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terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Se Deus é de direita ou de esquerda

 

Marcelo Barros


 

Por vários motivos, no Brasil, esse assunto parece ser dos mais atuais e importantes. Antes de tudo, porque, há várias eleições, não poucos bispos e pastores pentecostais e evangélicos, assim como também alguns padres e bispos católicos, fazem de tudo para mostrar que Deus aceitou ser cabo eleitoral dos candidatos que eles, pastores, defendem. Além disso, querem desmoralizar e demonizar os seus adversários aos quais, indiscriminadamente, denominam como sendo de esquerda, sem se preocupar em saber o que isso possa significar. Não basta terem muito mais dinheiro do que os outros e contarem com o apoio de grandes meios de comunicação. Procuram desviar a discussão dos problemas do país e trazer para o centro das campanhas eleitorais o projeto de manutenção da moral sexual e dos padrões da família brasileira.

Recentemente, no domingo, 23 de janeiro último, Renato Cardoso, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, espalhou à imprensa uma declaração na qual afirma que “cristão de verdade não pode, nem deve compactuar com ideias esquerdistas” e explica: “A esquerda prega contra o casamento convencional e destrói a rede familiar para salvar o povo, usando assistencialismo manipulador” (Cf. Carta Capital, 24/01. 2022).

Qualquer pessoa medianamente informada e com o mínimo de senso crítico percebe que esses ministros religiosos falam de Deus e da fé, como se fossem proprietários da marca Deus. Como se Deus tivesse assinado contrato de exclusividade com eles e os seus grupos.

Para todas as religiões, Deus é Mistério e, como afirmava o Mestre Eckhart, místico medieval: “tudo o que se disser dele, revela mais da pessoa que fala aquilo do que, propriamente, de Deus”. No Budismo, não se fala em Deus. Nas tradições de matriz africana e de povos originários, os cultos e expressões de piedade se fazem às manifestações divinas na natureza.

De acordo com a Bíblia, a primeira recomendação divina no Sinai foi nunca pretender usar o nome de Deus. Um documento cristão do primeiro século afirma que “muitas vezes e de vários modos, Deus nos fala pelos profetas e profetizas, assim como fala, particularmente, por Jesus” (Hb 1, 1). No entanto, nunca os profetas, nem Jesus, se comportaram como donos de Deus. Para receber sua Palavra, tiveram de, em primeiro lugar, receber essa Palavra para si mesmos e viver aquilo que deveriam transmitir aos outros.

Por toda a Bíblia, do início ao final, há uma pergunta que precisa sempre ser respondida: como se sabe se a profecia que é falada vem mesmo de Deus. Para essa pergunta, o apóstolo Paulo propõe dois critérios: 1º - confessar Jesus como Senhor. (É Jesus e não a Igreja).  2º - verificar se aquilo que fala serve para edificar (construir) a comunhão da comunidade (1 Cor 12). As falas que são para semear divisão, jogar pessoas umas contra as outras e criar uma cultura de fake-news só podem vir de falsos profetas.

Construir a comunidade é continuar a ação de Jesus que, conforme os evangelhos, “passou pelo mundo fazendo o bem” (At 10). Não anunciou a si mesmo e sim testemunhou o projeto de amor e justiça que Deus tem para o mundo (o reinado divino). Assim sendo, quando vocês virem pastores pentecostais ou bispos e padres católicos, compactuando com governante genocida ou com juiz venal e desonesto, saibam que esses ministros religiosos são impostores e merecem o que deles afirmava o cineasta Woody Allen: “Deus deve ser um cara bom, mas esses amigos dele, eu não recomendo a ninguém”.  

quarta-feira, 15 de julho de 2020

COVID 19 - QUINQUAGÉSIMA REFLEXÃO - ESQUERDA E DIREITA EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS

Por Frei Aloísio Fragoso

     Como definir esquerda e direita, politicamente falando? Digo politicamente falando porque o histórico destas duas palavras ultrapassa de longe os seus limites políticos.

     Diz a minha mente que ser direita é aderir ao "status quo" do Sistema dominante, com todas as sequelas que daí deri


vam para os vários segmentos da sociedade. Ser esquerda, diz a minha mente, é assumir a posição oposta, reconhecer que este Sistema é maléfico e os seus malefícios não são acidentais, são constitutivos da sua natureza, inerentes ao seu código genético.

     A partir daí tem início os embates ideológicos, políticos e, não poucas vezes, bélicos, entre estas duas facções.

     A direita se agarra à tradição, ao moralismo, à ordem estabelecida, a fim de perpetuar o poder em suas mãos. A esquerda, por sua vez, procura olhar o mundo com os olhos dos mais fracos e acionar um movimento de luta por outro mundo possível e melhor do que este.

     Se alguém acusar estas definições de tendenciosas, não lhe tiro toda razão. Estamos enfrentando situações emergenciais que obrigam a inspirar-nos menos na ciência pura e mais na irrupção dos sentimentos. A ciência pura fala da razão para a razão. O clamor dos fatos irrompe do coração, gera a paixão e impele à ação.

     Com isso não me atrevo a dividir os dois lados de forma maniqueista, como se cá estivessem os bons e lá, os maus. "Não somos melhores nem piores, somos iguais. Melhor é a nossa Causa" (Tiago de Melo). Um só destes caminhos, no entanto, é o que favorece a grande utopia de construir o Progresso sobre o alicerce da Justiça e da Paz. A direita detesta e boicota toda e qualquer utopia.

     Entre estes dois polos, não há como ficar neutro, sem trair a humanidade. Dante Alighieri diria: "Em momentos de grandes conflitos, quem permanece neutro merece o lugar mais quente do inferno".

     (Vale aqui lembrar aquela parabolazinha que ficou famosa: "era uma vez uma cigarra que, por ódio à formiga, votou no inseticida. Resultado: pereceram todos, inclusive o grilo, que votou nulo")

     A direita se assenta sobre um Poder Econômico que realiza com competência e êxito o que sabe fazer de melhor: produzir riquezas. E fracassa completamente na tarefa que contradiz a sua natureza: distribuir riquezas.

     Por que então este Poder avança inexoravelmente e ocupa todos os espaços globais?  Certamente porque se identifica com uma dimensão original da natureza humana: o individualismo (o que, na fé bíblica chamamos de "pecado original")

     E por que nunca deixou de encontrar inimigos implacáveis, dispostos a arriscar a segurança e a vida para solapar seu domínio ? Pela razão inversa: o preço deste aparente sucesso é a destruição de direitos fundamentais, sobretudo das classes desfavorecidas.

     Confesso que naveguei alguns anos nas águas da direita. Acreditei que  a Paz se fundava sobre a Ordem. E a Ordem seria o melhor espaço de trabalhar por aquilo que, à luz da Fé, se chama "construção do Reino de Deus". Minha crença, de tão ingênua, não se dava conta de que a ordem estabelecida neste mundo não era a mesma almejada pelo Criador. Fui curado da ignorância pela redescoberta da Figura Messiânica de Jesus.

     O Jesus "manso e humilde de coração" MT. 11,29,  não podia ser separado do Jesus "sinal de contradição, redenção para uns e escândalo para outros" Lc. 2,34. Como entender de outra maneira Aquele que declara: "Eu vim lançar fogo sobre a terra e quero que este fogo acenda" Lc. 12,49 ? E define sua missão com estas palavras: "não vim chamar os bons e sim os pecadores" MT.9,13. E não teme denunciar as autoridades constituídas: "hipócritas, com vossas tradições abandonais o verdadeiro mandamento de Deus" Mc. 7,13.  Como conciliar a idéia de um Messias apaziguador com a resolução das autoridades religiosas, de não tolerar sua presença no meio do povo por mais de três anos? E condená-lo com esta sentença: "se este homem continuar falando, em breve todo o povo o seguirá. É preciso que Ele morra para que não pereça toda a nação" Jo. 11,50. Uma sentença como esta só se entende contra um personagem revolucionário e perigoso.

     Não tive mais dúvida. Jesus era a Suprema Esquerda. Sua vida inteira era um chamado para a resistência a todos os Impérios deste mundo, em todos os tempos. O único Império irresistível seria sempre o da Fraternidade.

     E quando percebi como a pandemia do coronavirus escancarou a insensibilidade do Sistema Capitalista, sua incapacidade de responder às gravíssimas ameaças contra a vida de milhares de pessoas, foi-se embora da minha alma qualquer sombra de dúvida.

     Hoje ser esquerda para mim não é uma ideologia, é um ato de fé.

     Sempre que rezo a oração do Pai Nosso e digo "o pão nosso de cada dia nos dai hoje", sinto-me à esquerda. E quando saio da igreja para as ruas e ouço esta mesma súplica na boca de milhares de famintos, sinto-me legitimado e convocado a entrar na luta até que seja realizada a intenção de Jesus, ao ensinar esta oração: "Venha a nós o vosso Reino".  Amém.

 

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.


quinta-feira, 14 de novembro de 2019

ESQUERDA, O RESGATE DO SONHO




por Frei Betto

       Pertenço à geração que teve o privilégio de fazer 20 anos nos anos 60: Revolução Cubana, Che, Beatles, Rei da Vela, manifestações estudantis, Alegria, Alegria, Gláuber Rocha, McLuhan, revista Realidade, Marcuse, Maio de 68, João XXIII, naves espaciais etc.

       Era a geração dos sonhos. "Sonhar é acordar-se para dentro", lembra Mário Quintana. Estávamos permanentemente despertos. Nossas quimeras não eram acalentadas por drogas, mas por utopias.

       Segundo a teoria psicanalítica, todo sonho é projeção de um desejo. Nossa geração desejava ardentemente mudar o mundo, instaurar a justiça social, derrubar a velha ordem.

       O sonho quebrou-se ao tocar a realidade. A ditadura militar (1964-1985) encarou como subversivos nossos protestos e conteve, com cassetetes e tiros, nossas passeatas. Nossos congressos estudantis terminaram em prisões e, escorraçados para a clandestinidade, não nos restou alternativa senão o exílio ou a resistência. Em nossas utopias os carrascos abriram feridas, e dependuraram nossos ideais no pau-de-arara. O que era canto virou dor; o que era encanto, cadáver. A roda-viva se encheu de medo e o nosso cálice de “vinho tinto de sangue”.

       Nossos paradigmas ruíram sob os escombros do Muro de Berlim. Não era o socialismo das massas nem os proletários no poder. Era o socialismo do Estado, pai e patrão, atolado no paradoxo de agigantar-se em nome do fim iminente da luta de classes. O economicismo, a falta de uma teoria do Estado e de uma sociedade civil forte e mobilizada, levaram o rio das fantasias coletivas a transbordar sobre as pontes férreas dos engenheiros do sistema. O socialismo real saciava a fome de pão, não o apetite de beleza. Partilhava bens materiais e privatizava o sonho. Todo sonho estranho à ortodoxia era visto como diversionista, ameaçador.

       Astuto, o capitalismo socializa a beleza para camuflar a cruel privatização do pão. Aqui, todos são livres para falar; não para comer. Livres para transitar; não para comprar passagens. Livres para votar; não para interferir no poder. O Muro de Berlim ruiu e, ainda hoje, a poeira levantada embaça os nossos olhos.

       Solteira de paradigmas, a esquerda é uma donzela perplexa que, terminada a festa, não consegue encontrar o caminho de casa. Há muitos pretendentes dispostos a acompanhá-la, mas ela teme ser conduzida ao leito de quem quer estuprá-la. Ansiosa, envereda-se pelo labirinto do eleitorarismo e se perde no jogo de espelhos que exarcebam o narcisismo de quem se maquia no reflexo das urnas. Deixa-se arrastar pela rotatividade eleitoral, onde ideais e programas são atropelados pela caça a votos e cargos. E, quanto mais se aproxima das estruturas de poder, mais se distancia dos movimentos populares.

       É bem verdade que, ao assumir a administração pública, investe em programas sociais, aprimora o acesso à saúde, à educação, moradia e cesta básica. Contudo, desprovida de andaimes, não faz dessa massa um novo edifício teórico, alternativo à globocolonização neoliberal que execra a cidadania e exalta o consumismo, repudia os direitos sociais e idolatra o mercado.

       A maré sobe – Equador, Chile, Argentina - mas, na praia, pescadores acostumados a selecionar os peixes têm os olhos cegos pelo reflexo do Sol. A história cessou?

       Fora da esquerda, não há saída para a miséria que assola o planeta (1,3 bilhão de pessoas). A lógica do capitalismo é incompatível com a justiça social. O sistema requer acumulação; a justiça, partilha. E não há futuro para a esquerda sem ética, utopia, vínculos com os pobres e coragem de dar a vida pelo sonho.

       Hoje, o socialismo já não é apenas questão ideológica ou política. É também aritmética: sem partilhar os bens da Terra e os frutos do trabalho humano, os quase 8 bilhões de passageiros dessa nave espacial chamada Terra estarão condenados, em sua maioria, à morte precoce, sem o direito de desfrutar o que a vida requer de mais essencial para ser feliz: pão, paz e prazer.

       Resta, agora, a esquerda acordar para o sonho.

Frei Betto é escritor, autor de “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros livros.
  
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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

A DIREITA SAIU DO ARMÁRIO; A ESQUERDA ENTROU



Por Frei Betto

         Você é capaz de identificar uma pessoa de esquerda? De direita é óbvio: defende a primazia do capital sobre os direitos humanos, o caráter sagrado da propriedade privada, apoia a privatização do patrimônio público, venera o gigantismo dos EUA, apregoa que “bandido bom é bandido morto”; e costuma ser racista, homofóbica e indiferente aos direitos dos mais pobres.

         Ao longo de 12 anos de governo do PT, a direita se manteve no armário. Não tinha razões para exibir as garras afiadas, já que se beneficiava economicamente (robustez da Bolsa de Valores, isenções tributárias, benesses do BNDES, captação de investimentos estrangeiros etc).

         Bastou a economia brasileira dar sinais de insustentabilidade para a direita sair do armário, decidida a assumir o controle da nação. A exemplo do que ocorrera em Honduras e no Paraguai, armou-se aqui um golpe parlamentar. Destituiu-se uma presidente democraticamente eleita, isenta de qualquer acusação de ter cometido crime, para empossar Temer, acusado de vários e graves crimes.

         A direita errou o alvo. Constrangida, não bate panelas quando Temer dá as caras na TV, nem ocupa as ruas para protestar contra a corrupção escancarada. Mas vocifera raivosamente diante do menor indício de que o Brasil possa vir a ser novamente governado pelo petismo.

         O que me parece estranho é a oposição não ir além dos limites do Congresso. Por que o “Fora Temer” não ganha as ruas? Por que os movimentos sociais, sindicais e estudantis permanecem imobilizados, exceto quando se trata de reivindicações pontuais e corporativas, como ocupações de áreas urbanas e rurais? Onde se enfiou a esquerda brasileira?

       Somos, hoje, uma esquerda envergonhada. A corrupção nos atingiu e abateu a nossa moral. Ficamos calados frente ao ajuste fiscal proposto pelo governo Dilma. Trocamos um projeto de nação por um projeto de poder. Não cuidamos da alfabetização política do nosso povo. Não criamos uma mídia capaz de se contrapor à versão da direita.

         Nossa “pátria-mãe”, a União Soviética, ruiu. A China enveredou pelo capitalismo de Estado. O futuro da Revolução Cubana é incerto. “Proletários de todo o mundo, uni-vos”, exortava Marx. Foram os biliardários do mundo todo que se uniram em Davos. Como assinalou o historiador Perry Anderson: “Pela primeira vez, desde a Reforma, não há mais oposição propriamente dita – de visão de mundo rival – no universo do pensamento ocidental, e quase nenhuma em escala mundial. (...) O neoliberalismo, como conjunto de princípios, reina inconteste no globo” (RenewalsNew Left Review, Londres, janeiro de 2000).

         E agora, José? Permanecer no armário e aguardar o resultado das eleições de 2018? Quem garante que os eleitos ao Congresso não serão mais conservadores do que os atuais parlamentares? Ainda que Lula escape das ciladas da Lava Jato e vença a eleição presidencial, que tipo de alianças fará para assegurar a governabilidade?

         Nós, da esquerda, abandonamos o trabalho de base, a formação de militantes, o enfrentamento ideológico. Sob os escombros do Muro de Berlim ficou soterrado nosso arcabouço teórico. Nunca mais fomos os mesmos. Ao nos afastar da base popular perdemos a vergonha de ser burgueses. Silenciamos quanto ao futuro socialista. Passamos a acreditar que o capitalismo é humanizável, tigre vulnerável a se transformar em gatinho doméstico. Arranha mas não devora...

       Se o nosso arcabouço teórico ficou sob o Muro de Berlim, a razão primeira da existência da esquerda se agigantou, mas nem sempre tivemos olhos para ver a grande horda de excluídos e marginalizados. Porém, o pobretariado não figura em nossas cogitações. Até gostamos de governar para ele, não de manter vínculos orgânicos que deem consistência a uma proposta política transformadora.

       O passado se foi e não sabemos ainda como reinventar o futuro. Nossas ações pontuais, todas meritórias, não se consubstanciam em uma proposta política com indícios de viabilizar “o outro mundo possível”. Visto de hoje, ele parece impossível.

       O que nós, progressistas (poupemos o termo esquerda), queremos de fato: governar para o povo ou governar com o povo?
      Apesar dessa ausência de povo nas ruas e aparente inércia, algo de novo brota no seio da esquerda brasileira: a Frente Povo Sem Medo (www.vamosmudar.org.br) e a Frente Brasil Popular, além de tantas lutas assumidas por movimentos indígenas, quilombolas, atingidos por barragens, mulheres, LBGTodos etc. E nas redes digitais se fortalece a oposição ao governo Temer, obrigando-o a recuar em relação a medidas de retrocesso social.

      Sem deixarmos de fazer autocrítica, há que guardar o pessimismo para dias melhores.

Frei Betto é escritor, autor de “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros livros.

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