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terça-feira, 5 de abril de 2022

Desarmar a fé e as religiões para desarmar o mundo

 Marcelo Barros


 

É triste e doloroso ver a cada dia e noite as imagens terríveis da destruição que a guerra entre as grandes potências do mundo provocam na Ucrânia. E no mundo atual, há muitos outros conflitos e guerras que eclodem nos cinco continentes. A ONU chega a contar 28 situações de conflitos no mundo. Certamente um dos aspectos mais terríveis de muitas destas guerras é ver que dos dois lados do conflito estão mandatários que se dizem cristãos e falam que Deus está do lado deles e há bispos e patriarcas que os apoiam.

De fato, embora todas as tradições espirituais pregam a Paz e o Amor, até os nossos dias, as religiões têm sido motivos de confronto e violência entre pessoas e entre povos. Infelizmente, todas as grandes religiões, em determinados momentos da história, acabaram servindo para exacerbar conflitos e violências. A Bíblia pode ser interpretada como uma incessante luta contra culturas e religiões estrangeiras. No Brasil e em outros países, diariamente, em nome da Bíblia, cristãos fundamentalistas atacam violentamente templos e comunidades de cultos de matriz africana.

Vários intelectuais chamam a atenção para o caráter violento dos textos religiosos. Um sociólogo afirmou: “Encher o mundo com religião e principalmente com religiões monoteístas equivale a espalhar pelas estradas pistolas carregadas. Não se surpreendam se elas forem usadas[1]. 

Em uma mensagem ao 2º Fórum Social Mundial, José Saramago escreveu: “De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus[2]

Em 1996, o cardeal Carlo Maria Martini, então arcebispo de Milão, afirmava: “Sinto-me obrigado a refletir novamente sobre páginas bíblicas que descrevem o conflito e parecem legitimá-lo e encorajá-lo. Em algumas parábolas evangélicas, a guerra e a vio­lência são consideradas comuns e inerentes à sorte deste mundo. O Evangelho usa como comparação para a nossa fé a situação de um rei que vai à guerra contra outro rei com dez mil homens (Lc 14, 31). Há também a parábola do rei que, ao saber que seus servos e o seu filho foram insultados e assassinados. São histórias que falam de vingança e pena de morte. (...) Hoje, não podemos propor fatos de guerra e violência como imagens do reino de Deus[3].

Podemos explicar estes textos violentos com o conceito de “pedagogia progressiva”. Deus vai educando progressivamente o seu povo a partir de seus condicionamentos culturais até um ponto no qual a violência possa ser superada. Assim sendo, a revelação bíblica caminha para a não violência e o amor absoluto. Não precisamos desculpar a Bíblia ou justificá-la. Queremos sim reler seus textos a partir de um chamado divino que hoje recebemos para ser testemunhas do amor divino por todas as culturas.

Para que alcancemos esta cultura de paz não basta que os ministros religiosos condenem guerras como a que o governo do império norte-americano e a Rússia, com apoio da China fazem na Ucrânia e em tantos outros lugares do mundo.  Não basta orar pela Paz como se Deus precisasse ser convencido por nós para dar a paz ao mundo. Ele é a própria Paz e somos nós que criamos guerras e não Deus. Também parece incoerente pedir paz dos governos e políticos do mundo e manter religiões dogmáticas e autoritárias que por sua própria estrutura hierárquica contêm um aparato de violência simbólica. É preciso que as próprias Igrejas, assim como cada cristão assuma um processo educativo que o coloque em uma cultura de Paz.

É isso que há quase 60 anos, o papa João XXIII propôs quando, mesmo enfrentando pressões de seus próprios assessores e auxiliares, na 5ª feira santa, 11 de abril de 1963, assinou e mandou divulgar a encíclica Pacem in Terris (Paz na Terra). Para ser testemunhas da Paz, cada crente e as próprias religiões têm de se desarmarem de suas couraças dogmáticas, dos seus anseios mundanos de poder e praticarem nos seus círculos internos e entre elas a Paz e o Amor que propõem ao mundo. s  

 Coreia do Norte e do Irã. Outros casos incluem a presença de movimentos separatistaômicas regionais, como os casos do Quebec (Canadá), País Basco e Catalunha (Espanha) e Irlanda do Norte.m atualmente 30 regiões do mundo com a presença de conflitos armados. A maior parte destes conflitos envolve disputas por território e inclui, dentre as motivações, diferenças étnicas, religiosas e o controle de recursos naturais. Para além dos conflitos em andamento, existem ainda zonas de grande tensão geopolítica, como é o caso da Coreia do Norte e do Irã. Outros casos incluem a presença de movimentos separatistas de intensidade variável, mas que criam instabilidades políticas e econômicas regionais, como os casos do Quebec (Canadá), País Basco e Catalunha (Espanha) e Irlanda do Norte.

  



[1] - RICHARD DAWKINS, no The Guardian, 15/09/2001, citado por ANTONIO AUTIERO, Tra Religione e Irreligione, in OBRA COLETIVA, Comprendere il nostro Tempo, Verona, Casa Editrice Mazziana, 2003, p. 107.

[2] - citado por FAUSTINO TEIXEIRA, Diálogo Inter-religioso: o desafio da acolhida da diferença,  in Perspectivas Teológicas, julho-agosto, 2002.

 

[3] - CARLO, CARDINAL MARTINI, Fede e Violenze, Cattedra dei non credenti 1996, disponibilizada na Internet e publicada em livros pela Arquidiocese de Milão, 1996.

 

terça-feira, 17 de agosto de 2021

SINAL DIVINO PARA ALÉM DAS RELIGIÕES

 


Marcelo Barros

 

Neste ano de 2021, no Brasil, no campo ecumênico das Igrejas, uma das mais importantes novidades é a criação da Rede Ecumênica da Água (REDA). Iniciativa do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), este organismo reúne cristãos e cristãs de várias Igrejas com o objetivo de promover o cuidado com a água potável como direito de todo ser vivo e bem comum da humanidade. Como tudo está interligado, a defesa da água potável abrange mesmo as não potáveis, como as dos oceanos e todas as águas, como elementos fundamentais dos quais depende toda a vida no planeta.

A defesa das águas é assunto prioritário para todas as correntes espirituais que ligam a fé com a vida.  Em todas as religiões, os elementos considerados sagrados devem ser profundamente respeitados e protegidos. Ora, no mundo capitalista, a água, assim como a terra e toda a natureza são consideradas meramente como mercadorias a serem exploradas, sem outro critério a não ser o lucro das elites. 

De fato, neste mês de agosto um alerta importante foi dado sobre a estiagem na região do Pantanal, que atinge rios, vales e baixadas nos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Já há quase três anos sem enchente nos rios, a região enfrenta uma das piores secas do século. Felipe Dias, diretor do SOS Pantanal, afirma com clareza: “A crise é consequência de falta de proteção de nascentes, de cursos d’água. É falta de recarga dos aquíferos com a impermeabilização que fazemos nos solos”.

Em outras regiões como Minas Gerais e a Amazônia, as mineradoras e o garimpo continuam provocando destruição sistemática e cruel de rios e fontes de água com consequências sempre mais trágicas.

Por isso, não deixa de ser consolador ver que, em todo o continente latino-ameriano, cada dia cresce mais a consciência de que a defesa da água é responsabilidade de toda a sociedade civil. Em julho deste ano, Gualegaychu, cidade da região de Rosário na Argentina, aprovou oficialmente a realização anual de uma Semana do Direito Humano à Água e ao Saneamento Básico. Isso foi consequência de uma luta árdua e que vem de muitos anos da sociedade civil e de instituições como  a Ágora dos/das Habitantes da Terra na Argentina e a Cátedra da Água na Universidade de Rosário, luta coordenada pelo professor Anibal Facciendini e sua equipe. Gualegaychu é uma cidade que luta contra indústrias de pasta e papel que contaminam o rio Uruguai que banha toda aquela região. O objetivo da semana anual do Direito Humano à Água e ao Saneamento é conscientizar a população e lutar contra a mercantilização e privatização da água e dos serviços de saneamento.

A falta de saneamento ambiental, sobretudo em países pobres, colabora para a contaminação dos mananciais. Conforme dados da ONU, no mundo atual, mais de 1,2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável e 2,4 bilhões não têm acesso ao saneamento. O impacto na saúde humana e no meio ambiente é trágico. Agrava-se ainda mais essa situação quando a ambição, visando usos futuros privados da água, a privatiza. A partir de dezembro de 2020, pela primeira vez na história, a água passou a ser negociada como commodity no mercado futuro em bolsa de valores. Em Wall Street, na Bolsa de Valores de Nova York, a Nasdaq lançou  o Nasdaq Velez Califórnia com o seu Water Index (a cotação da Água).

As culturas originárias e toda a sabedoria ancestral da humanidade nos ensinam que “estamos vinculados ao universo através da água”. Para quem crê em Deus, em qualquer que seja a tradição religiosa, a água é sempre vista como expressão cósmica do amor divino. Por isso, a Rede Ecumênica da Água, mesmo sendo iniciativa de Igrejas cristãs, provoca o diálogo e o ecumenismo entre as culturas e com outras religiões. Além de ser uma rede em defesa da água, estimula a espiritualidade ecológica. Esta ajuda as pessoas e comunidades a integrar a água como sinal e instrumento de união com o todo o universo que nos cerca. Em nossos dias, toda a humanidade precisa considerar a Água como santíssimo sacramento da vida.

 

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

quarta-feira, 21 de julho de 2021

33º CONGRESSO DA SOTER DEBATE SOBRE A RESPONSABILIDADE DAS RELIGIÕES NA DEFESA DA LAICIDADE, DEMOCRACIA E DIREITOS HUMANOS

 


*Matéria postada REVISTA IHU ON-LINE

Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER) celebrou de 12 a 16 de julho seu 33º Congresso Internacional, que teve como tema “Religião, Laicidade e Democracia: cenários e perspectivas”. Com cerca de 800 pessoas inscritas, conferencistas nacionais e internacionais e mais de 440 apresentações acadêmicas, o congresso tem sido um momento importante na reflexão sobre uma questão que cada vez cobra maior destaque na realidade brasileira e mundial.

Segundo Cesar Kuzma, presidente da SOTER, “tentamos trabalhar as urgências do nosso tempo no âmbito social, no âmbito político-democrático, na responsabilidade que toca às Igrejas cristãs e às religiões em geral da defesa da laicidade, na defesa da democracia, na defesa dos direitos humanos, apontando caminhos, apontando horizontes, apontando novas perspectivas”.

 

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

 

O congresso partiu dos diferentes cenários em que a sociedade brasileira se encontra, agora marcados também “pela pandemia, pela destruição do estado democrático de direito, pela fragilidade nas nossas democracias, pela perda de direitos sociais e também humanos, pelo desmonte das políticas públicas e pelo grande desastre que vem ocorrendo também em nível ambiental”, segundo o presidente da SOTER.

Dentro dessa pluralidade de cenários, o 33º Congresso da SOTER foi um momento para refletir, que partiu da abordagem de Pedro Ribeiro de Oliveira, que buscou “apresentar-nos uma visão panorâmica no qual nós estamos inseridos”, segundo Kuzma. A palestra de Boaventura de Sousa Santos, que trabalhou a questão da laicidade e da democracia, mostrou a diferença entre os diferentes espaços, valorizando “a importância da Teologia da Libertação na América Latina, na luta histórica que ela teve na defesa da própria democracia”, afirma Kuzma.

Na leitura sobre os diferentes momentos, o teólogo fala sobre os aportes de Frei Betto e Jucimeri Isolda Silveira, destacando os direitos humanos, “que se tornam cada vez mais frágeis na atual conjuntura social que nós vivemos”. Ele destaca a celebração que aconteceu pelos 50 anos da Teologia da Libertação, que considera um momento brilhante, afirmando que a SOTER segue essa linha, e “tem na opção pelos pobres o grande enfoque da sua proposta e de seus objetivos”, insistindo em que “a linha libertadora faz parte da natureza da própria SOTER”, algo que foi feito de forma coletiva. Com a presença de diferentes instituições foi, segundo o presidente da SOTER, “um momento marcante, brilhante, que emocionou a todos”.  

A professora italiana Serena Noceti abordou a questão da responsabilidade das Igrejas cristãs na defesa do estado democrático, desde elementos da Fratelli tutti e o Conselho Mundial de Igrejas. Desde os aportes do Papa Francisco, foi refletido sobre a economia, com a presença de Ladislau Dowbor, e a ecologia, com a reflexão de Afonso Murad, perspectivas que segundo Kuzma, “se somam à questão da democracia, da laicidade, do direito, do bem comum, ou da Casa Comum, que é uma expressão que acabou fazendo parte dos nossos discursos”.


Congresso da SOTER foi momento para reconhecer com o prêmio João Batista Libânio, a trajetória da teóloga Ivone Gebara, valorizando, segundo o presidente da SOTER “uma caminhada de luta que não se faz sozinha, se faz de modo coletivo, se faz com outras pessoas”. Seguindo o tema do congresso, Cesar Kuzma insiste em que “dar o prêmio a Ivone, com a história que ela tem, com a dinâmica de espiritualidade com a qual ela vive, e na ternura de sua voz e pelo fato de ser mulher, isso foi algo muito emocionante e muito bonito”.




O congresso foi encerrado na sexta-feira com a palestra de Ivone Guevara, onde abordou a questão da responsabilidade das religiões no estado, para a defesa da laicidade a da democracia. A teóloga colocou a importância de as religiões caminhar em conjunto com a sociedade. Finalmente, Maria Isabel Varanda e Rudolf von Sinner, apontaram pistas, horizontes, fazendo uma releitura do evento e apontando possíveis caminhos, “sem a intenção de nos oferecer, mas convidando a um caminhar continuo, coletivo, em busca de novos horizontes, de novas perguntas, de novos espaços”, segundo o professor Kuzma.

Segundo o presidente da SOTER, “o congresso superou todas as expectativas”, inclusive em número de participantes. Ele destaca que o fato de ser virtual permitiu o acesso de pessoas de varias partes do Brasil, da América Latina e de outros países. Mesmo virtualmente, “conseguimos espaços onde a afetividade, a ternura, a humanidade, se fizesse presente”, afirmou Cesar Kuzma. Teve momentos para homenagear as vítimas da Covid-19 e a diretoria da SOTER emitiu uma nota por ocasião do Encerramento do 33º Congresso.

A nota manifesta “a nossa preocupação e o nosso repúdio em relação à deterioração da democracia no Brasil, que se traduz não só no ataque contínuo às Instituições Democráticas e ao Estado de Direito, mas também no aumento da repressão e da violência policial, no aprofundamento da desigualdade social e da fome, na destruição ambiental, na agressão aos povos indígenas, seus direitos e vidas, nos atos sistemáticos de racismo que revelam a condição do racismo estrutural presente em nossa sociedade, na afirmação do sexismo e no crescimento do feminicídio”.

Desde a SOTER é denunciado que “o negacionismo foi e é responsável por grande parte do número de mortos pela atual pandemia da COVID-19, que já ceifou mais de 530 mil vidas no Brasil”. Ao mesmo tempo, a nota insiste em que “este mesmo negacionismo agravou a crise econômica, levando a um enorme contingente de pessoas desempregadas e ao aumento da fome e da miséria”.

O texto condena que “neste contexto, as Religiões, sobretudo certas expressões do Cristianismo, nem sempre têm tido um papel profético, crítico e libertador”, denunciando que “ao contrário, alguns grupos têm instrumentalizado a Religião, negado o caráter laico do Estado e promovido, ou reforçado, a deterioração de nossa democracia em nome de Deus, inclusive afirmando e praticando a intolerância religiosa”.

Por isso, consideram urgente “reafirmar que as Religiões devem estar a serviço da vida e não da morte”. Nesse sentido, a diretoria da SOTER destaca que “o Cristianismo possui uma longa trajetória e, em nosso país, foi fundamental, juntamente com outras Tradições Religiosas, na luta pelos direitos humanos e pela redemocratização do Estado e da Sociedade”. Finalmente, conclamam “todas as lideranças religiosas a se colocarem na defesa incondicional da plena democracia, dos direitos humanos e da justiça social”.

 

*FONTE:http://www.ihu.unisinos.br/maisnoticias/noticias/78-noticias/611188-33-congresso-da-soter-debate-sobre-a-responsabilidade-das-religioes-na-defesa-da-laicidade-democracia-e-direitos-humanos 

 

sábado, 21 de novembro de 2020

AS RELIGIÕES E OS VALORES ÉTICOS DE BASE COMUM


Pe Fabio Potiguar dos Santos


 

O diálogo inter-religioso é um imperativo para todas as expressões religiosas do mundo.  Seja para conservar autenticamente a proposta de cada uma das religiões como espaço do encontro da pessoa com Deus ou o sagrado, consigo mesmo, com todas as mulheres e homens – especialmente os irmãos e irmãs que compartilham a mesma fé e vivência – e com o cosmos.

 

Encontro este norteado pelos princípios místicos, éticos e morais; bem como para ser no mundo uma presença e instrumento de promoção da dignidade da pessoa humana, da justiça, o cuidado com a Casa Comum, da fraternidade e da paz. Abraço do bem com o belo, comunhão ética e estética.

 

As religiões são assim, lugares do encontro do homem com Deus, com os seus companheiros de humanidade e uma relação de alteridade com o meio ambiente. Individual e coletivamente os seus membros deverão viver e celebrar os seus mistérios e o que lhes foi revelado dentro de seus próprios espaços sagrados no santuário do coração e da consciência e naqueles construídos como o lugar do culto. Deste modo, respeitadas todas as especificidades litúrgicas, particularidades morais e singularidade doutrinal, sem perder e anular aquilo que lhe é próprio, em meio a poucas ou muitas divergências, cada religião tem o compromisso – para apresentar-se à sociedade como boa e verdadeira – do diálogo e de ações conjuntas com as demais, a partir do ponto de convergência e matriz de todas elas que são, sem sombra de dúvidas, Os valores éticos comuns de base,como a mística, o amor, a felicidade, a justiça social, a paz nos corações e no mundo.

 

Nesta crise mundial de valores as religiões desempenham um papel, intrínseco e obrigatório de ser no mundo um lugar do encontro com uma orientação básica,  quando as mais diversas expressões de fé se reúnem para apresentar a imagem de Deus ou do sagrado, e não sua perversa caricatura, apresentar aqueles princípios milenares acima mencionados - nem alienados nem alienantes -  ao mesmo tempo tão contemporâneo e ainda a partir de suas fontes mostram-nos o verdadeiro rosto da pessoa humana, onde o homem torna-se mais homem e a mulher mais mulher, enfim, a pessoa humana mais pessoa e mais humana; Repito, ínsito e teimo: as religiões desempenham um papel, intrínseco e obrigatório,  -  de não obstante todas as suas contradições e apesar de todas as grandes objeções postas legitimamente pelos crentes com autocrítica aguçada, os materialistas históricos, os ateus e agnósticos por razões ideológicas, científicas, filosóficas, psicológicas e outras -  de ser no mundo um lugar do encontro com uma orientação básica, como diria Hans Küng, para as grandes perguntas sobre o homem e a mulher: de onde, porquê e para quê – uma orientação básica para a vida individual e social. Sem negar a ciência, mas dialogando com ela, afirma ainda o teólogo suíço, as religiões podem apresentar sem equívocos, não um Deus contra a humanidade, mas sim como um Deus a favor da humanidade.

 Podemos a partir dessas quatro premissas da religião como possibilidade do encontro da pessoa com Deus, consigo, com os outros e o cosmos, afirmar a exigência de todas elas reunidas, ser no mundo,  um importante instrumento, em permanente diálogo com outros protagonistas, através do que convencionamos chamar de Diálogo Inter-religioso, para movimentar as pessoas e o mundo na busca de uma ética mundial (respeitadas toda diversidade cultural e geográfica) e na práxis da fraternidade, da justiça e da paz.

 Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife

 

 

terça-feira, 13 de junho de 2017

O CRISTIANISMO E AS OUTRAS RELIGIÕES


Por Marcelo Barros



O Brasil é um país cada vez mais marcado pelo pluralismo cultural e religioso. Só no Distrito Federal, uma pesquisa recente descobriu a existência de mais de 700 diferentes denominações religiosas. Mesmo nos confins mais isolados do interior da Amazônia ou do sertão do Nordeste, em cada aldeia e povoado, convivem pessoas de crenças diversas. Durante séculos, as Igrejas tentaram converter os fieis de outras religiões à fé cristã. E como pensavam que os não cristãos estavam errados e o erro não tem nenhum direito de existir, muitas vezes, chegaram a usar de violência para forçar conversões. Há um pouco mais de 50 anos que, no Concílio Vaticano II, os bispos católicos de todo o mundo afirmaram que Deus chama os cristãos não para converter os outros ao Cristianismo e sim a que eles mesmos se convertam ao evangelho de Jesus. Eles devem dar testemunho disso através de uma postura de abertura ao diferente e de diálogo com os não cristãos. A verdadeira missão nada tem a ver com proselitismo e não deve jamais desrespeitar a consciência e a liberdade religiosa de ninguém.

De fato, a verdade é que Deus chama os cristãos, não a converterem as religiões à sua fé e sim a eles se converterem às outras religiões. Isso não significa renunciar à sua fé de origem, nem obriga ninguém a aceitar doutrinas de outros credos. Trata-se sim de ir amorosamente ao encontro das outras tradições espirituais para, juntas, testemunhar ao mundo ao amor divino. Essa nova compreensão da missão é vivida no diálogo sincero que busca valorizar o outro. Foi isso que Jesus fez ao curar o servo do oficial romano e ao encontrar a mulher samaritana. Ele lhe revelou: "não se trata de adorar a Deus em Jerusalém (no Judaísmo), nem nesse monte (na religião samaritana). Deus é espírito e verdade e deve ser adorado em espírito e verdade" (Jo 4, 21- 23).

Existem dois modos como tem sido vivido esse diálogo de comunhão entre as religiões. Um deles é o mais simples e comum. Acontece quando cristãos se encontram com budistas para aprenderem o que Deus diz a eles, cristãos, através da sabedoria budista. Assim, já no começo do século XX, um leigo católico francês, como Louis Massignon, procurava conhecer o Islã para dialogar e para, com aquele conhecimento, se tornar mais cristão. Um segundo jeito como se tem dado esse caminho de diálogo é o de cristãos que se inserem profundamente na espiritualidade do outro como um caminho de contemplação e encarnação da Palavra divina, sem deixar de ser cristãos.

Desde o começo do século XX e principalmente nos meados do século, vários cristãos, especialmente, monges católicos e padres decidiram viver na Índia e se inserir na espiritualidade hindu. Um deles, o padre Bede Griffis, foi abade de um mosteiro beneditino na Inglaterra. Ele escreveu: "Quanto mais me sinto hindu, budista, islamita e poderia ainda inserir-me em outra religião, mais me descubro profundamente cristão".

No Brasil, desde os tempos da colonização e até hoje, em nome de Jesus Cristo, as religiões negras e indígenas têm sofrido discriminações e perseguições. Quase a cada dia, grupos que se dizem cristãos praticam atos de intolerância e discriminação contra lugares de culto e comunidades de religiões afrodescendentes. No entanto, muitas pessoas do povo se confessam cristãs e, ao mesmo tempo, são membros de comunidades de cultos afrodescendentes. Há quem condene esse sincretismo. Julgam por preconceito. De fato, não é bom confundir uma religião com a outra. Também não é aconselhável participar superficialmente de cultos, sem se inserir profundamente em nenhuma comunidade. Mas, muitos irmãos e irmãs conseguem fazer uma síntese e se integrar em duas tradições espirituais, de uma forma que enriquece a cada uma delas e as aproxima. A famosa Yalorixá Mãe Menininha do Gantois viveu profundamente a espiritualidade da religião dos Orixás e, ao mesmo tempo, era católica de comunhão frequente. Quando perguntada sobre isso, ela respondia: "As religiões não são marcas de refrigerante que competem uma com a outra. São idiomas que podem se complementar". De fato, ela integrava em uma só fé os dois caminhos espirituais como alguém que fala bem dois idiomas e é capaz de, em qualquer um deles, viver um diálogo de amor profundo.

Nos anos 70, o padre François de l'Espinay, teólogo e espiritual francês, se inseriu espiritualmente na religião afro. Chegou a se tornar "Obá de Xangô" em um dos templos mais importantes do Candomblé de Salvador.  Ali viveu como padre e membro da comunidade até morrer.

O evangelho diz que Jesus morreu "para reunir na unidade todos os filhos e filhas de Deus dispersos pelo mundo" (Jo 11, 52). Por isso, os discípulos e discípulas de Jesus consideram sua missão unir os mais diferentes caminhos espirituais no testemunho do projeto de um mundo de paz, justiça e comunhão com a Terra e a natureza. Todos somos chamados a viver isso.

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A CONFERÊNCIA DA ONU E AS RELIGIÕES

Por Marcelo Barros




Dentro de poucos dias, a ONU fará em Paris, mais uma Conferência internacional sobre as mudanças climáticas para pedir aos Estados membros novos compromissos que possam deter o aquecimento global. Nessa semana, tivemos no dia 06 de novembro “o dia internacional para a prevenção da exploração do meio ambiente”.

Cada vez mais, a humanidade toma consciência de que a prevenção contém um elemento técnico, supõe uma opção política clara, mas não basta. O ser humano só mudará a sua forma de relacionar-se com os seus semelhantes e com os outros seres vivos se optar por um olhar de amor sobre o universo. Na sua mais recente encíclica, o papa Francisco mostra que, para cuidar da Terra, nossa casa comum, é preciso aprofundar a relação consigo mesmo, com os outros e pressentir uma marca divina por trás de cada ser do universo.

Atualmente, o nosso planeta abriga quase 7 bilhões de pessoas. Nos próximos 50 anos, a previsão é de que o mundo tenha entre 8,5 a 9 bilhões de habitantes. Mas, como viverá essa população, se metade dos recursos hídricos disponíveis para consumo humano e 47% da área terrestre já são utilizados? E ainda assim, um bilhão de pessoas sofre desnutrição e  insegurança alimentar. A cada dia, mais de 30 mil morrem por este motivo. A relação entre crescimento populacional e o uso de recursos do Planeta já ultrapassou em 20% a capacidade de reposição da biosfera e esse déficit aumenta cerca de 2,5% cada ano. Isso quer dizer que a diversidade biológica – de onde vêm novos medicamentos, novos alimentos e materiais para substituir os que se esgotam – está sendo destruída muito mais rápido do que está sendo reposta. Esse desequilíbrio cresce a tal ponto que, até 2030, 70% da biodiversidade poderá ter desaparecido.

Desde os tempos em que, no século XVIII, os bandeirantes e aventureiros de São Paulo, penetraram no nosso Centro-oeste, atrás de ouro e de índios para escravizar. A Serra Dourada, qual misterioso paredão de pedras que atravessa quilômetros, se levanta como uma barreira que exige parada e reflexão. Hoje, essa cadeia montanhosa que atravessa diversos municípios do cerrado goiano, divide os territórios da querida Cidade de Goiás da velha Mossâmedes, que, até pouco mais de um século, era um aldeamento para amansar “bugres brabos”, ou seja, índios que não aceitavam ser escravos. Dizem que a serra foi ficando amarelada de tanto ver injustiças e opressões. Os brancos que só pensam em riquezas viram a serra empalidecer. Julgaram ser por causa do brilho do ouro em suas veias de pedra. Denominaram-na de Serra Dourada. Ao aproximar-se da cidade de Goiás, o majestoso paredão se enriquece de picos para que melhor se contemple, do mais alto, o planalto agreste tão amplo, que no horizonte se torna azul e se faz um só com o céu sem nuvens.

Dizem que ali, sobre um daqueles pontos altos mais próximos ao céu, há uma pedra misteriosa que os índios chamavam de “Salto do Vento”. É um recanto sagrado que nenhum branco sabe com certeza designar onde fica. Naquele ponto do paredão vertical, muitos guerreiros Kaiapós voaram para os campos sem escravidão, para não ser aprisionados por seus algozes. Até hoje, os espíritos dos antepassados rondam aquele lugar sacrossanto. Com o  urubu-rei que, nos fins de tarde, sobrevoa o paredão, velam sobre aquele santuário, até hoje, intocado. Agora, os espíritos choram não mais apenas pelos jovens guerreiros que saltaram sobre o Salto do Vento. Eles lamentam a situação trágica do Cerrado goiano, o mais frágil dos ecossistemas brasileiros e que continua agredido de todas as maneiras pelo sistema econômico que busca apenas o lucro fácil.

O clamor da Terra ferida só tem sido escutado pelos povos originários indígenas e afrodescendentes. E também pelos grupos da sociedade civil que aprofundam a espiritualidade ecológica e se põem em diálogo para buscar novos caminhos. Todos esses buscam resgatar a dignidade da Terra, da Água e do Ar. No Ocidente, o papa Francisco e no Oriente, Bartolomeu, patriarca ecumênico de Constantinopla, têm pedido a todas as Igrejas cristãs que se insiram nessa caminhada de cura da Terra e ajudem a humanidade a contemplar e respeitar o Espírito presente e atuante na natureza.

 Para a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 21), que acontecerá em Paris no final desse mês, as Igrejas e outras religiões devem se colocar junto com os movimentos sociais e organizações da sociedade civil internacional no compromisso de priorizar o que o papa Francisco chama de “ecologia integral”. Devemos colaborar na educação de toda a humanidade para restabelecer a aliança entre o ser humano e todos os outros seres vivos.


Não basta que as religiões cultivem em seus cultos o cuidado com a Terra, a Água e todos os seres vivos. É fundamental que esse amor se expresse em termos sociais e políticos. Toda humanidade deve ser convidada para fazer da vida e da convivência com a Terra uma experiência de ternura e amor. 

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.

segunda-feira, 9 de março de 2015

AS RELIGIÕES E O TERRORISMO

Por Leonardo Boff

Os principais conflitos do final do século XX e dos inícios do novo milênio possuem um transfundo religioso. Assim na Irlanda, em Kosovo, na Kachemira, no Afeganistão, no Iraque e no novo Estado Islâmico, extremamente violento. Ficou claro em Paris com o assassinato dos cartunistas e outras pessoas por fundamentalistas islâmicos. Como nisso entra a religião?

Não sem razão escreveu Samiuel P. Huntington em seu conhecido livro O choque de civilizações: ”No mundo moderno, a religião é uma força central, talvez a força central que motiva e mobiliza as pessoas….O que em última análise conta para as pessoas não é a ideologia política nem o interesse econômico; mas aquilo que com que as pessoas se identificam são as convicções religiosas, a família e os credos. É por estas coisas que elas combatem e até estão dispostas a dar a sua vida” (1997, p.79). Ele critica a política externa norte-americana por nunca ter dado o devido peso ao fator religioso, considerado algo passado e ultrapassado. Ledo engano. É o substrato dos mais graves conflitos que estamos vivendo.

Quer queiramos ou não, e não obstante o processo de secularização e o eclipse do sagrado, grande parte da humanidade se orienta pela cosmovisão religiosa, judaica, cristã, islâmica, xintoista, budista e outras.

Como já afirmava Christopher Dawson(1889-1970), o grande historiador inglês das culturas:”as grandes religiões são os alicerces sobre os quais repousam as civilizações”(Dynamics of World History,1957,p.128). As religiões são o “point d’honneur” de uma cultura, pois através dela projeta seus grandes sonhos, elabora seus ditames éticos, confere um sentido à história e tem uma palavra a dizer sobre o fins últimos da vida e do universo. Somente a cultura moderna não produziu religião nehuma. Encontrou subtituivos com funções idolátricas, como a Razão, o progresso sem fim, o consumo ilimitado, acumulação sem limites e outros. A consequência foi denunciada por Nietzsche que proclamou a morte de Deus. Não que Deus tenha morrido, pois não seria Deus. É o fato de que os homens mataram Deus. Com isso queria significar que Deus não é mais ponto de referência para valores fundamentais, para uma coesão por cima entre os humanos. Os efeitos os estamos vivendo em nível planetário: uma humanidade sem rumo, uma solidão atroz e o sentimento de desenraizamento, sem saber para onde a história nos leva.

Se quisermos ter paz neste mundo precisamos resgatar o sentimento do sagrado, a dimensão espiritual da vida que estão nas origens das religiões. Na verdade, mais importante que as religiões, é a espiritualidade que se apresenta como a dimensão do humano profundo. Mas a espiritualidade se exterioriza sob a forma de religiões, cujo sentido é alimentar, sustentar e impregnar a vida de espiritualidade. Nem sempre o realiza porque quase todas as religiões, ao se institucionalizarem, entram no jogo do poder, das hierarquias e podem assumir formas patológicas. Tudo o que é sadio pode ficar doente. Mas é pelo “sadio” que medimos as religiões, bem como as pessoas e não pelo “patológico”.  E aí vemos que elas preenchem uma função insubstituível: a tentativa de dar um sentido último à vida e oferecer um quadro esperançador da história.

Ocorre que hoje o fundamentalismo e o terrorismo que são patologias religiosas, ganharam relevância. Em grande parte se deve ao devastador processo de globalização (na verdade é ocidentalização do mundo) que passa por cima das diferenças, destrói identidades e impõe hábitos estranhos a eles.

Geralmente, quando isso ocorre, os povos se agarram àquelas instâncias que são os guardiães de sua identidade. É nas religiões que guardam suas memórias e seus melhores símbolos. Ao se sentirem invadidos como no Iraque e no Afeganistão, com milhares de vítimas, refugiam-se em suas religiões como forma de resistência. Então a questão não é tanto religiosa. Ela é antes política que usa da religião para se auto-defender. A invasão gera raiva e vontade de vingança. O fundamentalismo e o terrorismo encontram nesse complexo de questões seu nicho de origem. Daí os atentados do terror.

Como superar este impasse civilizacional? Fundamental é viver a ética da hospitalidade, dispor-se a dialogar e aprender com o diferente, viver a tolerância ativa, sentir-se humanos.

As religiões precisam se reconhecer mutuamente, entrar em diálogo e buscar convergências mínimas que lhes permitem conviver pacificamente.

Antes de mais nada importa reconhecer o pluralismo religioso, de fato e de direito. A pluralidade se deriva de uma correta comprensão de Deus. Nenhuma religião pode pretender enquadrar o Mistério, a Fonte originária de todo ser ou qualquer nome que quisermos dar à Suprema Realidade, nas malhas de seu discurso e de seus ritos. Se assim fora, Deus seria um pedaço do mundo, na realidade, um ídolo. Ele está sempre mais além e sempre mais acima. Então, há espaço para outras expressões e outras formas de celebrá-lo que não seja exclusivamente através desta religião concreta.

Os onze primeiros capítulos do Gênesis encerram uma grande lição. Neles não se fala de Israel como povo escolhido. Refere-se aos povos da Terra, todos como povos de Deus. Sobre eles paira o arco-iris da aliança divina. Esta mensagem nos recorda ainda hoje que todos os povos, com suas religiões e tradições, são povos de Deus, todos vivem na Terra, jardim de Deus e que formam a única Espécie Humana composta de muitas famílias com suas tradições, culturas e religiões.

Leonardo Boff é colunista do JBonline, filósofo e teólogo


terça-feira, 17 de setembro de 2013

A urgência da paz e o papel das religiões



 Por Marcelo Barros


Em meio às ameaças do governo dos Estados Unidos e seus aliados de invadir a Síria e o risco dessa guerra incendiar outros países, a ONU propõe mais uma vez que no dia 21 de setembro, a humanidade comemore o dia internacional de promoção da cultura de paz. A parte mais consciente da humanidade sabe que, por trás da ingerência norte-americana nos países da Ásia estão interesses econômicos de controle do petróleo e a estratégia militar para dominar toda aquela região. O pretexto usado por Obama é o uso de armas químicas na região de Goutha, no dia 21 de agosto. Esse fato não está provado. Mesmo que fosse, não há nenhum indício de que o governo de Bashar al-Assad é culpado disso.  A única preocupação expressa por Barak Obama, prêmio Nobel da Paz, não é com os 44 mil mortos, vítimas dos combates que até aqui os Estados Unidos e seus aliados promoveram. É se a nação norte-americana sairá fortalecida dessa nova guerra.

A ONU, dividida e incapaz de impedir essa nova guerra, sabe que os líderes religiosos ainda têm grande poder moral e apela para que as religiões contribuam para uma nova cultura de paz. Durante a história, muitas vezes, as religiões forneceram pretextos para guerras. Muitos crimes se cometeram em nome de Deus. Mas, no século XXI, é urgente que as religiões façam desabrochar, do tesouro de suas tradições, o que pode ajudar a humanidade a construir a paz em nome de Deus e dos diversos caminhos espirituais.

De fato, líderes espirituais como o Dalai Lama, papas como João XXIII, pastores como Martin-Luther King e o bispo Desmond Tutu contribuíram muito para se compreender a religião como instrumento de paz. Eles se inspiraram em suas tradições espirituais, para lutar contra o racismo, pregar a não violência e contribuir com relações internacionais pacíficas.

Para levar até o fim esse desafio da construção da paz, as religiões devem aprofundar a própria imagem de Deus, como fonte e principio da paz e não como uma divindade intransigente e cruel que pede sacrifícios e divide os seres humanos em crentes e descrentes, fiéis e infiéis. Esse tipo de deus supõe organizações religiosas baseadas no dogmatismo e no autoritarismo de suas hierarquias. Ao adorar uma divindade assim, Igrejas ou religiões podem até falar de paz, mas, na prática, plantam sementes de intolerância e divisão entre as pessoas.

No início desse mês de setembro, o papa Francisco propôs às comunidades católicas e a crentes de todas as religiões que se unissem em uma oração pela paz do mundo e contra a guerra. Ao premier da Rússia e ao grupo do G20, reunido nesses dias em São Petersburgo, o papa enviou uma mensagem na qual afirma: “A paz é um dom precioso e precisa ser promovido e tutelado. Nunca o uso da violência pode levar à paz. O que podemos nós todos fazer pela paz? Desenvolver e zelar pela cultura do encontro e do diálogo. Essa é a estrada da paz. A humanidade precisa de gestos de paz e tem direito a ouvir palavras de esperança”.

Na América Latina, a cultura da paz tem tomado a forma de uma nova integração bolivariana dos países do continente em uma única pátria grande, solidária e independente do colonialismo. Nela, as culturas indígenas e afrodescendentes têm nos conduzido à cultura da paz como cultura do bem-viver, isso é, a opção de conviver harmoniosamente e a partir de nossas diferenças culturais. Aos cristãos, São Paulo escreve: “Deus que, através de Jesus Cristo, reconciliou o mundo consigo, nos encarregou da palavra da reconciliação” (2 Cor 5, 19). Isso implica o trabalho de estabelecer a paz conosco mesmos, com os irmãos e irmãs diferentes de nós e com Deus, fonte de paz e amor do universo.


 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

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