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terça-feira, 13 de julho de 2021

A FRATERNIDADE HUMANA NA CASA COMUM

 Marcelo Barros


 

A ONU consagra o 11 de julho como "dia mundial da população".  Há quem veja nessa data um alerta para se encontrar meios de diminuir a população da Terra. Atualmente a população humana está chegando perto de oito bilhões de pessoas no mundo. O planeta Terra teria recursos para alimentar e prover a vida de 11 bilhões de seres humanos. No entanto, isso não será possível se a atual geração se comporta de forma irresponsável e egoísta no uso da água, dos alimentos e dos bens que deveriam ser comuns a toda a humanidade. 

Com este “dia mundial da população”, a ONU quer chamar a atenção da humanidade para a urgência de um planejamento mais cuidadoso para favorecer a vida de todos e maior cuidado com o planeta, para que a terra não se torne inabitável. A cada ano, a população da Terra registra um aumento de mais ou menos 75 milhões de pessoas.

Não temos os dados a partir da pandemia, mas sabemos que que a população cresce na África e diminui em alguns países ricos.. Além disso, é escandaloso saber que, enquanto no Japão, na Suécia e outros países ricos, a média de vida é de 80 anos, em países africanos,  como a Zâmbia e o Zimbabue, é considerado feliz quem atinge a idade de 35.  Atualmente, nos países ricos, quem quer está vacinado. Em países pobres, a taxa de pessoas vacinadas mal ultrapassa 10% e em alguns países mais estranhos, surgem perguntas até sobre as datas de validade das vacinas.

Como afirmava o Mahatma Gandhi, a terra é suficientemente fértil e pode alimentar quase o dobro da população humana. No entanto, não basta para saciar a ambição da pequena elite econômica que domina o planeta. Em 2015, a ONU publicou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para o Mundo, a serem alcançados nesses próximos quinze anos. De acordo com essa meta, esperava-se que até 2030, a humanidade tivesse conseguido proporcionar segurança alimentar e água potável para toda a população da terra. A pandemia veio revelar que essa meta fica cada vez mais longe de ser alcançada. Em plena pandemia, desigualdades sociais se multiplicaram, os mais ricos triplicaram os seus ganhos e muitos governos aumentaram os gastos em armamentos.

Cada vez mais fica claro: se a sociedade dominante não mudar o modo de organizar o mundo, todo o sistema de vida no planeta Terra está ameaçado. Com o aquecimento global e a destruição provocada pela sociedade capitalista na natureza, mudou a temperatura na superfície do planeta e na sua atmosfera. Entramos em uma nova era geológica.

Essa nova idade da Terra, que se sucedeu ao Holoceno, recebeu dos cientistas o nome de Antropoceno, porque é provocada pelo ser humano (antropos). Cientistas de diversos países estudaram a quantidade de energia ou calor que entra na atmosfera. Essa energia se acumula nos reservatórios do planeta, como os oceanos, as geleiras e o próprio solo da terra. Eles compararam e descobriram que o calor ali acumulado é esquivalente a 0, 58 W/ m2. Segundo eles, é um calor equivalente ao provocado pela explosão de 400 mil bombas atômicas. Diante dessa realidade, é urgente que a sociedade civil se organize mais e pressione os governos e empresas para que assumam sua responsabilidade em relação ao futuro. No dia mundial da população, é importante refletir sobre que mundo entregaremos aos filhos dos nossos filhos.

Quem crê em Deus como Amor sabe que, ao agredir a natureza, se ataca o próprio Criador. Ao mesmo tempo, quando trabalhamos para salvar uma nascente de água, preservar um pedaço de mata ou simplesmente possibilitar uma agricultura ecológica, estamos cuidando da vida e, concretamente, do futuro da população humana. Se somos crentes, estamos colaborando com o Espírito Mãe da Vida que, no universo, mantém permanentemente o evoluir de sua criação.  

O papa Francisco tem insistido com toda a humanidade para criar nova consciência ecológica e retomar a proposta da fraternidade humana. Na encíclica Fratelli Tutti, ele nos lança este convite: “Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos e filhas dessa mesma terra que nos abriga a todos e todas, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos e irmãs” (FT 8).

 

segunda-feira, 6 de julho de 2020

IGREJA HOJE: DO TEMPLO PARA A CASA


 

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Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

 

            Este tempo de pandemia e isolamento, com tudo que traz de carga de desolação e distância dos amores diversos, profundos ou ardentes, obriga igualmente a pensar. Há mais tempo para isso, mais solidão, mais silêncio, ambiente fértil onde nascem as grandes iluminações.  E tempo há também para escutar os que sabem.  Não apenas os cientistas, mas os pensadores e os poetas que nos abrem novas portas do conhecimento e da beleza. 

            Foi assim que quase 2000 pessoas se conectaram no último dia 22 de junho a uma conferência on line dada pelo cardeal José Tolentino, português da Madeira e responsável pela Biblioteca do Vaticano e pelo Arquivo Apostólico.  Era uma multidão virtual, sedenta de beleza e sabedoria, ávida para ouvir as palavras que sairiam da boca desse biblista e poeta, sempre serenas e grávidas de vida. 

            De tudo que ali aprendi – e foi muito – talvez o que mais retive foi a nova configuração que o cardeal vê para a Igreja: seu deslocamento do templo para a casa. E tal êxodo, em lugar de ser um problema e um obstáculo para o pleno funcionamento da comunidade eclesial, representa uma fantástica oportunidade de reencontrar sua fonte mais pura e suas origens mais genuínas. 

            Quando o Nazareno foi morto na cruz, uma imensa desolação se apoderou dos discípulos.  Muitos entraram em dispersão, não encontrando alívio para sua dor e sua perda. No entanto, a boa nova da Ressurreição deu-lhes força de recomeçar a viver.  E esse recomeço, que marca o nascimento dessa comunidade chamada Igreja, foi marcado pela união de todos em situação de extrema fragilidade.  Sem conseguir abertura na sinagoga, perseguida pelo poder religioso e político, a comunidade viu-se convidada a abraçar sua própria vulnerabilidade. 

            E que espaço encontrou para celebrar, expressar, viver profundamente essa situação de ameaça e fraqueza? As casas.  Não havia lugar para a recém-nascida comunidade no templo.  As casas das famílias passaram a ser esses templos. Hoje, em tempos de igrejas fechadas, ou que vão abrindo aos poucos, às vezes desafiando o perigo da doença e do contágio, os cristãos se viram levados a ter que celebrar em suas casas. Em lugar de ir ao templo celebrar com a assembleia reunida, são convidados a conectar seus computadores ou celulares e a partir dali unir-se sem restrições de fronteiras geográficas, mas ocupando o imenso espaço virtual que a tecnologia hoje abre. 

Porém, mais que isso, estão convidados a valorizar o espaço de suas casas e residências e experimentar sua sacralidade.  Esse espaço onde a família se reúne, cozinha, lava e passa, come e bebe, conversa, briga, chora, pede perdão, se arrepende, ri, ouve música, vê televisão, esse é o espaço da celebração da fé, da memória subversiva e perigosa de Jesus de Nazaré. 

É também o espaço de se suportar mutuamente nas dores e fragilidades nossas de cada dia, que hoje são pão cotidiano de todo mundo, no mundo inteiro, mas especialmente em nosso golpeado e ferido Brasil. Espaço de ensinar às novas gerações de filhos e netos que seus pais e avós erraram muito construindo esse mundo que legamos a eles.  E esperar que eles consigam introduzir as mudanças que possam ser realmente transformadoras. 

Muitas casas passaram a ser verdadeiras igrejas domésticas. Por isso, não se pode dizer que as igrejas estavam fechadas, porque as casas faziam brilhar em si as notas características de toda comunidade eclesial, listadas no final do capítulo 2 dos Atos dos Apóstolos: eram perseverantes em ouvir
o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações. 

A casa e a família sempre foram igrejas primeiras, domésticas, onde se mama o leite e a fé.  Contudo, em tempos de secularização, muito dessas características se foi perdendo e o estilo de vida não contempla mais as possibilidades que havia antes. As pessoas estão tão apressadas, com tanto por fazer... Cada membro da família tem horários diferentes.  Não existia quase a refeição em família; cada um com sua bandeja, comia o almoço ou o jantar esquentado no micro-ondas, diante da televisão ou do computador. 

O vírus nos trouxe de volta para casa e foi possível olhar nos olhos uns dos outros, ver que ali era nosso lugar eclesial, nossa igreja âncora e primeira.  Como diz o cardeal Tolentino: “antes de ser templo, a Igreja foi casa. Jesus saiu do templo e entrou na casa.  E aí começou a experiência cristã”.

A casa – oikia em grego – e a família são, hoje, uma grande oportunidade para que os cristãos leigos adquiram verdadeiro protagonismo pastoral no futuro que vem no horizonte pós pandemia. 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.

  Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 


terça-feira, 7 de abril de 2020

PÁSCOA EM CASA E NO MUNDO




Por Marcelo Barros

Com o risco do contágio e a ordem de ficar em casa, quem é cristão é desafiado a descobrir novas formas de celebrar a Páscoa que teve sua origem em ritos domésticos e era nas casas que os primeiros cristãos celebravam a ceia de Jesus.

Nestes dias, as comunidades cristãs celebram a Semana Santa. Em todos os países, a orientação é celebrar em casa e participar dos atos litúrgicos por televisão ou internet. É pena não se poder celebrar o memorial da Páscoa de Jesus, na comunhão concreta dos irmãos e irmãs de fé. No entanto, nossa reflexão tem de ir além das aparências.
Essa pandemia provocada pelo coronavírus revela a fragilidade da sociedade organizada para o lucro. Empresários e governantes discutem se é melhor salvar o mercado e deixar morrer milhares de pessoas,  ou se para salvar as pessoas, se assume a crise econômica que virá e será muito grave. No Brasil, milhões de pessoas vivem em habitações precárias. Grande parte da população não tem acesso ao saneamento básico. Por isso, os mais atingidos pela pandemia serão, inevitavelmente, os mais pobres e vulneráveis. Como continuar a corrida armamentista que investe 800 milhões de dólares por ano em armamentos?  Mesmo com todos os grandes meios de comunicação ao seu serviço, as grandes empresas e os países ricos terão dificuldade de manter suas guerras contra os pobres. Também nesses países, os cidadãos estão morrendo, vítimas da arma que se desenvolveu a partir da própria forma de organizar a sociedade.
Se, no mundo, o vírus revela que o rei está nu, ou seja, a fragilidade do sistema está exposta, também nas Igrejas, o vírus revela algo que o papa Francisco vem, há anos, denunciando: a doença do clericalismo. Para muita gente de Igreja, para essa Páscoa sofrida, a única proposta é missa por internet. E se trata da missa romana, celebrada tal qual se faz em comunidade presencial, apenas transmitida virtualmente. 
Na Bíblia, conforme o livro do Êxodo, a ordem de Deus é que as famílias celebrem a Páscoa com uma ceia familiar, cada família em sua casa. (Ex 12, 3- 4). Todo o povo de Deus é um “reino de sacerdotes” (Cf. Ex 19, 5- 6). Não havia sacerdotes profissionais. Quem celebrava eram os pais de família em suas casas. Até hoje, nas casas judaicas, ao cair do sol da sexta-feira, são as mães que acendem as velas e cantam a bênção do Shabbat. Essa é a raiz da fé cristã.
No Cristianismo primitivo, conforme os Atos dos Apóstolos e o testemunho das cartas paulinas, as comunidades cristãs não tinham templos. Deus queira que, apesar de tanto sofrimento, essa crise nos possibilite a graça de um Cristianismo menos clerical. Que o Espírito nos inspire celebrações mais próximas à ceia de Jesus no evangelho e à forma de celebrar dos primeiros cristãos. Eles não tinham ainda essa divisão tão rígida de ministérios ordenados e os não ordenados. Nem por isso eram menos fieis a Deus ou menos católicos do que nós. Essa forma de orar e celebrar não é para substituir a nossa comunhão diocesana ou paroquial. Ao contrário é para aprofundá-la. Continuamos agradecendo a Deus a alegria de ter bispos e padres, para nos confirmar na fé e nos animar na caminhada. Graças a Deus, cada vez mais, na linha do papa Francisco, temos bispos e padres que não retêm para eles o controle absoluto dos bens sagrados, como se lhes pertencessem e sim se colocam juntos com todos os irmãos e irmãs batizados para testemunhar: Cristo ressuscitou. Isso significa: o amor vence o ódio, a maldade e a morte. Amém.   

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com







quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

CASA DE DEUS: LUGAR DE COMUNHÃO, ABRIGO DOS POBRES




por Kinno Cerqueira [1]


Cerca de 600 anos antes de Cristo, o Reino da Babilônia invadiu Jerusalém, levou quase todos os seus moradores como escravos e destruiu o Templo que havia sido construído durante o reinado de Salomão. Setenta anos depois, a Pérsia derrotou a Babilônia e liberou os judeus para voltar à sua pátria e reconstruir Jerusalém e o Templo. A princípio, o povo estava animado, mas não durou muito e o ânimo do povo foi por água abaixo. Como havia muito que reconstruir na cidade e nas roças, o povo se viu cansado e preferiu priorizar a reconstrução de suas próprias casas e roças, enquanto a reconstrução do Templo ia ficando para depois.

Foi neste contexto que Ageu profetizou. Em linhas gerais, a Palavra de Deus proferida por Ageu consiste basicamente em denúncia, constatação, chamamento e promessa. Denúncia: o povo está preso no egoísmo e no interesse próprio, preocupando-se tão somente com a reconstrução de suas propriedades privadas (1,2-4). Constatação: a roça do povo não vai bem e a razão para tal é a desunião provocada pelo egoísmo (1,5-7.9-11). Chamamento: o povo é convocado a superar o egoísmo e unir-se em vista de um projeto comum, isto é, a reconstrução do Templo, lugar de vivência comunitária da fé (1,8; 2,4.8). Promessa: se o povo decidir viver a comunhão verdadeira, a roça irá bem e o povo terá paz (2,15-19).

Não se pense, porém, que a reconstrução do Templo era importante em si mesma. A grande questão que está por trás da profecia de Ageu é o refazimento da comunhão do povo e o cuidado para com os pobres. Longe do Templo, o povo facilmente se esqueceria da exigência fundamental de Deus: a prática da justiça que, na Bíblia, significa assegurar a dignidade e o direito dos pobres (Am 5,21-24; Is 1,15-17; 10,1-2; Jr 22,3). Reconstruir o Templo é refazer a vida longe do egoísmo que atrofia os relacionamentos e adoece a sociedade.

Reconstruir o Templo é reatar a comunhão com a vida e com o Deus da vida, com vistas a encontrar força e inspiração para lutar pela justiça para todos, mas especialmente e sobretudo para os empobrecidos, aqueles que Jesus chama de “meus irmãos mais pequeninos” (Mt 25,40).


[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

DIREITOS HUMANOS E DA CASA COMUM



por Marcelo Barros

Nessa terça-feira, a humanidade celebra mais um aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada pelos países que formavam a ONU no dia 10 de dezembro de 1948. Infelizmente, grande parte das pessoas ainda não percebeu que, cada vez que se desrespeita o direito de uma pessoa humana, seja ela quem for, toda humanidade é atingida e desrespeitada. Mais de 70 anos depois, quase não existe um país no mundo no qual esses direitos sejam respeitados. Comumente, a sociedade dominante apresenta os Direitos Humanos apenas como direitos individuais e de quem tem dinheiro. Os governos só se preocupam com os direitos de ir, vir, comprar e consumir. São direitos garantidos pelo dinheiro e posição social. Sem dinheiro, não se garante direito, nem para viver. O que dizer do direito de morar dignamente, comer, receber educação e cuidados de saúde?

Ao mesmo tempo que prega direitos individuais para ganhar mais dinheiro, governos de potências que se dizem democráticas têm invadido países, torturado e assassinado pessoas, além de destruir civilizações e culturas humanas, assim como, na primeira década desse século,  ocorreu com templos milenares no Paquistão e monumentos culturais no Golfo Pérsico e em todo o Oriente Médio.

Povos pobres da América Latina e da África testemunham que, desde tempos coloniais, governos ocidentais, ditos democráticos e civilizados violam a justiça internacional e patrocinam golpes. Financiam os piores partidos políticos, sempre à sombra dos direitos humanos e até em nome da civilização cristã. O resultado disso é o que vemos todos os dias nos jornais: países destruídos pela ambição imperial, milhares e milhares de migrantes tentando sobreviver em outros países e grupos radicais que respondem à violência do Império com o terrorismo fundamentalista. No fundo, o que os grupos terroristas conseguem é apenas dar uma aparência de legitimidade às guerras que agora se declaram contra os terroristas. Pouco adiantou que, já no seu tempo, o Mahatma Gandhi lembrava: “se cumprirmos a lei do olho por olho, dente por dente, acabaremos todos cegos e desdentados”.

As antigas civilizações da Ásia, Oceania e África, assim como as comunidades índias e afrodescendentes da América insistem que os direitos não são apenas individuais e sim comunitários e coletivos. Existem direitos de cada pessoa e direitos que são comunitários como o direito dos índios ao seu território e a suas culturas próprias. Atualmente, a  ONU reconhece o direito coletivo dos nômades, ciganos, tuareg, assim como o direito de categorias sociais como crianças, idosos e outros. As organizações sociais insistem nos direitos comuns que estão acima dos direitos individuais. Assim todos os seres vivos têm direito a viver na Terra, a ter acesso gratuito à água potável, ao ar sadio, à saúde e à educação básica.

Além de nos solidarizar à luta dos lavradores, dos povos originários, das mulheres oprimidas e de outras categorias, vítimas da sociedade excludente, a solidariedade nos leva a novo modo de pensar e viver a relação com a Terra, a água, a natureza, os animais e todo ser vivo.  Também, a Terra, as águas, os animais e as plantas precisam ser cuidados e defendidos. Não podemos tratá-los como se fossem meras mercadorias. Conosco eles formam uma grande teia de relação que é como uma comunidade: a comunhão da vida. A consciência da humanidade reconhece hoje os direitos da Mãe Terra e da natureza. Em alguns países, rios ameaçados foram proclamados como sendo sujeitos de direito.

Esse modo de viver e compreender a vida e os direitos humanos faz parte de uma cultura amorosa que chamamos de Espiritualidade integral ou cósmica. Ao privilegiarem a relação amorosa com a terra, a cura das doenças e o equilíbrio da vida, as tradições indígenas e afro-descendentes revelam a mesma raiz ética e espiritual.  De uma forma ou outra, todas as religiões reconhecem: o divino só pode ser encontrado realmente no humano. A espiritualidade, seja religiosa ou não, faz da defesa dos direitos do ser humano e da natureza um método de intimidade com o Divino, presente no mundo. No século II, Irineu, pastor da Igreja de Lyon, ensinava: “Como você poderá divinizar-se se ainda nem se tornou humano? Antes de tudo, garanta a condição de ser humano e, assim, poderá participar da glória divina”.

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br   

terça-feira, 5 de novembro de 2019

PACTO DAS COMUNIDADES PELA CASA COMUM




Por Marcelo Barros

Continuam repercutindo nas mídias e principalmente nos corações de muitas pessoas as imagens e notícias dos bispos e missionários/as da Amazônia, reunidos nas Catacumbas de Domitila em Roma e refazendo o Pacto das Catacumbas. O primeiro Pacto das Catacumbas foi realizado no dia 16 de novembro de 1965, nos dias finais do Concílio Vaticano II e foi assinado por 44 bispos de todo o mundo. Inseriu a Igreja na luta dos pobres por sua libertação. Agora, no domingo 20 de outubro de 2019, bispos e missionários/as da Amazônia, presentes no Sínodo em Roma, refizeram o Pacto das Catacumbas, em um compromisso com os povos originais e com a defesa da mãe Terra, nossa Casa Comum.  

Pela internet e nas redes sociais, vimos bispos amigos e outros companheiros/as assinando o documento, nas Catacumbas de Domitila, onde repousam os restos mortais de muitos mártires cristãos dos primeiros séculos. Ao verem essas fotos, muitos irmãos e irmãs pensaram: Gostaria de também assinar esse compromisso com os mais pobres, com os índios e com a defesa da Terra, das águas e da Vida.

De fato, diferentemente do primeiro Pacto, esse foi assinado por bispos, missionários/as e pessoas que quiseram assinar. Também podemos perceber que, em 1965,  quando o primeiro pacto foi publicado, a perspectiva dos bispos abertos era um estilo pessoal de vida simples e de comunhão com os pobres. Alguns anos depois, a Teologia da Libertação clareou que o compromisso evangélico é de comunhão com os pobres, mas contra a pobreza injusta. Atualmente, o Pacto tem em vista a inserção nas comunidades, a valorização de suas culturas, a defesa do seu modo de viver, a sustentabilidade da floresta, dos rios e do bioma amazônico, assim como a defesa da Vida, onde essa estiver ameaçada. 

O novo pacto, assinado nesses dias em Roma é um documento aberto que pode ser retomado e inclusive adaptado às diversas situações do nosso país. De fato, no Brasil de hoje, os desafios da Amazônia se reproduzem por todas as outras regiões. De norte a sul, leste a oeste, os povos indígenas estão, como nunca, ameaçados em sua sobrevivência. A sociedade brasileira enfrenta uma desigualdade social maior do que antes. As condições ambientais são sempre mais agredidas. Nesses dias, nas praias do Nordeste, enquanto o presidente cuida de garantir uma embaixada para o seu filho, as pessoas sensíveis se unem para limpar as belas praias do nosso litoral do estrago provocado pelas toneladas de petróleo derramadas no mar.

Em Recife, na Igreja das Fronteiras onde Dom Helder Camara viveu em uma pequena sacristia para ser fiel ao compromisso assumido no Pacto das Catacumbas, estamos convidando padres, religiosos/as e leigos/as para assinarmos juntos o Pacto das Fronteiras e irmos divulgando esse documento em meio a todos os irmãos e irmãs da Igreja para que no próximo ano, quando nessa mesma data se encerrará o XVIII Congresso Eucarístico Nacional no Recife, consigamos que bispos e padres, presentes no Congresso aceitem assinar um Pacto das Catacumbas que una o compromisso com os mais pobres ao ministério de repartir com os irmãos e irmãs a Ceia do Senhor, para que haja “Pão em todas as mesas”, tema central do congresso eucarístico.

Já em 1965, bispos como Dom Helder Camara e outros percebiam que essa inserção da Igreja na vida dos pobres e a causa da justiça no mundo não são apenas consequências externas da missão da Igreja e sim constituem o próprio núcleo central da missão. O papa Francisco tem insistido nisso.  

O próximo sábado 16 de novembro cairá na véspera do domingo que o papa propõe seja o 3º Dia Mundial dos Pobres, data na qual ele (o papa) costuma almoçar com os/as pobres depois de dialogar com eles e escutá-los. É excelente oportunidade para que, nas paróquias e comunidades, o maior número possível de pessoas aceite assinar um novo Pacto das Catacumbas, como compromisso de inserção e comunhão com os mais pobres e com a Terra nossa mãe.


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br   



terça-feira, 11 de julho de 2017

A FAMÍLIA HUMANA E A CASA COMUM


Por Marcelo Barros



Anualmente, a ONU consagra o 11 de julho como "dia mundial da população". O objetivo é chamar a atenção da humanidade para o fato de que, quanto mais aumenta a população mundial, mais se tornam necessário um planejamento mais cuidadoso para favorecer a vida de todos. Além disso, é também urgente maior cuidado com o planeta, para que a terra não se torne inabitável.

Os dados atuais comprovam que a humanidade conta com 7, 3 bilhões de pessoas. A maior parte da população continua sendo de asiáticos, dos quais a China é ainda o país mais populoso. A Índia a segue imediatamente e, provavelmente, a vencerá em pouco mais de uma década. A cada ano, a população mundial registra um aumento de 75 milhões de pessoas. Esse crescimento é desigual. A população cresce na África e diminui em alguns países ricos. Em 19 nações da Europa, a taxa populacional tem baixado. Além disso, é escandaloso saber que, enquanto no Japão, na Suécia e outros países ricos, a média de vida é de 80 anos, em países africanos, como a Zâmbia e o Zimbabue, é considerado feliz quem atinge a idade de 35.

As maiores preocupações da ONU e dos cientistas é que, como afirmava o Mahatma Gandhi, a terra é suficientemente fértil e pode alimentar até 11 bilhões de pessoas. No entanto, não basta para saciar a ambição da pequena elite econômica que domina o planeta. Em 2015, a ONU publicou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para o Mundo, a serem alcançados nesses próximos quinze anos. De acordo com essa meta, espera-se que até 2030, a humanidade tenha conseguido proporcionar segurança alimentar e água potável para toda a população da terra. Até lá, devemos ter diminuído de tal forma a pobreza, que a fome e as doenças endêmicas que ainda ameaçam a vida nos países pobres, tenham sido superadas. Além disso, cientistas de todo o mundo concordam que, se a sociedade dominante não mudar o modo de organizar o mundo, todo o sistema de vida no planeta Terra está ameaçado.

Desde o começo desse século, cientistas como Paul Crutzen e Eugene Stoermer ensinam que, com o Capitalismo industrial, a temperatura na superfície do planeta e na sua atmosfera mudou tanto que entramos em uma nova era geológica. Essa nova idade da Terra, que se sucedeu ao Holoceno , recebeu dos cientistas o nome de Antropoceno porque é provocada pelo ser humano ( antropos ). Em uma guerra nuclear, a destruição do planeta seria consequência da decisão consciente de governantes que detêm o poder. As mudanças climáticas podem também acarretar a destruição da vida na terra, mas como consequência não-intencional das ações humanas. Nesse caso, só uma análise científica pode mostrar que essa destruição é resultado de nossas ações, enquanto espécie. Nesses últimos três anos, cientistas de diversos países, alguns que receberam Prêmio Nobel de Ciências, estudaram a quantidade de energia ou calor que entra na atmosfera. Essa energia se acumula nos reservatórios do planeta, como os oceanos, as geleiras e o próprio solo da terra. Eles compararam e descobriram que o calor ali acumulado é equivalente a 0, 58 W/ m2. Segundo eles, é um calor equivalente ao provocado pela explosão de 400 mil bombas atômicas. Diante dessa realidade, é urgente que a sociedade civil se organize mais e pressione os governos e empresas para que assumam sua responsabilidade em relação ao futuro. No dia mundial da população, é importante refletir sobre que mundo entregaremos aos filhos dos nossos filhos.


Quem crê em Deus como Amor sabe que, ao agredir a natureza, se ataca o próprio Criador. Ao mesmo tempo, quando trabalhamos para salvar uma nascente de água, preservar um pedaço de mata ou simplesmente possibilitar uma agricultura ecológica, estamos cuidando da vida e, concretamente, do futuro da população humana. Se somos crentes, estamos colaborando com o Espírito Mãe da Vida que, no universo, mantém permanentemente o evoluir de sua criação.

  Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

“CASA COMUM, NOSSA RESPONSABILIDADE”


por Marcelo Barros


Esse é  o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica que, em todo o Brasil, será aberta pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) nessa quarta feira, 10 de fevereiro ou, no próximo domingo, o 1o da Quaresma. De fato, desde o ano 2000, essa será a 4a Campanha da Fraternidade Ecumênica. Reúne cinco Igrejas cristãs e diversas organizações interconfessionais. Dessa vez, além das Igrejas, essa Campanha da Fraternidade envolve também a Misereor, organização dos bispos católicos da Alemanha. O tema geral é o cuidado com a Terra, especialmente no que diz respeito ao saneamento básico que inclui o abastecimento de água urbano e rural; a coleta e tratamento de esgoto; o manejo adequado dos resíduos sólidos (lixo) e a drenagem das águas de chuva. Certamente, na realidade que, nesses dias, enfrentamos no Brasil, não podemos esquecer o combate a mosquitos que transmitem doenças que assolam a nossa população e provocam tantos males. 

As estatísticas mostram que, no Brasil, apesar dos esforços do governo nos últimos dez anos, ainda temos um longo caminho a percorrer no cuidado com a terra e com os nossos rios. É difícil compreender como um país que produz até aviões comerciais de grande porte não consegue solucionar os problemas de saneamento nem em cidades centrais como São Paulo e Rio de Janeiro. Os centros metropolitanos de médio e de grande porte enfrentam cada vez mais problemas relacionados à poluição da água. Nas cidades, a maior parte do esgoto residencial e industrial contamina todas as águas superficiais, como rios, lagos, e o próprio oceano. Nos grandes rios brasileiros, ainda se veem esgotos serem jogados in natura.

É uma graça divina que, no Brasil, ao menos as cinco Igrejas que participam do Conselho Nacional de Igrejas (CONIC) tenham um desafio tão concreto e urgente para ligar com a celebração da Quaresma e da Páscoa. De fato, a responsabilidade pela Terra como causa comum tem de unir dois aspectos: o cuidado ambiental e a ecologia social. Tanto o Conselho Mundial de Igrejas, em seus documentos, como  o papa Francisco, na sua encíclica Laudatum sii, têm insistido: não se pode separar o equilíbrio ambiental e o cuidado com a justiça. Por isso, nessa CF 2016, o lema é a palavra bíblica: “Quero ver a justiça brotar como fonte e o direito correr como riacho que não seca” (Am 5, 24). Essa profecia confirma: O que para Deus é mais importante não é o culto e nem atos de devoção individual e sim que todos cuidem da justiça social e trabalhem para que, no país e no mundo, todos tenham respeitados os seus direitos  individuais, sociais e de saúde. Só assim, as celebrações se tornarão profundas e chegarão aos ouvidos de Deus.

Ao falar em saneamento básico, muita gente dirá que isso é obrigação do governo e que, sobre isso, os cidadãos comuns podem fazer pouco. De fato, em termos estruturais, é verdade: a primeira obrigação é do governo. No entanto, a tarefa dos cidadãos é velar e exigir que os seus direitos sejam respeitados. O trabalho das autoridades deve ser complementado pelo cuidado de toda a população. A limpeza de córregos e rios feita pelas autoridades públicas só funciona se a população colabora e não joga lixo nas ruas. Nessa linha, o texto-base da CF 2016, dirigido aos cristãos de todas as Igrejas e pessoas de boa vontade, sugere várias ações simples e cotidianas. O objetivo é criar uma nova consciência de cuidado com a terra e com a água, assim como uma maior solidariedade social. O texto propõe que as comunidades cristãs estimulem as pessoas a fazerem a coleta seletiva do lixo caseiro e a tratar a rua como espaço coletivo a ser cuidado por todos. Além disso, como gesto comum, nessa Quaresma, pede que evitemos o consumismo. Como, em muitas Igrejas, o jejum é um costume tradicional do tempo da Quaresma, a CF 2016 propõe que façamos um dia de jejum, repartindo com uma família mais pobre o alimento daquele dia. Que essa CFE nos ajude a aprofundar a unidade das Igrejas que Deus quer e pede que vivamos. “Ó Deus da vida, da justiça e do amor, Tu fizeste com ternura o nosso planeta, morada de todas as espécies e povos. Dá-nos assumir, na força da fé e em irmandade ecumênica (com as outras Igrejas cristãs), a corresponsabilidade na construção de um mundo sustentável e justo para todos. No seguimento de Jesus, com a alegria do Evangelho e com a opção pelos pobres. Amém”. (oração da CFE – Texto base, p. 73).


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

COMO TRATAS A HÉSTIA: O TEU CORAÇÃO, O TEU LAR E A TERRA COMO CASA COMUM?


Por Leonardo Boff



Atualmente há toda uma nova forma de interpretar os velhos mitos gregos e de outros povos. Ao invés de considerar os deuses e deusas como entidades subsistentes, agora cresce a hermenêutica, especialmente, após os estudos do psicanalista C.G. Jung e seus discípulos J. Hillman, E. Neumann, G. Paris e outros, de que se trata de arquétipos, vale dizer, de ancestrais forças psíquicas que nos habitam e movem nossas vidas. Elas irrompem de forma tão vigorosa que os conceitos abstratos não conseguem expressá-las mas que o são mediante relatos mitológicos. Neste sentido o politeísmo não significa a pluralidade de divindades, mas de energias que vibram na nossa psique.

Um desses mitos que contem um significado profundo e atual é aquele da deusa Héstia. Segundo o mito, ela é filha de Cronos (o deus do tempo e da idade de ouro) e de Reia, a grande mãe, geradora de todos os seres. Héstia representa nosso centro pessoal, o centro do lar e o centro da Terra, nossa Casa comum. É virgem, não por desprezar a companhia do homem, mas para poder, com mais liberdade, cuidar de todos os que se encontram no lar. Mesmo assim ela sempre vem acompanhada por Hermes, o deus da comunicação (donde vem hermenêutica) e das viagens. Não são marido e mulher. São autônomos mas sempre reciprocamente vinculados.

Eles representam duas facetas de cada pessoa humana que é portadora simultaneamente do animus (princípio masculino, Hermes) e da anima (princípio feminino, Héstia).

Héstia significa em grego a lareira com fogo aceso:isso era entendido existencialmente como a harmonia e o ânimo do coração. Tatrefa diuturna e sempre continuada é manter sob controle dos demônios interiores e dar o mais possível espaço aos anjos bons.

Hésti era também  o lar com o fogo aceso como aquele lugar ao redor do qual todos se agrupam para se aquecerem e conviverem. Portanto, é o coração da casa, o lugar da intimidade familiar, longe do tumulto da rua. Héstia protege, dá segurança e aconchego. Além disso, a ela cabe a ordem da casa e detém a chave da despensa para que sempre esteja bem fornida para familiares e hóspedes.

Nas cidades gregas e romanas mantinha-se sempre um fogo acesso, para expressar a presença protetora de Héstia (a Vesta dos romanos). Se o fogo se apagasse, era presságio de alguma desgraça. Também não se começava a refeição sem fazer um brinde à Héstia: “para Héstia” ou “para Vesta”.

Héstia, concretamente, significava também aquele canto para onde alguém se recolhe para estar só, ler seu jornal ou um livro e fazer a sua meditação. Cada um tem o seu “lugarzinho” ou sua cadeira preferida. Para saber onde se encontra a nossa Héstia devemos nos perguntar quando estamos fora de casa: ”qual é a imagem que melhor lembra o nosso canto, onde Héstia se oculta? Aí está o centro existencial da casa. Sem a Héstia a casa se transforma num dormitório ou numa espécie de pensão gratuita, sem vida. Com Hestia há afeição, bem-estar e o sentimento de estar “finalmente em casa”. Ela era tida como uma a aranha, por tecer teias que unem a todos  e o centro que recolhe e elabora todas   as informações.

Héstia era por todos venerada e no Olimpo a primeira a ser reverenciada. Júpitér sempre defendeu sua virgindade contra o assédio sexual de alguns deuses mais assanhados.

A nossa cultura patriarcal e a masculinização das relações sociais tornaram Héstia grandemente enfraquecida. As mulheres fizeram bem em sair de casa, desenvolver sua dimensão de animus (capacidade de organizar e dirigir). Mas tiveram que sacrificar, em parte, a sua dimensão de Héstia. Nelas se mostrou a dimensão de Hermes que se comunica e se articula. Levaram para o mundo do trabalho as virtudes principais do feminino: o espírito de cooperação e o cuidado que tornaram as relações menos rígidas. Mas chega o momento de voltar para casa e de resgatar a Héstia.

Ai da casa desleixada e desordenada! Aí emerge a vontade de que Héstia se faça presente para garantir a atmosfera boa, íntima e familiar. Esta não é apenas tarefa da mulher mas também do homem. Por isso em todo homem e em toda a mulher deve se equilibrar o momento de Hermes, estar fora de casa para trabalhar com o momento de Héstia, de voltar ao centro e ter o seu refúgio e aconchego.

Hoje, por mais feministas que sejam as mulheres, elas estão resgatando mais e mais esta fina dosagem vital.

Héstia não significava somente a lareira acesa do lar ou da cidade. Também designava o centro da Terra onde está o fogo primordial. Hoje não é mais crença mas dado científico. No centro há ferro incandescente. Logicamente, quando se estabeleceu o heliocentrismo e se invalidou o geocentrismo, houve uma abalo emocional para o pensamento de Héstia, a Casa Comum. Mas lentamente ele foi reconquistado. Se a Terra não é mais o centro físico do universo, ela continua sendo o centro psicológico e emocional. Aqui vivemos, nos alegramos, sofremos e morremos. Mesmo indo aos espaços exteriores, os astronautas sempre revelavam saudades da Mãe Terra, onde tudo o que é significativo e sagrado está lá.

Hoje temos que resgatar a Héstia, dar centralidade à razão cordial, torná-la a protetora da Casa Comume  manter seu fogo vivo e conferir-lhe sustentabilidade. Não estamos rendendo-lhe as honras que merece, por isso ela nos envia seus lamentos com o aquecimento global e as calamidades naturais. Não devemos rebaixar Héstia como mero repositório de recursos mas como a Casa Comum que deve ser bem cuidada para que continue a ser nosso Lar aconchegante e benfazejo.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor e escreveu o livro Ecologoa, Ciência e espiritualidade, Mar de Ideias, Rio 2015.


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

COMO CUIDAR DE NOSSA CASA COMUM

Por Leonardo Boff



Hoje para cuidar da Terra como nos sugeriu detalhamete o Papa Francisco em sua encíclica “Cuidado da Casa Comum” exige-se “uma conversão ecológica global”, “mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder”(n.5). Esse propósito jamais será alcançado senão amarmos efetivamente a Terra como nossa Mãe e soubermos renunciar e até sofrer para garantir sua vitalidade para nós e para toda a comunidade de vida (n.223). A Mãe Terra é a base que tudo sustenta e alimenta. Nós não podemos viver sem ela. A sistemática agressão que sofreu nos últimos séculos tiraram-lhe o equilíbrio necessário. Eventualmente, poderá continuar pelos séculos afora, mas sem nós.

No dia 13 de agosto deste ano de 2015 ocorreu o Dia da Sobrecarga da Terra (The Earth Overshoot Day), dia em que se constatou a ultrapassagem da biocapacidade da Terra em atender as demandas humanas. Precisa-se de 1,6 planeta para atendê-las. Em outras palavras. Isso demonstra que o nosso estilo de vida é insustentável. Nesse cálculo não estão incluidas as demandas da inteira comunidade de vida. Isso torna mais urgente a nossa responsabilidade pelo futuro da Terra, de nossos companheiros de caminhada terrenal e de nosso projeto planetário.

Como cuidar da Terra? Em primeiro lugar há que considerar a Terra como um Todo vivo, sistêmico no qual todas as partes se encontram interdependentes e interrelacionadas. A Terra-Gaia fundamentalmente é constituída pelo conjunto de seus ecossistemas e com a imensa biosdiversdade que neles existe e com todos os seres animados e inertes que coexistem e sempre se interrelacionam como não se cansa de afirmar o texto papal, bem na linha do novo paradigma ecológico.

Cuidar da Terra como um todo orgânico é manter as condições pré-existentes há milhões e milhões de anos que propiciam a continuidade da Terra, um super Ente vivo, Gaia. Cuidar de cada ecosistema é compreender as singularidades de cada um, sua resiliência, sua capacidade de reprodução e de manter as relações de colaboração e mutualidade com todos os demais já que tudo é relacionado e includente. Compreender o ecossistema é dar-se conta dos desequilíbrios que podem ocorrer por interferências irresponsáveis de nossa cultura, voraz de bens e serviços.

Cuidar da Terra é principalmente cuidar de sua integridade e vitalidade. É não permitir que biomas inteiros ou toda uma vasta região seja desmatada e assim se degrade, alterando o regime das chuvas. Importante é assegurar a integridade de toda a sua biocapacidade. Isso vale não apenas para os seres orgânicos vivos e visíveis, mas principalmente para os microorganismos. Na verdade, são eles os ignotos trabalhadores que sustentam a vida do Planeta. Diz-nos o eminente biólogo Edward Wilson que “num só grama de terra, ou seja, menos de um punhado de chão, vivem cerca de 10 bilhões de bactérias, pertencentes a até 6 mil espécies diferentes”(A criação, 2008,p.26). Por aí se demonstra, empiricamente, que a Terra está viva e é realmente Gaia, superorganismo vivente e nós, a porção consciente e inteligente dela.

Cuidar da Terra é cuidar dos “commons”, quer dizer, dos bens e serviços comuns que ela gratuitamente oferece a todos os seres vivos como água, nutrientes, ar, sementes, fibras, climas etc. Estes bens comuns, exatamente por serem comuns, não podem ser privatizados e entrar como mercadorias no sistema de negócios como está ocorrendo velozmente em todas as partes. A Avaliação Ecosistêmica do Milênio, inventário pedido pela ONU de uns anos atrás, no qual participaram 1.360 especialistas de 95 países e revisados por outros 800 cientistas trouxeram resultados amedrontadores. Entre os 24 serviços ambientais, essenciais para a vida, como água, ar limpo, climas regulados, sementes, alimentos, energia, solos, nutrientes e outros, 15 estavam altamente degradados. Isto sinaliza claramente que as bases que sustentama vida estão ameaçadas.

De ano para ano, todos os indices estão piorando. Não sabemos quando esse processo destrutivo vai parar ou se transformar numa catástrofe. Havendo uma inflexão decisiva como o temido “aquecimento abrupto”, que faria o clima subir entre 4-6 graus Celsius, como advertiu a comunidade científica norte-americana, conheceríamos dizimações apocalípticas afetando milhões de pessoas. Temos confiança de que iremos ainda despertar. Mais que tudo cremos que “Deus é o Senhor soberano amante da vida”(Sb 11,26) e não deixará acontecer semelhante Armagedom.

Cuidar da Terra é cuidar de sua beleza, de suas paisagens, do esplendor de suas florestas, do encanto de suas flores, da diversidade exuberante de seres vivos da fauna e flora.

Cuidar da Terra é cuidar de sua melhor produção que somos nós seres humanos, homens e mulheres especialmente os mais vulneráveis. Cuidar da Terra é cuidar daquilo que ela através de nosso gênio produziu em culturas tão diversas, em línguas tão numerosas, em arte, em ciência, em religião, em bens culturais especialmente em espiritualidade e religiosiadade pelas quais nos damos conta da presença da Suprema Realidade que subjaz a todos os seres e nos carrega na palma de sua mão.

Cuidar da Terra é cuidar dos sonhos que ela suscita em nós, de cujo material nascem os santos, os sábios, os artistas, as pessoas que se orientam pela luz e tudo o que de sagrado e amoroso emegiu na história.

Cuidar da Terra é, finalmente, cuidar do Sagrado que arde em nós e que nos convence de que é melhor abraçar o outro do que rejeitá-lo e que a vida vale mais que todas as riquezas deste mundo. Então ela será de fato a Casa Comum do Ser.


Leonardo Boff é colunista do Jornal do Brasil on Line e ecoteólogo. É autor do livro Saber Cuidar.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A casa da encosta




Por Roberta Barros


 
     Na Encosta da barreira eles ergueram mais um casebre. Não parece uma casa, é um quadrado, coberto de pedaços de lonas, sacos plásticos, panos velhos...  As folhas verdes das taiobas, foi a única vida verde que restou da devastação.

    Com enxadas, pás e picaretas, eles furaram a barreira, que com a chegada da chuva, escorre pelos caminhos  pequenos, como sangue em veias abertas, que descem abrindo caminho, nos lamaçais da vida infames, de seus moradores.

     Sem janelas, apenas um pedaço de terra batida, sem água oficial, só a água divina, que no primeiro inverno deve desmanchar a intenção e obstinação de se ter uma casa.

    Sem energia, logo a boquinha da noite, um candeeiro deve iluminar a garrafa da cachaça, que adorna o pedaço de madeira que se torna mesa, e segue anestesiando as amarguras de seus moradores.

    No quintal improvisado, dois seres se organizam e dividem a limpeza diária, olho, tento enxergar o que fazem, são duas mulheres com seus afazeres domésticos, o que elas fazem meu Deus, em frente ao casebre, em forma de casa, sem janelas, sem telhados, e até sem vida?

     Parecem acreditar que ainda vivem, pois em seus corpos o coração ainda bate, porém em suas faces, o mundo parece lhes ter roubado a vida.