O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador QUAL. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador QUAL. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Habitar a Terra - Qual o caminho para a fraternidade universal

 


                        Leonardo Boff



Faz-se uma constatação triste: o tipo de mundo no qual vivemos é tudo menos fraternal. O que predomina é o poder que, logo de início, estabelece uma divisão entre quem tem poder e quem não tem poder. Trata-se do poder-dominação, político, econômico, ideológico, midiático, também familiar e outros. Desta divisão nasce toda sorte de desigualdades: uns se sobrepondo aos outros, a maioria colocada no andar de baixo e uns poucos no andar de cima.

A desigualdade significa injustiça social que é eticamente inaceitável. Para as pessoas de fé, a injustiça social representa um pecado contra o Criador porque ofende a Ele e a seus filhos e filhas. Portanto, estamos submetidos a uma situação que não agrada a nós e também não agrada a Deus.

Grande é a busca humana por uma sociedade livre, igualitária, justa e fraterna. Em nome dela se fizeram as grandes revoluções, sempre derrotadas, mas nunca definitivamente vencidas, pois o anelo humano por liberdade, igualdade e fraternidade é imorredouro. Haverá sempre pessoas e movimentos sociais que manterão vivo este sonho e procurarão concretizá-lo na história.

Muitos são os motivos que fundam a fraternidade. Primeiramente somos todos portadores da mesma humanidade, pouco importa a origem, a cor da pele, a religião e a visão de mundo. Todos possuímos o mesmo código genético de base, presente em todos os seres vivos: os vinte aminoácidos e as quatro bases nitrogenadas. Dito numa linguagem pedestre: somos construídos por 20 tijolinhos diferentes e por quatro tipos de cimento. Combinados os tijolinhos e amalgamados pelos vários tipos de cimento, emerge a biodiversidade. Quer dizer, existe um laço de fraternidade real entre todos os seres vivos e especialmente entre os humanos. A fraternidade é universal, a natureza incluída.

Outra razão da fraternidade é o fato de todos os seres, também os humanos, possuírem algo em comum: viemos do barro da Terra. Homo, ser humano, procede de humus terra boa e fértil. Da mesma forma, o nosso ancestral bíblico Adam  se deriva de adamah que quer dizer: terra arável e fecunda. Desse barro o Criador nos tirou e moldou como suas criaturas, todos irmanados entre si.

Estas raízes comuns clamam para vivermos em fraternidade universal e ilimitada. Este foi o sonho de Jesus advertindo que ninguém seja chamado de mestre, poque todos somos irmãos e irmãs. A fraternidade sem fronteiras foi a busca ardente de São Francisco de Assis que chamava a todos os seres da natureza com o doce nome de irmãos e irmãs. Foi conversar com o sultão muçulmano no Egito porque queria uma fraternidade universal que implicava incluir cristãos e não cristãos. É o grande sonho de Francisco de Roma, o atual Papa que escreveu uma corajosa encíclica Fratelli tutti, “todos irmãos e irmãs” como resposta a um mundo globalizado que cria sócios, mas não irmãos e irmãs, nos faz virtualmente próximos, mas realmente distantes por causa da riqueza de alguns à custa da pobreza de muitos.

Dentro do mundo atual, fundado sobre o poder-dominação sobre pessoas, sobre povos e sobre a natureza, a fraternidade universal não possui condições de realização. No entanto, se não conhece viabilidade, ela pode ser uma atitude permanente, um modo de ser, um espírito que impregna todas as relações entre as pessoas e também as institucionais, de participação igualitária e cooperativa. Tudo isso à condição de renunciarmos ao poder-dominação e de termos humildade, não como uma virtude ascética, mas como um molhar nossas raízes no mesmo humus de onde a natureza e nós garantimos nossa existência, vendo cada ser e cada pessoa um irmão e uma irmã, com a mesma origem e o mesmo destino. Entre irmãos e irmãs vigora amor, cuidado e um profundo sentimento de pertença.

Devido às ameaças sérias que pesam sobre a Mãe Terra super-explorada e a dilaceração do tecido social das nações, a fraternidade sem fronteiras, como um novo tipo de presença no mundo, nos poderá salvar. Este livro Habitar a Terra: qual o caminho para a fraternidade universal quer trazer ao debate a urgência do amor social e da fraternidade universal, pelo menos como um modo de ser terno e despojado da vontade de poder-dominação, criando um laço de afeto e de cuidado entre todos do mundo natural e do mundo humano.


Leonardo Boff, 1938, doutorou-se em Munique em teologia sistemática. Foi professor de teologia por 22 anos no Instituo Teológico Franciscano de Petrópolis, posteriormente doutorou-se em filosofia na UERJ e foi professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia Filosófica na Universidade do Rio de Janeiro. Foi professor visitante em várias universidades europeias. Foi editor religioso por muitos anos da Editora Vozes e coordenou a publicação da obra completa de C.G.Jung.  É portador do prêmio Nobel alternativo da Paz de 2001 pelo Parlamento sueco. É detentor de vários títulos de doutorado honoris causa de distintas Universidades. Escreveu cerca de cem livros nas áreas da teologia, da filosofia, da espiritualidade e da ecologia.

 

segunda-feira, 15 de março de 2021

JOSÉ COMBLIN: A INSTITUIÇÃO CATÓLICA, TAL QUAL SE APRESENTA HOJE, PODE SER CONSIDERADA ‘APOSTÓLICA’?

  Eduardo Hoornaert


 

O livro, já antigo, de José Comblin, intitulado Échec de l’ Action Catholique? (Fracasso da Ação Católica?), publicado no ano 1961 pelas Éditions Universitaires de Paris, ainda tem algo a nos dizer hoje? Focado numa situação do passado, concretamente na situação da Ação Católica nos anos 1950-60, ainda pode suscitar nosso interesse hoje?

 

Vejamos primeiro os debates suscitados no ambiente da Universidade Católica de Lovaina, onde Joseph acaba de terminar seu curso em Teologia, que focalizam situações vivenciadas pela Ação Católica e pela Igreja Católica em geral, na Europa, sessenta anos atrás. Diversos professores de Comblin participam dos debates, como Philips, Moeller, Dondeyne, Thils, Suenens, Cerfaux, Aubert. Principalmente Gustave Thils (1909-2000), que publica para o grande público e produz uma série de publicações muito lidas e comentadas: Théologie des Réalités terrestres (2 vol. 1946-1949); Christianisme sans Religion? (1968); Syncrétisme ou Catholicité? (1967) [‘Teologia das realidades terrestres’; ‘Cristianismo sem religião?’; ‘Sincretismo ou catolicidade?’]. É principalmente seu livro anterior, Mission du Clergé et du Laicat (‘Missão do Clero e do Laicato’, 1945) que deve ter atraído a atenção do estudante Comblin. Outra referência é Gerard Philips (1899-1972), Professor de Teologia Dogmática, Assistente Eclesiástico Nacional da Ação Católica na Bélgica e, como tal, participante do Congresso Mundial do Apostolado do Laicato, em Roma, 1957. No livro que aqui comento, Comblin o cita seis vezes contra Journet três vezes, Hourdin, Garonne, Congar (Jalons pour une Thélogie du Laicat,Seuil, Paris,1953: ‘Balizas para uma Teologia do Laicato’) duas vezes, Suenens, Rahner, Civardi e Hoyois uma vez. Outros nomes entram no debate: Charles Moeller (1912-1986), o querido Professor Lucien Cerfaux (1883-1968) e, finalmente, o Professor historiador Roger Aubert (1914-2009), cujos enfoques historiográficos marcam a produção teológica de José Comblin ao longo da vida.

O livro que estamos comentando é o primeiro de uma longa lista que Comblin escreve em torno de questões do momento, ou ainda no sentido de assessorar autoridades eclesiásticas. Aqui já descobrimos uma importante opção intelectual de sua parte: dar mais importância à assessoria intelectual em torno de questões do momento que ao ensino regular em seminários ou universidades. Essa opção percorre toda a sua vida. Os dois volumes de sua Théologie de la Paix (1961-1962) foram escritos a pedido do Arcebispo Suenens, de Bruxelas. E, na América Latina, Comblin será mais tarde assessor não oficial de quatro bispos: Helder Camara, José Maria Pires, Manuel Gonzales (Chile) e Leônidas Proaño (Ecuador).

 

&&&&

 

Um sentimento de desconforto.

 

O que nos interessa aqui é saber se essas reflexões em torno da Ação Católica, de sessenta anos atrás, contêm algo que nos interessa hoje. Para tanto, vejamos por uns instantes quais os sentimentos do autor ao decidir comentar um possível ‘fracasso’ da Ação Católica.  

Ao abrir o livro hoje, sentimos que nele vai a comoção, e até desorientação, de um jovem sacerdote que pensou penetrar num mundo de referências seguras, e em pouco tempo constata que esse mundo se desmorona rapidamente.

Quando, em 1950, aos vinte e sete anos, ele é nomeado vigário auxiliar numa paróquia de Bruxelas, ele carrega consigo o entusiasmo de uma geração de jovens sacerdotes que têm como modelo o Padre Joseph Cardijn (1882-1967), fundador da Juventude Operária Católica (JOC), um movimento na época em plena expansão, já divulgado em 60 países. Mas na paróquia não se sente nada disso. Nela reina um sentimento de perda. A assistência à missa diminui aos poucos, as vocações sacerdotais também, os católicos se sentem marginalizados em meio ao progresso das ciências e as vivências de novas liberdades. A paróquia, instrumento principal da pastoral católica ao longo de séculos, não cumpre mais sua função social de formar um ‘povo de Deus’. Crenças secularmente incontestes desmoronam e não há resposta pronta. Desorientação por toda parte (o que escrevo aqui representa a situação em Bruxelas e nas cidades grandes. No interior, a situação é bem diferente). Numa entrevista, concedida em 2008 (três anos antes de sua morte) a um jornal chileno, Comblin rememora esse período de sua vida (a tradução do castelhano é minha) e cava fundo: eu não queria mais assistir a essa lenta decadência da igreja na Europa, sobretudo com a convicção de que esse processo era o resultado de erros gigantescos da hierarquia católica, que nunca entendeu a evolução do continente, porque queria defender seus privilégios da cristandade medieval. Será que a Ação Católica é uma resposta?  

 

&&&&

 

A Ação Católica.  

 

A Ação Católica emerge na igreja católica nos inícios da década de 1920, por iniciativa de sacerdotes decepcionados com o papel exercido pela igreja por ocasião da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Como foi possível que, quando países ditos cristãos partiram para uma guerra fratricida tão cruel, a igreja ficou em silêncio? Como foi possível que a igreja católica na França, por exemplo, deixou de tomar posição no famoso caso Dreyfus? Um militar de alto patente é injustamente condenado por ser judeu, e as autoridades eclesiásticas não reagem. Esse caso, como dizem os historiadores, foi o estopim da convulsão de 1914-1918.

A parte mais consciente do clero, na França e na Bélgica, pondera: é preciso salvaguardar a juventude católica de tais aventuras perigosas. Efetivamente, a Ação Católica consegue preservar grandes segmentos da juventude católica da ‘contaminação’ por ideias que passam por ‘modernas’, mas na realidade são perigosas. Trata-se de jovens que estão sob o controle da igreja católica. Nesse sentido se pode dizer que a Ação Católica perpetua e atualiza o trabalho tradicional da paróquia, no sentido de preservar, proteger, afastar influências consideradas nefastas, dinamizar energias positivas.

Quando, na mesma década de 1920, a paróquia entra em declínio, as esperanças se voltam para a Ação Católica. Nas cidades grandes, como Paris, Marseille, Bordeaux, Lille, Bruxelas, etc. a assistência à missa e aos sacramentos vai diminuindo gradativamente. O catolicismo ainda resiste no mundo rural, mas, nas cidades, o declínio é patente. O Professor Gerard Philips, mencionado acima, escreve: verifica-se um êxodo de fiéis nas cidades e um refúgio do catolicismo no mundo rural.

No final do decênio, em 1929, o Papa Pio XI também volta sua atenção para o fenômeno da perda de fieis e vê igualmente a salvação do catolicismo na Ação Católica. Ele dá a entender que ela teria capacidade de reconquistar a cultura ocidental ao catolicismo.  Ou, dito em outros termos: ele atribui à Ação Católica uma capacidade ‘apostólica’. É o que se entende pela expressão ‘Apostolado Leigo’. O papa insiste: ‘que a Ação Católica venha socorrer o clero na missão apostólica’.

No livro em apreço, Comblin dá a entender - sempre em termos velados - que o apelo do papa é baseado numa pressuposição. É uma constatação extremamente grave que implica em afirmar que o catolicismo tenha perdido a apostolicidade dos apóstolos de Jesus no transcurso da história. Que não consegue mais ‘evangelizar’, pois não adianta falar em ‘apostolado’ num sentido que não corresponde ao que se lê nos evangelhos. Enraizada numa longa história de ritos, regulamentos, dogmas, comportamentos morais e tradições transmitidas de geração em geração, a igreja católica não tem nada a oferecer a quem está caminho de abandonar tais ritos, regulamentos, moral e costumes. Enquanto os sacerdotes ainda podem camuflar essa penosa questão entendendo por ‘evangelizar’ a execução de ritos sacramentais, a celebração de missas, a reunião do povo em torno da igreja paroquial, os leigos demonstram à clara luz do dia essa incapacidade de evangelizar. Eles mesmos não sabem mais o que é o evangelho. Confundem entre evangelho e ritualismo, moralismo, preservação da família e das tradições, sabedoria de séculos.

A Ação Católica, enquanto exerce bem seu papel de educadora da juventude católica, não consegue corresponder ao que o papa dela espera. Ela não penetra naqueles segmentos da sociedade que não se declaram mais ‘afiliados’ a alguma instituição religiosa (e que, de modo não tão exato, costumam ser chamados de ‘sem religião’).

Observo aqui que esses segmentos, desde as análises de observadores como Joseph Comblin, não deixaram de crescer.  Em 1929 ainda podiam ser ignorados. Mas hoje, em 2021, os ‘no affiliated’ a alguma religião já são um quarto da população dos Estados Unidos (veja os números do Pew Center na Internet). A situação na Europa não deve ser muito diferente. Na América Latina, os ‘sem filiação religiosa’ já passam dos 10 %.  É o segmento que mais cresce, nas estatísticas sobre o item ‘religião’.

Em 1929, o Papa não viu, ou não quis ver, que a igreja católica não tinha condições de enfrentar a modernidade, ou seja, a visão do mundo que se estava de desenvolvendo – lenta e persistentemente – após os erros gigantescos, cometidos pela hierarquia na Idade Média, como declara Comblin na entrevista acima citada. A impressão é que o Papa Pio XI estava longe de perceber a fragilidade e provisoriedade da igreja católica, assim como de qualquer institucionalização do espírito cristão, seja ela a Ação Católica ou qualquer outra iniciativa. No momento em que ele pensou conferir à Ação Católica uma missão ‘apostólica’, que seria a de re-evangelizar segmentos significativos de uma população europeia em processo de afastamento da fé tradicional (um processo que na época se chamava ‘secularização’), ele falhou em sua análise da realidade. A impressão que se tem é que o Papa Pio XI, por ‘apostolado’, entendia o cuidado com o povo cristão, a proteção desse povo diante de perigos ‘de fora’, não a conquista do mundo segundo os ordenamentos de Jesus de Nazaré. Preservação de segmentos conservados contra o comunismo e o socialismo. Por exemplo: uma peregrinação de Jocistas a Roma só é recebida pelo Papa despois de este certificar que a JOC não é ‘socialista’.

A ineficácia da palavra do Papa Pio XI ainda se verificou mais tarde, e de modo traumático. Numa mensagem dirigida aos bispos alemães em 1937 sob as palavras Mit brennender Sorge (‘com grande preocupação’), o papa escreveu com insistência: ‘guardem distância do nazismo’. Palavras que se dissiparam no vento. Os bispos não fizeram nada. Foi preciso que, bem mais tarde, um teólogo como Metz apontasse o terrível campo de concentração de Auschwitz, onde milhares e milhares de judeus foram cremados vivos, para que a igreja alemã alertasse para o abismo em que caíra.

O apelo do papa patenteia uma realidade dura, difícil de ser aceita em meios católicos: não dá como enfrentar o mundo moderno sem rever métodos secularmente usados para congregar o povo. Lutar contra as ‘liberdades modernas’ ou contra ‘o progresso das ciências’ é perder tempo.

 

&&&&

 

A instituição católica, tal qual se apresenta hoje, pode ser considerada ‘apostólica’?

 

O jovem teólogo Comblin vai mais longe que seu Mestre Philips na análise da situação em que a instituição católica se encontra. Quando esse último, na página 82 do livro em apreço, constata que muitos leigos se declaram incapazes de sustentar com não-católicos um contato realmente produtivo, Comblin comenta: isso revela a fraqueza de alma dos cristãos. Se, no fundo de si mesmos, os cristãos não têm uma tensão espiritual, o apostolado é impossível (ibidem).

Essas palavras fazem pensar: fraqueza de alma dos cristãos; falta de tensão espiritual; e, no texto citado mais acima, erros gigantescos cometidos pela hierarquia católica no passado.

No passado, a igreja era especialista em pregar ‘ideias sábias’, preceitos de uma sabedoria transmitida de geração em geração: respeito às autoridades, obediência a regras religiosas e morais, preservação da família e das boas tradições. Isso foi a tarefa da igreja durante séculos e nisso reside, exatamente, a confusão. Pois o evangelho não é uma sabedoria transmitida de geração em geração, é a subversão dessa sabedoria milenar. É outra coisa. Como expressa Paulo em sua prosa inconfundível, no corpo místico de Cristo não vigora a hierarquia ‘da boa tradição’, mas uma hierarquia invertida: o fraco no centro, o forte a serviço do fraco. Ou, como diz o próprio Jesus em Lucas 14, 26, de modo extremamente incisivo: se quisermos seguir a ele, temos de aprender a ‘odiar’ os que amamos (os parentes): se alguém se aproxima de mim e não odeia (o verbo grego ‘miseô’ significa ‘odiar, rejeitar, negar’) seu próprio pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs e até a si mesmo, ele não pode ser meu discípulo.  Não se trata aqui de um ‘ódio’ por desavença ou desentendimento, mas por entendimento de um nível diferente de relacionamento com os demais e consigo mesmo, como demonstra a inclusão das palavras: (odiar) até a si mesmo. Uma verdadeira subversão dos valores, uma ‘Umwertung aller Werte’, como escreveu Nietzsche. Eis o cristianismo de Jesus, desconhecido por quem pensa que o cristão precisa se integrar na sociedade existente, obedecendo, respeitando, seguindo as regras de uma convivência harmoniosa.

Jesus usa outras expressões igualmente fortes para expressar o que ele vem fazer, como a exigência de enxergar o bem numa pessoa que não aparenta nada de bem, perdoar setenta vezes sete vezes, andar na companhia de exploradores do povo (publicanos) e de mulheres da vida. Isso não tem nada de ‘sabedoria ancestral’. É, como escreve Comblin, tensão espiritual, superação de uma fraqueza de alma.

Curvado sob o peso de tradições seculares, a igreja católica tem dificuldade em captar a novidade do evangelho. Seu passado pesa muito no presente. A maioria dos cristãos não entende que o evangelho postula uma rejeição da sabedoria tradicional que recomenda obediência, seguimento das leis, respeito pelas autoridades, bom comportamento. Que o evangelho é uma ‘boa nova’ subversiva, o seguimento de um Jesus subversivo. Para a maioria dos fieis, Jesus não constitui mais nenhum desafio. Foi ‘amansado’, integrado na cultura.  Não é mais novidade, não tem mais nada a dizer, fica enquadrado em dogmas, doutrinas e ritos, aparecendo nas imagens de um Jesus Cristo ‘humilde e doce de coração’, de um ‘Coração de Jesus’, integrado na boa família, educador de boas maneiras. Jesus revolucionário? Nem pensar.

Ao apontar erros gigantescos cometidos pela hierarquia, principalmente ao longo da Idade Média, Comblin alude ao fato que, naquele período, se formou um ‘povo de Deus’ por meio de uma hegemonia política, cultural e religiosa. Não por meio do apostolado, no sentido evangélico.  

A mutação do sentido atribuído ao termo apostolado foi uma evolução de séculos, e hoje ficamos perplexos, pois nos damos conta que resgatar o sentido original do apostolado é coisa muito difícil hoje, como o livro em apreço deixa entender a cada página. Mudar de postura psicológica, convencer-se que é preciso mudar de mentalidade e abandonar o complexo de superioridade de quem se sente herdeiro de um glorioso passado. Não se vira página de séculos de triunfalismo católico por sem esforços continuados. Um passado tão glorioso como o do catolicismo, se nao for redimido pelo espírito genuino do cristianismo, ameaça voltar com redobrado vigor, como alertam não poucos observadores. Como reza o ditado: ´Quem desconhece o passado é condenado a repeti-lo‘. Ou ainda: ´O passado vive em nós‘.Estamos tão acostumados a ver a igreja no centro, o bispo com mitra na cabeça e o padre com microfone na mão, que perdemos o senso do que seja ´apostolado leigo‘.

 

Para concluir: podemos dizer que o livro Fracassou a Ação Católica chega a uma conclusão que combina perfeitamente com o dito de Chesterton: o cristianismo não falhou: ainda não foi tentado.

 Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

ORDENAÇÃO DE MULHERES? PARA QUAL IGREJA E COM QUAL TEOLOGIA?

Por Ivone Gebara



Minha reflexão embora se abra a um contexto internacional da Igreja Católica Romana se situa mais particularmente no contexto latino-americano até certo ponto menos envolvido na temática da ordenação de mulheres. Nunca fomos assíduas lutadoras nessa reivindicação. Entretanto, nessas últimas semanas em meio ao conturbado contexto político nacional, uma quantidade significativa de textos sobre o assunto tem sido divulgada pelas redes sociais, sobretudo católicas.

Da mesma forma, em diferentes sites nacionais a reflexão sobre a ordenação de mulheres e a possível constituição de uma comissão de estudo no Vaticano para o diaconato feminino tem ocupado espaço significativo. Até uma paróquia da zona leste da cidade de São Paulo organiza para breve um debate sobre o tema. Muitos textos divulgados contam histórias de mulheres que segundo a oficialidade da Igreja Católica foram ilegitimamente ordenadas e, por isso, excomungadas. Calcula-se que mais de duzentas mulheres estejam hoje nessa situação e entre elas há também algumas poucas bispas, ordenadas sigilosamente por bispos refratários às ordens vaticanas. A questão da ordenação das mulheres sai de novo das catacumbas e começa a ver a luz do dia, apesar de envolta em mil e uma dificuldades provenientes de posições de grupos os mais diversos e divergentes.

Uma questão crítica

Reconheço que a efetivação da ordenação de mulheres seria um passo que, segundo algumas pessoas, poderia sanar em parte uma situação de desigualdade pública na sociedade e especialmente na Igreja Católica Romana. Entretanto, é preciso deixar claro que para muitas adeptas e adeptos da ordenação de mulheres trata-se apenas da afirmação de um “direito” de ambos os sexos de representarem Jesus Cristo diante da comunidade e não necessariamente de uma reivindicação feminista. Em outros termos, trata-se de pensar apenas na integração das mulheres ao sacerdócio oficial guardando-se a mesma forma de pensar e viver a Igreja. Critica-se a autoridade católica por não abrir espaços às mulheres quando o que elas pedem é estar a serviço da Igreja em diferentes tipos de trabalho e especialmente no ministério ordenado.

Quero apenas abrir algumas pistas de reflexão frente a essa questão de complexa solução no momento.

A meu ver o problema crítico situa-se justamente na consideração do direito das mulheres muitas vezes tomado de forma bastante simplista. O que significa um direito quando a instituição na qual se quer ter direitos é uma das que nega ou que não apóia muitos direitos às mulheres? O que significa ter direito numa instituição cuja ideologia teológica segue valorizando e incentivando o poder masculino em detrimento de uma visão mais participativa e diversificada de serviços, carismas e poderes? O que significa ter direito à ordenação de mulheres quando há uma visão do sacerdócio eminentemente masculina, anacrônica e com uma secular simbologia teológica masculina? O que significa esse direito quando outros direitos são frontalmente desrespeitados? Será que a admissão ao sacerdócio ordenado traria respostas a essas espinhosas questões?

A teologia sacerdotal vigente

A partir da teologia sacerdotal vigente os padres são revestidos de poderes não apenas simbólicos, mas poderes políticos e sociais que lhes permitem orientar vidas e até manipulá-las ou dominá-las.

Usam muitas vezes dos textos bíblicos como lhes convém e justificam suas escolhas como se fossem emanações evangélicas. Sem dúvida as exceções sempre existem e não quero esquecê-las. Mas, o mais comum é os padres concentrarem uma autoridade sobre as pessoas e especialmente sobre as mulheres mantendo e justificando de muitas formas as hierarquias que dominam a terra.

 Essa concentração exagerada de poder impede a ascensão e organização de ministérios ou serviços múltiplos a partir e em favor das comunidades cristãs. Além disso, o modelo de sacerdote que se apresenta é o sacerdócio de Jesus numa interpretação judaizante que me parece cada vez mais distante das ações e inspirações que descobrimos nos Evangelhos. Em vez de renunciarem ao poder que os coloca em evidencia e ao lado de seus pares seculares fortaleceram as alianças entre poder político, econômico e religioso ao longo dos séculos. Impõem decisões e muitos atuam de forma desrespeitosa, sobretudo quando o assunto refere-se à sexualidade feminina.

Reconheço o papel social e cultural de sacerdotes, pajés, mães e pais de santo, imãs nas diferentes religiões e sua evolução na história contemporânea. Estes atores e atoras sociais não são apenas os únicos “guardiães” da tradição religiosa a que pertencem, mas líderes que deveriam ter o coração colado às necessidades de suas comunidades. Dessa forma a participação dos membros nos serviços e na construção de significados atualizados seria uma responsabilidade comum. Isto requer um constante diálogo e uma divisão de saberes e poderes para responder aos sempre novos desafios do contexto em que se vive. Nesse sentido não pleiteio a extinção do papel de pessoas mais preparadas ou líderes éticos em relação aos conteúdos e tradições religiosas, mas estas pessoas só deveriam ter sua autoridade legitimada na medida em que estiverem em conexão com as questões vividas pela comunidade.

Reforma política da Igreja Católica

Nessa perspectiva não penso que as mulheres devam fortalecer um modelo de sacerdócio hierárquico masculino e nem aceitar a ordenação a partir de uma teologia também hierárquica no seu conteúdo e de simbologia fundamentalmente masculina. No processo histórico atual não se fala de “reforma política na Igreja Católica” o que seria a meu ver útil e necessário. É como se a política e a organização atual da Igreja proviessem diretamente de Deus, segundo a vontade de Jesus e se apresentassem de forma imutável nos diferentes séculos da história e nas diferentes culturas onde o cristianismo se implantou. Falar em “reforma política da Igreja Católica” implica igualmente falar de uma reforma das teologias que sustentam essas políticas de caráter masculino patriarcal centralizador. E a reforma dessa teologia vai revelar quase o óbvio, ou seja, a existência não só de muitas teologias e interpretações, mas entre a vida ordinária cotidiana e as teologias que sustentam a organização da Igreja nos seus diferentes níveis. Em termos concretos estou querendo dizer que uma coisa é a vida de cada dia e outra coisa é a teoria política teológica de uma organização religiosa com suas leis e princípios e, sobretudo com a diversidade de pessoas que dela participam. A pretensa uniformidade dos dogmas, a legalidade das leis canônicas escritas, apesar de sua utilidade, vão de encontro ao pluralismo das situações e crenças presentes nas diferentes culturas e momentos da História. A Igreja hierárquica nem sempre as respeitou, mas muitas vezes as combateu como negações da verdadeira doutrina revelada por Deus. É nesse contexto que também se pode falar das teologias feministas e de sua crítica ao centralismo religioso e ao corte eminentemente masculino de sua simbologia religiosa. Têm denunciado com insistência os abusos do poder religioso, sobretudo em relação à posse indevida da decisão sobre nossos corpos. Têm reinterpretado de forma rica e contextualizada a Bíblia e as teologias de forma a responder aos desafios atuais de nosso mundo.

Estas teologias são quase absolutamente rejeitadas ou ignoradas pelos mantenedores da tradição masculina, pois fogem do roteiro estabelecido por esta tradição.

Teologia feminista

Suspeito que boa parte do movimento em favor da ordenação das mulheres não trabalha na linha crítica assumida por muitas teologias feministas. Buscam apenas a igualdade de gênero nos ministérios sem fazer perguntas às bases de sustentação teológica e política da Igreja na atualidade.

Em geral, apenas visualizam o direito das mulheres a exercer ministérios na Igreja Católica pré-definida, na Igreja “universal” já constituída do ponto de vista de sua organização hierárquica. É como se apenas ao se tornarem presentes nas fileiras sacerdotais, as mulheres pudessem por sua presença modificar algo do panorama real, visual e formal de sua representação até agora unicamente masculina. Não ignoro a importância do visual, das quotas de representatividade, mas apenas isto não modifica por dentro nossas convicções. É preciso ter claro quais os comportamentos sociais, políticos e eclesiais que devem acompanhar a ordenação das mulheres. Que novas políticas a Igreja vai assumir, que orientações se vai propor quando novos “sujeitos”, os femininos, passarem a fazer parte de seus quadros de direção e da liderança das comunidades nos diferentes níveis. Estas são exigências que nós mulheres devemos fazer para não assumir algo como se fosse um favor dos homens de Igreja ou um ato magnânimo de concessão a nós simples mulheres.

Opino dessa forma porque conheço algumas das sacerdotisas, pastoras e candidatas ao sacerdócio feminino e minha impressão embora limitada e discutível, carrega a percepção de que não conseguirão uma mudança qualitativa e significativa na estrutura atual da Igreja Católica. Muitas apenas pedem o sacerdócio, mas não expõem e nem exigem as condições de seu lado para essa efetivação.

Trabalham como se a Igreja que deve reconhecê-las fosse, sobretudo o episcopado e o papado, instituições ministeriais masculinas. São estas que devem conceder-lhes a autorização para servirem a comunidade. Elas, sem perceber, se tornam ou se consideram menos Igreja identificando-a a hierarquia que a governa. Algumas dessas mulheres sacerdotisas têm trabalhos de ponta junto a populações marginalizadas e discretamente reorganizadas por elas. Algumas têm até doutorados em teologia e estudaram em universidades de renome internacional. E, no entanto, essa capacitação não é reconhecida pelos prelados. Posso entender a emoção e o desejo de muitas mulheres de se verem no altar, de sentirem que presidem uma celebração eucarística publicamente e que têm certo poder na comunidade. Posso até avaliar a emoção que algumas narraram de poder levantar a hóstia e dizer “este é o corpo de Cristo” como um sonho de infância esperando ser realizado. Ou ainda a emoção de sentirem-se chamadas de ‘pastoras’, ‘madres’ (?), presbiteras ou diáconas numa paróquia. Não as condeno, mas acredito que poderíamos ir mais longe e exigir bem mais num diálogo que deveria ser entre iguais e não entre superiores e inferiores.

Afetos e poderes absolutos e domésticos

Nessa problemática da ordenação das mulheres há um dado igualmente importante que nem sempre é considerado. Trata-se do fato de o Cristianismo na sua forma católica romana ser uma religião organizada a partir de fortes emoções culturais onde o circuito dos afetos revela uma espécie de divisão social de poderes que reproduz a sociedade na qual vivemos. A figura masculina de Deus Pai, Filho e Espírito Santo reveste-se de poder sócio-emocional absoluto enquanto que as figuras femininas como Maria e as muitas santas revestem-se de poder absoluto doméstico, cuidador, acolhedor, protetor e sanador. A representação sacerdotal masculina aparece também emocionalmente ligada ao poder político absoluto masculino, embora muitas vezes, o poder efetivo e decisivo no imediato seja o feminino. Sabemos bem que a ordenação masculina obedece a uma dogmática hierárquica masculina que no fundo começa pela imagem de Deus Pai entregando poder a seu Filho único que envia o Espírito perpetuado e simbolizado pelos sacerdotes masculinos.

Estaríamos nós mulheres, com o advento do feminismo, do pensamento crítico e da teologia feminista plural, dispostas a manter essa anacrônica hierarquia masculina? Estaríamos dispostas a manter a diferença entre sexo masculino e sexo feminino como desnível de capacidades que se expressa também no desnível salarial no serviço às comunidades? Estaríamos querendo manter a divisão social dos afetos e poderes de forma mecânica e naturalizada? Um pequeno exemplo chama nossa atenção. Hoje em muitas dioceses há uma discrepância salarial entre os padres e as freiras e leigos por serviços semelhantes... A discrepância salarial para além das necessidades de cada um reflete mais uma vez a manutenção do privilégio das hierarquias masculinas no interior da Igreja. A revolução de significados em curso nos tempos de hoje não estaria indicando a necessidade de sair das afirmações dogmáticas do passado e abrir novas possibilidades para repensar a herança cristã para nossos dias? A expansão da luta plural pelos direitos humanos não tocaria igualmente direitos mais amplos na Igreja na diversidade de suas comunidades, organizações e ministérios?

A naturalização

Outro aspecto importante nessa problemática refere-se ao perigo de naturalizarmos os comportamentos masculinos e femininos acreditando que todos os pertencentes a um ou outro gênero e até mesmo os transgêneros, se comportariam da mesma maneira. A naturalização significa tornar certos comportamentos como pré-dados pela natureza ou por Deus e afirmar, por exemplo, que a vocação sacerdotal das mulheres é o cuidado diário e não a lida nas políticas públicas em favor do bem comum. Era isso que se acreditava, por exemplo, em muitos países no tempo da luta sufragista das mulheres. Não se pode mais acreditar que existem tarefas ou trabalhos especificamente masculinos e outros especificamente femininos como se tivéssemos identidades laborais pré-definidas e comportamentos já pré-atribuídos a essas identidades. De certa forma essas atitudes assemelham-se as de Jean Jacques Rousseau e séculos depois ao do positivista Augusto Comte que queriam educar as mulheres em função dos homens e da família e buscavam preservá-las da política e dos vícios da vida social para o benefício da sociedade, dos maridos e da educação dos filhos. Além disso, consideravam as mulheres moralmente melhores do que os homens a até vítimas ilibadas reservando a elas um lugar que nada mais era do que uma reprodução talvez melhorada da naturalização dos comportamentos sociais de gênero. Assistimos hoje a reflexões e atitudes semelhantes embora com matizes e justificações diferentes. Estas precisam ser desconstruídas para que nosso rosto humano misturado apareça na sua complexidade e ambigüidade.

A história

Nesse contexto de “pedido” de ordenação das mulheres não podemos nos esquecer também das perseguições que prelados e funcionários da Igreja Católica Romana exerceram e exercem em relação às mulheres. Acusadas de bruxas ou de usurpadoras do poder de pensar que deveria ser apenas masculino foram condenadas à morte ou perseguidas e castigadas durante sua vida. De Ipazia de Alexandria (assassinada por ordem de futuro São Cirilo de Alexandria), a Marguerite Porette ( condenada à fogueira), a Joana D’Arc (condenada à fogueira) e Juana Inés de la Cruz(condenada e proibida de escrever e ensinar) e, sem falar das muitas contemporâneas, as figuras femininas massacradas por ousarem penetrar nos átrios do saber teológico foram milhares. Será que podemos esquecer estas histórias e também esquecer que nos séculos XX e XXI as teologias feministas repensaram boa parte da tradição cristã, mas que esse pensamento é minimamente conhecido além de freqüentemente recusado pelos donos do poder e saber religioso? A recusa a pensar de outro jeito é com freqüência característica das hierarquias religiosas e políticas... Podemos acaso esquecer que alguns eminentes personagens de nossa história atual até propõem a ‘ingenuamente’ a necessidade de uma ‘teologia da mulher’ ou de uma ‘teologia feminina’ ignorando completamente o percurso já feito durante séculos de história e particularmente da história desses últimos 40 anos? E mais não aceitam sequer que se fale de feminismo no interior da Igreja...

Continuam usando um conceito de igualdade abstrata, igualdade diante de Deus, sem confrontar-se com a real situação de violência e exploração vivida pelas mulheres. É simplesmente lamentável...

Podemos acaso esquecer que ainda hoje há interrogatórios, cartas de advertência, admoestações a congregações religiosas femininas, a teólogas e filósofas que acolhem o dom de pensar a vida como parte do serviço ao Movimento de Jesus? Tudo se articula com tudo. 

Uma reivindicação não é um pedido isolado de um conjunto. A ordenação das mulheres se inscreve nesse complexo contexto de idéias e crenças clericais que governam mentes e corações e mantém estruturas organizacionais anacrônicas. Não pode haver um direito isolado da conjuntura em que ele deva ser afirmado e vivido.

Situação ideal?

Muitas pessoas poderão alegar que busco uma situação ideal para o exercício público do sacerdócio ordenado feminino. De forma alguma. Sinto-me apenas chamada a ajudar a refletir sobre velhas e novas questões em que algumas soluções que parecem justas e igualitárias escondem os sinistros meandros do fortalecimento de um poder hierárquico e patriarcal no qual continuamos a viver, a nos alimentar e alimentar outras vidas. Antes mesmo de aprovar esse sacerdócio como direito das mulheres, o que não penso que o governo atual da Igreja Católica fará, teremos que refletir sobre as condições do direito que pleiteamos e os limites do modelo de sacerdócio vigente. Ao mesmo tempo em que este modelo ainda presta alguns serviços à comunidade cristã, também a isenta de muitas responsabilidades frente à construção de sentidos e à organização plural da vida cristã. Por isso sou contra a ordenação das mulheres como concessão, no estilo atual, pois esse é igualmente limitativo e pernicioso para os homens e mulheres.

Tenho consciência, embora bem limitada, da história das mulheres na Igreja Católica Romana e do enorme percurso de lutas que nós percorremos no Cristianismo. Desde a participação próxima e íntima no Movimento de Jesus até os dias de hoje temos sustentado e vivido a fé, a esperança e a caridade, sabendo desde as nossas entranhas que a caridade continua a ser a maior delas. É nela e a partir dela que a reprodução de modelos sacerdotais tradicionais na configuração atual do mundo corre o risco de manter e até ampliar poderes autoritários que desde muito tempo deveriam ter sido revistos e transformados à luz do reconhecimento da outra/o como meu semelhante e meu diferente. Tudo isso é apenas um convite ao pensamento...



Ivone Gebara é filósofa, religiosa e teóloga. Ela lecionou durante quase 17 anos no Instituto Teológico do Recife – ITER. Dedica-se a escrever e a ministrar cursos e palestras, em diversos países do mundo, sobre hermenêuticas feministas, novas referências éticas e antropológicas e os fundamentos filosóficos e teológicos do discurso religioso. Entre suas obras publicadas estão Compartilhar os pães e os peixes, O cristianismo, a teologia e teologia feminista (2008), O que é Cristianismo (2008), O que é Teologia Feminista (2007), As águas do meu poço. Reflexões sobre experiências de liberdade (2005), entre outras.