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domingo, 27 de dezembro de 2020

PROFETAS

 


Profetas são sisudos, são sérios, são graves. Profetas choram, clamam, anunciam, denunciam. Profetas enxergam onde ninguém vê, pois têm com eles o olho de Deus.

 Os profetas escutam o clamor do povo oprimido, os profetas escutam a resposta de Deus, os profetas falam. Mas os profetas não precisam ser todos Jeremias, nem Amós, nem Elias. Podem ser Francisco, podem falar com peixes e pássaros, podem ficar loucos de amor e sair dançando e cantando enquanto falam da misericórdia de Deus para com suas criaturas e especialmente pelos pobres. Os profetas podem até ser poetas, ou dançarinos. Loucos, podem enxergar música e ouvir dança onde há números e números e estatísticas e movimento de coordenadas e abscissas.

 Profetas podem perceber a dança dos astros como um carrossel mágico de uma festa de interior, podem vê-la com os olhos da criança simples da roça que se encanta com o movimento dos cavalinhos azuis de todas as cores, rodopiando na música mágica do carrossel, nas cores mágicas do carrossel.

 Os profetas sabem que reis e rainhas são verdadeiros, apesar das fantasias, quando servem na alegria os irmãos e irmãs e se encantam também com as cores do caboclo guerreiro de lança rural, que sabe extrair alegria e cor de uma vida sofrida. É a fita colorida, é o sorriso, é a sensação de pertença a um povo, a uma comunidade. Uma imensa alegria que só os filhos e as filhas de Deus podem experimentar, sem remorso, sem culpa, sem ter que pedir perdão.

 Os profetas podem perceber a folia de Deus, que embriagado de amor, criou o universo em movimento, como uma evolução rítmica de um bloco de caboclinhos ou o ribombar dos tambores do maracatu, ou ainda como um desfile de uma escola que organiza o caos da multidão em instantes de frevo.

 Os profetas percebem que Deus abençoa os que brincam, os que amam, os que tornam a vida mais bela, os que aliviam o fardo do outro, mesmo por alguns dias apenas.

 Há profetas que nascem em tempo de carnaval, esses são mais lúdicos, mais humanos. Esses percorrem as ladeiras da vida, junto ao povo, distribuindo doces em forma de palavras e de carinho, aspergindo água de cheiro, confetes e serpentinas multicores, abençoando, bendizendo, cuidando.

 Há profetas que nascem em fevereiro.

Assuero Gomes

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

CARTA AOS IRMÃOS DA IGREJA DA PARAÍBA




Por Assuero Gomes


Aos irmãos e irmãs leigos que vivem sua fé na Igreja da Paraíba e dão exemplo de virtude e perseverança na sã doutrina, toda Paz e toda Graça. Aos presbíteros e diáconos dessa mesma e amada Igreja Paz e Perseverança.

“E eis que ouvi o clamor que chega da Igreja da Paraíba e contei as lágrimas da Senhora das Neves. Eis que suplico às irmãs que estão em Guarabira, Campina Grande, Patos e Cajazeiras, que se cubram de cinzas e chorem sobre as lágrimas da Senhora, decretem um tempo de luto e oração.” “Suplico às irmãs que estão em Maceió, em Palmeira dos Índios e em Penedo que abram os ouvidos e os olhos para o lamento que vem da Paraíba, pois o corpo sofre as dores de quem foi violentado na sua dignidade de filho de Deus”. “Suplico às irmãs que estão em Natal, Mossoró e Caicó que não sejam mornas nem míopes, pois quando uma parte do corpo sofre todo corpo padece, abomino os omissos”.

“Suplico às dez irmãs que estão em Pernambuco, Petrolina, Salgueiro, Floresta e Pesqueira, ainda em Garanhuns, Caruaru e em Palmares, em Nazaré e Afogados da Ingazeira que cuidem, ajudem e se indignem, e especialmente à Igreja que está em Olinda e Recife, pois foi na hora da agonia que da Paraíba tiveste mais ajuda! É hora de acolher e acalentar, pois somos solidários na alegria e solidários na dor”.

Abateu-se e solidificou-se como numa noite tenebrosa, que tarda tanto a passar, sobre a Paraíba, uma alcateia vestida de pastores que escandaliza o rebanho. As pedras de moinho estão postas e as cordas estiradas, a mão do Senhor já paira sobre eles. Rezemos para que o tempo se abrevie, pois por muito menos os Borgias foram condenados na fogueira da História.

Suplico aos cristãos todos dessas igrejas que se unam em oração, para que não percamos nenhum desses pequeninos; e que suas reações frente aos escândalos sejam de um discernimento tal, que só o dom Espírito permite, que separem o joio dos maus pastores do trigo do qual é feito o Pão. Permita que a fé nos garanta que as portas do inferno jamais prevalecerão sobre a Igreja, que mesmo sofrendo todo tipo de assédio do Mal, toda perseguição e todo mau exemplo sairá vitoriosa e lavada nas vestes puras do Cordeiro.

Rogamos a Maria, mãe nossa e de todos os cristãos, que interceda sempre e cada vez mais, para que possamos não perder nenhum dos pequeninos, prediletos de seu Filho e que encurte o tempo de sofrimento dessa querida Igreja da Paraíba.

Assim como anuncia a profecia de Ezequiel, ai dos pastores de Israel que apascentais a vós mesmos, não devem os pastores apascentar as ovelhas? Assim como anuncia Jeremias, Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto, diz o SENHOR.

Portanto assim diz o Senhor Deus de Israel, contra os pastores que apascentam o meu povo: Vós dispersastes as minhas ovelhas, e as afugentastes, e não as visitastes; eis que visitarei sobre vós a maldade das vossas ações, diz o Senhor. E ainda da boca do próprio Jesus: O bom pastor dá a vida por suas ovelhas. O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa. Pois ele é apenas um mercenário e não se importa com as ovelhas.

Pior quando o lobo é o próprio pastor.

Irmãos e irmãs que estão na Igreja da Paraíba, como uma vela acesa diante do sacrário seja nossas orações dia e noite pela paz, harmonia e benignidade nas vossas vidas, e que um tempo novo de conciliação surja numa nova página do Livro onde está assentada a palavra da vida dessa igreja tão querida e que vive e sobrevive sob a proteção maternal de N. Sra. das Neves.


Cristão Católico Leigo
Da Arquidiocese de Olinda e Recife


quarta-feira, 29 de julho de 2015

O ENCONTRO


Por Assuero Gomes


Durante alguns anos de sua vida o padre vivenciou uma vida de fé, servindo numa paróquia de periferia em um dos morros do Rio de Janeiro. Muito jovem, ligado aos ideais das lutas sociais e religião, teve uma bonita e profunda formação teológica cristã engajada. Oriundo de família pobre do interior de Minas, conseguiu a muito custo se ordenar. A designação para trabalhar na comunidade do Morro foi o coroamento do sonho que sempre idealizara, desde os primórdios da vocação. Servir ao pobre e libertá-lo.

Um difícil sonho de ser sonhado e que muitas vezes tornou-se como um pesadelo, pois a violência, como a besta do Apocalipse, tentava devorar a tudo e a todos.

Ameaçado constantemente por traficantes, pelo descaso dos programas do governo, por falta de incentivo da própria comunidade amedrontada, esse padre tinha um grande consolo. Ao final de cada tarde, antes de celebrar, ele se punha de joelhos em frente ao sacrário improvisado na capelinha, e sentia a presença do Ressuscitado, quase que falando fisicamente com ele.

Passando o tempo, o padre foi se revoltando com a falta de ‘sucesso’ de sua pastoral. Desanimado, foi se sentindo impotente, abandonado, diante de seu ‘fracasso’, pois os jovens na sua maioria se entregaram às drogas e à prostituição.

Teve seu barraco e a capelinha incendiada, denunciou à polícia, sem êxito, pois a própria corporação policial evitava o confronto direto naquela localidade. Desesperou-se. Procurou reunir o pessoal do Morro, procurou falar com alguns políticos, sem nenhum sucesso. Enfim, numa tarde, talvez uma das últimas, ele conversou com Ele: “estou cansado, muito cansado. Não vejo nem Tu ajudar-me. Vou embora. Cuida desse rebanho que é Teu”. Nesse dia não sentiu nenhuma resposta.

Mudou-se, entregou a capelania, com o tempo foi ser ativista político e ensinar numa escola pública, casou. Os anos se passaram. Perdeu a fé.

Um novo padre, recém-ordenado, retomou o trabalho pastoral naquele local. Aos poucos obteve algum sucesso, uma meia dúzia de jovens e algumas senhoras idosas, passaram a frequentar assiduamente a capela, que foi restaurada. Muito sacrifício e dedicação da mesma forma que seu antecessor, muita resistência também.

Ultimamente um homem, de certa idade, cansado e melancólico sobe ao morro quase três vezes por semana e vai ficar perto do sacrário da capelinha restaurada. Fica olhando e olhando, fitando o infinito, com olhos vazios. Senta-se em frente, num tamborete de lá mesmo, e assim permanece por mais de meia hora. 

O padre atual, que não lhe conhecia, achou curioso e estranho que um homem viesse sempre ali e ficasse parado e mudo, olhando fixamente para onde se guardam as hóstias consagradas. Um dia perguntou ao estranho: - por que?

Ele lhe contou sua história em poucas palavras e disse, para espanto do novo padre “venho aqui pela saudade do Encontro”.

Assuero Gomes
Cristão católico leigo da
Arquidiocese de Olinda e Recife


quarta-feira, 11 de março de 2015

AS CINQUENTA NUANCES DE GREY

por Assuero Gomes


A luta das mulheres para conseguir os mesmos direitos dos homens é um luta histórica, desde os princípios da civilização, que deu-se com a hegemonia masculina. No século XX tivemos embates gloriosos onde, à custa de muita dor e sofrimento, como num trabalho de parto difícil, finalmente as mulheres, nos países civilizados, estão no mesmo patamar de direitos e deveres dos homens. São respeitadas e queridas. No Brasil ainda se engatinha no processo civilizatório com retrocessos gritantes. No ano de 2014 tivemos mais de 50.000 agressões.

Atitudes machistas, especialmente no Norte e Nordeste são aceitas
veladamente pela sociedade e no recinto do lar mais ainda, mas as mulheres estão tomando consciência e perdendo o medo de fazer a denúncia.

Algumas coisas, no entanto, me fogem ao entendimento. Uma delas, o sucesso do livro e do filme "Os 50 tons de cinza", mais de 100 milhões de livros vendidos e outra multidão (especialmente de mulheres) no cinema.

Vi o filme, não li o livro. Uma história de puro sadomasoquismo (porque quem é sádico implicitamente é masoquista). Uma menina simplória e encantada por um rapaz (ou seria pelo poder que ele representa) muito rico, que tem um prazer mórbido em provocar sofrimento nas suas parceiras e manter uma relação de
dependência extrema, e ela de sentir prazer na própria dor.

Os gregos relatam o Amor em três nuances: Ágape, Filos e Eros.

Ágape seria o amor 'racional' que se tem pelo outro ou pelos outros e pela humanidade, o amor de uma criança, o amor de ser humano e o prazer de estar junto numa refeição fraterna por exemplo. Filos por sua vez tem uma conotação fraterna, o amor entre irmãos e entre amigos, denota o altruísmo que deve permear o relacionamento entre pessoas sem interesse egoístico.

Quanto a Eros estaria mais ligado à paixão, à atração sexual mas não
obrigatoriamente, ao amor à beleza do outro tanto interna como externa.

Nenhuma dessas formas humanas de amor é contemplada por Grey e sua escrava, pois o amor tem por princípio a felicidade recípocra e a liberdade. Para o tipo de relacionamento de Grey e Anastasia os gregos utilizam o termo Porneia.

Muitas das mulheres que leram o livro e viram o filme não se escandalizaram nem protestaram, muito pelo contrário, esperam o lançamento do próximo. Como entender isso?

Creio que merece um estudo sociológico e psicológico mais profundo para se encontrar as raízes comportamentais de uma sociedade doente.

A violência está dentro de nós e sua permissão também. A submissão está dentro de nós e só existe se permitirmos. A morbidez, os desvarios, os calabouços, a perversidade, os porões que habitamos precisam ser iluminados, para que brilhe nosso futuro e nossa humanidade resplandeça.



Assuero Gomes é Médico e Escritor

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

SOBRE OS ANJOS


Por Assuero Gomes


Os anjos são criaturas estranhas. Muitos são solitários, outros caminham de dois em dois. Raramente se aglomeram. Não falam. São taciturnos. Podemos vê-los sobre alguns edifícios, nos hospitais, especialmente nas enfermarias. Não se olham entre si.

Estão nas grandes catástrofes e nos desastres. Contam os corpos. Não entendem bem os humanos. Ficam impressionados como podemos ser tão cruéis às vezes, e ao mesmo tempo  capazes de gestos de profunda misericórdia e desprendimento.

Na maioria das ocasiões ficam apenas observando, esperando, pela manifestação do livre arbítrio dos homens e das mulheres. Estão nas creches, nos parques de diversão, nos velórios. Como não envelhecem nem esquecem, acompanham pessoas durante toda suas vidas. Reúnem-se ao entardecer e na alvorada. Questionam-se silenciosos o  porquê de não terem a mesma liberdade que os humanos.  Estão nas igrejas, nos templos e nos prostíbulos. Nos comícios e nos grandes eventos, mas especialmente se comovem ao nascimento de uma criança e ao seu final de vida quando anciãos. São fieis, imperceptíveis. Falta-lhes o improviso, o rompante, a cólera, o arroubo, o medo, a surpresa, a dor, o sofrimento, a alegria incontida, o delírio, a instabilidade, a genialidade, a paixão.

São quase cartesianos no seu caminhar. Apenas obedecem e acompanham esse breve tempo de cada homem e mulher. Não entendem, tampouco, a paixão cega que o Criador tem por esses seres tão frágeis e finitos e cheios de insegurança.

Estão juntos aos suicidas. Um anjo para cada um. Aos corpos insepultos também estão juntos, nos asilos, nos blocos cirúrgicos, nas maternidades. Evitam bares e restaurantes, esperam às suas portas. Os anjos das madrugadas, dos bêbados, dos drogados. Ficam nas esquinas sem luz.

A vida dos anjos é perene. Há anjos viajantes. Outros questionam o sentido da sua própria existência. Não há anjos nas ermidas nem nos bosques. Nas igrejas ficam dois, durante todo tempo, desde o dia da consagração do lugar.

Não falam sobre Deus, não sentem fome nem sede, nem frio nem calor, nem atração nem repulsão. São incólumes. Não caem nem se levantam, nem levitam nem gravitam. São apenas anjos. Um pouco superiores aos humanos na racionalidade pois não temem a morte nem o sofrimento. Não se permitem percebê-los, e sua presença se exprime na ausência. Quando alguma pessoa humana se apercebe da presença da pessoa angélica é numa sensação fugaz, como uma impressão. São apenas anjos. Sem asas ou decisões. Apenas anjos que acompanham peregrinos na curta e efêmera passagem dos humanos na Terra. Há que se supor que,  alguns sentem como que uma saudade, quando se despedem dos que foram habitar com o Pai, ao caminharem com seus protegidos pela estrada derradeira, mas dessa saudade não se tem conhecimento, apenas suposição.

Gostam de música e de olhar as nuvens quando empurradas pelos ventos, especialmente aos tons rubros do por do sol. São apenas anjos.

Assuero Gomes é médico pediatra, pintor e escritor



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A PORTA DO COVEIRO




 Por Assuero Gomes

 
Na cidade em ruínas havia várias portas, que eram como portais. Essas portas ligavam realidades diferentes, porém na mesma dimensão. Era como entrar em uma tentando sair e aparecer na outra. Pois bem, havia a porta do prefeito, do gari, do médico, do padre, do juiz, do engenheiro, da advogada, do pistoleiro, da beata,  da professora e a do coveiro. Havia outras, a bem da verdade, mas essas já dá para se contar essa história.

Quem tentava sair desse lugar sempre retornava por outra porta.

A porta do prefeito era a mais procurada. Indubitavelmente. Quase todo mundo pelo menos uma vez na vida batia lá. Para pedir e algumas vezes para reclamar. Quase nunca eram atendidos. Mas continuava sempre a mais procurada.

A porta do gari era uma porta singela, em contraste com a do prefeito. Uma porta limpa a do gari. Por lá toda sujeira da cidade passava e ninguém notava. Ninguém ia lá, a não ser quando esse entrava em greve e ia bater na porta do prefeito e o lixo se amontoava. A porta do médico ninguém queria visitar, mas pelo menos uma vez na vida, todos passavam por ela. Da porta do prefeito, quando se conseguia entrar se saía sempre. Desanimado e às vezes pela porta dos fundos. Da porta do gari ninguém entrava, então também não se saía. Da porta do médico se entrava a contragosto e se saía às vezes satisfeito, às vezes apreensivo outras vezes não se saía.

A porta do padre, essa era imponente. Majestosa. Era antiga como a cidade, que, aliás, fora surgindo ao redor dessa porta. Alguns habitantes da cidade habitualmente entravam por ela. Entravam pesados e saíam mais leves em todos os sentidos, mas a média de idade deles estava aumentando.  Quanto a porta do juiz, esta era quase inacessível. Ninguém queria ir. Só em última necessidade e geralmente na companhia da advogada. Este sim, tinha uma porta fácil. Construída pelo engenheiro. O engenheiro por sua vez tinha uma porta retangualar, calculada, medida na forma justa. Quando construiu a porta da advogada houve uma querela qualquer.

Quem entrava pela porta do juiz algumas vezes saíam pela porta dos fundos que é gradeada. Demoravam muito e muito para de lá sair. Da porta do engenheiro, ao transpô-la poder-se-ia retornar, estava sempre no mesmo lugar, imutável. Ao se passar pela porta da advogada se ia e se vinha, se entrava e se saía. Se buscava uma preciosidade que se estava preste a se perder.

A porta do pistoleiro era sui generis. Escura. Construída com restos. Sombria. Pouca gente entrava por ela, alguns saíam. Aparentemente mais leves, com um peso invisível que jamais seria descartado. Ao lado estava a porta da beata. Uma porta antiga cheia de santos e amuletos. O interessante era que todas essas portas descritas estavam mesmo numa única rua curvilínea. Quem entrava na porta da beata saía mais leve, mais contente. Mais que qualquer outra, a porta da professora era a mais frequentada. Todos os habitantes daquela cidade estranha haviam passado por ela. Saíam melhores do que entravam.

Assuero Gomes é médico e escritor.


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A tempestade e a poesia



Por Assuero Gomes


As tempestades e os versos nascem do mesmo lugar, o coração do homem. As guerras e a paz também. A saudade, o afeto, a harmonia. A tortura, o enigma, o acalanto, a livre associação de ideias, o pensar e o esquecer, nascem do coração humano.

Um país e uma nação são formados por imensos mares de corações aflitos mergulhados nas águas da esperança, ou quiçá de corações felizes sobrenadando num lago de marés rasantes. Os corações passam seu tempo se constraindo e se distendendo, ora apressados, ora sonolentos, interligados aos corações outros, que sinfonicamente sobrevivem em diapasões de vida e morte, enquanto pulsam.

Tênues sopros enlevados dos apaixonados, sístoles raivosas dos sentimentos torpes, diástoles monumentais nas ocasiões de serviço ao próximo. Corações mesquinhos batem junto aos generosos e se misturam, no som de uma locomotiva que não parte nem chega, apenas acelera e descansa, acelera e descansa, acelera e descansa...nos trilhos das vidas.

As tempestades e os versos nascem do mesmo lugar, aquelas desarrumam as naus, as viagens, as vilas e as populações, já os versos, são mais perigosos que as tempestades, pois desarrumam o coração dos poetas e talvez, raramente, de suas musas. Não à toa, os grandes revolucionários que levaram suas tempestades para as nações, são quase todos poetas, ou já foram, ou quiseram ser. Não há revolução sem poesia, dessas que dispensam os alexandrinos ou parnasianos, mas que concretamente ardem com tijolos de versos concretos dilacerados na carne do coração dos românticos. Não há tempestade sem poesia nem poesia que não cause uma tempestade.

É sempre bom saber duas coisas sobre o coração dos humanos: é dele que saem as impurezas ou as mais belas e límpidas palavras pela boca de quem as profere, e também é sempre bom saber, que é nele, que Deus armou sua tenda e habita.

Assuero Gomes
Médico e Escritor
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quarta-feira, 16 de abril de 2014

Lembrar D. Helder


por Assuero Gomes
 

Lembrar D. Helder deve ser mais que simplesmente ter uma boa recordação afetiva. A saudade amorosa de uma pessoa que esteve entre nós e já partiu. Fazer isso com um profeta é trair sua memória.
Há exatos 50 anos ele chegava aqui em Olinda e Recife, num momento conturbado e tenebroso da nossa história pátria. Seu discurso de posse já deixava bem claro, na época, a que ele veio. Tornou-se um baluarte na defesa dos perseguidos. Via além de seu tempo. A questão do comunismo e do capitalismo, então no auge, ele a via em segundo plano. Rejeitava as ditaduras e as violência, ou da direita ou da esquerda. Sua ação sempre foi centrada na justiça.

Na questão dos muito pobres e os muito ricos. Hoje em dia é muito bonito, elogiável e até faz bem para o marketing pessoal ser defensor de D. Helder, ser seu amigo e muito mais seu seguidor, mas até bem pouco tempo era perigoso e poucos se atreviam a ostentar tal amizade.

Infelizmente o que vejo hoje são alguns procurarem mais o brilho do holofote e da mídia, do que a luz da verdade que iluminou o Dom. Alguns que ainda tentam manter sua memória a custo de muito sacrifício e desprendimento, focam suas ações no restauro e resgate da obra escrita e fotográfica, porém todos cometem uma grande traição memorial quando descartam o Pobre da vida do Dom. Ora, afastar D. Helder dos pobres e os pobres de D. Helder, é romper de maneira rude com a sua memória e com sua presença real entre nós.

Não vejo mais ninguém preocupado em acolher os pobres em nome do Pastor, nem dar-lhe abrigo ou cidadania. Francisco de Assis, Vicente de Paulo e tantos outros sobrevivem até hoje na memória dos pobres. O pobre é quem canoniza os santos, a canonização da instituição pode até ser dispensada, mas a daqueles a quem os santos serviram, não. Não se chega a Deus a não ser pelos necessitados.

Elaborar documentos, mostras internacionais, congressos, debates, exposições, acervos, campanhas, comissões, celebrações, isso não reflete praticamente nada da vida de um profeta como Helder Camara. Fico desencantado e muito preocupado quando constato que na totalidade absoluta das manifestações em memória do Dom a ausência de seus pobres é total. Pergunto primeiro a mim mesmo e em seguida a todos e todas que tentam de alguma maneira sobreviver essa memória, o que estamos fazendo?

Já imaginaram Francisco de Assis sem os pobres? Seria apenas um trovador galante medieval que encantou emotivamente uma bela Clara e fundou mais uma ordem, ou um Vicente de Paulo apenas um inteligente padre que fez carreira na coorte de França e chegou a conselheiro da rainha e fundou uma congregação.  A memória deles caberia num pequeno museu trancado e mofado, sem que o ar (Espírito) a vivificasse constantemente.

Fica um chamamento de consciência para mim e para quem tem ouvidos, vamos trazer de volta os pobres para D. Helder, porque ele jamais saiu de perto deles.


Assuero Gomes   é  médico, escritor e pintor.

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