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terça-feira, 11 de outubro de 2022

Refundar a Política

 Marcelo Barros


 

No mundo inteiro, cresce o número de pessoas e grupos que sentem a necessidade de restituir à Política um espírito e modo de atuar que parecem esquecidos ou desvalorizados. No Brasil, as pastorais sociais ligadas à Igreja Católica e a algumas confissões evangélicas desenvolveram o projeto “Reencantar a Política”. Isso significa aprofundar a ação política como caminho de participação de toda sociedade na construção do bem comum. A Política parlamentar e representativa supõe um trabalho político de base que vai suscitando uma Política participativa e, o quanto possível, mais direta.

Na Itália, no início de setembro, na Città di Castelo, um congresso de organizações sociais tinha como tema: “A urgência da Política”. Apesar disso, no domingo, 25 de setembro, o povo italiano elegeu como governo uma coalizão de direita, populista e com ideias neofascistas, que apontam no sentido contrário.  

No Brasil, as eleições nacionais de 2 de outubro, mais do que apenas representar a escolha de candidatos, revela que a maioria do povo sente a necessidade de retomar a dignidade da Política, como campo no qual pessoas e grupos das mais diferentes correntes sociais debatem com liberdade e respeito ao diferente sobre a construção de uma pátria comum que cuide da mãe Terra e promova a justiça eco-social, a mais integral possível.

Neste caminho, a Política se exerce como em duas dimensões:

A mais imediata é restabelecer a humanização da convivência política na pluralidade de partidos e de tendências humanas, sem demonizar o diferente. Isso supõe o embate entre propostas e projetos políticos, nos quais dos dois lados, as pessoas respeitem a Ética e o caráter laical da sociedade, sem dar lugar ao ódio, à intolerância e desumanização do outro.

Ao mesmo tempo que a Política é a arte de construir o que é possível nas condições atuais, ela tem como vocação apontar para a ousadia de promover a justiça eco-social, baseada em maior igualdade entre as pessoas e o respeito aos direitos individuais e comunitários de toda pessoa humana e dos povos como sujeitos coletivos.  Essa Política com P maiúsculo é a grande Política que traduz mais profundamente a solidariedade que, como Pedro Casaldáliga dizia, expressa a ternura no nível coletivo e comunitário. Este patamar da Política abre a porta para outro horizonte que responde à vocação humana de construir a utopia.

Cada vez mais cresce o número de pessoas que, fieis aos diversos caminhos da espiritualidade descobrem que a fé se vive na adesão ao projeto que Deus revelou na Bíblia e em outros livros sagrados. Trata-se de construir um mundo de Paz, Justiça e Amor. Nos evangelhos, Jesus propõe que peçamos a Deus que “o seu reino venha” e nos encarrega de sermos testemunhas do reinado divino na construção social e política de um mundo novo possível. Que nossa inserção na Política seja expressão dessa esperança maior.

 

 

sexta-feira, 24 de junho de 2022

A política de ódio e o assassinato do indigenista Bruno e do jornalista Dom


                               


            Leonardo Boff

O assassinato do conhecido indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips comoveram o país e o mundo. Esse crime  só é compreensível no quadro de uma política de ódio e perseguição que o atual governo estabeleceu como política normal, atingindo principalmente os povos originários, os negros, os de outra opção sexual e os pobres em geral.Só no tempo no nazifascismo se instalou tal prática política. Ela é expressão de barbárie, quando se passa por cima do contrato social que inaugura relações civilizadas entre os cidadãos.

Esse assassinato precisa ser investigado até o fundo e ter em conta a atmosfera de ódio e de violência estimulada de cima que tomou conta do país.Quem tem afirmado que a revolução de 64 errou em torturar pois deveria ter matado, quem explicitamente declara que se precisaria fuzilar 30 mil esquerdistas e faz aberta apologia de um notório torturador, não está isento da atmosfera que propiciou o bárbaro crime cometido no Vale do Javari amazônico. Por que a PF suspendeu as investigações? A mando de quem? As instituições jurídicas estão submetidas à prova.Devem atuar.

Apesar desta verdadeira desgraça nacional não queremos perder a esperança de que tudo virá à luz e os culpados diretos e indiretos sejam punidos. O país irá encontrar o seu verdadeiro destino. Inspira-nos o legado de um dos maiores pensadores do Ocidente,o africano Santo Agostinho (354-430). Dizia: jamais percam a esperança porque sua alternativa é o suicídio. Mas confiem nela pois ela possui duas formosas irmãs: a irmã Indignação e a irmã Coragem. A indignação para rejeitar tudo que é mau e perverso. A coragem para mudar  esta situação em benéfica. Nesse momento sombrio de nossa história temos que enamorarmo-nos da irmã indignação e da irmã coragem.

              A irmã indignação

Indignam-nos contra um governo que se propôs como tarefa destruir todo nosso passado cultural e impor outro modelo que  pretende nos conduzir a tempos obscuros de outrora. Subserviente  aos interesses norte-americanos, aliou-se ao  mais atrasado e reacionário existente naquele país.

Indignamo-nos por um chefe de estado, que por sua alta função, deveria  viver valores e virtudes que gostaria que o povo também vivesse. Ao contrário, se excede nos maus exemplos. Tem difundido a partir de cima uma onda de ódio, de mentiras, de violências e de fake news como política de estado. Tal atitude insuflou na sociedade e nos órgãos policiais  situações de barbárie com uso indiscriminado da violência dirigida contra os mais desvalidos. Mostrou-se absolutamente irresponsável em questões ambientais,de modo particular quanto à Amazônia e ao Pantanal.

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Indignamo-nos por ter-se aliado ao Covid-19,negando sua importância, tentando impor a imunização de rebanho,sacrificando com isso centenas de pessoas, e prescrever medicinas sem qualquer efeito imunizador. Negou a eficácia das vacinas a ponto de, a seu tempo, recusar  a sua aquisição. Ele é responsável de parte dos mais de  660 mil vitimados pelo Covid-19 quando poderia tê-lo evitado. Nunca mostrou empatia e solidariedade com as famílias enlutadas.

Indignamo-nos por desprezar as leis e a Constituição, atacar o STF e o TSE, ameaçar com um golpe de estado e claramente afirmar que reconhece nas eleições apenas um único resultado, a sua reeleição. Caso contrário haverá convulsão social, manipulando sua base fanatizada e armada.

Indignamo-nos por ter traído a si mesmo e ao povo brasileiro, retomando inescrupulosamente a velha política que queria superar, aliando-se a grupos políticos oportunistas e conservadores com os quais articulou vergonhosamente um orçamento secreto,fonte de alta corrupção.

Indignamo-nos, por fim, por ser corrupto no sentido originário da palavra: ter um coração (cor) corrupto (corruptus). Pior que a corrupção monetária existente no atual governo mas impedida de ser investigada ou colocada sob sigilo, é a corrupção de sua mente e de seu coração. Ele é visivelmente tomado pela pulsão de morte, pelo descuido que mostra da vida das pessoas e da natureza. É desta corrupção fundamental que nasce seu ódio, sua boçalidade, as palavras de baixo calão, as mentiras  e a distorção da realidade. Como pode dizer que tem Deus no coração?

              A irmã coragem

Encorajam-nos a oposição e a resistência de políticos ligados aos interesses gerais da nação, especialmente dos movimentos sociais populares do campo e da cidade e de vários estratos maltratados por seu governo como os artistas e atrizes, cultores da cultura,  os negros,os quilombolas,os indígenas e os pobres.

Encorajam-nos os meios de informação e de opinião alternativos seja impressos, seja pelas mídias virtuais que mantém viva a consciência crítica e denunciam os desmandos governamentais e parlamentares.

Encorajam-nos os vários manifestos de professores e professoras, de intelectuais, artistas, gente dos movimentos sociais e do povo organizado contra as reformas que desmontaram conquistas históricas de direitos dos trabalhadores e de aposentados, entre outros.

Encoraja-nos a consciência nacional e coletiva em defesa de  nossa democracia representativa que embora não seja de alta intensidade, comparece com o grande instrumento político para a manutenção de um estado de direito, da vigência e respeito à constituição e às leis, sendo o  espaço das liberdades de opinião e da elaboração dos consensos.

Encorajam-nos  as iniciativas populares e dos movimentos sociais, a despeito da falta de apoio dos órgãos oficiais, de viverem concretamente a ética da solidariedade em tempos de pandemia, ofecendo toneladas de alimentos orgânicos e milhões de quentinhas aos milhares e milhares de desempregados e afetados pelo Covid-19.

Encorajam-nos os centenas de encontros virtuais, via LIVES, promovidos por grupos ou organizações sobre temas atuais, reforçando o engajamento e a esperança. Cabe enfatizar o alto valor civilizatório do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) fundado pelo ex-banqueiro Eduardo Moreira e seu grupo,oferecendo, virtualmente, 145 cursos, ministrados pelas melhoras cabeças nacionais e internacionais, atingindo mais de 60 mil alunos a preço se um sanduíche (42-49 reais) podendo  por esse preço seguir todos os cursos. Centenas recebem bolsas gratuitas de estudo.

Encoraja-nos a possibilidade de elegermos representantes políticos desde as assembleias estaduais e do parlamento que poderão dar sustentação a um eventual governo de resgate da democracia, dos direitos perdidos e de uma soberania ativa e altiva com repercussão internacional.

Encoraja-nos  o apoio internacional às nossas forças democráticas, contra o autoritarismo, a barbárie social e resgatando nossa importância conquistada nas relações internacionais, especialmente pelas políticas de combate à fome e pelas demais políticas de inclusão social, técnica e universitária.

Encoraja-nos, por fim, a relevância que nosso país possuí, devido à sua privilegiada situação ecológica, no equilíbrio dos climas, na manutenção do sistema-vida e do sistema-Terra em beneficio nosso e de toda a humanidade.

Estamos convencidos de que nenhuma sociedade se constrói sobre o ódio ou sobre a pulsão de morte,mas sobre a convivência pacífica entre todos, no cuidado de uns para com os outros e da  grande Casa Comum,a natureza incluída, especialmente a Amazônia, bem comum da humanidade.

Leonardo Boff é teólogo,filósofo e escreveu O pecador ambicioso e o peixe encantado: a busca da justa medida, Vozes 2022.

 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Passos para derrotar o fascismo e a política do ódio

 Leonardo Boff


 

Este artigo é dedicado aos que lutam pela democracia ferida e pelo resgate da nação devastada.

 

Forças políticas, inimigas da vida, se aliaram ao Coronavírus e estão favorecendo a dizimação de mais de 600 mil vidas. Seu objetivo consiste em nos conduzir aos tempos pré-modernos, desmantelando nossa cultura e nossa ciência, suprimindo direitos trabalhistas e previdenciários, difundindo mentiras, ódio covarde aos pobres, aos indígenas, aos quilombolas, aos afrodescendentes, aos homoafetivos e aos LGBTI.

Ideologicamente tais forças são ultraconservadoras com cariz nitidamente fascista. Galgaram o mais alto poder da república. O representante-mor destas forças quer, por todos os meios, mesmo ao arrepio da lei, se reeleger. Como parlamentar magnificou torturadores e defendeu ditaduras. Como chefe de estado foi leniente com as grandes queimadas da floresta amazônica, com os madeireiros e com a intrusão das mineradoras e do garimpo, inclusive em terras indígenas. Cometeu crimes contra a humanidade por seu negacionismo em relação aos imunizantes do Covid-19 e se mostrou insensível e sem nenhuma empatia face ao sofrimento das milhares de famílias enlutadas e aos milhões de desempregados e famintos.

Infelizmente constatamos a fragilidade, até a omissão de nossas instituições oficiais ou jurídicas e a baixa intensidade de nossa democracia que media pela justiça social e pelo respeito aos direitos se parece antes uma imensa farsa oficial. Nada ou pouco se fez para afastar esta figura sinistra, autoritária e fascistoide. Não lhes é permitido assistirem, impassíveis, ao esfacelamento populacional, cultural, político e espiritual de nosso país.

Face a esta tragédia histórica, precisamos, pela via eleitoral, frear a pulsão de morte, presente no poder executivo e em seus auxiliares. Impõe-se infligir uma derrota eleitoral fragorosa a este que se mostrou insano, indigno, malévolo e incapaz de governar o povo brasileiro. Ele merece ser, legalmente, varrido da cena política e pagar por seus crimes, para que, em fim, possamos viver com um mínimo de desenvolvimento justo e sustentável, com paz social, com franca alegria e com felicidade coletiva.

Para concretizar esta diligência política e ética, nos limites da Constituição e da ordem democrática de direito, importa, ao meu ver,  percorrer os seguintes passos:

Primeiro, garantir, se possível, já no primeiro turno, a vitória para presidente, de alguém com carisma, com confiança das grandes maiorias e com capacidade de nos tirar do poço escuro no qual fomos lançados. Ele já mostrou anteriormente que é capaz de realizar esta redenção. Não carece revelar seu nome pois já despontou, vitorioso, nas pesquisas eleitorais.

 

Segundo, não basta eleger um presidente com tais características. É fundamental garantir-lhe uma bancada parlamentar numerosa para que o presidencialismo de coalizão não comprometa os ideais e propósitos, presentes nas origens e resgatáveis, como a opção por políticas sociais que atendam às grandes maiorias empobrecidas e oprimidas, com transparência, com a ética da solidariedade a partir dos mais vulneráveis e com e soberania ativa e altiva. Fazer alianças com partidos afinados com propósitos sociais e populares. Igualmente é importante garantir a eleição de governadores e, a seu tempo, de prefeitos e de vereadores que nas regiões e na base deem sustentação ao governo central com sentido de justiça social e de cuidado da vida do povo e da natureza.

 

Terceiro, – o mais importante – reforçar e, onde for preciso, retomar o trabalho de base, organizando comitês populares de  toda ordem, para que participem e se articulem com os organizações já existentes como da saúde, da educação, da igualdade de gênero e de outros, criando consciência cidadã. Não basta garantir a inserção no sistema vigente, perverso e antipopular, mas criar consciência mudancista, apontando para um outro tipo de sociedade com democracia participativa, sicial e ecológica.

Esse trabalho de base é imperativo se quisermos criar as condições para uma transformação que vem de baixo e criar movimentos progressistas e libertários que traduzem os sonhos em práticas viáveis e cotidianas. É nesse nível, rés-do-chão, que começa a se ensaiar o novo e se alimenta a energia necessária para continuar a refundação de um novo Brasil, contra o prolongamento da dependência histórica, contra o vira-lata, presente nas elites do atraso e contra o oligopólio  dos meios de comunicação, braço ideológico da classe dominante, herdeira da Casa grande.

Estamos convencidos de que este sofrido caos destrutivo irá passar e será transformado em promissor caos generativo de uma nova ordem, mais alta, mais  justa, fraterna e cuidadora de toda vida:em fim, de um Brasil no qual teremos alegria de viver e conviver com justiça, onde será mais fácil a amorosidade e a jovialidade que caracterizam o melhor de nós mesmos.

 

Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor e escreveu: Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018; Habitar a Terra: qual o caminho para a fraternidade universal? Vozes, 2121.

 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

ACEITA SER MANIPULADO: TENHA ÓDIO DE POLÍTICA!

 

Frei Betto


 

       Há uma tradicional maneira de caçar ratos: basta colocar um pedaço de queijo dentro de uma armadilha. O roedor sente o cheiro da iguaria e, ágil, corre para devorá-la. Ao se aproximar, comete um erro involuntário que lhe custa a vida: pisa no mecanismo que fecha, automaticamente, a ratoeira, aprisionando-o.

       É o que faz o populismo de direita para neutralizar potenciais adeptos das teses progressistas. Apregoa o ódio à política. Alardeia que todos os políticos são corruptos! (Inclusive seus adeptos...). Substitui as pautas sociais pela de costumes. Reforça o moralismo farisaico. Assim, convence muitas pessoas a ter aversão à política.

       Quem tem ódio da política é governado por quem não tem. E tudo que os maus políticos querem é que tenhamos bastante nojo da política para, então, dar a eles carta branca para fazerem o que bem entenderem. O que mais temem é que participemos da política para impedir que seja manipulada por eles.

       Não existe neutralidade política. Existe a doce ilusão de que podemos ignorar a política, abdicar do voto e ficar recolhido ao nosso comodismo. Ao agir desta forma, nos tornamos o rato que come tranquilamente o saboroso queijo, sem ainda se dar conta de que perdeu a liberdade e, provavelmente, a vida.

       Ninguém escapa dos dois únicos modos de fazer política: por omissão ou participação. Ao ficar alheio à conjuntura política, ignorar o noticiário, evitar conversas sobre o tema e nos abster nas eleições, assinamos um cheque em branco à política vigente. A omissão é uma forma de adesão à política e aos políticos que, no momento, dirigem a política do país no qual vivemos. 

       O outro modo é a participação, que tem duas faces: a dos que apoiam a política vigente e a dos atuam para mudá-la e implantar um novo projeto político.

       As forças políticas de direita, que naturalizam a desigualdade social, acusam muitos políticos de corruptos (às vezes, com razão!). Mas não propõem ignorarmos a política. Propõem substituir os políticos por empresários, dentro da lógica capitalista de privatização do espaço público e do Estado. Foi o caso do governo fracassado de Macri, na Argentina, e de muitos outros exemplos mundo afora.

 

Em tudo há política

       

       A política não é tudo, mas em tudo há política. Desde a qualidade do café que tomamos todas as manhãs até as condições humanas (ou desumanas) de nossas moradias. Tudo na vida de cada um de nós depende da política vigente no país: a qualidade de nossa educação escolar, o atendimento à saúde, a possibilidade de emprego, as condições de saneamento, transporte, segurança, cultura e lazer. Não há nenhuma esfera humana alheia à política. Inclusive a natureza depende dela – se as florestas são ou não preservadas, se as águas são ou não contaminadas, se os alimentos são orgânicos ou transgênicos, se os interesses do capital provocam ou não desmatamentos e desequilíbrio ambiental. A qualidade do ar que respiramos depende da política vigente. 

       Um dos recursos que a direita utiliza para dominar a política é a manipulação da religião, em especial no continente americano, onde a cultura está impregnada de religiosidade. A modernidade logrou estabelecer uma saudável distinção entre as esferas política e religiosa. Isso após longos séculos de dominação da política pela religião. Hoje, em princípio, o Estado é laico e, na sociedade, a diversidade religiosa é respeitada e tem seus direitos assegurados, tanto no âmbito privado (crer ou não crer), quanto no público (manifestação de culto).

       Atualmente, os religiosos fundamentalistas querem confessionalizar a política. Usar e abusar do nome de Deus para enganar os incautos. Ora, nem a política deve ser confessionalizada, pois tem que estar a serviço de crentes e não crentes, nem a religião deve ser partidarizada. A Igreja, por exemplo, deve acolher todos os fieis que comungam a mesma fé e, no entanto, votam em candidatos de diferentes partidos políticos.

       Isso não significa que a religião é apolítica. Não há nada nem ninguém apolítico. Uma religião que acata a política vigente está, de fato, legitimando-a. Toda religião tem como princípio básico defender o dom maior de Deus – a vida, tanto dos seres humanos quanto da natureza. Se um governo promove devastação ambiental ou privilegia os ricos e exclui os pobres, é dever de toda religião criticar este governo. Sem pretender ocupar o espaço dos partidos políticos, como, por exemplo, apresentar um projeto de preservação ambiental ou de reforma econômica. Em sua missão profética, cabe às confissões religiosas abrir os olhos da população para as implicações éticas da política deletéria do governo. 

       No caso dos cristãos, entre os quais me incluo, é sempre bom frisar que somos discípulos de um prisioneiro político, Jesus de Nazaré. Ele não morreu de acidente nas escadarias do Templo de Jerusalém, nem de doença na cama. Foi perseguido, preso, torturado, julgado por dois poderes políticos e condenado a morrer assassinado na cruz. Foi considerado subversivo por defender os direitos dos pobres e ousar, dentro do reino de César, propor outro reino, o de Deus, que consiste em um novo projeto civilizatório baseado no amor (nas relações pessoais) e na partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano (nas relações sociais).

       Portanto, não há como alguém escapar da política. Estamos todos imersos nela. Se a política que predomina hoje em nosso país e no mundo não nos agrada, busquemos meios para alterá-la. A realidade atual de nosso país e do mundo resulta da política adotada nas décadas precedentes. Cabe a cada um de nós se decidir: acatar ou transformar? 

       Um dos exemplos mais curiosos de que tudo tem a ver com a política é este: o último mês do ano é dezembro, que equivale ao numeral dez. Antes dele, novembro, nove. Atrás, outubro, oito. Precedido por setembro, sete.  E quantos meses tem o ano? Doze! 

       Eis a política: na Roma antiga o ano compreendia 304 dias e tinha 10 meses: martius, aprilis, maius, junius, quintilis, sextilis, september, october, november e december. Mais tarde foram acrescidos os meses de janus februarius.

       Para homenagear os césares, o senado romano mudou os nomes de quintilis para julho, em honra do imperador Júlio César, e sextilis para agosto, em honra de César Augusto.  Como havia a alternância de 31/30 nos dias de cada mês, não era admissível que o mês de Augusto tivesse um dia a menos que o de Júlio. Assim, arrancou-se um dia de fevereiro. Julho e agosto são os únicos dois meses do ano que se sucedem com 31 dias cada um. 

       Podemos não saber que a política está em tudo, mas está. Porque o ser humano não inventou, e acredito que nem inventará, outra maneira de organizar a sua convivência social a não ser através da política.

 

Frei Betto é escritor, autor de "A mosca azul" (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

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terça-feira, 26 de outubro de 2021

Construir uma Política nova e renovadora

 Marcelo Barros


 

Cada vez mais, no Brasil, se manifesta um modo de fazer Política que consiste em fomentar ódio e violência e em nome de princípios sociais e religiosos. Basta um bispo explicar que “pátria amada” não pode ser “pátria armada” e, logo, um deputado o  insulta publicamente  e destila o seu ódio à conferência dos bispos católicos e ao papa Francisco. Grandes meios de comunicação colaboram para que o próprio exercício da Política caia em descrédito geral. Enquanto isso, a ONU celebra o 76o aniversário de sua fundação (24 de outubro de 1965), com atividades contra o armamentismo e em favor da justiça eco-social e da Paz.

A ONU cumpre a importante missão de zelar para que a sociedade internacional seja impregnada de valores fundamentais como o respeito à dignidade de todos os seres humanos, a supremacia da justiça, a consciência ecológica e a abertura à transcendência. Grande parte da humanidade, mais consciente da realidade internacional, sonha com um organismo mundial que abranja não somente governos, mas também uma representação legítima da sociedade civil internacional. Só uma organização internacional que reúna Estados e também representantes das organizações civis terá força para exigir do governo das grandes potências respeito pelas leis e decisões internacionais. Somente um organismo assim poderá ajudar a humanidade a recuperar a consciência de que somos todos e todas uma só família humana. Que as vacinas contra todas as doenças sejam consideradas bens comuns da humanidade e não devam ser vendidas. É preciso deter a crueldade do governo dos Estados Unidos que, em meio à pandemia, impede que países como Cuba e Venezuela recebam insumos e matérias primas para medicamentos essenciais para a saúde do povo.  

 Nos últimos séculos, o controle cada vez maior, exercido pela Economia sobre a Política tem sido uma catástrofe para o mundo. A Terra tem quase oito bilhões de habitantes. Menos de um bilhão consome sozinho mais de 83% dos recursos disponíveis na terra. Metade da humanidade, mais de três bilhões de pessoas, devem viver com menos de dois dólares por dia. A cada ano, mais de 60 milhões de pessoas morrem de fome. Mais de um bilhão de crianças vive abaixo da pobreza. Conforme cálculos do Banco Mundial, com 40 bilhões de dólares, se poderia resolver todo o problema da fome e da saúde dos pobres no mundo. Ora somente, em um ano, os Estados Unidos gastam dois bilhões de dólares em armas para as guerras que mantêm no mundo. Ao mesmo tempo, a sociedade dominante fecha suas fronteiras aos migrantes que tentam sobreviver ao extermínio.

A sociedade civil não aceita mais essa iníqua organização do mundo. O papa Francisco pede que superemos “a cultura da indiferença”. É urgente estimular uma nova cultura contra a insensibilidade vigente com o que se passa com milhões de seres humanos.

A crise atual aponta para a necessidade de uma nova política econômica e social a serviço da construção de uma sociedade internacional e dos Estados. É preciso unir todas as pessoas de boa vontade e grupos articulados da sociedade civil para “democratizar a democracia”, ou seja, elaborar um novo estilo modelo de Política, efetivamente, centrado no bem comum. Dom Oscar Romero, arcebispo de El Salvador, martirizado em 1980, propunha um retorno ao que ele chamava  de “grande Política”.

Nestes próximos dias, a ONU organiza duas conferências mundiais, uma sobre Biodiversidade e outra sobre Mudanças Climáticas. O papa Francisco e 40 líderes de diversas religiões publicaram um Apelo pela sustentabilidade do planeta e pelo cuidado com a Vida. É importante que em nossos países reforcemos as políticas que garantam esse direito da Vida. 

 

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br  

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

AGENDA POLÍTICA PARA 2022

 Frei Betto


 

       Participei, de modo virtual, do 28º encontro estadual do Conselho do mandato do deputado federal Vicentinho (PT-SP), ex-presidente da CUT. É o único parlamentar da Câmara dos Deputados que debate com seu Conselho, integrado por militantes de base, líderes comunitários, prefeitos e parlamentares, a aplicação de suas emendas parlamentares, o que assegura transparência e objetividade.

       Em minha análise de conjuntura, frisei que segundo o Centro de Políticas Sociais da FGV (Fundação Getúlio Vargas), a atual renda média dos brasileiros caiu 9,4% desde o final de 2019. Nem todos perderam por igual. A redução na metade mais pobre da população chegou em 21,5%, enquanto no segmento mais rico ficou em torno de 7%.

       A situação socioeconômica do Brasil, com o fracasso do governo Bolsonaro, é dramática: dos 101,5 milhões de brasileiros que compõem a força de trabalho no país, 14,8 milhões desempregados. Abaixo da linha da pobreza sobrevivem 27,3 milhões de brasileiros (12,8% da população). E a retirada de direitos sociais da classe trabalhadora é agravada pela maior inflação dos últimos 27 anos (acima de 10% nos últimos 12 meses). 

       Em março de 2020, antes de a pandemia se agravar, o país tinha mais 7,5% de trabalhadores ocupados. Hoje, o número de desempregados é 20% superior ao existente anteriormente.

       E qual é a qualidade do emprego em nosso país? O trabalho por conta própria, o chamado “bico”, foi o tipo de ocupação que mais aumentou: cerca de 8,7% na comparação entre maio de 2020 e maio de 2021. O trabalho sem carteira assinada teve alta de 6,4%. A taxa de informalidade está em 40% da população ocupada, ou seja, 34,7milhões de trabalhadores sem direitos assegurados.

Já o trabalho doméstico, em queda de 19% em relação ao período pré pandemia, ficou praticamente estável entre maio de 2020 e maio deste ano.

       Somam-se aos desempregados os desalentados, aqueles que desistiram de procurar trabalho: são, hoje, 5,7 milhões, o que corresponde a 5,3% do total da força de trabalho do país.

         uma demanda real pela criação imediata de mais de 33 milhões de postos de trabalho! Se adicionarmos os 34,7 milhões na informalidade, veremos o tamanho do desafio que se coloca como prioridade para o Brasil encontrar um caminho de crescimento sustentável.

       Outra tragédia é a volta do Brasil ao mapa da fome. Quase 20 milhões de brasileiros (um Chile) declaram passar 24 horas ou mais sem ter o que comer. Mais 24,5 milhões não sabem se poderão se alimentar no dia seguinte, e já reduziram quantidade e qualidade do que comem. Outros 74 milhões vivem inseguros sobre se terão ou não refeições ao longo da semana. No total, são 118,5 milhões de pessoas (mais de duas vezes a população da Argentina) carentes de alimentação adequada ou que sofrem de algum tipo de insegurança alimentar (grave, moderada ou leve). 

       A principal causa da fome e da insegurança alimentar é a desigualdade social que caracteriza historicamente a sociedade brasileira, resultante de vários nós, como estrutura agrária arcaica, domicílios precários para a maioria da população nos centros urbanos, e discriminações de gênero e étnicas. Somam-se a isso a ausência de políticas públicas permanentes orientadas pela promoção e proteção de direitos humanos e o desmonte dos direitos sociais no mundo do trabalho e dos grupos sociais vulneráveis.

       Tudo isso agravado pela pandemia, a baixa remuneração dos que se encontram na economia informal, a flexibilização das leis trabalhistas, a pobretarização da população brasileira. 

       Essa conjuntura patética exige, em caráter de urgência, que o Brasil adote uma política de renda básica universal. Assim será possível assegurar o direito elementar de qualquer ser humano, independentemente de sua condição, de se alimentar adequadamente.

       Apesar desse quadro sinistro, o governo Bolsonaro resiste. Como se explica tal resiliência? Isso se deve ao apoio e à sustentação, explícitos ou camuflados, das classes dominantes, em especial o capital financeiro, os grandes grupos corporativos nacionais e multinacionais, o latifúndio e o agronegócio. Além de segmentos importantes da classe média. 

       Este quadro comprova a convergência entre o neoliberalismo e o neofascismo, construída desde as manifestações de 2013, o que resultou no impeachment da presidente Dilma Rousseff e na eleição de Bolsonaro.

       Ao contrário do que se propala, Bolsonaro não é um “sem partido”. Ele encabeça o Partido Militar, integrado por três segmentos: as Forças Armadas; o Partido Fardado (que reúne policiais-militares, bombeiros, guardas de empresas de segurança); e o Partido Bélico, no qual se aglutinam milicianos, frequentadores de CACs (Clubes de Caçadores, Atiradores e Colecionadores) e fanáticos neonazistas.

       Segundo análise de Ana Penido, “contribuíram para a reorganização do Partido Militar a presença das tropas no Haiti (aumento dos contatos internacionais), as operações de Garantia da Lei e da Ordem (oferecendo às Forças Armadas uma autoimagem de solucionador de problemas nacionais), o emprego das Forças Armadas nos megaeventos esportivos (proporcionando contatos com elites econômicas – particularmente empresários da construção civil – e com a imprensa), e a Comissão Nacional da Verdade (garantindo coesão discursiva em torno de um inimigo comum, a esquerda)”.

       Militares têm dificuldades de se adaptar ao regime democrático. Pensam segundo a lógica da guerra, miram a população dividida entre aliados e inimigos, e são treinados em 3Ds (não duvidar, não divergir, não discutir). E a lógica da guerra se encontra, hoje, popularizada pelos jogos eletrônicos, a moda, os aplicativos de relacionamentos, e a impunidade ao machismo, à homofobia e ao racismo. E fortalecida pela liberalização da compra de armas. 

       Caso as forças de oposição ao governo não tenham força de promover o impeachment de Bolsonaro, o Brasil terá de suportar o genocida até as eleições de 2022. E continuar a assistir às reiteradas ameaças ao Estado de Direito e ao desmonte dos direitos sociais. Ainda assim, urge que a oposição intensifique sua atuação contra-hegemônica, antineoliberal e antifascista, sem cair no engodo de uma “frente ampla” contra Bolsonaro, o que só existe na retórica da direita neoliberal interessada em viabilizar uma candidatura que derrote, preferencialmente, a esquerda.

       Na conjuntura internacional segue em curso o processo de transição da hegemonia estadunidense para a chinesa, em aliança com a Rússia. Com isso, acirram-se as disputas geopolíticas em todos os cantos do globo. Particularmente na América Latina, o imperialismo estadunidense intensifica seu controle sobre sua tradicional “reserva de domínio”, se necessário fazendo uso da força e de golpes de Estado.

       Essa disputa cria rachaduras nos setores dominantes do Brasil. Enquanto os militares continuam alinhados à Casa Branca, o agronegócio sabe que não lhe convém perder a China como principal parceira comercial. Em suma, os próximos anos tendem a definir quem dominará o século. 

       Encerrei a análise de conjuntura assinalando oito pautas que considero imprescindíveis às oposições no ano eleitoral de 2022. Isso requer, em primeiro lugar, definir um novo Projeto Brasil. Qual o Brasil que queremos? Quais as reformas estruturais prioritárias? 

       Assim, o governo Lula, a ser empossado no início de 2023, e as forças que o apoiam, poderão se centrar nos oito pontos: 1) Combate à desigualdade social; 2) Implementação de renda básica à toda a população em idade laboral; 3)  Acesso de todos à saúde e educação; 4) Preservação socioambiental (saneamento básico, energias limpas etc.); 5) Resgate da ética como bandeira identitária da esquerda; 6) Intensificação do trabalho de base (educação popular) junto aos excluídos e vulneráveis; 7) Diálogo com o segmento evangélico (priorizando a Bíblia como canal) e os movimentos identitários (negros, LGBTodos e Todas; indígenas etc.); 8) Capacitação no desempenho das redes digitais e demais recursos da Internet, como forma de divulgação da pauta de oposição e combate das “fake news”. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

  

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