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terça-feira, 24 de janeiro de 2023

A Justiça e a reconciliação do Brasil

 Marcelo Barros


             No Brasil, mesmo se a maioria da população se manifestou a favor da Democracia, há uma fratura da sanidade social que nenhuma lei pode consertar. Ainda há pessoas que temem o Comunismo como fantasma que aparecesse à luz do sol e como se houvesse risco de nevar na Amazônia.

Essa epidemia de boatos, mentiras e de fabricação de medos e de antagonismos odiosos não é espontânea, nem será desmontada apenas com argumentos racionais. Foi planejada e fabricada para legitimar a destruição do processo social que, nas últimas décadas, a sociedade civil tem conquistado e fortalecido. Ela não será vencida enquanto o Brasil continuar sendo o terceiro país do mundo em desigualdade social.

 No dia 15 de janeiro, o mundo inteiro celebra a memória do nascimento de Martin-Luther King, o pastor negro que, nos anos 1960, nos Estados Unidos, coordenou a luta da população negra pela igualdade social e por seus direitos civis. Enquanto ele vivia, a grande mídia norte-americana tentou destruí-lo de todos os modos possíveis. Depois que foi assassinado, se tornou herói.

Mais de 50 anos depois dessa vitória legal do povo negro, tanto nos Estados Unidos, como na maioria dos países do mundo, a humanidade ainda não eliminou o apartheid social e econômico. Na América Latina, quase sempre, ser negro é sinônimo de ser pobre. A África do Sul superou o apartheid político, mas mantém uma imensa desigualdade racial, baseada na divisão econômica. Com relação a isso, ainda ressoam as palavras do pastor Martin-Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons. Mais do que a violência de poucos, me assusta a omissão de muitos”. Ele explicava: “Uma pessoa que não descobriu nada pela qual aceitaria morrer, não está ainda pronta para viver”.

A memória de profetas como o pastor Martin-Luther King nos assegura que, mesmo com todos os ataques do império, ninguém conseguirá destruir os melhores sonhos dos nossos povos. Mesmo se, infelizmente, nem sempre as religiões têm colaborado para que a humanidade possa realizar o sonho divino de paz e de justiça social, precisamos reforçar os grupos cristãos e de outras tradições espirituais que testemunhem Deus como Amor e não como legitimador do ódio e das violências.  Neste ano de 2023, teremos em julho em Rondonópolis, no Mato Grosso, o XV Encontro nacional das Comunidades Eclesiais de Base e no começo de novembro em Salvador o III Encontro de Juventudes e Espiritualidade Libertadora.

Essa espiritualidade, religiosa ou não, consiste na opção de viver como se estivéssemos ensaiando o futuro que desejamos e assim tornamos realidade o Bem-viver com o qual sonhamos. A Bíblia, outros livros sagrados e as tradições orais das espiritualidades negras e dos povos originários nos revelam um projeto divino de paz, justiça e comunhão entre os seres humanos e com a natureza e nos chamam a viver isso. O pastor Martin-Luther King nos recordava: “Lembremo-nos de que existe no mundo um poder de amor que é capaz de abrir caminho onde não há caminho e de transformar o ontem escuro em um amanhã luminoso”.   

 

terça-feira, 23 de maio de 2017

RECONCILIAÇÃO E CAMINHO EM COMUM

Por Marcelo Barros



A cada ano, no hemisfério sul, na semana anterior à festa de Pentecostes, (nesse ano, de 29 de maio a 03 de junho), as Igrejas cristãs, ligadas ao Conselho Mundial de Igrejas, celebram a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Essa iniciativa da Oração pela Unidade já acontece nas Igrejas há mais de cem anos. Desde João XXIII (1959), todos os papas têm prestigiado e participado da Semana da Unidade. Apesar disso, ainda são poucas as comunidades, paróquias e grupos de base, tanto católicos, como evangélicos, sensíveis e abertos a esse chamado de Deus à unidade com cristãos de outras denominações.

Nesse ano, o tema escolhido pela comissão mundial que preparou a Semana da Unidade é "Reconciliação: é o amor de Cristo que nos impele" (2 Cor 5, 14- 20). Esse tema lembra o chamado de Jesus para a unidade. Ao mesmo tempo, ao falar de reconciliação, recorda que, nesse ano, celebramos os 500 anos da Reforma, isso é, do início da grande divisão das Igrejas Católica e Evangélicas. Por isso, os subsídios para encontros e reflexões foram preparados por uma comissão ecumênica da Alemanha, país de onde partiu a reforma.

A convicção comum é que a divisão é sempre consequência e expressão do pecado humano. Ao contrário, quando buscamos a reconciliação, estamos realizando uma ação inspirada pelo Espírito. Quando as Igrejas se fecham em uma postura conservadora, provocam divisões e sofrimentos. Quando se abrem à renovação constante que o Espírito de Deus inspira, vão no caminho da reconciliação e da unidade.

Desde o início das Igrejas até hoje, as pessoas proféticas que propunham renovação sempre tiveram dificuldade de ser aceitas. Na Igreja do Ocidente um grande movimento de reforma ocorreu no século XII e XIII. Foi liderado por São Francisco de Assis, Valdo de Lion e Joaquim de Fiori. Eles queriam tornar a Igreja Católica mais de acordo com o evangelho de Jesus. Foi uma primeira reforma. Três séculos depois, no início do século XVI, Martinho Lutero, João Calvino, Ulrico Zwinglio e outros propuseram uma segunda reforma para fazer a Igreja retornar ao evangelho de Jesus. A hierarquia católica não aceitou as propostas dos reformadores, mas o papa se deu conta de que alguma coisa tinha de mudar e convocou o concílio de Trento para a reforma católica.

Podemos dizer que, no século XX, agora há cem anos, se iniciou uma terceira reforma que é justamente o caminho ecumênico. No mundo inteiro, o Cristianismo é a única das grandes religiões do mundo que, apesar de tudo, tem esse movimento de unidade interna. Ele se baseia no esforço de conversão pessoal ao evangelho e de aprofundar o espírito do diálogo e da acolhida do outro. Como disse Paulo no texto lembrado nessa semana da unidade: "é o amor de Cristo que nos impele".

Em um recente encontro com irmãos pentecostais, o papa Francisco comparou o Cristianismo com a figura geométrica do poliedro. No poliedro, todas as partes são diversas. Cada lado é diferente do outro e cada um conserva a sua peculiaridade. No Cristianismo, também é assim. Cada Igreja tem e manifesta o seu carisma. No entanto, como o poliedro, as Igrejas formam um só corpo, uma só unidade na diversidade.

O Conselho Mundial de Igrejas que reúne 349 Igrejas cristãs propõe a meta de uma "diversidade reconciliada". Em várias de suas alocuções, o papa Francisco tem assumido esse princípio como possível caminho de unidade. Para isso, de um lado e do outro, é preciso superar pecados ligados à compreensão quase divinizada do poder, a arrogância cultural e a dificuldade de aceitar o diferente. É preciso de novo valorizar o princípio medieval, retomado por Lutero e lembrado pelo papa Francisco: "A Igreja deve se reformar permanentemente".

Para essa renovação contínua, os critérios apontados pelo papa João XXIII são a volta ao Evangelho de Jesus e a busca profunda de atualização para "ouvir o que o Espírito diz, hoje, às Igrejas" (Ap. 2). Para cada cristão e para cada comunidade, retomar a referência ao evangelho é assumir o compromisso permanente de uma conversão pessoal e comunitária, progressiva e sempre mais exigente. Assim, nos abrimos ao amor divino que nos torna capazes de dialogar com a humanidade atual e nos atualizar.

As comemorações do quinto centenário da Reforma e essa semana da unidade são ocasiões para darmos graças a Deus pelo caminho percorrido em comum, católicos e evangélicos. Esses encontros nos ajudam a nos unir cada vez mais em em um trabalho de reforma permanente de nossa própria Igreja. Assim, vivemos de forma mais fiel o evangelho de Jesus. E podemos trabalhar juntos pela transformação do mundo, a partir do projeto divino de paz, justiça e comunhão com a natureza.  Assim, poderemos, com Jesus viver a oração que, na véspera da sua partida, ele disse ao Pai: "Pai, que todos sejam Um, como eu e Tu somos Um, para que o mundo creia que Tu me enviaste" (Jo 17, 20- 21).


  Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

RECONCILIAÇÃO

Amigos! Amigas! 
Agradecemos a Mônica Muggler pela partilha deste artigo de Comblin, acerca da reconciliação.
Fraternalmente,
Alder

Extraído do Artigo “A nova Evangelização da América Latina e o caminho da Reconciliação”, José Comblin – publicado na revista Convergência, novembro 1988.

O tema da reconciliação é central na Bíblia. Deus reconcilia-se com o seu povo: este é o evangelho. O evangelho é o anuncio desta reconciliação. No entanto há um problema. No vocabulário ordinário, a reconciliação usa-se em outros sentidos. Há muitos usos da palavra. O mais popular é naturalmente o que se refere às brigas entre famílias ou indivíduos. Nas santas missões, os missionários preconizam o dia da reconciliação Nesse dia os inimigos de sempre fazem as pazes. Os que nunca conversavam, rompem as barreiras. As famílias esquecem os seus ressentimentos tradicionais. A reconciliação é um grande ato de conversão. Certamente esta reconciliação entre indivíduos e famílias é uma das mediações pelas quais Deus se reconcilia com o seu povo.

A reconciliação, porém, pertence também ao linguajar da politica. Ora, na política a palavra reconciliação está sempre ligada a um contexto específico. A reconciliação pertence ao mesmo discurso que a paz. A paz é uma das grandes metas da política. Todos querem a paz. Mas a paz como tema pertence, sobretudo à ideologia da dominação e dos impérios. A pax romana foi um paradigma. Cada império, porem, defende a sua causa invocando a paz de uma ou outra maneira. A paz está ligada à ordem, grande lema do império bizantino. Os impérios do presente não pregam menos a paz do que os anteriores.

Ora, a paz romana, como já dizia Santo Agostinho, é apenas a máscara que esconde uma imensa operação de banditismo: uma cidade conquistadora explora e domina o mundo inteiro. Quem mais oprime, mais fala em paz e reconciliação.

Quando as classes dominantes de uma sociedade sentem que o seu poder é contestado, apelam para a paz e a reconciliação. Quanto mais opressores, mais entusiasmados pela paz e pela reconciliação. A paz e a reconciliação servem como legitimação da injustiça estrutural. Os dominadores praticam a chantagem da desordem. Pregam que se o seu domínio ficar abalado, haverá desordem, anarquia, confusão: se nos tiram os nossos privilégios, o país será ingovernável, como dizia um presidente.

Nessa reconciliação as vitimas tem que se resignar. A reconciliação consiste nisto, que os oprimidos deixem de exigir os seus direitos, que as vitimas deixem de se queixar. O preço da reconciliação é pago pelos fracos e pelos dominados.

O apelo à reconciliação vem sempre das burguesias e das aristocracias privilegiadas. Quando as Igrejas pregam a reconciliação, elas se tornam consciente ou inconscientemente porta-vozes das classes dominantes. Pois o tema da reconciliação é eminentemente ideológico. Pregar a reconciliação é tomar partido pela ideologia dos privilegiados que nada querem ceder dos seus privilégios.

Os dominadores apelam para a reconciliação também porque sabem que essa palavra tem profundas ressonâncias religiosas. Querem enganar os simples, como se a resignação dos dominados fosse a condição de realização do plano de salvação de Deus. É um caso típico de utilização ideológica do cristianismo.

A reconciliação bíblica é uma realidade escatológica: trata-se de um processo que somente será consumado no outro mundo, na nova Jerusalém. Trata-se de uma longa caminhada. Nesta terra nunca haverá reconciliação total, nunca serão superados os conflitos. Viveremos sempre no meio de conflitos. Querer suprimir os conflitos é praticar uma ideologia. Sempre é algo suspeito de ideologia. Quem quer suprimir os conflitos são os privilegiados, os dominadores, os que exploram e querem abafar a voz dos explorados.

A reconciliação bíblica entra na história humana mediante mediações que precisam ser levadas em conta em toda a sua complexidade e de acordo com a marcha dos tempos, seguindo os sinais dos tempos.

Não se estabelece a reconciliação negando os conflitos, mas resolvendo-os. Ora a superação dos conflitos é uma caminhada árdua e complexa que não depende apenas da boa vontade ou das intenções das pessoas situadas nos polos opostos. O relacionamento entre os homens obedece a leis e forças, a dinamismos e estruturas complexas que são próprios de cada tipo de conflito. A cada tipo de relacionamento convém uma metodologia diferente.

(...)
Os métodos que servem para reconciliar os sexos não servem para reconciliar as raças humanas. Os antagonismos entre brancos e negros, entre brancos e amarelos, etc., como na América Latina os conflitos entre brancos e índios, obedecem a dinâmicas diferentes das dinâmicas sexuais. Não se resolve um problema de luta racial como se resolve um problema de luta social. Cada tipo de conflito tem a sua dinâmica e exige uma metodologia diferente baseada no conhecimento das leis científicas que regulam esse aspecto da realidade.

Os conflitos sociais foram amplamente observados, estudados, interpretados durante os últimos duzentos anos. Foram, sobretudo, os conflitos ligados à sociedade industrial com a sua clara divisão entre proletários e donos dos bens de produção. Os conflitos na sociedade rural são diferentes. Os conflitos na sociedade pós-industrial, em que o Estado desempenha um papel predominante, e as funções terciárias superam de longe as funções primárias ou secundárias, são também diferentes. Os métodos usados numa sociedade industrial clássica não se adaptam a uma sociedade pós-industrial. Nunca a boa vontade ou os bons sentimentos bastam. Geralmente não servem para nada ou quase nada. É necessário conhecer bem os processos sociais, as técnicas que permitem agir sobre eles e ser capaz de manipular as forças sociais em jogo. Frequentemente os cristãos foram ineficazes no campo social porque entraram na área dos conflitos com total ignorância da realidade e perfeita inocência ou ingenuidade. Os sentimentos morais tem pouca influencia nos conflitos humanos e podem provocar o resultado exatamente contrário ao que se desejava.

Na América Latina, se queremos contribuir com a superação dos conflitos e para uma reconciliação da sociedade, precisamos primeiro alcançar uma percepção exata dos conflitos que existem. Quais são as divisões existentes? Qual é a sua importância, a sua profundidade? Qual é o tipo de conflitos que se apresenta? Quais são as analogias históricas que nos permitem compreender melhor os conflitos que estão presentes?

Em segundo lugar, precisaremos conhecer as metodologias, os processos adaptados a cada tipo de conflito. O sentimento moral ajuda pouco. É preciso saber usar s ciências politicas ou sociais, usar a experiência, levar em conta as limitações históricas. Em muitos casos, os conflitos não são solúveis, mas é possível melhorar a condição de tal sorte que seja mais suportável.

Quais são os conflitos na América Latina? Medellín, Puebla, centenas de documentos eclesiais reconheceram o que também dizem centenas de estudos sociais: a situação inicial da América Latina ainda não foi superada. América Latina ainda é um continente dividido entre conquistadores e conquistados. Uma pequena minoria dispõe de todo o excedente da produção, de todo o poder político, de todas as vantagens de uma cultura superior. Esta pequena minoria está associada ao capitalismo multinacional o que lhe garante segurança e privilégios. Este é o conflito fundamental. Até que essa divisão radical seja superada, até que sejam destruídos os privilégios da minoria dominante, pouca coisa poderá ser feita no sentido de uma reconciliação. A concentração da riqueza e do poder impede qualquer justiça social e qualquer ascensão das massas.

Na atualidade, a minoria dominante sente os seus privilégios ameaçados e multiplica os apelos à paz e à reconciliação. Invoca uma ideologia de reconciliação para impedir uma conscientização das massas. Pede a ajuda da Igreja para persuadir as massas e conseguir que continuem tendo paciência como sempre. Promete resolver todos os problemas e afirma precisar apenas de um tempo breve para trazer as soluções.

Outras sociedades já conheceram situações análogas e conseguiram sair delas. Algumas fizeram-no por meio de revoluções violentas, outras por meios mais pacíficos. Poucas vezes os povos podem escolher e a história escolhe para eles. No entanto, alguma forma de interferência voluntária sempre é possível. Os dominadores são cegos e quase nunca agem em virtude de sábias previsões. Precipitam-se no cataclismo com cegueira total. Os dominados pode ser mais ou menos sábios, mais ou menos voluntaristas, mais ou menos pacientes e perseverantes. Mas não se pode falar em reconciliação enquanto não se modifica o quadro geral em que se movem as nações latino-americanas e enquanto não se modifica o relacionamento entre essas nações e o centro dominante do capitalismo ocidental. A condição previa de qualquer reconciliação é a transformação radical da estrutura da sociedade. Nisto concordam plenamente Populorum Progressio, Medellín, Puebla. Laborem exercens, Sllicitudo socialis. Não há reconciliação sem inversão radical da estrutura implantada á 500 anos e sempre consolidada desde então.

Os planos de reconciliação propostos pelos governos procuram prescindir do conflito fundamental, fazendo de conta que somente existem conflitos menores, mais facilmente solúveis. A solução dos problemas menores não será possível sem a mutação global prévia a todas as mudanças menores.
Dentro da divisão fundamental, há também certas divisões especificas, que diversificam o panorama global, mas não lhe tiram a validade, pelo contrário, confirmam a validade do esquema global.

A questão negra é sistematicamente negada pelas elites. Para os brancos não existe a questão racial e não há racismo na América Latina. Essa negação permaneceu a regra no Brasil até a campanha da fraternidade de 1988. É bem sabido que a própria campanha da fraternidade não foi bem acolhida em todas as regiões do Brasil. Em certos lugares a campanha foi marcada por expressões típicas de racismo que provocaram um protesto explicito de um arcebispo negro na assembleia de Itaici de 1988. Em nome da existência do problema racial, muitos brancos queriam impedir que os negros se expressassem. Não queriam que os negros se reunissem, afirmassem a sua identidade, a sua cultura, a sua religião. Os negros deveriam sempre apagar-se no anonimato de expectadores da sociedade branca.

 No Brasil e na América Latina, a questão negra sofre uma repressão consciente e, mais ainda, inconsciente. O conflito é reprimido, mas permanece como uma exigência apesar da repressão. Não se chega á reconciliação racial negando o conflito. Neste caso particular, a primeira condição da reconciliação será permitir que o conflito se manifestasse explicita e publicamente. A pura repressão nada resolve.

A questão indígena é tão grave como a questão negra. Os indígenas são também negados. Os latino-americanos acham-se todos descendentes dos índios. A indianidade teria sido absorvida totalmente numa população mestiça. Desse modo o índio teria desaparecido. Existiria apenas perdido no homem mestiço. A partir desse postulado os índios são negados nos seus direitos: não se lhes reconhece o direito à terra, à língua, à cultura, nem sequer o direito à sua religião, porque se supõe que todos são simplesmente católicos e devem contentar-se com aquilo que a Igreja Católica lhes oferece.

 No haverá reconciliação com o índio apenas na contemplação na natureza mestiça do latino-americano e na suposta cultura mestiça do latino-americano. A reconciliação supõe que os índios possam explicitar o conflito latente que os mantem numa situação de não-ser, de não-cidadãos.

Os maiores conflitos da América Latina ainda não foram explicitados. Ainda não se manifestaram. Os privilegiados, conquistadores e brancos, queriam abafar os conflitos antes que se manifestassem. Queriam falar em reconciliação antes que os oprimidos tivessem sequer a possibilidade de mostrar a sua existência. Queriam uma reconciliação fundada na negação dos problemas. Em tal situação, falar em reconciliação é pura armadilha. Antes que se possa falar em reconciliação é preciso que se manifestem as divisões que são tão profundas que ainda não chegara ao nível da consciência.

Como falar em reconciliação entre brancos e negros se a maioria dos negros ainda não chegou à consciência da profunda rejeição de que são vítimas? Como falar em reconciliação quando a maioria dos camponeses e operários explorados ainda não chegou à consciência do sistema que os explora? Como falar em reconciliação quando as imensas massas de desempregados, biscateiros, favelados ainda não sabem porque foram rejeitados fora da sociedade? Somente pode haver reconciliação na base do reconhecimento da verdade. A América Latina ainda deve passar por uma longa fase de conscientização antes que se possa falar validamente de uma reconciliação a nível político e social.

A Igreja poderia antecipar alguns sinais de reconciliação. A Igreja não é capaz de substituir a história ou de reconstruir outra história. Está subordinada aos tempos e aos momentos. Mas ela pode em si mesma anunciar a reconciliação futura dando alguns sinais.

Por exemplo, a Igreja poderia abrir-se para os pobres. Poderia começar a ser algo de Igreja dos pobres. Poderia abrir espaço para os pobres para que estes se sentissem mais à vontade no recinto eclesial. Isto acontece em algumas comunidades de base, raramente acontece nas paróquias, não acontece nos colégios e universidades católicas. Até agora o clero constitui uma classe privilegiada que não traz a marca dos pobres. Para poder presidir a eucaristia é preciso ter passado da classe dos pobres para uma classe privilegiada. Uma transformação social e econômica é a condição prévia para ser ordenado. Terá que ser sempre assim? Da mesma maneira as congregações religiosas tem um modo de ser e de viver que responde aos cânones da classe média, inclusive muitas vezes de uma classe média alta. Tem que ser assim necessariamente? Enquanto for assim faltarão os sinais de uma futura reconciliação.

A Igreja poderia dar o sinal de uma reconciliação entre brancos negros. Poderia permitir que os negros tivessem as suas reuniões, as suas expressões culturais, a sua liturgia, a sua organização. Poderia então haver diálogo, intercambio, troca. Não há dialogo quando o outro não pode expressar-se. A Igreja poderia abrir-se para cultura negra. Poderia abri espaço para as expressões religiosas do patrimônio negro. Poderia abrir-se para as riquezas das religiões afro americanas. A Igreja poderia ter mais bispos negros, mais sacerdotes negros, mais religiosos e religiosos negros. Poderia adaptar as condições de admissão à situação cultural dos negros em lugar de impor a todos um modelo branco. A Igreja poderia formar comunidades mistas em que negros e brancos compartilhasse sem que um tivesse que ceder sempre ante os valores do outro.

Na caminhada escatológica a Igreja está chamada não a seguir o ritmo da história, mas a mostrar o caminho.  Durante a época colonial e ainda pós-colonial, a Igreja permaneceu prisioneira do mundo dos colonizadores. Permaneceu latina e não chegou a ser americana. Poderia ser menos latina e mais americana. Poderia reivindicar mais autonomia e mais especificidade no conjunto da Igreja universal. Em lugar de ser cópia fiel das igrejas européias, as igrejas americanas poderiam ser mais criativas e dar espaço aos índios e aos negros. Se não fizerem assim, em lugar de ser uma força de reconciliação, servirão para ocultar as divisões e servir à causa dos dominadores, como tantas vezes elas fizeram no passado. No passado a Igreja foi forçada pelos reis, pela força das potencias colonizadores. Dentro de uma América que procura a sua independência, ela poderia ter a audácia da liberdade e emancipar-se da dominação de uma cultura latina que os dominadores lhe impõem para esconder o verdadeiro rosto do povo latino americano, esse rosto que Puebla descobria num texto que ficou famoso.

A reconciliação é uma longa caminhada. Jesus diz que não veio trazer a paz, mas a espada. Ele não promete paz e tranquilidade. Haverá muitas lutas e muitas divisões não porque homens maldosos as estão criando artificialmente, mas porque estão inscritas no passado são a herança do passado. Carregamos o peso do pecado e não adianta querer negar esse pecado. A reconciliação consiste em assumir as lutas necessárias em vista de uma humanidade que consiga superar e não escamotear os seus problemas.

Os povos latino americanos sabem disto. A sua evangelização parte desse mundo e dessa história. Se o evangelho está no clamor dos oprimidos, ele se situa no coração das lutas e das divisões. Proclama a sua confiança numa reconciliação final, mas não tem ilusões quanto aos prazos. Os discursos apocalípticos de Jesus também não deixam ilusões. Haverá muitas guerras e muitas lutas. São os falsos profetas que dizem:  Paz! Paz! Paz!  Os verdadeiros sabem de que tecido é feita a história humana. Sabem os povos qual foi a vida que viveram os seus antepassados.

A Igreja, porém, é a luz que mantem a esperança no meio das trevas. Ele é a luz que mostra o caminho no meio da angustia da história. Ela traz os sinais que fortalecem os ânimos e alimentam a vida. O futuro imediato da América Latina será como o seu presente: feito de sangue, de lagrimas, de fome, de choro, de clamor. Bem aventurados os que choram, porque hão de rir.

A reconciliação é a nossa tarefa: Não há mais diferenças entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher. (Gl 3,28). Aqui na América Latina, não há mais diferença entre dono de terra e boia fria, entre imobiliárias e favelados, entre branco e negro, entre branco e índio, entre civil e militar, entre patrão e empregado, entre homem e mulher. Não que as diferenças existentes sejam negadas  ou esquecidas, mas o que vai acontecer é que elas vão desaparecer. Haverá transformações tais que tudo isso vai desaparecer. Bem sabemos que muitas lutas serão necessárias antes de se chegar a isso. Porque os donos da terra não vão dar a terra sem lutas, porque os patrões não darão participação aos empregados sem lutas, porque os brancos não darão espaço aos negros sem lutas, porque as imobiliárias não darão terra aos favelados sem lutas, porque os civis não submeterão os militares sem lutas, porque os homens não reconhecerão a dignidade da mulher sem lutas.

A Igreja dará sinais. Por causa dos sinais será acusada de incentivar as lutas em lugar de pregar a reconciliação. Mas ela não se deixará intimidar. A lembrança dos mártires impedirá que se torne covarde diante dos poderosos. Saberá romper com os que querem ser os seus donos. Saberá libertar-se para poder trabalhar pela libertação de todos.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

RECONCILIAÇÃO: O APELO DE FRANCISCO EM CUBA


por Maria Clara Bingemer 




            O mundo acompanha com atenção extrema o périplo de Francisco pela Ilha caribenha de Cuba seguido de visitas a algumas cidades dos Estados Unidos. É sintomático e coerente com o estilo papal que haja começado por Cuba.  O todo poderoso império estadunidense vem depois da pequena Ilha, tão combalida por tantas adversidades nos últimos tempos.  Como tem sido a marca de seu pontificado, Francisco agora reafirma: primeiro os que passam por mais dificuldades, os pobres, os que sofrem.

            É abundante e rico em conteúdo o que vem falando o pontífice em seu périplo cubano.  A mídia foi pródiga em imagens e notícias: a saudação cordial a Raúl Castro, a visita fraterna e íntima ao velho comandante Fidel e a troca de livros entre ambos, a peregrinação “como filho e peregrino” ao santuário da Virgem de la Caridad del Cobre, Cachita, como a chamam carinhosamente os habitantes da Ilha.

Em poucas palavras e nos limites desse artigo seria difícil chamar a atenção para  todos os destaques  importantes desta visita histórica.  O Papa sela com sua presença a reaproximação entre os dois países, para a qual sua mediação foi importante elemento.  O caminho a andar ainda é grande.  Há resistências de um lado e de outro.  Por isso, ao chegar Francisco disse a palavra que guiaria toda a sua visita: reconciliação.

No aeroporto internacional José Martí, em seu primeiro discurso em território cubano, o Papa afirmou que a reaproximação entre Cuba e Estados Unidos é um “exemplo” para o mundo atual. “É um exemplo...e o mundo precisa desse exemplo, porque vivemos um momento de uma terceira guerra mundial em capítulos.“  E neste mesmo discurso afirmou ser a reaproximação entre os dois países, por décadas com as relações rompidas, uma vitória do diálogo.

Em seu segundo dia de visita, a tônica das palavras do Papa foi a questão do serviço.  Encareceu a importância de que esse serviço não seja ideológico, pois não se serve a ideias e sim a pessoas.  Em seguida, ressaltou a forma que deve tomar este serviço: cuidar das fragilidades das pessoas, ou seja, dirigir-se àqueles que são mais vulneráveis, que estão mais desprotegidos e expostos às intempéries da vida. Segundo o Pontífice, a grandeza de um país se mede pela maneira como trata aqueles que são mais frágeis.

Embora não tenha dito expressamente, pode-se interpretar aí uma aprovação de Francisco a certas conquistas positivas do regime cubano, sobretudo em relação às crianças e também aos idosos. Ou seja, aos mais frágeis.  Igualmente não estaria ausente das preocupações do Papa o perigo latente com a abertura da Ilha às relações com o vizinho do norte de que o consumo invada e seduza a população.  Por décadas Cuba construiu um modelo que, com todos os seus defeitos, busca a justiça através de um estilo de vida austero e sóbrio, embora não isento de sacrifícios.  E com grande dignidade. 

A reconciliação que implicaria no fim do embargo imposto à Ilha pelo governo estadunidense e a liberação de Guantánamo, atualmente base militar americana, poderia devolver aos cubanos uma tranquilidade pela qual há muito esperam.  Pois apesar da dignidade com que erguem a cabeça, da alegria na qual insistem em viver, todos sabem que a vida não tem sido fácil nos últimos anos para o povo da ilha.  Por isso, Francisco paternalmente disse, em seu segundo dia de visita: "apesar das feridas que tem como qualquer povo, (o povo cubano) sabe abrir os braços, caminhar com esperança, porque se sente chamado para a grandeza".

A reconciliação que abriria as portas da comunicação e do livre comércio entre Cuba e os Estados Unidos implicaria concessões de ambos os lados.  Se aos estadunidenses seriam pedidas medidas concretas com impacto na abertura das relações comerciais e no reconhecimento efetivo da soberania da Ilha, do governo cubano seria pedida maior liberdade ao povo, além da democratização do regime, com eleições e todos os demais rituais da democracia.

Francisco sabe que isso não é fácil nem rápido.  Trata-se de um processo lento e delicado, a ser realizado e acompanhado com muito carinho.  Por isso, no último dia de sua visita foi depositar suas intenções aos pés da Virgem mambisa, mãe de todos os cubanos.  Em Santiago de Cuba, sede do santuário do Cobre, Francisco louvou Maria como a personificação de "uma revolução da ternura", e instou os cubanos a seguirem o seu exemplo "para construírem pontes, deitar abaixo muros, plantar sementes de reconciliação", em clara alusão a esse recente e delicado processo de reconciliação que ajudou a iniciar.

Dirigindo-se filialmente a Nossa Senhora, chamou-a “Mãe da Reconciliação” e pediu-lhe que reunisse todo o seu povo disperso pelo mundo, fazendo da nação cubana um lar de irmãos e irmãs. Francisco partiu rumo ao Norte.  Em solo cubano, deixou a semente da reconciliação.  E um apelo: no país que foi capaz de fazer a revolução que trouxe tantas conquistas de justiça para um povo oprimido e subjugado, ter a coragem de fazer a “revolução da reconciliação”, interna e externamente.  É exigente, é difícil, mas extremamente libertador. 

 Esperemos que de ambas as partes os muros sejam derrubados, as pontes se estendam sobre os espaços vazios e as sementes brotem em flores e frutos.  E que Deus continue inspirando o peregrino e mensageiro da reconciliação e da paz.

 Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, teóloga e autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco. 

 Copyright 2015 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>