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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

A ética de um capitalismo selvagem: a corrupção das Americanas


Leonardo Boff 


                         

O rombo bilionário, acumulado durante anos da gigante varejista das Lojas Americanas de 20 bilhões de reais, acrecido com as dívidas de 43 bilhões de reais tem muitas facetas. A mais explícita e vergonhosa é qualificar a corrupção que se esconde atrás destes números é o eufemismo “inconsistências contábeis”. O mercado sempre sensível a qualquer pequeno movimento que favoreça os desposuídos pelo Estado de viés social, logo reage criticamente. Face a esses bilhões não mostrou nenhum movimento. Claro, trata-se da cumplicidade das mesmas máfias financeiras, especialmente, as especulativas que ganham sem produzir nada.

Os nomes dos principais “sócios referenciais”(os reais donos) são os conhecidos bilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sucupira que com outros bens que prossuem como Burguer King, Kraft Heins e particularmente o controle do mercado cervejeiro com a InBev alcançam 185 bilhões de reais.

Na nota publicada pelo trio n dia 11 de janeiro de 2023 se eximem de qualquer conhecimento, fazendo dos leitores que conhecem como funciona o capitalismo brasileiro, de otários.

Não me cabe aprofundar esta questão, feita por especialistas. Atenho-me ao que me cabe como professor de ética e teologia por muitos anos.

O que aqui ocorreu confirma o que o saudoso Darcy Ribeiro frequentemente afirmava: o capitalismo brasileiro nunca foi civilizado, é um dos mais selvagens do mundo e profundamente egoista e individualista. Isto nos faz remete ao que o amigo do  Brasil (sua esposa é brasileira),um dos maiores pensadores da atualidade,o filósofo e linguista Noam Chomsky disse com tristeza:”nunca vi em minha vida uma porção da elite brasileira ter tanto desprezo e ódio aos negros e as pobres da periferia”.Isso o confirma em sua vasta obra o sociólogo Jessé Souza, especialmente no clássico A eleite do atraso: esta elite marginalizou vergonhosamente grande parte da população pobre e negra,negou-lhes direitos,desconheceu que são humanos como eles e filhos e filhas de Deus. Quando se levantaram, foram logo reprimidos e até assassinados.

Numa outra passagem enfatiza Noam Chomsky o que nos faz entender nossos corruptos (especialmente o trio, sempre sorridente):” A ideia básica que atravessa a história moderna e o liberalismo moderno é a de que o público dever marginalizado. O público, em geral, é visto como nada além de excluídos ignorantes que interferem como o gado desorientado”. O que interessa ao capitalismo ter consumidores e não cidadãos.Não ama as pessoas apenas sua força de trabalho e a eventual capacidade de consumir.

Já Aristóteles, um dos pais da ética ocidental, dizia que o primeiro sinal da falta de ética é a “falta de vergonha”. Etimologicamente vergonha vem do latim vereor que significa respeito, temor reverencial. Quando falta esse valor de respeito e reverência face ao semelhante, está aberta a porta a qualquer tipo de vergonhice.

Os corruptos dos 20 bilhõe das Americanas não mostram a menor vergonha: mostram-se benfeitores da sociedade, apoiando algumas pessoas (as mais dotadas) para estudarem nas melhores universidades do mundo (ex.Harvard), para serem educados no espírito do capitalismo e levarem avante seus projetos.  Não se trata, com é o caso de muitas universidades norte-americanas que são apoiadas por grandes corporações que favorecem sua manutenção e a pesquisa. Os nosssos opulentos  praticam apenas ajudas pontuais a pessoas distinguidas e não ajudam os grandes projetos educacionais que beneficiam a nação inteira a façam avançar rumo ao conhecimento e à autonomia.

O mais doloroso, no entanto, é a absoluta falta de sensibilidde da elite do atraso (que  no dizer de nosso maior historiador mulato Capistrano de Abreu “capou e recapou,sangrou e ressagrou” a população que saía do regime colonial, mas mantinha a escravidão).

Essa ausência culposa de sensibilidade foi denunciada frequentemente por um dos mais beneméritos brasileiros dos projetos contra a fome, pela vida e pela democracia o sempre recordado Betinho:

”O nosso problema maior não é econômico, não é o político, não é o ideológico nem é o religioso. O nosso problema maior é  falta de sensibilidade pelo nosso semelhante que está ao nosso lado”. Não ouvimos seu grito de dor, não vemos a mão estendida esperando um pouco de comida, sequer vemos seus olhos suplicantes. Passamos ao largo do caído à beira da estrada, como biblicamente fizeram o levita e o sacerdote na parábola do bom samaritano. Foi preciso que um desprezado hereje samaritano interrompesse sua viagem,curasse suas feridas e o tivesse levado ao sanatório, deixando tudo pago e se mais precisasse pagaria na volta. Quem é aqui o próximo, indagava o Mestre: é aquele de quem eu me aproximo,não reparando sua condição moral, sua religião, sua cor. É um irmão ferido que precisa de outro irmão para socorrê-lo.

No Brasil, os cristãos são apenas cristãos culturais que não aprenderam nada do Jesus histórico que estava sempre do lado da vida, do pobre, do cego, do coxo e do desprezado.Por isso há tanta desigualdade social, das maiores do  mundo. Porque falta sensibilidade, solidariedade, sentido humano, o de tratar humanamente outro humano, seu irmão e irmã.

O trio bilionário e os 318 milionários (segundo a revista Forbes) não ouvem o clamor que vem das grandes periferias, dos indígenas sendo dizimados por alguns do agronegócio como em Dourados-MT e aos milhares de yanomami, violentados pelo garimpo ilegal e a quem oficialmente por parte do governo genocida se negou água,vacinas,assistência média e nutrição básica.

 No caso do Brasil, mas vale para grande parte da humanidade, faltou ética e faltou moral. Faltou ética se entendemos por ética a promoção da uma vida boa e decente para todos. Faltou moral se entendermos por moral a observância das normas e leis que a sociedade estabeleceu para si mesma para garantir uma vida boa boa e decente.

Ora faltou ética e moral nos causadores do rombo milionário das Americanas. Não sabiam dos 33 milhões de famintos em nosso pais e dos mais de cem milhões com insuficiência nutricional. Se tivessem um mínimo de sensibilidade ética e moral secundariam com suas fortunas a diminuir esta tragédia humana.E assim continuamos com a selvageria de nossa cultura capitalista que através do mercado tenta controlar a economia do país,especialmente se esta for direcionado para os que mais precisam.

Recordo a clássica frase do filósofo Heráclito (500 aC) que bem disse: “o ethos é o anjo bom do ser humano”. Entre nós o ethos se mostrou demoníaco.

Leonardo Boff, filósofo e  teólogo e escreveu,Etica da vida, Record 2009; Ética e moral: a busca dos fundamentos. Vozes 2003.

 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

O CAPITALISMO SALVARÁ A HUMANIDADE?


 Frei Betto

 

       O ano novo começou com uma notícia estarrecedora. Em 2021, em pleno pique da pandemia, a fortuna das 500 pessoas mais ricas do mundo aumentou em mais de 1 trilhão de dólares. No câmbio daquela de segunda, 3/1, o montante equivalia a R$ 5,57 trilhões. Para se ter ideia de quanto isso significa basta saber que o PIB do Brasil, em 2020 - a soma de todos os bens e serviços de uma população de 212 milhões de pessoas -, foi de R$ 7,5 trilhões. 

       Se somarmos o patrimônio líquido desse seleto clube de 500 superbilionários, ele chega a 8,4 trilhões de dólares (R$ 49,9 trilhões), mais que o PIB de qualquer país do mundo, exceto EUA e China.

       Entre os 500, dez superbilionários ficaram quase R$ 2,15 trilhões mais ricos. São eles:

       1) Elon Musk (EUA), 50 anos. Fortuna de 270 bilhões de dólares. Em 2021 ficou US$ 114 bi mais rico. Investidor, é fundador da Space X, que fabrica naves espaciais e tecnologia de ponta; da The Boring Company, que atua na abertura de túneis e infraestrutura de construção; e da maior fábrica de carros elétricos do mundo. Nasceu na África do Sul, mas tem nacionalidade estadunidense. Quer privatizar o espaço...

       2) Jeff Bezos (EUA), 57. Fortuna de US$ 192 bi. Ganhou, em 2021, US$ 2,04 bi. Dono de mídias, investidor, engenheiro de computação e, como Musk, busca a privatização do espaço e promove turismo espacial. É dono da Amazon.

       3) Bernard Arnault (França) 72. Fortuna de US$ 178 bi, com ganho de US$ 63,6 bi em 2021. Investidor e colecionador de arte, controla a LVMH-Louis Vuitton SE, que produz artigos de luxo, inclusive refinadas bebidas como champanha e conhaque. 

       4) Bill Gates (EUA), 66. Fortuna de US$ 138 bi, acrescida de mais US$ 6,39 bi ano passado. É um dos donos da Microsoft.

       5) Larry Page (EUA), 48. Fortuna de US$ 128 bi, com ganho de US$ 46 em 2021.  Cientista da computação, é cofundador do Google.

       6) Mark Zuckerberg (EUA), 37. Magnata da mídia e empresário da Internet, fundou a Meta Platforms, que controla o Facebook, o Instagram e o WhatsApp, entre outras subsidiárias.

       7) Sergey Mikhaylovich Brin (EUA), 48. Fortuna de US$ 124 bi. Ganho de US$ 43,7 bi em 2021. Cientista da computação, nasceu em Moscou e tem cidadania estaduninense. Junto com Larry Page, fundou o Google. Deixou o seu controle em 2019.

       8) Steve Ballmer (EUA), 65. Fortuna de US$ 124 bi, com acréscimo de US$ 39,3 bi em 2021. Foi presidente da Microsoft (2000-2014) e é dono do Los Angeles Clippers, time de basquete profissional.

       9) Warren Buffett (EUA), 91. Fortuna de US$ 109 bi, com ganho de US$ 21,3 bi ano passado. Investidor, preside a Berkshire Hathaway, holding diversificada cujas subsidiárias atuam em seguros, transporte ferroviário de carga, geração e distribuição de energia etc.

       10) Larry Ellison (EUA), 77. Fortuna de US$ 107 bi, ganho de US$ 27,5 bi em 2021. Empresário e investidor, presidiu a Oracle Corporation, segunda maior empresa de software do mundo em receita e capitalização de mercado.

       A maioria dos superbilionários controla a mídia, em especial a eletrônica. Faz a nossa cabeça. Esses dez homens detêm até mesmo poder de detectar cada um de nossos passos e elencar nossas preferências. Possuem mais poder que a maioria dos chefes de Estado. 

       Dos dez, apenas um não vive nos EUA: o francês Bernard Arnault. E, como se sabe, os EUA são, hoje, um império mais poderoso do que o romano dos césares, o persa de Ciro, o grego de Alexandre Magno. Possui poderes ideológico (em especial, via indústria do entretenimento, como o cinema), econômico (o dólar e o euro são as únicas moedas internacionais, excetuando as virtuais) e bélico (possui 3.750 ogivas nucleares). Vale ressaltar que esses nove estadunidenses têm um incomensurável poder eleitoral, já que nos EUA é permitido o financiamento privado de campanhas políticas. 

       E por que essas dez pessoas possuem fortunas tão espantosas? Porque vivemos no sistema capitalista, que instaurou a naturalização da desigualdade social, a convicção de que a natureza existe para ser extorquida, a crença de que todos são livres para ascender da pobreza à riqueza (meritocracia), o poder de ditar leis e monitorar governantes e, como explica Max Weber, o espírito de que possuir fortunas é sinal de bênção de Deus...

       Enquanto isso, dos 7,9 bilhões de pessoas que habitam este planeta devastado pelo capital, 857 milhões padecem fome (das quais 24 mil morrem por dia); 780 milhões sobrevivem na miséria (renda de apenas R$ 320 por mês); 785 milhões não têm acesso à água potável; e mais de 3 bilhões vivem na pobreza (renda mensal de, no máximo, R$ 938). 

       Nossa era pode ser definida como a do capitaloceno. Hoje, o poder do capital fala mais alto que o direito à vida dos seres humanos e da natureza. A apropriação privada da riqueza é vista como mérito e direito, protegidos por leis e forças policiais. 

       Os mais ricos são invejados, cortejados, bajulados e admirados, enquanto os mais pobres são menosprezados, rejeitados e excluídos. 

       Detalhe: 84% da população mundial (6,63 bilhões de pessoas), acreditam em Deus... Não é em vão que nas cédulas de dólar está impresso “In God we trust” (Em Deus confiamos). Na verdade, deveriam corrigir e acrescentar a letra ele: “In Gold we trust” (Em Ouro confiamos). 

       Também tenho fé, de que no capitalismo nem a humanidade nem a natureza têm salvação. E esperança de que, um dia, a humanidade haverá de encarar esse sistema como desumanamente abominável.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

     Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

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sexta-feira, 2 de julho de 2021

A VORACIDADE DO CAPITALISMO TROUXE O COVID-19

 Leonardo Boff


Tenho sustentado a tese de que o Covid-19 é um contra-ataque da Mãe-Terra contra o sistema do capital e de sua expressão política, neoliberalismo.Ela foi agredida e devastada de tal maneira que nos enviou uma arma sua, invisível, o coronavírus, como um alerta e um lição. A se perpetuar a guerra contra o planeta, este poderá não nos querer mais. Um vírus mais letal, imune a qualquer vacina pode,eventualmente, exterminar grande parte da humanidade.

Tal singularidade não é impossível pois este sistema de morte de seres da natureza e de seres humanos, no dizer do Papa Francisco, possui uma tendência suicidaria. Prefere correr o risco de morrer a de renunciar à sua voracidade.

Este conto, tirado de Len Tolstói (1828-1910), narrado aos peões de sua fazena Isnaya Poliana com o título De quanta Terra precisa um homem, nos poderá fazer refletir.

“Hávia um camponês que trabalhava num pedaço de terra não muito fértil. Labutava muito mas sem muito fruto. Invejava os vizinhos que tinham terras maiores e  safras mais abundantes. Aborrecia-se sobremaneira pelos pesados tributos que devia ainda  pagar sobre o pouco de terra e dos parcos ganhos.

Um dia pensou muito e resolveu: “vou com minha companheira, para longe daqui, em busca de terras melhores”.  Soube que a muitas léguas de sua casa, havia ciganos que vendiam terras muito baratas e até por preços irrisórios quando viam alguém mais necessitado e disposto a trabalhar.

Esse camponês, desejoso de possuir mais a mais terra para  cultivar e ficar rico, pensou: “vou fazer um pacto com o diabo .Este vai me dar sorte”, disse ele à mulher, que torceu o nariz. Advertiu ela:

“Meu marido, cuidado com o diabo, nunca sai coisa boa fazendo um pacto com ele; essa sua cobiça,vai ainda pô-lo a perder”.

 Mas, por insistência do marido, resolveu acompanhá-lo para realizar o seu ambicioso projeto.Com tal que partiram, levando poucos pertences.

Chegando nas terras dos ciganos, eis que o diabo já estava lá, todo apessoado, dando a impressão de um influente mercador de terras. O camponês e sua mulher cumprimentaram educadamente os ciganos. Quando iam expressar seu desejo de adquirir  terras,  o diabo, sem cerimônias, logo se antecipou e disse:

“Bom senhor, vejo que veio de longe e é tomado por um grande desejo de possuir boas terras para plantar e fazer alguma fortuna. Tenho uma excelente proposta para você. As terras são baratas, ao alcance de seu bolso. Faço-lhe a seguinte proposta: você deixa uma quantia razoável numa bolsa aqui ao meu lado. Se você percorrer um território durante todo um dia, do nascer ao pôr do sol, e estiver de volta antes de o sol s pôr, toda a terra percorrida será sua. Caso contrário perderá o dinheiro da bolsa”.

Os olhos do camponês, brilharam de  emoção e disse:

“Acho uma excelente proposta. Tenho pernas fortes e aceito. Amanhã bem cedo, ao nascer do sol, ponho-me a correr e todo o território que minhas pernas puderem alcançar, será meu”.

 O diabo,sempre,malicioso, sorriu todo faceiro.

De fato, bem cedo, mal o sol rompeu a fímbria do horizonte, o camponês, se pôs a correr. Pulou cercas, atravessou  riachos e e não satisfeito, sequer  parou para descansar. Via diante de si uma ridente planície verde e logo pensou: “aqui vou plantar trigo em abundância”. Olhando à esquerda, se descortinava um vale muito plano e pensou: “aqui posso fazer toda uma plantação de linho para roupas finas”.

 Subiu, um pouco ofegante, uma pequena colina e eis, que lá em baixo, surgiu um campo de terra virgem. Logo pensou:”quero também aquela terra. Aí vou criar gado e ovelhas e vou encher as burras com dinheiro a mais não poder”.

E assim percorreu muitos quilômetros, não satisfeito com o que tinha conquistado, pois os lugares que via, eram atraentes e férteis e alimentavam seu desejo incontido de também possui-los.

De repente olhou para o céu e se deu conta de que o sol estava se pondo atrás da montanha. Disse de si para consigo mesmo:

”Não há tempo a perder. Tenho que voltar correndo, senão perco todos os terrenos percorridos e, por cima, ainda o dinheiro. Um dia de dor, uma vida de amor”, pensou como dizia seu avô.

Pôs-se a correr com uma velocidade desmedida para suas pernas cansadas.Mas tinha que correr sem reparar os limites dos músculos retesados. Chegou a tirar a camisa e largar  a sacola com um pouco de comida. Sempre olhava a posição do sol, já perto do horizonte, enorme e vermelho como sangue. Mas não se havia ainda  posto totalmente.  Mesmo cansadíssimo, corria  mais e mais e já nem sentia as pernas de tanto se esforçar. Pesaroso pensou: “talvez abarquei demais e posso perder tudo. Mas vamos em frente”.

Vendo, porém, ao longe o diabo, solenemente, de pé e ao  seu lado a sacola de dinheiro, recobrou mais ânimo, certo de que iria chegar antes de o sol se pôr. Reuniu todas as energias que possuía e fez um derradeiro esforço. Corria, sem pensar nos limites das pernas, quase voando. Não muito longe da chegada, atirou-se para frente, quase perdendo o equilíbrio.Refeito, deu ainda alguns passos longos.

Foi então que, extenuado e  já sem nenhuma força, se estatelou no chão. E morreu. A boca sangrava e todo o corpo estava coberto de arranhões e de suor.

 O diabo, maldosamente, apenas sorriu. Indiferente ao morto e ganancioso, olhava para a bolsa de dinheiro. Deu-se ainda ao trabalho de fazer  uma cova do tamanho do camponês  e ajeitou-o lá dentro. Eram apenas sete palmos de terra, a parte menor que lhe cabia de todos os terrenos andados. Não precisava mais que isso. A mulher, como que petrificada, assistia a tudo, chorando copiosamente”.

Esse conto reverbera as palavras de  João Cabral de Melo Neto (1920-1999) em sua obra Morte e Vida Severina (1995). No funeral do lavrador diz o poeta:”Esta cova em que estás, com palmos medida, é a conta menor que tiraste em vida; é a parte que te cabe deste latifúndio”.

De todos os terrenos atraentes que via e desejava possuir, ao  ávido camponês, no final, só lhe restou os sete palmos para a sua sepultura.

Não seria este o destino do capitalismo e do neoliberalismo?

Leonardo Boff escreveu:Covid-19: A Mãe-Terra contra-ataca a humanidade: advertências da pandemia, Vozes 2020.  

 

sexta-feira, 16 de abril de 2021

GRAVE RISCO PARA A TERRA E A VIDA: ”A GRANDE RETOMADA DO CAPITALISMO”(GREAT RESET).

 

Leonardo Boff


 

Está havendo em todo mundo um grande debate sobre que mundo virá na pós-pandemia. São muitas as projeções, algumas otimistas, no pressuposto de que a humanidade tenha aprendido a lição do Covid-19: desenvolver uma relação amigável para com a natureza;  as sociedades deverão superar as profundas desigualdades atuais, na linha da encíclica do Papa Francisco na Fratelli tutti; todos se sintam irmãos e irmãs, também com  os seres da natureza, e não seus donos e senhores, caso contrário ninguém se salvará (Ft n.32).

O que entretanto causa grave preocupação é a assim chamada “A Grande Reinicialização”(Great Reset),em nosso dialeto, “A Grande Retomada” da ordem capitalista mundial. Essa expressão foi sugerida pelo príncipe Charles juntamente com o Coordenador do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab. Esta ordem é urdida por aqueles que o relatório da OXFAM “Tempo de Cuidar”, (ONG inglesa que mede os níveis de riqueza e de pobreza no mundo), aponta, os poucos miliardários. Segundo aquela fonte, em 2019 havia cerca de 2.153 indivíduos que detinham mais riqueza que 4,6 bilhões de pessoas. O 1% deste grupo detém mais que o dobro da riqueza de 6.9 bilhões de pessoas. Com a pandemia ficaram ainda mais ricos. Só estes dados revelam uma economia gravemente doente e nada saudável, um vírus letal para milhões e milhos.

Este grupo de miliardários, como aparece claramente nas sugestões do Fórum Econômico Mundial de 21-24 de janeiro de 2020 (o próximo será em agosto de 2021 em Singapura) projeta uma Nova Ordem Mundial. Klaus Schwab, o fundador e coordenador do FEM, junto com o economista Terry Malleret diz em seu livro Covid-19 the Grat Reset:”A pandemia representa uma rara janela de oportunidade para refletir, reimaginar e resetar o mundo”.

Se bem reparamos, temos a ver com uma proposta corporativista, um capitalismo dos grupos de interesse (Stakeholder Capitalism) que não contempla as grandes maiorias da humanidade. Elas estão fora de seu radar. Serão participantes somente os que se encontram dentro da bolha da ordem do capital. As sete temáticas são até auspiciosas: como salvar o planeta, economias mais justas, tecnologias para o bem entre outras. Entretanto quando se elencam os riscos globais, citam-se a guerra acidental, levante anárquico, exploração das mentes, controle neuroquímico e armas nuclear ares de pequeno porte e outros.

Aparentam até sensibilidade social como estabelecer a sonhada “renda mínima universal”, garantir a assistência médica global, assegurar um futuro resiliente, igualitário e sustentável e buscar um novo contrato social mundial. Mas, por outro lado, tomados de medo das reações pelo mundo afora contra um novo despotismo cibernético imposto por eles, sugerem o Score Social uma estratégia centralizada de policiamento comportamental dos indivíduos e de todas as sociedades através do uso intensivo da inteligência artificial. Seria o capitalismo de vigilância.

São belas palavras, mas apenas palavras. Não se fala nunca de mudar o paradigma devastador dos bens e serviços da natureza, esse que provou a intrusão de uma gama de vírus e agora o letal Covid-19; não se questiona o DNA do capital que sempre quer crescer e lucrar por todos os meios possíveis. Não refere a Sobrecarga da Terra (The Earth Overshoot),vale dizer, o esgotamento dos “recursos”naturais para a nossa subsistência. Da mesma forma, não tomam consciência das nove fronteiras planetárias (Nine  Planet Bounderies) que de forma nenhuma podem ser ultrapassadas ao risco de colapsar nossa civilização.

Coisa perigosíssima: a Grande Retomada não exclui a guerra como meio econômico, geoestratégico e de enfrentamento violento, sabendo-se que uma guerra hoje em dia pode pôr fim à espécie humana, especialmente se for a partir da Ucrânia, o ponto hoje mais sensível de enfrentamento com a Rússia. Esta pode destruir a Europa em poucos minutos. O Fórum  apenas visa a limar os dentes do leão mas não tirar-lhe a voracidade. No máximo chega a um capitalismo verde, onde o verde disfarça a dinâmica acumuladora e excludente do sistema do capital que fica intocável.

Somos da opinião de que essa Grande Reinicialização (Great Reset) não vai prosperar pelo simples fato de que a Terra-Gaia chegou aos limites de sua sustentabilidade; não aguenta mais a rapinagem da ordem do capital em benefício de uns poucos jogando bilhões na miséria e na fome. Como epidemiologistas já aventaram: se não mudarmos nosso tipo de relação devastadora para com a natureza, esta nos enviará vírus ainda mais letais que poderão dizimar grande parte da humanidade.

Tudo poderia ser diferente. Por exemplo, a Diretora Executiva da Oxfam, Katia Maria, afirmou: “Se a população 1% mais rica do mundo pagasse uma taxa extra de 0,5% sobre a riqueza, nos próximos 10 anos, seria possível criar 117 milhões de empregos em educação, saúde e de cuidado para idosos”.  A solução deve vir debaixo, como assevera com frequência o Papa Francisco: da articulação de todos os movimentos sociais mundiais, daqueles que estão no Fórum Social Mundial, fazendo coro com os humanistas e também economistas que reafirmam a tese básica da Economia de Francisco e Clara do atual Pontífice: uma economia fundada na solidariedade, na cooperação, na ecologia, na circulação, na reutilização, em fim, uma economia humana para os humanos. Se não caminhamos nesta direção, vale a advertência de Sigmunt Bauman: “engrossaremos o cortejo dos que rumam na direção de sua própria sepultura”.

Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escreveu Covid-19:A Mãe Terra contra-ataca a humanidade, Vozes 2020.

 

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

FRATELLI TUTTI - O CAPITALISMO NA DOUTRINA DA IGREJA

 


 Por Pe Fabio dos Santos Potiguar

ECONOMIA VIRGENTE

 

Na Encíclica Fratelli Tutti, sobre a Fraternidade e a Amizade Social, lançada em Assis no último dia 03 de outubro, o Papa Francisco cita o poeta, compositor e cantor brasileiro, também diplomata, o Vinicius de Moraes. “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida” (215). A encíclica é sobre encontros. O mundo precisa de encontros, o mundo precisa se encontrar. “ Assim, falar de cultura do encontro significa que nos apaixona, como povo, querer encontrar-nos, procurar pontos de contato, lançar pontes, projetar algo que envolva a todos. Isto tornou-se uma aspiração e um estilo de vida” (216). O papa encontrou na vida e nas palavras do Pobrezinho de Deus, São Francisco de Assis, o título para essa Carta. Somos todos irmãos, diria e irmãs! Aliás, a decisão de escrevê-la nasceu do encontro com o Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb quando assinaram juntos, no Egito, o Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da fraternidade humana em Abud Dhabi em 04 de fevereiro de 2019.

 Gostaria de partilhar algumas reflexões e pistas que o papa nos aponta sobre o modelo econômico vigente e, também, acerca do diálogo ecumênico, inter-religioso e cultural.

 Economia Neoliberal.

O Papa Francisco, em conformidade com a Doutrina Social da Igreja já expressa nas encíclicas, no catecismo, no compêndio e nos pronunciamentos dos seus antecessores faz uma crítica contundente a uma economia que não tenha como centralidade a dignidade da pessoa humana, a justiça social e o respeito ecológico.

O próprio Catecismo que condena o comunismo, condena igualmente o capitalismo, não em si mesmo, mas quando desumano ou selvagem, como é frequentemente.

O Papa Bento XVI, em 2007, no seu livro Jesus de Nazaré criticou “a crueldade do capitalismo, do colonialismo e do poder dos ricos sobre os pobres. Confrontados com o abuso do poder econômico, com a crueldade do capitalismo que rebaixa os homens a mercadorias, nós começamos a ver mais claramente os perigos da riqueza e a entender em uma nova maneira o que Jesus queria ao nos alertar sobre a opulência”. Vai repetir outras vezes, como fez na Mensagem de Ano Novo de 2013: “Causam apreensão os focos de tensão e conflito causados por crescentes desigualdades entre ricos e pobres, pelo predomínio duma mentalidade egoísta e individualista que se exprime inclusivamente por um capitalismo financeiro desregrado”. No mesmo ano, poucos dias depois, falou aos participantes os participantes da XXIV Assembleia Plenária do Pontifício Conselho Cor Unum: “o capitalismo selvagem gerou crise, desigualdade e miséria".

 O mesmo podemos dizer do papa São João Paulo II na sua histórica visita a Cuba em janeiro de 1998. ” Ressurge em vários lugares uma forma de neoliberalismo capitalista que subordina a pessoa humana e condiciona o desenvolvimento dos povos às forças cegas do mercado, impondo um gravame, a partir dos seus centros de poder, aos povos menos favorecidos com ônus insuportáveis. Assim, por vezes, impõem-se às nações, como condições para receber novas ajudas, programas econômicos insustentáveis. Deste modo, assiste-se no concerto das nações ao enriquecimento exagerado de poucos à custa do empobrecimento crescente de muitos, de forma que os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres”.

O neoliberalismo é marcado pelo chamado Estado Mínimo. Tivemos como triste exemplos no país, as reformas trabalhista e da previdência, além do congelamento por vinte anos de recursos para as políticas nas áreas da saúde, da educação, dentre outras. A economia não deve ser regida pelo Estado, mas pelo mercado. Por eles modelos ser em contrária a Doutrina a Igreja, elas são condenados.

 O Papa Francisco na Fratelli Tutti também condena esse modelo. Já o havia feito em seu Encontro com os Movimentos Sociais em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, em 2015. “Reconhecemos nós que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza? Se isso é assim – insist – digamo-lo sem medo: Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos.... E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco”. Vai repeti-lo tantas outras vezes, especialmente na encíclica Laudato Si.

Mas, assim escreve o papa na sua nova encíclica. 

“O mercado, por si só, não resolve tudo, embora às vezes nos queiram fazer crer neste dogma de fé neoliberal. Trata-se dum pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas perante qualquer desafio que surja. O neoliberalismo reproduz –se sempre igual a si mesmo, recorrendo à mágica teoria do «derrame» ou do «gotejamento» - sem a nomear – como única via para resolver os problemas sociais. Não se dá conta de que a suposta redistribuição não resolve a desigualdade, sendo, esta, fonte de novas formas de violência que ameaçam o tecido social. Por um lado, é indispensável uma política económica ativa, visando «promover uma economia que favoreça a diversificação produtiva e a criatividade empresarial», para ser possível aumentar os postos de trabalho em vez de os reduzir. A especulação financeira, tendo a ganância de lucro fácil como objetivo fundamental, continua a fazer estragos” (168). O papa continua afirmando a importância dos Movimentos Sociais na participação nesse processo como verdadeiros protagonistas. “É necessário pensar a participação social, política e económica segundo modalidades tais «que incluam os movimentos populares e animem as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com aquela torrente de energia moral que nasce a integração dos excluídos na construção do destino comum. Implica superar a ideia das políticas sociais concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres, e muito menos inserida num projeto que reúna os povos” (169).

 Faço questão de citar os três últimos papas, mas poderia citar os papas Leão XIII, Pio XI, São João XXIII E São Paulo VI. Você poderá encontra-los no decorrer da leitura da Encíclica Fratelli Tutti.

 De fato, o deus mercado. O Catecismo da Igreja nos números 2424 e 2425 é muito claro quando condena, por um lado, o ateísmo do materialismo histórico e, o por outro, o ateísmo do materialismo do capitalismo.

 “Uma teoria que faça do lucro a regra exclusiva e o fim último da atividade econômica, é moralmente inaceitável. O apetite desordenado do dinheiro não deixa de produzir os seus efeitos perversos e é uma das causas dos numerosos conflitos que perturbam a ordem social. Um sistema que «sacrifique os direitos fundamentais das pessoas e dos grupos à organização coletiva da produção», é contrário à dignidade humana (166). Toda a prática que reduza as pessoas a não serem mais que simples meios com vista ao lucro, escraviza o homem, conduz à idolatria do dinheiro e contribui para propagar o ateísmo. «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6, 24; Lc 16, 13).

 “A Igreja rejeitou as ideologias totalitárias e ateias, associadas, nos tempos modernos, ao «comunismo» ou ao «socialismo». Por outro lado, recusou, na prática do «capitalismo», o individualismo e o primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano. Regular a economia só pela planificação centralizada perverte a base dos laços sociais: regulá-la só pela lei do mercado é faltar à justiça social, «porque há numerosas necessidades humanas que não podem ser satisfeitas pelo mercado». É necessário preconizar uma regulação racional do mercado e das iniciativas económicas, segundo uma justa hierarquia dos valores e tendo em vista o bem comum”.

O papa São João Paulo II condenava o capitalismo neoliberal não era porque ele era comunista. Condenava porque ele era católico. O papa emérito Bento XVI condena o capitalismo neoliberal não era porque é comunista. Condenava porque ele é católico. O Papa Francisco condena o capitalismo neoliberal não é porque ele é comunista. Condena porque ele é católico, ele é cristão. Porque ele é o papa.

Os papas condenam o capitalismo neoliberal porque são papas. Do mesmo modo, todos os católicos que são norteamos pelo Catecismo da Igreja pastoreada pelos sucessores de Pedro. 

Desejo que esta esteja singela tentativa de construir pontes, realizar diálogos através desse singelo trabalho possa ter contribuído.

Que o PAI, por meio do seu FILHO encarnado-morto-ressuscitado, derrame o ESPÍRITO SANTO para restaurar a verdade, superar as discórdias, fazer crescer a unidade na diversidade e, a vivermos em paz para sua maior glória e bem da Esposa do seu Unigênito, Cristo Jesus. Amém.

Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife


quinta-feira, 25 de junho de 2020

CRIAR ALTERNATIVA AO CAPITALISMO


 

por Frei Betto

 

        Não há falta de recursos no mundo, há falta de justiça e, sobretudo partilha. O PIB mundial – a soma dos bens e serviços produzidos em um ano – é de R$ 85 trilhões. Dividido este valor pela população mundial, daria para assegurar, a casa família de quatro pessoas, uma renda mensal de R$ 15 mil. Portanto, fica a pergunta: se produz com que objetivo? Atender as necessidades da população ou obter lucros?

        A desigualdade mundial é gritante. Apenas 1% da população detém mais riqueza que os 99% restantes. E 26 famílias acumulam uma fortuna igual à soma das riquezas de metade da população mundial, ou seja. 3,8 bilhões de pessoas. No Brasil, segundo o economista Ladislau Dowbor, seis famílias acumulam mais riquezas que 105 milhões de brasileiros que se encontram na base da pirâmide social.

        Hoje os paraísos fiscais guardam, em seus cofres, 20 trilhões de dólares provenientes de sonegação fiscal, corrupção e lavagem de dinheiro. Isso equivale a 200 vezes aos 100 bilhões de dólares que, na Conferência de Paris, em 2015, se decidiu destinar às políticas ambientais.

        É preciso, pois, avançar para a democracia econômica. Não basta a democracia política na qual, em tese, todos participam da escolha de seus governantes.  Todos deveriam usufruir dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano. E uma renda básica universal teria que ser assegurada a cada família. Todas elas merecem ter acesso gratuito aos direitos humanos básicos, como alimentação saúde e educação. Engana-se quem pensa que isso representa custos. São investimentos que melhoram significativamente o nível de desenvolvimento da sociedade e a qualidade de vida da população.

        Hoje, o desafio é aprimorar a democracia. Fazê-la avançar de meramente delegativa para a democracia participativa, na qual os cidadãos decidem o destino dos recursos do Estado através de sistemas de transparência da gestão desses recursos, o que é possibilitado pelas novas tecnologias.

        A tributação deveria recair sobre os fluxos financeiros de modo a conter o capital especulativo. O Brasil, desde 1995, isenta os mais ricos de pagarem impostos sobre lucros e dividendos, o que se constitui em uma gritante injustiça. Uma profunda reforma do sistema financeiro teria que resultar no estímulo a bancos públicos e comunitários, cooperativas de crédito e moedas virtuais.

        Seria preciso planejar o desenvolvimento local integrado, de modo que cada município possa cuidar do manejo sustentável dos recursos naturais, alcançando assim o equilíbrio econômico, social e ambiental.

        Estabelecer uma economia do conhecimento que, hoje, é o principal fator de produtividade. Toda a sociedade ter acesso aos avanços tecnológicos. É preciso rever as políticas de patentes, copyrights, royalties, para destravar o avanço. E democratizar os meios de comunicação, combater os oligopólios, tornar a sociedade bem informada.

        Segundo Joseph Stiglitz, “nas últimas quatro décadas, a doutrina prevalecente nos EUA tem sido a de que as corporações devem potencializar os valores para seus acionistas — isto é, aumentar os lucros e os preços das ações — aqui e agora, não importa o que aconteça, sem se preocupar com as consequências para os trabalhadores, clientes, fornecedores e comunidades.”

        É esta lógica denunciada por Stiglitz que gera a desigualdade social e, em consequência, tudo aquilo que significa exclusão e sofrimento para a maioria da população mundial.

 

Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros.

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