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sábado, 27 de novembro de 2021

Falta de vergonha na cara


Prof. Martinho Condini



 

Na semana passada ocorreram muitos debates, entrevistas e reflexões com representantes dos movimentos negros pelo dia Consciência Negra, data símbolo da luta contra o racismo e construção de políticas públicas antirracistas. Essa luta liderada pelos movimentos negros é histórica e acontece há séculos. Uma luta que deve ser de todas as pessoas que de alguma maneira se sintam incomodadas e responsáveis pela construção de uma sociedade mais justa, igualitária e antirracista.

Mas sem sombra de dúvida o protagonismo e liderança de todo esse processo está nas mãos daqueles que são há tempos severamente humilhados, maltratados, desrespeitados e assassinados injustamente: as crianças, os jovens e os adultos, negras e negros da nossa sociedade.

As pessoas brancas engajadas nessa luta devem participar sim, mas como aliados, jamais como protagonistas, pois a dor e a revolta sentida pelos afrodescendetes é intransferível, jamais brancas e brancos sentirão a crueldade do racismo num país tão racista como o nosso.

A branquitude é algo tão vergonhoso e asqueroso quanto o racismo. E foi a partir dessa branquitude que se constituiu uma cultura de expressões, apelidos e outras manifestações racistas que passaram a ser compreendidas como algo natural como: mercado negro, magia negra, lista negra, caderno negro, ovelha negra, serviço de preto, criado mudo, a coisa ta preta, denegrir, cabelo ruim, negro de traços finos, alma branca, tem pé na cozinha, cor do pecado, samba do criolo doido, meia tigela e fazer nas coxas. Eu incluo neste rol de expressões o termo sexta-feira negra.

 Por isso, há àqueles que dizem que não aceitar mais essas expressões, piadas, apelidos ou se referir a uma negra ou negro de maneira jocosa ou ofensiva não tem nada de mais, é mimi.

São por essas e outras que temos que ouvir a Bruxinha do Brasil (ex-ministra da cultura desse desgoverno), sugerir a criação do Dia da Consciência Branca, que tal 5 de fevereiro, dia do aniversário dela? Essa mulher é burra, mal intencionada ou fascista? Pelo seu histórico como atriz e pelas suas escolhas políticas ao longo dos anos, há possibilidade que seja as três.

As pessoas que pensam como a Bruxinha do Brasil, que questionam o Dia da Consciência Negra e a ausência do Dia da Consciência Branca (essas pessoas não são poucas, já vi esse tipo de questionamento numa sala de professores, por colegas de profissão), neste final de semana devem estar enlouquecidas consumindo nas Bleque Fraide da vida.

Um país com histórico de mais de trezentos anos de trabalho escravo e que após a abolição em 1888, criou uma política de embranquecimento da sociedade concomitantemente a construção de um encantamento com a imigração européia que possibilitou o desenvolvimento de um racismo estrutural que nos envergonha, e é o grande mau da nossa sociedade (sem o seu fim jamais seremos uma verdadeira democracia), jamais deveria utilizar esse termo Bleque Fraide. Mas infelizmente ainda carregamos uma forte influência da síndrome da colonização, e por isso copiamos qualquer porcaria, seja de metrópoles ou das nações imperialistas.

Mas para a branquitude, representada pela supremacia branca capetalista judaíco-cristã da nossa sociedade, utilizar essa expressão não tem importância nenhuma (muito pelo contrário, parece que estamos em Nova Iorque), é apenas uma expressão atrelada a uma ação para enriquecer ainda mais os capetalistas brancos.

 Apesar da expressão bleque fraide não ter relação comprovada da liquidação de venda de escravos nos Estados Unidos, já que a expressão surgiu seis anos após o fim da escravidão naquele território, aqui no Brasil toda expressão que se utiliza da palavra negro ou  negra, é necessário muita atenção e cuidado, porque o nosso racismo estrutural é sutil, perigoso, perverso e profissional.

Pois é, você se reuniria com amigas ou amigos em um bar ou restaurante de nome Auschwitz?

Então, aqui no Brasil, mais precisamente na cidade de São Paulo, centenas de pessoas se reúnem para se divertir no bar e restaurante Senzala.

É bem provável que essas pessoas que vão a um espaço denominado Senzala pense da mesma forma que a Bruxinha do Brasil.

 O que faltam a essas pessoas  é conhecer a história de seu país e ter um pingo de vergonha na cara.

 O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com

 

 

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

A FALTA QUE VOCÊ FAZ, PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF!

 



Por Lusmarina Campos Garcia

 

Há quatro anos, a Presidenta democraticamente eleita Dilma Rousseff e os 54 milhões de brasileiros e brasileiras que nela votaram, sofriam um golpe. Derrubada com base em acusações de um crime que ela não cometeu, a primeira mulher Presidenta do Brasil foi retirada pela articulação de homens da política, do judiciário, da imprensa, dos quartéis e do Ministério Público, com interesses variados, mas todos concordando que ela, Dilma, era um empecilho para os seus objetivos.

A conversa entre o então Ministro do Planejamento, senador licenciado, Romero Jucá (PMDB/RR) e o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, transcrita pela Folha de São Paulo em 23 de maio de 2016, revela claramente como o impeachment foi planejado no campo político atrelado ao judiciário.

Aterrorizados pelo fato de que a Lava Jato os alcançasse, Jucá e Machado delinearam o plano para frear os avanços da operação: articular o impeachment. Para tal, precisariam manter o Eduardo Cunha pelo maior tempo possível na presidência da Câmara, uma vez que ele já estava denunciado e sob risco de prisão. Precisariam convencer Renan Calheiros (PMDB/AL), então presidente do Senado, a aceitar entrar no acordo que envolveria o então vice-presidente da República Michel Temer (PMDB/SP) e Eduardo Cunha (PMDB/RJ), seus desafetos.

Os líderes de outros partidos, especificamente o PSDB, estavam conscientes de que a situação precisava ser interrompida. Ministros do Supremo Tribunal Federal tinham sido consultados, segundo Jucá, e haviam dito que “só tinha condições … sem ela”, uma vez que a imprensa a queria fora. Jucá havia também conversado com os militares que disseram que “vão garantir”.

O acordo para derrubar a Presidenta Dilma, conforme revelado pela conversa entre Jucá e Machado, ocorreu “com Supremo com tudo” e com a garantia dos militares.

Para tornar o impeachment viável o PSDB contratou a advogada e professora Janaína Paschoal, que juntamente com Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Flávio Pereira assinaram a “denúncia por crime de responsabilidade”. Nenhuma das acusações tinha substância de fato, mas não precisava, porque a decisão já estava tomada antes que a denúncia fosse apresentada; aliás, a denúncia foi apenas a peça inicial para que as formalidades do impeachment se desenrolassem.

Na outra ponta da saga do impedimento, o Ministério Público de Dallagnol juntamente com o então juiz federal Sérgio Moro e em associação com a imprensa nacional, investiu todas as suas cartas em sua sanha persecutória ao PT. Sob a fachada do “combate à corrupção”, a Operação Lava Jato se constituiu a partir de um acordo com o governo americano por meio do Departamento de Justiça e do FBI , e teve como resultado o desmonte da indústria do petróleo e da construção civil nacional, solapando a economia do país assim como a sua soberania. Aparentemente mais corruptos do que os supostos corruptos que perseguiam, os líderes da Operação Lava Jato foram uma chave central no impedimento da Presidenta Dilma.

É relevante perceber que os machos do poder político, judiciário, militar, midiático, empresarial e do Ministério Público, com a conivência e a participação de mulheres específicas, confluíram para uma mesma “alternativa”: a derrubada da Presidenta democraticamente eleita. A pergunta que se faz é: por que homens com interesses diferentes e de lados presumivelmente opostos convergiram para esta mesma “alternativa”? Tenho duas hipóteses. A primeira é que a corrupção é sistêmica e todos, num maior ou menor grau, podem ser ligados a práticas corruptivas ou corruptoras. O capitalismo é, em si, um sistema propiciador de corrupção; a isenção com respeito a tais práticas é, de fato, uma raridade. A Presidenta Dilma é uma mulher íntegra e como tal, expunha não só as práticas corruptivas, mas o sistema que as produz. A segunda hipótese é que a cultura patriarcal brasileira permite que o machismo se articule de maneira veemente para o exercício do controle sobre as instituições democráticas e sobre o poder do Estado, mesmo que para tal, rompa com a regra democrática e com o Estado Democrático de Direito.

A presença de uma mulher honesta na Presidência da República tornou-se insuportável num país acostumado a naturalizar a corrupção e o machismo. A integridade dela transformou-se no reverso do espelho que, ao refletir a imagem dos homens corruptos e machos, tornou possível ver não a aparência, mas a verdadeira interioridade das instituições e dos indivíduos que as compõem e as representam. E o Brasil se descobriu feio demais. Presidenta Dilma Rousseff, como você faz falta!

 

LUSMARINA CAMPOS GARCIA é teóloga eco-feminista, pastora luterana e pesquisadora no Programa de Pós-graduação da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ. Compõe três grupos de pesquisa: Observatório do Judiciário Brasileiro, Direito e Cinema e Teoria da Sociedade, Direito e Política. Defensora dos direitos humanos, com ênfase na questão de gênero, pronunciou-se na audiência pública do STF no contexto da ADPF 442 em defesa da descriminalização do aborto. É atuante no movimento ecumênico desde a década de 1980.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

A FALTA QUE HOJE NOS FAZ: O AMOR UNIVERSAL E INCONDICIONAL






Por Leonardo Boff

        Dedicado para a pensadora e mestre-astróloga Martha Pires Ferreira
Vivemos atualmente tempos sombrios de muito ódio e falta de refinamento. Precisamos resgatar o mais importante e que verdadeiramente nos humaniza: o simples amor. Estimo que devemos sempre retomar o tema do amor universal e sem précondições.
Sobre ele se disseram as coisas mais elevadas até o de designar o nome próprio de Deus. Para superar o discurso, convencional, convém incorporar a contribuição que nos vem das várias ciências da Terra, da biologia e dos estudos sobre o processo cosmogênico. Mais e mais fica claro que o amor é um dado objetivo da realidade global e cósmica, um evento bem-aventurado do próprio ser das coisas, nas quais nós estamos incluídos.
Dois movimentos, entre outros, presidem o processo cosmogênico: a necessidade e a espontaneidade.
Por necessidade de sobrevivência todos os seres são interdepententes e se ajudam uns aos outros. A sinergia e a cooperação de todos com todos, mais que a seleção natural, constituem as forças mais fundamentais do universo, especialmente, entre os seres orgânicos. A solidariedade é mais que um imperativo ético. É a dinâmica objetiva do próprio cosmos e que explica por que e como chegamos até aqui.
Junto com essa força da necessidade comparece também a espontaneidade.
Os seres se relacionam e interagem espontanemente, por pura gratuidade e alegria de conviver. Tal relação não responde a uma necessidade. Ela se instaura por um impulso de criar laços novos, pela afinidade que emerge espontaneamente e que produz o deleite. É o universo da novidade, da irrupção de uma virtualidade latente que faz surgir algo maravilhoso e que torna o universo um sistema aberto. É o advento do amor.
Ele se dá entre todos os seres, desde os primeiros topquarks que se relacionaram para além da necessidade de criarem campos de força que lhes garantissem a sobrevivência e o enriquecimento na troca de informações. Muitos se relacionaram por se sentirem espontaneamente atraídos por outros e comporem um mundo não necessário, gratuito, mas possível e real.
Desta forma, a força do amor atravessa todos os estágios da evolução e enlaça todos os seres dando-lhes irradiação e beleza.. Não há razão que os leve a se comporem em elos de espontaneidade e liberdade. Fazem-no por puro prazer e por alegria de conviver. Cosmólogos há que afirmam ser o universo todo colorido e, portanto, extremamente belo.
O amor cósmico realiza o que a mística sempre intuiu: “a rosa não tem por quê. Ela floresce por florescer. Ela não cuida dela mesma nem se preocupa se a admiram ou não”. Assim o amor, como a flor, ama por amar e floresce como fruto de uma relação livre, como entre os enamorados.
Pelo fato de sermos humanos e autoconscientes, podemos fazer do amor um projeto pessoal e civilizatório: vive-lo conscientemente, criar condições para que a amorização aconteça entre os seres humanos e com todos os demais seres da natureza. Podemos nos enamorar de uma estrela distante e fazer uma história de afeto com ela.Os poetas sabem disso.
O amor é urgente no Brasil e no mundo. Milhares de refugiados são excluídos e nordestinos, ofendidos. Mais que perguntar quem destila raiva e intolerância é perguntar por que as praticam. Seguramente porque faltou o amor como relação que abriga os seres humanos na bela experiência de cada um se abrir e acolher jovialmente o outro e de se respeitarem mutuamente.
Digamo-lo com todas as palavras: o sistema mundial imperante não ama as pessoas. Ele ama o dinheiro e os bens materiais; ele ama a força de trabalho do operário, seus músculos, seu saber, sua produção e sua capacidade de consumir. Mas ele não ama gratuitamente as pessoas como pessoas, portadoras de dignidade e de valor.
Pregar o amor e dizer: “amemo-nos uns aos outros como nós mesmos nos amamos”, significa uma revolução. É ser anti-cultura dominante e contra o ódio imperante.
Há de se fazer do amor aquilo que o grande florentino, Dante Alignieri, escreveu no final de cada cântico da Divina Comédia: “o amor que move o céu e todas as estrelas”; e eu acrescentaria, amor que move nossas vidas, amor que é o nome sacrossanto do Ser que faz ser tudo o que é.
Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor e escreveu A   força da ternura, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2012.


sexta-feira, 30 de junho de 2017

UM DESAFIO:COMO ENTENDER A ATERRADORA FALTA DE CONSCIÊNCIA DOS CORRUPTOS

Por Leonardo Boff



Como fica a consciência dos corruptos que roubam milhões dos cofres públicos ou os empresários que superfaturam por milhões de reais os projetos e pagam propinas milionárias para agentes do Estado? Pior ainda: como fica a consciência daqueles perversos que desviam centenas de milhões de reais da saúde? E aqueles desumanos que falsificam remédios e condenam à morte aqueles que deles precisam? Sem esquecer os desvergonhados que roubam da boca dos escolares a merenda, sabendo que para inúmeros pobres representa a única refeição do dia? Muitos desses corruptos são apenas denunciados. E fica por isso mesmo, rindo à toa. Não raro são cristãos e católicos que por seus crimes continuam mantendo Cristo na cruz nos corpos dos crucificados deste mundo.
Para entender esta maldade temos que considerar realisticamente a condição humana: ela é simultaneamente dia-bólica e sim-bólica, compassiva e perversa. No linguajar concreto de Santo Agostinho, em cada um de nós há uma porção de Cristo, o homem novo, e uma porção de Adão, o homem velho. Depende do projeto de nossa liberdade dar mais espaço a um ou a outro. Assim pode surgir uma pessoa honesta, justa, amante da verdade e do bem. E pode crescer também uma pessoa maldosa, corrupta e distante de tudo o que é bom e justo.
Mas não precisava ser assim. No mais profundo de nós mesmos, não obstante a ambiguidade referida, vige uma primeira natureza que se expressa por uma bondade frontal, por uma tendência para o justo e o verdadeiro. Quanto mais penetrarmos na nossa radicalidade, mais nos damos conta de que essa é a nossa essência verdadeira, a nossa natureza primeira. Mas sem sabermos como e porquê, ocorreu algo em nosso processo antropogênico – desafio permanente para os pensadores religiosos e os filósofos de todas as tradições – que fez com que a nossa natureza primeira decaísse e se pervertesse. Immanuel Kant constatava que somos um lenho torto do qual não se consegue tirar uma tábua reta.
Criamos, em consequência, uma segunda natureza feita de maldades de todo tipo. Esta terminologia se encontra já em Santo Agostinho, em Santo Tomás de Aquino e posteriormente retomada por Pascal e por Hegel. Ela está presente em todas os povos e instituições e, num certo nível, em cada um de nós. Ela resulta da sequência continuada e uniforme de nossos maus hábitos, gerando uma verdadeira cultura de distorções. É a cultura do negativo em nós. É o reino da corrupção que se naturalizou.
Personalizemos esta segunda natureza. Se alguém se habituou a mentir, a enganar a roubar, a corromper ativamente e a se deixar corromper passivamente, acaba criando em si esta segunda natureza. Rouba sem se dar conta de que esta sua prática é perversa e anti-ética porque prejudica os outros ou o bem comum. Pratica tudo isso sem culpa e sem remorsos, porque nele a corrupção virou natural, uma segunda natureza. Os corruptos continuam caras-de-pau como se pode observar, que emagrecem, não pela má consciência que os corrói por dentro, mas pelas péssimas condições carcerárias,.
Além deste dado da condition humaine decadente, o sociólogo Jessé Souza no livro a sair A elite do atraso: da escravidão à Lava-Jato nos fornece um dado de nossa própria história: a escravidão. Esta coisificava os escravos considerando-os “peças”, objetos de violência e de desprezo. ”Sua função era vender energia muscular, como animais” (J.Souza). Esse desprezo foi transferido aos nordestinos, aos pobres em geral e aos LGBT entre outros discriminados.
Nos tempos recentes, boa parte dos endinheirados se sentiu ameaçada pela ascensão destes condenados da terra; começou a se irritar porque os via nos shoppings centers e nos aeroportos; para eles bastava o ônibus e jamais o avião. Aqui já não se trata de corrupção financeira, mas de corrupção das mentes e dos corações, tornando as pessoas desumanas e sem sentido de solidariedade.
Finalmente, por uma mudança de rumo de nossa política judicial ante os crimes de colarinho branco, os donos de grandes empresas e outros políticos que fizeram, em grande parte, suas fortunas pela corrupção, estão sentido o peso da justiça, o rigor das prisões e o escárnio publico. Estão atrás das grades, fato é inédito em nossa história.
O sofrimento sempre dá duras lições. Oxalá, pelos seus  padecimentos, a primeira natureza, a consciência, venha à tona e se descubram reféns da segunda natureza decadente que eles mesmos criaram. Mudem de sentido de vida e devolvam o dinheiro roubado. E como teólogo digo: no momento supremo de suas vidas, enfrentarão, trêmulos, os rostos das vítimas que fizeram por causa de suas corrupções e que morreram antes do tempo, na verdade, foram por eles assassinadas. As fortunas não os salvarão. E então como ficarão?
Leonardo Boff é articulista do JB on line, teólogo e filósofo, escreveu com Anselm Grün o livro O divino em nós 2017, Vozes.



sexta-feira, 15 de julho de 2016

A FALTA DE VERGONHA E A AUSÊNCIA DE CULPA NA CORRUPÇÃO BRASILEIRA

Por Leonardo Boff



Depois que surgiu a psicanálise,  a nova hermenêutica e o estruturalismo não podemos mais nos restringir ao consciente e aos ditames da razão na análise dos fenômenos humanos, pessoais e coletivos. Há um universo pré-consciente, subconsciente,  inconsciente (pessoal e coletivo) e pressupostos subjacente a nossas práticas, que tem que ser tomados em conta.

Quero me ater apenas a duas vertentes que influenciam nossos comportamentos: são os legados das duas principais culturas ancestrais que subjazem no nosso inconsciente coletivo e que são pressupostos não pensados  que nos ajudam a entender fenômenos atuais, como por exemplo, a tresloucada corrupção que atravessa o corpo social brasileiro: a cultura grega e a cultura judaico-cristã.

Da cultura grega herdamos o sentimento de vergonha. O conceito correlato é a do herói. Ter vergonha para os gregos consistia em se frustrar em qualquer empreendimento como na guerra e na convivência social. Perder uma batalha constituía uma vergonha coletiva para todo um povo. Perder numa competição nas Olimpíadas provocava vergonha. Triunfar e ser bem sucedido preenchia os requisites do herói.

Hoje esta categoria está presente em nossa sociedade. É um herói o jogador que conseguiu o gol da vitória do time de sua predileção. Vergonha coletiva é o Brasil perder de 7×1 na Copa Mundial de futebol contra a Alemanha. Conseguir altos índices de crescimento e de lucro de uma empresa faz do empresário um herói. Perder uma eleição produz vergonha. A vergonha tem a ver acom a imagem que projetamos socialmente. Ela tem que causar admiração e respeito. Caso contrário, faz as pessoas se sentem envergonhadas.

A outra vertente é constituída pela tradição judaico-cristã. A categoria central é a culpa. Geralmente colocamos a culpa nos outros. Se fracassamos num negócio, é por culpa da crise econômica. Se o matrimônio se desfez é por culpa de um dos parceiros. Se há uma desgraça ecológica é por culpa dos moradores que se instalaram em áreas de risco. Às vezes, colocamos a culpa em nós mesmos por um acidente de tráfico, por erros que produzem uma ruinosa administração ou porque roubamos dinheiro público e nos tornamos corruptos.

A culpa atinge a interioridade e afeta a consciência. A repercução não é tanto diante dos outros que talvez nem saibam de nosso malfeito, mas diante do tribunal da consciência. Esta nos remete logo a Deus, pois entre a consciência e Deus não há mediação. Estamos direta e imediatamente diante dele.

A culpa nos causa remorsos. Com o dinheiro desviado da merenda escolar, se tiver um mínimo de consciência ética, percebe que está prejudicando crianças que começam a passar fome. O sentimento de culpa pede reparação e cobra uma punição.

O oposto à culpa é o sentimento de ser justo e reto, dois conceitos definidores de uma pessoa “justa”(santa) no sentido bíblico.

Sentir vergonha e dar-se conta da culpa constituem as bases de uma consciência ética. Não precisar se envergonhar diante dos outros e não se sentir culpado diante da consciência e de Deus são sinais de retidão de vida e de uma atitude ética correta. Pode dormir tranquilo e não temer a maledicência pública.

Qual é o nosso problema concernente à escandalosa corrupção passiva e ativa no Brasil? É a acabada falta de vergonha e a completa ausência de culpa dos corruptos e corruptores diante de seus malfeitos.

Mesmo surpreendidos no ato de corrupção, ouvimos sempre o mesmo mote: “não sou culpado de nada”, “sou injustiçado”, “sou completamente inocente”. E trata-se de pessoas notória e comprovadamente corruptas. Perderam a noção total de culpa e não dão nenhuma  importância à vergonha pública de seus atos. Seguem desfilando, tranquilos pela cidade e a frequentar os melhores restaurantes.

Raramente ouve-se a indignação ética por parte de alguns com os gritos de “corrupto, ladrão”. Mas os corruptos nem se incomodam e continuam no seu desfrute.

Já Aristóteles na sua Ética a Nicômano estabelecia a vergonha e o rubor do rosto como um indicativo da presença de uma consciência ética. Sem essa vergonha, a pessoa era realmente um “sem vergonha”, um mau caráter, sem sentido dos valores.

Essa falta de vergonha e de sentimento de culpa se transformou, entre nós no Brasil, numa especial de segunda natureza, tornada uma prática usual. Por isso, quase todo o tecido social é contaminado pelo vírus da corrupção, dos corruptores e dos corrompidos.

Mas ela chegou nos dias atuais a níveis tão escandalosos que não podem mais ser tolerados pela sociedade e pelos cidadãos que ainda guardam uma consciência ética, do que é reto e correto, justo e bom. Cobra-se rigorosa investigação e condenação.

A corrupção como prática pessoal e social, sem sermos moralistas e utópicos, tem que ser banida e reduzida a níveis compatíveis com a condição humana decaída e corruptível. Há que se resgatar o sentimento de vergonha e de culpa, sem o que nossos esforços serão inócuos.

Leonardo Boff é articulista do JB on line, foi professor de ética na UERJ e em Heidelberg na Alemanha.


CAUSAS DA ESCANDALOSA FALTA DE ÉTICA NO BRASIL


Por Leonardo Boff



O país, sob qualquer ângulo que o considerarmos, é contaminado por uma espantosa falta de ética. O bem é só bom quando é um bem para mim e para os outros; não é um valor buscado e vivido por si mesmo; mas o que predomina é a esperteza, o dar-se bem, o ser espertinho, o jeitinho e a lei de Gerson.

Os vários escândalos que se deram a conhecer, revelam um falta de consciência ética alarmante. Diria, sem exagero, que o corpo social brasileiro está de tal maneira putrefato que onde quer que aconteça algum pequeno arranhão já mostra sua purulência.

A falta de ética se revela nas mínimas coisas, desde as mentirinhas ditas em casa aos pais, a cola na escola ou nos concursos, o subordo de agentes da polícia rodoviária quando alguém é surpreendido numa infração de trânsito, desviar dinheiros públicos, beneficiar-se de cargos, enganar nos preços, em jogar lixo na calçada e até em fazer pipi na rua.

Essa falta generalizada de ética deita raízes em nossa pré-história.É uma consequência perversa do que foi a colonização. Ela impôs ao colonizado a submissão, a total dependência à vontade do outro e a renúncia a ter a sua própria vida. Estava entregue ao arbítrio do invasor. Para escapar da punição, se obrigava a mentir, a esconder intenções e a fingir. Isso levava a uma corrupção da mente. A ética da submissão e do medo leva fatalmente a uma ruptura com a ética (cf. J. Le Goff, O medo no Ocidente), quer dizer, começa a faltar com a verdade, a nunca poder ser transparente e, quando pode, prejudica seu opressor. O colonizado se obrigou, como forma de sobrevivência, a mentir e a encontrar um “jeitinho” de burlar a vontade do senhor. A Casa Grande e a Senzala são um nicho, produtor de falta de ética: pela relação desigual de senhor e de escravo. O ethos do senhor é profundamente anti-ético: ele pode dispor do outro como quiser pois é apenas uma “peça” como se dizia, a todo momento estava pronto a abusar sexualmente das escravas e a vender seus filhos pequenos para que não tivessem apego a eles. Nada de mais cruel, anti-ético e perverso do que a destruição dos laços de mãe e filhos.

Esse tipo de ética desumana criou hábitos e práticas que, de uma forma ou de outra, continuam,no inconsciente coletivo de nossa sociedade.

A abolição da escravatura ocasionou uma maldade ética imperdoável: alforiaram-se os escravos, mas sem fornecer-lhes um pedacinho de terra, uma casinha e um instrumento de trabalho. Foram lançados diretamente na favela. E hoje por causa de sua cor e pobreza são discriminados, humilhados e as primeiras vítimas da violência policial e social.

A situação, em sua estrutura, não mudou com a República. Os antigos senhores coloniais foram substituídos pelos coronéis e senhores de grandes fazendas e capitães da indústria. Aí as pessoas eram ultra-exploradas e feitas totalmente dependentes. Os comportamentos não eram éticos no sentido do respeito mínimo às pessoas e à garantia de seus direitos básicos. A relação era de medo e de uso de violência ou repressão. Foram feitos carvão para a produção como costumava dizer Darcy Ribeiro.

As relações de produção capitalista (em si altamente questionáveis eticamente pela relação desigual entre capital e trabalho) que se introduziram no Brasil pelo processo de industrializção e modernização foram selvagens. Nosso capitalismo nunca foi civilizado pois nunca foi possível uma verdadeira luta de classes (que tem suas regras), no sentido de equilibrar os interesses antagônicos. Ele guardou sua voracidade de acumulação como nas origens no século XVIII e XIX o que se vê claramente no sistema bancário atual, cujas taxas de juros são das mais altas do mundo e os lucros exorbitantes.

A exploração impiedosa da força de trabalho, os baixos salarios são situações eticamente malévolas pelo grau de desumanidade e de injustiça que encerram impondo privações e muito sofrimento às famílias.

Como superar essa situação que nos envergonha? Ela dura séculos e foi praticamente naturalizada. Como ouvi de uma pessoa ilustrada que acusava como corrupto um politico honrado que eu defendia. Sua resposta foi típica: se roubou foi esperto e se não roubou foi um bobo. Assim não dá…

Antes de fazer qualquer sugestão minima, importa fazer uma auto-crítica. Que educação deram as centenas de escolas católicas e cristas e as 16 universidades católicas (pontifícias ou não) a seus estudantes? Bastava terem-lhe ensinado o mínimo da mensagem de Jesus de amor aos pobres contra sua pobreza e comprometê-los em mudanças necessárias para que sua situação hoje fosse menos malvada.
Elas se transformaram, em boa parte, nem todas, em chocadeiras dos opressores. De lá sairam diretores de empresas exploradores, economistas de um liberalism feroz e funcionários públicos sem senso do bem comum, Segundo o motto estabelecido: “o que é de todos não é de ninguém, portanto, posso me apropriar dele tranquilamente”.

A catequese foi doutrinalesca, interessada mais na reta doutrina e menos no reto comportamento. Criou-se um cristianismo cultural que até prescinde da fé. Não foi um cristianismo de fé comprometida com a justiça social e com o destino das grandes maiorias pobres e discriminadas.

Como é possível que num país majoritariamente cristão vigore tanta injustiça, insensibilidade, discriminação social e humilhação de negros e pobres? Alguma coisa errada ocorreu em nossos processos de transmissão da mensagem libertadora e humanizadora de Jesus a ponto de os corruptos e corruptores cristãos, quase todos cristãos, sequer terem a má consciência do que fazem. É a resposta que o deputado Severino Cavalcanti, cassado de seu mandato por corrupção, deu a alguém que lhe perguntou se ia se suicidar: “não me suicido porque sou cristão”. Que signfificou para ele o fato de ser cristão? Nada.

Por isso, os que sairam das escolas cristãs não se distinguiramk pela incidência social numa perspectiva de transformação. São antes pela manutenção do status quo do que por mudanças.

Nem por isso queremos olvidar nomes notáveis em vários estratos sociais para os quas o cristianismo foi uma escola de humanização e de compromisso com a sorte dos mais vulneráveis. Infelizmente não foram eles que definiram o rumo de nossa história de corrupção.
Para superarmos a crise da ética não bastam apelos moralizantes, sempre tão fáceis, mas uma transformação da sociedade. Antes de ser ética, a questão é política, pois esta, a política, é estruturada em relações profundamente anti-éticas.

Já faríamos muito se assumíssemos a pregação do primo de Jesus, seu precursos, São João Batista. Aos que lhe perguntavam o que deviam fazer, respondia:”Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem nenhuma, e o mesmo faça a quem não tem alimentos”. Traduzindo para a nossa situação seria: “seja solidário e não deixe de ajudar os mais necessitados”. Aos cobradores de impostos lhes dizia:” Não exija mais do que a taxa definida”. À polícia respondia:”não pratiques torturas nem chantagens contra ninguém (delação premiada?) e contente-se com seu salário.”

Deixando para trás o permanente valor da mensagem ética de João Batista,diria para ser brevíssimo: tudo deve começar pela família. Criar caráter (um dos sentidos de ética) nos filhos e filhas, formá-los na busca do bem e da verdade para não se deixarem seduzir pela lei de Gerson e evitar, sistematicamente, o jeitinho. Princípio básico de toda e qualquer ética: tratar sempre humanamente a cada ser humano.

Tomar absolutamente sério a lei áurea que é testemunhada em todas as tradições culturais e religiosas: “não faça ao outro o que não quer que te façam a ti”. Ou “ame o próximo como a ti mesmo” que na versão do evangelho de São Jão e de São Francisco é assim traduzida:”ame o outro mais que a ti mesmo”; “que eu procure mais consolar que ser consolado, mais compreender do que ser comprendido, mais amar do que ser amado.”

Siga o preceito de Kant: que o princípio que te leva fazer o bem, seja válido também para os outros.    Oriente-se pelos dez mandamentos, escritos na Bíblia como forma de ordenar a vida social do Povo de Deus e, que no fundo, são universalmente válidos. Traduzidos para hoje: o “não matar” significa, venere a vida, cultive uma cultura da não violência. O “não roubar”: aja com justiça e correção e lute por uma ordem econômica justa. O “não cometer adultério”: amem-se e respeitem-se mutuamene, e obriguem-se a uma cultura da igualdade e pareceria entre o homem e a mulher.

Isso é o mínimo que poderíamos fazer para arejar um pouco a atmosfera ética de nosso país.

Repetindo o grande Aristóteles, o mestre da ética ocidental:”não refletimos para saber o que seja a ética, mas para tornarmo-nos pessoas éticas”.

Leonardo Boff foi professor de ética na UERJ e em Heidelberg