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sexta-feira, 16 de junho de 2023

Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe

                                     Leonardo Boff


“Deus não existe”, estimava o físico e  astrônomo Stephen Hawking  que morreu em março de 2018. Retrucarei com um filósofo e teólogo medieval, dos mais perspicazes, a ponto de se chamado de “doutor sutil”, o franciscano escocês Duns Scotus (1266-1308):”Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe”.

Ambos, Hawking e Scotus, têm razão. O famoso físico e identificador dos “buracos negros” se move dentro da bolha da física, daquilo que pode ser medido, calculado e feito objeto de experimentação empírica. Buscar Deus dentro deste paradigma significa não poder encontrar Deus porque Deus não é uma coisa, com as características das coisas, por minúsculas que sejam (um topquark ou o bóson de Higgs) ou pelas maiores que se apresentem como o conglomerado de galáxias de tamanho incalculável. O máximo que a razão poderia dizer é que Deus é o “Ser que faz ser todas as coisas”, não sendo uma coisa.

Então, a partir da física, vale  afirmação de que “Deus, de fato, não existe”. Só que a física não é a única janela de acesso ao real.

Há outras realidades que, por não serem físicas, não deixam de ser realidades. Assim um minhoca jamais entenderá uma música de Vila Lobos, nem o coronavírus saberá apreciar um quadro de Tarcila.São realidades de natureza diferente.

Duns Scotus tem também razão porque, ao nos referirmos a Deus, sustenta ele, estamos pensando numa Última Realidade que transcende todos os limites da física, do espaço e do tempo ou de qualquer outra forma de conhecimento. É o Inominável e o Inefável, Aquele que não cabe em nenhuma linguagem, nem em nenhum dicionário.  Deus não é um fato da realidade palpável que pode ser captada e dita. Por sua natureza Ele está além dos fatos. Ele é Aquele face ao qual devemos,reverentemente, calar, expressando o Nobre Silêncio. Essa é a verdadeira posição do pensamento radical que se expressa pela filosofia e pela teologia, tão bem elaborado nos escritos de Duns Scotus Enfatizando: Ele é o Mistério que transcende qualquer realidade dada, mensurável ou captável pelo ser humano. Quem viu claro isso foi o filósofo vienense Ludwig Wittgenstein (1889-1951) em seu famoso Tractatus Logico-philosophicus (1921) ao dizer:”A ciência estuda como o mundo é; o místico se admira que o mundo é. Seguramente existe o Inefável. Isso se mostra, é o  místico….Sobre aquilo que não podemos falar,devemos calar”(aforismo 6 .522).

Aqui ressoa a frase famosa de Gottfried  Leibniz (1646-1716): “por que existe o ser e não o nada”? A essa questão não cabe resposta: é o Mistério do ser, face ao nada. Face ao Mistério do ser, deve-se antes  calar do que falar, porque tudo o que dissermos fica aquém do Mistério que é Inefável e Inexprimível e já supõe que estamos no ser.

 Mas não estando no horizonte das coisas, Deus no entanto está no horizonte do sentido. Por isso assevera Wittgenstein: “Crer num Deus significa compreender a questão do sentido da vida. Crer num Deus significa perceber que ainda nem tudo está decidido com os fatos do mundo. Crer em Deus significa perceber que a vida tem um sentido”(Id.ibd).

Mas voltemos a Hawking: todos os grandes cientistas a começar por Newton que introduziu o matematismo na natureza, passando por Einstein e outros, chegando ao genial inglês, buscavam uma fórmula que desse conta de toda a realidade. O intento era uma “Teoria do Tudo” (TOE em inglês: Theory of Everything) ou também chamada de “Teoria da Grande Unificação”(TGU).

Há dois livros clássicos que resumem os caminhos e des-caminhos desta magna questão: John B.Barrow, Teorias de Tudo: a busca da explicação final (Zahar 1994) e o de Abdus Salam, Werner Heisenberg,Paul Dirac, A unificação das forças fundamentais: o grande desafio da física contemporânea (Zahar 1994). Todos acabaram reconhecendo o fracasso desse intento. Na expressão de John Barrow:”Toda a vida cotidiana, o que move os seres humanos em sua busca de felicidade e em sua tragédia, não cabem da concepção física do “Tudo”.

O último a reassumir esta questão foi exatamente Stephen Hawking em seu famoso  livro Uma breve história do tempo (Ediouro 2005). Tentou de todas as formas. Ao final, reconheceu a impossibilidade afirmando:” Se realmente descobrirmos uma teoria completa, seus princípios gerais deverão ser, no devido tempo, ser compreensíveis por todos, e não apenas por uns poucos cientistas. Então, todos nós, filósofos, cientistas e simples pessoas comuns, seremos capazes de participar da discussão de porquê é que nós e o Universo existimos. Se encontrássemos uma resposta para essa pergunta, seria o triunfo último da razão humana porque então conheceríamos a mente de Deus”(Uma breve história do tempo, p. 145). Refere-se a Deus e a sua mente abscôndita. Esse Deus-Mistério se encontra na raiz de todas as existências, sustentando-as e fazendo-as continuamente subsistir, mas sempre se subtraindo à vista humana. Por isso as Escrituras judeu-cristãs afirmam: ”Deus mora numa luz inacessível que nenhum ser humano viu nem pode ver”(1Tim 6,16; Sal 104,2; Ex 33,20; Jo,1,18;  1Jo 4,12).

Então cabe, realmente, concluir: se Deus existe como as coisas existem, então Ele não existe”. Para além das coisas, Ele existe, com uma natureza diversa das coisas, como Aquele que tirou tudo do nada e continuamente subjaz a tudo o que existe e poderá existir.

Leonardo Boff é filósofo, teólogo e escreveu: Experimentar Deus hoje:a transparência de todas as coisas, Vozes 2012;Tempo de transcendência, Vozes 2009.

 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

RECONSTRUÇÃO SE FAZ COM MOBILIZAÇÃO

Frei Betto


 

       A vitória eleitoral de Lula sinaliza a derrota das forças destrutivas que se apoderaram da administração federal nos últimos quatro anos. Não sei se o lema do novo governo – “União e Reconstrução” – se transformará em fato. União nacional não é tarefa fácil. 

       A cultura bolsonarista, impregnada de ódio, contaminou inúmeras pessoas que se somaram aos 58 milhões de votos recebidos por Bolsonaro no segundo turno. E não há possibilidade de união nacional nessa sociedade injustamente marcada por gritante desigualdade social. 

       Contudo, reconstrução é viável. Lula tem plena consciência do que precisa ser feito. Seus discursos de posse expressam o caráter deste terceiro mandato, onde se destacam três prioridades: combater a fome e a insegurança alimentar; reduzir a desigualdade social; proteger nossos biomas e fortalecer as políticas socioambientais.

       Lula está atento ao que deveria ter sido feito em seus primeiros mandatos e, por força da conjuntura, não aconteceu. Sabe que, agora, é talvez sua última oportunidade de governar o Brasil. Na conversa privada que tivemos no Itamaraty, na noite de 1º de janeiro, eu disse a ele que este é o início de seu penúltimo mandato. Ele sorriu. Estou convencido de que será candidato à reeleição em 2026, aos 81 anos. A quem alega a idade avançada, lembro do cardeal Roncalli, eleito papa João XXIII com 77 anos, em 1958, e com 80 promoveu uma revolução na Igreja Católica ao convocar o Concílio Vaticano II.

       Nos mandatos anteriores, Lula assegurou sua governabilidade pelo modelo “saci-pererê”, apoiada em uma só perna: o Congresso Nacional. Agora sabe que a perna mais importante é a da mobilização popular. Espero que ministros e ministras se deem conta de que apoio popular não se confunde com os 60 milhões de votos recebidos por Lula. Depende de intenso trabalho pedagógico. Não brota do espontaneísmo nem resulta automaticamente das políticas de inclusão social. Feijão não muda automaticamente a razão. 

       Participação cidadã advém de consciência crítica, organização e mobilização. E o governo federal dispõe de amplos recursos para promovê-las, desde poderoso sistema de comunicação à seleção de livros didáticos. Sobretudo valorizar a capacitação política de seus representantes em contato direto com a população, como os 400 mil agentes comunitários de saúde.

       Sem povão não há solução!

 

Frei Betto é escritor, autor de “Tom vermelho do verde” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

  

Frei Betto é autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

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sábado, 14 de janeiro de 2023

Eles se recusam a viver juntos: o sentido do golpe demente

 Leonardo Boff


São muitas as interrogações que o golpe frustrado de 8 de janeiro em Brasília, suscita. Estarrecidos,nos perguntamos como podemos ter chegado a esse nível de barbárie a  ponto de destruir os símbolos do governo de uma nação: os três poderes, o executivo,o legislativo e o judiciário? Isso não acontece por acaso. É consequência de fatores histórico-sociais anteriores que se materializaram na vandalização dos três palácios.

Filosoficamente podemos dizer  que a dimensão de  demens (demência, excesso,ausência da justa medida) sufocou  a outra dimensão de sapiens (de racionalidade, de equilíbrio) que sempre a acompanha, pois esta é a condição humana. Ocorre que o demens prevaleceu sobre o sapiens e inundou a consciência de numerosos grupos humanos.

Tal fato mostra o lado perverso da cordialidade descrita por Sérgio Buarque de Holanda quando em Raízes do Brasil(1936) fala do brasileiro como homem cordial. A maioria dos analistas esquece a nota de rodapé que o autor faz ao explicar que cordialidade vem de coração. Neste coração há bondade,bem-querença,hospitalidade. Mas há também ódio, maldade e violência. Ambos tem sua sede no coração dos brasileiros.

O povo brasileiro mostrou a cordialidade nestas duas dimensões, a luminosa e a tenebrosa. Em Brasília desceu o espírito da demência pura, sem qualquer laivo de racionalidade, destruindo os órgãos que representavam a democracia e a república.

Por que irrompeu a demência? Ela é fruto de uma história demente que começou com o genocídio dos povos originários, se implantou a colônia, como uma feitoria, um empresa para fazer dinheiro e não para fundar uma nação. Agravou-se desmedidamente pelos 300 anos de escravismo quando pessoas arrancadas de África foram aqui feitas coisas, animais para o trabalho, escravos submetidos a todo tipo de exploração e violência a ponto que a idade média deles,segundo Darcy Ribeiro, não passar da 22 anos tal era a brutalidade que sofriam. A abolição os jogou ao deus-dará, na rua e na favela sem qualquer compensação. Essa dívida clama aos céus até os dias de hoje.

Terminada a colonização, o povo brasileiro, no dizer do grande historiador mulato Capistrano de Abreu, foi “capado e recapado, sangrado e ressangrado”. Essa lógica não foi abolida pois está presente nos 30 milhões de famintos, nos 110 milhões com insuficiência alimentar e com mais da metade de nossa população  (54% de ascendência africana) pobre vivendo nas periferias das cidades, nas favelas e em condições desumanas.

Os donos do poder, “a elite do atraso”como a denomina pertinentemente Jessé Souza, sempre controlaram o poder político mesmo nas várias fases da república e nos poucos períodos de democracia representativa. As classes endinheiradas fizeram entre si a política de conciliação, jamais de reformas e de inclusão. Logicamente se construíram várias constituições, mas quando foi que elas regularam e limitaram a ganância dos poderosos?

O nosso capitalismo é um dos mais selvagens do mundo, a ponto de Chomsky dizer::”O Brasil é uma espécie de caso especial; raramente vi um país onde elementos da elite têm tanto desprezo e ódio pelos pobres e pelo povo trabalhador”. Ele nunca se deixou civilizar. Mal houve luta de classes porque eles com violência (secundada pelo braço militar) a esmagou impiedosamente.

Tivemos e temos democracia, mas sempre foi frágil e foi e é continuamente  ameaçada, como se viu no vários golpes, contra Vargas, Jango,Dilma Rousseff e no dia 8 de janeiro do corrente ano. Mas ela sempre ressurgiu.

Tudo isso deve ser tomado em consideração para termos um quadro que nos faz entender o recente golpe demente e frustrado. Vale a observação de Veríssimo num twitter: o anti-petismo não é de agora, o anti-povo está no DNA da classe dominante. Ela nunca permitiu que alguém vindo do andar de baixo, subisse a outro,  ocupando o centro do poder, como ocorreu com Lula/Dilma e novamente com Lula em 2023. Fez-lhe todo tipo de oposição e manobras golpistas, apoiadas pelo braço ideológico da grande imprensa corporativa.

Há um outro ponto a ser considerado: a cultura do capital. Ela exacerbou o individualismo, a busca de bem-estar individual ou corporativo, nunca para todo um povo. Tal ethos impregnou a sociedade, os processos de socialização, as escolas, as mentes e os corações das pessoas menos críticas. Todos, de certa forma, somos reféns da cultura do capital pois nos obriga a consumir bens supérfluos se implantou no mundo inteiro, gerando a desgraça planetária, jogando grande parte da humanidade na marginalização e pondo em risco a vida sobre o planeta Terra. Ela criou consumidores e não cidadãos.

A ditadura deste individualismo levou a muitos, a milhares a não quererem viver juntos. Preferem suas Alfa Villes e seus bairros restritos a endinheirados e especuladores. Ora, uma sociedade não existe nem se sustenta sem um pacto social. Ele se expressa por certa ordem social, materializada numa Constituição e nas leis que todos se comprometem a aceitar. Mas tanto a Constituição quanto as leis são continuamente violadas, pois o individualismo solapou o sentido do respeito às leis, às pessoas e à ordem convencionada.

Os que estão por trás da intentona de Brasília, são tais tipos de pessoas que se consideram acima da ordem existente. Há pessoas de todas as classes, mas principalmente,representantes do grande capital. Não esqueçamos do último relatório da Forbes que dava os dados dos opulentos do Brasil: 315 bilionários, grande parte vivendo do rentismo e não da produção de bens de consumo.

O principal fator que criou as condições para este golpe frustrado, foi a atmosfera criada por Jair Bolsonaro que suscitou a dimensão demente em milhões,tomados por ódio, truculência, discriminações de todo tipo e desprezo covarde de pobres e marginalizados. A eles cabe a responsabilidade principal pelo envenenamento de nossa sociedade com traços de desumanidade, regressão a modelos sociais velhistas e não contemporâneos. Nem a religião escapou desta pestilência,especialmente em grupos de igrejas neopentecostais e também em grupo de católicos conservadores e reacionários.

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Graças a rápida determinação dos Ministros do STF e do TSE nomeadamente do ministro Moraes e no caso do golpe a atuação rápida e inteligente do Ministro da Justiça Flávio Dino que convenceu o presidente Lula, face à gravidade da questão, a ordenar uma intervenção federal em termos de segurança no Distrito Federal.Assim, de última hora, se conseguiu abortar um golpe. A estupidez dos invasores das três Casas do Governo e a destruição que lá perpetraram, freou a junta militar que, segundo o plano revelado do golpe, assumiria o poder na forma de uma ditadura com a prisão de todos os ministros, fechamento do Congresso e atos de repressão já conhecidos em nossa história.

Pode a democracia ter seus defeitos e limites,mas é ainda a melhor forma de nos permitir viver juntos, como cidadãos participativos e com garantia de direitos. Sem ela resvalamos fatalmente para a barbárie e a desumanização nas relações pessoais e sociais. Essa democracia tem que ser construída dia a dia, ser cotidiana, aberta a enriquecimentos e a se transformar numa verdadeira cultura permanente.

Leonardo Boff escreveu Brasil:concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018: Habitar a Terra:qual o caminho para a fraternidade universal,  Vozes 2022.

 

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Para que este ano novo se torne de fato Novo

 Marcelo Barros


Nestes dias, por todo o mundo, as pessoas dizem umas às outras os votos de feliz ano novo. Há quem acredite que, pelo fato de se falar, o desejo se torna realidade, quase de modo automático. Outros pensam que o próprio desenrolar do tempo faz as coisas ficarem melhores.

Alguns povos tradicionais ainda guardam costumes como, na noite do ano novo, queimar toda a roupa usada e iniciar esse tempo com vestimentas brancas ou novas, símbolo de renovação da vida. Na madrugada do primeiro dia do ano, fieis dos cultos afrodescendentes vão às praias e rios com flores e oferendas aos espíritos do céu e da terra. Em nome de todos os seres humanos, cantam sua disposição de amor e comunhão universal.

As perspectivas de 2023 para o mundo não parecem otimistas. A ambição das grandes potências, o interesse das industrias armamentistas e os projetos imperialistas dos Estados Unidos e da Rússia mantêm a guerra na Ucrânia e garantem outras guerras pelo mundo. A ONU ainda tenta salvar a ecologia a partir de projetos capitalistas como entregar a defesa da natureza a grandes empresas. A água continua sendo tratada como mercadoria a ser privatizada. Mesmo sabendo que as pandemias ameaçam toda a humanidade e ninguém se salva sozinho, a Organização Mundial da Saúde ainda se omite em relação à campanha mundial para que todas as vacinas contra vírus sejam gratuitas e para todos e todas.

Na América Latina, o sonho de uma pátria grande solidária exige mais esforços. A guerra dos meios de comunicação contra qualquer transformação do mundo a favor dos empobrecidos continua implacável.

No Brasil, o ano novo foi marcado pela imagem da posse de um novo governo. Na cerimônia, ficou marcada para a história a imagem de um velho índio, a criança negra, a catadora de material reciclável e mais outras pessoas, representativas da população mais empobrecida ao subir a rampa do palácio do Planalto com o presidente Lula. Tomara que este gesto tão forte de simbolismo não se dilua na cultura vigente que ainda mantém uma separação gritante entre governo e sociedade civil. No dia da posse, o ritual prevê o encontro do Presidente eleito com o Congresso e os poderes constituídos, mas o povo é mantido do lado de lá da cerca armada depois do lençol de água que separa o palácio da população. Parece que ao povo compete apenas acenar e aplaudir.

Para que, no Brasil e no mundo, este ano novo se torne realmente um tempo novo, será necessário firmar as bases de uma sociedade civil organizada a partir da inclusão social e de uma educação para a Paz, a não-violência e o diálogo. Sem dúvida, as religiões que, durante séculos, conviveram com as desigualdades e as injustiças sociais e muitas vezes as legitimaram, têm agora a função de desenvolver uma espiritualidade libertadora que testemunhe Deus como Amor e não como poder opressor.

No Fórum Social, ocorrido em Túnis, na África, em 2015, havia um grande folder no qual estava escrito: "A humanidade precisa de uma verdadeira revolução. Só a nossa ousadia pode torná-la possível". Essa ousadia comunitária parte da convicção de que o amanhã pode ser diferente. Para os cristãos, nos alegra mais ainda a fé de que, nesse caminho, estamos sempre acompanhado por Jesus ressuscitado que disse a seus discípulos/as: "Eu estarei com vocês todos os dias, até que esse tempo se complete" (Mt 28, 20).

 

 

 

 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Se Deus é de direita ou de esquerda

 

Marcelo Barros


 

Por vários motivos, no Brasil, esse assunto parece ser dos mais atuais e importantes. Antes de tudo, porque, há várias eleições, não poucos bispos e pastores pentecostais e evangélicos, assim como também alguns padres e bispos católicos, fazem de tudo para mostrar que Deus aceitou ser cabo eleitoral dos candidatos que eles, pastores, defendem. Além disso, querem desmoralizar e demonizar os seus adversários aos quais, indiscriminadamente, denominam como sendo de esquerda, sem se preocupar em saber o que isso possa significar. Não basta terem muito mais dinheiro do que os outros e contarem com o apoio de grandes meios de comunicação. Procuram desviar a discussão dos problemas do país e trazer para o centro das campanhas eleitorais o projeto de manutenção da moral sexual e dos padrões da família brasileira.

Recentemente, no domingo, 23 de janeiro último, Renato Cardoso, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, espalhou à imprensa uma declaração na qual afirma que “cristão de verdade não pode, nem deve compactuar com ideias esquerdistas” e explica: “A esquerda prega contra o casamento convencional e destrói a rede familiar para salvar o povo, usando assistencialismo manipulador” (Cf. Carta Capital, 24/01. 2022).

Qualquer pessoa medianamente informada e com o mínimo de senso crítico percebe que esses ministros religiosos falam de Deus e da fé, como se fossem proprietários da marca Deus. Como se Deus tivesse assinado contrato de exclusividade com eles e os seus grupos.

Para todas as religiões, Deus é Mistério e, como afirmava o Mestre Eckhart, místico medieval: “tudo o que se disser dele, revela mais da pessoa que fala aquilo do que, propriamente, de Deus”. No Budismo, não se fala em Deus. Nas tradições de matriz africana e de povos originários, os cultos e expressões de piedade se fazem às manifestações divinas na natureza.

De acordo com a Bíblia, a primeira recomendação divina no Sinai foi nunca pretender usar o nome de Deus. Um documento cristão do primeiro século afirma que “muitas vezes e de vários modos, Deus nos fala pelos profetas e profetizas, assim como fala, particularmente, por Jesus” (Hb 1, 1). No entanto, nunca os profetas, nem Jesus, se comportaram como donos de Deus. Para receber sua Palavra, tiveram de, em primeiro lugar, receber essa Palavra para si mesmos e viver aquilo que deveriam transmitir aos outros.

Por toda a Bíblia, do início ao final, há uma pergunta que precisa sempre ser respondida: como se sabe se a profecia que é falada vem mesmo de Deus. Para essa pergunta, o apóstolo Paulo propõe dois critérios: 1º - confessar Jesus como Senhor. (É Jesus e não a Igreja).  2º - verificar se aquilo que fala serve para edificar (construir) a comunhão da comunidade (1 Cor 12). As falas que são para semear divisão, jogar pessoas umas contra as outras e criar uma cultura de fake-news só podem vir de falsos profetas.

Construir a comunidade é continuar a ação de Jesus que, conforme os evangelhos, “passou pelo mundo fazendo o bem” (At 10). Não anunciou a si mesmo e sim testemunhou o projeto de amor e justiça que Deus tem para o mundo (o reinado divino). Assim sendo, quando vocês virem pastores pentecostais ou bispos e padres católicos, compactuando com governante genocida ou com juiz venal e desonesto, saibam que esses ministros religiosos são impostores e merecem o que deles afirmava o cineasta Woody Allen: “Deus deve ser um cara bom, mas esses amigos dele, eu não recomendo a ninguém”.  

quarta-feira, 18 de abril de 2018

A HISTÓRIA QUE SE REPETE


por Goretti Santos

Você riu, você comemorou,
Bateu palmas, bateu panelas,
Quando prenderam nosso profeta
E Gandhi ficou dois anos na cadeia...

Você riu, você comemorou,
Bateu palmas, soltou fogos, 
Quando prenderam nosso profeta,
E Mather Luther king foi preso por “ vadiagem”,
Teve sua família ameaçada,
E por fim foi assassinado...

 Você riu, você comemorou,
Bateu palmas, gritou com todo seu ódio de costume,
Prendam-no, prendam-no
E Mandela passou 27 anos na prisão...

Você riu, você comemorou, bateu palmas, 
Bateu panelas, soltou fogos, bebeu champanhe,
Quando prenderam nosso profeta, 
E gritou a plenos pulmões, destilando todo seu ódio,
Crucifica-o, Crucifica-o!
E mataram Jesus...

Você ri, você comemora, alimentado no seu ódio, 
Toda vez que prendem um profeta,
O que você não sabe, mas deveria,
É que não se pode prender, nem matar um profeta
Porque ele renasce mais forte
No sonho de Liberdade do Povo!
                                                                                             07/04/2018

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

TEXTO PARA SER LIDO NO EVENTO NO TEATRO CASA GRANDE PELA DEMOCRACIA E PELA ELEGIBILIDADE DE LULA



Por Leonardo Boff

Por razões de saúde na minha família, não pude estar neste evento no teatro OI Casagrande, no Leblon, pela democracia e pela elegibilidade do ex-presidente Lula. Como forma de estar presente envio este texto de reflexão.
Companheiros e companheiras, querido amigo e presidenciável Lula (lá onde estiver).
Saúdo a vocês todos e a todas que não se renderam à covardia, à mentira oficial e mediática, à explícita cumplicidade do Judiciário e à geral venalidade de boa parte da classe política.
Estamos num momento crucial de nossa história que nos obriga escolher um lado. Tornou-se claro que estão se enfrentando dois projetos que irão definir o futuro de nosso pais: a reconolização ou a refundação.
O projeto da reconolização do Brasil, força-o a ser mero exportador de commodities para os países centrais. Isso implica mais que privatizar os bens públicos mas de desnacionalizar nosso parque industrial, nosso petróleo, grandes instituições públicas, quem sabe, até universidades. Trata-se de dar o maior espaço possível ao mercado concorrencial e nada cooperativo e reservar ao Estado só funções mínimas.
Este projeto conta com aliados internos e externos. Os internos são aqueles que deram o golpe e aqueles 71.440 multibilionários que o IPEA sob Jessé Souza elencou e que controlam grande parte das finanças e financiam o Estado  com pesados juros. O aliado externo são as grandes corporações globais, interessadas em nosso mercado interno e principalmente o Pentágono que zela pelos interesses globais dos Estados Unidos.
O grande analista das políticas imperiais, recém falecido, Moniz Bandeira e  o notável intelectual norte-americano Noam Chomsky bem como Snowden nos revelaram a estratégia de dominação global. Ela se rege por três ideias forças: primeira, um mundo e um império; a segunda, a dominação de todo o espaço (full spectrum dominace), cobrindo o planeta com 800 bases militares, muitas com ogivas nucleares. É prevista, sob o olhar do neoliberal presidente da Argentina, Macri, uma grande base na tríplice fronteira (Brasil, Paraguai, Argentina) para controlar o Brasil e particularmente o Aquífero Guarani, decisivo para o futuro próximo de grande parte da humanidade sedenta e que poderia abastecer de água o Brasil por 300 anos; a terceira, desestabilizar os governos progressistas que estão construindo um caminho de soberania própria e que devem ser alinhados à lógica imperial.
A desestabilização não se fará por via militar, mas por via parlamentar, já ensaiada eficazmente em Honduras e no Paraguai e agora no Brasil. Trata-se de demolir as lideranças carismáticas, fazer da política o mundo do sujo e desmantelar políticas sociais para os pobres. Um conluio foi arquitetado entre parlamentares venais, estratos do judiciário, do ministério público e da polícia militar, secundados pela mídia conservadora que nunca apreciou a democracia e sempre apoiou os golpes.
Conseguiram apear a presidenta Dilma, democraticamente eleita e instalar um Estado de exceção, antipopular, corrupto e violento. Todos os itens político-sociais pioraram dia a dia.
O outro projeto é o da refundação de nosso país. Ele já vinha sendo esboçado muito antes mas ganhou força sob o governo do PT e aliados, para o qual a centralidade é dada aos milhões de filhos e filhas da pobreza, descendentes da senzala, apesar dos constrangimentos impostos pelo neoliberalismo imperante no mundo e no Brasil. Junto com a garantia do substrato vital para milhões de excluídos através dos vários projetos sociais, foi a dignidade humana, sempre aviltada, que foi resgatada. Esse é um dado civilizatório de magnitude histórica.
Para todos nós que estamos aqui presentes, esse projeto da refundação do Brasil sob outras bases, com uma democracia construída a partir de baixo, popular, participativa sócio-ecológica e aberta ao mundo constitui, certamente nosso sonho bom e nossa utopia alviçareira.
Três pilastras a sustentarão: a natureza de riqueza singular, fundamental para o equilíbrio ecológico da Casa Comum, a Terra, a nossa cultura criativa, original, diversa e apreciada no mundo inteiro e, por fim, o povo brasileiro inteligente, inventivo, hospitaleiro e místico a ponto de pensar que Deus é brasileiro.
Essas energias poderosas poderão construir nos trópicos, não direi o sonho de Darcy Ribeiro, a Roma dos trópicos, mas uma nação soberana, ecumênica que integrará os milhões de deserdados e que contribuirá à nova fase da humanidade, a planetária, com mais humanidade, humor, alegria e que sabe conjugar trabalho com festa. Importa derrotar as elites do atraso e anti-nacionais que representam um Brasil, agregado e sócio menor do projeto-mundo.
Não anuncio otimismo, mas esperança. Santo Agostinho que não era europeu mas africano, um dos maiores gênios do cristianismo, bispo de Hipona, hoje Tunísia, deixou escrito em sua biografia, as Confissões, esta palavra que será a minha última.
A esperança, já o disse muitas vezes, tem duas formosas irmãs: a indignação e a coragem.
indignação para rejeitar tudo o que se apresenta como injusto e ruim.
coragem para transformar a política do Brasil de ruim e péssima em boa e justa e refundar um Brasil onde todos possam caber, a natureza incluída.
Hoje precisamos cultivar a indignação contra as maldades oficiais que transbordaram o cálice da amargura. E a coragem para irmos às ruas, às praças, quem sabe, a Porto Alegre, para salvar a democracia, garantir a possibilidade da candidatura presidencial de Lula e assegurar um país soberano, nosso, com um destino definido pelo próprio povo.
Alimentamos a certeza que chegará o dia em que a justiça e a igualdade triunfarão. Uma sociedade não pode se sustentar sobre a injustiça, a profunda desigualdade e a violência estrutural. A luz tem mais direito que todas as trevas que nos estão ocultando o horizonte.
Obrigado a todos e caminhemos juntos no mesmo compromisso por um Brasil de tipo diferente.
Leonardo Boff
Petrópolis/ Rio, 16 de janeiro de 2018


Leonardo Boff é teólogo e escreveu o livro São José, a personificação do Pai, Vozes 2005.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

PAPA FRANCISCO VÊ RISCO DE MORTE PARA A EUROPA SE NÃO REENCONTRAR SEUS IDEAIS


Por Juracy Andrade


Há 60 anos, no dia 25 de março de 1957, era assinado o Tratado de Roma que criou a Comunidade Econômica Europeia (CEE), uma evolução do Mercado Comum Europeu (MCE). Este abrangia França, Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo, a chamada Europa dos Seis. Criados pouco tempo após a 2ª Guerra Mundial, obedeciam àquele estado de espírito pós-guerra que pretendia unir o mundo e acabar com as conflagrações. . Amarga ilusão, pois somente cinco anos depois da rendição da Alemanha e do grande terrorismo praticado pelos EUA em Hiroshima e Nagasaki, Washington, embalado pela Guerra Fria, iniciou na Coreia a 3ª Guerra Mundial, que dura até hoje. Os fabricantes de armas, coitadinhos, estavam no prejuízo. A própria Europa voltou a conhecer guerras fratricidas nos Bálcãs, após a dissolução da Iugoslávia pós-Tito.

Foi também assinado então o tratado anexo da Comunidade Europeia de Energia Atômica.(Euratom). Por ocasião das celebrações do marco positivo que foi a constituição da CEE, o papa Francisco (que Deus o proteja dos trogloditas da Cúria Romana) falou aos 27 líderes da União Europeia (UE, último estágio da CEE), no Vaticano, que a Europa corre o risco de morrer se não reencontrar seus ideais fundadores. Entre os líderes presentes, Angela Merkel e François Hollande, governantes da Alemanha e da França que, no passado, se engalfinharam em tantas guerras mortíferas (apesar de tão “cristãos”).

Lembramos que o papa argentino recebeu, em 2016, o Prêmio Carlos Magno por seu compromisso pela unificação europeia e também que ele se manifesta frequentemente no sentido de que a Europa seja uma terra de acolhida, sem a xenofobia que a ataca atualmente. Um de seus temas prioritários é que os imigrantes e refugiados sejam vistos como novos europeus. O papa chegou a visitar a ilha italiana de Lampedusa, um ponto de desembarque dos refugiados africanos e orientais que conseguem atingir o continente europeu.

Repetindo o que disse no Parlamento Europeu, na cidade francesa de Strassbourg, há três anos, Francisco pediu que a Europa encontre novos caminhos, aposte no futuro, apure um novo humanismo. Lembrou que, o velho patrimônio europeu é o melhor antídoto contra a falta de valores do nosso tempo, terreno fértil para todos os extremismos.

Em Maastricht, na Holanda, 35 anos mais tarde, foi assinado o tratado que, afinal, constituiu o coroamento de uma longa trajetória de unificação que começou com a Europa dos Seis, o Benelux (seu antecessor, que juntava só Bélgica, Holanda e Luxemburgo) e a CEE. Era criada a União Europeia (UE). Ao tratado está ligada a criação da moeda única em vigor na Zona do Euro ou Eurozona.

Todo esse edifício, construído com generosidade durante muitos anos, ameaça ruir com crises sem fim, sobretudo com a saída do Reino Unido, votada em plebiscito. Daí os apelos de Francisco, que, mesmo não sendo europeu, é de um continente herdeiro da cultura e do humanismo da velha Europa. Esta, cedo acolheu a pregação do cristianismo, pelas mãos do apóstolo Paulo.

O autor é jornalista com formação em filosofia e teologia


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016:O ANO EM QUE SE TENTOU MATAR A ESPERANÇA DO POVO BRASILEIRO


Por Leonardo Boff


         A situação social, política e econômica do Brasil mereceria uma reflexão severa sobre a tentativa perversa de matar a esperança do povo brasileiro, promovida por uma corja (esse é o nome) de políticos, em sua grande maioria corruptos ou acusados de tal, que, de forma desavergonhada, se pôs a serviço dos verdadeiros forjadores do golpe perpetrado contra a Presidenta Dilma Rousseff: a velha oligarquia do dinheiro e do privilégio que jamais aceitou que alguém do andar de baixo chegasse a ser Presidente do Brasil e fizesse a inclusão social de milhões dos filhos e filhas da pobreza.

         Obviamente há políticos valorosos e éticos, bem como empresários da nova geração, progressistas que pensam no Brasil e em seu povo. Mas estes não conseguiram ainda acumular força suficiente para dar outro rumo à politica e um sentido social ao Estado vigente, de cariz neoliberal e patrimonialista.

         Ao se referir à corrupção todos pensam logo no Lava Jato e na Petrobrás. Mas esquecem ou lhes é negada, intencionalmente pela mídia conservadora e legitimadora do establishment, a outra corrupção, muito pior, revelada exatamente no dia de Natal que junto com o nascimento de Cristo se narra a matança de meninos inocentes pelo rei Herodes, hoje atualizado pelos corruptos que delapidam o país (O Estado de São Paulo 25/12/2016).

         Wagner Rosário, secretário do Ministério da Transparência, nos revela que nos últimos treze anos esquemas de corrupção, de fraudes e desvios de recursos da União, repassados aos Estados, municípios e ONGs e direcionados a pequenos municípios com baixo Indice de Desenvolvimento Humano podem superar um milhão de vezes o rombo na Petrobrás descoberto na Lava Jato. São 4 bilhões mas camuflados que podem se transformar, num estudo econométrico, em um trilhão de reais. As áreas mais afetadas são a saúde (merenda) e a educação (abandono das escolas).

       Diz o Secretário: “A gente chama isso de assassinato da esperança. Quando você retira merenda de uma criança, você tira a possibilidade de crescimento daquele município a médio e a longo prazo. É uma geração inteira que você está matando”.

         A nação precisa saber desta matança e não se deixar mentir por aqueles que ocultam, controlam e distorcem as informações porque são anti-sistêmicas.

         Mas não se pode viver só de desgraças que macularam grande parte do ano de 2016. Voltemo-nos para aquilo que nos permite viver e sonhar: a esperança.

         Para entender a esperança precisamos ultrapassar o modo comum de vermos a realidade. Pensamos que a realidade é o que está aí, dado e feito. Esquecemos que o dado é sempre feito e não é todo o real. O real é maior. Pertence ao real também o potencial, o que ainda não é e que pode vir a ser. Esse lado potencial se expressa pela utopia, pelos sonhos, pelas projeções de um mundo melhor. É o campo onde floresce a esperança. Ter esperança é crer que esse potencial pode se transformar em real, não automaticamente, mas pela prática humana. Portanto, a utopia que alimenta a esperança não se antagoniza com a realidade. Ela revela seu lado potencial, o abscôndito que quer vir para fora e fazer história.

         Faço meu o lema do grande cientista e físico quântico Carl Friedrich von Weizsäcker cuja sociedade fundada por ele me honrou em final de novembro em Berlim com um prêmio pelo intento de unir o grito da Terra com o grito do pobre: ”não anuncio otimismo, mas esperança”.

         Esperança é um bem escasso hoje no mundo inteiro e especialmente no Brasil. Os que mudaram ilegitimamente os rumos do país, impondo um ultraliberalismo, estão assassinando a esperança do povo brasileiro. As medidas tomadas só penalizam as grandes maiorias que veem as conquistas sociais históricas sendo literalmente desmontadas.

         Aqui nos socorre o filósofo alemão (Ernst Bloch) que introduziu o “princípio esperança”. Esta, a esperança, é mais que uma virtude entre outras. É um motor que temos dentro de nós que alimenta todas as demais virtudes e que nos lança para frente, suscitando novos sonhos de uma sociedade melhor.

        Esta esperança vai fornecer as energias para a população afetada poder resistir, sair às ruas, protestar e exigir mudanças que façam bem ao país, a começar pelos que mais precisam.

         Como a maioria é cristã valem as palavras do sábio Riobaldo de Guimarães Rosa: ”Com Deus existindo, tudo dá esperança, o mundo se resolve…Tendo Deus é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim, dá certo. Mas se não tem Deus, então, a gente não tem licença para coisa nenhuma”.

         Ter fé é ter saudades de Deus. Ter esperança é saber que Ele está ao nosso lado, ainda que invisível, fazendo-nos esperar contra toda a esperança.

Leonardo Boff é articulista do JB online e escreveu Teologia da libertação e do cativeiro, Vozes 2014.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

E se o Papa Francisco for anarquista? (Considerações em torno da ‘Teologia do Povo’).


Por Eduardo Hoornaert






E se o Para for anarquista? Não anarquista no sentido que se costuma dar ao termo, mas no sentido de uma lucidez acerca do modo em que a sociedade promove o bem comum, não por simples ação do estado ou de pessoas que controlam os instrumentos do estado, mas por uma interação entre forças existentes na sociedade, impulsionada por movimentos de base. Desenvolvi esse tema num blog que publico hoje juntamente com este, e que tem como título ‘Marxistas, comunistas e anarquistas: uma reflexão após a vitória de Trump nas eleições americanas’. Se você ler os dois textos em conjunto, estará em condições de entender melhor o que pretendo dizer.

1. Em primeiro lugar uma consideração de ordem histórica. Jorge Bergoglio é um jesuíta cuja formação se situa dentro da teologia argentina dos anos 1960-1980. Na longa escola de sua formação jesuítica sob a inspiração de figuras como Karl Rahner, Lúcio Gera, Enrique Angelelli, Juan Carlos Scannone, Romano Guardini e outras figuras de grande impacto, tanto argentinas como estrangeiras, o jovem jesuíta adquire uma sensibilidade peculiar pelo ‘popular’, aguça sua ‘opção pelo pobre’ ao mesmo tempo em que evita a fixação na conquista do poder. Pois a ‘Teologia da Libertação’ de cunho argentino é diferente daquela praticada, na época, em outros lugares, como no Brasil por exemplo. Principalmente sob a orientação do Padre Juan Carlos Scannone, com quem convive longos anos, Jorge Bergoglio adere à chamada ‘teologia do povo’, uma vertente da ‘teologia da libertação’ que tem como característica que se distancia diante da ortodoxa análise marxista, que implica na procura do poder do estado. Não podemos negar que, no substrato não explícito da Teologia da Libertação versão brasileira, havia a expetativa de uma ‘revolução socialista’, ou seja, da tomada do poder do estado por partidos inspirados no marxismo. É nesse sentido que podemos qualificar a ‘teologia do povo’ de ‘anárquica’. Ela ativa ‘movimentos populares’ atuantes na sociedade civil, valoriza a ‘mística popular’, não procura ocupar espaços de poder governamental, prefere animar processos mais lentos, que necessitam de tempo (com a paciência que essa postura pede), aceita comunhão nas diferenças (heterossexuais e homossexuais, casados e divorciados, católicos, protestantes, evangélicos, padres solteiros e padres casados), insiste na observação da realidade e não propõe diretamente ideias próprias. Uma teologia modesta, de pretensões modestas.

2. Esse jesuíta se torna Papa e, após mais de três anos de papado, fica claro que gosta de ser Papa. Mas a seu modo. Quando fica sentado no trono (como o cargo exige), não tem uma postura de ‘chefe’, de coordenador de governo.  Escuta com atenção, fala com calma. Parece não gostar muito das Jornadas da Juventude, iniciativa de seu predecessor João Paulo II, mas gosta demais dos Encontros de Movimentos Populares. O terceiro acaba de terminar em Roma no início de novembro 2016. O que ele diz nesses encontros merece ser lido e relido, pois não aparece nos grandes meios de comunicação. Merece ser divulgado pela internet, pois expressa o que se passa nas últimas capilaridades do corpo social, entre os silenciados e esquecidos.

3. Recentemente, um amigo me disse: ‘Papa Francisco joga bem, mas não faz gol’. Cadê a reforma da Cúria? a abolição do celibato? a ordenação de mulheres? o apoio a movimentos Gay? a decretação da licença para dar a comunhão a pessoas divorciadas? A readmissão de padres casados? Parece que tudo fica no meio do caminho, que nada se resolve e que tudo fica como está. Em suma, o Papa Francisco está no poder, nas não exerce o poder. Por trás da colocação do amigo existe um modo de pensar: ‘só quem faz gol faz algo na história’. E se o gol do Papa Francisco existe exatamente em não fazer gol, em não emplacar uma vitória? 
O modo de pensar de meu amigo é de cunho autoritário. Como se o poder do estado (do governo central da igreja), só ele, estivesse em condição de mudar as coisas. Nesse engano já caiu o socialismo real e meu amigo já teria de ter aprendido a lição. A mudança na sociedade (na igreja) só se faz por uma pressão ‘de baixo’. A cúpula da igreja nunca vai mudar nada, pois essa mudança implica no reconhecimento de sua própria inutilidade. O que essa ‘cúpula’ pode fazer, enquanto estamos nas presentes condições históricas, é animar os movimentos de base. É exatamente o que faz o Papa Francisco.

4. O atual Papa já está tempo suficiente na direção da Igreja Católica para que saibamos que ele não vai ‘fazer gol’. Isso desorienta muita gente que espera que ‘Roma vai mudar’. Ora, a vontade de não mudar pertence ao fundamento de poder estabelecido em Roma. 
Permita-me aqui uma pequena digressão na história. O papado emerge, séculos atrás, de uma dura e demorada contenda entre bispos de cidades importantes como Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Roma. Até o século XI, Roma não consegue se livrar do poderio exercido pela parte grega da igreja (os patriarcas orientais). Ao longo do primeiro milênio, é com tenacidade que os sucessivos patriarcas de Roma (chamados ‘papa’ pelo povo) ampliam sua ascendência sobre as demais igrejas do Ocidente. É um processo de séculos. Finalmente, em 1052, o patriarca de Roma rompe definitivamente com os patriarcas gregos e começa uma experiência nova, chamada igreja católica. 

5. Nessa ‘sucessão apostólica’, o pontificado de Francisco é algo inesperado, que prenuncia tempos novos. Isso ficou claro no famoso Encontro organizado em Roma em final do ano 2015, para saber como se comportar diante de católicos divorciados que desejassem participar da comunhão eucarística. Esse Encontro foi preparado por consultas feitas em todos os rincões do universo católico. A intenção era de atingir os casados e divorciados. Bem significativamente, as consultas entre casados ou divorciados (os eventualmente mais interessados) não deram em quase nada, enquanto cardeais, arcebispos, bispos e padres se manifestaram abundantemente. Finalmente, quando esses (com alguns representantes-figurantes do universo ‘leigo’) se reuniram em Roma para discutir a admissão ou não de pessoas divorciadas à comunhão, as correntes se digladiaram (sempre com a devida cortesia eclesiástica), enquanto o Papa ficou ‘em cima do muro’. Não se pronunciou e deixou a discussão correr livremente.  O resultado foi placar 0 a 0. Para alguns, resultado nenhum. Para outros, a verdadeira vitória. O recado do Papa passou para os ‘bem entendidos’: que cada um(a) decida, que cada um(a) tome sua vida em mãos.
Efetivamente, o Papa dá a impressão de ficar com ‘um pé para trás’. Tenho a impressão que ele detecta em muitas iniciativas ‘da base’ um oculto ‘desejo hegemônico’, tão típico do catolicismo. Esse desejo, mal vislumbrado e quase nunca verbalizado, existe mesmo na condução das CEBs, essa movimentação tão típica da sociedade civil (como deveria ser). O desejo hegemônico (de ‘tomar o poder’ na igreja) terá de ser detectado e depurado. O que me fica claro é que o Papa nos impele a ‘fazer algo’ nas nossas condições concretas de vida. Algo em benefício do bem comum. 


6. No final dessas considerações não posso deixar de ceder à tentação de citar uma linda frase de Slavoj Zizek em seu livro ‘O Absoluto frágil: por que vale a pena lutar pelo legado cristão? ’ (Boitempo, São Paulo, 2015, 126), que traça, a seu modo, um perfil do Papa Francisco. Eis a frase: ‘O que é o Absoluto? Algo que aparece nas experiências efêmeras, digamos no sorriso gentil de uma bela mulher ou no sorriso caloroso e afetuoso de uma pessoa que, em condições normais, pareceria feia e rude. O Absoluto é frágil, ele escapa facilmente pelos nossos dedos e deve ser manuseado com o máximo de cuidado, como se fosse uma borboleta’. Agora vejo o Papa longamente passando pela interminável fila de pessoas entusiasmadas na Praça de São Pedro em Roma e parando de vez em quando diante de uma criança, de uma senhora velha num carrinho, com brilho nos olhos. O brilho do encontro com o ‘Absoluto’. Isso não é encenação, não é comédia, não é hipocrisia. É o Papa Francisco.   




 Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

www.eduardohoornaert.blogspot.com.br/