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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

A ética de um capitalismo selvagem: a corrupção das Americanas


Leonardo Boff 


                         

O rombo bilionário, acumulado durante anos da gigante varejista das Lojas Americanas de 20 bilhões de reais, acrecido com as dívidas de 43 bilhões de reais tem muitas facetas. A mais explícita e vergonhosa é qualificar a corrupção que se esconde atrás destes números é o eufemismo “inconsistências contábeis”. O mercado sempre sensível a qualquer pequeno movimento que favoreça os desposuídos pelo Estado de viés social, logo reage criticamente. Face a esses bilhões não mostrou nenhum movimento. Claro, trata-se da cumplicidade das mesmas máfias financeiras, especialmente, as especulativas que ganham sem produzir nada.

Os nomes dos principais “sócios referenciais”(os reais donos) são os conhecidos bilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sucupira que com outros bens que prossuem como Burguer King, Kraft Heins e particularmente o controle do mercado cervejeiro com a InBev alcançam 185 bilhões de reais.

Na nota publicada pelo trio n dia 11 de janeiro de 2023 se eximem de qualquer conhecimento, fazendo dos leitores que conhecem como funciona o capitalismo brasileiro, de otários.

Não me cabe aprofundar esta questão, feita por especialistas. Atenho-me ao que me cabe como professor de ética e teologia por muitos anos.

O que aqui ocorreu confirma o que o saudoso Darcy Ribeiro frequentemente afirmava: o capitalismo brasileiro nunca foi civilizado, é um dos mais selvagens do mundo e profundamente egoista e individualista. Isto nos faz remete ao que o amigo do  Brasil (sua esposa é brasileira),um dos maiores pensadores da atualidade,o filósofo e linguista Noam Chomsky disse com tristeza:”nunca vi em minha vida uma porção da elite brasileira ter tanto desprezo e ódio aos negros e as pobres da periferia”.Isso o confirma em sua vasta obra o sociólogo Jessé Souza, especialmente no clássico A eleite do atraso: esta elite marginalizou vergonhosamente grande parte da população pobre e negra,negou-lhes direitos,desconheceu que são humanos como eles e filhos e filhas de Deus. Quando se levantaram, foram logo reprimidos e até assassinados.

Numa outra passagem enfatiza Noam Chomsky o que nos faz entender nossos corruptos (especialmente o trio, sempre sorridente):” A ideia básica que atravessa a história moderna e o liberalismo moderno é a de que o público dever marginalizado. O público, em geral, é visto como nada além de excluídos ignorantes que interferem como o gado desorientado”. O que interessa ao capitalismo ter consumidores e não cidadãos.Não ama as pessoas apenas sua força de trabalho e a eventual capacidade de consumir.

Já Aristóteles, um dos pais da ética ocidental, dizia que o primeiro sinal da falta de ética é a “falta de vergonha”. Etimologicamente vergonha vem do latim vereor que significa respeito, temor reverencial. Quando falta esse valor de respeito e reverência face ao semelhante, está aberta a porta a qualquer tipo de vergonhice.

Os corruptos dos 20 bilhõe das Americanas não mostram a menor vergonha: mostram-se benfeitores da sociedade, apoiando algumas pessoas (as mais dotadas) para estudarem nas melhores universidades do mundo (ex.Harvard), para serem educados no espírito do capitalismo e levarem avante seus projetos.  Não se trata, com é o caso de muitas universidades norte-americanas que são apoiadas por grandes corporações que favorecem sua manutenção e a pesquisa. Os nosssos opulentos  praticam apenas ajudas pontuais a pessoas distinguidas e não ajudam os grandes projetos educacionais que beneficiam a nação inteira a façam avançar rumo ao conhecimento e à autonomia.

O mais doloroso, no entanto, é a absoluta falta de sensibilidde da elite do atraso (que  no dizer de nosso maior historiador mulato Capistrano de Abreu “capou e recapou,sangrou e ressagrou” a população que saía do regime colonial, mas mantinha a escravidão).

Essa ausência culposa de sensibilidade foi denunciada frequentemente por um dos mais beneméritos brasileiros dos projetos contra a fome, pela vida e pela democracia o sempre recordado Betinho:

”O nosso problema maior não é econômico, não é o político, não é o ideológico nem é o religioso. O nosso problema maior é  falta de sensibilidade pelo nosso semelhante que está ao nosso lado”. Não ouvimos seu grito de dor, não vemos a mão estendida esperando um pouco de comida, sequer vemos seus olhos suplicantes. Passamos ao largo do caído à beira da estrada, como biblicamente fizeram o levita e o sacerdote na parábola do bom samaritano. Foi preciso que um desprezado hereje samaritano interrompesse sua viagem,curasse suas feridas e o tivesse levado ao sanatório, deixando tudo pago e se mais precisasse pagaria na volta. Quem é aqui o próximo, indagava o Mestre: é aquele de quem eu me aproximo,não reparando sua condição moral, sua religião, sua cor. É um irmão ferido que precisa de outro irmão para socorrê-lo.

No Brasil, os cristãos são apenas cristãos culturais que não aprenderam nada do Jesus histórico que estava sempre do lado da vida, do pobre, do cego, do coxo e do desprezado.Por isso há tanta desigualdade social, das maiores do  mundo. Porque falta sensibilidade, solidariedade, sentido humano, o de tratar humanamente outro humano, seu irmão e irmã.

O trio bilionário e os 318 milionários (segundo a revista Forbes) não ouvem o clamor que vem das grandes periferias, dos indígenas sendo dizimados por alguns do agronegócio como em Dourados-MT e aos milhares de yanomami, violentados pelo garimpo ilegal e a quem oficialmente por parte do governo genocida se negou água,vacinas,assistência média e nutrição básica.

 No caso do Brasil, mas vale para grande parte da humanidade, faltou ética e faltou moral. Faltou ética se entendemos por ética a promoção da uma vida boa e decente para todos. Faltou moral se entendermos por moral a observância das normas e leis que a sociedade estabeleceu para si mesma para garantir uma vida boa boa e decente.

Ora faltou ética e moral nos causadores do rombo milionário das Americanas. Não sabiam dos 33 milhões de famintos em nosso pais e dos mais de cem milhões com insuficiência nutricional. Se tivessem um mínimo de sensibilidade ética e moral secundariam com suas fortunas a diminuir esta tragédia humana.E assim continuamos com a selvageria de nossa cultura capitalista que através do mercado tenta controlar a economia do país,especialmente se esta for direcionado para os que mais precisam.

Recordo a clássica frase do filósofo Heráclito (500 aC) que bem disse: “o ethos é o anjo bom do ser humano”. Entre nós o ethos se mostrou demoníaco.

Leonardo Boff, filósofo e  teólogo e escreveu,Etica da vida, Record 2009; Ética e moral: a busca dos fundamentos. Vozes 2003.

 

terça-feira, 17 de julho de 2018

POR TRÁS DO BRASIL DA CORRUPÇÃO




Por Marcelo Barros    

Quando se fala em Política, a maioria das pessoas aponta a corrupção como a fonte de todos os males. Muita gente não percebe que a corrupção econômica e política faz parte da própria lógica do sistema vigente. Não se trata apenas de pecados pessoais desse ou daquele. Falou-se muito em passar o Brasil a limpo, mas está acontecendo exatamente o contrário. Como no tempo da Bíblia, pregava  o profeta Jeremias chama-se o bem de mal e ao mal se considera bem. O milagre dessa proeza que embaralha a visão justa e faz as pessoas se enganarem está no interesse dos senhores que dominam a sociedade. Eles manipulam a opinião pública,  manobram a justiça e financiam o legislativo. Fazem com que pareça honesto e legítimo que apenas cinco brasileiros detenham uma riqueza equivalente à renda da metade de toda a população brasileira (Carta Capital, 27/ 06/ 2018). E apontam como corruptos, alguns que vêm de classe mais pobre e ousaram achar que poderiam ser tratados como iguais. Esses são condenados por qualquer suspeita de irregularidade. Um ex-presidente é acusado de possuir ilegitimamente um apartamento de proletário que ninguém consegue provar que lhe pertencia. Fazem um julgamento cheio de irregularidades jurídicas, o condenam rapidamente e o prendem contra todas as normas de legalidade. De fato, Lula não  aprendeu a lição de dois dos seus predecessores que multiplicaram suas riquezas no exercício do poder e, claro, de forma absolutamente legal. Um enriqueceu em diversos cargos políticos e se tornou dono de praticamente tudo o que existe de maior e mais lucrativo no seu estado de origem. O outro, mais intelectual, prefere manter a posse de dezenas de apartamentos no exterior, sendo os mais conhecidos o do Central Park em Nova York, o outro em Barcelona, em Paris e assim por diante... E a cultura vigente conclui: "Esses souberam ser espertos. Quem manda não saber se fazer na vida?".

Quanto aos juízes dos tribunais da inquisição, vale o que disse Jesus a respeito dos doutores da lei do seu tempo: "filtram um mosquito e deixam passar um camelo"(Mt 23, 24).

Por falar em camelos econômicos, os donos da rede de televisão que domina o mercado das comunicações em todo o Brasil não precisam de se preocupar se sua fortuna não tem um centavo obtido de forma lícita e honesta. Eles contam com os favores de ministros do Supremo e garantem apoio ao governo que abre o país às empresas petrolíferas do mundo todo.

Em artigo magistral que se divulgou pela internet, Malu Ayres afirma: "A sonegação fiscal no Brasil chega, por ano, a roubar dos cofres públicos R$ 1 trilhão". Qual a lava-jato que se preocupou com isso? Afinal, "A folha de pagamentos dos desembargadores do RRF 4 compraria, em cada mês, uns dez triplex daquele".  

Na realidade política brasileira, o mais estranho é que, em todas as denúncias e nas milhares de páginas dos processos de corrupção que enchem as mesas dos juízes da Lava-jato e de outras operações similares, nada aparece sobre bancos. Bancos e banqueiros são todos puros e vão para o céu. Quem sabe, o dinheiro da corrupção viaja de um país a outro, ou migra para paraísos fiscais sempre no bolso de alguma cueca ou voam milagrosamente por obra de algum santo, padroeiro dos doleiros? Enquanto isso, nas ruas e ambientes familiares, as pessoas comuns se devoram, como desejam as redes que dominam a comunicação de massa. Não somente fazem o povo de bobo, como apostam na cultura da intolerância e do ódio que sempre leva ao fascismo.

Daqui há quinze dias, o Brasil entrará claramente no período de campanha eleitoral. Como podemos ajudar as pessoas a compreenderem melhor a natureza da crise ética a que estamos submetidos? É preciso ajudar o povo a perceber o farisaísmo oportunista que distrai a atenção das pessoas, manipula os dados e favorece o verdadeiro roubo do dinheiro público. É preciso a população acordar em tempo ainda de salvar o que ainda sobrou da grande devastação a que o país está submetido.

Em tudo isso, o mais triste é ver pessoas e grupos que seguem a fé e se dizem espirituais e se negam a ver a realidade. Em outubro próximo, o papa Francisco vai declarar como santo o arcebispo mártir de San Salvador, Dom Oscar Romero. Em uma de suas homilias, Dom Romero afirmava: “É fácil ser portador da Palavra e não incomodar a ninguém. Basta ficar no espiritual e não se engajar na História. Dizer palavras que podem ser ditas, não importa onde e quando, porque não são propriamente de parte alguma” [1].


Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.




[1] - OSCAR ROMERO, l´Amour Vainceur, citado por PIERRE VILAN, Os Cristãos e a Globalização, Sao Paulo, Ed. Loyola, 2006, p. 41.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

A FALTA DE VERGONHA E A AUSÊNCIA DE CULPA NA CORRUPÇÃO BRASILEIRA

Por Leonardo Boff



Depois que surgiu a psicanálise,  a nova hermenêutica e o estruturalismo não podemos mais nos restringir ao consciente e aos ditames da razão na análise dos fenômenos humanos, pessoais e coletivos. Há um universo pré-consciente, subconsciente,  inconsciente (pessoal e coletivo) e pressupostos subjacente a nossas práticas, que tem que ser tomados em conta.

Quero me ater apenas a duas vertentes que influenciam nossos comportamentos: são os legados das duas principais culturas ancestrais que subjazem no nosso inconsciente coletivo e que são pressupostos não pensados  que nos ajudam a entender fenômenos atuais, como por exemplo, a tresloucada corrupção que atravessa o corpo social brasileiro: a cultura grega e a cultura judaico-cristã.

Da cultura grega herdamos o sentimento de vergonha. O conceito correlato é a do herói. Ter vergonha para os gregos consistia em se frustrar em qualquer empreendimento como na guerra e na convivência social. Perder uma batalha constituía uma vergonha coletiva para todo um povo. Perder numa competição nas Olimpíadas provocava vergonha. Triunfar e ser bem sucedido preenchia os requisites do herói.

Hoje esta categoria está presente em nossa sociedade. É um herói o jogador que conseguiu o gol da vitória do time de sua predileção. Vergonha coletiva é o Brasil perder de 7×1 na Copa Mundial de futebol contra a Alemanha. Conseguir altos índices de crescimento e de lucro de uma empresa faz do empresário um herói. Perder uma eleição produz vergonha. A vergonha tem a ver acom a imagem que projetamos socialmente. Ela tem que causar admiração e respeito. Caso contrário, faz as pessoas se sentem envergonhadas.

A outra vertente é constituída pela tradição judaico-cristã. A categoria central é a culpa. Geralmente colocamos a culpa nos outros. Se fracassamos num negócio, é por culpa da crise econômica. Se o matrimônio se desfez é por culpa de um dos parceiros. Se há uma desgraça ecológica é por culpa dos moradores que se instalaram em áreas de risco. Às vezes, colocamos a culpa em nós mesmos por um acidente de tráfico, por erros que produzem uma ruinosa administração ou porque roubamos dinheiro público e nos tornamos corruptos.

A culpa atinge a interioridade e afeta a consciência. A repercução não é tanto diante dos outros que talvez nem saibam de nosso malfeito, mas diante do tribunal da consciência. Esta nos remete logo a Deus, pois entre a consciência e Deus não há mediação. Estamos direta e imediatamente diante dele.

A culpa nos causa remorsos. Com o dinheiro desviado da merenda escolar, se tiver um mínimo de consciência ética, percebe que está prejudicando crianças que começam a passar fome. O sentimento de culpa pede reparação e cobra uma punição.

O oposto à culpa é o sentimento de ser justo e reto, dois conceitos definidores de uma pessoa “justa”(santa) no sentido bíblico.

Sentir vergonha e dar-se conta da culpa constituem as bases de uma consciência ética. Não precisar se envergonhar diante dos outros e não se sentir culpado diante da consciência e de Deus são sinais de retidão de vida e de uma atitude ética correta. Pode dormir tranquilo e não temer a maledicência pública.

Qual é o nosso problema concernente à escandalosa corrupção passiva e ativa no Brasil? É a acabada falta de vergonha e a completa ausência de culpa dos corruptos e corruptores diante de seus malfeitos.

Mesmo surpreendidos no ato de corrupção, ouvimos sempre o mesmo mote: “não sou culpado de nada”, “sou injustiçado”, “sou completamente inocente”. E trata-se de pessoas notória e comprovadamente corruptas. Perderam a noção total de culpa e não dão nenhuma  importância à vergonha pública de seus atos. Seguem desfilando, tranquilos pela cidade e a frequentar os melhores restaurantes.

Raramente ouve-se a indignação ética por parte de alguns com os gritos de “corrupto, ladrão”. Mas os corruptos nem se incomodam e continuam no seu desfrute.

Já Aristóteles na sua Ética a Nicômano estabelecia a vergonha e o rubor do rosto como um indicativo da presença de uma consciência ética. Sem essa vergonha, a pessoa era realmente um “sem vergonha”, um mau caráter, sem sentido dos valores.

Essa falta de vergonha e de sentimento de culpa se transformou, entre nós no Brasil, numa especial de segunda natureza, tornada uma prática usual. Por isso, quase todo o tecido social é contaminado pelo vírus da corrupção, dos corruptores e dos corrompidos.

Mas ela chegou nos dias atuais a níveis tão escandalosos que não podem mais ser tolerados pela sociedade e pelos cidadãos que ainda guardam uma consciência ética, do que é reto e correto, justo e bom. Cobra-se rigorosa investigação e condenação.

A corrupção como prática pessoal e social, sem sermos moralistas e utópicos, tem que ser banida e reduzida a níveis compatíveis com a condição humana decaída e corruptível. Há que se resgatar o sentimento de vergonha e de culpa, sem o que nossos esforços serão inócuos.

Leonardo Boff é articulista do JB on line, foi professor de ética na UERJ e em Heidelberg na Alemanha.


sexta-feira, 27 de maio de 2016

NO BRASIL CORRUPÇÃO NATURALIZADA ESTÁ SENDO DESMASCARADA

por Leonardo Boff



É estarrecedora a corrupção que se constatou no Brasil nos últimos tempos, especialmente aquela revelada pela Operação Lava Jato, vulgarmente chamada de “petrolão”, vale dizer, ligada a uma das maiores petroleiras do mundo, a Petrobrás do Brasil. Os números são sempre pelos milhões de dólares que escandalizam e vão além de qualquer bom senso, mesmo entre ladrões e mafiosos.

Os organismos norte-americanos de vigilância que espionaram a Presidenta Dilma, espionaram também a Petrobrás, devido ao fato de deter uma das maiores jazidas de gás e petróleo do mundo, que se encontra o Pre-Sal. Detectaram indícios de alta corrupção que estava ocorrendo na empresa. Alertaram, então, as autoridades brasileiras que iniciaram uma investigação. Encontraram uma teia imensa de corruptores e corruptos que envolviam grandes empreiteiras, altos funcionários da Petrobrás, gente do próprio Governo, doleiros e não ausentes setores do judiciário. Beneficiados foram especialmente políticos de quase todos os partidos (e há exceções louváveis) que financiavam suas custosas campanhas eleitorais com esse dinheiro da corrupção, sob forma de propinas milionárias.

Desde o início, as investigações que envolveram os principais órgãos da justiça e da polícia foram viciadas por um componente político. Focalizou-se particularmente, um partido, o PT que estava no poder e que seus opositores queriam, seja pela via legal da eleição ou por qualquer outro expediente ao arrepio da normalidade democrática, alijá-lo do poder. Os vazamentos, problemáticos em termos legais, praticamente se concentraram no PT relevando e até ocultando o envolvimento de outros partidos, máxime da oposição.

A partir daí se criou praticamente uma generalização (de si injusta porque recobre membros corretos, diria em sua grande maioria, nas bases partidárias dos municípios) de que corrupção era coisa do PT. Importa reconhecer que o partido se beneficiou dos esquemas de corrupção. Mas seria injusto considerar que detinha o monopólio da corrupção. Essa é endêmica na vida política e social do país e perpassa partidos e empresas e inclui muitíssimos cidadãos ricos seja sonegando altas somas de impostos, seja escondendo grande parte de suas fortuna em bancos estrangeiros ou um paraísos fiscais.

Raramente em nossa história recente temos assistido grandes empresários sendo presos, interrogados, condenados e encarcerados. A corrupção que se havia naturalizado nos mais altos estratos dos negócios e da política começou a ser desmascarada e posta sob os rigores da lei. Tal fato constitui um dado de altíssima relevância e um avanço no sentido da moralidade pública.

Mas para sermos realistas e não moralistas, não podemos reduzir a corrupção a este evento nefasto do “petrólão” desvelado pela Operação Lava Jato.

Importa reconhecer o fato de que o sistema do capital com sua cultura é em sua lógica também corrupto, embora aceito socialmente. Ele simplesmente impõe a dominação do capital sobre o trabalho, gerando riqueza sob a forma de exploração do trabalhador e devastação dos escassos bens e serviços da natureza. Produz uma dupla injustiça, uma social e outra ecológica, esta última atualmente ameaçadora do equilíbrio do sistema-Terra e do sistema-vida. Os juros dos bancos privados no Brasil são dos mais altos do mundo e os ganhos, exorbitantes.

Thomas Piketty com o seu “Capitalismo do século XX” deixou claro que lá onde entram relações capitalistas logo surgem desigualdades que tensionam a sociedade e fragilizam a democracia que supõe uma igualdade básica de todos face à lei e os direitos garantidos com inclusão social.

As nossas formas de corrupção possuem raízes históricas no colonialismo e no escravagismo, em si violentos, que levavam as pessoas, para manterem um mínimo de liberdade, a corromper-se e a corromper. Inventou-se o famoso “jeitinho”.

Há também uma base política no arraigado patrimonialismo que não distingue o público do privado e leva as elites a tratarem a coisa pública como se fosse sua e a montar um tipo de Estado que lhes garante os privilégios.

Tudo isso gerou uma cultura da corrupção, como algo natural e intrínseco à vida social e política. Os corruptos são vistos como espertos e não como criminosos, o que de fato são. E tanto ele quanto os corruptores contam com a impunidade.

Filosoficamente pensando, qual é a raiz última da corrupção? Talvez o católico Lord Acton (1843-1902) que era historiador e pensador, nos ajude. Diz ele, a corrupção reside fundamentalmente no poder.Sempre citada é sua frase: ”o poder  tem a tendência a se corromper e o absoluto poder corrompe absolutamente”. E acrescentava:”meu dogma é a geral maldade dos homens portadores de autoridade; são os que mais se corrompem”.

A tradição filosófica e psicanalítica nos tem persuadido de que em todos os seres humanos há notória sede de poder. O poder não pode se garantir senão buscando ainda mais poder. E o poder se materializa sob muitas formas, no status, na busca de títulos mas principalmente no dinheiro. Quanto mais dinheiro, mais poder.

Para consegui-lo não vale só o trabalho honesto mas todas as formas perversas que permitem multiplicar o dinheiro, quer dizer, assegurar mais e mais poder. É o caminho da corrupção, especialmente delapidando o bem publico, utilizando-se dos aparelhos do Estado.

A história mostra a ilusão desta pretensão. De repente pode-se perder tudo e ficar na miséria. Se a pessoa não puser sob controle a sua sede de poder e de acumulação, é castigada com o pesadelo de sentir-se perdida e sem chão.
O antidoto a essa sede de poder e de dinheiro, a nível pessoal é a honestidade, a transparência e a salvaguarda do valor sagrado da auto-dignidade. A nível político pelo sistema de controle e vigilância que todo o Estado deve ter.  Porque ambos não se verificam de forma adequada os corruptos campeiam impunes mas  se revelam desprezíveis e, finalmente, se tornam infelizes.

Será que saberemos tirar essas lições da corrupção naturalizada no Brasil e que finalmente foi desmascarada em parte pela Operação Lava Jato?

Leonardo Boff é articulista do Jornal do Brasil on line e escritor