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terça-feira, 4 de maio de 2021

A FRATERNIDADE HUMANA NO PLANETA DA INFORMAÇÃO

 


Marcelo Barros

 

Em meio a tantas datas comemorativas destes dias (dia da Mãe Terra e dia da classe trabalhadora), poderia parecer pouco relevante que a ONU tenha consagrado o 03 de maio como “dia internacional da liberdade de imprensa”. Quantas questões envolvidas nesta proposta!

Em nossos dias, apesar não estarmos mais submetidos a ditaduras militares, há pessoas processadas e ameaçadas de punição com a lei de segurança nacional, por ter se expressado contra o presidente da República. No Brasil e em outros países, a liberdade de imprensa continua cerceada, seja pelo poder político de índole totalitária, seja principalmente pelo poder econômico dos grandes conglomerados que fazem da comunicação a arma para concentrar mais poder e obter mais lucros.

O domínio econômico impõe um controle quase total sobre as informações que a sociedade recebe. Atualmente, assiste-se a uma concentração sempre maior de órgãos da imprensa nas mãos de poucos proprietários. No Brasil, a grande imprensa sempre foi propriedade de poucas famílias que, em cada região, controlam jornais, rádios e televisões. Em todo o mundo, mais de 80% das agências de notícia e dos organismos de comunicação pertencem a grandes empresas que controlam, ao mesmo tempo, as redes de informação, as grandes companhias petrolíferas e também indústrias de armamentos. 

No plano político, nas décadas recentes, os meios de comunicação têm se tornado armas mortíferas e certeiras usadas pelos impérios para destruir governos progressistas e projetos de emancipação política de países que não lhes agradam. O governo norte-americano gasta milhões de dólares para que, diariamente, em todos os países da América, se publiquem notícias negativas em relação aos governos ou aos políticos que devem ser destruídos. A guerra de quarta geração foi usada contra a Líbia, contra a Síria. Hoje, o império norte-americano a usa contra o governo e o povo da Venezuela.

Este tipo de guerra se tornou muito mais barata do que a convencional e mais eficiente. No Brasil, a produção de notícias falsas já elegeu até presidente da República. Todo mundo sabe que a rede da família Marinho promoveu um juizinho do interior a falso herói nacional. Serviu-se amplamente dele para destruir a democracia e possibilitar a entrega sistemática de todas as riquezas nacionais a empresas estrangeiras. Garantiu a vitória do inominável para o governo do país. Depois que as coisas não saíram de acordo com o esperado e, por várias razões, a farsa está sendo descoberta, a Rede Esgoto descarta o juiz e quer dar ao país a impressão de que tomou a defesa do povo.

  É verdade que todo ponto de vista é sempre vista de um ponto. Também se sabe que é mais barato opinar do que informar objetivamente. Mas, os cidadãos têm direito a uma informação honesta. É direito de quem informa tomar partido e declarar suas preferências ideológicas e sociais. Basta que isso seja claro, até para favorecer o debate e a pluralidade de opções. Embora pertença a uma empresa particular, um meio de comunicação social é sempre serviço público. Deve cumprir sua tarefa sem ser subjugado a interesses privados.

Em sua mensagem para o 55º Dia Mundial das Comunicações Sociais que ocorrerá no domingo 16 de maio, o papa Francisco apontou para os riscos de uma comunicação social que não tenha controles, diante da expansão das chamadas ‘fake news‘. O papa afirmou: “Há algum tempo, descobrimos como as notícias e imagens são fáceis de serem manipuladas. Isso ocorre por diversos motivos, às vezes até apenas por um narcisismo banal. É preciso perceber os riscos provocados pelas notícias falsas na internet, especialmente, com a pandemia da Covid-19. Atualmente, os meios de comunicação oferecem mais espaço para uma “informação reconfeccionada”, e são menos capazes de interceptar a verdade das coisas ou a vida concreta das pessoas. Também não conseguem informar sobre os fenômenos sociais mais graves. A consciência crítica nos empurra não a demonizar os instrumentos de comunicação e sim a cuidar de termos sempre maior capacidade de discernimento”.(...) “Todos somos responsáveis pela comunicação que fazemos, das informações que damos, do controle que, juntos, podemos exercer sobre as notícias falsas, desmascarando-as. Todos estamos convocados a ser testemunhas da verdade”, completou. “É necessário um jornalismo  “valente” e com coragem para ir de encontro às pessoas e às histórias de vida”.

Quem é cristão se lembra: a palavra de Deus nos vem através do “evangelho”, termo grego que significa boa notícia, informação verdadeira e libertadora, a respeito do projeto divino no mundo. O compromisso dos meios de comunicação com a humanidade é fazer com que as notícias publicadas e seus comentários possam ser realmente como “evangelhos”, isso é notícias que levem à vida e à liberdade humana. Independentemente de serem ligados ou não a uma religião, serão notícias evangélicas se servirem a um projeto de mundo mais justo e fraterno. Para isso, é indispensável e urgente que os meios de comunicação sejam livres e democráticos.

  

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

INFORMAÇÃO E CONHECIMENTO


por Frei Betto


       É avassalador o fluxo de informação que recebemos atualmente. Não conseguimos retê-lo. Nossa memória é inteligentemente seletiva. Se me perguntam se ontem vi inúmeras peças publicitárias por ruas e mídias, digo que sim. Se me pedem para mencioná-las, poderia apontar apenas quatro ou cinco.

       A mente “pesca” se possui “isca”, ou seja, se focada no que pretende apreender. Isso ocorre quando pesquiso na internet a arte de Aleijadinho ou a política de felicidade do reino do Butão. Então a informação se transforma em conhecimento.

       Em visita a uma escola, pedi aos alunos para registrarem no papel quanto tempo cada um navegou na internet no dia anterior. Em média, três horas. Em seguida, solicitei escreverem dez temas apreendidos naquelas horas. A maioria não chegou a enumerar cinco. O que comprova que não navegam; de fato, naufragam... Tempo perdido devido à mente dispersa, desatenta.

      Transformar informação em conhecimento requer pedagogia. A informação pode ser falsa, como a de alimentos saborosos destituídos de propriedades nutricionais positivas à saúde. Por isso a publicidade é repetitiva. Empenha-se em nos convencer de que o supérfluo é necessário e está impregnado de valor social. Mexe com a nossa autoestima. Faz-nos sentir que não podemos ser felizes ao prescindir daquele produto, refrigerante ou sanduíche que traz felicidade.

       Para que a informação se transforme em conhecimento precisa ser contextualizada. Não basta saber que os EUA disputam com a China a hegemonia mundial. É preciso conhecer por que a China é uma potência; por que os EUA adotam uma política protecionista; por que a ONU propõe a não proliferação de armas nucleares e, ao mesmo tempo, aceita em seu Conselho de Segurança países detentores de ogivas nucleares; por que se admite que EUA e Rússia possuam, juntos, mais de 14 mil ogivas nucleares, capazes de aniquilar várias vezes o nosso planeta. 

       A mente é um polvo com vários tentáculos. Armazena conhecimento na memória racional. Nem sempre, porém, nos lembramos do que aprendemos, até mesmo nomes de pessoas próximas. 

       Já a memória emocional grava melhor a informação. Porque nos faz sentir, além de nos fazer pensar. Desperta deleite ao recebermos convite para jantar o prato de nossa preferência ou revisitar uma cidade que nos encanta; ou ojeriza, ao nos deparar com quem nos ofendeu; ou medo ao andar à noite por ruas inseguras.

      A informação se faz tanto mais conhecimento quando mais o texto é inserido em seu contexto. Um brasileiro é mais apto a apreender a obra de Machado de Assis do que um alemão, por viver no contexto em que o texto foi produzido. Já o alemão apreende melhor as obras de Goethe. 

      Daí a importância da experiência na assimilação da informação a ser transformada em conhecimento. Isso não significa que os sentidos sejam confiáveis. Copérnico desbancou Ptolomeu ao provar que o sol não gira ao redor da Terra, como se nos aparenta. Ocorre o contrário. 

       Em resumo, toda informação precisa ser devidamente comprovada e contextualizada para que mereça ser absorvida como conhecimento. E todo conhecimento exige reflexão crítica para não ser assimilado como verdade. 



Frei Betto é escritor, autor de “Parábolas de Jesus – ética e valores universais” (Vozes), entre outros livros.



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