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sábado, 7 de agosto de 2021

O RELIGIOSO, O EDUCADOR E O OPERÁRIO


Prof. Martinho Condini


 

         Em 1909, 1921 e 1945, nos estados do Ceará e Pernambuco nasceram três crianças em famílias humildes, e enfrentaram os problemas típicos das famílias brasilerias: esforço para o sustento da família, criação e formação escolar dos filhos.

         Cada um desses jovens seguiu o seu caminho a partir de suas realidades sociais, histórias de vida e lugares de fala.

         A história do Religioso, do Educador e do Operário nos serve de exemplo, primeiro pela dificuldade de serem compreendidos pela sociedade brasileira, principalmente a elite. Segundo pela perseguição que eles enfrentaram dos seus opositores, no campo religioso, educacional, sindical e político. E terceiro pelo legado que nos deixaram a partir de seus feitos em prol do povo brasileiro.

         O mais incrível é que as pessoas que discordam das ideias e práticas de um dos três consequentemente não aceitam também as dos outros dois. Isso reforça a similaridade que os três tiveram em seus protagonismos na sociedade brasileira.  

         O Religioso, miúdo de gestos largos e fala forte e incisiva, fez da sua vida uma luta em favor dos pequeninos, como gostava de chamar os excluídos oprmidos da nossa sociedade.

          Na década de 1920, na cidade de Fortaleza criou o primeiro sindicato de trabalhadoras mulheres (empregadas domésticas) do Brasil.

         Na cidade do Rio de Janeiro, entre às décadas de 1940 e 1950, idealizou e fundou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e também teve participação direta na criação da Conferência Episcopal Latino (CELAM). Foi a principal voz latino americana e brasileira no  Concílio Vaticano II (1962-1965), uma das principais vozes na Conferência Episcopal Latino Americana de Medellín (1968), um dos precursores da criação da “Igreja do Pobres”, das “Comunidades Eclesiais de Base” (CEBs), da corrente teológica “Teologia da Libertação”. Criou a Cruzada São Sebastião, conjunto habitacional com 10 prédios, que na época abrigou os moradores da favela Praia do Pinto e Morro Azul, no bairro do Leblon. Fundou a Cáritas brasileira, criou o Banco e a Feira da Providência, a Comunidade de Emaús e participa da organização do Movimento de Educação de Base (MEB).

         Em 1964, enquanto ocorria o golpe militar, o Religioso era transferido para cidade de Recife, onde permaneceu até o seu falecimento em 1999.   

         Em Recife, foi o idealizador e fundador do “Movimento Esperança”, uma ação orquestrada por ele para ajudar as pessoas mais necessitadas e excluídas de Recife, grande Recife e posteriormente expandiu-se para outras regiões do estado de Pernambuco.  

         O Religioso se tornou a mais importante voz contra o regime ditatorial no Brasil. Foi o primeiro brasileiro a falar no exterior que no Brasil havia censura, tortura e morte. Foi calado por quase dez anos; os militares impediram que os órgãos de imprensa o entrevistassem ou mencionassem o seu nome. Sua voz foi calada no Brasil, mas ecoou mundo a fora, tornando-se “a voz de quem não tem voz”. A igreja onde morava foi metralhada por várias vezes. E ele não foi assassinado pela ditadura porque era uma liderança conhecida nacional e mundialmente pela sua incansável luta por justiça social e pelos direitos humanos. Por quatro vezes seguidas, por intervenção do Itamarati, não recebeu o “Prêmio Nobel da Paz”.   

         O Religioso foi a principal liderança da igreja católica progressista no Brasil e na América Latina na segunda metade do século XX.

         O Educador, também sensível às causas sociais, principalmente no que se refere à educação e alfabetização de jovens e adultos; no final da década de 1950, por meio de sua  práxis pedagógica realizou com outros educadores um processo de alfabetização de adultos na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte. Esse processo criado e coordenado pelo Educador foi revolucionário, sendo até hoje pesquisado e praticado por muitas educadoras e  educadores no Brasil e outros países.   

         O processo de alfabetização criado pelo Educador tem como base uma educação libertadora, onde a leitura de mundo das crianças, jovens e adultos é o princípio para a conscientização dos mesmos e consequentemente realizarem a transformação da sociedade e a de si mesmos, saindo da condição de oprimidos e excluídos.

         Por isso, o governo brasileiro, entre os anos de 1963 e 1964, convidou o Educador a coordenar e implantar o Programa Nacional de Alfabetização (PNA), com o intuito de alfabetizar milhões de brasileiros.

         Mas, assim que ocorreu o golpe militar em 1964, e instaurada a ditadura, o programa de alfabetização foi abortado e o Educador foi exilado do Brasil, retornando apenas em 1980. Neste período de dezesseis anos trabalhou no Chile, Estados Unidos, Suíça e vários países da África, aplicando a sua práxis alfabetizadora.

         Neste período escreveu vários livros. Um deles se tornou o esteio de sua filosofia e prática educacional, “Pedagogia do Oprimido”, que atualmente é o terceiro livro mais lido no mundo na área das ciências humanas.

         Após o seu retorno ao Brasil, construiu um legado a partir da sua prática como educador, professor universitário, pensador da educação e escritor. A sua maneira sempre muito amorosa, sincera e cativante de lidar com as pessoas foi algo peculiar.

         Hoje,o Educador é reconhecido mundialmente. Vários países adotam suas práticas educacionais para formar as suas crianças, jovens e adultos. Mesmo após o seu falecimento em 1997, ele inspira milhares de educadoras e educadores do Brasil e do mundo. Atualmente é o patrono da educação brasileira e indiscutivelmente foi o mais importante educador do Brasil.  

         O Operário teve a mesma história de milhões de nordestinos. Ainda criança vem com sua mãe e irmãos, de pau de arara, para São Paulo. Na infância pobre, ajudou no sustento da família, trabalhou como vendedor de amendoim, laranja, auxiliar de tinturaria, telefonista e bicos como engraxate. Adolescente, faz um curso de torneiro mecânico e torna-se operário da indústria na grande São Paulo.  E assim foi seguindo a sua vida, constituindo família, criando filhos e sempre na luta pela sobrevivência.

         Ao final da década de 1960, despolitizado, ingressou na diretoria do sindicato da sua categoria profissional.  Mas no decorrer dos anos foi compreendendo a relação de exploração entre  capital e trabalho. 

         Em 1975, em plena ditadura militar se torna presidente do sindicato e junto com outros companheiros constrói um “novo sindicalismo”. Um sindicalismo de luta em defesa da classe trabalhadora.

         Ao final da década de 1970 e começo da década de 1980, lidera as maiores greves de trabalhadores da história do Brasil na região do ABC na grande São Paulo, assembléias com mais de 150 mil trabalhadores, em um período em que greves de trabalhadores eram proibidas.

         A truculência do regime lhe custou várias prisões, mas isso não o fez esmorecer, e a sua luta pela melhoria das condições de trabalho refletiu em outras categorias profissionais.      Tornou-se uma liderança nacional para as trabalhadoras e trabalhadores deste país. 

         No início da década de 1980, o Operário percebe que a sua luta não era mais apenas ao lado da sua categoria profissional, mas uma luta a favor dos oprimidos e excluídos da sociedade brasileira. Então funda um partido político, o Partido dos Trabalhadores (hoje o maior partido progressista de esquerda do mundo), com o apoio de operários, camponeses, sindicalistas, intelectuais, representantes da igreja progressista, militantes de esquerda e de movimentos populares.

         O Operário se tornou a principal liderança política do Brasil dos últimos 40 anos em nosso país. Após quatro eleições presidenciais, tornou-se presidente da república por dois mandatos seguidos; em 2002 eleito com mais de 52 milhões de votos e em 2006 com mais de 58 milhões votos. Em seu governo, o Brasil, que era a 13ª potência econômica do mundo, tornou-se a 6ª, segundo o banco mundial. Também, em seu governo foi instituída a maior política de inclusão social da história desse país, possibilitando a milhões de pessoas ter um emprego, tomar café da manhã, almoçar e jantar com suas famílias. Além disso, fez com que mais de 36 milhões de pessoas saíssem da condição de miseráveis e milhares de jovens ingressassem no ensino superior e conquistassem melhores empregos e condições de vida.

         O Operário com seu carisma, sua sensibilidade e inteligência, tornou-se o mais popular e melhor presidente da história da nossa república.

         Estou convencido que esses três arrochados nordestinos, o Religioso Dom Helder Camara, o Educador Paulo Freire e o Operário Luiz Inácio Lula da Silva, oriundos de uma mesma raiz, estão irmanados pela mesma nordestinidade caracterizada pela coragem, valentia, caráter e perseverança.

         A busca de cada um deles pela justiça social, pelos direitos humanos, pelo respeito ao outro e pela dignidade para todos os pequeninos, oprimidos e excluídos, brasileiros e latino americanos, sintetiza o primor desses três arretados personagens da nossa história.

         Enfim, Helder, Paulo e Lula têm consigo a verdadeira brasilidade e o esperançar na construção de um Brasil genuinamente brasileiro. Protagonistas na história da igreja, da educação, do sindicalismo e da política brasileira, eles merecem todo o nosso respeito. Viva a liberdade, a democracia e os brasileiros comprometidos com o nosso povo!

        

  O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com 

 

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

CORPORATIVISMO DO CLERO RELIGIOSO



por Ivone Gebara

Escrevo sobre o corporativismo do clero religioso embora seja o corporativismo dos políticos quando defendem seus próprios interesses individualistas que esteja na ordem do dia. Entretanto, sobre este corporativismo os meios de comunicação têm se debruçado à exaustão e nosso estômago e razão aguentado demasiadas agressões, sobretudo diante do que o contexto atual tem nos mostrado. Além disso, muitos especialistas têm escrito análises interessantes sobre esse fenômeno que revela a inconsistência de nossas instituições políticas nas quais manipuladores atuam a céu aberto.

Hoje, nesse mesmo contexto, quero escrever sobre o corporativismo do clero, do clero religioso, aquele que se diz submisso a vontade de Deus, aquele que se acredita guardião da tradição do bem e da justiça, aquele que se auto-identifica como arauto da mensagem de Jesus e fiel à sua postura ética. A ele outros ‘religiosos’, embora sem regras e sem ordens clericais, se juntam formando a gloriosa extirpe dos leigos servidores da moral tradicional e da Igreja. Representam talvez as teologias fundamentalistaspor oposição às teologias pluralistas como escreve Boaventura Sousa Santos em seu livro “Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos”. Cortez 2014. Acreditam, talvez sem muita reflexão, que sua religião cristã é fundada numa Revelação divina eterna. Essa Revelação contém em si toda a História e por isso, segundo eles pode julgá-la segundo seus preceitos. Impõem, excluem e perseguem de forma sutil ou agressiva todas as pessoas que pleiteiam formas plurais de expressão da mesma fé cristã. Creem-se os únicos verdadeiros anunciadores da vontade divina que segundo eles é monolítica e intervêm na sociedade pluralista impedindo que seus membros reflitam de forma crítica sobre o mundo atual que é o nosso. Tal comportamento existiu no passado, mas no presente se reveste de formas especiais de manifestação. Ao criticá-los não estou destituindo-os de seu direito de existir, mas sim da usurpação que fazem do direito dos outros de pensar e agir de forma diferente. Estou criticando sua guerra ao pluralismo constitutivo de todas as vidas e em especial da vida humana nas suas múltiplas manifestações. Estou criticando seu fechamento dentro da comunidade cristã tornada quase um gueto. Negam o simples fato de que habitamos como diferentes o mesmo mundo e este dado não pode ser eliminado sob o risco de eliminarmos forças vitais.

corporativismo clerical é de direita, de esquerda, de centro e de muitas outras tendências conforme os interesses em jogo. Reproduzem as mesmas polarizações da política miúda caracterizada pela divisão de poderes; acusam-se mutuamente de conservadores e progressistas, etiquetam-se sem conhecer a origem histórica das etiquetas que colam uns nos outros. Apresentam-se ao público como mensageiros da ‘palavra de Deus’, como obreiros do Evangelho e em posse de um verniz religioso manipulam as massas com seus discursos, ameaças e muitas vezes com suas litúrgicas apresentações artísticas. Atraem multidões para si e estas os aplaudem e os glorificam quase como semideuses. Constroem comunidades virtuais que atacam outras como se fossem torcidas organizadas violentas e destrutivas de pessoas e instituições. Incitam ao ódio como forma de defesa da fé. Tudo virtualmente em nome de Deus, mas tudo com consequências desastrosas na vida de muitas pessoas.

Influenciam o agir de autoridades políticas e religiosas que inebriadas pelo número de seus seguidores confundem a popularidade superficial com a verdade. Eximem-se da responsabilidade de pensar os novos rostos e os novos desafios que constituem a sociedade plural em que vivemos e convivemos.
Alguns dentre eles, mesmo em época de fome generalizada, usam anéis e tiaras douradas. Vivem em casas confortáveis, quase palácios. Vestem-se de púrpura e sentam-se nos primeiros lugares de mesas cheias de iguarias saborosas oferecidas por indivíduos de grande prestígio social. Têm a reputação de sábios, instruídos na excelência do saber teológico espiritual capaz de conduzir o povo que julgam incapaz de seguir seu próprio caminho sem a ajuda de seus ‘legítimos pastores’. Eles mesmos estão convencidos de sua superioridade e, embora obrigados pela falsa humildade que lhes foi ensinada, tentam aparecer como iguais diante daqueles que os ouvem e se submetem a eles.

Hoje, talvez, já não obedeçam mais de fato a um poder central, mas cada um se faz ‘poder’ à sua imagem e semelhança imaginando que obedece a uma ortodoxia da verdade. Têm blogs, páginas, faces, seguidores, televisões a seu dispor... Disputam espaços na mídia ou convidam outros para fazê-lo em seu nome. Quando criticam alguém ou algum evento, imediatamente se auto-inocentam em nome de sua responsabilidade na preservação do povo de Deus ou da tradição que dizem defender. Hipocrisia e covardia não lhes faltam apesar da simplicidade e sociabilidade que acreditam ter e manifestar.

Atacam pessoas que pensam ou se apresentam de forma diferente apontando para a diversidade do mundo de hoje e para a necessidade de repensar a tradição cristãpara esse novo tempo. Vivem atacando os outros e, sobretudo as outras em nome de sua verdade que já não resiste mais à multifacetária realidade na qual vivemos. Refiro-me especialmente a ignorância desses doutos senhores em relação ao feminismo, à teologia feminista, ao movimento de mulhereslésbicasgaystrans e etc. Refiro-me ao seu racismo escondido e à sua xenofobia disfarçada. Refiro-me à sua misoginia flagrante ou disfarçada. Refiro-me às suas críticas e à falta de percepção quase proposital do mundo em que vivemos assim como das justas reivindicações de direitos de muitos grupos. Controlam as consciências assim como os meios de comunicação o fazem sem que percebamos seu controle e sua nefasta influência.

Apelam para o respeito e agem com desrespeito. Apelam para os bons costumes e agem imaginando que apenas seus costumes são bons. Falam de um mundo mítico e ludibriam as pessoas com esperanças vãs. Falam de justiça, mas não movem uma palha para que ela aconteça.

Fazem-me lembrar do profeta Isaias embora o contexto seja outro. “Esse povo é rebelde, constituído de filhos desleais, de filhos que se recusam a ouvir a Verdade e dizem aos videntes: ‘ não queirais ver’ e aos seus profetas: ‘ Não procureis ter visões que nos revelem o que é reto’. Dizei-nos antes coisas agradáveis, procurai ter visões ilusórias. Afastai-vos do caminho, apartai-vos da vereda, fazei desaparecer da nossa presença a Santidade”. Isaias 30, 9 a 11.
Isaias continua denunciando a mentira, a fraude, a tortuosidade dos caminhos apresentados como caminhos de justiça e de Deus. De que Deus?

Mas de quem estou falando? O que estou querendo denunciar? Estou falando da má fé, da surdez, da cegueira, do dogmatismo de tantos clérigos e ‘leigos’ em relação aos fundamentos de sua fé. Quero denunciar a máfia da religião, mesmo daquela que se apresenta de forma digna e defensora dos pobres. Ela também se esconde como amante e proprietária da verdade e não é capaz de reconhecer os limites de suas afirmações. Quero especialmente denunciar a perseguição que muitas mulheres têm sofrido nas Igrejas cristãs e particularmente na Igreja Católica romana através da censura a seus trabalhos, através da proibição de sua expressão nos espaços ditos de Igreja, através da anulação de cursos e conferências de que estão sendo vítimas.

Quando um bispo ou um cardeal ou o núncio proíbem uma professora de cumprir sua responsabilidade em assessorias previamente aceitas e, sobretudo a convite de comunidades locais esses senhores apelam para que se evite o escândalo das novas idéias radicais e se mantenha a fé e os costumes. Fé de que tempos e a partir de que costumes? Não percebem a indissociabilidade de nossos corpos, de nossos gêneros, de nossas diferentes culturas e tempos. Não percebem a contradição dos poderes que dizem representar?

Na realidade me parece que essas autoridades estão no mesmo ato da proibição dos cursos e conferências declarando a comunidade cristã como incapaz, como ‘menor’ para julgar seus processos formativos. Estão declarando a comunidade cristã incapaz de discernimento e de análise do mundo em que vivem. Estão impedindo-a de escolher seus rumos mesmo que apareçam mais tarde como equivocados. Talvez essa seja a parte mais triste dessa triste história de nossa atualidade eclesial. Ou seja, a exclusão da comunidade cristã do direito de pensar, do direito de escolher, de assumir sua responsabilidade diante da vida corrente e de seus múltiplos desafios e transformações.

sistema religioso vigente apesar de algumas aberturas mantêm-se através de poderosas ‘estruturas de ordem’. A partir delas se afirmam normas, comportamentos, ensinamentos como se fossem realidades objetivas indiscutíveis. Por isso mesmo, esses senhores ‘pastores’ julgam-se donos de suas ‘ovelhas’, únicos capazes de encontrar os bons caminhos para seu ‘rebanho’, únicos capazes de orientar suas escolhas e as formas políticas que escolheram para se orientar na sociedade atual. Não estaria na hora de mudar a imagem das ovelhas submissas a um pastor e introduzir a imagem dos amigos/as que conversam juntos, que discernem e que olham para a necessidade uns dos outros?

Sem dúvida, através das autoridades religiosas, o ‘Santo Oficio’, hoje Congregação para a Doutrina da Fé, continua sub-repticiamente exercendo suas funções através de outras formas de coerção. Na maioria das vezes não há mais o decreto romano de interdição vindo diretamente do Vaticano, mas o decreto romano se faz local e se expande de forma assustadora tomando posse de lugares, de instituições, de meios de comunicação onde apenas ‘uma verdade’ pode ser transmitida e ensinada. Recusam-se ao diálogo, não querem conversar sobre as questões atuais mesmo quando são convidados por suas vítimas. Fazem ouvidos surdos a esses apelos.
Às vezes, chegam a crer que entendem de todos os assuntos a partir de sua leitura das Escrituras e de sua teologia. Controlam corpos, definem comportamentos, definem teorias, julgam a arte e a literatura, determinam mediações sociológicas e filosóficas, sem o menor diálogo com as comunidades plurais que constituem as igrejas. A discussão que reduz as questões de gênero à ideologia e a crítica ao feminismo como destruidor da família estão nessa linha. Da mesma forma a nota da Arquidiocese de Porto Alegre em relação à Exposição do Santander cultural “Queer museu” (11/9/2017) torna-se mais um exemplo do que estou querendo denunciar. Ao mesmo tempo em que falam de combater o preconceito falam do respeito às minorias. Quais preconceitos combatem? A quais minorias se referem? E qual o respeito que dedicam aos seus fiéis e não fiéis? Dizem que o ‘museu cultural queer’ é uma agressão a fé e ao corpo. Mais uma vez, qual fé e qual corpo?

Entretanto, não criticam os que são dogmáticos defensores da ordem estática. Não chamam a atenção à sua ação destrutiva, às guerrilhas que organizam pela internet para desabonar pessoas e instituições. Não impedem sua violência física e simbólica. Não proíbem e não condenam esses malvados súditos de expressarem seu ódio pelos ‘diferentes’ em meio a essa profunda confusão em que vivemos. Estes malvados não querem ouvir outras vozes, não querem conhecer outras realidades. Estão convencidos que agem segundo a ordem de Deus e que essa ordem imutável trará a salvação para todos.

Talvez muitos dirão que confundo as coisas e que há que distinguir os bons hierarcas dos grupos incontroláveis. Há que distinguir, mas nessa ‘salada’ que é a nossa tudo se confunde, sobretudo quando as autoridades religiosas não enfrentam as questões que afligem as comunidades.

Os tradicionalistas podem pensar de seu jeito e segundo sua escolha, mas não podem impor esse caminho para aquelas e aqueles que nascendo ou acolhendo uma comunidade católica como umas das referências de sua vida se vejam obrigadas/os a calar diante da pretensa hegemonia de interpretação teológica e ética que as autoridades impõem.

corporativismo clerical mantém as injustiças contra todas e todos que se sentem excluídos das formulações teológicas e políticas dos hierarcas e de seus sustentadores. O corporativismo clerical mantém a censura às novas ideias e decide o que acolhe e o que rejeita no seio das comunidades cristãs. Elas não têm voz e nem vez para se organizarem de forma diferente.

baixo clero, facilmente se defende e acusa o alto clero em relação ao que foi proibido. Mas sempre acabam se submetendo. Fazem corpo entre si e, mesmo se no corpo haja dissidências teóricas ou apenas retóricas, seu lamento muitas vezes parece falso como uma desculpa de cortesia e sem fundamento real. Mesmo pessoas as mais bem intencionadas envolvem-se nessas discussões e acabam se limitando a apoios formais que na realidade não produzem nenhum efeito de revisão e mudança no comportamento do clero e de seus cúmplices e subordinados. Não assumem sua responsabilidade pessoal na mudança. Estão sempre a jogar para o outro a responsabilidade pelo que está acontecendo e em última análise apoiam-se em Deus, pois afirmam agir segundo sua vontade ou segundo as Escrituras. Nessa linha descartam levianamente tudo o que parece ser diferente de seu conceito de injustiça social. Não percebem que a injustiça é entranhada em diferentes comportamentos humanos, até o mais cotidianos, até os mais litúrgicos, os mais domésticos. Isentam-se das chamadas responsabilidades menores aquelas que têm a ver com o mundo doméstico e de suas mantenedoras enquanto se mostram proclamadores de sua justiça social. Escolhem sua forma de justiça sem perceber a interdependência entre elas. E, é nesse ‘bom e salutar’ espírito que acabam destruindo a tradição ética dos Evangelhos e tornando o cristianismo inviável para aqueles que não se enquadram na ordem metafísica perfeita dos funcionários de Deus.

A propaganda antifeminista que encabeçam é a atração mais exuberante de concordismo em relação a uma ‘pequena tradição’ e, a meu ver, um alimento suculento entregue aos fascismos políticos de nosso tempo. Os preconceitos contra as mulheres aumentam a violência contra elas e incitam ao ódio às minorias étnicas e sexuais que constituem o chamado ‘povo brasileiro’. Um fosso se abre no interior das igrejas cristãs. Cada vez mais perdem membros oficialmente identificados à instituição. Diante do obscurantismo de seus líderes leigos ou clérigos há um notável abandono ou um recuo em relação às conquistas de um humanismo plural e respeitoso da diferença.

Não pretendo que eliminemos o pluralismo de direita, de esquerda ou de centro. Gostaria que eliminássemos as formas de exclusão e destruição de nós mesmos. Gostaria que percebêssemos que o direito à diferença é um direito vital e quanto mais o outro é diferente mais tenho que respeitá-lo e esperar que me respeitem. O respeito não é a conivência com o mal e não é também o ataque mortífero àqueles que não pensam como eu. Aceitar o paradoxo da vida, aceitar que nenhum pensamento explica todas as vidas e, além disso, como já dizia Hannah Arendt em vários textos de ‘Compreender’ (Companhia das Letras, 2008) que ‘ a realidade se apresenta diretamente ao homem como incerta, incompreensível e imprevisível’. Por isso não conseguimos resolver nossos problemas a partir dos conflitos do pensamento, das morais, dos partidos políticos. Há que desenvolver em nós um ‘coração de carne’, sensível à dor do outro, sensível a diferença do outro que me atormenta e ao mesmo tempo é condição da vida comum. Nenhuma pessoa pode se erigir em dona da verdade... Somos todos caminhantes e não há caminhos bons e verdadeiros antecipadamente. Sem nenhuma pretensão a ter razão ouso apenas pensar e propor de novo o respeito efetivo à diversidade.


Ivone Gebara é filosofa e teóloga feminista. Foi professora do Instituto de Teologia do Recife e trabalhou na formação de agentes de pastoral para o meio popular sobretudo do nordeste do Brasil. Doutora em Filosofia e Doutora em Ciências religiosas é autora de muitos livros e artigos. Vive atualmente em São Paulo e pertence à Congregação das Irmãs de Nossa Senhora.
É uma das principais defensoras da Teologia Feminista, irmã da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora. Aos 73 anos, tem mais de 30 livros publicados e dezenas de artigos sobre a temática 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

ENSINO RELIGIOSO NAS ESCOLAS?




Por Frei Betto

      O STF se debruça, nesta quarta-feira, sobre o polêmico tema do ensino religioso nas escolas. Ora, a própria adjetivação de religioso é falaciosa. O ensino pode e deve ser religioso em escolas confessionais, sejam elas católicas, protestantes, judaicas etc.

      Em um país laico como o Brasil não faz sentido falar em ensino religioso na rede pública. Deve-se, sim, incluir o ensino das religiões, assim como há o das civilizações. É inconcebível que um aluno termine o curso sem noções a respeito das grandes vertentes religiosas, como judaísmo, cristianismo e islamismo, bem como o que é espiritismo, umbanda, candomblé, santo daime e outras manifestações religiosas ou espirituais, como o budismo, encontradas no Brasil.

      Debater se o ensino deve ser das religiões ou religioso chega a ser redundante. Importa é o conteúdo das religiões. E todas que merecem fé têm em comum os mesmos princípios éticos: amor ao próximo, cuidado da natureza, partilha dos bens, solidariedade, atenção aos necessitados, tolerância ao diferente, respeito à diversidade de crenças, combate à discriminação e ao preconceito. 

      Essa ética deveria ser o tema transversal de todas as matérias curriculares. É o mínimo que se espera de uma educação de qualidade.

      Vale recordar as palavras do papa Francisco no Teatro Municipal do Rio, a 27 de julho de 2013: “Favorável à pacífica convivência entre religiões diversas é a laicidade do Estado que, sem assumir como própria qualquer posição confessional, respeita e valoriza a presença da dimensão religiosa na sociedade, favorecendo as suas expressões mais concretas.” 

Frei Betto é escritor, autor de “Um Deus muito humano” (Fontanar), entre outros livros.


Copyright 2017 – FREI BETTO – Favor não divulgareste artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

SOR CRISTINA: FENÔMENO VOCAL E RELIGIOSO





Por Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio




 

            Fui educada em colégio de freiras, o saudoso Nossa Senhora de Sion, que existe até hoje, embora com menos religiosas andando por suas galerias e salas de aula do que no meu tempo.  E desde pequena impressionava-me muito a vida de minhas educadoras, mulheres consagradas, que haviam renunciado a formar uma família e às alegrias legítimas da vida, para dedicar-se inteiramente a Deus e seu Reino.

            Ao longo de minha formação conheci muitas irmãs, dos mais variados temperamentos e perfis.  Havia as que nos davam medo, bravas e sérias.  Outras, nos faziam rir, partilhando conosco uma alegria meio infantil, pura e correndo conosco pelos corredores, cúmplices de nossas travessuras.  Outras transpiravam bondade pelos poros e nos comoviam com sua personalidade inteiramente voltada para o amor e o serviço.

            Tempos depois, estudando teologia, eu as tive como colegas, companheiras e pares.  Mas também as conheci ao dar assessorias por lugares longínquos e desconhecidos do Brasil, ou mesmo em periferias do Rio de Janeiro.  Ali eu as via missionárias, fazendo tripla jornada, com profissão, trabalho pastoral e noites sem dormir, atendendo os necessitados do bairro ou do campo.  Ali onde ninguém queria estar, estavam as irmãs, dando a totalidade de sua fecundidade não tornada maternidade biológica, mas transformada em maternidade real e teologal, ajudando fracos e oprimidos, fazendo brotar vida onde a vida seria humanamente impossível.

            Lembro-me ainda, nos dias de minha juventude, de uma religiosa dominicana belga, Soeur Sourire (Irmã Sorriso), que gravou um disco de imenso sucesso, cujo carro chefe era uma canção que falava da vida de São Domingos e cujo estribilho soava assim: Dominique, nique, nique... A Irmã Sorriso cantou e gravou discos até o dia em que saiu da congregação e fundou com uma amiga uma escola para crianças autistas.  As dificuldades financeiras e os obstáculos para relançar-se como cantora conduziram-na à depressão e posteriormente ao suicídio.  Irmã Sorriso levou até o final de sua tumultuada história a cruz dos dominicanos pendurada em seu pescoço.

            Por que todas estas histórias?  Porque estou muito impressionada com o mais recente sucesso do programa The Voice, a freira ursulina italiana Cristina Scuccia.  Dona de uma voz belíssima e potente, e de um domínio de palco e de corpo incomparáveis, Sor Cristina ganhou o primeiro lugar na edição italiana do The Voice e bateu todos os recordes no YouTube com mais de 100 milhões de visitas em seus vídeos.  Seu primeiro disco, “Sister Cristina” está prestes a sair.

       Ultimamente, Sor Cristina tem se tornado fonte de perplexidade nos meios católicos por haver incluído neste último a canção Like a Virgin, grande sucesso da polêmica cantora pop Madonna. Ela o faz com novo ritmo, de balada romântica, mas a escolha não deixa de escandalizar os católicos mais conservadores, que creem que as freiras deveriam estar trancadas nos conventos e clausuras, dedicando-se a rezar e fazer penitência.  Uma freira cantora dificilmente entra nesses parâmetros.

            Sor Cristina não tem medo das críticas.  Ao contrário, as enfrenta com coragem e ao mesmo tempo com doçura e serenidade.  Afirma e reafirma que a escolha da canção de Madonna não tem como objetivo escandalizar a audiência.  Incluiu-a em seu repertorio depois de escutá-la atentamente e descobrir que versa sobre a capacidade de amar e de renovar as pessoas. 

            Ao reparar na letra da canção, não podemos não achar que Sor Cristina faz uma interpretação possível, pois as palavras falam de uma mulher que estava “vencida, incompleta, havia sido enganada, triste e deprimida” ...até que encontra alguém, que a faz sentir-se radiante e nova.”  É então que canta o mote da canção: “Como uma virgem tocada por primeiríssima vez.  Como uma virgem quando teu coração bate junto ao meu.”  Sor Cristina, na flor de  seus 26 anos, declara que sente uma grande responsabilidade diante do dom e do talento que Deus lhe deu e que seu único objetivo é prestar seu testemunho entusiasta por haver encontrado  Cristo.  Tudo que deseja é transmitir sua vivência.

            Apesar de todos os riscos, não podemos deixar de admirar a audácia desta religiosa jovem e talentosa, que acaba de renovar seus votos de pobreza, castidade e obediência, e que pretende doar o que ganhar com a venda de seu disco a obras de caridade. Se a Igreja tem que estar na rua, sacudindo os corações, como deseja o Papa Francisco, por que não poderia chegar a Boa Nova aos jovens de hoje pela bela voz dessa inusitada intérprete?

            Quando se trata do Evangelho de Jesus é preciso ousar.  Sem medo.  Sor Cristina ousa. Bendita seja!  Ela tem quem por ela olhe.  A superiora já lhe disse que o mais importante é não descuidar de sua vida espiritual. Concordamos e aplaudimos, Sor Cristina.  Conte com nossas orações e nossa vibração pela beleza que você faz o mundo ouvir.



A teóloga é autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco.  

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