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sábado, 28 de novembro de 2020

ADVENTO

 

  


Pe Fabio Potiguar dos Santos

 


PRIMEIRA E SEGUNDA VINDA DO SENHOR

E SUA VINDA INTERMEDIÁRIA

Nasci em Currais Novos, porta do Seridó potiguar. A padroeira da cidade é a mesma do sertão: Santana, esposa de Joaquim, mão de Maria e avó de Jesus.

A imagem barroca banhada a ouro trazida nos já idos 1808, retrata Santana com Maria menina em seus braços com um livro aberto nas mãos. Eu, menino danado e curioso, no meio da missa, puxando a saia de mamãe ou braço de papai, perguntava o que tinha escrito naquele livrinho. Multidão grande em frente a Matriz. Queria ver melhor. Papai me levantava bem alto  – me emociono agora nos braços  parrudos do meu pai -  e me dizia qualquer coisa para fazer abrir um sorriso largo em minha cara, um sorriso que somente um menino sabe dar , fazer brilhar os meus  olhos com um brilho que somente uma criança de cinco anos sabe olhar brilhando assim.  “O Reino dos céus é semelhante a um pai de família que tira do baú coisas velhas e novas”. São palavras de Jesus. No baú da minha memória, lembrança nos braços de papai, arrancam lembranças perdidas, coisas antigas do tempo em que a criança era criança e, no meio dessas coisas perdidas me encontro menino e meu pai  um jovem pai. Coisas novas, sou criança.

Você pode está se perguntando: “E o advento, a imagem barroca banhada a ouro... e o livrinho?”  Desculpas por meus devaneios! Eles e as repetições fazem parte do meu estilo deselegante de escrever.

Só depois de mais um pouco de anos quando a gente vira coroinha e sobe nos altares para botar velas, flores e a santa no andor, eu fiquei conhecendo a frase: “Um dia a salvação virá”.

Santana e Joaquim, como judeus piedosos, transmitiam, como todos os pais aos seus filhos, a esperança de Israel: a vinda do Messias. Só Deus sabia que essa linda menina um dia seria a mãe do seu Filho. Deus quis também uma mulher. Um dia a menina-moça Maria recebe a visita de um anjo lhe anunciando como a escolhida para ser a mãe do Salvador. No princípio dos tempos o Espírito de Deus pairava sobre as águas e tudo foi criado, na plenitude dos tempos esse mesmo Espírito paira sobre as águas do ventre virginal de Maria e tudo é recriado. Criação e Nova Criação.

Advento é a preparação ao Natal. A Igreja durante quatro semanas nos mergulha no Mistério da Encarnação do Filho de Deus. Aquele que desceu do céu e veio a terra e se fez para sempre um de nós. Deus enviou seu Filho Amado para realizar uma Nova Criação antropológica e cósmica por meio de sua morte e ressurreição no poder amoroso do Espírito.  Essa foi a primeira vinda de Cristo. Fazendo memória celebrativa da primeira vinda de Cristo, a Igreja nos envolve também, na alegre esperança da sua Segunda vinda. Pois bem, se preparando no advento para celebrar no Natal, a primeira vinda de Cristo , nós nos preparamos para sua segunda vinda, quando voltará para plenificar a Nova Criação inaugurada na Páscoa-Pentecoste.

Primeira e Segunda vinda de Cristo.  Há todavia, uma vinda intermediária entre uma e outra. Todos os dias Jesus vem ao nosso encontro em cada pessoa: o pai, a mãe, o filho, o irmão, o marido, a esposa,  o colega de trabalho ou de escola e faculdade, o irmão na igreja  e principalmente no pobre, naquel que tem fome, sede, está nu, sem casa, doente ou na prisão ou ainda  carente de amor e de cuidados...  Jesus vem em cada momento de oração pessoal diária,  na leitura orante ou estudada da Palavra de Deus, na Liturgia das Horas, nos sacramentos...  Jesus vem bem especialmente no Culto Dominical evangélico e na Celebração da Missa, onde em torno da Mesa da Palavra e da Mesa Eucarística , damos por Ele, com Ele e Nele, na unidade do Espírito Santo, toda honra e toda glória enquanto  esperamos sua nova  vinda.

Deus nos ajude com a sua graça a vivermos um santo e abençoado Advento. Ele vem, “Tu vens numa manhã de domingo, eu já escuto os teus sinais. Tu vens, tu vens”.

 Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife


 

sexta-feira, 10 de abril de 2020

COVID 19 - SEXTA-FEIRA SANTA - DÉCIMA SEGUNDA REFLEXÃO QUARESMAL




Por  FREI ALOÍSIO FRAGOSO

    Nossa reflexão hoje coincide com a décima segunda estação da Via Sacra: "JESUS MORRE NA CRUZ".

    Faz algum tempo, tive oportunidade de conhecer uma Via-Sacra de grande beleza artística e admirável originalidade. Cada uma de suas 15 estações me impressionou e me convidou a ficar ali, contemplando uma por uma, horas seguidas. No entanto, uma delas me chamou a atenção especialmente; foi a décima segunda. Nela o braço levantado e o rosto sereno do Cristo Crucificado irradiavam dor e paz, sofrimento e ternura. Jesus sorria na direção de uma criancinha, recém nascida, assentada em um dos braços da Cruz e chorando desconsoladamente. Era uma cena carregada de contradição: quem morre está sorrindo, quem nasce está chorando.Na verdade, ali estava bem representado o grande Mistério da Redenção. Na morte de Jesus já está contida a ressurreição (e Ele sorri), enquanto a vida nova da criancinha já está dando o primeiro passo na direção da morte (e ela chora). E ali, na Cruz, os dois mistérios se encontram e se unificam em um só: o AMOR. Deste amor brota a Vida, seja do útero da mãe, seja do túmulo sepulcral.

    Este Mistério também nos faz compreender uma das verdades fundamentais da nossa Fé. Somos pecadores, sim, mas pecadores agraciados, redimidos, amados. "Cristo se manifestou uma vez por todas, abolindo o pecado pelo sacrifício de si mesmo" Heb. 9, 26. Isso não quer dizer que foi necessário o sangue de Jesus para que o Pai nos perdoasse, como se houvesse uma troca de sangue por perdão, perdão por sangue. Se assim fosse, seríamos pecadores neuróticos, deprimidos, "matamos um Deus".

    O que aconteceu foi uma prova suprema de fidelidade. Jesus foi fiel à  sua missão, à vontade do Pai,  até às últimas consequências, e isso provocou a sua morte, pois aos olhos dos seus adversários, ou morria Ele ou perecia a  nação inteira ("é preciso que Ele morra para que não pereça toda a nação" Jo.11, 50.

    Portanto, os sofrimentos de Jesus devem ser entendidos com a prova máxima do Amor.

    Como não ver estes antigos acontecimentos reproduzidos nos dias de hoje! Como não enxergar a figura dos antigos doutores da lei, com o seu argumento de que "um só tem que ser sacrificado..."  perpetuando-se em certos grupos das elites sociais, que foram às ruas, em seus veículos blindados e carregando símbolos patrióticos! Eles fizeram um strip-tease ideológico. O Capitalismo ficou nu e mostrou suas ocultas intenções: exigir dos governos o direito de continuar explorando a massa dos trabalhadores. Milhões morrerão? Tudo bem, isso está previsto dentro das regras do jogo capitalista. Há um exército de outros esperando na fila para substituí-los. Não é o Brasil que não pode parar, mas sim esta máquina de moer gente, chamada Capitalismo, onde são produzidos os excedentes para engordar os depósitos bancários dos patrões na Suíça ou seja onde for.

    No entanto, hoje é Sexta-Feira Santa, dia da Cruz e do Crucificado. Não vale para todos a súplica de Jesus: "Pai, perdoai, eles não sabem o que fazem"? Certamente. Ninguém deve ser excluído do perdão. Mas há uma diferença entre perdoar e desculpar. Jesus nunca retirou a culpa do pecador, nem deixou de condicionar o perdão à penitência ("Não tornes a pecar"). Estes grupos mencionados sabem bem o que estão fazendo  e porque estão fazendo. O perdão será inútil se não gerar neles o arrependimento e a conversão. Com certeza esta mudança estrutural faz parte do sonho dos que dizem: "o mundo nunca mais será o mesmo".

    Que o sangue de Jesus, jorrando com o sangue de todos os mártires da Justiça e do Amor e o sangue das vítimas do coronavirus, chegue a Deus, com a nossa dolorosa súplica: "Ó Pai do Céu, vinde em nosso socorro!". Amém.

FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.