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sexta-feira, 16 de junho de 2023

Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe

                                     Leonardo Boff


“Deus não existe”, estimava o físico e  astrônomo Stephen Hawking  que morreu em março de 2018. Retrucarei com um filósofo e teólogo medieval, dos mais perspicazes, a ponto de se chamado de “doutor sutil”, o franciscano escocês Duns Scotus (1266-1308):”Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe”.

Ambos, Hawking e Scotus, têm razão. O famoso físico e identificador dos “buracos negros” se move dentro da bolha da física, daquilo que pode ser medido, calculado e feito objeto de experimentação empírica. Buscar Deus dentro deste paradigma significa não poder encontrar Deus porque Deus não é uma coisa, com as características das coisas, por minúsculas que sejam (um topquark ou o bóson de Higgs) ou pelas maiores que se apresentem como o conglomerado de galáxias de tamanho incalculável. O máximo que a razão poderia dizer é que Deus é o “Ser que faz ser todas as coisas”, não sendo uma coisa.

Então, a partir da física, vale  afirmação de que “Deus, de fato, não existe”. Só que a física não é a única janela de acesso ao real.

Há outras realidades que, por não serem físicas, não deixam de ser realidades. Assim um minhoca jamais entenderá uma música de Vila Lobos, nem o coronavírus saberá apreciar um quadro de Tarcila.São realidades de natureza diferente.

Duns Scotus tem também razão porque, ao nos referirmos a Deus, sustenta ele, estamos pensando numa Última Realidade que transcende todos os limites da física, do espaço e do tempo ou de qualquer outra forma de conhecimento. É o Inominável e o Inefável, Aquele que não cabe em nenhuma linguagem, nem em nenhum dicionário.  Deus não é um fato da realidade palpável que pode ser captada e dita. Por sua natureza Ele está além dos fatos. Ele é Aquele face ao qual devemos,reverentemente, calar, expressando o Nobre Silêncio. Essa é a verdadeira posição do pensamento radical que se expressa pela filosofia e pela teologia, tão bem elaborado nos escritos de Duns Scotus Enfatizando: Ele é o Mistério que transcende qualquer realidade dada, mensurável ou captável pelo ser humano. Quem viu claro isso foi o filósofo vienense Ludwig Wittgenstein (1889-1951) em seu famoso Tractatus Logico-philosophicus (1921) ao dizer:”A ciência estuda como o mundo é; o místico se admira que o mundo é. Seguramente existe o Inefável. Isso se mostra, é o  místico….Sobre aquilo que não podemos falar,devemos calar”(aforismo 6 .522).

Aqui ressoa a frase famosa de Gottfried  Leibniz (1646-1716): “por que existe o ser e não o nada”? A essa questão não cabe resposta: é o Mistério do ser, face ao nada. Face ao Mistério do ser, deve-se antes  calar do que falar, porque tudo o que dissermos fica aquém do Mistério que é Inefável e Inexprimível e já supõe que estamos no ser.

 Mas não estando no horizonte das coisas, Deus no entanto está no horizonte do sentido. Por isso assevera Wittgenstein: “Crer num Deus significa compreender a questão do sentido da vida. Crer num Deus significa perceber que ainda nem tudo está decidido com os fatos do mundo. Crer em Deus significa perceber que a vida tem um sentido”(Id.ibd).

Mas voltemos a Hawking: todos os grandes cientistas a começar por Newton que introduziu o matematismo na natureza, passando por Einstein e outros, chegando ao genial inglês, buscavam uma fórmula que desse conta de toda a realidade. O intento era uma “Teoria do Tudo” (TOE em inglês: Theory of Everything) ou também chamada de “Teoria da Grande Unificação”(TGU).

Há dois livros clássicos que resumem os caminhos e des-caminhos desta magna questão: John B.Barrow, Teorias de Tudo: a busca da explicação final (Zahar 1994) e o de Abdus Salam, Werner Heisenberg,Paul Dirac, A unificação das forças fundamentais: o grande desafio da física contemporânea (Zahar 1994). Todos acabaram reconhecendo o fracasso desse intento. Na expressão de John Barrow:”Toda a vida cotidiana, o que move os seres humanos em sua busca de felicidade e em sua tragédia, não cabem da concepção física do “Tudo”.

O último a reassumir esta questão foi exatamente Stephen Hawking em seu famoso  livro Uma breve história do tempo (Ediouro 2005). Tentou de todas as formas. Ao final, reconheceu a impossibilidade afirmando:” Se realmente descobrirmos uma teoria completa, seus princípios gerais deverão ser, no devido tempo, ser compreensíveis por todos, e não apenas por uns poucos cientistas. Então, todos nós, filósofos, cientistas e simples pessoas comuns, seremos capazes de participar da discussão de porquê é que nós e o Universo existimos. Se encontrássemos uma resposta para essa pergunta, seria o triunfo último da razão humana porque então conheceríamos a mente de Deus”(Uma breve história do tempo, p. 145). Refere-se a Deus e a sua mente abscôndita. Esse Deus-Mistério se encontra na raiz de todas as existências, sustentando-as e fazendo-as continuamente subsistir, mas sempre se subtraindo à vista humana. Por isso as Escrituras judeu-cristãs afirmam: ”Deus mora numa luz inacessível que nenhum ser humano viu nem pode ver”(1Tim 6,16; Sal 104,2; Ex 33,20; Jo,1,18;  1Jo 4,12).

Então cabe, realmente, concluir: se Deus existe como as coisas existem, então Ele não existe”. Para além das coisas, Ele existe, com uma natureza diversa das coisas, como Aquele que tirou tudo do nada e continuamente subjaz a tudo o que existe e poderá existir.

Leonardo Boff é filósofo, teólogo e escreveu: Experimentar Deus hoje:a transparência de todas as coisas, Vozes 2012;Tempo de transcendência, Vozes 2009.

 

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

NÃO EXISTEM RAÇAS, EXISTE RACISMO

 Frei Betto


 

       Não existem raças, afirma o antropólogo italiano Marino Niola. Elas existem apenas como “mito político”. É preciso excluir a palavra raça dos vocabulários da ciência, do marketing e da Constituição brasileira, cujo artigo 3, inciso XLI, reza: "Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. 

       Raça é uma palavra maldita, uma patologia da linguagem.  Existem apenas duas “raças”: a dos que têm e a dos que não têm. No capítulo VIII do clássico “Dom Quixote”, o herói alerta seu fiel escudeiro: “Vê ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha, e tirar-lhes a todos a vida, e com cujos despojos começaremos a enriquecer; esta é boa guerra, e bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da Terra.” Cético, Sancho Pança questiona: “Quais gigantes?” O escudeiro se esforça por trazer Quixote à realidade. Vale perguntar: Quais raças?

       A resiliência do termo “raça” em nossa cultura, a ponto de um governo progressista como o do PT criar a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, se deve ao fato de o racismo pretender atribuir bases científicas à sua postura execrável. As nossas diferenças de atitudes nada têm a ver com a Mãe Natureza; são filhas da Mãe Cultura. Nossos preconceitos e comportamentos discriminatórios resultam da educação que recebemos, das influências que tivemos, das experiências que vivemos. 

       Minha geração, nascida na década de 1940, é tributária dos filmes de Hollywood, nos quais os mocinhos eram sempre homens louros, de olhos claros, e os bandidos se assemelhavam a latino-americanos ou indígenas. O mesmo nas HQs da Disney, como o Pato Donald, nos quais os aborígenes figuravam como inferiores e ignorantes.

       A “bíblia” dos racistas é o livro do francês J.A. Gobineau, lançado em 1853, “Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas”. Ali o filósofo francês aplica aos povos os parâmetros usados na zoologia para classificar espécies animais. 

       O primeiro a denunciar essa falácia foi outro francês, Claude Lévi-Strauss, em 1952, em seu livro “Raça e história”, uma reação ao uso e abuso do termo pelos nazistas. O antropólogo francês retomou o assunto em  “A cor das ideias”, de 1971, no qual desmascara os silogismos raciais com base na ciência.

       A genética comprova que o DNA é comum a  todos os seres humanos. E as diferenças não derivam dos genes, e sim da convivência com outras pessoas que nos transmitem o patrimônio imaterial – idiomas, tradições, costumes, valores, gostos. Somos de diferentes etnias, que resultam da cultura, não raças, que supostamente resultariam da constituição biológica. 

       Vale lembrar que não há ninguém mais culto do que outro. Há distintas culturas socialmente complementares. É um erro confundir níveis de escolaridade com níveis de cultura. O físico nuclear que não sabe cozinhar depende, para sobreviver, da cultura culinária de sua cozinheira.

       A humanidade sempre se dividiu entre seres “superiores” e seres “inferiores”. A suposta superioridade não deriva da cor da pele, como alegam brancos racistas. Deriva das ferramentas empoderadoras, como o dinheiro e os recursos bélicos, que forjam a ideologia de que as características do dominador legitimam a sua superioridade em relação ao dominado. Assim, os romanos da época do império tratavam os estrangeiros como “bárbaros” e os colonizadores europeus se atribuíam direitos e privilégios negados aos povos colonizados. 

       Para os espanhóis e portugueses que invadiram a América Latina os povos originários eram ignorantes. Os ibéricos jamais tiveram olhos para reconhecer a imensa riqueza cultural das nações indígenas, como os maias, que utilizaram o zero antes dos europeus e faziam previsões meteorológicas tão acertadas que, ainda hoje, intrigam os cientistas. 

       Jorge Luis Borges, no conto “O idioma analítico de John Wilkins” escreve que “não há classificação do Universo que não seja arbitrária e conjectural”. E cita como exemplo a enciclopédia chinesa intitulada “Empório Celestial de Conhecimento Benevolente”, onde consta que os animais se dividem em 14 categorias. A última é a dos que “de longe parecem moscas.”

       Vistos à distância, do alto da arrogância e prepotência, os demais seres humanos “parecem moscas”. Isso vale para o olhar do estadunidense preconceituoso frente aos africanos; do branco frente aos negros; do cristão frente ao muçulmano; do homem frente à mulher; do habitante da cidade frente aos indígenas. Por isso, a categoria “raça” é tão conveniente para legitimar preconceitos e discriminações. 

       Sabemos todos que os recursos do planeta se aproximam do limite. Exceto um: o ser humano. Somos o único recurso abundante na face da Terra, até mesmo porque nossa reprodução exige poucas calorias e nos dá imenso prazer. Daí o esforço de tentar naturalizar as diferenças, de modo a justificar a exploração, a submissão e a exclusão. 

       Admitir que somos todos dotados das mesmas características biológicas e da mesma dignidade significa uma ameaça aos que detêm os meios de controle de uns sobre os outros, da riqueza da elite em relação aos pobres, e até da força física do homem em relação à mulher.

       Certas palavras devem ser definitivamente eliminadas do vocabulário. Não existe raça, existe sim racismo, que do mesmo modo deve ser banido da convivência humana.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org 

 

 

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

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sexta-feira, 3 de março de 2017

EXISTE VIDA EXTRA-TERRESTRE?


por Leonardo Boff


Cientistas da NASA descobriram uma estrela Trappist-1, distante 39 anos luz da Terra, com sete planetas rochosos, três dos quais com possibilidade de água e assim de vida. Esta descoberta recolocou a questão de eventual vida extra-terrestre. Façamos alguns reflexões sobre o tema, fundadas em nomes notáveis na área.
As ciências da Terra e os conhecimentos advindos da nova cosmologia nos habituaram a situar todas as questões no quadro da grande evolução cósmica. Tudo está em processo de gênese, condição para surgir a vida.
A vida é tida como a realidade mais complexa e misteriosa do universo. O fato é que há cerca de 3,8 bilhões de anos, num oceano ou num brejo primordial, sob a ação de tempestades inimagináveis de raios, de elementos cósmicos do próprio Sol em interação com a geoquímica da Terra, esta levou até à exaustão a complexidade das formas inanimadas. De repente, ultrapassou-se a barreira: estruturaram-se cerca de 20 aminoácidos e quatro bases fosfatas. Como num imenso relâmpago que cai sobre o mar ou brejo, irrompeu a primeiro ser vivo.
Dando um salto quântico e qualitativo, emergiu na Terra, em nosso espaço-tempo curvo, num canto de nossa galáxia média, num sol secundário, num planeta de quantité négligeable, a Terra, a grande novidade: a vida. A Terra passou por 15 grandes dizimações em massa, mas como se fora uma praga, a vida jamais foi extinta,
Vejamos, rapidamente, a lógica interna que permitiu a eclosão da vida. À medida que avançam em seu processo de expansão, a matéria e a energia do universo tendem a se tornar cada vez mais complexas. Cada sistema se encontra num jogo de interação, numa dança de troca de matéria e de energia, num diálogo permanente com o seu meio, retendo informações.
Biólogos e bioquímicos, como Ilya Prigogine (prêmio Nobel em química, 1977), afirmam que vigora uma continuidade entre os seres vivos e inertes. Não precisamos recorrer a um princípio transcendente e externo para explicar o surgimento da vida, como o fazem, comumente, as religiões e a cosmologia clássica.    Basta que o princípio de complexificação, autoorganização e autocriação de tudo, também da vida, chamado de princípio cosmogênico, estivesse embrionariamente naquele pontozinho ínfimo, emerso da Energia de Fundo que depois explodiu. Um dos mais importantes físicos quânticos da atualidade, Amit Goswami, sustenta a tese de que o universo é matematicamente inconsistente sem a existência de um princípio ordenador supremo, Deus. Por isso, para ele, o universo é autoconsciente (O universe autoconsciente, Rio 1998).O mesmo pensa talvez o maior cosmólogo atual Brian Swimme (The hidden Heart of the Cosmos, 1996).
A Terra não detém o privilégio da vida. Segundo Christiann de Duve, prêmio Nobel de biologia (1974) que escreveu uma das mais brilhantes obras sobre a vida, disse em seu livro Poeira vital: a vida como imperativo cósmico:
“Há tantos planetas vivos no universo quanto há planetas capazes de gerar e sustentar a vida. Uma estimativa conservadora eleva o número à casa dos milhões. Trilhões de biosferas costeiam o espaço em trilhões de planetas, canalizando matéria e energia em fluxos criativos de evolução. Para qualquer direção do espaço que olhemos, há vida (…). O universo não é o cosmo inerte dos físicos, com uma pitada a mais de vida por precaução. O universo é vida com a necessária estrutura à sua volta”( Op.cit.1997,p. 383).
É mérito da astronomia, na faixa milimétrica, ter identificado um conjunto das moléculas nas quais se encontra tudo o que é essencial para dar início ao processo de síntese biológica (Longair, M. As origens do nosso universo, 1994, p. 65-6). Nos meteoros e meteoritos, encontraram-se aminoácidos. Esses, sim, são os eventuais portadores das arquibactérias da vida. Houve, provavelmente, vários começos da vida, muitos frustrados, até que um definitivamente se firmou.
Presume-se que as mais diversas formas de vida originaram-se todas de uma única bactéria originária (Wilson, O . E., A diversidade da vida, São Paulo, 1994).  Com os mamíferos, surgiu uma nova qualidade da vida, a sensibilidade emocional e o cuidado. Dentre os mamíferos, há cerca de 70 milhões de anos, destacam-se os primatas, e depois, por volta de 35 milhões de anos, os primatas superiores, nossos avós genealógicos, e há 17 milhões de anos, nossos predecessores, os hominidas. Há cerca e 8-10 milhões de anos, emergiu na África o ser humano, o australopiteco. Por fim apareceu, há 100 mil o Homo sapiens-sapiens/demens-demens do qual somos herdeiros imediatos (Reeves, H. e outros, A mais bela história do mundo, Petrópolis, 1998).
A vida não seria fruto do acaso (contra Jacques Monod, O acaso e a necessidade, Petrópolis, 1979). Bioquímicos e biológicos moleculares mostraram (graças aos computadores de números aleatórios) a impossibilidade matemática do acaso puro e simples. Para que os aminoácidos e as duas mil enzimas subjacentes pudessem se aproximar e formar uma célula viva, seriam necessários trilhões e trilhões de anos, mais do que os 13,7 bilhões de anos, a idade do universo. As possibilidades são de 10 em potência, 1000 contra um. O assim chamado acaso é expressão de nossa ignorância.
Estimamos que o sentido da evolução ascendente é produzir mais e mais condições para a irrupção da vida, também extra-terrestre como na lua Europa de Júpiter e os três planetas rochosos de Trappist-1.
Com razão disse o famoso físico britânico Freeman Dyson (*1923): ”quanto mais examino o universo e os detalhes de sua arquitetura, mais acho evidências de que o universo sabia que um dia, lá na frente, iríamos surgir”(Disturbing the Universe, 1979, p. 250).
Leonardo Boff junto com o cosmólogo Mark Hathaway trata detalhamente o tema em o O Tao da Libertação, Vozes 2010.