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sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

O COTIDIANO, A FANTASIA E O CARISMA

 

     Leonardo Boff


Nós viemos do útero comum donde vieram todas as coisas, da Energia de Fundo, daquele oceano sem margens, do big bang, do bóson Higgs que originou o top-quark, o tijolinho material mais primordial do edifício cósmico, passando por todas as fases da evolução até chegarmos ao computador atual e à inteligência artificial. E somos filhos e filhas da Terra. Melhor, somos a Terra que anda e dança, que freme de emoção e pensa, que quer e ama, que se extasia e adora o Ser que faz ser todos os seres.

Todas estas coisas primeiro estiveram no universo, se condensaram em nossa galáxia, ganharam forma em nosso sistema solar e irromperam concretas na nossa Terra, grande mãe, geradora de vida.

O princípio cosmogênico, vale dizer, aquelas  energias diretoras que comandam, cheias de propósito, todo o processo evolucionário,  obedecem a seguinte dinâmica tão bem estuda por Ilya Prigogine e Edgar Morin: ordem, desordem, relação, nova ordem, nova desordem, novamente relação e assim sempre de novo.

Mediante essa lógica, criam-se sempre mais complexidades  e diferenciações; na mesma proporção vão se criando interioridade e subjetividade em todos os seres até alcançar a sua expressão lúcida e consciente na mente humana. Só pode estar em nós o que antes estava no universo, mesmo em gestação.

Simultaneamente e também na mesma proporção vai se gestando a teia de relações, de trocas e de interdepências de todos com todos (tese básica da física quântica de Bohr/Heisenberg) que funciona como um ritornello nas encíclicas do Papa Francisco Laudato si (2015) e Fratelli tutti (2020), Tudo está relacionado com tudo em todos os momentos e em todas as situações. Diferenciação/interioridade/relação: eis a trindade cósmica que preside o funcionamento do universo. O normal do universo não é a permanência mas a mudança.

Como fruto da teia de relações, reciprocidades e simbioses existentes em tudo, na Terra e em nós mesmos, emerge uma nova ordem que, por sua vez, vai seguir a mesma trajetória de desordem, relação e nova ordem.  Enquanto estivermos vivos estamos sempre numa situação de não-equilíbrio  em busca contínua de adaptações que geram um novo equilíbrio.   Quanto mais próximos estivermos do equilíbrio total mais próximos estamos da morte. A morte é a fixação do equilíbrio e o fim do processo cosmogênico. Ou a sua passagem para um outro nível que demanda um novo tipo de reflexão. 

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Como se manifesta esta estrutura concretamente em nossa vida? Primeiramente no cotidiano e no prosaico. Cada qual os vive à sua maneira, que começa com a toilette pessoal, como se veste, como toma o seu café, como dá uma olhada no jornal ou escuta as primeiras notícias pela tv ou pelo rádio, como busca sua felicidade e como enfrenta a labuta da vida pelo trabalho.

O cotidiano é rotineiro,  cinzento e com raras novidades. A maioria da humanidade vive restrita ao cotidiano com o anonimato que ele envolve.  Alguns são conhecidos pela primeira vez quando morrem,  pois o anúncio pode aparecer no jornal, se aparecer. É o percurso normal das pessoas. 

Mas os seres humanos são também habitados pela imaginação,chamada por alguns de “a louca da casa”. Ela rompe as barreiras do cotidiano, permite o poético e dá saltos. A imaginação é, por essência, inventiva; é o reino das probabilidades e possibilidades, de si infinitas. Imaginamos nova vida, nova casa, novo trabalho, novos prazeres, novos relacionamentos, novo amor.

É da sabedoria de cada um articular o cotidiano com o imaginário e construir certo equilíbrio na vida. Se alguém se entrega só ao imaginário, pode estar fazendo uma viagem, voa como uma águia pelas nuvens esquecido da Terra e, no limite, pode acabar numa clínica psiquiátrica. 

Pode também se sepultar na rotina do cotidiano e do prosaico e ficar como uma galinha, ciscndo ou com voo rasteiro. Então se mostra pesado, desinteressante e aborrecido.

Quando alguém, entretanto, sabe abrir-se ao dinamismo do imaginário e às chances escondidas no cotidiano, vivificando-o com um toque do imaginário, sua vida se faz uma construção contínua e se  torna uma jornada interessante. O efeito se faz logo notar: começa, sem se dar conta, a irradiar uma rara energia interior. Dele sai uma misteriosa força que se comunica aos outros.

A esta força chamamos de carisma. Ela significa a energia cósmica que tudo vitaliza e rejuvenesce, força que faz atrair as pessoas e fascinar os espíritos.  

Quem são os carismáticos? Todos. A ninguém é negada a força cosmogênica que movimenta, na palavra de Dante,  o céu e todas as estrelas. Por isso a vida de cada um é chamada para brilhar e não permanecer apagado. Cada é desafiado a despertar o carisma escondido nele.        

Mas há carismáticos e carismáticos. Há alguns nos quais esta força de irradiação implode e explode. É como uma luz na noite escura. Pode ser fraca mas basta para mostrar o caminho.

Pode-se fazer desfilar todos os bispos e cardeais diante dos fiéis reunidos num salão.  Pode haver figuras notáveis em vários campos da vida. Mas o olhar de todos se fixa sobre Dom Helder Câmara. Porque ele é carismático. A figura é minúscula. Parece o servo sofredor sem beleza e ornamento.  Mas dele sai uma força de ternura unida ao vigor que  se impõe a todos.

 Muitos podem falar. E há bons oradores que atraem a atenção. Mas deixem Dom Helder falar.  A voz começa baixinha. De repente é tomado por  uma força maior que ele. Há tanta energia e tanto convencimento que as pessoas ficam boquiabertas. Ele, de pequeno, frágil e fraco comparece como um gigante.

Algo semelhante ocorre com Lula. Deixem-no subir ao palanque, diante das multidões. Começa baixinho, assume um tom narrativo, vai buscando a trilha melhor para a comunicação. E lentamente adquire força, as conexões surpreendentes irrompem, a argumentação ganha seu travejamento certo, o volume de voz se alça, os olhos se incendeiam, os gestos ondulam a fala, num momento o corpo inteiro é comunicação e comunhão com a multidão  que de barulhenta passa a silenciosa e num momento culminante, irromper em gritos e aplausos de aprovação.

É o carisma fazendo seu advento no político Luiz Inácio Lula da Silva, o retirante nordestino, o líder sindical, o fundador do Partido dos Trabalhadores, o presidente que inseriu milhões na sociedade e fez com que muitos que estiveram sempre alijados há 500 anos, sentirem o gosto de serem considerados gente. As oligarquias jamais admitiram, nem ontem nem hoje, que alguém do andar de baixo se alce ao andar de cima. De tudo fizeram até, com razões ridículas, o lançarem na prisão por mais de 500 dias. O carisma lhe deu forças para tudo suportar e sair maior do que entrou.Não se apaga uma estrela que um dia surgiu.

Não sem razão Max Weber, o grande estudioso do carisma, chamou-o de estado nascente. O carisma está sempre em estado de nascimento e suscita energia nas pessoas que o cercam. A função do carismático é de ser parteiro do carisma presente nas pessoas.  Sua missão não é dominá-las com seu brilho, nem seduzi-las para que o sigam cegamente. Mas despertá-las da letargia do cotidiano e descobrir a força criadora da fantasia. E, despertas, perceberem que o cotidiano em sua platitude guarda segredos, novidades, energias ocultas que sempre podem despertar e  conferir um renovado sentido e brilho à vida, à nossa curta passagem por esse planeta.

Somos tudo isso, seres complexos e contraditórios, históricos e utópicos, prosaicos e poéticos, enfim, ima expressão da Energia Criadora (Bergson) que em nós se faz consciente a ponto de identificar até Aquele Ser que subjaz a todas as coisas e que sustenta o inteiro universo e a nós mesmos.

Leonardo Boff é autor de O despertar da águia: o sim-bólico e o dia-bólico na construção da realidade, Vozes 2005.

 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

A FANTASIA SE FAZ REALIDADE





por Frei Betto

         O Carnaval é uma festa litúrgica, momento de transgressão da racionalidade e de efusão do espírito. Sua essência é imprimir realidade à fantasia, por mais paradoxal que pareça. No Carnaval o folião se desafoga, livra-se dos anjos e demônios que o habitam, migra para as múltiplas representações de sua personalidade condicionada, no resto do ano, pelos padrões culturais hegemônicos.
         Nessa festa o folião exibe o seu avesso e desmascara convenções sociais, quebra preconceitos e ridiculariza a empáfia dos que detêm o poder. É a ocasião de extravasar sentimentos e emoções reprimidos, trazer à tona a intimidade contida, inclusive se entrelaçar com estranhos que se tornam próximos pelo simples fato de endossarem o cordão, o bloco, a escola de samba.
         O ser humano não suporta ficar confinado na esfera da necessidade e cuidar apenas da administração da vida como fenômeno biológico: o trabalho em busca de salário; o aluguel; a mensalidade da escola dos filhos; as contas de luz e gás... É preciso emergir eventualmente para a esfera da gratuidade, na qual predominam o lúdico, o festivo, o litúrgico, território no qual a imaginação ou a fantasia assume supremacia sobre a razão e a moral se impõe sobre o moralismo.
         O que se busca no Carnaval? O espelho invertido, trafegar na contramão e deixar Momo se refestelar na alegria. Fazer com que os monstros que protagonizam dias e meses do ano permaneçam calados, recolhidos à sua insana tristeza. Aflorar o júbilo dessa gente sofrida e devolver-lhe a autoestima. Ainda que dure apenas três ou quatro dias, sejam dados vivas e aplausos à faxineira travestida de rainha; ao encanador, de sultão; ao gari, de oráculo divino.
         Festa com gosto de infinitude, tenha o Carnaval um ritmo tão alucinado que faça todos rodopiarem no carrossel da alegria embriagadora. Soem cuícas, tamborins e pandeiros, e exorcizem, de todos os foliões, essa letargia que o medo infunde naqueles que não acreditam que o presente se fará ausência no futuro promissor. Abram alas às alvíssaras!
         Vamos, neste Carnaval, arrancar as roupagens convencionais que nos impelem a ser o que não somos. Desfilar despidos de qualquer sinecura, sem os adornos que, ao longo do ano, nos inserem no bloco dos cínicos. Animados pelo samba-enredo, avancemos rumo à alucinação dos loucos repletos de razão, à subversão poética da palavra desassossegada, à lógica que supera os efeitos e ousa encarar as causas até elevá-las ao cume dos carros alegóricos.
         Não tergiversar nem fazer coro com os que insistem em acobertar o passado. No sambódromo, o ritmo da bateria haverá de ressuscitar todas as crianças assassinadas pelos monoglotas do discurso bélico: Ketellen, Ágatha, Kauê, Kauã, Kauan e Jenifer.
         A comissão de frente ostentará imensa faixa com o verbo AMAR, para que todos os foliões desaprendam a conjugar o verbo armar, pois um simples erre é capaz de desencadear, como pandemia, sementes amargas de rancor, raiva e ruindade.
         Vamos celebrar, neste Carnaval, a união de espíritos, a tolerância de convicções, o diálogo das religiões, e exaltar o direito à diferença, execrando os que insistem em desenterrar torturadores e nazistas para convidá-los à dança macabra da necrofilia ao som de tiros.
         Venha um Carnaval que celebre o Brasil e os brasileiros, essa gente sofrida que, o ano todo, percorre a espinhosa passarela da vida sonegada de direitos, condenada à pobretarização, à educação sucateada, à saúde enferma, ao saneamento restrito e ao emprego loteria.
         Desfilem todos ébrios de utopia e entranhados da convicção de que fantasias podem se fazer realidade, e a imaginação, poder. E ousem romper o cordão que teima em contê-los imolados na sacrílega noção de que o sofrimento merece ser naturalizado.
         A vida nos foi dada para desfilar soberba na cadência da letra efe – bastam-nos, como brasileiros, fé, futebol, feijão, farinha e o fogo inapagável dos direitos de cidadania. O suficiente para nos assegurar festa e fartura.

Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.

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