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segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Vida em primeiro lugar! Você tem fome e sede de que?

 


Pe. Francisco Aquino Júnior


 

No dia 07 de setembro, dia da pátria, celebramos o Grito dos Excluídos/as. Igrejas, organizações populares e setores diversos da sociedade saem às ruas em todo o país, não para marchar como “soldado cabeça de papel”, mas para gritar como cidadãos e como pessoas de fé: Vida em primeiro lugar. É tanto um grito de protesto contra as várias formas de negação de direitos a amplos setores da sociedade, quanto um grito de afirmação e resistência populares nas lutas por direitos no campo e na cidade, quanto ainda um grito de alegria e celebração das conquistas populares. 

É muito significativo que essa manifestação aconteça no dia 07 de setembro. Uma forma de dizer – no protesto, na resistência e na festa – que o verdadeiro patriotismo e a verdadeira unidade nacional se dão na luta e afirmação da dignidade de todas as pessoas, mediante conquista e garantia de direitos. O Grito é ocasião privilegiada de expressão e animação das lutas e organizações sociais: celebração das lutas e conquistas; animação e fortalecimento das resistências e lutas populares. Como bem recorda Frei Carlos Mesters: “Luta sem festa, derrota na certa. Festa sem luta, vitória falsa”.

O Grito dos Excluídos/as acontece desde 1995. Nasce como fruto da 2º Semana Social Brasileira – “Brasil: Alternativas e Protagonistas”, em sintonia com a Campanha da Fraternidade daquele ano que tinha como tema “Fraternidade e Excluídos” e como lema “Eras Tu, Senhor?”. Em 1996, a Assembleia Geral da CNBB insere essa atividade no Projeto de Evangelização da Igreja no Brasil: “O Grito dos Excluídos será celebrado anualmente, em nível nacional, no dia 07 de setembro, retomando preferentemente o tema da Campanha da Fraternidade” (Documentos da CNBB 56, n. 129). Desde o início, o Grito foi uma atividade promovida com movimentos e organizações populares. Em alguns lugares, articulado pelas pastorais sociais. Em outros lugares, por movimentos e organizações populares. Mas sempre como atividade conjunta.

O tema do primeiro Grito foi “Vida em primeiro lugar”. Nos anos seguintes, isso se tornou o tema permanente do Grito, colocando sempre o desafio e a possibilidade de reconstrução do país: “Reconstrução que vai além de atender as demandas tão urgentes com políticas públicas, seja de combate à fome, à violência contra o povo preto e pobre nas periferias, contra os povos indígenas, à violência contra as mulheres e à população LGBTQIA+. Mas que passa também pelo respeito aos territórios indígenas e quilombolas e pela garantia dos direitos à moradia digna, reforma agrária e urbana, ao trabalho, à educação, saúde, cultura e lazer. Reconstrução que, sobretudo, promova o fortalecimento da democracia e da soberania e aponte para a construção de um projeto de sociedade onde a economia esteja a serviço da vida” (CNBB – Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora. Carta de apoio ao Grito dos Excluídos 2023).

O lema desse ano é: “Você tem fome e sede de que?”. Uma pergunta que faz ecoar os muitos gritos que vêm do campo e dos becos e periferias das cidades, ao mesmo tempo que exige de todos nós, como cidadãos e pessoas de fé, respostas concretas que atendam às necessidades e direitos de nosso povo. É claro que isso não dá a toque de mágica nem cai do céu. Exige muita luta e organização. Direitos se conquistam na luta. Não podemos cair na ilusão de que determinados governos vão garantir os direitos da população. Todos sabemos que os governos, por melhores que sejam ou pareçam, estão muito mais alinhados e amarrados aos grandes grupos econômicos do que parece…

Importa manter viva a esperança ativa do nosso povo: “esperança do verbo esperançar” que compromete e mobiliza; esperança fundada e dinamizada pelo Espírito de Deus que, a partir de baixo, consola, anima, desperta e mobiliza o povo na luta cotidiana pela sobrevivência e na organização e mobilização populares por direitos.

Que Deus abençoe os movimentos e organizações populares no campo e na cidade. E que o Gritos dos Excluídos e Excluídas anime nossas comunidades, pastorais e organizações populares na luta e conquista de direitos – sinal e instrumento do reinado de Deus nesse mundo que é um reinado de fraternidade, justiça e paz.

 

sábado, 1 de abril de 2023

A FOME DO OUTRO: PROBLEMA ESPIRITUAL


      Maria Clara Lucchetti Bingemer


            Como em todos os anos, a Igreja Católica no Brasil lança a Campanha da Fraternidade por ocasião da Quaresma. Nesse tempo em que os cristãos são convocados a converter-se e preparar-se para celebrar o mistério pascal de Jesus, centro da sua fé, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lança um alerta, um apelo.  Escolhe um tema candente e desafiante para  os quarenta dias que precedem a Páscoa. 

            Este ano o tema é a fome.  A fome que rói as entranhas.  Aquela que impede de pensar e de viver. A fome que atormenta famílias inteiras, cujas crianças sofrem o flagelo da desnutrição.  E por que a fome?  Porque o Brasil voltou a seu macabro mapa. Mais de 30 milhões de brasileiros não têm o que comer.  Ainda que surpreenda, ainda que estarreça em um país com tantos recursos naturais, com uma agricultura pujante, essa é a realidade. Muitos brasileiros passam fome.  E entre esses, não poucos são vitimados e morrem de desnutrição e insegurança alimentar. 

            Perguntarão alguns: mas por que a Igreja tem que se ocupar com este problema, que é econômico, social? Não é uma questão religiosa.   Isso deveria ser pauta dos governos em todos os níveis, inclusive das universidades.  Por que a Igreja situa em seu centro de atenções no tempo litúrgico mais importante do ano esse problema tão material? Não deveria propor algo que toque mais de perto o espírito, a vida de oração, o crescimento devocional de seus fiéis?

            Acontece que a fome é, sim, um problema espiritual.  E dos mais importantes.  Porque está diretamente conectado à vida.  Sem comer, não se vive.  E o Deus que Jesus de Nazaré veio anunciar e chamou de Pai é o Deus da vida.  Tudo que deseja é que seus filhos amados tenham vida em abundância.  A fome portanto é uma agressão das mais  violentas ao projeto de Deus, o Reino da justiça, da paz e do amor. Por isso, a CNBB convoca  todos os cristãos a se responsabilizarem diante deste flagelo que voltou a crescer no país.  

            Os bispos do Brasil, portanto, com a Campanha da Fraternidade 2023 são claros em sua proposta: a fome não é um problema alheio a Deus, à fé e à religião.  Pelo contrário, está no centro da vida e do projeto de Jesus e de todos aqueles e aquelas que nele creem.  Como diz o grande pensador ortodoxo Nikolai Berdiaev: “Se eu tenho fome é um problema biológico.  Se o meu irmão tem fome, é um problema espiritual” .

            A Igreja deseja despertar os sentidos, a cabeça e o coração de todos para uma situação que não pode ser tratada com indiferença e considerada normal.  O fato de uma pessoa, criatura de Deus, passar fome e não ter o que comer; ter que ir para os fundos dos açougues esperando encontrar algum osso para dar a sua família; ter que revirar latas de lixo como os ratos para encontrar sobras das mesas fartas, não pode ser tratado com um dar de ombros indiferente, como se não fosse problema meu.  

            O grande escritor brasileiro Fernando Sabino escreveu uma memorável crônica  - Notícia de jornal - sobre um homem que passava fome na rua e ali acabou morrendo sem receber o socorro de ninguém. 

“ Nada se sabe dele, senão que morreu de fome. Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é homem. E os outros homens cumprem seu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.  Não é de alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? O que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.

A Igreja do Brasil não quer que isso aconteça.  E mais: deseja dizer aos cristãos que isso não pode acontecer.  Nunca.  A fome do outro é problema meu, nosso.  Por isso, como lema da Campanha da Fraternidade temos a bela frase do Evangelho de Marcos que narra a multiplicação dos pães: “Dai-lhes vós mesmos de comer”.  

Jesus viu a multidão faminta e compadeceu-se dela.  Os discípulos argumentavam que era melhor mandar todos embora, que não tinham dinheiro para comprar comida.  O Mestre disse, então, que o que tinham pusessem em comum.  E afirma o evangelho que todos comeram e ficaram saciados.  

Não há que delegar, terceirizar, responsabilizar os outros.  Dizer que isso é problema da prefeitura, do governo do estado, da presidência da República.  “Dai-lhes vós mesmos de comer”. A fome do outro é um problema espiritual e ao mesmo tempo um mandato.  Quem tem fome não pode esperar.  Precisa ser alimentado. E se eu me deparei com alguém com fome, sou eu que devo dar-lhe de comer, repartindo o que é meu para que todos sejam saciados. 

 

 Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Experiência de Deus na Contemporaneidade: entre o viver e o contar” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

 

Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Fraternidade e Fome


Desde 1964 a Igreja do Brasil promove durante a quaresma uma Campanha da Fraternidade. A quaresma é um tempo marcado pelo chamado à conversão: mudança de vida (mentalidade, sentimento, atitude), volta ao Senhor, adesão ao seu Evangelho. Essa conversão é tanto pessoal (conversão do coração), quanto social (transformação da sociedade). Para ajudar na vivência do espírito quaresmal, a Igreja convida a intensificar a prática da oração, do jejum e da caridade. E para que a caridade não se reduza a uma ação meramente assistencial, a Igreja do Brasil, retomando a doutrina social da Igreja, promove uma Campanha da Fraternidade que trata de algum problema grave da sociedade que exige mudança e que compromete todas as pessoas e instituições.

Pela terceira vez a Companha da Fraternidade trata do problema da fome, chamando atenção para um dos pecados mais graves de nossa sociedade e convidando os cristãos e o conjunto da sociedade a se empenharem na superação dessa injustiça e desse crime que é um verdadeiro pecado que clama ao Céu: “Repartir o pão” (1975); “Pão para quem tem fome” (1985); “Dai-lhes vós mesmos de comer” (2023).

A fome não é um dado natural. Não é fruto do acaso ou do destino. Não é mera consequência de preguiça ou comodismo pessoal. Nem muito menos é vontade ou castigo de Deus. Ela é um produto social. É resultado das tremendas injustiças e desigualdades que caracterizam nossa sociedade e fazem com que uns tenham tanto e outros tenham tão pouco ou quase nada. A situação atual do Povo Yanomami em Roraima é o exemplo mais vivo e dramático da injustiça e desigualdade de nossa sociedade: Fruto do egoísmo e da cobiça de garimpeiros, madeireiros e empresários; fruto de um modelo econômico que sacrifica vidas humanas e toda natureza no altar do deus-mercado/lucro; fruto da indiferença social, da cultura do consumismo e da busca de enriquecimento a qualquer preço; fruto da cumplicidade de políticos e governos genocidas que fecham os olhos diante desses crimes ou até mesmo estimulam essas práticas criminosas.

Mas a situação do povo Yanomami não é um fato isolado. O drama da fome está presente ao longo da história do Brasil. E é a expressão mais cruel e perversa do modelo capitalista de sociedade que implantou aqui ao logo de mais de 500 anos. Uma série de políticas públicas desenvolvidas na primeira década do século reduziu bastante o drama da fome no Brasil, fazendo com que o país saísse do mapa da fome em 2014. Mas o desmonte progressivo dessas políticas a partir de 2016, agravado com a pandemia da Covid-19, fez com que o Brasil voltasse ao mapa da fome.

Os dados são alarmantes: 33 milhões de pessoas passando fome (15,5% de toda população ou o equivalente à população das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte e Manaus); mais de 125 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar (58,1% de toda população). Isso é bem mais grave nas regiões Nordeste (21%) e Norte (27%) e na zona rural (18,6%). E atinge sobretudo pessoas pretas ou pardas e famílias chefiadas por mulheres. Em março de 2020 estimava-se cerca de 222 mil pessoas em situação de rua e esse número cresceu assustadoramente na pandemia, como se pode ver em qualquer grande cidade.

Essa situação é muito mais escandalosa e criminosa se considerarmos que não falta alimento no Brasil. Aliás, o país bate recordes anuais na produção para exportação de milho, soja, trigo, carne etc. A fome no Brasil, vale repetir, é fruto da injustiça e da desigualdade social. É um pecado mortal que clama ao céu! E pode ser eliminada com a solidariedade de todos e com vontade e decisão políticas. Como tantas vezes repetiu o presidente Lula “é preciso colocar o rico no imposto de renda e o pobre no orçamento”. Precisamos lutar para que isso se torne realidade.

 A ordem de Jesus aos discípulos diante da multidão “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14, 16) ecoa com muita força entre nós, sobretudo nesse tempo quaresmal em que somos chamados à conversão. Certamente, nenhuma pessoa ou comunidade pode resolver o problema. Mas cada um pode compartilhar um pouco do que tem e cada comunidade, grupo, pastoral ou movimento pode se organizar para ajudar a superar essa situação: doando cesta básica; ajudando pessoas a desenvolverem alguma atividade produtiva; promovendo feiras da agricultura familiar e economia solidária; exigindo dos governos a compra dos produtos da agricultura familiar; defendendo os programas de transferência de renda como “bolsa família” e “bolsa catador”, a reforma agrária e políticas públicas de saúde (SUS), educação, moradia…

Isso é questão de humanidade e justiça social!

Isso é questão de fé e critério de salvação ou de condenação!

 

 

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

COMBATER A FOME E O VENENO NA ALIMENTAÇÃO

 Frei Betto


       

       A alimentação é o direito humano número 1. No Brasil, 19 milhões de pessoas (9% da população) padecem de fome crônica, agravada pela pandemia, o desemprego, o aumento dos preços dos alimentos (o maior desde 2003) e, sobretudo, o desgoverno Bolsonaro. 

       A insegurança alimentar moderada e grave afetou 21,5% da população em 2004; 10,3% em 2013; e em 2020 chegou a 20,5% (Rede Penssan – Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania Alimentar e Nutricional). Hoje, 116 milhões de pessoas no Brasil se encontram em insegurança alimentar, ou seja, não sabem o que haverão de comer no dia seguinte ou não têm acesso a uma alimentação que contenha nutrientes essenciais. 

       Em 2004, a pobreza atingia 21,5% da população brasileira. Dez anos depois (2014) foi reduzida para 8,4%. Subiu para 11% na recessão de 2015-2016, e para 16% no primeiro semestre de 2021.

        A Ação Coletiva Comida de Verdade, rede integrada por 13 movimentos comprometidos em promover segurança alimentar, identifica 310 iniciativas de sistemas alimentares inclusivos e sustentáveis no Brasil, de hortas comunitárias a cooperativas e campanhas de financiamento coletivo. Dessas 310, 58,9% se dedicam à comercialização, como feiras agroecológicas e distribuição de cestas da agricultura familiar. E 31% são ações solidárias destinadas a facilitar o acesso a alimentos de grupos vulneráveis; e 7,5% resultam de políticas públicas.

       Desde o lançamento do programa Fome Zero, no governo Lula, se propõe às prefeituras cancelar o IPTU de lotes e terrenos baldios que forem cedidos por seus proprietários ao cultivo de hortas comunitárias.  

       Em 1950, segundo censo do IBGE, 2/3 da população brasileira (64%) viviam na zona rural. No último censo, de 2010, eram 84% nas cidades e 16% na zona rural. Isso se traduz em favelas, desemprego, violência e, sobretudo, consumo de alimentos industrializados de pouco valor nutricional.

       O MST é, hoje, o maior produtor de arroz orgânico da América Latina, isto é, sem insumos como adubo químico e agrotóxico. Aliás, esses produtos encareceram na pandemia, afetando o preço dos alimentos. No MST, o pacote de 1kg de arroz custa de R$ 7 a 8. No Rio Grande do Sul, o movimento espera colher, para a safra de 2022, 300 mil sacas. No início de 2021, foram 248 mil sacas, no valor de R$ 20 milhões, e 130 mil continuam em estoque, pois a maior dificuldade é escoar a produção, já que o principal comprador é o governo, a Conab e o Programa Nacional de Alimentação Escolar. E em se tratando de produtos do MST... A Conab não tem aberto leilões para adquirir produtos da agricultura familiar. Nem o governo federal se mostra interessado em manter estoques reguladores. 

       O Brasil é o terceiro país do mundo a utilizar agrotóxicos, atrás da China e dos EUA (FAO). Em 2019, foram vendidas no Brasil 620 mil toneladas de agrotóxicos (Ibama). Desse total, 38,3% são “altamente ou muito perigosos”, 59,3% “perigosos” e apenas 2,4% “pouco perigosos”.

       O governo Bolsonaro flexibilizou o registro dos agrotóxicos. Desde a lei de 1989, se evitava aprovar qualquer um que contivesse substâncias que causam     distúrbios respiratórios graves, câncer, mutação genética, má formação fetal, Parkinson, além de alterações hormonais e reprodutivas. 

       O decreto de 7 de outubro deste ano (10.833/2021) aprovou o “pacote de veneno”. Reduz o prazo de aprovação dos agrotóxicos, aumenta a participação do Ministério da Agricultura e cria “limites seguros” para que substâncias antes proibidas sejam aprovadas. As entidades contrárias à medida dizem que o Brasil tem grande potencial de produzir biodefensivos, mas o governo as ignora. 

       De janeiro a setembro de 2021 foram liberados no Brasil 1.215 agrotóxicos (Diário Oficial). Entre 2005 e 2015 o ritmo de aprovação era cerca de 140 por ano. Este ano já foram liberados 345. Dos produtos usados no Brasil, 30% possuem substâncias ativas proibidas em países europeus, como atrazina, acefato e paraquate. Este último herbicida, utilizado em plantios de algodão, milho e soja, foi vetado em 2017, mas se permitiu usar o estoque até julho deste ano. Está proibido em 37 países. Provoca Parkinson nos agricultores.

       Desde 1997 os agrotóxicos recebem incentivos fiscais do governo. Ao permitir a desoneração de até 60% do ICMS no comércio dos venenos, os estados deixam de arrecadar R$ 6 bilhões por ano!

       Uma das principais fontes de venenos na alimentação são os ultraprocessados. O governo deveria regular a publicidade, elevar os impostos e obrigá-los a estampar rótulos de advertência, como no cigarro. A partir de outubro de 2022, produtos com alta concentração de sódio, açúcar e gorduras saturadas deverão expor os índices em suas embalagens. 

       A dieta in natura é mais cara que consumir ultraprocessados, cujo maior custo decorre de embalagem, transporte e propaganda. Os ultraprocessados são feitos, não para alimentar, e sim para incentivar o consumo excessivo. Refrigerantes, por exemplo, não se destinam a matar a sede, e sim viciar o consumidor. Favorecem a obesidade, a hipertensão e o diabetes. E o pior: aqui são incentivados pelo governo. Refrigerantes fabricados na Zona Franca de Manaus recebem subsídios na forma de créditos tributários.

       Em setembro, o Idec denunciou que 59,3% dos produtos ultraprocessados apresentam resíduos de agrotóxicos. Entre 27 produtos, mais da metade continha resíduos de glifosato ou glufosinato – dois herbicidas muito usados em plantações de soja, milho e algodão. Segundo a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, ligada à Organização Mundial de Saúde (OMS), o glisofato causa câncer. Aparece em salgadinhos, bisnaguinhas, biscoitos de água e sal, bolachas recheadas, cereais, pães de trigo e bedidas de soja, itens muito consumidos por crianças e adolescentes. 

       A Anvisa, que controla o índice de agrotóxicos em produtos orgânicos, não o faz quando se trata de industrializados. 

       O agronegócio reconhece que, nos últimos 30 anos, a área de plantio no Brasil cresceu apenas 50% e, graças ao uso de agrotóxicos, a produção de grãos aumentou em 360%! (CropLife Brasil). 

       Salva-se a bolsa, danam-se as vidas!

 

Frei Betto é escritor, autor de “Comer como um frade – divinas receitas para quem sabe por que temos um céu na boca” (José Olympio), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

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domingo, 5 de setembro de 2021

BEM-AVENTURADOS OS QUE TÊM FOME E SEDE DE JUSTIÇA - PARA UM 7 DE SETEMBRO


Pe. Fabio Potiguar dos Santos


Num dia bem cedo, naquele momento onde não se é mais noite nem tão pouco ainda é dia, no tempo do antigo testamento, um grupo de jovens semitas subiram o monte para salmodiar. Um levava a harpa, outro a cítara, um ainda carregava a flauta e mais um, o pandeiro.  Eles cantavam o Salmo 85,10: “ A verdade e o amor se encontram; a justiça e a paz se beijam e abraçam”.

Centenas de anos depois um jovem, Deus jovem, Aquele que nos amou antes que amássemos a Ele (1 Jo 4,19), Aquele que tendo nos amado nos amou até o fim (Jo 13,1), falava “para multidão que ficava admirada com as palavras cheia de graça e de encanto que saiam de sua boca” (Lc 4,22) e sua “boca falava do que estava cheio o coração” (Cf Lc 6,45, por isso, “experimentaram a beleza da palavra de Deus” (Hb 6,5)  e Ele mesmo era a “Palavra que se fez carne e habitou entre nós”(Jo 1,14)e então disse no  Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados” (Mt 5, 6).

Aqui está, para mim, a fundamentação mística, ética, estética, teológica e pastoral do engajamento apaixonado dos cristãos com a promoção da dignidade humana, da justiça social, da democracia,  dos Direitos Humanos civis e políticos, assim como dos Direitos Humanos econômicos, sociais, culturais e ambientais  e do cuidado com a Casa Comum ( que é sujeita de direitos!)

Nós temos fome e sede de justiça porque comemos do Pão da Vida (Jo 6,51) e bebemos da Água da Vida que Ele nos dar (Jo 4, 14). Nós temos fome e sede de justiça porque comemos a verdadeira comida e bebemos a verdadeira bebida, sua carne, Ele feito carne, e bebemos o seu sangue (Jo 6,55).Nós temos fome e sede de justiça porque comendo da sua carne e bebendo do seu sangue, Ele permanece em nós e nós nele (Jo 6,56).

Nós temos fome e sede de justiça porque Ele nos disse tomando o pão, tomai e comei, isto é meu corpo. Tomai e bebei isto é o meu sangue (Mc 14,22-25). É porque tomamos e comemos desse pão, é porque tomamos e bebemos desse cálice que, ao tomarmos, ao mesmo tempo que somos saciados, ficamos, por causa dessa comida e bebida, famintos e sedentos dessa bem-aventurança. Quem luta pela justiça, é solidário, generoso e promove a partilha que Jesus nos ensinou na Multiplicação dos Pães, onde os gestos são o da Última Ceia: “ Jesus tomou os pães e, deu graças, partiu-os e deu aos seus discípulos...”(Jo 6,11).

Nós temos fome e sede de justiça porque em Mateus, capítulo cinco, versículo seis, ele nos chama de Bem-aventurados e, no capítulo vinte cinco, versículos trinta e quatro e trinta e cinco, Ele nos chama de Benditos. Foi por causa dessa sede e dessa fome que pudemos dar de comer a quem tinha fome e de beber a quem tinha sede tanto na dimensão mais emergencial e urgente, bem como, e principalmente na dimensão de mudanças estruturais.

A fundamentação da opção preferencial pelos pobres é cristológica. Para Eucaristia Jesus diz, “Isto é o meu corpo e sangue”. Para o pobre ele diz “ tive fome... foi a mim que o fizestes” (Mt 25,35.40). Aliás, o que é profecia no Antigo Testamento se torna cumprimento e realização no Novo. “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne? “(Is 58,6-7)

O Catecismo da Igreja Católica (1397) nos recorda muito bem:  A Eucaristia compromete-nos com os pobres: Para receber, na verdade, o corpo e o sangue de Cristo entregue por nós, temos de reconhecer Cristo nos mais pobres, seus irmãos (Mt 25,40) Pode resultar, que mesmo tendo celebrado muitas Missas, que corramos o risco de ouvir lá no final: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo preparado o diabo e para os seus anjos. Pois tive fome e não me deste de comer, tive sede e não me deste de beber” (Mt 25, 41-42).

O que dirão, meu Deus, os que substituíram  a paz e o amor do seu Anúncio pelas agressões e o ódio, que trocaram a justiça pela exploração dos pobres e a devastação da natureza? Seria deus e não Deus? Seria jesus e não Jesus? Que deixam o Estado Democrático de Direito, burguês., por propostas totalitárias e ditatoriais? Aonde se fundamentam na Doutrina da Igreja? São meu irmãos e irmãos, e amo-os com a ternura de Cristo Jesus (Fl 1,8) .

Imagina Deus dizer para os que vão as missas : “Desprezo as vossas festas, e os incensos de vossas assembleias solenes não me exalam bom cheiro. E ainda que me ofereçais holocaustos, ofertas de alimentos, não me agradarei delas; nem atentarei para as ofertas de vossos animais gordos. Afasta de mim o barulho dos vossos cânticos; porque não ouvirei as melodias de vossas liras. Eu quero, isto sim, é ver brotar o direito como água e a justiça como torrente que não seca. (Am 5,21-24)

Tomemos os nossos instrumentos sonoros, aqueles que temos nas mãos ou no coração. Salmodiemos este encontro da verdade e do amor, que é o Cristo.

Vamos juntos com Dom Helder Camara, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Paulo Evaristo, Dom José Maria Pires, Dom Fragoso, Padre Antônio Henrique,Irmã  Dorothy Stang, Padre Josimo, Margarida Maria Alves, Santo Dias, Dermi Azevedo e inumerável multidão de mulheres e de homens.

Vamos, “a marcha final vai ser linda de viver...”  como ouvimos emocionados e todo arrepiados  na voz poética e profética do Dom em Invocação à Mariama e, Milton Nascimento, ao fundo, numa canção negra antiga e inefável.

 Vamos!Vamos em frente motivados pela palavra de um bispo de Roma latino americano de Buenos Aires, Argentina, quando da sua Mensagem de Natal de 2020 a Cúria se referindo a Dom Helder,  “aquele santo bispo brasileiro”, disse: “Lembremo-nos que só conhece verdadeiramente a Deus quem acolhe o pobre que vem de baixo com a sua miséria e que, precisamente nestas vestes, é enviado do Alto; não podemos ver o rosto de Deus, mas podemos experimentá-lo ao olhar para nós quando honramos o rosto do próximo, do outro que nos ocupa com as suas necessidades. O rosto dos pobres. Os pobres são o centro do Evangelho. E recordo o que dizia aquele santo bispo brasileiro: «Quando me ocupo dos pobres, dizem de mim que sou um santo; mas, quando me pergunto e lhes pergunto: “Porquê tanta pobreza?”, chamam-me “comunista”».

Vamos! A opção pelos pobres e sua libertação é ordem de Deus.  No final da história aqueles que têm fome e sede de justiça ouvirão:

“Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e me destes de comer...: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber?... E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes.” (Mt 25,34-40).

Vamos. Cantemos e dancemos esse abraço da justiça e da paz, música e dança envolvente desses bem-aventurados, melhor, esse beijo, como no original hebraico, a língua daqueles rapazes que foram acordar a aurora.  

 Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife

quinta-feira, 6 de maio de 2021

VÍRUS DA FOME

 

Frei Betto


 São inúmeras as iniciativas solidárias para amenizar, em caráter de urgência, a fome agravada pela pandemia no Brasil. O MST, com suas 30 mil famílias acampadas e 450 mil assentadas, até setembro do ano passado já havia distribuído 3,5 mil toneladas de alimentos, em 24 estados, a pessoas em situação de rua, associações de moradores, abrigos, asilos, hospitais públicos e comunidades indígenas, além de incentivar a criação de cozinhas e hortas comunitárias. 

        O governo Bolsonaro não apenas extinguiu o Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar), em 2019, que havia sido criado pelo governo Lula em 2003, como fez aumentar a insegurança alimentar nos lares brasileiros, atingindo 116,8 milhões dos 212 milhões de pessoas – mais de metade da população.

        Segundo o IBGE (nov. de 2020), mais de 50 milhões de pessoas se encontravam na pobreza e 13 milhões, na extrema pobreza. É considerado pobre quem tem renda per capita mensal de, no máximo, R$ 499, e miserável aquele cuja renda mensal não ultrapassa R$ 178.

        Da população brasileira, 14,4 milhões estão desempregados; 40 milhões sobrevivem de empregos informais; 13,6 milhões vivem em favelas, dos quais metade está desocupada. Metade das crianças brasileiras com menos de 5 anos, que somam 6,5 milhões, vivem em lares afetados pela insegurança alimentar. No Nordeste, 51% das famílias não têm acesso regular aos alimentos e na região Norte, 57%.

        Enquanto se reduz o valor do auxílio emergencial e aumentam a inflação e os preços do gás de cozinha e da gasolina, os dos alimentos subiram 19,42% nos últimos 12 meses. O menor valor da cesta básica é de R$ 445,90 (Aracaju) e o maior, R$ 639,81 (Florianópolis). Por isso, 1/3 das famílias brasileiras se encontram em insegurança alimentar. 

        No Brasil, a fome tem cor, gênero, nível de escolaridade e (falta de) acesso ao saneamento. Afeta 10,7% dos lares habitados por negros e pardos, contra 7,5% dos lares de brancos; 11% dos lares chefiados por mulheres e 7% chefiados por homens; os chefes de  14,7% dos lares não têm escolaridade ou não completaram o ensino fundamental. Não têm acesso à água 44,2% dos lares. 

        Enquanto o governo Bolsonaro “passa a boiada” e favorece o desequilíbrio ambiental ao não reduzir as queimadas, combater a derrubada de florestas e a poluição de rios pelo garimpo ilegal, o Brasil retorna ao mapa da fome. A devastação do meio ambiente provoca climas extremos (seca e frio rigorosos) e ameaças biológicas, como as ondas de gafanhotos e a Covid-19, na medida em que se interrompem os ciclos de predadores naturais. 

        Essas práticas trazem danos à agricultura e à pecuária. Ao converter perdas de produção agrícola em equivalentes calóricos e nutricionais, ao longo de 10 anos (2008-20018), a FAO constatou que elas atingiram o índice anual de 6,9 trilhões de quilocalorias, o que equivale ao que 7 milhões de pessoas ingerem, em calorias, por ano. Na América Latina e no Caribe, a perda por pessoa foi de 975 calorias, o que equivale a 40% da dose diária recomendada. Nosso Continente superou a África (559 calorias) e a Ásia (283 calorias). 

        Segundo Jean Ziegler, perito da ONU, o mundo, hoje, produz alimentos para 12 bilhões de bocas. E somos 7,8 bilhões de habitantes, dos quais 8,9% sobrevivem em insegurança alimentar e 24 mil morrem, por dia, em consequência da desnutrição. Um total de 9 milhões por ano. Portanto, o problema não é a falta de alimentos, e sim a falta de acesso a eles, ou seja, justiça. O capitalismo fez do alimento, um direito natural como o ar que se respira, uma mercadoria. Come quem pode pagar. Morre de fome quem não dispõe de renda. 

        Grandes corporações transnacionais se apoderaram de terras, água e sementes. Produzem transgênicos, que impedem os pequenos agricultores de replantarem e exigem mais agrotóxico, causando danos à saúde humana e ao meio ambiente. Os agricultores, impedidos de negociar diretamente sua produção, são obrigados a repassá-la às empresas que controlam as commodities agrícolas, negociadas por fundos de pensão e bancos de investimentos. Produtos como suco de laranja, milho, soja, trigo e café, provenientes de amplas áreas de monocultura, são estocados quando se faz necessário aguardar a majoração de seus preços no mercado. E a soja e o milho são prioritariamente destinados a alimentar rebanhos, e não seres humanos. 

        Diante desse trágico panorama, o que fazer? O mais urgente é derrubar os vetos de Bolsonaro à lei de Assis Carvalho, proposta no PL 735/2020, fundamental para ampliar a produção de alimentos saudáveis pelas agriculturas familiar e camponesa. Embora aprovado por significativa maioria da Câmara e unanimidade no Senado, Bolsonaro vetou 14 dos 17 artigos, de modo a impedir o poder público de comprar alimentos diretamente da agricultura familiar e doar às famílias mais pobres. Vetou também estender o auxílio emergencial aos pequenos agricultores.

        São inúmeras as iniciativas solidárias para amenizar, em caráter de urgência, a fome agravada pela pandemia no Brasil. O MST, com suas 30 mil famílias acampadas e 450 mil assentadas, até setembro do ano passado já havia distribuído 3,5 mil toneladas de alimentos, em 24 estados, a pessoas em situação de rua, associações de moradores, abrigos, asilos, hospitais públicos e comunidades indígenas, além de incentivar a criação de cozinhas e hortas comunitárias. 

        Outros exemplos de iniciativas solidárias são a Ação da Cidadania, a Cufa (Central Única das Favelas), o G10 das Favelas, a Central de Movimentos Populares, os Bancos de Alimentos, o Mesa Brasil Sesc, entre outras. 

        O mais importante, contudo, é conquistar uma nação justa, com menos desigualdade social e uma renda básica assegurada a cada cidadão e cidadã, sem que ninguém sofra pela falta do mais elementar direito humano – o de se alimentar.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Comer como um frade – divinas receitas para quem sabe por que temos um céu na boca” (José Olympio), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

 

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