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sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

É POSSÍVEL A FRATERNIDADE HUMANA UNIVERSAL E COM TODAS AS CRIATURAS?(II)

 

                                   


Leonardo Boff

 

Há um ano, em fevereiro de 2019 o Papa Francisco, ao visitar os Emirados Árabes assinou em Abu Dahbi importante documento com o Grão Imã Al Azhar Amad Al-Tayyeb “Sobre a fraternidade humana em prol da paz e da convivência comum”. Em sequência a ONU estabeleceu o dia 4 de fevereiro o Dia da Fraternidade Humana.

Todos são esforços generosos que visam senão a  eliminar, pelos menos a minimizar as profundas divisões que imperam na  humanidade. Almejar uma fraternidade universal parece um sonho distante mas sempre desejado.

O grande obstáculo à fraternidade: a vontade de poder

O eixo estruturador das sociedades mundiais e de nosso tipo de civilização, já o refletimos anteriormente é a vontade de poder como dominação.

Não há declarações sobre a unidade da espécie humana e da fraternidade universal bem como  a mais conhecida  Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 da ONU, enriquecida com os direitos da natureza e da Terra que conseguem impor limites à voracidade do poder

Bem o entendeu Thomas Hobbes em seu Levitã (1615):” Assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando mais poder ainda”. Jesus foi vítima desse poder e foi judicialmente assassinado na cruz. Nossa cultura moderna se assenhoreou da morte, pois com a máquina de extermínio total já criada, pode eliminar a vida sobre a Terra e a si mesmo. Como controlar o demônio do poder que nos habita? Onde encontrar o remédio?

A renúncia a todo o poder pela radical humildade

Aqui São Francisco nos abriu um caminho: a radical humildade e a pura simplicidade. A  radical humildade implica pôr-se junto ao húmus, à terra, onde todos se encontram e se fazem irmãos e irmãs porque todos vieram do mesmo húmus. O caminho para isso consiste em descer do pedestal onde  nos colocamos como senhores e donos da natureza e operar um  radical despojamento de qualquer título de superioridade. Consiste em fazer-se realmente pobre, no sentido de tirar tudo o que se interpõe entre o eu e o outro. Aí se escondem os interesses. Estes não podem prevalecer, pois são entraves para o encontro com o outro, olho a olho, rosto a rosto, de mãos vazias para o abraço fraterno entre irmãos e irmãs, por diferentes que sejam.

A pobreza não representa nenhum ascetismo. É o modo que nos faz descobrir a fraternidade, juntos sobre o mesmo húmus, sobre a irmã e mãe Terra Quanto mais pobre mais irmão do Sol, da Lua, do pobre, do animal, da água, da nuvem e das estrelas.

Francisco palmilhou humildemente esta senda. Não negou as obscuras origens de nossa existência, do húmus (de onde vem homo em latim) e desta forma se confraternizou com todos os seres, chamando-os com o doce nome de irmãos e irmãs, até o feroz lobo de Gubbio.

Um outro tipo de presença no mundo

Temos a ver com uma nova presença no mundo e na sociedade, não como quem se imagina coroa da criação estando em cima de todos, mas como quem está ao pé e junto com os demais seres. Por esta fraternidade universal, o mais humilde encontra sua dignidade e sua alegria de ser por sentir-se acolhido e respeitado e por ter seu lugar garantido no conjunto dos seres.

Leclerc obstinadamente coloca sempre de novo  a pergunta como quem não está totalmente convencido: “Será que  a fraternidade é possível entre os seres humanos? Ele mesmo responde:

”Somente se o ser humano se colocar a si mesmo com grande humildade, entre as criaturas, dentro de uma unidade de criação (que inclui o ser humano e a natureza como um todo) e respeitando todas as formas de vida, inclusive as mais humildes, ele poderá esperar  um dia formar uma verdadeira fraternidade com todos os seus semelhantes. A fraternidade humana passa por esta fraternidade cósmica”(p.93).

A fraternidade vem acompanhada pela simplicidade Esta não é nenhuma atitude piegas ou carola. Trata-se de um modo de ser, afastando tudo o que é supérfluo, todo tipo de coisas que vamos acumulando, fazendo-nos reféns delas, criando desigualdades e barreiras contra os outros  e negando-se a conviver solidariamente com eles e a contentar-se com o suficiente, compartilhando-o com os outros.

Esse percurso não foi fácil para Francisco. Sentia-se  responsável pelo caminho da radical pobreza e fraternidade. Ao crescer o número de seguidores, aos milhares, impunha-se uma organização mínima. Havia belos exemplos do passado. Francisco tinha verdadeira ojeriza a isso. Chega a dizer: ”não me falem das regras de Santo Agostinho, de São Bento ou de São Bernardo; Deus quis que eu fosse um  novo louco nesse mundo (novellus pazzus)”. É a clara afirmação da singularidade de seu modo de vida e de seu estar no mundo e na Igreja, como um simples leigo, que toma absolutamente a sério o evangelho, no meio e junto  dos pobres e invisíveis e não como um clérigo da poderosa Igreja feudal.

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A grande tentação de São Francisco

Entretanto, num dado momento de sua vida, entra numa profunda crise, pois via que seu caminho evangélico de radical pobreza e fraternidade estava sendo-lhe arrebatado. Amargurado, se retira numa ermida e no bosque, por dois longos anos, acompanhado pelo seu íntimo amigo Frei Leão “a ovelhinha de Deus”. É a grande tentação que as biografias pouco relevância lhe conferem, mas essencial para se entender a proposta de vida de Francisco.

Por fim, despoja-se deste instinto de posse espiritual. Aceita um caminho que não é  o seu mas que era inevitável. Onde dormiriam os frades? Como se sustentariam? Prefere salvar a fraternidade que seu ideal próprio. Acolhe jovialmente a férrea lógica da necessidade. Já não pretende mais nada. Despojou-se totalmente até de seus desejos mais íntimos  a ponto que seu  biógrafo São Boaventua o chamar de  vir desideriorum (homem de dsejos).

Agora, totalmente despojado em seu espírito, deixa-se conduzir por Deus. O Espírito será o senhor de seu destino. Ele mesmo não se propõe mais nada. Está  à mercê daquilo que a vida lhe pedir, vendo-a como vontade de Deus. Sente nisso a maior liberdade de espírito possível que se expressa por uma alegria permanente a ponto de o chamarem “o irmão sempre alegre”. Ele não ocupa mais o centro. O centro é a vida conduzida por Deus.E isso basta.

Volta ao meio dos confrades e recupera a jovialidade e a plena alegria de viver. Mas seguindo o chamado do Espírito, como nos inícios, volta  a conviver com os leprosos, que chama de “meus cristos” em profunda comunhão fraterna. Jamais abandona a profunda comunhão com  a irmã e Mãe Terra. Ao morrer, pede que o coloquem nu sobre a Terra para a ultima carícia e a total comunhão com ela.

A unidade da criação: todos irmãos e irmãs, os humanos e a natureza

Francisco buscou incansavelmente  a unidade da criação mediante a fraternidade universal, unidade que inclui seres humanos e seres da natureza. Tudo começa com a fraternidade com todas as criaturas, amando-as e respeitando-as. Se não cultivarmos esta fraternidade com elas, vã será a fraternidade humana que passa a ser meramente retórica e continuamente violada.

Curiosamente, o renomado antropólogo Claude Lévy Strauss que muitos anos lecionou e pesquisou no Brasil e aprendeu a amá-lo (veja seu livro “Saudade do Brasil”) confrontado com a crise aterradora de nossa cultura sugere o mesmo remédio de São Francisco:” o ponto de partida deve ser uma humildade principal: respeitar todas as formas de vida…preocupar-se do homem sem preocupar-se com as outras formas de vida é, quer queiramos ou não,  levar a humanidade a oprimir-se  a si mesma, abrir-lhe o caminho da auto-opressão e da auto-exploração”(Le Monde 21-22 de janeiro de 1999).  Face às ameaças planetárias também afirmou:”A Terra surgiu sem o ser humano e poderá continuar sem o ser humano” .

Voltemos ao nosso momento histórico: o confinamento social nos criou as condições involuntárias para colocarmos esta questão fundamental: O que é essencial: a vida ou o lucro? O cuidado da natureza ou sua ilimitada exploração? Finalmente que Terra queremos? Que Casa Comum desejamos habitar? Somente nós seres humanos ou junto com todos os demais irmãos e irmãs da grande comunidade de vida, realizando a unidade da criação? 

O Papa durante a pandemia tomou-se o tempo para refletir sobre esta momentosa questão. Expressou-a  em termos graves, quase desesperadores na Fratelli tutti embora, como homem de fé, mantivesse e reafirmasse sempre a esperança.

O sobrevivente do campo de extermínio nazista, Eloi Leclerc, a recolocou de forma existencial e permanentemente angustiada  mas com acenos de esperança, dentro de frequentes sobressaltos causados pela memória inapagável dos horrores sofridos nos campos de extermínio nazista.

Se não pode ser um estado, a fraternidade pode ser um novo tipo de presença no mundo

Francisco viveu em termos pessoais a  fraternidade universal. Mas em termos globais fracassou. Teve que compor-se com a ordem e com o poder. E o fez sem amargura, reconhecendo e acolhendo sua inevitabilidade. É a tensão permanente entre o carisma e o poder. O poder é um componente da essência do ser humano social. O poder, não é uma coisa (o estado, o presidente, a polícia) mas uma relação entre pessoas e coisas. Ao mesmo tempo assume a forma de  uma instância de direção social.  Contudo, devemos qualificar a relação e a direção. Ambos estão a serviço do bem de todos ou a de grupos que então se revela como como exclusão e  dominação? Para evitar esse modo (o demônio que o habita), prevalente na modernidade, deve ser sempre colocado sob controle, ser pensado e vivido a partir do carisma. Este representa um limite ao poder para garantir seu caráter de serviço à vida e ao bem de todos e evitar a tentação da dominação e até do despotismo. O carisma é sempre criativo e coloca em xeque o poder instituído.

Respondendo à questão se é possível uma fraternidade universal, diria:  dentro do mundo em que vivemos sob o império do poder-dominação sobre pessoas, nações e sobre a natureza, ele vem sempre inviabilizado e até negado. Por aquí no hay camino.

No entanto, se ele não pode ser vivido como um estado permanente, ele pode se realizar como como um espírito, como uma  nova presença e como um modo ser  que tenta impregnar todas as relações mesmo dentro da atual ordem que é uma desordem. Mas isso somente é possível à condição de cada pessoa ser humilde, de colocar-se junto ao outro e ao pé da natureza, superar as desigualdades e ver em cada um, um irmão e uma irmã, colocados sobre o mesmo húmus terrenal onde estão nossas origens comuns e sobre o qual convivemos.

O Tempo de São Francisco e o nosso tempo

Francisco de Assis, no quadro conturbado de seu tempo, no tramontar do feudalismo e no alvorecer das comunas, mostrou a possibilidade real de, ao menos a nível pessoal, criar uma fraternidade sem limites. Mas seu impulso o levava para mais longe: criar uma fraternidade global ao unir os dois mundos de então: o mundo muçulmano do sultão egípcio Al Malik al-Kâmil com quem nutriu grande amizade com o mundo cristão sob o pontificado do Papa Inocêncio III, o mais poderoso da história da Igreja. Desta forma realizaria seu sonho maior: uma fraternidade realmente universal, na unidade da criação, confraternizando o ser humano com outros seres humanos, mesmo de religiões distintas mas unidos com todos os demais seres da criação.

Esse espírito, no contexto das forças destrutivas do antropoceno e do necroceno reinantes, se confronta com uma situação, totalmente diversa daquela vivida por Francisco de Assis. Nela não se questionava se a Terra e a natureza tinham futuro ou não. Pressupunha-se que tudo estava garantido. O mesmo ocorreu na grande crise economico-financeira de 1929 e  mesmo na de 2008. Ninguém  colocava em  questão os limites da Terra e de seus bens e serviços não renováveis. Era um pressuposto dado como evidente pois, para todos, ela comparecia qual baú cheio de recursos ilimitado, base para um crescimento também ilimitado. Na Laudato Si o Papa chama este concepção de mentira.

Hoje não é mais assim. Tudo se desvaneceu, pois sabemos que nos podemos destruir e abalar as bases físicas, químicas e ecológicas que sustentam a vida.

O espírito de fraternidade como exigência para a continuidade de nossa vida no planeta

Não estamos face a uma opção, que podemos assumir ou não. Mas face à uma exigência  da continuidade de nossa vida nesse planeta. Encontramo-nos numa situação ameaçadora para a nossa espécie e a nossa civilização.

 O Covid-19 que afetou a inteira humanidade cabe ser interpretado como um sinal da Mãe Terra de que não podemos continuar com a dominação e devastação de tudo o que existe e vive. Ou fazemos, como adverte o Papa Francisco de Roma à luz do espírito e  do um novo de ser no mundo de Francisco de Assis, “uma radical conversão ecológica”(N.5) ou pomos em risco o nosso futuro como espécie: “As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia..Nosso estilo de vida e o nosso consumismo insustentáveis só  podem desembocar em catástrofes”(Laudat Si n.161). Na Frateli tutti é mais contundete: ”Estamos no mesmo barco, ninguém se salva sozinho, só é possível salvar-nos juntos”(n.32). Trata-se de uma derradeira cartada para a humanidade.

O surgimento das condições para uma fraternidade universal

Mas eis que surge uma nova alternativa possível, pois a história não é retilínea. Ela conhece rupturas e saltos. Assim estaríamos face a um salto no estado de consciência da humanidade. Pode chegar a um momento em que ela se torna plenamente consciente de que pode se auto-destuir seja por uma fenomenal crise ecológica, social e sanitária (atacada por vírus letais) seja por uma guerra nuclear. Entenderá que é preferível viver fraternalmente na mesma Casa Comum do que entregar-se a um suicídio coletivo. Será obrigada a convencer-se de que a solução  mais sensata e sábia consiste em cuidar da única Casa Comum, a Terra, vivendo dentro dela, todos, como irmãos e irmãs, a natureza incluída. Seguramente a humanidade não está condenada a se autodestruir, nem pela vontade de poder-dominação nem pelo aparato bélico, capaz de eliminar toda vida. Ela é chamada a desenvolver as incontáveis potencialidades que estão nela, como um momento avançado da cosmogênese.

 Será, então, um dado da consciência coletiva aquilo que as encíclica Laudato Si e Fratelli tutti repetem de ponta a ponta: todos estamos relacionados uns com os outros, todos somos interdependentes e só sobreviveremos juntos. Tudo será relacional, também as empresas, gerando um equilíbrio geral assentado sobre o amor social, o  sentido de pertença fraterna,  o altruísmo, a solidariedade e o cuidado comum de todas as coisas comuns (água, alimentação, moradia, segurança, liberdade e cultura etc).

Todos se sentirão cidadãos do mundo e membros ativos de suas comunidades. Haverá um governo planetário plural (de homens e mulheres, representantes de todos os países e culturas) que buscará soluções globais para problemas globais. Vigorará uma hiperdemocracia terrenal. A grande missão coletiva é construir a Terra, como já no deserto de Gobi, na China, nos idos de 1933, anunciava Pierre Teilhard de Chardin. Assistiremos ao surgimento lento e sustentável da noosfera vale dizer, das mentes e corações sintonizados dentro do único planeta Terra. Este é o nosso ato de fé.

Agora serão dadas as condições do sonho de Francisco de Assis e de Francisco de Roma: uma real fraternidade humana, de um verdadeiro amor social junto com os demais irmãos e irmãs da natureza.

Cabe a nós como pessoas e como coletividade pensar e repensar com a maior seriedade, colocar e recolocar esta questão: Dentro da situação mudada de Terra e da humanidade e das ameaças qe pesam sobre elas não representa puro sonho e utopia inviável buscar um espírito da fraternidade universal entre os humanos e com todos os seres da natureza e realizá-lo coletivamente. Esta será  a grande saída que nos poderá salvar. O Papa Francisco crê e espera que este é o caminho. Pode ser tortuoso, conhecer obstáculos e fazer desvios, mas segue pelo  rumo certo.

Somos urgidos a responder, pois o tempo do relógio corre contra nós. Ou acolhemos a proposta  da figura mais inspiradora do Ocidente, o humilde Francisco de Assis, como o chama  Tomás Kempis, autor da Imitação de Cristo e retomada na Fratelli tutti pelo Francisco de Roma e repensada por Leclerc e Lévy Strauss ou poderemos trilhar um caminho já percorrido pelos dinossauros há 67 milhões de anos. Mas cremos não ser este o destino da humanidade.

 Só nos resta palmilhar este caminho da fraternidade universal e do amor social porque  então poderemos  continuar, sob a luz benfazeja do sol, sobre esse pequeno planeta, azul e branco, a Terra, nosso querido lar e Casa Comum. Dixi et salvavi aninam meam.

 

*Leonardo Boff é ecoteólogo brasileiro e escreveu:”O covid-19: um contra-ataque da Terra contra a humanidade”(Petrópolis-Rio, 2020/21).

 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

É POSSÍVEL A FRATERNIDADE HUMANA UNIVERSAL E COM TODAS AS CRIATURAS?(I)

                                                       Leonardo Boff


 

Na encíclica social Fratelli tuttiI (2020)o Papa Francisco apresenta seu “sonho” de uma nova humanidade fundada na fraternidade universal e no amor social (n.6), inspirado na figura e no exemplo de São Francisco de Assis, o irmão universal.

Esse tema da fraternidade universal foi a insistente preocupação de um dos melhores conhecedores do espírito de Assis:Eloi Leclerc em várias de suas obras ,especialmente, na Sabedoria de um Pobre (Paris 1959,Braga 1968) e no O Sol  nasce em Assis (Pars 1999, Vozes 2000). Ele não fala teoricamente mas a partir de um aterradora experiência pessoal. Jovem frade francês,mesmo não sendo judeu, foi levado para a Alemanha e mergulhou no inferno dos campos de extermínio nazista de Buchenwald e de Dachau. Conheceu a banalidade do mal,as matanças feitas pela SS pelo simples gosto de matar, as torturas e as humilhações que marcaram sua alma como ferro em brasa.

Abalado na fé no ser humano e duvidando de todo o ideal de uma fraternidade humana, buscava desesperadamente um raio de luz que não lhe vinha de nenhum lugar, Mesmo depois de sua libertação pelos aliados em 1945 começou  a ter medo de todo o ser humano. Confessa:”de noite, acordava sobressaltado, o suor escorrendo e  a alma tomada de pavor; aquelas imagens de horror sempre voltavam e me perseguiam; eu não podia apagá-las”(p.33). E continua:”Que o Senhor me perdoe, se às vezes de noite, esse homem velho que me tornei, levante os olhos inquietos ao céu, à busca de um pouco de luz”(p.31).

Carregava dentro de si os carrascos nazistas que o perseguiam e lhe suscitavam questões terrificantes sobre o destino humano e sua capacidade de destruir vidas indefesas.Esse mesmo trauma, mais que psicológico, pois invade e destrói todo ser humano por dentro e por fora, foi vivenciado pelo dominicano brasileiro Frei Tito Alencar, barbaramente torturado pelo delegado Fleury. Internalizou sua imagem perversa de tal forma que se sentia sempre perseguido por ele até que,não aguentando mais, deu fim à sua vida, preferindo  morrer do que viver uma  permanente tortura.Essa experiência terrível foi vivenciada também por Frei Eloi Leclerc,que longa e sofridamente refletida, nos entregou uma trêmula luzinha  apontando a possibilidade de uma  fraternidade universal,inspirada no pobre de Assis.

Foi o encontro com essa figura e com seu exemplo que lhe fez nascer de novo o sol em sua alma obnubilada e conseguiu resgatar o sentido secreto de todo o sofirimento. Narra um fato misterioso que ocorreu no trem descoberto e carregado de prisioneiros que por 28 dias de Buchenwald  viajava de um lugar ao outro ate parar em Dachau nos arredores de Munique. Eram três confrades,um deles agonizante. No meio do inferno, irrompeu algo do céu. Sem saber por quê,movidos por uma força superior, começaram a cantar com vozes quase inaudíveis o Cântico das Criaturas de São Francisco. As densas trevas não puderam impedir a luz do senhor e irmão Sol e a generosidade da mãe e senhora Terra. No Cântico se celebra o encontro  da ecologia interior com a ecologia exterior e o esponsal do Céu com a Terra, do qual nascem todas as coisas. A pergunta que sempre lhe atravessava a garganta: será que a fraternidade entre os humanos e com os demais seres da criação é possível? Essa experiência entre agonia e deslumbramento, não poderia conter uma eventual resposta esperançadora? Abriu-se pelo menos um trêmulo clarão. Tal choque existencial o motivou a estudar e a aprofundar qual seria a singularidade desta figura absolutamente excepcional dentro do conjunto das angiografias.

 

Leclerc descreve, então, o processo de construção da fraternidade universal na trajetória de Francisco de Assis. Filho de um rico comerciante de tecidos, considerado o rei da jeneuse dorée da cidade que vivia em farras e algazarras, de repente começou a dar-se conta da futilidade daquela vida. Passava horas na capelinha de São Damião,  contemplando o rosto doce e terno de um crucifixo bizantino.  Algo semelhante fazia Dostoievsky  que uma vez ao ano viajava até Dresden na Alemaha para na  igreja contemplar, por horas, a beleza de um quadro de Maria extraordinariamente deslumbrante. Precisava desta contemplação para apaziguar sua alma atormentada. No romance Os Irmãos Karamasov deixou esta instigante frase: ”é a beleza que salvará o mundo”.

Assim foi a doçura e o olhar misericordioso do Cristo bizantino, à semelhança com Dostoievsky, que conquistou aquele jovem em profunda crise existencial e lhe mudou o destino da vida. Convenceram-no a fé no Criador que criou uma fraternidade fundamental, fazendo que todos os seres, pequenos e grandes, também os humanos e o próprio Jesus de Nazaré, fossem todos tirados do pó, do húmus da Terra. Todos têm a mesma origem, formam uma fraternidade terrenal.

São Paulo aos Efésios lembrava aos seguidores:”Tende os mesmos sentimentos que Cristo teve. Sendo Deus, não fez caso de sua condição divina; fez-se um nada e assumiu a condição de servo por solidariedade com os seres humanos; apresentou-se como simples homem; humilhou-se- obedientemente até à morte e à morte de cruz”(o mais humilhante dos castigos impostos aos subversivos: Flp 2,5-8).

À luz destas matutações, Francisco esqueceu sua situação de filho de um rico mercador, descobriu a origem comum de todos os seres, do pó da Terra,  de seu húmus e contemplou também a humildade de Cristo retratada no rosto sereno e doce do crucifixo bizantino.  Como era prático e resoluto em tudo o que se propunha,  tirou logo uma conclusão: vou solidariamente unir-me àqueles que mais próximos estão  do Crucificado: os leprosos e com eles, vou viver aquilo que nos faz pela criação irmãos e irmãs e criar uma uma radical fraternidade com eles. Confessa em seu testamento: “aquilo que antes me parecia amargura agora emergia como doçura”. Conhecemos o resto da saga do Sol de Assis como o chama Dante na Divina Comédia.

Entretanto, Eloi Leclerc não se contentou com a experiência iluminadora do Cântico das Criaturas. A angustiante pergunta não lhe dava sossego: qual é  o grande obstáculo que impede  a fraternidade humana e com todas as criaturas e que cria espaço para os massacres e a eliminação sumária de pessoas, tidas inferiores ou sub-humanas como ocorreu nos campos de extermínio? Chegou à conclusão: é a vontade de poder.

Como C.G.Jung já havia percebido, a vontade de poder constitui o mais perigoso arquétipo do ser humano, pois lhe dá a ilusão de ser como Deus, dispondo como quiser da vida e da morte dos outros. E arrematava: ”onde predomina o poder aí não há mais ternura nem amor”. Quando se  torna absoluto, o poder se mostra assassino e elimina a todos os que fazem ouvir outra voz (p.30). Ora, nossas sociedades históricas (à exceção dos povos originários) se estruturam ao redor da vontade de poder e de dominar tudo o que se apresente: o outro, os povos, a natureza e a própria vida. Ela introduz a grande divisão entre aqueles que têm poder e aqueles que não têm poder.

Enquanto prevalecer o poder como eixo estruturador de tudo jamais haverá fraternidade entre os humanos e com a criação. Como este arquétipo é humano, ele está latente dentro de cada um de nós. Em nós se esconde um Hitler, um Stalin, um Pinochet e um Bolsonaro.O próprio Lclerc confessa:”Senti despertar em mim mesmo, a besta com sua sede de vingança”(p.32). Temos que colocar sob severo controle  essa figura funesta que mora em nós, se quisermos manter a nossa humanidade. Se nos entregamos à sedução do poder, quebramos todos os laços e a indiferença, o ódio e a barbárie podem ocupar todo o espaço da consciência, como está ocorrendo em vários países no mundo, especialmente entre nós no Brasil. Emergem então as figuras sinistras e até necrófilas referidas.

Quem diria que num país da velha cristandade que nos deu tantos gênios como Mozart e Bethoven, Goethe, Freud, Einstein, Marx, Heidegger,Brecht e outros tantos pudessem ter liberado o inimus homo latente dentro deles?

Esse fato dramatiza ainda mais a questão ousadamente proposta pelo Papa Francisco na Fratelli tuttiuma fraternidade universal e um amor sem fronteiras. Talvez porque desta vez, como tem repetido várias vezes: ”Ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”. Pode ser que nos é oferecida pela própria Terra, quem sabe, pelo próprio universo, uma derradeira chance: ou mudamos ou a Terra seguirá girando ao redor do sol, mas sem nós. ( continua)

 

Leonardo Boff é ecotólogo e filósofo e escreveu: O Covid-19: um contra-ataque da Mãe Terra contra a humanidade, Vozes 2.ed,2020/21.

 

sábado, 29 de agosto de 2020

COVID- 19 - QUINQUAGÉSIMA -NONA REFLEXÃO - UM OUTRO MUNDO POSSÍVEL EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS

 


por FREI ALOÍSIO FRAGOSO

     Começo a ter saudade de mim mesmo nesta 59ª e penúltima REFLEXÃO.  Saudade alimentada pelo sentimento gratificante de que fiz algum bem e fui recompensado com a  incomparável satisfação de ter feito algum bem.

     A saudade me remete aos primórdios e aí identifico o fio condutor de todas estas reflexões: a utopia de um outro mundo possível.

     Foi no ano 2005, na cidade de Porto Alegre, 160.000 participantes, vindos de 135 países, reunidos no 5º Forum Social Mundial, fizeram desta legenda um clamor universal: "um outro mundo é possível".

     Quinze anos se passaram, quinze carnavais, quinze vezes milhões de pessoas se mascarando, se transfigurando, se fantasiando, a fim de viver, durante 3 dias, esta grande utopia: o outro mundo possível está acontecendo aqui e agora. Era a ficção cansada de esperar pela realidade.

     Agora, em tempos de pandemia, o sonho se refaz com uma nova legenda: "o mundo nunca mais será o mesmo". Fica no ar uma dúvida....para melhor ou para pior?

     Coloco-me do lado dos que tem uma visão dialética da História. Creio que ela avança continuamente para estados superiores. Contudo isso se dá dialeticamente, não de forma ascensional ou linear ou cíclica, mas sim por meio de contradições, com avanços e recuos, perdas e ganhos, sucessos e malogros.

     O cristão avalia a História com os olhos da Fé, acreditando que ela é conduzida por um Poder Superior que não anula nossas iniciativas, porém transcende-as. Por isso ele se sente convocado a empenhar-se para que se tornem realidade os grandes sonhos coletivos da Família Humana. "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce", escreve o poeta Fernando Pessoa. O que fazer para que se cumpra esta trilogia que conecta a vontade do Criador, o anseio das criaturas e a ação geradora dos fatos reais? Subsídios é o que não nos falta.

     Neste início do séc. XXI, a grande maioria da humanidade está cética com relação a todas as filosofias e teologias que advogam o otimismo histórico. E vê desmoronar o mito do progresso científico-tecnológico como esperança de redenção. Daí resulta a busca de refúgio no fundamentalismo religioso. O fundamentalismo é uma terrível ameaça. Sua estratégia consiste em eliminar qualquer base racional da Fé, aprisionando as pessoas no obscurantismo e no fanatismo, como meio eficaz de controlar as consciências. Por isso ele se enquadra como uma luva nas mãos dos poderes ditatoriais. Estes manipulam o fundamentalismo com o mesmo propósito,  alcançar o domínio absoluto da população, boicotando-lhe o exercício do pensamento. Ele se manifesta sutilmente, seja em pequenos detalhes (por ex. quando o Ministro da Justiça chama-se a si mesmo de "Servo" e ao Presidente, de "Profeta"), seja escandalosamente (é o caso recente da pastora Flordelis, acusada de arquitetar a morte do marido. "Separar-me dele não posso porque ia escandalizar o nome de Deus", declarou ela, preferindo conviver com a culpa privada de ser assassina do que com a confissão pública de estar separada). Coisas do fundamentalismo.

     Nosso caminho é o da lucidez. A encarnação do Filho de Deus selou um pacto de amizade entre Deus e nós. Por este pacto, recebemos o penhor das suas promessas e a garantia do êxito final. Desde que a Divindade se abaixou até a nossa condição humana, cabe-nos descobrir sua presença por meio de nosso compromisso com tudo que é humano e terreno.

     Nossa fé nos coloca na contra-mão do Sistema dominante. Ser cristão hoje é estar na oposição ao "status quo". Não devemos temer a aparente superioridade das forças adversas. Não se conhece nenhuma época em que Deus tenha contado com maiorias (ou com exércitos) para realizar seus desígnios. "Não tenham medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do Pai confiar-lhes o  Reino", adverte Jesus em Lc.12, 32.

     No entanto, quando Deus opera em nosso favor, Ele só o faz com a nossa participação.A utopia de que o mundo nunca mais será o mesmo, entendida como "Boa Nova", não acontecerá por geração espontânea, mas pela nossa capacidade de gerir suas sequelas.

    Enquanto esperamos impacientemente o fim do coronavirus,  comecemos a rezar o salmo 143: "Bendito seja o Senhor, meu rochedo, que adestrou minhas mãos para a luta". Amém.


Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

JUVENTUDES E UM NOVO MUNDO POSSÍVEL

 


por Marcelo Barros

 

Desde 1999, a ONU considera sempre o 12 de agosto como dia universal da Juventude. O Conselho Mundial de Igrejas, organismo ecumênico que reúne 349 Igrejas cristãs participa deste projeto e valoriza esta data. O objetivo é favorecer o protagonismo das juventudes na sociedade. O CMI visa levar esta temática para dentro das Igrejas-membros.

Neste ano 2020, se torna ainda mais verdade o que há oito anos, afirmou Geneviève Gael Vanasse, coordenadora dos programas de juventude da Oxfam Canadá: "Atualmente, a metade da população mundial tem menos de 30 anos. Entre esses jovens, 90% vivem em países do sul, considerados pobres. No mundo inteiro, a juventude é a parte da população mais atingida pela pobreza e pelas desigualdades sociais. Por isso, os/as jovens são e podem ser sempre mais um fermento de mudanças para o mundo" (Cf. Le Devoir, Montreal, 07/08/2012, p. F8).

No Brasil, a maioria da juventude pertence às classes mais pobres e enfrenta a frustração de viver em condições precárias, sem os meios necessários a uma vida digna. Em todo o país, continua ocorrer um verdadeiro genocídio de adolescentes e jovens pobres, principalmente negros nas periferias das cidades. Nas aldeias indígenas do Mato Grosso do Sul e de outras regiões, o suicídio de adolescentes e jovens indígenas chega a ser 76% acima da taxa de outras categorias sociais. Assim protestam contra a falta de perspectivas de vida digna e de relações comunitárias sadias.

A ONU propõe para cada ano um tema próprio a ser aprofundado no dia internacional da Juventude. Neste ano, não por acaso, o tema escolhido foi “Juventude e saúde mental”. Hoje todos sabem que, para se desenvolverem sadias, todas as espécies vivas precisam de um bioma ou ambiente biológico ou ainda um eco-sistema adequado a cada espécie. Um papagaio da Amazônia não poderá viver no polo Ártico, assim como um pinguim da Antártica não viverá nas águas quentes da Amazônia. O mico-leão precisa da Mata Atlântica para o seu habitat. Assim também para ter saúde biológica, física e mental, as juventudes precisam de uma sociedade sadia, baseada na solidariedade e na construção do bem-viver comum.  

Na sociedade dominante em que vivemos, a juventude é a principal vítima da publicidade e de valores falsos que estimulam a competição e a violência. Além disso, quase sempre o poder e os cargos estão nas mãos de pessoas mais velhas e a juventude não é suficientemente escutada e valorizada. Essa marginalização que os/as jovens sofrem nas esferas oficiais da política e da economia pode provocar a falsa impressão de que os jovens estejam desinteressados dessa participação. Há quem pense que a maioria dos/das jovens é alienada e desinformada.

A realidade é totalmente contrária. Mesmo com poucas condições e do modo como lhes é possível participar, no mundo inteiro, os movimentos de juventude têm ido às ruas e praças para mostrar seu descontentamento com a forma como a sociedade está organizada. E em todas as iniciativas de solidariedade, jovens têm um protagonismo fundamental.

Um dos maiores desafios atuais é o diálogo intergeracional. É importante que tanto no âmbito das Igrejas, como no campo da educação e dos processos sociais e políticas, adultos e jovens se comprometam em construir juntos um diálogo a serviço de um novo mundo possível.

Infelizmente, a ideologia que busca privatizar a própria vida e tratar as pessoas como mercadorias ameaça até as Igrejas cristãs. Tenta-se privatizar até a fé e a espiritualidade. O evangelho de Jesus propõe a realização de um projeto divino para o mundo e este projeto abrange toda humanidade como coletivo e cada pessoa humana em todas as suas dimensões. Não se pode separar a dimensão subjetiva da fé de suas consequências sociais. É importante que os grupos de jovens e a Pastoral da Juventude tomem como prioridade aprofundar a realidade social e política do país. Que nos preparemos com mais e mais competência e nos articulemos com toda a força dos corações e braços jovens e possam assim, todos, sentir-se como uma corrente mundial que perpassa todos os países do mundo.

Para os mais velhos, dialogar com a juventude e pôr-se a seu serviço despertam em nós a jovialidade como sinal do Espirito de Deus em nossa vida. É como se o contato com jovens nos fizesse acessar em nós o jovem ou a jovem que existe no interior de cada um de nós, adultos. Na Idade Média, Sta Mectildes, abadessa beneditina e mística, ensinava: “De maneira maravilhosa, Deus conduz a criança e o jovem que existe dentro de nós. Leva a alma a um local secreto e brinca com ela. Em Deus, nós nos tornamos sempre mais jovens”.

 

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

terça-feira, 9 de maio de 2017

DEMOCRACIA E UTOPIA POSSÍVEL

Por Marcelo Barros


Ao verificar que os filmes de ficção científica mostram um futuro sombrio e de "guerra nas estrelas", o pensador Zigmunt Bauman via nisso um sinal de que no mundo atual a utopia de um futuro melhor tinha se transformado em mera nostalgia de um passado idealizado. A essa esperança projetada no passado e não no futuro, ele chamava de retrotopia. Como se o futuro melhor para o mundo estivesse em uma volta ao passado. De tal forma, os poderosos do mundo e a elite dominante comprometem o futuro da sociedade que a esperança parece ser a volta a um passado que, apesar de tudo, parece melhor. 

Outro dia, ao comemorar seu aniversário, um amigo da geração dos setenta afirmava: "Em muitos aspectos, o mundo dos meus pais era melhor do que esse que passaremos à geração de nossos filhos". Para confirmar isso, temos de concordar que guerra nuclear é pior do que a guerra artesanal anterior à bomba atômica. As atuais regras de migração são mais desumanas do que as anteriores. A realidade do desemprego estrutural, organizado para dar mais lucro às empresas e provocado pela própria forma de organizar a economia é mais desumana do que a sobrevivência dos pobres na sociedade industrial. E assim podemos elencar diversos pontos e elementos nos quais o mundo em que vivemos é menos comunitário e solidário do que o mundo de nossos avós. E estamos vivendo no Brasil onde os poderosos de plantão se unem para destruir direitos adquiridos pelos pobres, trabalhadores e índios na Constituição Cidadã de 1988. Com a conivência do Judiciário e apoio dos grandes meios de comunicação, governo e Congresso mudam a Constituição, sem nenhuma consulta ou referendo popular. No mundo inteiro, parece se respirar um clima no qual o Capitalismo neoliberal proclama que a Democracia é um rito formal a ser conservado na medida do possível, mas já não é atual, nem necessária.

Ainda bem que, cada vez mais, a sociedade civil internacional parece consciente de que temos de fazer alguma coisa para o bem da maioria da humanidade e até para salvar o planeta Terra. Esses homens e mulheres de boa vontade sabem que essa mudança de caminho não pode ser uma volta ao passado, mas uma construção mais sustentável e cuidadosa do futuro para nós e para a mãe Terra.  As pessoas que assumem uma Ética da dignidade humana e do Direito de todos querem radicalizar mais e mais a Democracia. Sabem que, como diz a sabedoria da Bíblia: "Aqueles que fazem carreira nem sempre são os mais capazes" (Ecle 9, 11). De fato, quem observa com atenção os ambientes políticos sabe que raramente quem está nos cargos públicos se preocupa com o bem comum. Por isso, os movimentos sociais e comunidades de bairro se propõem a derrubar a pirâmide social e, a partir de baixo, construir um poder que seja de todos. Trata-se de um poder compreendido não como dominação, mas como possibilidade, capacidade de libertar a todos/as. E não se pode esperar que quem toma as decisões pela sociedade possa ou queira fazer isso. 

Todo poder é excludente, mesmo quando é eleito. Nos tempos da monarquia, parecia um sonho impossível imaginar que, um dia, seria possível construir um poder através da eleição dos cidadãos e não simplesmente ver o poder passar estupidamente do rei para o seu filho. Do mesmo modo, precisamos crer e confiar na possibilidade de verdadeiramente construir uma democracia participativa, mais comunitária e a partir dos mais pobres.

A Bíblia tem como centro a fé de que Deus ordenou aos hebreus saírem da escravidão. Ele revelou que a vocação de todo ser humano é ser livre e ter sua dignidade reconhecida. Nessa semana, lemos nas Igrejas o texto do evangelho no qual Jesus se proclama o verdadeiro pastor do povo que veio para que todos tenham vida e vida em abundância (Jo 10, 10). A dimensão social libertadora é o eixo central da revelação bíblica e o coração da espiritualidade judaico-cristã. 

Ela expressa a relação com um Deus que é amor e cujo projeto é a libertação de todos os humanos, o direito à vida de todos os seres viventes e a comunhão do universo. Devemos lutar pacificamente para sermos cidadãos e cidadãs desse mundo como testemunhas do reino de Deus que, a cada dia, os cristãos oram no Pai Nosso para que venha e se estabeleça entre nós.


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

terça-feira, 9 de agosto de 2016

PARA QUE OUTRO MUNDO SEJA POSSÍVEL


Por Marcelo Barros


As Olimpíadas do Rio de Janeiro acontecem sob fortes medidas de segurança. De fato, recentemente têm ocorrido mais atentados terroristas. Assim, os impérios atuais que provocam a violência e os grupos terroristas que as disseminam já conseguiram essa vitória: criar uma situação de medo e insegurança. Depois do que ocorreu em Nice, França, qualquer pessoa pode ter medo de ir a lugares de grande concentração pública. Governos e empresas desse sistema apregoam medidas de segurança. Enquanto, nos aeroportos, os passageiros comuns são massacrados por controles mais rígidos, em países como os Estados Unidos, as armas continuam a ser vendidas livremente e policiais seguem a rotina de matar negros e torturar pobres. Na América Latina, as embaixadas norte-americanas continuam a patrocinar golpes e financiar políticos dispostos a venderem o país ao império, como se isso nada tivesse a ver com o terrorismo que os mesmos governos dizem combater.

Nessa realidade de um mundo doente e fragmentado, grande parte da humanidade, mais consciente, continua a busca de outras formas de organizar o mundo. Nessa semana, de 08 a 14 de agosto, acontecerá mais um Fórum Social Mundial. Esse encontro fraterno da sociedade civil internacional espera reunir mais de cem mil pessoas. Pela primeira vez se dará em um país rico do norte do mundo. Ocorrerá em Montreal, no Canadá. Em 2001, em Porto Alegre, pela primeira vez, milhares de pessoas comuns gritaram: "Um outro mundo é possível". Agora, quinze anos depois, o mesmo grito se ouvirá em um contexto social e cultural diferente.

As  pessoas que, nessa semana, se encontram em Montreal, sabem que o mundo precisa mudar. No entanto, tanto as pessoas que, como cidadãos do mundo, vêm a esse fórum social, como os governantes dos países ricos sabem que o pior problema do mundo atual não é o terrorismo. Por mais terrível que seja a chaga do terror, a ameaça mais grave à humanidade é a crise ecológica que atenta contra a vida de todo o planeta. Sabem também que essa crise é provocada pelo sistema econômico e social, patrocinado não pelos grupos terroristas e sim pelos governos, empresas e meios de comunicação que dominam o mundo.

No Fórum Social Mundial, as pessoas reunidas escutam as vozes dos povos indígenas. Acolhem a proposta que os índios estão fazendo à humanidade de organizar a vida não visando o lucro, a competição e a dominação da natureza, mas o Bem-viver individual e coletivo, na convivência amorosa com a Terra e todo o sistema de vida no planeta. Ali escutarão o povo zulu, vindo da África (Quênia), repetir: Ubuntu! termo sagrado que significa: "Eu sou porque você é. Se você não for, eu não posso ser".

A proposta dos fóruns sociais mundiais para a humanidade é a de revalorizar a sacralidade da vida, tanto a humana, como a de todos os seres vivos. Isso significa buscar entre nós a colaboração e não a competição, organizar a sociedade em redes e relações mais horizontais e não a hierarquia e as desigualdades entre as pessoas. Para isso, precisamos mudar nosso modo de ser e de viver para saciar em nós e nos outros as três sedes fundamentais que estão no mais íntimo de toda pessoa humana:

1 - a sede de sentido para a vida e mesmo a vida cotidiana.
2 - a sede de relações mais verdadeiras e afetuosas.
3 - a sede do mistério mais profundo que as religiões chamam de Deus e que todos chamam de Amor.


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.