O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador Senhor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Senhor. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 23 de junho de 2022

CARLITO MAIA, SENHOR CIDADANIA

 Frei Betto     


                 

 
       Meu querido Carlito, você partiu há 20 anos. Viver não pode ser sinônimo de sofrer, e a sua agonia se prolongou por muito tempo. A última vez que nos vimos foi na terça, 18 de junho de 2002. Você estava muito sereno quando, ao lado de Tereza, dei-lhe a bênção da despedida. Agradecemos ao Pai/Mãe de Amor o dom de sua existência. Agora, no colo de Deus, você ri de suas inquietações quanto aos mistérios que, para nós, se escondem do outro lado da vida. 
       Lamentamos a sua partida. Com a sua ausência, ficamos órfãos de quem nos ensinou a lutar por cidadania. "Brasil? Fraude explica", bradou você diante de tanta corrupção. Você era a cidadania em carne e osso. O último pré-socrático. Com suas frases curtas e certeiras, proverbiais e irônicas,  construiu uma obra literária e contestatária de inestimável valor, inclusive filosófico, com o mérito de proferir axiomas que todos entendem. 
       Viramos cúmplices desde 1966, quando nos conhecemos no convento dos dominicanos, no bairro de Perdizes, na capital paulista. Convidado por um dos padres, você veio pronunciar palestra sobre TV. Contou como funcionava a sua agência de publicidade, a Magaldi, Prosperi & Maia; como descobriu Roberto Carlos num show de calouros da TV Tupi; como desenhou o perfil da Jovem Guarda, que se tornou, naquela década, o programa da TV Record de maior audiência nacional. 
       Desde então, não perdemos mais contato, mesmo porque sua irmã Dulce se tornou minha companheira no Teatro Oficina, na resistência à ditadura e no cárcere. E a minha admiração só cresceu, pois você jamais pôs a alma a leilão. Depois de beber tudo a que tinha direito num coquetel de indignações, transformou-se num ébrio de utopias. "Sonho, logo existo", era o seu lema.
       Espelhado em Chaplin, seu alter-ego, você combateu o regime militar sem perder o humor e o amor. Virou contrabandista de gente, produtor de fugas, alcoviteiro de guerrilheiros, semeador de esperançasAcionou sua metralhadora giratória de frases e citações, e fez da ironia uma arma capaz de derrubar prepotências e denunciar safadezas. 
       Poeta do cotidiano, socialista compulsivo, sempre partilhou com amigos e amigas a irreverência de seus textos e recortes de jornais e revistas. Artífice da vida, jamais esqueceu aniversários e homenagens, celebrados por você com a alegria das flores, como quem semeia primavera ainda que reine rigoroso inverno neste país e em nossos corações. E agora, quem nos mandará "beijares e abraçares" em papéis timbrados da Rede Globo, com a sua assinatura acompanhada de uma estrela vermelha? 
       Quem, como você, soube fazer amigos? Betty Milan retratou esse dom em "O Clarão", sua biografia afetiva. Você, que viveu "livre e solitário como uma árvore, porém solidário como uma floresta", sabia e nos ensinava que "nós não precisamos de muita coisa. Só precisamos uns dos outros." 
       Mineiro como eu, você nunca foi daqueles que ficam em cima do muro para ver melhor os dois lados. Homem de opções e ações, teve a dignidade embonezada pelo MST, que sempre contou com o corajoso apoio de quem soube enfatizar que "a luta é entre os sem-terra e os sem-vergonha".
       Fundador do PT, você cunhou as expressões "Lula-lá" e "Sem medo de ser feliz", e preferia "perder com as bases a vencer sem elas". Desconfiado, sabia que "quando a esquerda começa a contar dinheiro, converte-se em direita". 
       Sua vida, coerente e bela, foi o brado maior de quem jamais teve medo de algo tão simples e, no entanto, hoje raro: vergonha na cara. Fiel às suas raízes, você sempre nos recordava que "é de pequenino que se torce o destino". Tanta coerência refletia esta sua autodefinição: "Sou o que de mim fiz, porque assim quis."
       Louvo a Deus, pleno de gratidão, pela dádiva de sua existência. "A esperança já perdi várias vezes. A fé jamais”, dizia você. Ainda bem, meu querido amigo, tão amado por Deus e por todos nós que, nesta terra de papagaios, sentimos muito a falta de quem não desperdiçava palavras e esbanjava bom humor.
       Em um dos bilhetes que me enviou, você transcreveu esta frase de Antonin Artaud: "Parto à procura do impossível. Vamos ver se o encontro." Guardo a certeza de que, aqui nesta Terra, valeu o esforço de quem, em vida, teve a honra de ver o próprio nome batizando o Troféu Cidadania da revista Imprensa. No avesso desta existência sei que, agora, não há mais nada impossível para você. Para sempre, sua vida é terna. 
       Mais uma vez, a Deus, Carlito.


 
Frei Betto é escritor, autor de “Minha avó e seus mistérios” (Rocco), entre outros livros. 
Livraria virtual: freibetto.org    

 

 

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

Copyright 2022 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

 

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

Você acaba de ler este artigo de Frei Betto e poderá receber todos os textos escritos por ele - em português e espanhol - mediante assinatura anual via mhgpal@gmail.com

 

sábado, 28 de novembro de 2020

ADVENTO

 

  


Pe Fabio Potiguar dos Santos

 


PRIMEIRA E SEGUNDA VINDA DO SENHOR

E SUA VINDA INTERMEDIÁRIA

Nasci em Currais Novos, porta do Seridó potiguar. A padroeira da cidade é a mesma do sertão: Santana, esposa de Joaquim, mão de Maria e avó de Jesus.

A imagem barroca banhada a ouro trazida nos já idos 1808, retrata Santana com Maria menina em seus braços com um livro aberto nas mãos. Eu, menino danado e curioso, no meio da missa, puxando a saia de mamãe ou braço de papai, perguntava o que tinha escrito naquele livrinho. Multidão grande em frente a Matriz. Queria ver melhor. Papai me levantava bem alto  – me emociono agora nos braços  parrudos do meu pai -  e me dizia qualquer coisa para fazer abrir um sorriso largo em minha cara, um sorriso que somente um menino sabe dar , fazer brilhar os meus  olhos com um brilho que somente uma criança de cinco anos sabe olhar brilhando assim.  “O Reino dos céus é semelhante a um pai de família que tira do baú coisas velhas e novas”. São palavras de Jesus. No baú da minha memória, lembrança nos braços de papai, arrancam lembranças perdidas, coisas antigas do tempo em que a criança era criança e, no meio dessas coisas perdidas me encontro menino e meu pai  um jovem pai. Coisas novas, sou criança.

Você pode está se perguntando: “E o advento, a imagem barroca banhada a ouro... e o livrinho?”  Desculpas por meus devaneios! Eles e as repetições fazem parte do meu estilo deselegante de escrever.

Só depois de mais um pouco de anos quando a gente vira coroinha e sobe nos altares para botar velas, flores e a santa no andor, eu fiquei conhecendo a frase: “Um dia a salvação virá”.

Santana e Joaquim, como judeus piedosos, transmitiam, como todos os pais aos seus filhos, a esperança de Israel: a vinda do Messias. Só Deus sabia que essa linda menina um dia seria a mãe do seu Filho. Deus quis também uma mulher. Um dia a menina-moça Maria recebe a visita de um anjo lhe anunciando como a escolhida para ser a mãe do Salvador. No princípio dos tempos o Espírito de Deus pairava sobre as águas e tudo foi criado, na plenitude dos tempos esse mesmo Espírito paira sobre as águas do ventre virginal de Maria e tudo é recriado. Criação e Nova Criação.

Advento é a preparação ao Natal. A Igreja durante quatro semanas nos mergulha no Mistério da Encarnação do Filho de Deus. Aquele que desceu do céu e veio a terra e se fez para sempre um de nós. Deus enviou seu Filho Amado para realizar uma Nova Criação antropológica e cósmica por meio de sua morte e ressurreição no poder amoroso do Espírito.  Essa foi a primeira vinda de Cristo. Fazendo memória celebrativa da primeira vinda de Cristo, a Igreja nos envolve também, na alegre esperança da sua Segunda vinda. Pois bem, se preparando no advento para celebrar no Natal, a primeira vinda de Cristo , nós nos preparamos para sua segunda vinda, quando voltará para plenificar a Nova Criação inaugurada na Páscoa-Pentecoste.

Primeira e Segunda vinda de Cristo.  Há todavia, uma vinda intermediária entre uma e outra. Todos os dias Jesus vem ao nosso encontro em cada pessoa: o pai, a mãe, o filho, o irmão, o marido, a esposa,  o colega de trabalho ou de escola e faculdade, o irmão na igreja  e principalmente no pobre, naquel que tem fome, sede, está nu, sem casa, doente ou na prisão ou ainda  carente de amor e de cuidados...  Jesus vem em cada momento de oração pessoal diária,  na leitura orante ou estudada da Palavra de Deus, na Liturgia das Horas, nos sacramentos...  Jesus vem bem especialmente no Culto Dominical evangélico e na Celebração da Missa, onde em torno da Mesa da Palavra e da Mesa Eucarística , damos por Ele, com Ele e Nele, na unidade do Espírito Santo, toda honra e toda glória enquanto  esperamos sua nova  vinda.

Deus nos ajude com a sua graça a vivermos um santo e abençoado Advento. Ele vem, “Tu vens numa manhã de domingo, eu já escuto os teus sinais. Tu vens, tu vens”.

 Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife


 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Bendito o que vem em nome do Senhor



Por JURACY ANDRADE
                                                                                 
     O papa visitou o nosso país e já voltou para Roma. Não foi uma visita de chefe de Estado, embora o protocolo diplomático mande recebê-lo como tal (monarca do Estado do Vaticano, criado por tratado entre a Itália e o papado). Foi uma visita pastoral, numa jornada bonita, com tantas moças e rapazes vindos dos mais longínquos cantos da Terra para proclamar sua fé e escutar palavras tão novas vindas de um papa. Uma só de suas falas demonstra como ele é uma novidade no mal denominado “trono de Pedro” (São Pedro tinha trono?).

     Discorrendo sobre a necessidade da boa convivência entre religiões, Francisco disse que o Estado laico é algo bom para todas elas, pois não dá preferência a essa ou aquela, não prejudica uma em favor de outra. Outra: os ateus também podem ganhar o Reino dos Céus, pelas suas boas ações. A Cúria Romana logo contraditou de lá: continuam indo para as profundas do Inferno. Algum papa antes disse coisas semelhante? Ao contrário. Choveram condenações e anátemas a qualquer novidade: heliocentrismo, ciências em geral, socialismo, democracia, liberdade de cultos, Estado laico. Se prosseguir por esse caminho, ele chegará certamente a abrir mão do Tratado de Latrão, o que o tornará apenas bispo de Roma (como ele acentuou quando foi eleito) e não mais soberano absoluto do Estado do Vaticano.

     Ainda antes de viajar ao nosso país, o papa começou a desmontar o fausto dos hierarcas do Vaticano e a criar comissões encarregadas de propor reformas variadas, inclusive na até agora intocável Cúria Romana, responsável pelo chega-pra-lá aplicado no Concílio dos anos 1960, convocado por outro reformador, o paoa Roncalli (João 23). Emblematicamente, fez uma vistoria na garagem que abriga veículos luxuosos destinados ao papa, cardeais e outros altos funcionários da corte papal. Aposentou veículos de grife, como Mercedes Benz e BMW, e escolheu para seu uso um simples Ford Focus. No Rio, optou por um Fiat Idea, que até nós podemos ter. Aos clérigos com carros luxuosos lembrou que pensassem nas crianças que todo dia morrem de fome. Lembro que, quando estudei em Roma nos longínquos anos 1950, havia uma piada dos romanos quando viam aqueles carrões com a placa SCV do Vaticano: em vez de Stato dela Città del Vaticano, liam a sigla SCV como se significasse “Se Cristo vedessi ...” (Se Cristo visse ...). Ora, tudo isso é detalhe quanto a mudanças, mas é com tais passos que se chegará a comunidades cristãs despojadas e a uma cúpula da Igreja que não seja medieval e tão apegada ao poder e ao dinheiro. “Uma Igreja pobre para os pobres”, como diz o jesuíta-franciscano.

     Conseguirá Francisco fazer as mudanças que pretende e ainda não fez? Por que teria mantido na poderosa Secretaria de Estado do Vaticano o cardeal Tarcisio Bertone, que lutou bravamente pela eleição ao papado do curialista Odilo Scherer, cardeal de São Paulo e defensor das estripulias do IOR (Banco do Vaticano)? Talvez para ficar observando algum tempo até onde ele quer chegar. Não vai ser fácil e, no meio do caminho, pode acontecer com Francisco o que ocorreu com o breve (um mês) papa João Paulo 1º; podem abreviar a vida dele. A turma do IOR, do lobby gay e os responsáveis por tantos desmandos tem boas e bem remuneradas carreiras a defender. Até agora se calaram, mas devem estar urdindo suas tramoias para enfrentar o argentino Bergoglio. Têm a seu favor máfias e outros sinistros grupos.

     No Rio, em Aparecida, Francisco buscou despertar nos jovens, principais protagonistas da Jornada Mundial da Juventude, uma renovação da esperança, do amor, da fé, do espírito missionário que se contraponha à constante degradação de nossa civilização de guerra, de ódio, e de bem-estar e felicidade só para poucos. Foi uma semana em que ele teve oportunidade de mostrar muito daquilo que deseja implantar na Igreja de Cristo.

     Enquanto o papa Wojtyla (João Paulo 2º) se preocupava mais com política, com acabar com o comunismo na sua Polônia e no resto do mundo, e promover aos altares notórios fascistas, como o fundador do Opus Dei, José Maria Escrivá, e um tal de Padre Pio, embusteiro que fingia ter estigmas e abusava das paroquianas; e o papa Ratzinger (Bento 16) se concentrava no que acredita como dogmas e perseguia teólogos independentes; Francisco combate ídolos como dinheiro, poder, sucesso, hedonismo, e prega o retorno aos valores básicos do Evangelho de Jesus Cristo, como pobreza, fraternidade, generosidade, fé, esperança, amor, tudo com alegria. Quem sabe o papa Francisco consiga levar a cabo as grandes mudanças pretendidas por João 23, que convocou o Concílio, e João Paulo 1º, que morreu misteriosamente lendo um dossiê sobre as sacanagens do Banco do Vaticano. Amém!


Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

ARQUIVO DE TEXTO  - CLIQUE PARA LER TEXTOS MAIS ANTIGOS