O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador encarnado. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador encarnado. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

FÉ, DOM POLITICAMENTE ENCARNADO

 

                                           Frei Betto


Não se trata de vincular fé e política somente quando nos referimos aos atuais processos de libertação. Isso seria ideológico, no primeiro sentido que Marx atribuiu a este termo, ou seja, uma tentativa de camuflar os fatos com uma racionalização que separa, em nível da linguagem, o que se encontra unido em nível da realidade. O fato de fé, política e ideologia estarem sempre vinculados em nossas vidas concretas, como seres sociais que somos ‑ ou animais políticos, na expressão de Aristóteles ‑ não deve constituir uma novidade senão para aqueles que se deixam iludir por uma leitura fundamentalista da Bíblia, que pretende desencarnar o que Deus quis encarnado.

    "Não há nada mais político do que afirmar que a religião nada tem a ver com a política", disse o bispo sul‑africano Des­mond Tutu. Na América Latina, não se pode separar fé, polí­tica e ideologia, assim como não seria possível fazê‑lo na Palestina do século I. Na terra de Jesus, quem detinha o poder político detinha também o poder religioso. E vice‑versa.

      Talvez soasse estranho hoje a certos ouvidos religiosos introduzir a leitura do Evangelho falando de Trump, Macron ou Putin. No entanto, ao introduzir‑nos nos relatos da prática de Jesus, Lucas primeiro nos situa no contexto político, informando‑nos que "já fazia quinze anos que Tibério era imperador romano. Pôncio Pilatos era governador da Judéia, Herodes governava a Galileia e seu irmão Filipe, a região da Ituréia e Traconites. Lisânias era governador de Abilene. Anãs e Caifás eram os presidentes dos sacerdotes" (3, 1‑2).
    Foi sob o símbolo da cruz que a colonização ibérica na América Latina promoveu o genocídio indígena e o saque das riquezas naturais. Sob a silenciosa cumplicidade da Igreja Cató­lica, mais de 10 milhões de negros foram levados da África como escravos para o Continente. Com a conivência de nossas Igrejas cristãs, instalou‑se, em nossos países, o sistema burguês de dominação capitalista.
    Portanto, não se trata de vincular fé e política somente quando nos referimos aos atuais processos de libertação. Isso seria ideológico, no primeiro sentido que Marx atribuiu a este termo, ou seja, uma tentativa de camuflar os fatos com uma racionalização que separa, em nível da linguagem, o que se encontra unido em nível da realidade. O fato de fé, política e ideologia estarem sempre vinculados em nossas vidas concretas, como seres sociais que somos ‑ ou animais políticos, na expressão de Aristóteles ‑ não deve constituir uma novidade senão para aqueles que se deixam iludir por uma leitura fundamentalista da Bíblia, que pretende desencarnar o que Deus quis encarnado.
    A fé é um dom do Pai a nós que vivemos neste mundo. Na vida após a morte, nossa fé será vã, pois veremos a Deus face a face. Portanto, a fé é um dom politicamente encarnado, que tem razão de ser nesta conflitividade histórica, na qual somos chamados, pela graça, a distinguir o projeto salvífico de Deus. Nesse sentido, nem mesmo em Jesus é pos­sível ignorar a íntima relação entre fé, política e ideologia, ainda que para alguns cristãos pareça estranho aplicar certas cate­gorias Àquele que nos assegura, por sua ressurreição, a vitória, em última instância, da vida sobre a morte e da justiça sobre a injustiça.
    Que Jesus tinha fé o sabemos pelos textos que nos falam dos longos momentos que ele passava em oração (Lucas 4, 16; 5, 16; 6, 12). Ora, só quem necessita aprofundar sua fé entrega‑se ao encontro orante com o Pai. A oração é para a fé o que o adubo é para a terra ou o gesto de carinho para o casal que se ama. O Evangelho nos fala até mesmo das crises de fé de Jesus, como as tentações no deserto (Mateus 4, 1‑11; Marcos 1, 12‑13; Lucas 4, 1‑13) e o abandono que ele sentiu na agonia no horto das oliveiras (Mateus 26, 36‑36; Marcos 14, 32‑42; Lucas 22, 39‑46).
    Há quem insista que Jesus, motivado por sua fé, restrin­giu‑se a comunicar‑nos uma mensagem religiosa que nada tinha de política ou de ideológica. Tal leitura só é possível se redu­zimos a exegese bíblica à pescaria de versículos, arrancando os textos de seus contextos. Ora, não só o texto nos revela a Palavra de Deus, mas também o contexto social, político, econômico e ideológico, no qual se desenrola a prática liber­tadora de Jesus.
    Todos nós cristãos somos inelutavelmente dis­cípulos de um prisioneiro político. Mesmo que na consciência de Jesus houvesse apenas motivações religiosas, sua aliança com os oprimidos, seu projeto de vida para todos (João 10, 10), tiveram objetivas implicações políticas.
    Já na introdução de seu Evangelho, Marcos mostra como as curas operadas por Jesus ‑ o homem de espírito mau, a sogra de Pedro, os possessos, o leproso, o paralítico, o homem de mão aleijada ‑ desestabilizaram tanto o sistema ideológico e os interesses políticos vigentes, que levaram dois partidos inimigos ‑ o dos fariseus e o dos herodianos ‑ a fazerem aliança para conspirar em torno de "planos para matar Jesus" (3, 6). Assim, vê‑se que as implicações políticas da ação salvífica de Jesus tornaram‑se tão graves e ameaçadoras que induziram Caifás, em nome do Siné­drio, a expressar que era "melhor que morra apenas um homem pelo povo do que deixar que o país todo seja destruído" (João 11, 50).

 

 Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros.

 

 

Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

®Copyright 2021 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

  http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

Você acaba de ler este artigo de Frei Betto e poderá receber todos os textos escritos por ele - em português e espanhol - mediante assinatura anual via mhgpal@gmail.com

 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

NO CRISTIANISMO ENCARNADO NA CULTURA GUARANI, O BISPO SERIA UM POBRE E O PAPA UM MENDIGO



 por Leonardo Boff
Há uma crise generalizada acerca do poder e de seu exercício, una real crise sistêmica, vale dizer, a percepção de que a forma como entendemos o poder e seu exercício em todos os âmbitos da realidade, não nos faz melhores. Vivemos quase sempre sob formas degeneradas,burocráticas, patriarcais, autoritárias senão ditatoriais. Max Weber, um dos grandes teóricos do poder, deu-lhe uma definição que tomou como referencia seu lado patológico e não seu lado sadio. Para ele, poder é fazer com que o outro faça aquilo que eu quero.
Por que não entender o poder como expressão jurídica da soberania popular, poder compartido e servicial? O ético deste poder consiste em reforçar o poder do outro para que ninguém se sinta sem poder mas participante nas decisões que afetam a todos.
Em tempos de crise como o nosso, convém revisitar outras formas de exercício de poder que nos ajudam a superar o pensamento único acerca do poder. Penso aqui na formas como os Guarani entendiam o poder e seu portador, o chefe da tribo. Sabemos historicamente que os tupi -guarani por volta de 1.100 anos antes da chegada dos europeus constiuiram um vasto império na selva que ia do norte nos contrafortes andinos até as bacias do Paraguai e Paraná ao sul. Não deixavam monumentos mas terras trabalhadas e muitos caminhos, até hoje identificáveis, que ligavam outras tribos para negócios (ver o livro de  Evaristo E.de Miranda, Quando o Amazonas corria pra o Pacífico, Vozes 2007, p.91-94). Portanto, era um formidável império.
Um pesquisador francês Louis Necker nos traz um relato impressionante acerca do tema do poder entre os guaranis (Indios guranies y chamanes franciscanos: las primeras reducciones del Paraguay (1580-1800, Asunción 1990). Permito-me transcrever alguns tópicos ilustrativos de um outro ipo de exercício de poder.
“O chefe não tinha poder de coerção. Seus “súditos” aceitavam sua autoridade e sua preeminência só na medida das contraprestações que recebiam dele. O chefe dirigia os empreendimentos comunais…. Tinha um privilégio: a poligamia. Mas por sua vez tinha obrigações bem precisas cuja não execução podia significar-lhe o abandono de seus súditos: conduzir habilmente a política exterior do grupo, tomar decisões judiciosas em matéria econômica, repartir com justiça entre as familias nucleares os lotes de terreno limpados em mutirão, manter a paz no grupo e muitas vezes ter qualidades de chamã, úteis ao grupo, como o poder de curar ou o controle das forças sobrenaturais. Era muito importante que o chefe fosse eloquente. E sobretudo devia ser generoso. Como o notou   Levi-Strauss, nos povos do tipo dos Guarani,”a generosidade é o atributo essencial do poder. Para conservá-lo o chefe devia sem cessar fazer presentes de bens, de serviços, de festas,..Na selva tropical, este tipo de obrigação pode ser tão pesada que o chefe se via obrigado a trabalhar muito mais que os outros e a renunciar quase a toda posse para si mesmo. É o papel do chefe…dar tudo o que se lhe pedissem: em algumas tribos se pode reconhecer sempre o chefe na pessoa que possui menos que os outros e leva os ornamentos mais miseráveis. O resto se lhe foi em presentes”.
O Cristianismo não escolhe a cultura na qual vai se encarnar. Encarna-se naquela que encontra. Assim fez com a cultura do judaismo da diáspora (judeus que viviam fora da Palestina), com o judaismo palestinense, com a cultura grega da Ásia Menor e com a cultura imperial romana. Desta encarnação nos veio o atual cristianismo com suas positividades e limitações próprias desta cultura. Especialmente a Igreja romano-católica assumiu o estilo de poder, não pregado por Jesus, mas dos Imperadores, poder absoluto e carregado de símbolos que subsistiram nos Papas até o advento do Papa Francisco que se libertou deles renunciando especialmente da famosa “mozetta” aquela capinha nos ombros carregade ouro e prata, símbolo maior do poder do imperador e a vida em palácios. O Papa Francisco seguiu os passos do poverello de Assis e foi morar onde vão se hospedar os bispos e padres que chegam a Roma.
Façamos um exercício de imaginação. Que tal se o cristianismo, ao invés de lançar raízes na cultura mediterrânea grego-latina e depois germânica, tivesse assumido a forma Guarani, nas vastas extensões amazônicas que dominvavam, de exercício de poder?
Então encontraríamos os padres, paupérrimos, os bispos, miseráveis e o papa, um verdadeiro mendigo. Trabalhariam incansavelmente a serviço dos fiéis. Sua marca registrada seria a generosidade sem limites.
E dariam um testemunho espontâneo e profundamente inspirador do sonho de Jesus. Ele pediu semelhante exercídio do poder, como puro serviço: ”sabeis que entre as nações quem tem poder manda e os grandes dominam sobre elas; assim não há de ser entre vós; ao contrario, se alguém de vós quiser ser grande, seja vosso servidor; pois o Filho do Homem não veio para ser sevido mas para servir” (Mc 10, 42 ss).
Que esse ensinamento seja permanente auto-crítica a todo poder, também daquele ecclesiastico, mas principalmente seja inspirador de uma forma não dominadora do poder.
Leonardo Boff é articulista do JBon line, teólogo e escreveu Igreja: carisma e poder, Vozes 1982.