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terça-feira, 19 de maio de 2020

CENÁCULOS DE RESISTÊNCIA E DE UTOPIA

Por Marcelo Barros

 

Cada vez mais a experiência tem mostrado que Igrejas e outras religiões precisam acolher a experiência que estamos vivendo nestes dias de quarentena e se organizarem como pequenos grupos (cenáculos) de convivência e de esperança para o mundo.

 

Neste tempo da quarentena provocada pela pandemia do Coronavírus, grupos espirituais dos mais diversos se reúnem por internet. Orações e encontros espirituais tomam conta da rede virtual. São novas formas de nos reunir, ensaios de um jeito novo de dialogar e conviver. Claro que esperamos que esta tragédia passe quanto antes e possamos nos encontrar presencialmente, nos abraçar e caminhar juntos. Na forma virtual a que agora a realidade nos obriga e, principalmente, quando pudermos retomar as atividades cotidianas, precisamos fortalecer redes de comunhão, mas a partir destes pequenos grupos dispersos aqui e ali que se unem como células de resistência e construção de uma sociedade renovada.

Cenáculo é o nome com o qual a tradição cristã chama "a sala alta", na qual, segundo os evangelhos, antes de ser preso, Jesus fez sua última ceia com discípulos e discípulas. A tradição cristã acredita ter sido nesta mesma sala (cenáculo) que, depois da ressurreição, os discípulos se reuniam. Ali Jesus ressuscitado se deixou ver por eles. Também teria sido no cenáculo que os discípulos e discípulas, reunidos com Maria, mãe de Jesus, ficaram reunidos, à espera do Espírito Santo prometido. Ali, teria ocorrido o primeiro Pentecostes cristão, com a descida do Espírito de Deus sobre a comunidade reunida.

Esse termo, Cenáculo, ficou usado no Cristianismo como símbolo de encontro, de comunhão e fortalecimento no Espírito. De fato, o cenáculo designa não apenas um lugar. É um modo como podemos nos colocar em atitude de comunhão, partilha e cuidado mútuo.

Quando há um terremoto, os técnicos procuram onde se deu o epicentro, isso é, o ponto nodal de onde partiu a falha da camada geológica. Atualmente, todo mundo reconhece que o mundo está em uma crise que não é só ecológica ou mesmo civilizacional. É mais ampla e geral. O epicentro do terremoto, ou seja, desta crise que a humanidade vive pode estar em uma violência cultural que nos fez romper com a dimensão comunitária que está inserida no DNA de cada ser humano e aceitar o individualismo, a cultura de competição e de absolutização do lucro que conduziu o mundo à desumanidade que estamos vivendo agora. Por isso, cada vez mais aumenta o número de pessoas que acreditam: uma luta básica contra esse sistema dominante é organizar a humanidade contra a barbárie.

 Uma pesquisa recente que apareceu no site do IHU (Instituto Humanitas - de São Leopoldo, RS) dizia que no Brasil em 2010, existiam 775 projetos ou experiências concretas de comunidades religiosas de tipo novo. A maioria delas ligada a movimentos carismáticos e com fortes acentos conservadores e "de direita". No entanto, algumas (poucas) se revelam mais abertas e originais. É urgente que as pessoas com vocação para transformar esse mundo formem redes ecumênicas de apoio mútuo e de abertura espiritual a toda humanidade, verdadeiros cenáculos de resistência e comunhão que ajudem os seus próprios membros a se converterem e possam ser ensaios de um mundo novo possível.

Talvez, em nossa cultura, o desafio maior seja aprofundar as relações pessoais e e de vida. Só a partir da cumplicidade amorosa, conseguiremos ser diferentes do modelo dominante. É preciso que, assim como aconteceu com os primeiros cristãos,  as pessoas que nos veem possam perceber nossa fragilidade e nossos defeitos (somos iguais a eles e elas), mas, seja como for, possam dizer como se dizia dos primeiros cristãos: "Vejam como eles se amam". Se conseguirmos isso, nos mais diferentes caminhos espirituais, ou em experiências sem nenhum vínculo religioso, seremos no mundo atual cenáculos de resistência e utopia.

 

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

 

 


quinta-feira, 4 de outubro de 2018

UTOPIA E POLÍTICA




Frei Betto

       Tudo é política, mas a política não é tudo. Participar da vida política, ainda que apenas pelo voto, é exercício de cidadania. Porque a política tem a ver com todos os aspectos de nossas vidas, da qualidade dos serviços de saúde à segurança de nossas famílias. Quem anula o voto ou vota em branco favorece o poder vigente e fica de costas para o bem comum.

       Não há como erradicar a miséria, reduzir a criminalidade e a desigualdade social sem a atividade política. A política serve para oprimir e favorecer a corrupção, como também para libertar e punir os corruptos. Tudo depende do modo como é exercida.

       O Evangelho de Lucas (3, 1), ao contextualizar a missão de Jesus, a situa politicamente: “No décimo quinto ano do governo de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judeia; Herodes, tetrarca da Galileia; Filipe, seu irmão, tetrarca da região da Itureia e da Traconídite; e Lisânias, tetrarca de Abilene” etc. Até mesmo a Palavra de Deus tem a ver com política, embora não se deva confessionalizá-la.

       Jesus foi assassinado por razões políticas. Ousou anunciar, no reino de César, outro reino possível, o de Deus! Rechaçou a opressão, a doença e a pobreza como castigos divinos. Condenou a religião como legitimadora de preconceitos e discriminações. E propôs um novo projeto civilizatório baseado, nas relações pessoais, no amor e na compaixão; e nas relações sociais, na partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano.

       Oito séculos antes de Cristo, o profeta Isaías já havia prefigurado a utopia de uma sociedade na qual a implantação da justiça assegurará o advento da paz: "Vejam! Vou criar novo céu e nova terra.

 As coisas antigas nunca mais serão lembradas, nem voltarão ao pensamento. Fiquem alegres! Exultarei com Jerusalém e me alegrarei com o meu povo. E nela nunca mais se ouvirá choro ou clamor. Aí não haverá mais crianças que vivam alguns dias apenas, nem velhos que não cheguem a completar seus  dias; pois será ainda jovem quem morrer com cem anos... Quem construir casa nela habitará, e quem  plantar vinhas comerá de seus frutos. Ninguém construirá para outro morar, nem semeará para outro comer, porque a vida do meu povo será longa como a das árvores, meus escolhidos poderão gastar o que suas mãos fabricarem

Ninguém trabalhará inutilmente, nem gerará filhos para  morrerem antes do tempoporque todos serão a descendência  dos abençoados de Javéjuntamente com seus filhos

Antes que me invoquem eu respondereiquando começarem a falar, já estarei atendendo. O lobo e o cordeiro pastarão juntos, o leão comerá capim junto com o boi... Em todo o meu monte santo ninguém causará danos ou estragosdiz Javé.” (65, 17-25).

       Na próxima semana, os brasileiros escolherão seus futuros governos estadual e federal. Eis um direito democrático de substancial importância. Os eleitos haverão de fazer o país avançar ou retroceder ainda mais. Deles dependerão o combate ao desemprego e às causas da criminalidade, a universalização da educação de qualidade e o fim das intermináveis filas nos postos de saúde.

       Os políticos são considerados autoridades. Ora, a rigor autoridades somos nós, o povo brasileiro, que os elegemos, pagamos seus salários e todos os gastos do exercício de seus mandatos, da conta de luz do Palácio da Alvorada ao combustível que move o avião presidencial.

       Sem utopia a política se apequena. Torna-se mero jogo de poder em função de ambições pessoais e interesses corporativos. É de suma importância votar de olho no projeto Brasil. No futuro das novas gerações. Na conquista de uma sociedade que espelhe a proposta do profeta Isaías, onde o lobo e o cordeiro, que são diferentes, não façam da diferença divergência, e possam conviver em harmonia e igualdade de condições.

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Anfiteatro), entre outros livros.

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terça-feira, 9 de maio de 2017

DEMOCRACIA E UTOPIA POSSÍVEL

Por Marcelo Barros


Ao verificar que os filmes de ficção científica mostram um futuro sombrio e de "guerra nas estrelas", o pensador Zigmunt Bauman via nisso um sinal de que no mundo atual a utopia de um futuro melhor tinha se transformado em mera nostalgia de um passado idealizado. A essa esperança projetada no passado e não no futuro, ele chamava de retrotopia. Como se o futuro melhor para o mundo estivesse em uma volta ao passado. De tal forma, os poderosos do mundo e a elite dominante comprometem o futuro da sociedade que a esperança parece ser a volta a um passado que, apesar de tudo, parece melhor. 

Outro dia, ao comemorar seu aniversário, um amigo da geração dos setenta afirmava: "Em muitos aspectos, o mundo dos meus pais era melhor do que esse que passaremos à geração de nossos filhos". Para confirmar isso, temos de concordar que guerra nuclear é pior do que a guerra artesanal anterior à bomba atômica. As atuais regras de migração são mais desumanas do que as anteriores. A realidade do desemprego estrutural, organizado para dar mais lucro às empresas e provocado pela própria forma de organizar a economia é mais desumana do que a sobrevivência dos pobres na sociedade industrial. E assim podemos elencar diversos pontos e elementos nos quais o mundo em que vivemos é menos comunitário e solidário do que o mundo de nossos avós. E estamos vivendo no Brasil onde os poderosos de plantão se unem para destruir direitos adquiridos pelos pobres, trabalhadores e índios na Constituição Cidadã de 1988. Com a conivência do Judiciário e apoio dos grandes meios de comunicação, governo e Congresso mudam a Constituição, sem nenhuma consulta ou referendo popular. No mundo inteiro, parece se respirar um clima no qual o Capitalismo neoliberal proclama que a Democracia é um rito formal a ser conservado na medida do possível, mas já não é atual, nem necessária.

Ainda bem que, cada vez mais, a sociedade civil internacional parece consciente de que temos de fazer alguma coisa para o bem da maioria da humanidade e até para salvar o planeta Terra. Esses homens e mulheres de boa vontade sabem que essa mudança de caminho não pode ser uma volta ao passado, mas uma construção mais sustentável e cuidadosa do futuro para nós e para a mãe Terra.  As pessoas que assumem uma Ética da dignidade humana e do Direito de todos querem radicalizar mais e mais a Democracia. Sabem que, como diz a sabedoria da Bíblia: "Aqueles que fazem carreira nem sempre são os mais capazes" (Ecle 9, 11). De fato, quem observa com atenção os ambientes políticos sabe que raramente quem está nos cargos públicos se preocupa com o bem comum. Por isso, os movimentos sociais e comunidades de bairro se propõem a derrubar a pirâmide social e, a partir de baixo, construir um poder que seja de todos. Trata-se de um poder compreendido não como dominação, mas como possibilidade, capacidade de libertar a todos/as. E não se pode esperar que quem toma as decisões pela sociedade possa ou queira fazer isso. 

Todo poder é excludente, mesmo quando é eleito. Nos tempos da monarquia, parecia um sonho impossível imaginar que, um dia, seria possível construir um poder através da eleição dos cidadãos e não simplesmente ver o poder passar estupidamente do rei para o seu filho. Do mesmo modo, precisamos crer e confiar na possibilidade de verdadeiramente construir uma democracia participativa, mais comunitária e a partir dos mais pobres.

A Bíblia tem como centro a fé de que Deus ordenou aos hebreus saírem da escravidão. Ele revelou que a vocação de todo ser humano é ser livre e ter sua dignidade reconhecida. Nessa semana, lemos nas Igrejas o texto do evangelho no qual Jesus se proclama o verdadeiro pastor do povo que veio para que todos tenham vida e vida em abundância (Jo 10, 10). A dimensão social libertadora é o eixo central da revelação bíblica e o coração da espiritualidade judaico-cristã. 

Ela expressa a relação com um Deus que é amor e cujo projeto é a libertação de todos os humanos, o direito à vida de todos os seres viventes e a comunhão do universo. Devemos lutar pacificamente para sermos cidadãos e cidadãs desse mundo como testemunhas do reino de Deus que, a cada dia, os cristãos oram no Pai Nosso para que venha e se estabeleça entre nós.


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

terça-feira, 28 de junho de 2016

A FORÇA DA UTOPIA


Por Marcelo Barros




Nesses dias (de 22 a 26 de junho), na cidade de Maricá, RJ, ocorreu o 1o Festival Internacional da Utopia. Gente de todo o mundo se encontrou ali para partilhar seus melhores sonhos e se fortalecer uns aos outros na esperança de um novo caminho para a humanidade. O encontro foi rico em reflexões e debates. No entanto, a marca principal foi o caráter de grande celebração da vida com muitas representações musicais e artísticas. Para ensaiar novas formas de organizar a sociedade e confirmar que "outro mundo é possível", esse encontro da esperança militante não ocorreu como congresso acadêmico, nem como fórum de reflexões e sim como festival lúdico e afetuoso. Assim, antecipou a festa definitiva da vitória. 

Nos anos 60, em plena ditadura militar, as pessoas cantavam: Quem sabe faz a hora. Não espera acontecer". De fato, existe uma forma passiva e acomodada de esperar, sinônimo de aguardar ou deixar para depois. Isso nada tem a ver com a vigília esperançosa de quem prepara um novo dia de trabalho e de luta. Conforme Ernest Bloch, a verdadeira esperança é uma determinação fundamental da pessoa que dá uma orientação à vida e à realidade, no rumo de uma meta que é a utopia.

O termo grego utopia significa "o não caminho", ou o que está além do caminho. No século XVI, tornou-se título do livro de Thomas Morus que falava de uma ilha, na qual o objetivo de cada um de seus habitantes era fazer com que todos pudessem ser felizes. Parece que Morus se inspirou na descrição que Américo Vespucci fez sobre a ilha de Fernando de Noronha que ele tinha visitado. Parecia o paraíso terrestre reencontrado no novo mundo descoberto por Colombo. A partir daí Morus imaginou a sociedade perfeita, na qual não havia propriedade privada e todos tinham tudo em comum em uma espécie de socialismo fraterno e pacífico. Até o século XX, considerava-se utopia algo impossível e irreal. Quando  alguém queria acusar um filósofo de não ter compromisso com a realidade, bastava classificá-lo como "socialista utópico". Ernest Bloch resgatou a Utopia como algo positivo. Com ele, o termo passou a significar não um ideal irrealizável e alienado, mas a meta de uma sociedade nova. Embora não seja alcançada totalmente na história, a Utopia é importante porque mobiliza ações e possibilita projetos nos quais, ao menos em parte, a esperança é alcançada. Quanto mais alto e mais profundo for o teor da nossa esperança, mais somos chamados a nos comprometer em transformar desde já a realidade atual. Eduardo Galeano explica isso com uma imagem muito concreta: "A utopia está lá no horizonte. Eu me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos. A utopia parece mais distante. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que, então, serve a utopia? Serve para isso: para me fazer caminhar".

A utopia mostra a meta para melhor fortalecer o caminho. Várias religiões se denominam como caminho. Na cultura chinesa, Tao significa caminho. Taoísmo é a espiritualidade que permite as pessoas caminharem de modo justo nas trilhas dessa vida. Também o Cristianismo primitivo tinha como nome o caminho. Na literatura brasileira, Guimarães Rosa fazia Riobaldo do "Grande Sertão Veredas", repetir sempre: "O perigo não está na partida nem na chegada. Está na travessia".

O 1o Festival da Utopia em Maricá, assim como todos os fóruns sociais que, pelos diversos continentes, reúnem a sociedade civil e os movimentos sociais insistem que a humanidade precisa e quer mudar de caminho. Todos serão mais felizes se passarem de uma cultura da competição para a cooperação. Podemos nos organizar não mais a partir da hierarquia e sim da parceria. A sustentabilidade pede que não se pense o futuro só a curto prazo, mas como dizem os índios iroqueses, "pensemos se nossas ações farão bem até a oitava geração de nossos filhos". Isso supõe ampliar o foco do que é desejável para a sociedade. Até agora a meta parece ser  exclusivamente centrada no crescimento e na expansão. É urgente dar prioridade ao cuidado e à sacralidade da vida. Homens e mulheres precisam superar o mundo patriarcal para uma convivência de equilíbrio e igualdade entre os gêneros. 

A fé judaico-cristã nos lembra que o destino de todo ser humano é aquilo que os profetas e os evangelhos chamam de "reino de Deus", ou seja, a realização plena do projeto ou programa que Deus tem para o mundo. Segundo a Bíblia, não é apenas a sociedade melhorada. É uma revolução total, expressa em imagens como "vejo um novo céu e uma nova terra, na qual não haverá mais choro, nem luto, nem dor, porque tudo o que era da antiga condição foi superado e o amor divino será tudo em todos" (Cf. Ap 21, 5 ss).


Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

QUAL UTOPIA? O QUE FAZER?

     
 por Frei Betto


      Essas duas interrogações movimentam os grupos de oração que assessoro. Diante da depressão cívica que assola o Brasil, há que recorrer à lâmpada de Diógenes e buscar luz no fim do túnel.

      Utopia significa quimera, o que não se pode alcançar. Eduardo Galeano a comparou ao horizonte: quanto mais se caminha rumo a ele, mais ele se afasta. No entanto, ele norteia os nossos passos. O termo foi cunhado por Thomas Morus, santo católico, no livro de mesmo título publicado na Inglaterra, em 1516.

      “Que fazer?” é o titulo do livro de Lênin, editado em 1902 para motivar os comunistas russos à revolução vitoriosa em 1917.

      As duas indagações nos interpelam hoje. Responder à primeira não é difícil: queremos outros mundos possíveis, onde não haja injustiça e no qual sejam partilhados os frutos da Terra e do trabalho humano. Só à poderosa minoria que desfruta da desigualdade social não interessa o colapso do capitalismo neoliberal.

      Os cristãos, em decorrência de sua fé, têm a obrigação moral de não se conformar com esse mundo. Devemos centrar a esperança no Reino de Deus que, para Jesus, não era apenas uma instância pós-morte, mas um projeto a se realizar no futuro histórico.

      Por isso, Jesus foi condenado como prisioneiro político. Pregou, sob o reino de César, outro reino...

      Porém, “que fazer?” É mais fácil listar o que “não fazer”: compactuar com a opressão e a corrupção; aceitar discriminações; sobrepor a competitividade à solidariedade; ferir a ética e contrariar os direitos humanos etc.

      Quanto ao fazer, cabe a cada um, dentro de seu contexto e segundo suas possibilidades, dar respostas efetivas. Considero tarefa imediata organizar a esperança. Reforçar movimentos sociais que defendem os direitos dos mais pobres, animar jovens a abraçar a utopia, fomentar educação popular na formação de novos protagonistas sociais.

      É preciso resistir à tentação de descartar o partido político como mediador entre sociedade civil e Estado. Para equacionar problemas de convivência social, o ser humano ainda não inventou outro recurso melhor do que a política. Quem tem nojo da política é governado por quem não tem. E tudo que os políticos safados esperam é que tenhamos bastante nojo da política.

      Para mediar a relação sociedade civil e Estado também não se criou outra instância melhor fora dos partidos. São eles que sistematizam nossos anseios de cidadania em programas e projetos a serem administrados e realizados pelo Estado.

      Se um partido desce ladeira abaixo após perder a identidade que o diferenciava, para melhor, dos demais partidos, não haverá quem acione a luta interna para que o partido retorne a seus princípios originários?

      Os novos partidos serão capazes de evitar os erros cometidos pelos que trocaram o projeto de Brasil pela ambição de poder?

      Repito: é hora de deixar o pessimismo para dias melhores. O mistério pascal ensina que a vida sempre prevalece sobre a morte, ainda que as aparências indiquem o contrário.

Frei Betto é escritor, autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.
http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.
    


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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A política entre a utopia e a realidade

Por Leonardo Boff


Antes de abordarmos, suscintamente, a questão complexa da política faz-se mister distinguir, como já fizemos em artigo anterior, a política com P maiúsculo que é a busca comum do bem comum. Dela todos os cidadãos participam. Existe ainda a política com p minúsculo que consiste na política partidária, que como a palavra sugere, é parte e não o todo. São os agrupamentos políticos com ideologia e projeto (é o que mais nos falta no Brasil) que buscam o poder de estado para a partir dele e de seus aparelhos governar o município,os estados e a federação.

Importa ainda conscientizar o fato de que a política mais que qualquer outra realidade, participa da ambiguidade inerente à condição humana que nos faz simultaneamente dementes e sapientes, sim-bólicos e dia-bólicos, numa palavra, nos revela intrincadas de contradições. Por isso, por um lado, dizem os Papas a política é a mais alta forma do amor e, por outro, contém deformações lamentáveis como o patrimonialismo e a corrupção. Rubem Alves deixou escrito: “a política comomissão é atividade das mais nobres; como profissão é a mais vil”. Dai viver a política em permanente crise. A nossa é de baixa intensidade, pois o povo não se sente representados pelos parlamentares, muitos deles vivendo de negociatas e de aproveitamento dos bens públicos. Mas ela pode sempre melhorar e transformar-se, segundo o ideario dos mestres Norberto Bobbio e Boaventura de Souza Santos, num valor universal a ser vivido em todas as instâncias, da família, dos sindicatos até no centro do poder do estado. O ideal é que cheguemos a uma democracia sem fim, um projeto sempre inacabado porque sempre perfectível.

Não secundamos um pragmatismo preguiçoso, sem sonhos e destituído de vontade de aperfeiçoamento. Infelizmente, esta é a tendência dominante, particularmente, no quadro da pós-modernidade para a qual qualquer coisa vale (anything goes) ou só vale o que está na moda. E está contaminando os jovens que se sentem desiudidos com a política.

Entretanto, uma pessoa ou uma sociedade que já não sonha e que não se orienta por utopias, escolheu o caminhou de sua decadência e de seu desaparecimento. Sem utopia não se alimenta a esperança. Sem esperança não há mais razões para viver e o desfecho fatal é a auto-diluição. A utopia desempenha função insubstituível, pois ela relativiza as realizações históricas concretas e mantém o processo sempre etaberto a novas incorporações. Numa palavra, a utopia nos fazer andar. Jamais alcançaremos as estrelas. Mas que seriam nossas noites sem elas? São elas que espantam os fantasmas da escuridão e nos enchem de reverência face à majestade de um céu estrelado. Porque temos estrelas, não tememos a escuridão.

Precisamos, portanto, de uma utopia para a política, para que desempenhe a função pela qual existe: organizar a sociedade, montar um Estado, distribuir os poderes e realizar a busca comum do bem comum para todos, sem privilégios e discriminações. Isso vale tanto para a Política em P maiúsculo quanto a políitica em p minúsculo. Ambas precisam incorporar a ética do bem comum, da responsabilidade coletiva, da transparência e da retidão em todos os negócios onde estão envolvidos os poderes públicos sempre contra a corrupção.

Quando confrontamos a política realmente existente e a utopia da política notamos imensas contradições. Há um constrangimento poderoso que pesa sobre a política: o fato de a política hoje estar submetida à economia e ao mercado que se regem por uma feroz competição deixando totalmente à margem a cooperação e os valores da cooperação, fundamentais para uma convivência civilizada. Isso faz com que os valores não materiais, ligados à justiça social, à gratuidade, ao cuidado, à solidariedade, ao trato humano com as pessoas, à liberdade de expressão ocupam um lugar irrelevante quando não são feitos também mercadorias, colocadas na banca do mercado e exploradas por conhecidos populistas ou por todo um mercado de literatura de auto-ajuda que mais ilude que ilumina.

Ora, destes valores altamente positivos vive fundamenalmente a política que se entende como prática da ética social. Não é suficiente a denúncia das diferentes corrupções, deixando-as impunes.Importa  apresentar formas alternativas e legais de realizar os projetos políticos. Facilmente caímos no moralismo como se somente com a moral se resolvem todos os problemas

A Igreja Católica ajuda a criar uma ética pessoal, de retidão e integridade. Há políticos que incorporam esta ética (ética na política). Mas ela não elaborou suficientemente uma ética social e política que trabalha as instituições, os braços longos do poder que devem ser transparentes e um serviço público (ética da política). É nesse campo que ocorrem as perversões da política.

Especialmente grave é o financiamento privado das eleições que se traduz por troca de favores e implica alta corrupção.

No Brasil com tradição patrimonialista, quer dizer, o político facilmente considera seu o bem público e se apropia dele sem maiores escrúpulos. É roubo do pão que falta na mesa do pobre, é livro que o estudante não tem, é remédio inacessível ao enfermo necessitado.

A desejada reforma política que deve ser feita sem tardança reintroduziria a ética na política pois para Aristóteles, o fundador do discurso político,  política e ética eram ainda sinônimos.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A Utopia de Morus



Por Frei Betto


       João Paulo II consagrou, em 2000, o inglês Thomas Morus (1478-1535) padroeiro dos políticos. Fez boa escolha,  considerada  a ambiguidade da maioria dos políticos. Canonizado em 1935  pelo papa Pio XI e pouco conhecido por sua suposta santidade, Morus é famoso por ser autor de um  livro clássico, Utopia (1516), termo que  cunhou a partir do grego  utopos, que significa ‘lugar nenhum’.

     Morus inspirou-se  em Luciano, satírico grego do século  II, autor de História verdadeira, e em  Erasmo, de quem era amigo,  autor de Elogio da loucura (1511), que em carta  enviada a Morus  afirmou que “gracejos podem levar a algo mais sério.” É o que  faz a boa literatura de nosso Veríssimo.

     Em sua obra, Morus   descreve a comunidade de uma ilha onde não havia dinheiro nem  propriedade  privada; admitiam-se adoradores do Sol e da Lua. “Todos  eram livres para  praticar a religião que bem entendessem, e tentar  converter as outras pessoas  para a sua própria fé, desde que o fizessem tranquila e educadamente, por meio de argumento  racional.”

     Tinha o autor por objetivo protestar  contra as  injustiças da Inglaterra de sua época: pobreza generalizada, criminalidade (e apelos à redução da maioridade penal…), pena de morte para quem furtava para matar a fome. “Vocês  ingleses” - diz o narrador da Utopia -, “me fazem lembrar os  professores incompetentes, que preferem reprovar os seus alunos que  ensinar-lhes. Em vez  de infligir essas punições horríveis, seria muito  mais adequado proporcionar a  todos algum meio de sobrevivência, de  modo que ninguém se encontrasse sob a  horripilante necessidade de se  tornar, primeiramente, um ladrão, e depois um   cadáver.”

     Na ilha de Morus “todos recebem uma porção  justa, de  modo a não haver jamais pobres ou mendigos. Ninguém é  proprietário de nada,  mas todos são ricos – afinal, que riqueza maior  pode haver que a alegria, a  paz de espírito e estar livre da angústia?”

     Dois fatores fizeram Morus renegar suas antigas ideias: a Reforma  de Lutero e a sua nomeação a funcionário real, em 1518. Picado pela mosca  azul, o poder  lhe subiu à cabeça. Logo foi promovido a “conselheiro teológico” e, em  1529, nomeado Lorde Chanceler de Henrique VIII.

     O que ele   antes via como desejável, agora que chegara ao poder lhe parecia perigoso.  Preferiu esquecer o que pregou e escreveu. Embora a  comunidade da Utopia assemelhe-se ao comunismo, Morus, inimigo da  Reforma, passou a atacar a vida  comum dos anabatistas como terrível  heresia, e tomou a defesa dos ricos  proprietários de terras.

     Lorde Morus proibiu mais de cem livros, perseguiu  quem não professava a fé católica, entre os quais o teólogo  protestante William Tyndale, que traduziu a Bíblia para o inglês. Segundo seu biógrafo, John Guy, Morus aplicava severamente as leis que  decretava: “Vendedores de livros eram multados e presos, e seus  estoques de literatura  herética queimados em praça pública”, e eles obrigados a desfilar em feiras livres, cavalgando de costas, para que  o povo lhes atirasse frutas podres.

     No epitáfio que  cunhou para si mesmo, Morus afirmava orgulhoso  ter sido um “perseguidor de ladrões, assassinos e hereges”. O último termo foi   suprimido na reforma de seu túmulo, no século XIX.

     Em  1533,  Henrique VIII separou-se de Catarina de Aragão, apaixonado que  estava por Ana  Bolena. Como Roma lhe negou a anulação do casamento, a  fim de legalizar seu divórcio e sacramentar o novo matrimônio perante  a Igreja, o rei transferiu  para si a autoridade do papa e fundou a  Igreja Anglicana. Por se recusar a  aceitar Ana Bolena como rainha da  Inglaterra e ficar do lado do papa Clemente  VII, que excomungou Henrique VIII, Morus foi decapitado em  1535.

     O poder é  antiutópico ou distópico por natureza? Por que, hoje, tantos que  outrora elevavam sua voz contra a exploração do capital e desfraldavam  bandeiras progressistas, de leões bravios tornaram-se dóceis  cordeiros  do rebanho neoliberal?

     Penso que o poder, devido às  premências do presente, faz com que se perca a visão de futuro. E como  o  poderoso tende a perpetuar-se no cargo (vide as velhas raposas da política brasileira), procura reduzir o processo histórico a seu momento pessoal.  Julga-se início e fim, sem  consciência de que não passa de mediador (meio) de  um mandato popular.

     Daí o risco de transformar-se numa figura ridícula, sem honra biográfica, mera  caricatura de  suas ambições desmedidas. Em sua pobre topia, não há mais lugar para a utopia.

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.   
  
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