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sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

“Eu só sou eu através de você”:Ubuntu: uma saída da barbárie

 Leonardo Boff


A pandemia mostrou uma abissal desigualdade mundial e uma falta cruel de solidariedade para com aqueles que não podem fazer o distanciamento social e deixar de trabalhar senão não têm o que comer.Para sermos concretos: não abandonamos ainda o mundo da barbárie e se já a havíamos deixado, retornamos a ele. O nosso mundo não pode ser chamado de civilizado porque um ser humano não reconhece e acolhe outro ser humano,independente do dinheiro que carrega no bolso ou tem depositado no banco ou de sua visão de mundo e de sua inscrição religiosa. A civilização surge quando os seres humanos se entendem iguais e decidem conviver pacificamente. Se isso é assim, estamos ainda na antessala da civilização e navegamos em plena barbárie. Esse cenário é dominante no mundo de hoje, agravado ainda mais pela intrusão do Covid-19.Ele ganhou sua mais perversa expressão pela cultura do capital,competitiva,pouco solidária, individualista, materialista e sem nenhuma compaixão para com a natureza.

Neste contexto vexaminoso duas alternativas nos podem salvar: a solidariedade e o internacionalismo.

solidariedade pertence à essência do humano, pois se não tivesse havido um mínimo de solidariedade e de compaixão, ninguém de nós estaria aqui falando destas coisas. Foi necessário que nossas mães nos tivessem solidariamente acolhido, nos abraçado, alimentado e amado para podermos existir. Sabemos pela bioantropologia que foi a solidariedade de nossas ancestrais antropoides que se tornaram humanos e, com isso, civilizados, quando começaram a trazer a comida ao grupo, repartirem-na solidariamente entre si e exercerem a comensalidade. Esta ação continua ainda hoje, quando muitos grupos, especialmente os Sem Terra, se mostraram solidários distribuindo dezenas de toneladas de agro alimentos e muitas centenas de marmitas para saciar a fome de milhares nas ruas e periferias de nossas cidades.

internacionalismo acompanha a solidariedade.Ele parece óbvio: se o problema é internacional,deveria haver também uma solução internacionalmente consertada. Mas quem cuida do internacional? Cada país cuida de sei mesmo como se não houvesse nada para além de suas fronteiras. Ocorre que atualmente inauguramos a fase nova da história da Terra e da Humanidade: a fase planetária, a da única Casa Comum. Os vírus não respeitam as fronteiras nacionais. O Covid-19 atacou a Terra inteira e ameaça a  todos os países sem exceção. As soberanias mostraram-se obsoletas. Que seria dos velhinhos da Itália, gravemente infectados pelo Covid-19, se não fosse a solidariedade de Angela Merkel da Alemanha que salvou a grande maioria deles? Mas isso foi uma exceção para mostrar que é pela superação do nacionalismo envelhecido em nome do internacionalismo solidário que poderá ser encontrado um caminho de saída para a nossa barbárie.

É nesta perspectiva que consideramos inspiradora uma categoria fundamental, vinda da África. Muito mais pobre que nós,  ela é  mais rica em solidariedade. Esta vem expressa pela palavra Ubuntu, que significa: eu só sou eu através de você. O outro, portanto, é essencial para que eu exista enquanto humano e civilizado. Inspirado pelo Ubuntu, o recém-falecido arcebispo anglicano Desmond Tutu encontrou, para a África do Sul, uma chave para a reconciliação entre brancos e negros, na Comissão da Verdade e da Reconciliação.

Como ilustração como o Ubuntu está enraizado na culturas africanas, consideremos este pequeno testemunho: um viajante europeu e branco  se extasiou com o fato de que, sendo mais pobres que a maioria, os africanos eram menos desiguais. Quis saber o porquê. Idealizou um teste. Viu um grupo de jovens jogando futebol num campo cercado de árvores. Comprou um bela cesta de diversos e coloridos frutos e a colocou no alto de um pequeno morro. Chamou os jovens e lhes disse: “Lá no alto há uma cesta cheia de saborosos frutos. Vamos fazer uma aposta: vocês se coloquem todos em fila e quando der o sinal, comecem  correr. Quem chegar primeiro lá no alto, ganhou a cesta de frutos e poderá comer sozinho quanto quiser”.

Deu o sinal de partida. Coisa curiosa: todos se deram as mãos e juntos correram para o alto, onde estava a cesta. Começaram a saborear solidariamente os frutos.

O europeu, estupefacto, perguntou: por que fizeram isso? Não era o primeiro a chegar e poder comer sozinho os frutos? Todos gritaram unanimemente: Ubuntu! Ubuntu! E um jovem, um pouco mais idoso, lhe explicou:“Como um de nós poderia ficar feliz sozinho se todos os demais ficariam tristes?” E acrescentou:

“Meu senhor, a palavra Ubuntu significa isso para nós“Eu só posso ser eu por meio do outro”. “Sem o outro eu não sou nada e ficaria sempre sozinho. Sou quem sou porque sou através dos outros. Por isso que repartimos tudo entre nós, colaboramos uns com os outros e assim ninguém fica de fora e triste. Assim fizemos com a sua proposta. Comemos todos juntos. Todos ganhamos a corrida e juntos desfrutamos dos bons frutos que nos trouxe. Entendeu agora?

Este pequeno relato é o contrário da cultura capitalista. Esta imagina que alguém é tanto mais feliz quanto mais pode acumular individualmente e usufruir sozinho. Por causa desta atitude reina a barbárie, há tanto egoísmo, falta de generosidade e ausência de colaboração entre as pessoas. A alegria (falsa) é de poucos ao lado da tristeza (verdadeira) de muitos.Para viver bem, em nossa cultura, muitos têm que viver mal.

Entretanto, por todas as partes na humanidade, estão fermentando grupos e movimentos que ensaiam viver essa nova civilização da solidariedade entre os humanos e também para com a natureza. Cremos que começou a construção da Arca de Noé. Ela nos poderá salvar se o Universo e o Criador nos concederem o tempo necessário.Fora da solidariedade e o do sentido internacionalista pereceremos em nossa barbárie.

Leonardo Boff é eco-teólogo e escreveu Covid-19, a Mãe Terra contra-ataca a humanidade, Vozes 2020; Habitar a Terra: qual o caminho para fraternidade universal? Vozes 2121.

 

quinta-feira, 17 de junho de 2021

NÃO SÓ OMO LAVA MAIS BRANCO

 Frei Betto


 

       Também o diversionismo ideológico. Alberto Fernández, presidente da Argentina, declarou em diálogo com Pedro Sánchez, premiê da Espanha: “os mexicanos saíram dos índios; os brasileiros saíram da selva; mas nós, argentinos, chegamos dos barcos – barcos que vinham da Europa”.

       Há brasileiros que se sentiram ofendidos. Não é o meu caso. Fernández tem razão, viemos da selva e da senzala. Foi o que constatou o Projeto Genoma 2000 ao pesquisar o DNA predominante dos brasileiros. Sinto-me honrado ao saber que descendo de duas etnias oprimidas por nossos colonizadores. E altamente civilizadas. 

       Por isso, me recuso a usar expressões como “capitalismo selvagem”. Os originários da selva, os povos indígenas são, por natureza, anticapitalistas. Não são competitivos, mas solidários; não acumulam, partilham; não devastam a natureza, preservam. E, ao contrário de nós, brancos urbanizados, não vivem para trabalhar, mas trabalham para viver.

       Foi dos negros, trazidos ao Brasil como escravos pelos europeus “civilizados”, que herdamos tradições religiosas como o candomblé, técnicas de agricultura e metalurgia, a capoeira e o samba, e pratos como vatapá, feijoada, caruru, mungunzá, acarajé e pamonha. 

       O que repugno no discurso de Fernández é essa empáfia de achar que descender de europeu é prova de requinte humano. Perguntem aos asiáticos quem promoveu a Guerra do Ópio; aos africanos, quem explorou suas riquezas naturais, dizimou seus animais e desencadeou massacres genocidas; aos latino-americanos e caribenhos, quem trucidou milhões de indígenas altamente civilizados, doutores em matemática, meteorologia e astronomia, construtores de cidades monumentais como Tenochtitlán, no México, fundada em 1325 pelos astecas, Machu Picchu, no Peru, edificada pelos incas em meados dos século XV. 

       Foram os europeus que, do alto de sua pretensa superioridade (só efetiva quanto aos arsenais bélicos) que levaram, aos três continentes, saques, violência, escravidão, massacres e mortes.

       Isso não significa que eu seja antieuropeu. Sou contra mentiras históricas. Sei muito bem o quanto a Europa nos legou em todos os campos do saber, da arte e do fazer. Mas sei também quanta ciência os árabes ensinaram aos europeus e quanta tecnologia os europeus aprenderam com os chineses. 

       É asneira debater que povo é mais culto do que outro. Não existe ninguém mais culto do que o outro. Existem culturas distintas e socialmente complementares. O que seria de Einstein sem Maria, a cozinheira porto-riquenha que lhe preparava as refeições? E se pesar na balança quem dependia mais da cultura do outro? Maria passava muito bem sem a menor noção de como funcionam as leis do Universo. Mas Einstein dependia da cultura culinária de Maria para sobreviver. 

       Não me alongo aqui sobre a ignorância de Fernandez quanto às origens indígenas do povo argentino, que aprendi ao visitar Santiago del Estero, a primeira cidade do país. O ex-presidente Macri já havia cometido a mesma gafe no Fórum Econômico de Davos, em 2018, ao afirmar que “todos os argentinos” são “descendentes de europeus”. 

       O que realmente me preocupa é o branqueamento da cultura. É pior que o racismo. Porque, ao repudiar o negro, o branco sinaliza que enxerga o negro. Preocupante é quando o outro sequer é notado. Como acontece com Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares. Sua mentalidade é tão lavada pelo OMO ideológico que, no espelho, não logra enxergar a cor da própria pele. 

       Estranho quando vejo chamarem os negros de “afrodescendentes”. O termo surgiu em 2001, na conferência da ONU sobre racismo e xenofobia, em Durban, África do Sul. Isso é invenção de gringo, “made in USA”, para advertir os negros: “Vocês não são daqui. Comportem-se! Caso contrário, serão deportados para a África!”

       Ora, jamais fui chamado de lusodescendente, iberodescendente ou eurodescendente. E estranho quando leio romances em que a maioria dos personagens é, supostamente, branca, o que dispensa o autor de explicitar a cor da pele. Mas, em se tratando de personagem negro...

       A luta antirracista tem que incluir o combate ao branqueamento da cultura. Se OMO lava mais branco eu não sei. Sei que o supremacismo branco, hoje incrustado no Palácio do Planalto, precisa ser urgentemente raspado, com palha de aço, de nossa cultura e de nossas atitudes.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

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domingo, 30 de agosto de 2020

NÃO PRECISA EXPLICAR... SÓ QUERIA ENTENDER!




                                                                           Prof. Martinho Condini

 

Cara amiga e amigo: tudo bem, quero lhes apresentar alguns números para que reflitam comigo. No período de 2003 a 2014, foram criadas, no Brasil, 18 universidades, 173 campus universitários e 360 institutos federais – um número muito expressivo se lembrarmos que a nossa primeira universidade baseada no tripé ensino-pesquisa-extensão fará 100 anos em 2034. Em contra partida, temos vários clubes de futebol no Brasil com mais de 100 anos. Com isso, não quero dizer que no Brasil o futebol tem mais importância que a educação.

Atentem a esse outro dado estatístico: durante os anos de 2010 até 2017, foram abertas no Brasil 67.951 igrejas, o que corresponde a 9.707 igrejas abertas por ano – um número no mínimo assustador. Acredito que o aspecto econômico explica esse número estratosférico. Afinal de contas, para se abrir uma igreja é preciso um CNPJ, um salão, algumas cadeiras de plástico, seguidores e um bom orador. Às vezes nem isso – não se esquecendo que as mesmas não pagam impostos e os lucros advindos do dízimo são sempre muito robustos.

Quero voltar aos números. Neste período de 2010 a 2017, foram criadas no Brasil 2.407 instituições de nível superior, sendo apenas 197 delas universidades. Isto significa que a abertura de igrejas no Brasil neste mesmo período foi 345 vezes maior que a abertura de universidades.

Um último dado estatístico. Em 2012, há oito anos, tínhamos no Brasil 3.481 livrarias, em 2014, o número caiu para 3.095, em 2018 estima-se que haviam aproximadamente 2.500 livrarias.  Isto significa o fechamento de 164 livrarias por ano. Em2001, 2.374 municípios brasileiros contavam com pelo 1 uma livraria, o que já era pouco, em 2018 esse número era de 985 municípios de um total de  5.570.  Aliado a esses números estarrecedores, na semana passada a equipe econômica governista acenou com a possibilidade de taxar os livros em 12% na reforma tributária a ser apresentada ao congresso.

Há mais de 70 anos, ou seja, desde a Constituição Federal de 1946, o livro é isento de impostos por causa de uma emenda constitucional apresentada pelo deputado federal pelo PCB e um dos maiores escritores da literatura brasileira, o baiano, Jorge Amado. Para incentivar a leitura e a educação até hoje, esse dispositivo segue sendo cláusula pétrea da nossa constituição.

Concomitante a esses dados numéricos, tivemos o golpe à presidenta da república com o apoio maciço da bancada da Bala e da Bíblia. Posteriormente, chegou à presidência da república um capitão reformado utilizando-se do discurso de ódio com visões políticas populistas e de extrema-direita demonstrando simpatia pela ditadura militar, defendendo práticas de tortura, apoiando o porte de armas pela população, além de proferir discursos homofóbicos, misóginos e racistas. O núcleo duro do seu governo partilha da ideia do terraplanismo, da descrença na ciência e de uma educação baseada na palavra de Deus (sendo que, no Brasil, o Estado é laico).

Estou convencido que o processo de desvalorização da educação, da cultura, a chegada ao poder de um governo conservador, retrógrado, anti-democrático e miliciano somado ao frenético crescimento no número de igrejas em nosso país pagaremos um preço muito alto, ou melhor, já estamos pagando, principalmente com o atraso no desenvolvimento intelectual da nossa sociedade.

Teremos uma jornada muito difícil pela frente, precisaremos estar ainda mais unidos em prol da liberdade de expressão, da participação política e principalmente da valorização da educação libertadora, ou seja, da educação que transforma o ser humano.

 

O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com

sexta-feira, 23 de março de 2018

COMO O PAPA FRANCISCO TERMINA A IGREJA SÅO OCIDENTAL E COMEÇA A IGREJA UNIVERSAL




por Leonardo Boff

Passaram-se já cinco anos do papado de Francisco, bispo de Roma e Papa da Igreja universal. Muitos fizeram balanços minuciosos e brilhantes sobre essa nova primavera que irrompeu na Igreja. De minha parte enfatizo apenas alguns pontos que interessam à nossa realidade.

O primeiro deles é a revolução feita na figura do papado, vivida em pessoa por ele mesmo. Não é mais o Papa imperial com todos os símbolos, herdados dos imperadores romanos. Ele se apresenta como simples pessoa como quem vem do povo. Sua primeira palavra de saudação foi dizer aos fiéis”buona sera”: boa noite. Em seguida, anunciou-se como bispo de Roma, chamado a dirigir no amor a Igreja que está no mundo inteiro . Antes de ele mesmo dar a benção oficial, pediu que o povo o abençoasse. E foi morar não num palácio – o que teria feito chorar Francisco de Assis – mas numa casa de hóspedes. E come junto com eles.

O segundo ponto importante é anunciar o evangelho como alegria, como superabundância de sentido de viver e menos como doutrinas dos catecismos. Não se trata de levar Cristo ao mundo secularizado. Mas descobrir sua presença nele pela sede de espiritualidade que se nota em todas as partes.

O terceiro ponto é colocar no centro de sua atividade três pólos: o encontro com o Cristo vivo, o amor apaixonado pelos pobres e o cuidado da Mãe Terra. O centro é Cristo e não o Papa. O encontro vivo com Cristo tem o primado sobre a doutrina.

Em vez da lei anuncia incansavelmente a misericórdia e a revolução da ternura, como o disse, falando aos bispos brasileiros em sua viagem ao nosso país.

O amor aos pobres foi expresso na sua primeria intervenção oficial:”como gostaria que a Igreja fosse a Igreja dos pobres”. Foi ao encontro do refugiados que chegavam à ilha de Lampeduza no sul da Itália. Ai disse palavras duras contra certo tipo de civilização moderna que perdeu o sentido da solidariedade e não sabe mais chorar sobre o sofrimento de seus semelhantes.

Suscitou o alarme ecológico com sua encíclica Laudato Si:sobre o cuidado da Casa Comum (2015), dirigida a toda a humanidade. Mostra clara consciência dos riscos que o sistema-vida e o sistema-Terra correm. Por isso expande o discurso ecológico para além do ambientalismo. Diz enfaticamente que devemos fazer uma revolução ecológica global(n.5). A ecologia é integral e não apenas verde, pois involucra a sociedade, a política, a cultura, a educação, a vida cotidiana e a espiritualidade. Une o grito dos pobres com o grito da Terra(n. 49). Convida-nos a sentir como nossa a dor da natureza, pois todos somos interligados e envolvidos numa teia de relações. Convoca-nos a “alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo….uma mística que nos anima, nos impele, motiva e encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n. 216).

O quarto ponto significativo foi apresentar a Igreja não um castelo fechado e cercado de inimigos, mas um hospital de campanha que a todos acolhe sem reparar sua extração de classe, de cor ou de religião. É uma Igreja em permanente saida para os outros especialmente para as periferias existenciais que grassam no mundo inteiro. Ela deve servir de alento, infundir esperança e mostrar um Cristo que veio para nos ensinar a viver como irmãos e irmãs, no amor, na igualdade, na justiça, abertos ao Pai que tem características de Mãe de misericórdia e de bondade.

Por fim, mostra clara consciência de que o evangelho se opõe às potências desse mundo que acumulam absurdamente, deixando na miséria grande parte da humanidade. Vivemos sob um sistema que coloca o dinheiro no centro e que é assassino dos pobres e um depredador dos bens e serviço da natureza. Contra esses tem as mais duras palavras.

Dialoga com todas as tradições religiosas e espirituais. No lava-pés da Quinta-Feira Santa estava uma menina muçulmana. Quer as Igrejas, co m suas diferenças, unidas no serviço ao mundo especialmente aos mais desamparados. É o verdadeiro ecumenismo de missão.

Com esse Papa que “vem do fim do mundo” se encerra uma Igreja só ocidental e começa uma Igreja universal, adequada à fase planetária da humanidade, chamada a encarnar-se nas várias culturas e construir ai um novo rosto a partir da riqueza inesgotável do evangelho.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escreveu Francisco de Assis-Francisco de Roma, a irrupção da primavera, Mar de Ideias, Rio 2013.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

UMA SÓ ENTRE TODAS AS MULHERES



Por Maria Clara Lucchetti Bingemer



             Naquele tempo, o anjo do Senhor dirigiu-se a uma jovem mulher, noiva do carpinteiro José.  E o nome dela era Maria.  O anjo lhe revela uma notícia impossível: uma gravidez inesperada e não planejada. Dialogando com o mensageiro divino, ela assume o incompreensível mistério que nela se realiza.  E o assume com todas as suas consequências.

            Em uma sociedade patriarcal como a de seu tempo e seu lugar, uma gravidez acontecida fora do momento certo e da instituição abrigada por lei era algo perigosíssimo.  O compromisso de noivado equivalia ao matrimônio e uma infidelidade dentro deste contexto podia resultar em severa punição, até mesmo o apedrejamento reservado às adúlteras.

            Não é difícil imaginar a dificuldade de todo o processo da concepção de Jesus que Maria enfrentaria sem o concurso de José. Igualmente é fácil  imaginar o que aconteceria a ela em uma cultura patriarcal, segundo o relato de Mateus, se José não houvesse decidido tomá-la por esposa crendo no que Deus lhe dizia e passando além da letra da lei. 

Trata-se de algo profundamente revolucionário a hipótese de que o Espírito de Deus repouse em plenitude sobre uma mulher que apresenta uma gravidez de origem ignorada ou suspeita.  Mesmo se o que acontecia na corporeidade de Maria fosse fruto de uma violência – da qual eram vítimas muitas mulheres daquele tempo, jovens camponesas que sofriam o ataque dos soldados romanos de passagem -  isso a poria em situação de extrema vulnerabilidade, ameaçada pelo desprezo da sociedade em que vivia. 

 Por isso, é ainda mais extraordinário que ela, com a força que lhe foi dada por Deus, tenha sido capaz de converter em bem uma situação de insegurança e incalculável risco.  Parece-nos que aí está em movimento e acontecendo de fato uma revelação que ilumina problemas tão contemporâneos como a violência contra a mulher, desde a pornografia até as agressões físicas, as violações e as escravidões sexuais.

            A jovem aceita o que lhe é anunciado como graça e bênção.  O menino que nascer será Filho do Altíssimo.  No centro do plano de Deus está uma mulher jovem e grávida. Uma jovem mãe.

           O Advento que vivemos e celebramos é um tempo de espera, dessa espera que acontece no ventre fecundo de Maria.  Espera lenta e gozosa, como a da gravidez de Maria e de toda gravidez.  Em seu ventre livre e disponível cresce a semente da vida, o broto do Povo de Deus, o Salvador a quem dará o nome de Jesus, que significa Javé salva. 

            Maria é única pela enorme importância que tem o mistério que nela acontece no imaginário religioso cristão.  Mistério que no fundo está presente em toda mulher habitada por outra vida, gerando um novo ser, um novo membro do gênero humano.  No caso de Maria, este que é gerado tem um destino que supera a mãe, assim como a todos os outros seres humanos. E que por isso torna sua pessoa e vocação matriz de outras relações muito ricas e complexas: a de Deus com a humanidade, a do homem com a mulher, a do filho com a mãe. 

            Com ela e a partir dela, o Cristianismo e por causa dele o Ocidente encontrou um discurso sobre a maternidade que ultimamente parece correr o risco de perder.  Um novo olhar sobre o mistério de Maria exorciza esse risco, pois reabilita a corporeidade feminina – coisa que a arte, com relação a Maria, já andou fazendo – apresentando positivamente a erótica feminina, impossível sem essa glorificação do corpo da mãe judia do homem Jesus.

            O culto a Maria exorciza em parte a culpabilidade imposta à mulher desde Eva e suas filhas.  E torna possível uma ética para a modernidade, que sem o concurso das mulheres, não poderá ser construída. Trata-se de uma ética que não se confunde com a moral, que não evita a iniludível problemática da lei; ao contrário, lhe dá corpo, linguagem e fruição. 

            Em Jesus, o próprio Deus assumiu a carne humana, carne de homem e de mulher.  O Filho de Deus é igualmente o filho de Maria de Nazaré...nascido de mulher. Este que vigilantes esperamos e cujo nascimento celebraremos no Natal não é diferente daquele que nasceu da carne de Maria.  Desta mulher galileia, Jesus de Nazaré recebeu a carne reconhecida e aclamada pela Igreja e pela fé cristã como carne de Deus. 

            Nascido de Maria, Jesus de Nazaré andou pelos caminhos de terra da humanidade.  Tendo nascido do útero desta jovem mulher nazarena, nutrido e alimentado por sua carne e seu leite, cresceu em graça e sabedoria, e surpreendeu seus contemporâneos, os quais, vendo os maravilhosos e poderosos sinais que realizava disseram um ao outro: “É este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria e não está no meio de nós? “ 

            No centro do mistério da Encarnação, o Novo Testamento situa o homem e a mulher, Jesus e Maria, Deus que assume a carne humana dentro e através da carne de uma mulher, “nascido de mulher”. Deus não se fez homem, não se identificou apenas com uma metade da humanidade.  Ele se fez carne, carne de homem e de mulher, a fim de que o caminho para o Pai possa passar necessariamente através da condição humana total, masculina e feminina, porque Deus criou a criatura humana macho e fêmea.

            A afirmação “Deus se fez carne” deve ser completada por outra de análogo valor: “Deus nasceu de uma mulher”.  Ambas significam um extraordinário salto qualitativo na consciência histórica da relação da humanidade com Deus.  A descoberta de que não há mais necessidade de buscar a Deus no estrito ritualismo ou na letra da Lei.  Deus pode e quer ser descoberto no nível mais frágil dos homens e mulheres.  Nos pobres e nas vítimas da injustiça e da violência, nas mulheres grávidas e nas crianças pequenas está a definitiva interpelação para a humanidade. 

            O mistério da Encarnação de Jesus na carne de Maria ensina que o ser humano não está dividido entre um corpo de pecado e defeito e um espírito de grandeza e transcendência.  O mistério da Encarnação está enraizado exatamente na fragilidade, na pobreza, e é nos limites da carne humana – carne de homem e de mulher – que a inefável e infinita grandeza do Espírito pode ser contemplada e adorada.  

Professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, teóloga e autora Testemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial.

Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>