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quinta-feira, 25 de junho de 2020

CRIAR ALTERNATIVA AO CAPITALISMO


 

por Frei Betto

 

        Não há falta de recursos no mundo, há falta de justiça e, sobretudo partilha. O PIB mundial – a soma dos bens e serviços produzidos em um ano – é de R$ 85 trilhões. Dividido este valor pela população mundial, daria para assegurar, a casa família de quatro pessoas, uma renda mensal de R$ 15 mil. Portanto, fica a pergunta: se produz com que objetivo? Atender as necessidades da população ou obter lucros?

        A desigualdade mundial é gritante. Apenas 1% da população detém mais riqueza que os 99% restantes. E 26 famílias acumulam uma fortuna igual à soma das riquezas de metade da população mundial, ou seja. 3,8 bilhões de pessoas. No Brasil, segundo o economista Ladislau Dowbor, seis famílias acumulam mais riquezas que 105 milhões de brasileiros que se encontram na base da pirâmide social.

        Hoje os paraísos fiscais guardam, em seus cofres, 20 trilhões de dólares provenientes de sonegação fiscal, corrupção e lavagem de dinheiro. Isso equivale a 200 vezes aos 100 bilhões de dólares que, na Conferência de Paris, em 2015, se decidiu destinar às políticas ambientais.

        É preciso, pois, avançar para a democracia econômica. Não basta a democracia política na qual, em tese, todos participam da escolha de seus governantes.  Todos deveriam usufruir dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano. E uma renda básica universal teria que ser assegurada a cada família. Todas elas merecem ter acesso gratuito aos direitos humanos básicos, como alimentação saúde e educação. Engana-se quem pensa que isso representa custos. São investimentos que melhoram significativamente o nível de desenvolvimento da sociedade e a qualidade de vida da população.

        Hoje, o desafio é aprimorar a democracia. Fazê-la avançar de meramente delegativa para a democracia participativa, na qual os cidadãos decidem o destino dos recursos do Estado através de sistemas de transparência da gestão desses recursos, o que é possibilitado pelas novas tecnologias.

        A tributação deveria recair sobre os fluxos financeiros de modo a conter o capital especulativo. O Brasil, desde 1995, isenta os mais ricos de pagarem impostos sobre lucros e dividendos, o que se constitui em uma gritante injustiça. Uma profunda reforma do sistema financeiro teria que resultar no estímulo a bancos públicos e comunitários, cooperativas de crédito e moedas virtuais.

        Seria preciso planejar o desenvolvimento local integrado, de modo que cada município possa cuidar do manejo sustentável dos recursos naturais, alcançando assim o equilíbrio econômico, social e ambiental.

        Estabelecer uma economia do conhecimento que, hoje, é o principal fator de produtividade. Toda a sociedade ter acesso aos avanços tecnológicos. É preciso rever as políticas de patentes, copyrights, royalties, para destravar o avanço. E democratizar os meios de comunicação, combater os oligopólios, tornar a sociedade bem informada.

        Segundo Joseph Stiglitz, “nas últimas quatro décadas, a doutrina prevalecente nos EUA tem sido a de que as corporações devem potencializar os valores para seus acionistas — isto é, aumentar os lucros e os preços das ações — aqui e agora, não importa o que aconteça, sem se preocupar com as consequências para os trabalhadores, clientes, fornecedores e comunidades.”

        É esta lógica denunciada por Stiglitz que gera a desigualdade social e, em consequência, tudo aquilo que significa exclusão e sofrimento para a maioria da população mundial.

 

Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros.

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terça-feira, 13 de março de 2018

RESISTIR É CRIAR. RESISITIR É TRANSFORMAR




por Marcelo Barros

Esse é o tema que reúne milhares de pessoas de todo o mundo, vindos a Salvador, BA, para, a partir dessa 3a feira, 13 de março, participar de mais um Fórum Social Mundial. Nesse momento, o mundo vive um retrocesso social e político, como há décadas, não se percebia. Por mais estranho que pareça, por todos os continentes, se espalha um aumento do racismo e das discriminações sociais. Uma onda de violência atinge a sociedade como um todo, mas principalmente as pessoas e grupos que são socialmente mais frágeis, como migrantes e refugiados. Na América Latina e,  especialmente no Brasil, vivemos tempos sombrios com graves retrocessos em nossas frágeis democracias. No Brasil, os três poderes - judiciário, legislativo e executivo convivem com sucessivas e graves manifestações de corrupção, abusos de poder e privilégios, mantidos com o dinheiro público, cada vez menos aplicado para garantir o acesso de todos na mesa da dignidade cidadã. Por todo o país, espalha-se um clima extremado de ódio e intolerância que impede o diálogo e a busca de soluções que possam ser concretizadas no campo sociopolítico e econômico. Nesse contexto, a realização desse Fórum Social Mundial pode representar um grito profético da sociedade civil que aponta novos horizontes de participação cidadã e de rumos novos para a humanidade. 

O processo dos fóruns sociais começou em 2001. Naquele momento, os poderosos do mundo se encontravam nos Fóruns Econômicos Mundiais e declaravam o dogma do mercado como única solução para a sociedade internacional. Um secretário de Estado dos Estados Unidos chegou a declarar: "A guerra contra a pobreza acabou. Os pobres perderam". Para mostrar que isso não era verdade,  representantes de várias organizações sociais se uniram e iniciaram os fóruns sociais mundiais. Desde o começo, a proposta sempre foi constituir um processo descentralizado para favorecer a construção de convergências e fortalecer a possibilidade de resistências. O tema era "Um outro mundo é possível". Os primeiros fóruns respiravam um clima de otimismo e chegaram a reunir mais de cem mil pessoas de todos os continentes. Era um verdadeiro encontro da humanidade decidida a trabalhar por uma transformação da sociedade. Nos anos mais recentes, o processo sofreu um desgaste natural vindo de causas externas e do cansaço de um processo que parecia enfraquecido. Há até quem diga que o Fórum Social Mundial está esvaziado. No entanto, como não há nada em seu lugar e de todo modo, ele cumpre a função de reunir milhares de pessoas para um debate cidadão, ele mantém sua validade e importância. 

Em 2016, para o Fórum Mundial em Montreal, se dizia: "Um outro mundo é necessário. Juntos, podemos torná-lo possível!". A realização desse novo fórum em Salvador revela uma força de resistência dos movimentos alternativos à sociedade dominante e pode representar uma esperança nova para uma humanidade. 

Muitas pessoas esquecem que, no mundo antigo, o termo Igreja não indicava nenhuma religião e sim uma assembleia de cidadãos. Chamavam-se de Igrejas os conselhos de cidadãos das cidades do mundo grego. Correspondiam ao que, hoje, em nossas cidades, seria a Câmara de Vereadores. O apóstolo Paulo tomou esse termo social e político para designar as pequenas comunidades de discípulos/as de Jesus. Assim, as Igrejas nasceram com vocação de serem fóruns de cidadãos do reino de Deus. Receberam o nome de Igrejas para testemunhar que Deus tem um projeto novo para o mundo. Em sua época e sem ainda ver as Igrejas que surgiram a partir do seu movimento, Jesus de Nazaré deu a vida por esse projeto de Deus no mundo. 

Nesse fórum social de Salvador, participarão muitas pessoas ligadas a diversas religiões e a diferentes Igrejas cristãs. É bom ver que religiosos se unem ao caminho da parte mais sadia da humanidade para testemunhar que esse mundo tem remédio e é sempre possível ao amor vencer a indiferença e o egoísmo, assassinos das melhores esperanças. 

Para quem é cristão e segue a fé bíblica, a esperança não vem tanto da análise da realidade que pode ser pessimista, mas da convicção de que o Espírito sempre está presente e atuante na história. Nesses dias, vivemos a preparação para a Páscoa que recorda a libertação dos oprimidos e a ressurreição de Jesus, primícias de um mundo novo, no qual, como diz o evangelho: "Todo o universo verá a salvação" (Lc 3, 6).  

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.