamentalismo reinante no Brasil e ponderar com você como erguer um dique contra esse tsunami. Pois, quando fundamentalistas estão no poder, toda a sociedade corre perigo.

Em muitos casos, o fundamentalismo não tem nome. Conto aqui um caso que ocorreu 17 séculos atrás. Você decerto já ouviu falar da ‘reviravolta constantiniana’. Diz-se que o próprio Imperador Romano, de nome Constantino, teria se convertido ao cristianismo. Acontece que, no ano 325, esse Imperador convoca bispos cristãos, provenientes de diversas regiões do Império Romano, a se reunir em sua Residência de Verão, situada num subúrbio de Bizâncio chamado Niceia. Uma surpresa total, pois seu antecessor Diocleciano havia deflagrado a mais cruel perseguição contra as comunidades cristãs. O novo Imperador, pelo contrário, se dispõe a ajudar os bispos a resolver determinados problemas de desunião existentes entre comunidades locais. Ele se apresenta com quem quer ajudar os bispos a unificar o movimento cristão. Será que essa é sua real intenção? Não será que ele pretende se valer das energias atuantes no movimento cristão para enfrentar problemas burocráticos de desunião a serem resolvidos na administração do Império, no sentido de tentar conglomerar imensos territórios, onde vivem as mais diversas etnias, sob sua única autoridade? Não será que a imagem do Cristo Único, apresentada nos mais distantes rincões do Império, lhe aparece apropriada a realizar seus intentos políticos unificadores?

Segundo as informações que possuímos acerca dessa assembleia episcopal (o concílio de Niceia), os bispos parecem mal perceber, por detrás das palavras e dos gestos de gentileza, as intenções reais do Imperador. Não é por menos. Eles, que chegam do interior, do mundo rural analfabeta, agora são recebidos com honrarias que nunca dantes receberam. Muito lhes impressiona a recepção por parte do Imperador e de dignitários de sua Corte. São homens do povo, agora tratados como se fossem Senadores do Império, com direito a honras militares e protocolares. Podemos presumir que entre eles haja analfabetos, pois a população em geral, naqueles tempos, é iletrada. É claro que eles se fazem acompanhar de secretários capazes de lidar com letras, ler as Escrituras Sagradas, falar a linguagem da Corte e redigir textos no devido estilo imperial. Mas os bispos mesmos ficam impressionados. Um deles, ao ver o Imperador conversando com seus colegas, exclama: ‘é o Cristo! O próprio Cristo está entre nós!’.

Há muitos outros exemplos de fundamentalismo ao longo da história do cristianismo, modos mais ou menos claros, mais ou menos patente, frequentemente ocultados, de se manipular a imagem de Jesus.

Em busca de Jesus de Nazaré.

É nesse sentido que, de uns anos para cá, costumo convidar pessoas a partir comigo para uma viagem no tempo, ‘em busca de Jesus de Nazaré’. Recentemente, publiquei um livro com esse título (Paulus, São Paulo, 2016). Gosto de convidar as pessoas a uma viagem em que se contemplam paisagens diferentes daquelas que estamos habituados a ver. Penetramos num mundo novo. Teremos de colocar, por enquanto, ensinamentos recebidos sobre Jesus entre parênteses, para dedicar toda a nossa atenção ao que observamos ao longo do caminho, talvez pela primeira vez. Certamente, não é por meio de uma reflexão de alguns instantes, pela leitura de um texto como este, que nossos questionamentos serão desnuviados. O que escrevo aqui não pode ser mais que um aceno para ir cavando, um convite para estudar em profundidade a articulação entre o Jesus da fé e o Jesus da história.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.


segunda-feira, 26 de novembro de 2018

A DIFÍCIL ARTE DO ENCONTRO



Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Após as eleições, paira no ar uma sensação de depressão pós-parto.  Tanto em vencedores como em vencidos. Os que tiveram seus candidatos eleitos esperam preocupados como se delineará a governabilidade.  Os primeiros gestos, decisões, semeiam mais insegurança que firmeza.  Desconcertam, angustiam. Parece que não se entende os rumos de um tempo diferente com outro estilo que começa.

Os que foram derrotados nas urnas se dividem.  Alguns optam pela oposição, resistência e combate cerrados.  Outros preferem esperar para verificar, pagar para ver ou até deixar que o adversário vencedor fracasse e mostre sua verdadeira cara.  Apostam que a governabilidade inexistirá e então a incompetência de uma vitória indevida mostrará sua verdadeira face de ilegitimidade e incapacidade de responder aos desafios e responsabilidades concedidos pelas urnas.

Em todo caso, o que temos é um país dividido, desencontrado.  Famílias se indispuseram ou até, em alguns casos, cortaram relações entre seus membros.  Amizades de anos foram interrompidas e palavras de acusação e raiva pronunciadas onde antes reinava harmonia e companheirismo. Relações foram perdidas e parece muito difícil refazê-las. Em suma, o panorama nacional mostra um tremendo desencontro.

Enquanto isso, o papa Francisco fala da importância de construir uma cultura do encontro. Não se trata certamente de um discurso piedoso e fácil adotado pelo pontífice para dizer a todos que se amem e respeitem sem nenhuma dificuldade ou obstáculo.  Longe disso.  Para o papa, a cultura do encontro é um estilo de vida e uma atitude, fruto de uma experiência e um itinerário pessoal, agora proposta à Igreja e à sociedade como um todo.

Diante da cultura do fragmento, da desintegração e da divisão é importante, afirma o pontífice, não favorecer os que pretendem capitalizar o ressentimento, o esquecimento das relações vividas e desfrutadas, ou os que se deleitam em debilitar vínculos e laços.  Esse seria, a seu ver, o caminho para superar os desencontros que sucedem na sociedade.

Tão importante é a construção da arte do encontro, que antes mesmo de Bergoglio o poetinha maior de nosso país, Vinicius de Moraes, disse: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.”  Com sua imensa sensibilidade, queria o poeta ressaltar algo que é constitutivo e visceral no ser humano: sua vocação para a relação, para o afeto, o amor, aquilo que configura e realiza o que chamamos encontro.

Assim também parece entender o papa.  Quando ainda era arcebispo de Buenos Aires, Argentina, várias vezes se empenhou em instar a seus compatriotas a superar os desencontros e refundar os vínculos sociais, políticos, na abertura e na esperança. Agora, desde o Vaticano, onde lidera a Igreja e fala também ao mundo, Francisco não se cansa de repetir esse convite, que consiste em abrir-se à alteridade do outro, aproximar-se, vincular-se, construindo com esperança uma nova mentalidade, um novo estilo de vida, uma nova cultura, onde seja possível o encontro, o diálogo e a comunhão.

Há que admitir que é muito difícil.  A tentação do desânimo diante desta proposta vem carregada da pesada tinta da impossibilidade.  Como dispor-se ao encontro e ao diálogo com quem parece querer conduzir o país na direção oposta daquela em que acreditamos? Como apostar em um possível consenso com pessoas e grupos que parecem falar outra língua, oposto idioma àquele em que acreditamos, que detém os códigos comunicacionais da justiça, do direito, da paz e da prosperidade?

Mais: como fazer esta busca de encontro, consenso e acordo se transformar em verdadeira cultura, que procura o que une em lugar do que divide, e não recua diante de nenhum gesto, atitude ou palavra que possa fazer acontecer  a solidariedade e a comunicação? É duro acreditar que isso poderá ocorrer, sobretudo quando escrevo este artigo no momento seguinte à decisão que liquida com a presença dos médicos cubanos no Brasil e não há como não se pensar que uma represália política deixará na orfandade sanitária milhões de pessoas nos lugares mais pobres e vulneráveis do país.

É duro, porém mais que nunca necessário.  O encontro pode acontecer, mesmo com dificuldade, quando há ao menos um objetivo comum. E este existe e está diante de nossos olhos.  Todos queremos o bem do país.  Todos queremos o povo brasileiro respirando com liberdade, esperança, vendo a perspectiva de um futuro melhor para seus filhos e netos. Enrijecer-se nas divisões certamente não ajudará o Brasil a conseguir esse objetivo.

O povo brasileiro, sempre inspirado na arte de sobreviver a toda impossibilidade, de esperar contra toda esperança e alegrar-se mesmo e sobretudo sem motivo algum, tem agora diante de si este desafio: tornar-se perito na arte do encontro. Aprofundar as divisões não nos levará longe.  É preciso, é urgente desarmar espíritos e buscar possíveis consensos. Sem eliminar o respeito às diferenças, a resistência ao que é nefasto, a denúncia do indefensável. A difícil arte do encontro deve fazer-se ainda que em meio a esse mar de desencontros em que vivemos agora. O Brasil merece e precisa.
 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de  “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), sua mais recente obra, entre outros livros.

  Copyright 2018 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A DIFÍCIL CONSTRUÇÃO DA PAZ

Por Marcelo Barros



Nesses dias, em todo o mundo, ocorrem diversas iniciativas de encontros e diálogos internacionais que visam a paz no mundo ou em determinada região. A partir do dia 18, estiveram reunidos em Roma rebeldes da Frente Democrática Nacional das Filipinas com representantes do governo para pôr fim a anos e anos de guerra civil que já matou mais de 40 mil pessoas. A partir da 2a feira, (23), em Astana, na Síria, grupos rebeldes e representantes do governo tentam um acordo que acabe com a guerra civil que destrói o país. Na Colômbia, depois que grupos radicais conseguiram que a maioria do povo desaprovasse os termos do acordo de paz entre governo e guerrilha, um novo acordo foi assinado e parece que, finalmente, o país verá a paz.

A maior dificuldade para todos é como construir a paz sem o mínimo de justiça e em um mundo no qual a desigualdade social e as injustiças estruturais se agravam a cada dia. Nesses dias, como sempre ocorre, cada ano em janeiro, está reunido em Davos na Suiça, o Fórum Econômico Mundial que reúne dessa vez mais de três mil pessoas da elite do mundo. Uma das primeiras declarações do Fórum foi o reconhecimento de que as desigualdades sociais aumentaram em todos os continentes. Conforme a declaração dos coordenadores do fórum, em uma humanidade que conta com mais de sete bilhões de pessoas, apenas oito pessoas (multimilionárias) possuem uma riqueza equivalente a 3, 6 bilhões de seres humanos. O que esse fórum dos mais ricos não deixa claro é que isso é resultado direto de uma organização econômica que tem a finalidade de tornar os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.

Tudo isso ocorre no momento em que, nos Estados Unidos, o novo presidente assume o governo com a promessa de começar a sua gestão cancelando a reforma do sistema de saúde que previa beneficiar os mais pobres e reforçando as fronteiras do país contra os migrantes.

Recentemente, circulou na internet um comentário jornalístico no qual alguém afirmava que o povo brasileiro tinha sido o primeiro que tinha ido às ruas para pedir sua própria ruína. E isso lhe foi imediatamente concedido com o governo que está aí. Alguém poderia continuar que o povo dos Estados Unidos seguiu o mesmo exemplo e aí está o resultado. No entanto, mais do que simplesmente afirmar isso, se trata de perguntar porque, no atual sistema do mundo, a maioria das pessoas vota como a barata que se refugia debaixo do chinelo que vai esmagá-la. Sem dúvida, a propaganda e a guerra insistente e contínua dos grandes meios de comunicação têm um papel importante, embora não único. A decepção com as alternativas ditas de esquerda também cumpre, infelizmente, o seu papel de desagregação e de um inconformismo que parece explodir no "já que é assim, quanto pior, melhor".   

Para quem tem fé na vida e busca uma espiritualidade humana, seja em alguma religião, seja fora de qualquer tradição religiosa, é imperativo o compromisso com a solidariedade que nos confirma na esperança de novas formas de organizar o mundo e na missão que temos com relação a isso.

Se na sociedade mundial, acontecem tantos colóquios de paz, é importante que também nos nossos grupos de base, tenhamos a coragem de nos desafiar. Precisamos exigir de nós mesmos capacidade de diálogo e de superação não violenta dos conflitos. E darmos ao mundo um testemunho de que começamos a ensaiar relações mais horizontais e comunitárias. Embora, nesse momento, o mundo esteja mais desigual e injusto e que a sociedade dominante pareça achar isso normal e até positivo (para ela), é verdade também que os movimentos sociais e os grupos de base se rearticulam e se organizam para enfrentar esses novos desafios. Nesse ano, teremos vários fóruns regionais e temáticos e neles todos, um refrão será comum a todos: "Um novo mundo é necessário. Juntos, podemos torná-lo possível".

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.