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quarta-feira, 21 de julho de 2021

33º CONGRESSO DA SOTER DEBATE SOBRE A RESPONSABILIDADE DAS RELIGIÕES NA DEFESA DA LAICIDADE, DEMOCRACIA E DIREITOS HUMANOS

 


*Matéria postada REVISTA IHU ON-LINE

Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER) celebrou de 12 a 16 de julho seu 33º Congresso Internacional, que teve como tema “Religião, Laicidade e Democracia: cenários e perspectivas”. Com cerca de 800 pessoas inscritas, conferencistas nacionais e internacionais e mais de 440 apresentações acadêmicas, o congresso tem sido um momento importante na reflexão sobre uma questão que cada vez cobra maior destaque na realidade brasileira e mundial.

Segundo Cesar Kuzma, presidente da SOTER, “tentamos trabalhar as urgências do nosso tempo no âmbito social, no âmbito político-democrático, na responsabilidade que toca às Igrejas cristãs e às religiões em geral da defesa da laicidade, na defesa da democracia, na defesa dos direitos humanos, apontando caminhos, apontando horizontes, apontando novas perspectivas”.

 

A reportagem é de Luis Miguel Modino.

 

O congresso partiu dos diferentes cenários em que a sociedade brasileira se encontra, agora marcados também “pela pandemia, pela destruição do estado democrático de direito, pela fragilidade nas nossas democracias, pela perda de direitos sociais e também humanos, pelo desmonte das políticas públicas e pelo grande desastre que vem ocorrendo também em nível ambiental”, segundo o presidente da SOTER.

Dentro dessa pluralidade de cenários, o 33º Congresso da SOTER foi um momento para refletir, que partiu da abordagem de Pedro Ribeiro de Oliveira, que buscou “apresentar-nos uma visão panorâmica no qual nós estamos inseridos”, segundo Kuzma. A palestra de Boaventura de Sousa Santos, que trabalhou a questão da laicidade e da democracia, mostrou a diferença entre os diferentes espaços, valorizando “a importância da Teologia da Libertação na América Latina, na luta histórica que ela teve na defesa da própria democracia”, afirma Kuzma.

Na leitura sobre os diferentes momentos, o teólogo fala sobre os aportes de Frei Betto e Jucimeri Isolda Silveira, destacando os direitos humanos, “que se tornam cada vez mais frágeis na atual conjuntura social que nós vivemos”. Ele destaca a celebração que aconteceu pelos 50 anos da Teologia da Libertação, que considera um momento brilhante, afirmando que a SOTER segue essa linha, e “tem na opção pelos pobres o grande enfoque da sua proposta e de seus objetivos”, insistindo em que “a linha libertadora faz parte da natureza da própria SOTER”, algo que foi feito de forma coletiva. Com a presença de diferentes instituições foi, segundo o presidente da SOTER, “um momento marcante, brilhante, que emocionou a todos”.  

A professora italiana Serena Noceti abordou a questão da responsabilidade das Igrejas cristãs na defesa do estado democrático, desde elementos da Fratelli tutti e o Conselho Mundial de Igrejas. Desde os aportes do Papa Francisco, foi refletido sobre a economia, com a presença de Ladislau Dowbor, e a ecologia, com a reflexão de Afonso Murad, perspectivas que segundo Kuzma, “se somam à questão da democracia, da laicidade, do direito, do bem comum, ou da Casa Comum, que é uma expressão que acabou fazendo parte dos nossos discursos”.


Congresso da SOTER foi momento para reconhecer com o prêmio João Batista Libânio, a trajetória da teóloga Ivone Gebara, valorizando, segundo o presidente da SOTER “uma caminhada de luta que não se faz sozinha, se faz de modo coletivo, se faz com outras pessoas”. Seguindo o tema do congresso, Cesar Kuzma insiste em que “dar o prêmio a Ivone, com a história que ela tem, com a dinâmica de espiritualidade com a qual ela vive, e na ternura de sua voz e pelo fato de ser mulher, isso foi algo muito emocionante e muito bonito”.




O congresso foi encerrado na sexta-feira com a palestra de Ivone Guevara, onde abordou a questão da responsabilidade das religiões no estado, para a defesa da laicidade a da democracia. A teóloga colocou a importância de as religiões caminhar em conjunto com a sociedade. Finalmente, Maria Isabel Varanda e Rudolf von Sinner, apontaram pistas, horizontes, fazendo uma releitura do evento e apontando possíveis caminhos, “sem a intenção de nos oferecer, mas convidando a um caminhar continuo, coletivo, em busca de novos horizontes, de novas perguntas, de novos espaços”, segundo o professor Kuzma.

Segundo o presidente da SOTER, “o congresso superou todas as expectativas”, inclusive em número de participantes. Ele destaca que o fato de ser virtual permitiu o acesso de pessoas de varias partes do Brasil, da América Latina e de outros países. Mesmo virtualmente, “conseguimos espaços onde a afetividade, a ternura, a humanidade, se fizesse presente”, afirmou Cesar Kuzma. Teve momentos para homenagear as vítimas da Covid-19 e a diretoria da SOTER emitiu uma nota por ocasião do Encerramento do 33º Congresso.

A nota manifesta “a nossa preocupação e o nosso repúdio em relação à deterioração da democracia no Brasil, que se traduz não só no ataque contínuo às Instituições Democráticas e ao Estado de Direito, mas também no aumento da repressão e da violência policial, no aprofundamento da desigualdade social e da fome, na destruição ambiental, na agressão aos povos indígenas, seus direitos e vidas, nos atos sistemáticos de racismo que revelam a condição do racismo estrutural presente em nossa sociedade, na afirmação do sexismo e no crescimento do feminicídio”.

Desde a SOTER é denunciado que “o negacionismo foi e é responsável por grande parte do número de mortos pela atual pandemia da COVID-19, que já ceifou mais de 530 mil vidas no Brasil”. Ao mesmo tempo, a nota insiste em que “este mesmo negacionismo agravou a crise econômica, levando a um enorme contingente de pessoas desempregadas e ao aumento da fome e da miséria”.

O texto condena que “neste contexto, as Religiões, sobretudo certas expressões do Cristianismo, nem sempre têm tido um papel profético, crítico e libertador”, denunciando que “ao contrário, alguns grupos têm instrumentalizado a Religião, negado o caráter laico do Estado e promovido, ou reforçado, a deterioração de nossa democracia em nome de Deus, inclusive afirmando e praticando a intolerância religiosa”.

Por isso, consideram urgente “reafirmar que as Religiões devem estar a serviço da vida e não da morte”. Nesse sentido, a diretoria da SOTER destaca que “o Cristianismo possui uma longa trajetória e, em nosso país, foi fundamental, juntamente com outras Tradições Religiosas, na luta pelos direitos humanos e pela redemocratização do Estado e da Sociedade”. Finalmente, conclamam “todas as lideranças religiosas a se colocarem na defesa incondicional da plena democracia, dos direitos humanos e da justiça social”.

 

*FONTE:http://www.ihu.unisinos.br/maisnoticias/noticias/78-noticias/611188-33-congresso-da-soter-debate-sobre-a-responsabilidade-das-religioes-na-defesa-da-laicidade-democracia-e-direitos-humanos 

 

terça-feira, 17 de março de 2015

A LAICIDADE E O SAGRADO

por Marcelo Barros


De acordo com a Constituição, o Brasil é um país laical, isso é, não tem nenhuma religião oficial. Respeita a diversidade de crenças e defende a liberdade de todos os cultos. Reconhece e garante os direitos de todos os cidadãos, religiosos ou não, brasileiros e estrangeiros que vivam ou estejam entre nós, unidos pelo laço comum de sermos cidadãos da mesma família humana e membros da comunidade dos seres vivos que habitam o planeta Terra. No entanto, até as pedras sabem que, ainda no Brasil de hoje, a religião continua a ter um poder imenso sobre os destinos da sociedade e, uma vez ou outra, é usada para fins políticos e interesses individuais ou grupais que nada têm a ver com o projeto da fé. 

Nesses dias, está novamente em discussão, um projeto de acordo entre a Igreja Católica, representada pelo Vaticano e o Estado Brasileiro. Em tempos não tão remotos, uma Concordata semelhante garantia alguns privilégios especiais para as instituições católicas no país. Ao mesmo tempo, sabe-se que alguns grupos visam tornar o Brasil um país de cultura “pentecostal”. Na Câmara, uma bancada de deputados se auto-intitula “evangélica”. Sem maiores preocupações éticas e em nome da fé, esses deputados vetam projetos que lhes parecem contrários ao modo como eles compreendem ao pé da letra alguns preceitos bíblicos, enquanto fazem questão de esquecer outros. E, ao mesmo tempo, como se fosse uma missão sagrada, defendem os interesses das empresas que financiaram suas campanhas ou de seus grupos ditos religiosos.  

A dificuldade de relacionar a laicidade dos Estados com as questões religiosas não existe somente no Brasil. Atualmente, em vários continentes, aparecem sob a forma de fortes tensões e violências. Em países como o Senegal e o Paquistão, muitas pessoas foram feridas e algumas mortas em conflitos inter-religiosos. Na Nigéria e em outros países africanos, dezenas de Igrejas cristãs, principalmente evangélicas, foram incendiadas e muitas pessoas foram assassinadas. Cristãos africanos pagaram um preço alto porque alguns jornais da Europa, considerada pelos muçulmanos fundamentalistas, como cristã, insultam Maomé e os princípios da fé islâmica. Da mesma forma, minorias islâmicas são discriminadas e perseguidas em alguns países da Europa e em algumas regiões da Índia. Na Irlanda ainda persistem conflitos culturais e políticos que se manifestam como divisão entre católicos e protestantes.

Na Europa ocidental, uma boa parte da sociedade política e cultural considera que as religiões estão moribundas ou mesmo acabadas. Por isso, sentem-se com o direito de insultar a fé das pessoas e usar o nome de Deus como motivo para chacota e caricaturas de cunho pornográfico e de baixo calão. E defendem esse modo de proceder como direito e liberdade de expressão. Em nome da laicidade, o governo francês proíbe que a mulher muçulmana use o véu islâmico nas ruas e ambientes públicos. No entanto, as freiras católicas viajam de trem ou avião, com o véu religioso e nenhuma foi acusada de desrespeitar a lei.

Arautos do Capitalismo veem nesses conflitos um choque de civilizações. Na verdade, é apenas um choque de cinismos e simplificações racistas. No Brasil, feriados religiosos ainda são impostos a todo país, mas contanto que eles sejam católicos. Em muitos lugares, para não perder o emprego, adventistas do sétimo dia são obrigados a trabalhar no sábado. E quase a cada dia, um templo de algum culto afro-brasileiro é vítima de violência e preconceito.

Ao celebrar nesses dias a Quaresma, as Igrejas mais antigas leem textos do evangelho como as acusações de Jesus contra os sacerdotes do templo que exploravam viúvas pobres e ensinavam que Deus precisa de sacrifícios para abençoar e proteger as pessoas. Jesus revelou que o mais sagrado de tudo é a vida. Deus mora no coração de todas as pessoas humanas e pede a cada um/uma de nós descobri-lo no outro, no respeito às outras culturas e religiões, como no cuidado com a natureza e na comunhão com todo ser vivo. 


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países