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quinta-feira, 15 de outubro de 2020

SOMOS TODOS IRMÃOS E IRMÃS

  

Por Frei Betto

O papa Francisco lançou, a 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis, sua nova encíclica, “Fratelli Tutti” (Todos irmãos). Raro um documento deste porte não vir intitulado em latim, mas Francisco quis preservar a expressão holística do santo do século XIII, que se antecipou à física quântica e intuiu que, no Universo, tudo está interligado. 

       O papa faz uma crítica contundente à conjuntura mundial: “Quando redigia esta carta, irrompeu de forma inesperada a pandemia da Covid-19, que deixou a descoberto as nossas falsas seguranças. Com base nas várias respostas dadas pelos diferentes países, ficou evidente a incapacidade de uma ação em conjunto. Apesar de estarmos superconectados, verificou-se uma fragmentação que tornou mais difícil resolver os problemas que nos afetam a todos” (7). E constata: “A história dá sinais de regressão. Reacendem-se conflitos anacrônicos que se consideravam superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos. Em vários países, certa noção de unidade do povo e da nação, penetrada por diferentes ideologias, cria novas formas de egoísmo e de perda do sentido social mascaradas por uma suposta defesa dos interesses nacionais” (11). 

       Enfatiza como a economia neoliberal condiciona a cultura: “Os conflitos locais e o desinteresse pelo bem comum são instrumentalizados pela economia global para impor um modelo cultural único. Esta cultura unifica o mundo, mas divide as pessoas e as nações, porque ‘a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos’ (Bento XVI). Encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária da existência. Em contrapartida, aumentam os mercados, onde as pessoas desempenham funções de consumidores ou de espectadores. O avanço deste globalismo favorece normalmente a identidade dos mais fortes que se protegem, mas procura dissolver as identidades das regiões mais frágeis e pobres, tornando-as mais vulneráveis e dependentes. Desta forma, a política torna-se cada vez mais frágil perante os poderes econômicos transnacionais que aplicam o lema ‘divide e reinarás’” (12).

       E não poupa críticas ao capitalismo: “O mercado, por si só, não resolve tudo, embora às vezes nos queiram fazer crer neste dogma de fé neoliberal. Trata-se de um pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas para qualquer desafio que surja. O neoliberalismo reproduz-se sempre igual, recorrendo à mágica teoria do ‘derrame’ ou do ‘gotejamento’ – sem a nomear – como única via para resolver os problemas sociais. Não se dá conta de que a suposta redistribuição não resolve a desigualdade, sendo, esta, fonte de novas formas de violência que ameaçam o tecido social. (...) A especulação financeira, tendo a ganância de lucro fácil como objetivo fundamental, continua a fazer estragos” (168). 

       Após criticar aqueles que tentam anular a consciência histórica, o que torna, sobretudo os jovens, vulneráveis aos populismos, o papa critica as “novas formas de colonização cultural”: “Não nos esqueçamos de que ‘os povos que alienam a sua tradição e – por mania imitativa, violência imposta, imperdoável negligência ou apatia – toleram que se lhes roube a alma, perdem, juntamente com a própria fisionomia espiritual, a sua consistência moral e, por fim, a independência ideológica, econômica e política’ (cardeal Silva Henríquez). Uma forma eficaz de dissolver a consciência histórica, o pensamento crítico, o empenho pela justiça e os percursos de integração é esvaziar de sentido ou manipular as ‘grandes’ palavras. Que significado têm hoje palavras como democracia, liberdade, justiça, unidade? Foram manipuladas e desfiguradas para serem utilizadas como instrumento de domínio, como títulos vazios de conteúdo que podem servir para justificar qualquer ação” (14). 

       O papa faz ainda um preciso diagnóstico desse niilismo eivado de ódio que se dissemina hoje: “A melhor maneira de dominar e avançar sem entraves é semear o desânimo e despertar uma desconfiança constante, mesmo disfarçada por detrás da defesa de alguns valores. Usa-se hoje, em muitos países, o mecanismo político de exasperar, exacerbar e polarizar. Com várias modalidades, nega-se a outros o direito de existir e pensar e, para isso, recorre-se à estratégia de ridicularizá-los, insinuar suspeitas sobre eles e reprimi-los. Não se acolhe a sua parte da verdade, os seus valores e, assim, a sociedade se empobrece e acaba reduzida à prepotência do mais forte. A política deixou de ser um debate saudável sobre projetos a longo prazo para o desenvolvimento de todos e o bem comum, limitando-se a receitas efêmeras de marketing, cujo recurso mais eficaz está na destruição do outro. Neste mesquinho jogo de desqualificações, o debate é manipulado para ser mantido no estado de controvérsia e contraposição” (15).

       Francisco mostra que o rei está nu: “Persistem hoje no mundo inúmeras formas de injustiça, alimentadas por visões antropológicas redutivas e por um modelo econômico fundado no lucro, que não hesita em explorar, descartar e até matar o homem. Enquanto uma parte da humanidade vive na opulência, outra vê a própria dignidade não reconhecida, desprezada ou espezinhada, e os seus direitos fundamentais ignorados ou violados” (22). 

       O retrato do momento atual que o papa faz é impecável: “O mundo avançava implacavelmente para uma economia que utilizando os progressos tecnológicos procurava reduzir os “custos humanos’, e alguns pretendiam fazer-nos crer que era suficiente a liberdade de mercado para garantir tudo. Mas o golpe duro e inesperado desta pandemia fora de controle obrigou as nações a pensarem nos seres humanos, em todos, mais do que nos benefícios de alguns. Hoje, podemos reconhecer que nos alimentamos com sonhos de esplendor e grandeza, e acabamos por comer distração, fechamento e solidão; empanturramo-nos de conexões, e perdemos o gosto da fraternidade. Buscamos o resultado rápido e seguro, e encontramo-nos oprimidos pela impaciência e a ansiedade. Prisioneiros da virtualidade, perdemos o gosto e o sabor da realidade. A tribulação, a incerteza, o medo e a consciência dos próprios limites que a pandemia despertou fazem ressoar o apelo a repensar os nossos estilos de vida, as nossas relações, a organização das nossas sociedades e, sobretudo, o sentido da nossa existência” (33). 

       O papa prossegue: “Isto permitiu que as ideologias perdessem todo o respeito. Aquilo que ainda há pouco tempo uma pessoa não podia dizer sem correr o risco de perder o respeito de todos, hoje pode ser pronunciado com toda a grosseria, até por algumas autoridades políticas, e ficar impune. Não se pode ignorar que há interesses econômicos gigantescos que operam no mundo digital, capazes de realizar formas de controle que são tão subtis quanto invasivas, criando mecanismos de manipulação das consciências e do processo democrático. O funcionamento de muitas plataformas acaba frequentemente por favorecer o encontro entre pessoas com as mesmas ideias, dificultando o confronto entre as diferenças. Estes circuitos fechados facilitam a divulgação de informações e notícias falsas, fomentando preconceitos e ódios” (45).

       Francisco denuncia o fanatismo religioso: “Deve-se reconhecer que os fanatismos que induzem a destruir os outros são protagonizados também por pessoas religiosas, sem excluir os cristãos, que podem fazer parte de redes de violência verbal por meio da internet e vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital. Mesmo na mídia católica é possível ultrapassar os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia, e parecendo excluir qualquer ética e respeito pela fama alheia. Agindo assim que contribuição se dá para a fraternidade que o Pai comum nos propõe?” (46).  

       E para a nossa alegria, cita Vinicius de Morais: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida”. E acrescenta: “Já várias vezes convidei a fazer crescer uma cultura do encontro que supere as dialéticas que colocam um contra o outro. É um estilo de vida que tende a formar aquele poliedro que tem muitas faces, muitos lados, mas todos compõem uma unidade rica de matizes, porque o todo é superior à parte. O poliedro representa uma sociedade onde as diferenças convivem integrando-se, enriquecendo-se e iluminando-se reciprocamente, embora isso envolva discussões e desconfianças. Na realidade, de todos se pode aprender alguma coisa, ninguém é inútil, ninguém é supérfluo. Isto implica incluir as periferias. Quem vive nelas tem outros pontos de vista, vê aspetos da realidade que não se descobrem a partir dos centros de poder onde se tomam as decisões mais determinantes” (215).

       Há que ler toda a encíclica, disponível em português na internet. É uma aula de espírito crítico, humanismo e esperança. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Parábolas de Jesus – ética e valores universais” (Vozes), entre outros livros. Site e livraria virtual: www.freibetto.org

 Frei Betto é autor de 68 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

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terça-feira, 24 de março de 2020

ÁGUA, NECESSIDADE E DIREITO DE TODOS OS SERES VIVOS




Marcelo Barros

A ONU proclama o dia 22 de março como dia internacional da água. Cada dia mais é urgente que a humanidade inteira se dê conta de que a defesa das águas é intimamente ligada à própria sobrevivência humana e à defesa da vida no planeta.

No Rio de Janeiro, as pessoas precisam comprar água mineral para beber e reclamam que a água das torneiras vem com cor e aparência suspeitas. Os rios, cuja vida, as mineradoras  em Minas Gerais e na Amazônia destruíram, continuam assassinados. Em várias regiões do Brasil, ao mesmo tempo que as chuvas provocam destruições, a carência de água potável é cada vez mais sentida. Em várias regiões do mundo, governos mantêm conflitos pelo uso de rios que banham as fronteiras de dois ou mais países. Cada rio é reivindicado como propriedade nacional.
Nestes dias, assustados por notícias de que o Coronavírus se espalha por diversos países do mundo, cientistas começam a ligar a epidemia que nos ameaça com a destruição da natureza, a poluição das águas e o desequilíbrio do clima no planeta Terra. Pode ser que o vírus tenha se espalhado pela poluição das águas.
Os cientistas concordam que a vida surgiu de dentro das águas. Há milhões e milhões de anos, os seres humanos e os grandes mamíferos evoluíram de seres aquáticos. A água é bem essencial para a vida. Não se trata só de recurso econômico e instrumento de poder político. Em muitas tradições espirituais, a água é sinal e instrumento do amor divino. Alguns mitos indígenas contam que o primeiro sorriso divino se deu com as águas. A divindade sorriu de felicidade, quando contemplou a beleza das águas, sua primeira criação, útero de toda a vida no planeta Terra. Na Bíblia, a criação de todo o universo começa pelo Espírito Divino que pairava sobre as águas. É essa ação amorosa divina que está por princípio (expressão bíblica do Gênesis) e por trás ou no plano mais íntimo de cada ser criado.
Assim sendo, Deus só pode estar muito feliz pelo fato da ONU ter consagrado o dia 22 de março como “Dia internacional de proteção e defesa das águas”. Em outras épocas, não seria necessário dedicar um dia do ano ao problema da água. Agora, sim. No século XXI, mais de um bilhão de pessoas sofre carência de água potável e mais de 80% das doenças que, no mundo inteiro, dizimam crianças e pobres, estão ligadas ao uso de águas poluídas ou impróprias para o consumo humano. Além disso, em todos os continentes, Organismos internacionais da ONU e da sociedade internacional civil trabalham para que a água seja declarada como direito básico universal de todas as pessoas e todos os seres vivos. A água não poderia jamais ser mercantilizada e vendida como propriedade privada de multinacionais que a exploram e, através da apropriação das fontes de água, dominam povos inteiros. Índios e lavradores se reúnem em conferências regionais para curar a Terra e fazer carinho à Mãe Água. Da sociedade civil internacional sobe o apelo cada vez maior: vamos libertar a água da prisão humilhante e indigna da mercantilização e privatização.
Toda pessoa e até todo ser vivo têm direito de viver e de receber uma cota de água potável e gratuita por dia (50 litros?) para beber, cozinhar e para a sua higiene. As constituições nacionais da Bolívia e do Equador privilegiam a noção indígena do “bem viver” como meta a qual o Estado e a sociedade civil devem garantir para todos. A Constituição Bolivariana da Venezuela também defende o direito universal à Água que não deve ser privatizada, nem vista apenas como mercadoria.
Para os cristãos, no evangelho, Jesus proclama: “Se alguém tiver sede, venha a mim e beba toda pessoa que crê em mim. Como diz a Escritura: do interior do Messias, jorrarão rios de água viva” (Jo 7, 37- 39). Pela ressurreição, que celebraremos nesta Páscoa, Jesus derrama sobre nós o seu espírito de amor, como água que jorra para a vida eterna e nos faz ver em toda a água que existe no mundo sinal do amor divino.


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

SOMOS, TODOS MAGOS E REIS E RAINHAS



Marcelo Barros

Por todo o Brasil, neste começo do ano, principalmente nos ambientes do interior, muitas comunidades vibram com danças populares que unem a fé e a cultura popular. Essa sabedoria nos ensina que, como cantava Chico Buarque: Deus é um cara engraçado que gosta de brincadeira. No Nordeste, as crianças dançam o pastoril e o reizado. Em Minas Gerais, Goiás e outras regiões, entre 25 de dezembro e 06 de janeiro, homens e mulheres simples percorrem as roças e refazem as folias de Reis. De casa em casa, levam a bandeira do Menino e invocam a benção divina para as famílias. Através de cânticos e do toque de tambores e sanfonas, encenam a peregrinação que, conforme o evangelho, magos, ou seja sacerdotes de religiões pagãs, fizeram do Oriente até Belém para homenagear a Jesus.

Pouco importa se a página do evangelho que conta a visita dos sábios do Oriente ao menino de Belém é de tipo simbólico. Os próprios magos não são figuras históricas, mas a tradição os tornou reis magos e fez da viagem deles, conduzidos por uma estrela, do Oriente até Belém o protótipo de toda a busca interior e profunda que as pessoas vivem. A tradição os retrata como símbolos de raças diversas. Todo mundo lembra de Melquior, o rei negro. No Oriente, um ícone medieval apresenta uma mulher no número dos magos que viajaram a Belém.

Em sua mensagem de Natal, Pedro Ribeiro de Oliveira chama a atenção para o fato de que, atualmente, vivemos na sociedade do mercado dominado pelo capital. Hoje, o mercado não é mais composto por  seres humanos, como eram as feiras do interior, onde o povo da roça troca sua produção por mercadorias industriais. Agora, o mercado é dominado por fantasmas chamados "pessoas jurídicas" que não têm outro objetivo na existência senão fazer multiplicar o capital nelas investido. Os seres humanos são meros empregados desses fantasmas. Devem, apenas, cumprir ordens anônimas que beneficiam o capital. (Como a Vale do Rio Doce, que este ano vai pagar mais dividendos aos sócios do que reparação às vítimas de seus crimes ambientais). Diante desses Herodes de hoje, bem piores do que o Herodes original, já que são corporações e não apenas um ditador, se torna mais importante do que nunca assumirmos o papel dos magos no caminho de Belém. Precisamos lembrar a esse mundo sem rumos que ouvimos a voz das estrelas. Mesmo de tradições, culturas e religiões diversas, nos reunimos e, juntos, vivemos a mesma aventura para apreender o mistério da vida. O sentido mais profundo das celebrações populares do Natal e dos Reis Magos é revigorar essa procura no mais profundo de cada crente. Hoje, os magos somos nós e todas as pessoas que não desistem da busca interior e se dispõem a aprofundar o  diálogo na escuta e no aprendizado uns com os outros.

Nos nossos dias, o papa Francisco tem insistido em que a fé cristã se vive na inserção no mundo atual, na solidariedade a todos os grandes problemas da humanidade. A missão de quem é de Deus é fazer como Jesus: criar pontes e não muros. Fazemos isso quando aceitamos nos despojar de nossa autossuficiência e nos inserir na comunidade humana e na comunhão de todos os seres vivos. Para retomarmos essa busca interior e nos abrir ao diálogo com todos os irmãos e irmãs que se colocam conosco nessa estrada, o Natal nos convida a começar de novo e aceitar ser como crianças abertas ao amanhã. Adélia Prado, nossa grande poetisa, tem um poema-oração que diz assim: "Meu Deus, me dá cinco anos. Meu Deus, me dá a mão e me cura de ser grande".  



 1] - MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

SOMOS TODOS PÓS-VERDADE?



 Frei Betto

       A resposta é sim, se comungamos essa angústia, esse sentimento de frustração frente aos sonhos idílicos da modernidade. Quem diria que a revolução russa terminaria em gulags; a chinesa, em capitalismo de Estado; e tantos partidos de esquerda assumiriam o poder como o violinista que pega o instrumento com a esquerda e toca com a direita? 

       Quem diria que a especulação superaria a produção, e o valor intrínseco de um ser humano se deslocaria para os bens que possui (e seu valor não é reconhecido se não possui bens)? Quem diria que tantas pessoas haveriam de erigir o mercado como um deus ao qual prestam culto, e cuja mão invisível seria capaz de regular o progresso das nações sob a égide da economia? 

       Nenhum sistema filosófico resiste, hoje, à mercantilização da sociedade: a arte virou moda; a moda, improviso; o improviso, esperteza. As transgressões já não são exceções, e sim regras. O avanço da informatização, da robótica, a googletização da cultura, a celularização das relações humanas, a banalização da violência, são fatores que nos mergulham em atitudes e formas de pensar pessimistas e provocadoras, anárquicas e conservadoras.

       Na pós-verdade, o sistemático cede lugar ao displicente; o articulado ao disforme; a teoria à conjectura. A razão delira e fantasiada de cínica baila ao ritmo dos jogos de linguagem. Como proclamou Nietzsche, já “não há fatos, apenas versões.”

       Nesse mar revolto, muitos se apegam às “irracionalidades” do passado, à religiosidade sem teologia, à xenofobia servil à Casa Branca, ao consumismo desenfreado, às emoções sem perspectivas. 

       Já não se buscam grandes narrativas, paradigmas históricos, valores universais. Agora sopra o vento da “servidão voluntária”, na expressão La Boétie, e muitos se ajoelham aos avatares, convencidos de que a lei da força deve predominar sobre a força da lei.
       Para a pós-verdade, a história findou, e resta nos adequarmos ao tempo cíclico. O lazer, agora, se reduz a mero hedonismo, e a filosofia, a um conjunto de perguntas sem respostas. O que importa é a novidade, as luzes da ribalta, o invencível Homem de Ferro. Já não importa a distinção entre urgente e prioritário, acidental e essencial, valores e oportunidades, efêmero e duradouro.
       A estética se faz esteticismo. E o que vale é o adorno, a moldura, e não a profundidade ou o conteúdo. Tendemos a ficar reféns da exteriorização e dos estereótipos. 
       Para a pós-verdade, já não cabe o pensamento crítico, e ela abraça a razão cínica como Diógenes a sua lanterna. Prefere, nesse mundo conflitivo, ser espectadora e não protagonista, observadora e não participante, público e não ator. 
       A pós-verdade duvida de tudo. É cartesianamente ortodoxa. Por isso, não crê em algo ou em alguém. Como a serpente Uroboros, morde a própria cauda. E se refugia no individualismo narcísico. Basta-se a si mesma, indiferente à dimensão social da existência.
       A pós-verdade tudo desconstrói. Seus postulados são ambíguos, desprovidos de raízes, invertebrados e apáticos. Ao jornalismo, prefere o shownalismo.  
       O discurso pós-verdade é labiríntico, descarta paradigmas, e sua bagagem cultural coloca no mesmo patamar artistas, autores clássicos e arrivistas que alcançaram 15 minutos de fama.
       A pós-verdade não tem memória, abomina o ritual, o litúrgico, o mistério. Como considera toda paixão inútil, nem ri nem chora. Sua visão de mundo é uma colcha de retalhos eivada de subjetivismo. 
       A ética da pós-verdade detesta princípios universais. É a ética de ocasião e conveniência. Camaleônica, adapta-se a cada situação.  
       A pós-verdade transforma a realidade em ficção e nos remete à caverna de Platão, onde as sombras têm mais importância que o nosso ser, e as nossas imagens predominam sobre a existência real. 

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.
Copyright 2019 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

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terça-feira, 30 de julho de 2019

SOMOS TODOS AMAZÔNIA PARA A VIDA DO PLANETA





Por Marcelo Barros

Uma notícia ainda restrita à comunicação entre amigos na internet revela que  200 exemplares de um livro enviados do Uruguai para o Brasil, embora estejam com toda a papelada correta e notas fiscais em ordem, estão retidos na alfândega brasileira. O motivo seria o conteúdo dos livros. Trata-se de um documento feito a partir de consultas às diversas comunidades de bases e organizações da região amazônica sobre a realidade e os desafios da Vida na Amazônia. O documento, elaborado por teólogos/as, especialistas de várias áreas de estudo, tem como objetivo servir de subsídio à reunião dos bispos católicos em preparação ao sínodo mundial, convocado pelo papa Francisco, em Roma para o mês de outubro sobre a Amazônia. Tudo indica uma censura das autoridades brasileiras, o que configura uma postura de ditadura cada vez menos disfarçada. 

A notícia de uma censura sobre o Sínodo pode aguçar a curiosidade sobre porque o governo estaria censurando tal documento. Para responder a tal questão, podemos ler esse e outros documentos preparatórios nos sites de organizações como Amerindia, uma organização de teólogos/as cristãos de todo o continente  e REPAM (Rede Eclesial Pan-amazônica).
O que descobrimos ali é que o tema do Sínodo dos Bispos liga a Amazônia, o desafio da Ecologia Integral e a Missão das Igrejas na região. Há informações importantes que podem ser resumidas aqui. O texto afirma:

“A Amazônia é um território que se espalha por nove países: Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Venezuela, Suriname, Guiânia e Guiânia Francesa. Tem quase 8.000.000 de Km 2 que formam um bioma, sistema vivo de interações orgânicas, essenciais para o equilíbrio do planeta. Nessa região, vivem 35 milhões de pessoas, espalhadas pela floresta, margens dos rios, campos e grandes cidades. Quase três milhões pertencem a povos originários que falam 340 línguas diversas. Eles se relacionam harmoniosamente com a natureza, com os outros humanos e com o Mistério último da Vida que muitas religiões chamam de Deus. Esses povos formam comunidades, agredidas em sua ligação com a Terra, em seus valores espirituais e chamam as pessoas de bem a combater a exploração que destrói o planeta e submete a humanidade a desigualdade sempre crescente.

Cada metro quadrado do bioma Amazônia tem mais diversidade que qualquer outro lugar do planeta. Essa imensa diversidade de vida garante ao seu povo alimentos, medicamentos, azeites e outras dádivas que nem se podem calcular. O bioma regula a distribuição de chuvas por todo o território brasileiro e pelo Uruguai, Argentina e Paraguai. A água em forma de vapor cria o que se chama “rios voadores”, levados pelos ventos até o sul. Assim, abastecem de chuva praticamente todo o Brasil.

 Basta saber disso para nos darmos conta de que assim como todos os biomas são essenciais para a vida, a preservação e a defesa da Amazônia é fundamental para o equilíbrio do clima de toda a Terra. A própria vida no planeta, mas especialmente o clima em todo o Brasil depende da preservação da floresta amazônica e do cuidado com seu bioma frágil.

Quando o lucro é colocado acima de tudo, a sanha de destruir a natureza fica incontrolável. A terra, as águas e a floresta se tornam mercadorias a serem vendidas e compradas de acordo com a conveniência econômica dos seus pretensos prioritários. De acordo com estatísticas confiáveis, nos últimos dois anos, a destruição da floresta amazônica aumentou desordenadamente.

A ecologia integral não trata só do ambiente, da fauna e da flora. É um olhar holístico sobre as relações em nossa casa comum. Ecologia integral é uma forma de compreender a vida. Envolve pensamento, política, programa educativo, estilo de vida e amorosidade na relação com a natureza e com a sociedade humana. Essa relação de solidariedade e amor como postura social e política tem sido chamada por espiritualidade como atitude antropológica, mais do que como expressão religiosa. Ela se fundamenta na cultura tradicional dos povos, mas também em uma nova forma de olhar a Terra, as águas e toda a comunidade da Vida. Assim, sendo a Ecologia Integral implica diálogo entre a ecologia ambiental, econômica, social, cultural e da vida cotidiana. Considera os princípios éticos do bem comum e a justiça entre as gerações. Integra a justiça para escutar tanto o clamor da Terra, quanto o clamor dos pobres. Conforme a carta do papa Francisco sobre o cuidado da casa comum (Laudato sii) e o pensamento de estudiosos de todo o mundo, passar de uma compreensão convencional de ecologia para a vivência da ecologia integral implica conversão para assumir que tudo está relacionado (LS 216- 221). Esse modo de compreender a vida, baseado na sabedoria ancestral dos povos amazônicos, busca soluções integrais que unam os sistemas naturais e a realidade social. A crise é uma só: sócio-ambiental. A solução exige a luta contra a pobreza e o cuidado com a natureza. Tudo está interligado.

A grande variedade de povos que habitam na Amazônia depende de que se detenha o modelo de desenvolvimento depredador. Os povos em sua sabedoria, criaram sistemas produtivos rentáveis, sem derrubar a floresta (açaí, cupuaçu, castanha, peixes, etc). O que destrói o bioma é a monocultura (soja, gado, mineração). Também não serve o chamado “Capitalismo verde” que se rege pelas leis do mercado e transforma em mercadoria o que a natureza nos dá de graça. O Mahatma Gandhi já dizia que a terra, com suas florestas e suas áreas verdes preservadas, é suficientemente grande e maternal para alimentar toda a humanidade, mas nunca bastará para saciar a ambição da pequena porção de seres humanos que faz do lucro e da ganância a sua divindade. Para quem é cristão, o Evangelho adverte: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24). 
 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br


sexta-feira, 29 de março de 2019

A BLASFÊMIA DE JAIR BOLSONARO: QUE “DEUS” ACIMA DE TODOS?



Por Leonardo Boff

Não queria ter escrito este artigo. Mas a aguda crise política atual e o abuso que se faz do nome de Deus provocam a função pública da teologia. Como qualquer outro saber, ela possui também a sua responsabilidade social. Há momentos em que o teólogo deve descer de sua cátedra e dizer uma palavra no campo do político. Isso implica denunciar abusos e anunciar os bons usos, por mais que esta atitude possa ser incompreendida por alguns grupos ou tida como partidista, o que não é.
Sinto-me, humildemente, na tradição daqueles bispos proféticos como Dom Helder Câmara, dos Cardeais Dom Paulo Evaristo Arns (lembremos o livro que ajudou a derrocar a ditadura “Brasil Nunca Mais”) e de Dom Aloysio Lorscheider, do bispo Dom Waldir Calheiros e de outros que, nos tempos sombrios da ditadura militar de 1964, tiveram a coragem de erguer a sua voz em defesa dos direitos humanos, contra os desaparecimentos e as torturas feitas pelos agentes do Estado.
Vivemos atualmente num país dilacerado por ódios viscerais, por acusações de uns contra os outros, com palavras de baixíssimo calão e por notícias falsas (fake news), produzidas até pela autoridade máxima do país, o atual presidente. Com isso ele mostra a falta de compostura em seu alto cargo e das consequências desastrosas de suas intervenções, além dos despropósitos que profere aqui e no exterior.
Seu lema de campanha era e continua sendo “Deus acima de todos e o Brasil acima de tudo”. Precisamos denunciar a utilização que faz do nome de Deus. O segundo mandamento divino é claro de “não usar o santo nome de Deus em vão”. Só que aqui o uso do nome de Deus não é apenas um abuso mas representa uma verdadeira blasfêmia. Por que?
Porque não há como combinar Deus com ódio, com elogio à tortura e a torturadores e com as ameaças a seus opositores como fazem Bolsonaro e seus filhos. Nos textos sagrados judaico-cristãos, Deus revela sua natureza como “amor” e como “misericórdia”. O “bolsonarismo” conduz uma política como confrontação com os opositores, sem diálogo com o Congresso, política entendida como um conflito, de viés fascista. Isso não tem nada a ver com o Deus-amor e o Deus-misericórdia. Consequentemente propaga e legitima, a partir de cima, uma verdadeira cultura da violência, permitindo que cada cidadão possa possuir até quatro armas. A arma não é um brinquedo para o jardim a infância mas um instrumento para matar ou se defender mutilando ou matando o outro.
Ele se diz religioso, mas é de uma religiosidade rancorosa; ele comparece despojado de sacralidade e com um perturbador vazio espiritual, sem qualquer sentido de compromisso com a vida da natureza e com a vida humana, especialmente daqueles que menos vida têm. Com propriedade afirma a miúdo o Papa Francisco: prefere um ateu de boa vontade e ético que um cristão hipócrita que não ama seu próximo, nem tem empatia por ele, nem cultiva valores humanos.
Cito um texto de um dos maiores teólogos do século passado, no fim da vida, feito Cardeal, o jesuíta francês Henri De Lubac:
“Se eu falto ao amor ou se falto à justiça, afasto-me infalivelmente de Vós, meu Deus, e meu culto não é mais que idolatria. Para crer em Vós devo crer no amor e na justiça. Vale mil vezes mais crer nessas coisas que pronunciar o Vosso nome. Fora delas é impossível que eu Vos encontre. Aqueles que tomam por guia – o amor e a justiça – estão sobre o caminho que os conduz a Vós”(Sur les chemins de Dieu, Aubier 1956, p.125)
Bolsonaro, seu clã e seguidores (nem todos) não se pautam pelo amor nem prezam a justiça. Por isso estão longe do “milieu divin”(T.de Chardin) e seu caminho não conduz a Deus. Por mais que pastores neo-pentecostais veem nele um enviado de Deus, não muda em nada a atitude do presidente, ao contrário agrava ainda mais a ofensa ao santo nome de Deus especialmente ao postar na internet um youtub pornográfico contra o carnaval.
Que Deus é esse que o leva a tirar direitos dos pobres, a privilegiar as classes abastadas, a humilhar os idosos, a rebaixar as mulheres e a menosprezar os camponeses, sem perspectiva de uma aposentadoria ainda em vida?
O projeto da Previdência cria profundas desigualdades sociais, ainda com a desfaçatez de dizer que está criando igualdade. Desigualdade é um conceito analítico neutro. Eticamente significa injustiça social. Teologicamente, pecado social que nega o desígnio de Deus de todos numa grande comensalidade fraternal.
O economista francês Thomas Pikitty, famoso por seu livro O Capital no século XXI (Intrínseca 2014), escreveu também um inteiro livro sobre A economia da desigualdade (Intriseca 2015). O simples fato, segundo ele, de que cerca de 1% de multibilhardários controlarem grande parte das rendas dos povos e no Brasil, segundo o especialista no ramo, Márcio Pochmann, os seis maiores bilionários terem a mesma riqueza que 100 milhões de brasileiros mais pobres (JB 25/9/2017), dão mostras de nossa injustiça social.
Nossa esperança é de que o Brasil é maior que a irracionalidade reinante e que sairemos melhores da atual crise.
Leonardo Boff é teólogo e comentou A oração de São Francisco pela Paz, Vozes 2009.


terça-feira, 28 de agosto de 2018

A PARTIR DOS POBRES, IGREJA PARA TODOS



Por Marcelo Barros

Em diversos países da América Latina, o governo imperial dos Estados Unidos continua a financiar os golpes nossos de cada dia. O Comitê de Direitos Humanos da ONU acaba de reconhecer Lula como prisioneiro político e exige que a justiça brasileira respeite seus direitos sociais e políticos. No Brasil, uma campanha eleitoral confusa e pouco representativa do que o povo deseja tenta mascarar a realidade.
Tudo isso nos faz lembrar que, há 50 anos, o Brasil e vários países do continente sofriam ditaduras militares. Como ainda hoje, a maioria dos governantes, ao invés de regular as relações dos diversos grupos sociais, tinha como tarefa controlar os pobres e garantir a manutenção da escandalosa desigualdade social.
A novidade foi que naquele 68, em vários lugares do mundo,  explodiam revoltas e movimentos de jovens. Na América Latina, os bispos católicos do continente se reuniram na cidade de Medelllín (Colômbia) para a sua segunda conferência geral.  A conferência de Medellín aconteceu há exatamente 50 anos, de 24 de agosto a 06 de setembro de 1968. Teve como tema “A missão da Igreja no processo de transformação social e política da América Latina”. Pela primeira vez, um papa atravessou o Atlântico e Paulo VI abriu a conferência de Medellín. Na época, Dom Helder Camara e depois Dom Pedro Casaldáliga afirmaram: “Para a América Latina, Medellín foi um verdadeiro Pentecostes”. Significou o nascimento de uma Igreja Católica com cara latino-americana. O próprio tema deixava claro que a missão da Igreja não é apenas religiosa, nem principalmente cultual. Em Medellín, os bispos nos ensinaram que a missão da Igreja é testemunhar e ensaiar no mundo o reino de Deus, isso é, o projeto divino de justiça e de paz. Entre muitas afirmações e propostas importantes, em Medellín, os bispos concluíram que a Igreja deve ser pobre, missionária e pascal, ou seja, como diz o papa Francisco “em saída”. Sua missão é servir como libertadora “de toda a humanidade e de cada ser humano por inteiro” (Cf. Conclusões de Medellin, 5, 15).
A partir de Medellín, surgiu no continente um novo modo de ser Igreja que se expressou nas comunidades eclesiais de base, nos grupos bíblicos, nas pastorais sociais e na inserção de uma parte das Igrejas na caminhada da libertação. De 1968 para cá, o mundo mudou muito. O Império norte-americano conseguiu invadir vários países. Ele provocou várias guerras, vendeu e usou suas armas. Matou uma boa quantidade de pobres, africanos, asiáticos e latino-americanos, considerados descartáveis.
Quanto à Igreja Católica, ela sobrevive a várias crises e escândalos de diversos tipos. No entanto, a traição mais séria dos eclesiásticos mais tradicionais não é em matéria de moral sexual. É questão de humanidade. O que está vindo à tona como omissão, ou conivência culpável de autoridades religiosas atesta uma insensibilidade em relação a vítimas inocentes. No entanto, revela um desvio mais profundo e radical: o afastamento do caminho do evangelho de Jesus. Esse não se interessou em fazer uma religião ou em deixar no mundo uma estrutura de poder que se auto-protegeria. Conforme o evangelho de Lucas, seu projeto, proclamado, em seu primeiro discurso público foi: “O sopro (Espírito) de Deus veio sobre mim e me enviou para trazer a libertação dos oprimidos, curar os doentes e  proclamar um ano de graça (jubileu) de libertação para todos” (Lc 4, 16- 21).
No decorrer da história, os eclesiásticos reinterpretaram esse texto em um sentido espiritualizador. A cura se refere aos problemas interiores e a libertação é a salvação da alma. Aqui, o mundo pode continuar dominado pelos senhores do dinheiro e do poder. Infelizmente, ainda há eclesiásticos que, enquanto podem, lhes são muito próximos. Em séculos passados, muitos bispos e padres davam assistência espiritual aos senhores de escravos e, de vez em quando, eles mesmos recebiam alguns escravos como presentes. Essa forma de interpretar a fé e a espiritualidade se mantém muito forte seja no Congresso Nacional, onde está bem representada pela chamada “bancada evangélica”, como pelo comércio religioso, que cada dia é mais lucrativo. Agora, através dos 50 anos da conferência de Medellín e das crises pelas quais passa a Igreja, os cristãos e cristãs são chamadas a “ouvir o que o Espírito diz, hoje, às Igrejas” e “voltar ao seu primeiro amor” (Ap 2, 5- 7). Na Bíblia, o primeiro amor do povo foi o Êxodo, onde conheceu intimamente a Deus, em meio à caminhada da libertação. É preciso voltar a essa mística da caminhada libertadora. 
Quando a Igreja passa a olhar apenas para si mesma e se preocupa apenas com suas atividades internas, se torna idólatra. Deixa de ser sinal de Jesus Cristo e apresenta uma imagem mesquinha e indigna de Deus. Ainda bem que, nas periferias, com ou sem apoio oficial, as comunidades e pastorais proféticas continuam obedecendo a voz do Espírito que sopra onde quer. Como disse Paulo, “onde houver espírito de liberdade, aí está o Espírito de Deus” (2 Cor 3, 17).
 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

SANTIDADE AO ALCANCE DE TODOS


                     por Maria Clara Bingemer                  

Em meio ao tenebroso momento que vivemos no país chega-nos a exortação apostólica do Papa falando de santidade. Tema abstrato e distante da realidade? perguntarão alguns. Alienação perigosa que remete a claustros, vitrais e fuga do mundo com seus conflitos? indagarão outros. Na verdade, não.  O que propõe o pontífice em sua exortação é uma compreensão mais realista e humana do que seja o ideal de ser santo em um mundo fragmentado e dividido.

Acostumamo-nos a pensar nos santos como aqueles homens e mulheres que vemos retratados em quadros ou vitrais, em geral ajoelhados e em extática contemplação; ou em ascéticos exercícios de piedade que os faz vencerem o mundo e suas ambiguidades e contradições.  Imaginamos tratar-se de pessoas que nada têm a ver com a profanidade das coisas e as limitações das pessoas e buscam a perfeição em uma ascensão ininterrupta a um estado de vida quase angélico e pouco humano.

O que propõe Francisco é, na verdade, o inverso disso.  A santidade não é uma subida, mas sim uma descida ao encontro dos outros.  Por aí passa o ponto de cruzamento entre a espiritualidade e a ética cristãs.  Não se trata de um apelo para alguns poucos escolhidos que se distinguem do resto da humanidade, a qual se debate em dúvidas, tentações e imperfeições.  Pelo contrário, é a radicalização do ser humano como caminho para o encontro com o verdadeiro Deus. 

O caminho da santidade é, segundo Francisco, transfigurar o cotidiano, resgatar em meio ao ordinário o extraordinário. É também vigiar constantemente e estar atento às armadilhas que aparecem a cada momento da vida e superá-las inspirados pela experiência de amar e as opções fundamentais que daí decorrem.   É discernir constantemente não entre o bem e o mal, mas entre o bom e o melhor.  Assim as escolhas vitais qualificarão a existência, não deixando que esta seja arrastada por ideologias que a apequenam e lhe diluem a nobreza.

Na verdade, o que o Papa afirma, ousadamente, é que a santidade é um chamado para todos e não somente para os padres, as freiras, os religiosos.  É um caminho para todo ser humano que não se conforma com este mundo e entende que deve fazer o possível para transformá-lo e humanizá-lo.  É uma vocação para todo aquele ou aquela que não aceita que sua vida tenha que resumir-se a satisfazer pulsões, buscar sensações sofregamente e contentar-se com gratificações superficiais que se desvanecem rapidamente deixando gosto amargo e frustrante na boca e no coração.

Francisco adverte: “Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem a sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora, enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente.”  A santidade não é apenas uma maneira de comportar-se religiosamente ou um estilo de rezar, mas uma maneira de conceber a própria existência enquanto serviço oferecido ao outro.  

E este serviço se deseja ao mesmo tempo fiel a Deus e às realidades humanas.  E essas realidades humanas têm alcance maior do que simplesmente as relações interpessoais ou micro comunitárias.  Mas alcançam as próprias estruturas que condicionam a vida dos outros homens e mulheres e podem favorecer ou contrariar a justiça, a paz e a vida plena para todos.

Neste sentido, santidade não é apenas uma “performance” sempre mais acurada de ascese e crescimento individual, mas um compromisso pela vida, sobretudo a dos outros e dentre estes dos mais vulneráveis e frágeis.  Francisco diz explicitamente que “a defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada, e exige-o o amor por toda a pessoa, independentemente do seu desenvolvimento. Mas igualmente sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura, e em todas as formas de descarte. “

É assim que a santidade está ao alcance de todos aqueles e aquelas que reconhecem sua própria finitude e desejam ser transformados pelo amor que é maior e os faz plenamente humanos. Ser santo não é para campeões de perfeição, mas para pecadores que se reconhecem como tais, mas se deixam configurar pela graça de Deus e pelo apelo que vem da alteridade desfigurada de todo aquele que sofre e necessita cuidado e atenção.

Como diz o grande filósofo católico francês Jean Luc Marion: “Pecadores e traidores é o que mais existe na Igreja.  O extraordinário, o surpreendente, é que esta mesma Igreja ainda seja capaz de produzir santos.“ Francisco parece acreditar nesta capacidade.  E não a restringe apenas a um seleto grupo de especialistas, mas a estende ampla e universalmente a todo aquele ou aquela que desejar viver plena e radicalmente sua condição humana criada e redimida pelo Deus da vida.

Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de  Testemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial, entre outros livros.

 Copyright 2018 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

terça-feira, 8 de novembro de 2016

A COMUNHÃO DE TODOS OS SERES VIVOS


Por Marcelo Barros
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Nesse domingo, 06 de novembro, a Igreja Católica no Brasil celebrou a festa de Todos os Santos. Com essa celebração, a liturgia quer sinalizar que existe uma comunhão profunda entre todos os batizados. Tanto os cristãos da terra quanto os que já partiram dessa vida formam uma só unidade em Cristo. Nesse mesmo domingo, a ONU celebrou “o dia internacional para a prevenção da exploração do meio ambiente”. Há uma relação entre as duas comemorações. De fato, o motivo mais profundo do cuidado com a Terra e a natureza é que formamos com todos os seres vivos uma só comunidade da Vida e essa comunidade depende do ecossistema em que vive: a Terra, nossa casa comum.
Em todo o Brasil, as comunidades católicas já começam a receber os subsídios para a Campanha da Fraternidade de 2017 que será sobre o cuidado e a proteção dos oito biomas que estão no território brasileiro e que atualmente têm sua integridade ameaçada pela destruição ecológica.
Governos e instituições transnacionais, principais responsáveis pela destruição da natureza percebem que os desastres ecológicos lhes têm dado prejuízo. Por isso, querem preveni-los, mas sem mudar o percurso de exploração que o Capitalismo impõe. Em todos os países do Sul, continuam apoiando grandes empresas mineradoras que, para explorar o subsolo,  destroem terras, matas e rios. Promovem a agroindústria baseada em agrotóxicos e sementes transgênicas. Enquanto,  o processo econômico continuar a ter como objetivo o lucro acima de tudo, não há esperança de proteção da natureza. A própria ONU que propõe a prevenção sabe que precisa tomar a coragem de ser coerente com essa proposta.
Atualmente, a Terra abriga mais de sete bilhões de pessoas. Esse número é quase sete vezes maior do que em 1830, época da revolução industrial e início do processo de crescimento acentuado das áreas urbanas. Nos próximos 50 anos, a previsão para o mundo é de 9 bilhões de pessoas.  Como viverá essa população, se metade dos recursos hídricos disponíveis para consumo humano e 47% da área terrestre já são utilizados? Estudos afirmam: a relação entre crescimento populacional e o uso de recursos do Planeta já ultrapassou em 20% a capacidade de reposição da biosfera e esse déficit aumenta cerca de 2,5% cada ano. Isso quer dizer que a diversidade biológica – de onde vêm novos medicamentos, novos alimentos e materiais para substituir os que se esgotam – está sendo destruída muito mais rápido do que pode ser reposta. Esse desequilíbrio está crescendo. Até 2030, 70% da biodiversidade poderá ter desaparecido.
Graças a Deus, temos uma esperança. A cada dia, no mundo inteiro, cresce o número de pessoas e grupos que aprofundam a espiritualidade e se põem em diálogo para buscar novos caminhos. O resgate da dignidade da Terra, da Água e do Ar está na ordem do dia de grupos espirituais das mais diversas tradições.
Em toda a América Latina, um dos mais importantes sinais de esperança para a causa ecológica é o fortalecimento do movimento indígena. No Brasil, como em outros países, apesar da insensibilidade de governos e cumplicidade indiferente da sociedade dominante, diversos povos indígenas têm conseguido sobreviver, se reorganizar e refazer seu modo de vida tradicional. Nos Andes, na Amazônia e no Centro-oeste, cuidam da natureza e propõem como novo paradigma de civilização o Bem-Viver. O cuidado com a Terra, a Água e todos os seres vivos é elemento essencial desse processo cultural e religioso.
As próprias Igrejas cristãs que, durante séculos, pareciam não ligar o ato criador de Deus com sua atuação salvadora na história, nas últimas décadas têm todas aprofundado esta questão. O papa Francisco publicou uma encíclica sobre o cuidado da casa comum e propondo como saída para essa crise uma ecologia integral que integre a justiça socioambiental com a espiritualidade de um novo cuidado com a natureza. Todos nós somos implicados e envolvidos por essa celebração amorosa da Vida.  



 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor.