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quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

RECONSTRUÇÃO SE FAZ COM MOBILIZAÇÃO

Frei Betto


 

       A vitória eleitoral de Lula sinaliza a derrota das forças destrutivas que se apoderaram da administração federal nos últimos quatro anos. Não sei se o lema do novo governo – “União e Reconstrução” – se transformará em fato. União nacional não é tarefa fácil. 

       A cultura bolsonarista, impregnada de ódio, contaminou inúmeras pessoas que se somaram aos 58 milhões de votos recebidos por Bolsonaro no segundo turno. E não há possibilidade de união nacional nessa sociedade injustamente marcada por gritante desigualdade social. 

       Contudo, reconstrução é viável. Lula tem plena consciência do que precisa ser feito. Seus discursos de posse expressam o caráter deste terceiro mandato, onde se destacam três prioridades: combater a fome e a insegurança alimentar; reduzir a desigualdade social; proteger nossos biomas e fortalecer as políticas socioambientais.

       Lula está atento ao que deveria ter sido feito em seus primeiros mandatos e, por força da conjuntura, não aconteceu. Sabe que, agora, é talvez sua última oportunidade de governar o Brasil. Na conversa privada que tivemos no Itamaraty, na noite de 1º de janeiro, eu disse a ele que este é o início de seu penúltimo mandato. Ele sorriu. Estou convencido de que será candidato à reeleição em 2026, aos 81 anos. A quem alega a idade avançada, lembro do cardeal Roncalli, eleito papa João XXIII com 77 anos, em 1958, e com 80 promoveu uma revolução na Igreja Católica ao convocar o Concílio Vaticano II.

       Nos mandatos anteriores, Lula assegurou sua governabilidade pelo modelo “saci-pererê”, apoiada em uma só perna: o Congresso Nacional. Agora sabe que a perna mais importante é a da mobilização popular. Espero que ministros e ministras se deem conta de que apoio popular não se confunde com os 60 milhões de votos recebidos por Lula. Depende de intenso trabalho pedagógico. Não brota do espontaneísmo nem resulta automaticamente das políticas de inclusão social. Feijão não muda automaticamente a razão. 

       Participação cidadã advém de consciência crítica, organização e mobilização. E o governo federal dispõe de amplos recursos para promovê-las, desde poderoso sistema de comunicação à seleção de livros didáticos. Sobretudo valorizar a capacitação política de seus representantes em contato direto com a população, como os 400 mil agentes comunitários de saúde.

       Sem povão não há solução!

 

Frei Betto é escritor, autor de “Tom vermelho do verde” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

  

Frei Betto é autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

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domingo, 9 de maio de 2021

"QUEM FAZ A HISTÓRIA (2), EM TEMPOS DE CORONAVIRUS"

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(08/05/2021)

 

     A despeito das tentativas  de marginalizar a papel do povo, como ator da História, ele se impõe por si mesmo. Não seria mera fantasia afirmar que, se algum dia, alguém reescrevesse a História Universal, a partir desta narrativa do cotidiano popular, da sua filosofia de vida,  criatividade,  resistência, esta seria decerto a verdadeira História da Humanidade. Acontece, porém, que a realidade é um jogo de contradições.

 

     Medos e paradoxos se misturam nas atitudes que podemos chamar de demofobia (medo do povo). Por um lado, se exalta a supremacia do povo como sujeito soberano e legítimo da política democrática. A Constituição Brasileira proclama, em seu primeiro artigo: "Todo poder emana do povo e em nome dele deve ser exercido". "Do povo, pelo povo e para o povo" tornou-se uma espécie de legenda de todas as democracias vigentes.

 

      Por outra parte, as elites sociais não conseguem camuflar sua aversão e seu menosprezo pelas classes populares. Como se evidenciou em declarações recentes do Ministro da Economia ("o Fies bancou Universidade até para filho de porteiro". "Empregada doméstica estava indo para a Disney, uma festa danada"). Baixou sobre o Ministro o espírito de Nicolau Maquiavel, que escreveu, no século XVI: "o vulgo se deixa impressionar pelas aparências e pelos efeitos, mas é o vulgo que faz o mundo".

 

     Daí procede o boicote de acesso aos meios que consolidam o poder. Num mundo em que o conhecimento tornou-se uma das suas armas mais eficazes, fecham-se as portas das Universidades para os pobres.

 

     Quando o Sr. Ministro expele os seus impropérios, ele se faz porta-voz dos parceiros de classe e fortuna ("jamais vou admitir que a minha filha seja colega de classe, na Universidade, da filha da minha empregada", declara uma enfatuada madame.)

 

     De tudo isso resulta que o povo, oficialmente reconhecido como protagonista, só participa dos eventos  importantes da História como ator subordinado, vale dizer, como não-ator, mero assistente.

 

      Na medida em que lhe é usurpado esse direito de competir com iguais recursos,  estimulam-se os mitos alienantes, quase sempre de natureza religiosa. Repete-se a História.  Há milênios, na sábia e evoluída Grécia, o sábio Anaxágoras foi acusado de heresia por descrever  o sol como uma massa de pedra incandescente.  Para o dirigente de Atenas, Péricles (490 A.C.), era mais útil que o povo continuasse adorando o Sol como um deus e recorrendo a ele em suas necessidades. Assim também, convém ao modelo neo-liberal o slogan "Deus acima de tudo". Ele  impede a população de ver que Deus está no meio dela, atento aos filhos mais desvalidos e com um chicote na mão para expulsar os vendilhões do templo.

 

     As classes dominantes chegam ao climax da sua demofobia quando, em algum momento, acontece um novo ensaio histórico de ascensão revolucionária das massas, uma conversão de povo governado para povo governante. Aí a demofobia vira pânico e qualquer ditadura é preferível a esta detestável democracia.

 

     Por conseguinte, de nada adianta reafirmar a relevância do poder popular, se não forem  aperfeiçoadas  as formas de representatividade. Quantos dos chamados "representantes do povo", no atual Congresso Nacional, tem alguma coisa a ver com o proletariado, o campesinato, o operariado, os artesãos, os descamisados, as "camadas baixas" da população?

 

     Urge, pois, entender que a política partidária não é a única instância de participação na vida política, determinante das transformações sociais. Da formação e organização das bases populares pode emergir uma nova força capaz de influir eficazmente nos acontecimentos e reavivar a chama de esperança que começa a arder, ultimamente, no cenário nacional.

 

     E Deus em tudo isso? Respondo com uma passagem do evangelista Mateus:"Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se porque estavam exaustas e abatidas como ovelhas sem pastor" Mt.9,36.

     Procuram-se sábios "pastores" para estar junto ao povo abatido e exausto, como ovelhas sem pastor.

 

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

 

domingo, 2 de maio de 2021

*QUEM FAZ A HISTÓRIA? EM TEMPOS DE CORONAVIRUS*


FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(02/05/2021)

 

     Penso que já cansei meus ouvintes, de tantas vezes repetir uma das minhas enraizadas convicções: a maior riqueza de cada pessoa é a sua própria história. Sua biografia, tesouro inesgotável, será o seu mais rico legado. Ninguém conhece ninguém ouvindo-o expor idéias e convicções. Mas quando alguém historia seu passado, simplesmente, cristalinamente, sinceramente, nós o  conhecemos por inteiro, corpo e alma, realidade e mistério, sonho e feijão.

 

     Um exemplo clássico  disso: um dos mais consagrados pensadores dos tempos modernos é o filósofo alemão  Nietzsche. Embora discordando da sua visão do mundo e da vida, me deleito saboreando sua capacidade de destrinchar as mais profundas verdades  fossilizadas e escancarar as grandes hipocrisias camufladas. No entanto, este gênio não conseguiu encontrar seu equlíbrio existencial e acabou recorrendo ao suicídio. Quem lê suas idéias sem conhecer sua biografia, na verdade não o conhece e, não o conhecendo, como confiar em suas idéias?

 

     Pulando do micro para o macro, do indivíduo para a coletividade, fico a imaginar daqui a 100 anos. Quem serão os protagonistas deste momento histórico que estamos atravessando, na visão dos futuros historiadores? Tem sido de praxe que historiadores, (a exceção dos gênios), porta-vozes das classes dominantes,   relatam os acontecimentos do ponto de vista dos opressores. Selecionam  os pioneiros do progresso e os heróis da pátria entre os que se acham entronizados na cúpula do poder político, do poder militar e do poder econômico. Sobram alguns lugares para figuras relevantes da ciéncia, da literatura e das artes.

 

     E o povo, o povo no sentido mais popular da palavra? Se não lhe cabe nenhum papel de protagonista, como definir seus componentes?   Massa sobrante? Refugos do Mercado? Párias da sociedade?  Úteis enquanto meros serviçais e peso morto no sistema produtivo? Condenados ao anonimato e destinados apenas a sobreviver?

 

     Vê só uma coisa! Milhares de operários foram necessários para construir Brasília, capital do país. Sem eles Brasília simplesmente não existiria. Contudo, quem a visita é convidado a conhecer um imponente museu dedicado a Juscelino Kubischek, seu idealizador. E não vai encontrar nenhum registro dos numerosos Zé da Silva e Maria da Conceição, que jazem nos alicerces da grande cidade.

 

     Neste ponto bato palmas para a mídia alternativa, particularmente das redes sociais. Tivemos oportunidade de  escutar, faz alguns dias, dois moradores de rua de S.Paulo. Anônimos, mal-amanhados, excluídos. Discorriam filosoficamente sobre a relação entre pandemia, política e sociedade. Confesso que não foi menor minha admiração, meu prazer, meu aprendizado, do que se estivesse escutando Jessé de Souza ou Noam Chomsky.

 

     Chamemos de drama a pandemia do coronavirus. Em torno deste drama movem-se os mais diversos atores, com papéis diferenciados. Quem são os que povoam diariamente as páginas da grande mídia? Sem dúvida, são os que ocupam as assembléias políticas, com seus discursos, intrigas e resoluções. Quem são os que trabalham nos bastidores, garantindo a segurança e o êxito final desse drama?  Decerto são os que se recolhem em seus laboratórios de pesquisa e os que se estafam nos espaços dos hospitais, das UTIs (cientistas e profissionais de saúde.)  E onde se encontra o povo? - Na platéia. E quais os comentários da  midia sobre eles? - Que estão ou não se aglomerando, que estão ou não usando máscara, que estão ou não frequentando as praias.

 

      No entretanto, constituimos uma humanidade. Como poderemos entender a totalidade se descartarmos o papel da maioria? E como podemos nos redimir, se negamos ao povo o sacratíssimo direito de sonhar?

 

     A despeito de todos estes questionamentos, gostaríamos de introduzir nossa próxima reflexão com este pensamento de João Guimarães Rosa: "poder nenhum há que se aguente quando o povo se arrepia, sacudindo o lombo".

 

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

  

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

A FALTA QUE VOCÊ FAZ, PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF!

 



Por Lusmarina Campos Garcia

 

Há quatro anos, a Presidenta democraticamente eleita Dilma Rousseff e os 54 milhões de brasileiros e brasileiras que nela votaram, sofriam um golpe. Derrubada com base em acusações de um crime que ela não cometeu, a primeira mulher Presidenta do Brasil foi retirada pela articulação de homens da política, do judiciário, da imprensa, dos quartéis e do Ministério Público, com interesses variados, mas todos concordando que ela, Dilma, era um empecilho para os seus objetivos.

A conversa entre o então Ministro do Planejamento, senador licenciado, Romero Jucá (PMDB/RR) e o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, transcrita pela Folha de São Paulo em 23 de maio de 2016, revela claramente como o impeachment foi planejado no campo político atrelado ao judiciário.

Aterrorizados pelo fato de que a Lava Jato os alcançasse, Jucá e Machado delinearam o plano para frear os avanços da operação: articular o impeachment. Para tal, precisariam manter o Eduardo Cunha pelo maior tempo possível na presidência da Câmara, uma vez que ele já estava denunciado e sob risco de prisão. Precisariam convencer Renan Calheiros (PMDB/AL), então presidente do Senado, a aceitar entrar no acordo que envolveria o então vice-presidente da República Michel Temer (PMDB/SP) e Eduardo Cunha (PMDB/RJ), seus desafetos.

Os líderes de outros partidos, especificamente o PSDB, estavam conscientes de que a situação precisava ser interrompida. Ministros do Supremo Tribunal Federal tinham sido consultados, segundo Jucá, e haviam dito que “só tinha condições … sem ela”, uma vez que a imprensa a queria fora. Jucá havia também conversado com os militares que disseram que “vão garantir”.

O acordo para derrubar a Presidenta Dilma, conforme revelado pela conversa entre Jucá e Machado, ocorreu “com Supremo com tudo” e com a garantia dos militares.

Para tornar o impeachment viável o PSDB contratou a advogada e professora Janaína Paschoal, que juntamente com Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Flávio Pereira assinaram a “denúncia por crime de responsabilidade”. Nenhuma das acusações tinha substância de fato, mas não precisava, porque a decisão já estava tomada antes que a denúncia fosse apresentada; aliás, a denúncia foi apenas a peça inicial para que as formalidades do impeachment se desenrolassem.

Na outra ponta da saga do impedimento, o Ministério Público de Dallagnol juntamente com o então juiz federal Sérgio Moro e em associação com a imprensa nacional, investiu todas as suas cartas em sua sanha persecutória ao PT. Sob a fachada do “combate à corrupção”, a Operação Lava Jato se constituiu a partir de um acordo com o governo americano por meio do Departamento de Justiça e do FBI , e teve como resultado o desmonte da indústria do petróleo e da construção civil nacional, solapando a economia do país assim como a sua soberania. Aparentemente mais corruptos do que os supostos corruptos que perseguiam, os líderes da Operação Lava Jato foram uma chave central no impedimento da Presidenta Dilma.

É relevante perceber que os machos do poder político, judiciário, militar, midiático, empresarial e do Ministério Público, com a conivência e a participação de mulheres específicas, confluíram para uma mesma “alternativa”: a derrubada da Presidenta democraticamente eleita. A pergunta que se faz é: por que homens com interesses diferentes e de lados presumivelmente opostos convergiram para esta mesma “alternativa”? Tenho duas hipóteses. A primeira é que a corrupção é sistêmica e todos, num maior ou menor grau, podem ser ligados a práticas corruptivas ou corruptoras. O capitalismo é, em si, um sistema propiciador de corrupção; a isenção com respeito a tais práticas é, de fato, uma raridade. A Presidenta Dilma é uma mulher íntegra e como tal, expunha não só as práticas corruptivas, mas o sistema que as produz. A segunda hipótese é que a cultura patriarcal brasileira permite que o machismo se articule de maneira veemente para o exercício do controle sobre as instituições democráticas e sobre o poder do Estado, mesmo que para tal, rompa com a regra democrática e com o Estado Democrático de Direito.

A presença de uma mulher honesta na Presidência da República tornou-se insuportável num país acostumado a naturalizar a corrupção e o machismo. A integridade dela transformou-se no reverso do espelho que, ao refletir a imagem dos homens corruptos e machos, tornou possível ver não a aparência, mas a verdadeira interioridade das instituições e dos indivíduos que as compõem e as representam. E o Brasil se descobriu feio demais. Presidenta Dilma Rousseff, como você faz falta!

 

LUSMARINA CAMPOS GARCIA é teóloga eco-feminista, pastora luterana e pesquisadora no Programa de Pós-graduação da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ. Compõe três grupos de pesquisa: Observatório do Judiciário Brasileiro, Direito e Cinema e Teoria da Sociedade, Direito e Política. Defensora dos direitos humanos, com ênfase na questão de gênero, pronunciou-se na audiência pública do STF no contexto da ADPF 442 em defesa da descriminalização do aborto. É atuante no movimento ecumênico desde a década de 1980.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

O COVID-19 NOS FAZ DESCOBRIR ESPÍSITO NO COSMOS, NO SER HUMANO E EM DEUS

 


  

Por Leonardo Boff

 

O Covid-19 nos faz descobrir  espírito no cosmos, no ser humano e em Deu

Vivemos numa época particularmente anêmica de espírito. A falta de políticas governamentais por parte do atual Presidente para atacar o Covid-19 mostra mais que falta de empatia e de solidariedade para com os mais de cem mil mortos. Mostra, o que é mais grave, a falta de espírito. Parece que o presidente vive ainda no estágio pré-humanos, dos primatas. Não cuida nem ama a vidau, a vida de seu povo.

Acresce ainda que  cultura do capital que se funda no consumo afogou o espírito na materialidade opaca. E sem espírito perdemos o que há de melhor em nós: a comunicação livre, a cooperação solidária, a compaixão amorosa, o amor sensível e a sensibilidade cordial pelo outro lado de todas as coisas, de onde nos vêm mensagens de beleza, de grandeza, de admiração, de respeito, de veneração e de transcendência.

Há uma das festas da tradição cristãs, das mais importantes,  Pentecostes, na qual os cristãos celebram a irrupção do Espírito sobre amedrontados seguidores de Jesus. Transformou-os em corajosos mensageiros de sua mensagem libertadora, alcançando-nos a nós até os dias de hoje. Nesse momento trágico de afogamento do espírito que é o mesmo que o assassinato da vida, deixada por conta de um vírus, que o atual Presidente negacionista desconsidera como um simples gripe, cabe uma reflexão sobre o espírito em minúsculo e sobre o Espírito em maiúsculo.

O espírito: primeiro no universo depois em nós

Somos singularmente portadores de grande energia. É o espírito em nós. O espírito, na perspectiva da nova cosmologia (a ciência que estuda o surgimento do universo, sua expansão e evolução, para onde se dirige, qual é seu sentido e nosso lugar dentro deste processo), é tão ancestral quanto o cosmos. Espírito é aquela capacidade que os seres, mesmo os mais originários, como os hádrions, os topquarks, os prótons e os átomos tem de se relacionarem, trocarem informações e de criarem redes de inter-retroconexões, responsáveis pela unidade complexa do todo. É próprio do espírito criar unidades cada vez mais altas e elegantes.

O espírito primeiramente está no mundo; somente depois está em nós. Entre o espírito de uma árvore e nós a diferença não é de princípio. Ambos são portadores de espírito. A diferença reside no modo de sua realização. Em nós seres humanos, o espírito aparece como autoconsciência e liberdade.Na árvore por sua vitalidade e relações com o solo, com os raios solares, as energias da Terra e do cosmos; ela sente, se relaciona, se nutre e nutre a própria natureza sequestrando CO2 e dando-nos oxigênio sem o qual não vivemos.

Espírito humano é aquele momento da consciência em que ela se sente parte de um todo maior, capta a totalidade e a unidade e se dá conta de que um fio liga e religa todas as coisas, fazendo com que sejam um cosmos, e não um caos. Como se relaciona com o Todo, o espírito em nós nos faz sermos um projeto infinito, uma abertura total ao outro, ao mundo e a Deus.

Portanto, a vida, a consciência e o espírito pertencem ao quadro geral das coisas, ao universo, mais concretamente: à nossa galáxia, à Via-Láctea, ao sistema solar e ao planeta Terra, ao local onde vivemos. Para que tivessem surgido, foi preciso uma calibragem refinadíssima de todos os elementos, especialmente das assim chamadas constantes da natureza (velocidade da luz, as quatro energias fundamentais, a carga dos elétrons, as radiações atômicas, a curvatura do espaço-tempo entre outras). Se assim não fosse não estaríamos aqui escrevendo sobre isso.

Refiro apenas um dado do  livro do astrofísico e matemático Stephen Hawking intitulado “Uma breve história do tempo” (2005): ”Se a carga elétrica do elétron tivesse sido ligeiramente diferente, teria rompido o equilíbrio da força eletromagnética e gravitacional nas estrelas e ou elas teriam sido incapazes de queimar o hidrogênio e o hélio, ou então não teriam explodido. De uma maneira ou de outra a vida não poderia existir” (p. 120). A vida pertence, pois, ao quadro geral das coisas e a vida possuída pelo espírito.

O princípio andrópico fraco e forte

Para conferir alguma compreensão a essa refinada combinação de fatores, criou-se a expressão “princípio andrópico” (que tem a ver com o homem). Por ele se procura responder a esta pergunta que naturalmente colocamos: por que as coisas são como são? A resposta só pode ser: se fosse diferente nós não estaríamos aqui. Respondendo assim não cairíamos no famoso antropocentrismo que afirma: as coisas só têm sentido quando ordenadas ao ser humano, feito centro de tudo, rei e rainha do universo?

Há esse risco. Por isso os cosmólogos distinguem o princípio andrópico forte e fraco. O forte diz: as condições iniciais e as constantes cosmológicas se organizaram de tal forma que, num dado momento da evolução, a vida e a inteligência deveriam necessariamente surgir. Essa compreensão favoreceria a centralidade do ser humano. O princípio andrópico fraco é mais cauteloso e afirma: as prá-condições iniciais e cosmológicas se articularam de tal forma que a vida e a inteligência poderiam surgir. Essa formulação deixa aberto o caminho da evolução que demais a mais é regida pelo princípio da indeterminação de Heisenberg e pela autopoiesis dos biólogos chilenos MaturanaVarela.

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as olhando para trás, nos bilhões de anos, constatamos que de fato assim ocorreu: há 3,8 bilhões de anos surgiu a vida e há uns quatro milhões de anos, a inteligência. Nisso não vai uma defesa do “desenho inteligente” ou  da mão da Providência divina. Apenas que o universo não é absurdo. Ele vem carregado de propósito. Há uma seta do tempo apontando para frente. Como afirmou o astrofísico e cosmólogo Feeman Dyson: ”parece que o universo, de alguma maneira, sabia que um dia nós iríamos chegar” e preparou tudo para que pudéssemos ser acolhidos e fazer o nosso caminho de ascensão no processo evolucionário.Curiosamente, quando no processo da evolução apareceram as flores (antes era tudo verde),nesse momento surgiu nosso ancentral. Parece que o universo e Deus lhe prapararam um berço de flores para enfatizar a alta qualidade deste ser que estava iniciando sua jornada pelos séculos até chegar a nós.

O universo autoconsciente e portador e espírito

O grande matemático e físico quântico Amit Goswami, que muito vem ao Brasil, sustenta a tese de que o universo é autoconsciente (O universo autoconsciente, Record 2002). No ser humano ele conhece uma emergência singular pela qual o próprio universo através de nós se vê a si mesmo, contempla sua majestática grandeza e chega a uma certa culminância.

Cabe ainda considerar que o cosmos está em gênese, não está pronto, está ainda se autoconstruindo e em expansão contínua. Cada ser mostra uma propensão inata a irromper, crescer e irradiar. O ser humano também. Apareceu no cenário quando 99,96% de tudo já estava pronto. Ele é expressão do impulso cósmico para formas mais complexas e altas de existência.

Alguns aventam a ideia: mas não seria tudo puro acaso? O acaso não pode ser excluído, como mostrou Jacques Monod no seu livro O acaso e a necessidade, o que lhe valeu o prêmio Nobel em biologia. Mas ele não explica tudo. Bioquímicos comprovaram que para os aminoácidos e as duas mil enzimas subjacentes à vida pudessem se aproximar, constituir uma cadeia ordenada e formar uma célula viva seriam necessários trilhões e trilhões de anos. Portanto, mais tempo do que o universo e a Terra possuem de fato, que é de 13,7 bilhões de anos. O recurso ao acaso é dar honra à ignorância. Melhor é dizer  que não sabemos.

Dizendo de forma mais exata: o recurso ao acaso mostre apenas nossa incapacidade de entender ordens superiores e extremamente complexas como a consciência, a inteligência, o afeto e o amor. Nesse sentido, talvez a visão de Pierre Teilhard de Chardin do universo, segundo a qual este mais e mais se complexifica e, assim, permite a emergência da consciência e da percepção de um ponto Ômega da evolução na direção do qual estamos viajando, seja mais adequada para expressar a dinâmica mesma do universo.

Não seria melhor calarmos reverentes e respeitosos diante do mistério da existência e do sentido do universo?

Depois dessas reflexões, já estamos habilitados a abordar a dimensão teológica do espírito como  Espírito Criador.

O Espírito Criador e a cosmogênese

Como não podia deixar de ser, Deus também é incluído na dimensão do espírito. E por excelência. Está presente na primeira página da Bíblia quando se narra a criação do céu e da terra. Diz-se que sobre o touwabohu, isto é, sobre o caos, melhor, sobre as águas primitivas “soprava um ruah (um vento, uma energia) impetuoso” (Gn 1,2). Daquele caos tirou todas as ordens: os seres inanimados, os animados e o ser humano. A este, tirado do pó como todos os demais, Deus “soprou-lhe nas narinas o ruah de vida, o espírito, e ele tornou-se um ser vivo”  (Gn 2,7). É no capítulo 37 de Ezequiel que irrompe, de forma insuperavelmente plástica, a força vital do espírito. Quando este vem, os ossos ressequidos ganham carne e se transformam em vida.

Também as expressões mais altas do ser humano são atribuídas à presença do espírito nele, como a sabedoria e a fortaleza (Is 11,2), a riqueza de ideias (Jo 32,28), o senso artístico (Ex 28,3), o desejo ardente de ver Deus e o sentimento de culpa e a consequente penitência (Ex 35,21; Jr 51,1; Esd 1,1; Es 26,9; Sl 34,19; Ez 11,19; 18,31).

Deus “tem” espírito

Essa força criadora e vivificadora é eminentemente possuída por Deus. As Escrituras falam com frequência do espírito de Deus (ruah Elohim). Ele é dado a Sansão para ter força portentosa (Jz 14,6; 19,15), aos profetas para terem coragem de denunciar em nome dos pobres da Terra as injustiças que padecem, para enfrentar o rei, os poderosos e anunciar-lhes o juízo de Deus.

Especialmente no judaísmo inter-testamentário, esperava-se para os fins dos tempos a efusão do espírito sobre toda a criatura (Jl 2,28-32; At 2, 17-21). O Messias será “forte no espírito” e virá dotado de todos os dons do espírito (Is 11,1ss).

É nesse contexto do judaísmo tardio que surge a tendência de personificar o espírito. Ele continua sendo uma qualidade da natureza, do ser humano e de Deus. Mas sua ação na história é tão densa que começa a ganhar autonomia. Assim se diz, por exemplo, que “o espírito exorta, se aflige, grita, se alegra, consola, repousa sobre alguém, purifica, santifica e enche o universo”. Jamais se pensa nele como criatura, mas como algo do mundo de Deus que, quando se manifesta na vida e na história, tudo transforma.

O Espírito é Deus, Deus é Espírito

A compreensão começou a mudar quando se cunhou uma expressão decisiva:”espírito de santidade” ou “espírito santo”. Essa formulação guarda certa ambiguidade, pois pode-se dizer espírito santo para se evitar dizer o nome de Deus (coisa que  os judeus até hoje, por respeito, evitam) como pode-se significar o próprio Deus. Para a mentalidade hebraica, “santo” é o nome por excelência de Deus, o que equivale dizer na compreensão grega: Deus como transcendente, distinto de todo e qualquer ser da criação.

Em resumo, podemos afirmar: pela palavra espírito (ruah) aplicado a Deus (Deus “tem” espírito, Deus envia o seu espírito, o espírito de Deus) os judeus expressavam a seguinte experiência: Deus não está atado a nada; irrompe onde quer; confunde planos humanos; mostra uma força à qual ninguém pode resistir; revela uma sabedoria que torna estultície todo o nosso saber. Assim, Deus se mostrou aos líderes políticos, aos profetas, aos sábios, ao povo, especialmente, em momentos de crise nacional (Jz 6,33; 11, 29; 1 Sam 11,6).

Assim como é dado ao rei para que governe com sabedoria e prudência, no caso o rei Davi (1 Sam 16,13),  (oxalá o dê ao presidente anti-espírito que nos (des)governa) será dado também ao servo sofredor, destituído de toda pompa e grandiloquência (Is 42,1). Em Is 61,1 diz-se explicitamente: ”o espírito de Javé está sobre mim porque Javé me ungiu… para anunciar a libertação dos cativos e a boa-nova para os pobres”, texto que Jesus aplicará a si na sua primeira aparição na sinagoga de Nazaré (Lc 4, 17-21). Por fim, o espírito de Deus não sinaliza apenas sua ação inovadora no mundo, mas aponta para o próprio ser de Deus. O espírito é Deus. E Deus é  Espírito. Como Deus é santo, o Espírito será o Espírito Santo.

O Espírito Santo penetra tudo, abarca tudo, está para além de qualquer limitação. “Para onde irei para estar longe de teu Espírito? Para onde fugirei a fim de estar longe de tua face? Se eu escalar os céus, aí estás, se me colocar no abismo, também aí estás” (Sl 139,7) Até o mal não está fora de seu alcance. Tudo o que tem a ver com mutação, ruptura, vida e novidade tem a ver com o espírito. O Espírito Santo está tão unido à história que ela de profana se transforma em história santa e sagrada.

O Espírito num mundo sem espírito e em degradação

Hoje sentimos a urgência da irrupção do Espírito Santo como na primeira manhã da criação. A Carta da Terra, face à crise mundial ecológica, com energias negativas que nos podem arrastar ao abismo, afirma: “Como nunca antes da história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Isso requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal… Temos ainda muito a aprender a partir da busca conjunta por verdade e sabedoria (final)”]

O Papa Francisco diz igualmente em sua encíclica “sobre o cuidado da Casa Comum:”Nunca maltratamos e ferimos a Casa Comum como nos último dois séculos(n. 53). Se “não mudarmos nosso estilo de vida insustentável- continua- só poderemos desembocar nas catástrofes”(n.161).

Cabe ao Espírito iluminar nossa mente e transformar nosso coração. Se fizermos essa conversão, dificilmente escaparemos das ameaças que pesam sobre o sistema-vida e sistema-Terra. Cabe ao Espírito a capacidade de transformar o caos destrutivo em caos criativo, como operou no primeiro momento do Big Bang. Ele pode transformar a tragédia como a atual do Covid-19 numa crise acrisoladora que nos permite dar um salto de qualidade rumo a uma nova ordem, mais alta, mais humana, mas cordial, mais amorosa e mais espiritual. O universo, a Terra e cada um de nós somos templos do Espírito. Ele não permitirá que seja desmantelado e destruído. Esse pedido é urgente para a atual situação quando a Terra como um todo é atacada por um vírus letal que está dizimando milhares de vidas.

Importa suplicar ao Espírito: Vem, Espírito Criador! Renove a face da Terra, aqueça nossos corações e rasgue um horizonte de sentido e de esperança para a nossa realidade humana desumanizada e agora posta sob o risco de milhares desaparecerem vitimas da intrusão do Covid-19. A ciência, a técnica a vacina são fundamentais. Mas apenas com elas não está garantido que evitemos voltar ao que era antes. Para isso precisamos de outro espírito que dê centralidade ao que conta: a vida, a cooperação, a interdependência, a generosidade e o cuidado para com a natureza e para uns para outros. Se não fizermos esta viragem paradigmática, podemos  ser atacados novamente e de forma ainda mais letal.

Leonardo Boff é ecoteólogo, um dos redatores da Carta da Terra e escritor e escreveu:”O Covid-19: o contra-ataque da Terra contra a Humanidade” a sair em breve pela Editora Vozes, 2020.

 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

A FANTASIA SE FAZ REALIDADE





por Frei Betto

         O Carnaval é uma festa litúrgica, momento de transgressão da racionalidade e de efusão do espírito. Sua essência é imprimir realidade à fantasia, por mais paradoxal que pareça. No Carnaval o folião se desafoga, livra-se dos anjos e demônios que o habitam, migra para as múltiplas representações de sua personalidade condicionada, no resto do ano, pelos padrões culturais hegemônicos.
         Nessa festa o folião exibe o seu avesso e desmascara convenções sociais, quebra preconceitos e ridiculariza a empáfia dos que detêm o poder. É a ocasião de extravasar sentimentos e emoções reprimidos, trazer à tona a intimidade contida, inclusive se entrelaçar com estranhos que se tornam próximos pelo simples fato de endossarem o cordão, o bloco, a escola de samba.
         O ser humano não suporta ficar confinado na esfera da necessidade e cuidar apenas da administração da vida como fenômeno biológico: o trabalho em busca de salário; o aluguel; a mensalidade da escola dos filhos; as contas de luz e gás... É preciso emergir eventualmente para a esfera da gratuidade, na qual predominam o lúdico, o festivo, o litúrgico, território no qual a imaginação ou a fantasia assume supremacia sobre a razão e a moral se impõe sobre o moralismo.
         O que se busca no Carnaval? O espelho invertido, trafegar na contramão e deixar Momo se refestelar na alegria. Fazer com que os monstros que protagonizam dias e meses do ano permaneçam calados, recolhidos à sua insana tristeza. Aflorar o júbilo dessa gente sofrida e devolver-lhe a autoestima. Ainda que dure apenas três ou quatro dias, sejam dados vivas e aplausos à faxineira travestida de rainha; ao encanador, de sultão; ao gari, de oráculo divino.
         Festa com gosto de infinitude, tenha o Carnaval um ritmo tão alucinado que faça todos rodopiarem no carrossel da alegria embriagadora. Soem cuícas, tamborins e pandeiros, e exorcizem, de todos os foliões, essa letargia que o medo infunde naqueles que não acreditam que o presente se fará ausência no futuro promissor. Abram alas às alvíssaras!
         Vamos, neste Carnaval, arrancar as roupagens convencionais que nos impelem a ser o que não somos. Desfilar despidos de qualquer sinecura, sem os adornos que, ao longo do ano, nos inserem no bloco dos cínicos. Animados pelo samba-enredo, avancemos rumo à alucinação dos loucos repletos de razão, à subversão poética da palavra desassossegada, à lógica que supera os efeitos e ousa encarar as causas até elevá-las ao cume dos carros alegóricos.
         Não tergiversar nem fazer coro com os que insistem em acobertar o passado. No sambódromo, o ritmo da bateria haverá de ressuscitar todas as crianças assassinadas pelos monoglotas do discurso bélico: Ketellen, Ágatha, Kauê, Kauã, Kauan e Jenifer.
         A comissão de frente ostentará imensa faixa com o verbo AMAR, para que todos os foliões desaprendam a conjugar o verbo armar, pois um simples erre é capaz de desencadear, como pandemia, sementes amargas de rancor, raiva e ruindade.
         Vamos celebrar, neste Carnaval, a união de espíritos, a tolerância de convicções, o diálogo das religiões, e exaltar o direito à diferença, execrando os que insistem em desenterrar torturadores e nazistas para convidá-los à dança macabra da necrofilia ao som de tiros.
         Venha um Carnaval que celebre o Brasil e os brasileiros, essa gente sofrida que, o ano todo, percorre a espinhosa passarela da vida sonegada de direitos, condenada à pobretarização, à educação sucateada, à saúde enferma, ao saneamento restrito e ao emprego loteria.
         Desfilem todos ébrios de utopia e entranhados da convicção de que fantasias podem se fazer realidade, e a imaginação, poder. E ousem romper o cordão que teima em contê-los imolados na sacrílega noção de que o sofrimento merece ser naturalizado.
         A vida nos foi dada para desfilar soberba na cadência da letra efe – bastam-nos, como brasileiros, fé, futebol, feijão, farinha e o fogo inapagável dos direitos de cidadania. O suficiente para nos assegurar festa e fartura.

Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.

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terça-feira, 31 de dezembro de 2019

COMO SE FAZ UM ANO NOVO




Por Marcelo Barros[1]

Nos ritos sociais da festa de Ano Novo, as famílias se reúnem para o réveillon, abrem garrafas de champanhe e se abraçam com os mais sinceros desejos de um feliz 2020. A televisão mostra como pelo mundo inteiro, ocorrem espetáculos de luzes e esplendor. Oráculos predizem a sorte e jogam búzios para ver como será esse novo ano. Nas praias, se  oferecem flores a Iemanjá e quem é mais ligado à Igreja, se reúne em vigília pela paz do mundo.
O ano novo lembra ritos de culturas mais antigas. Em algumas tribos, as pessoas jogam fora roupas velhas para significar o desejo de ser transformados. Outros grupos costumam peregrinar a uma alta montanha ou banhar-se no rio ou no mar, no primeiro momento do ano, para acolher o tempo novo dado por Deus.
As comunidades judaicas celebram o ano novo em setembro. Mas, por algum tempo, o antigo povo bíblico celebrava o ano novo na primavera. Era a Páscoa. Naquele tempo, o fermento que se tinha era o da massa de pão que, cada vez, ia se misturando com a massa nova. Por isso, o fermento era símbolo de corrupção e mentira. Até hoje, nos dias da Páscoa, as famílias judaicas eliminam das casas todo o fermento. Nas sinagogas antigas, o rabino sugeria o que Paulo escreveu: “Joguem fora de suas vidas o fermento da malícia e da corrupção para serem uma massa nova, como pão ázimo (não fermentado) na sinceridade e na verdade” (1 Cor. 5, 7).
Nas sociedades antigas, o rito ocupava um espaço central e era elemento de unidade e de renovação. De certa forma, correspondia ao que, nas sociedades atuais seriam técnicas e dinâmicas de terapia comunitária. Evidentemente, não serão apenas ritos e gestos que vão garantir que os nossos desejos de um ano novo mais feliz e de paz se cumpram. É importante que os nossos ritos do ano novo sejam marcados pelo amor e pela solidariedade e não pelo consumismo que reforça a desigualdade social e as injustiças. Se a noite do Ano Novo consistir apenas em comilanças e bebedeiras, que esperança podemos ter de um ano novo de paz e felicidade para a terra e os que nela habitam?
Em termos de Brasil, 2020 só será um ano mais feliz se conseguirmos superar o ambiente de ódio, intolerância e indiferença com os sofrimentos humanos que os meios de comunicação de massa e o império conseguiram disseminar na sociedade e mesmo nas famílias. Mesmo nas Igrejas cristãs ainda predomina a visão de um Deus narcisista e intransigente, amigo de seus amigos e implacável com quem não segue as normas de sua Igreja. No plano político, a elite sempre garante seus interesses. Os movimentos sociais tentam recompor sua unidade e reconstruir na sociedade o senso de cidadania e a dignidade da Política. Em outubro próximo teremos novas eleições municipais e podem ser importantes para garantir novas bases para uma transformação social e política cada vez mais urgente. No entanto, a Política terá de ser principalmente o cuidado com o bem-comum. Nas cidades, como em nossas casas, organizemos a vida a partir da solidariedade. Se fizermos isso, vamos experimentar o que diz o Novo Testamento: “Há mais alegria em dar do que em receber”.  A maioria festejará a vida e a paz que virão através da justiça. Assim, nesta noite de ano novo, cada pessoa poderá dizer ao seu vizinho uma antiga bênção irlandesa: “Que o caminho seja brando a teus pés. O vento sopre leve em teus ombros. Que o sol brilhe cálido sobre tua face, as chuvas caiam serenas em teus campos. E até que, de novo, eu te veja, que Deus te guarde na palma da sua mão”.




[1] - MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com