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quarta-feira, 17 de junho de 2020

COVID 19 QUADRAGÉSIMA PRIMEIRA REFLEXÃO SANTIDADE EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS


Por Frei Aloísio Fragoso

 

     Este mês celebramos a memória de alguns dos santos mais populares, venerados na Igreja Católica: S. Antônio, S. João, S. Pedro.

     Gostaria de aproveitar  a oportunidade e me prolongar neste assunto, motivado por uma razão imediata e atual: a Igreja afirma categoricamente "a maior dignidade do ser humano é a sua vocação para a santidade" (Concílio Vaticano II). E esta afirmativa teórica, nestes tempos de pandemia, converte-se em realidade: provas incontestáveis de santidade estão emergindo por toda parte, refazendo nossa confiança no ser humano, a despeito dos idiotas, dos hipócritas e dos tiranos.

     Um dos maiores romancistas do século passado, o inglês Aldous Huxley, embora não sendo um homem religioso, escreveu: "um mundo sem santos seria um mundo inteiramente cego, completamente louco".

     Ele não é o primeiro nem o único a reconhecer esta necessidade de existir modelos de santidade, para que o mundo não descambe na cegueira e loucura moral. Os seres humanos perderiam a confiança em si mesmos e no sentido da vida se não tivessem alguém em quem se projetar, e poder confessar: se um de nós chegou até aí, então elas existem, a perfeição existe, a bondade existe, a santidade existe.

     A maior parte talvez já desistiu desta idéia de ser santo, contudo uma coisa é inegável: não há quem, em alguns momentos da vida, já não tenha experimentado a nostalgia da santidade; esta vontade irreprimível de ser bom, verdadeiro, santo. É a nostalgia do Paraíso Perdido.

     É tão imperiosa esta carência que, onde faltam santos e santas, o povo trata de criá-los. Daí  esta profusão de gurus milagreiros, mercadores da Religião, empresários do Sagrado, biscateiros da Esperança, exploradores da boa fé dos simples.

     Os santos e santas de verdade sabiam disso. Uma de suas primeiras preocupações era livrar-se destas ciladas. Certa vez, um dos companheiros de S. Francisco de Assis, frei Masseo, famoso pela sua bela aparência, perguntou-lhe: "por que é que toda gente vai atrás de você, irmão Francisco? Você não possui beleza física, nem notável cultura nem eloquência!". O santo respondeu: "eu também não sei, irmão, talvez Deus não encontrou alguém mais idiota do que eu para fazer brilhar a sua misericórdia".

     A primeira virtude de todos os santos e santas era a humildade.

     A nossa Igreja tem o costume de canonizar alguns homens e mulheres, conceder-lhes as honras dos altares e a veneração geral, por que?  Para que? Certamente para termos intercessores junto ao Pai do Céu e, sobretudo, para reconhecermos neles o que deveríamos ser. As canonizações devem ser valorizadas e, ao mesmo tempo, relativizadas. Conheci uma mãe de família paupérrima, na favela onde trabalho e, não tenho dúvida de confessar, vejo nela muito mais provas de santidade do que no fundador da "Opus Dei", canonizado recentemente. No entanto, quem investiria 2 reais na esperança de vê-la canonizada? Ao contrário dos herdeiros das obras deste último, com milhões de dólares nos seus cofres, para encaminhar e apressar a sua canonização.

     Além disso, se quiséssemos apresentar este heróis e heroínas como "honra ao mérito" da humanidade e glória ao seu Criador, decerto Deus veria o contrário: um fabuloso fracasso da sua Criação, pois de bilhões e bilhões e bilhões de criaturas humanas, vindas ao mundo desde sempre, apenas umas 20.000 (número dos canonizados) alcançaram o fim para o qual foram criadas.

     Assim como nos sentimos bem representados pelos santos e santas, também devemos sentir-nos envergonhados, pois a santidade é um chamado universal, vale para todos: "sede perfeitos como vosso Pai Celeste é perfeito", declara Jesus.

     A Bíblia resume todas as definições de Deus em uma brevíssima expressão: "Deus é Amor". Por conseguinte, nenhuma experiência de vida pode levar à santidade se não estiver  centrada no amor fraterno ("ninguém pode amar a Deus, a quem não vê, se não amar o irmão, a quem vê", escreve São João.)

     O que distingue os santos e santas  é que eles cumpriram este mandamento em grau heróico, deram a vida por amor a Deus, provado no amor aos semelhantes.

     Esta definição amplia imensamente o campo onde medram e proliferam as testemunhas de santidade. Santo Agostinho chega a escrever: "na ordem dos princípios, o amor a Deus vem em primeiro lugar, mas, na ordem da execução, o amor ao próximo tem a prioridade". Neste caso, teríamos motivos de sobra para iniciar processos de canonização, muito além do tempo e das fronteiras da Igreja Católica ou de qualquer Instituição religiosa (nesta fila entrariam,  à guisa de ilustração, um filósofo grego, como Sócrates, três imperadores romanos, como Nerva, Antonino Pio e Marco Aurélio, um músico protestante como Bach, sem falar na multidão de Josés, Marias, Severinos, Teresinhas, que viveram o tempo todo a sacrificar-se por amor dos seus.

     Voltaremos a este assunto, pois ele assinala, a longo prazo,  o caminho de cumprirmos nosso destino e, a curto prazo, a possibilidade de enxergarmos a presença de Deus, nesta tragédia do Coronavirus. Amém.

FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.


quinta-feira, 21 de maio de 2020

COVID 19 - TRIGÉSIMA PRIMEIRA REFLEXÃO – SANTIDADE EM TEMPOS DE CORONAVIRUS



Por Frei Aloísio Fragoso

  

     Em nossa trigésima "REFLEXÃO", tratamos de um imaginário duelo entre o coronavirus e o antropovirus, o primeiro gerado por um movimento cego da natureza e o outro produzido por iniciativa calculada da inteligência humana.

     Terminada esta luta fictícia, baseada em fatos reais, ficou evidenciada a diferença incomensurável dos estragos causados pelo antropovirus, em comparação com o seu parceiro de malefícios.

     Não possuimos um radar com a capacidade de registrar quantas vidas foram destruídas desde quando "o primeiro homem que cercou um terreno e atreveu-se a dizer: "isto me pertence somente a mim" encontrou outros ingênuos que acreditaram nele (....) Quantos crimes, guerras, assassinatos, quantos horrores e misérias não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas e entulhando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: "não ouçam este impostor! Vós estareis perdidos se esquecerdes que os frutos pertencem a todos e que a terra não é de ninguém" (Jean-Jacques Rousseau)

     O pensamento de Rousseau não está longe do pensamento de São Paulo, quando este escreve: "a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro" 1Tim.6,10. Eis aí o vírus mais mortífero de todas as pandemias causadas por mãos humanas: a cobiça.

     No entanto, há uma questão que se sobrepõe a toda esta polêmica e parece ter uma origem transcendental: como explicar que nenhuma destas pandemias, nem outras mais havidas no passsado, nem outras tantas que poderão advir no futuro, conseguem arrancar da consciência da humanidade a vontade de perseverar na realização do seu destino, nem da maior parte dos indivíduos, a confiança na bondade essencial da natureza humana?

     Nunca esqueci uma certa cena de um famoso filme de guerra a que assisti, faz algum tempo. Findas as batalhas, do meio dos escombros que cobriam uma vasta extensão de terra, surgiu uma criança a correr e a brincar sobre os destroços abandonados. Foi a última cena do filme. Acenderam-se as luzes e ficou a cargo dos espectadores compreender a fantástica simbologia da vida nova brotando das ruínas da morte.

    Por que isso? Por que nenhuma tragédia é capaz de destruir a confiança no futuro? - Não tenho dúvidas em responder: é porque ainda existem santos e santas. Como escreve um dos maiores romancistas do século passado, Aldous Huxley, autor de "O Admirável Mundo Novo", "sem santos, o mundo seria inteiramente cego, completamente louco".

     Estamos falando da ampla santidade, aquela que está livre de limites demarcados por esta ou aquela religião, por esta ou aquela cultura, por esta ou aquela mentalidade, a santidade que Jesus definiu com perfeição, ao declarar: "ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus".

     Teologias, filosofias, sociologias, tecnologias, economias, etc. são imprescindíveis para assegurar o desenvolvimento da sociedade humana na busca incessante de melhores qualidades de vida. Contudo, o poder de manter viva a esperança no futuro só se encontra ali onde florescem modelos de perfeição humana.

     Já que, na última reflexão, atacamos duramente o antropovirus gerador das guerras, destaquemos uma figura impressionante de santidade contemporânea da Segunda Guerra Mundial, Edith Stein. Judia alemã, filósofa, confidente dos mais famosos filósofos da época, converteu-se ao catolicismo e ingressou na Ordem das Carmelitas Descalças. Entre outras pérolas de pensamento, escreveu: "para mim é muito irreal pensar que a misericórdia de Deus se restringe aos limites da Igreja visível. Deus é Verdade. Quem busca a Verdade está em busca de Deus, ainda que não o saiba". Mesmo gozando do privilégio de ser freira católica, jamais aceitou ser tratada de maneira diferente de seus irmãos judeus. Quando a Gestapo bateu à porta do Convento para levá-la ao Campo de Concentração, ela disse a sua irmã de sangue, também presa: "vem, vamos com o nosso povo". Morreu na câmara de gás. Foi canonizada pelo Papa João Paulo Segundo. E seu nome  permanece como um raio de luz em meio às trevas da guerra.

     Destaquemos ainda outros exemplos paradigmáticos. Cientistas e pesquisadores que se enfurnam em seus laboratórios, dia e noite, incansáveis, indiferentes a fortunas, aplausos e prazeres, a fim de descobrir a cura de doenças exterminadoras de vidas humanas, certamente fazem uma experiência de santidade. Grandes e geniais artistas de todas as formas de arte, tentando desvendar os segredos profundos da beleza e da mística, com certeza foram inebriados por estas inefáveis riquezas. Grandes e autênticos revolucionários sociais que se deram por inteiro, tempo, talento e vida com a finalidade de libertar seu povo de opressões e tiranias, não fizeram outra coisa senão colocar o Amor e a Justiça acima de suas existências individuais.

     Igual a esta, ou até maior, sabe Deus, é a santidade dos pequenos, dos humildes, vivida no anonimato. A santidade de D. Zefinha do Coque, cuja única missão de vida é sair de casa às 5h. da manhã, e percorrer as ruas da cidade, até adquirir o alimento que lhe dá direito a voltar para casa, garantindo  a seus 4 netos, mais um dia de sobrevivência.

     Este último exemplo, em suas mais variadas formas, se reproduz aos milhões, nos quatro continentes de nossa terra.

     Todas estas experiências recebem o toque da santidade. Se a elas associarmos a áurea sagrada de preces e adoração que milhões e milhões de crentes elevam ao Criador incessantemente, então podemos imaginar o universo inteiro santificado.

     São estes testemunhos que nos movem e nos reavivam a confiança no futuro, porque eles dão voz ao que há de mais profundo em nós mesmos. Falam por nós, agem por nós e, mesmo sem sermos santos, nos transmitem a nostalgia da santidade, e o sentimento de que participamos desta mesma santidade que salva o mundo. Além de tudo, temos o penhor da Palavra divina: "Deus amou tanto o mundo que lhe enviou seu Filho Único" Jo. 3,16. Não podemos sequer imaginar que Deus envie seu Filho para  nos salvar sem trazer consigo a garantia do êxito final. 

 Amém. Frei Aloísio Fragoso.

  Amém. FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

 


quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A SANTIDADE HÍBRIDA




Por Eduardo Hoornaert

A Irmã Dulce (1914-1992), religiosa que atuou em Salvador da Bahia, ao ser canonizada santa em Roma no domingo, 13 de outubro de 2019 sob o nome Santa Dulce dos Pobres, entra na longa lista de santos e santas que se fizeram marcar por um exercício excepcional da luta a favor dos excluídos da sociedade sem, contudo, contestar a estruturação dessa mesma sociedade no sentido de criar e perpetuar tal exclusão. Para dizer a mesma coisa em outras palavras: a Irmã Dulce, ao exercer admiravelmente a virtude da caridade cristã, não exerce outro requisito do evangelho que consiste no exercício da profecia, ou seja, da destemida proclamação das injustiças existentes nas sociedades em que vivemos. Pelo contrário, há indícios de uma convivência, nem sempre isenta de procedimentos suspeitos (assinar notas frias, por exemplo), com os ‘donos do poder’ na Bahia. Por isso proponho aqui qualificar a santidade da Irmã Dulce de ‘híbrida’, ou seja, resultante do cruzamento entre uma sincera e persistente compaixão por pobres, rejeitados e doentes, de um lado, e uma frequentemente não expressa nem conscientizada aceitação de estruturas injustas, que estão em grande parte na origem dos males acima citados.

Há coisas que só se esclarecem satisfatoriamente mediante considerável recuo no tempo, pois elas pertencem ao que se costuma chamar ‘história de longa duração’. Daí as seguintes anotações históricas.

O comportamento de Jesus de Nazaré

Se focalizamos por uns instantes o comportamento de Jesus de Nazaré, percebemos logo que Ele, vivendo numa sociedade num universo dominado pela ideia da conformidade com opressão e marginalização, se destaca diante da figura do fariseu, paradigmática da sociedade palestina daqueles tempos. Os fariseus são os santos de Israel, em tempos de Jesus. Eles praticam a caridade, dão esmola aos necessitados e não questionam as causas da marginalização de grande parte da população. Aceitam a sociedade tal qual existe. Jesus, pelo contrário, mostra que a pobreza da maioria tem a ver com a riqueza exorbitante de uma pequena minoria, não aceita o modo em que a sociedade está organizada. Por isso, entra numa rota de colisão com os articuladores daquela sociedade a acaba sendo cruelmente assassinado pelas autoridades do país.

Perplexidades no século II.

Os primeiros cristãos herdam um legado que é ao mesmo tempo um desafio: o de serem fiéis e, portanto, de vivenciar uma santidade tão corajosa e tão desafiadora como a de Jesus. Eles sofrem perseguição, enfrentam processos que não raramente levam à morte violenta. É a igreja dos mártires, também chamada igreja das catacumbas.
Há como seguir com certa precisão os primeiros sinais de um hibridismo que se instala no seio da tradição de Jesus ao longo do século II. Podemos seguir o roteiro dessa história comparando – por exemplo – as posturas de um cristão como Marcião (por volta dos anos 140) e as de Justino (que escreve mais ou menos na mesma época). Enquanto Marcião insiste no ‘Deus estranho’ e na ‘loucura da cruz’ (duas imagens de São Paulo), Justino procura um certo reconhecimento, uma certa ‘honorabilidade’, por parte da sociedade dominante. Por trás das divergências entre esses dois representantes do pensamento cristão da época se percebe o cansaço de muitos participantes das comunidades em ficar numa tensão contínua de serem incomodados pelas autoridades, expostas a humilhações e perseguições, mesmo eventualmente à prisão ou morte. Há uma procura de águas mais tranquilas para a navegação cristã. Justino é porta-voz dessas tendências, ele procura aproximação com as autoridades, sintoniza com muitos que gostariam de ser reconhecidos na sociedade pela honradez, a prática de virtudes reconhecidas pelos códigos morais romanos. Enfim, nos escritos de Justino, a herança de Jesus sofre uma importante transmutação. Apavorado com a ousadia de seu contemporâneo Marcião, ele evita falar da vergonhosa morte de Jesus na cruz (veja, por exemplo, em seu ‘Diálogo com Trifão’, o trecho 10,2). A gente sente, em suas colocações, questionamentos típicos da época: como seguir um homem condenado pela justiça? Um homem crucificado, ou seja, que merece ser eliminado do convívio humano (Mt 27, 42)? Como explicar um Jesus derrotado e vergonhosamente humilhado na tortura da cruz? Como explicar Gólgota, o lugar em que até Jesus chegou a desesperar (Mc 15, 34)? Como superar essa suprema vergonha? Isso é uma loucura, escreve Paulo, apenas 20 anos após a morte de Jesus. (1 Cor 2, 1-5). Por sinal, convém evocar aqui os quatro primeiros capítulos dessa Primeira Carta aos Coríntios, que contêm uma longa controvérsia com a ‘sabedoria grega’, um paradigma importante, como veremos em seguida.
Nada mais normal que fugir da cruz e procurar um ‘modus vivendi’ com a mentalidade reinante. Para que o leitor de hoje possa entender o que escrevo aqui, lembro que ao longo dos séculos há uma remodelação da imagem de Jesus crucificado, que hoje se ostenta nos prédios do funcionalismo público no Brasil. Não se pode idealizar a história do cristianismo e se imaginar que a perspectiva da cruz entrou no seio das comunidades sem encontrar resistências. Resistências que, afinal, desembocam num casamento ‘de razão’ entre a mensagem explosiva do evangelho e as conveniências do convívio humano. Ou seja, num hibridismo. Melhor apresentar Jesus como um ser poderoso, acima das contingências humanas. Eis a tendência. Não me aprofundo aqui nesta questão que postula considerações que faço em outros textos publicados em meu blog. Mesmo assim, a quem quiser se aprofundar nessas questões, aconselho a leitura do livro do Padre Jesuíta Jacques Dupuis ‘Rumo a uma Teologia do Pluralismo Religioso’ (São Paulo, Paulinas, 1999).

Pode-se dizer que Justino inaugura a ‘igreja dos confessores’, a substituir a ‘igreja dos mártires’. Em outras palavras: o hibridismo cristão consiste em aceitar, afinal, a ‘sabedoria grega’, uma poderosa onda cultural, vinda de longe. Aqui, o tema da ‘sabedoria grega’ é fundamental. Sua compreensão ajuda a avaliar a atuação da Irmã Dulce, a Santa dos Pobres da Bahia.

A hibridação da santidade a partir do século III.

O processo de hibridação da mensagem cristã toma impulso quando o filósofo alexandrino Plotino chega em Roma, na primeira parte do século III dC. Ele inaugura ali uma escola para jovens da elite romana e passa a ensinar o neoplatonismo. Ao encontrar um ambiente fértil para sua espiritualidade, Plotino alcança em poucos anos um renome extraordinário. Com ele penetra, no âmbito da intelligentia romana (tanto na capital como em cidades menores), uma ‘leitura grega’ (como costumam dizer os teólogos) do homem e da história, ou seja, uma interpretação platônica do ser humano e do sentido de sua existência.
Plotino entra em cena no momento em que o movimento cristão procura se situar numa sociedade fortemente marcada pela helenização da política, da cultura, da moral e dos modos de vida em geral. O Império só é latino nos campos da administração e do exército, sendo ‘grego’ em sua alma, em seu modo de ver o mundo, em sua espiritualidade. Uma compenetração de ideias e modos de vida gregos que têm origem nas sensacionais conquistas militares e culturais de Alexandre Magro, no século III aC, Com ele se inicia um processo de helenização global da cultura, da espiritualidade e da filosofia pela imensidão das regiões dominadas pelas legiões romanas. Uma das expressões mais significativas dessa helenização consiste na divulgação de uma espiritualidade neoplatônica.

Plotino, seguindo Platão, ensina que, abaixo do mundo divino, que é pura luz, onde o mal não penetra, existe a matéria, onde a luz divina só penetra de modo sombreado (o mito da caverna). A matéria é o último reduto das trevas diante da luz divina, a raiz do mal que afeta a vida humana. O corpo, morada de uma alma mergulhada na matéria, é um espaço ambíguo: pode deixar-se seduzir pelas formas vãs da matéria, ou deixar-se fascinar pela luz imaterial. O corpo é prisão e sepulcro, mas ao mesmo tempo abertura para a luz. Tudo depende de como se lida com ele. Seus impulsos têm de ser controlados, não por repressão, mas por amor pelas realidades espirituais, um amor purificado e desprendido da matéria. O homem precisa se elevar acima do mundo material e caminhar para o que é espiritual. Precisa arrancar tudo de si para amar o que é invisível, fechar os olhos diante da materialidade e esperar o Deus que vem, assim como, antes da aurora, nossos olhos esperam a chegada da luz do sol. Quando o sol chega, ele logo toma conta de tudo. A luz espiritual dissipa as trevas da matéria.

Eis um programa de santidade muito diferente do programa profético da Bíblia, mas que – pelo menos nos círculos intelectuais – é incorporado num lapso de tempo relativamente curto.
O caso paradigmático, aqui, é o dos Padres da Igreja, nome dado aos intelectuais do cristianismo entre os séculos III e XIII,  que determinam o pensamento da elite cristã ao longo de mil anos. Intelectuais empenhados em traduzir a mensagem cristã em termos gregos (e depois latinos), em conformidade com a cultura do período. Raros são os Padres da Igreja que conseguem manter o tom profético do evangelho diante da onda neoplatônica. A maioria opta pela hibridação, ou seja, segue a filosofia de Plotino e enxerga nela uma síntese entre o pensamento grego, predominante na época, e a visão bíblica do mundo, própria das minorias cristãs espalhadas pelo Império. Com o tempo, não se consegue mais distinguir com clareza entre cristianismo e neoplatonismo. A perspectiva social, onipresente nos evangelhos, desvanece. O drama da vida passa a se processar entre a alma individual e Deus. Os impulsos do corpo são controlados e possivelmente eliminados, enquanto o ápice da experiência cristã passa a ser o êxtase, a contemplação de Deus.

Ressalto aqui que a interpenetração entre cristianismo e neoplatonismo se processa de forma lenta, ao longo de séculos. Resulta num amálgama, o que dificulta traçar fronteiras claras. Do ‘casamento’ entre a espiritualidade neoplatônica e bíblica nasce uma vivência cristã híbrida que em muitos ambientes perdura até hoje. Linhas entrelaçadas durante tantos séculos só se destrincham mediante uma análise historiográfica em profundidade. Estamos aqui falando de um fenômeno de longa duração, largamente integrado na vivência cristã comum de nossos dias. Como vislumbrar, em meio a tantas manifestações de filantropia, amor à humanidade sofrida, luta pelo bem-estar de outra pessoa, altruísmo, preocupação com o bem-estar e a felicidade alheia, combate ao egoísmo, o profetismo de Jesus? Como aproximar duas imagens que costumam andar separadas no imaginário cristão: a do revolucionário e a do santo? Como entender as palavras de Dom Helder Câmara:

Quando dou uma esmola a um pobre, me chamam santo;
Quando pergunto por que ele é pobre, me chamam comunista?

A imagem do revolucionário, malgrado retificações que afinal atingem pouca gente, costuma estar ligada à violência, enquanto a imagem do santo costuma ser a de alguém que, fugindo de situações violentas e da ‘política’, se apresenta de joelhos e/ou de mãos postas, como se vê em inúmeras igrejas do mundo católico. 

A igreja católica, no momento em que vivemos, acolhe a santidade híbrida da Irmã Dulce. Oxalá tenha a coragem de acolher igualmente a santidade profética de pessoas como Helder Câmara.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

SANTIDADE AO ALCANCE DE TODOS


                     por Maria Clara Bingemer                  

Em meio ao tenebroso momento que vivemos no país chega-nos a exortação apostólica do Papa falando de santidade. Tema abstrato e distante da realidade? perguntarão alguns. Alienação perigosa que remete a claustros, vitrais e fuga do mundo com seus conflitos? indagarão outros. Na verdade, não.  O que propõe o pontífice em sua exortação é uma compreensão mais realista e humana do que seja o ideal de ser santo em um mundo fragmentado e dividido.

Acostumamo-nos a pensar nos santos como aqueles homens e mulheres que vemos retratados em quadros ou vitrais, em geral ajoelhados e em extática contemplação; ou em ascéticos exercícios de piedade que os faz vencerem o mundo e suas ambiguidades e contradições.  Imaginamos tratar-se de pessoas que nada têm a ver com a profanidade das coisas e as limitações das pessoas e buscam a perfeição em uma ascensão ininterrupta a um estado de vida quase angélico e pouco humano.

O que propõe Francisco é, na verdade, o inverso disso.  A santidade não é uma subida, mas sim uma descida ao encontro dos outros.  Por aí passa o ponto de cruzamento entre a espiritualidade e a ética cristãs.  Não se trata de um apelo para alguns poucos escolhidos que se distinguem do resto da humanidade, a qual se debate em dúvidas, tentações e imperfeições.  Pelo contrário, é a radicalização do ser humano como caminho para o encontro com o verdadeiro Deus. 

O caminho da santidade é, segundo Francisco, transfigurar o cotidiano, resgatar em meio ao ordinário o extraordinário. É também vigiar constantemente e estar atento às armadilhas que aparecem a cada momento da vida e superá-las inspirados pela experiência de amar e as opções fundamentais que daí decorrem.   É discernir constantemente não entre o bem e o mal, mas entre o bom e o melhor.  Assim as escolhas vitais qualificarão a existência, não deixando que esta seja arrastada por ideologias que a apequenam e lhe diluem a nobreza.

Na verdade, o que o Papa afirma, ousadamente, é que a santidade é um chamado para todos e não somente para os padres, as freiras, os religiosos.  É um caminho para todo ser humano que não se conforma com este mundo e entende que deve fazer o possível para transformá-lo e humanizá-lo.  É uma vocação para todo aquele ou aquela que não aceita que sua vida tenha que resumir-se a satisfazer pulsões, buscar sensações sofregamente e contentar-se com gratificações superficiais que se desvanecem rapidamente deixando gosto amargo e frustrante na boca e no coração.

Francisco adverte: “Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem a sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora, enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente.”  A santidade não é apenas uma maneira de comportar-se religiosamente ou um estilo de rezar, mas uma maneira de conceber a própria existência enquanto serviço oferecido ao outro.  

E este serviço se deseja ao mesmo tempo fiel a Deus e às realidades humanas.  E essas realidades humanas têm alcance maior do que simplesmente as relações interpessoais ou micro comunitárias.  Mas alcançam as próprias estruturas que condicionam a vida dos outros homens e mulheres e podem favorecer ou contrariar a justiça, a paz e a vida plena para todos.

Neste sentido, santidade não é apenas uma “performance” sempre mais acurada de ascese e crescimento individual, mas um compromisso pela vida, sobretudo a dos outros e dentre estes dos mais vulneráveis e frágeis.  Francisco diz explicitamente que “a defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada, e exige-o o amor por toda a pessoa, independentemente do seu desenvolvimento. Mas igualmente sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura, e em todas as formas de descarte. “

É assim que a santidade está ao alcance de todos aqueles e aquelas que reconhecem sua própria finitude e desejam ser transformados pelo amor que é maior e os faz plenamente humanos. Ser santo não é para campeões de perfeição, mas para pecadores que se reconhecem como tais, mas se deixam configurar pela graça de Deus e pelo apelo que vem da alteridade desfigurada de todo aquele que sofre e necessita cuidado e atenção.

Como diz o grande filósofo católico francês Jean Luc Marion: “Pecadores e traidores é o que mais existe na Igreja.  O extraordinário, o surpreendente, é que esta mesma Igreja ainda seja capaz de produzir santos.“ Francisco parece acreditar nesta capacidade.  E não a restringe apenas a um seleto grupo de especialistas, mas a estende ampla e universalmente a todo aquele ou aquela que desejar viver plena e radicalmente sua condição humana criada e redimida pelo Deus da vida.

Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de  Testemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial, entre outros livros.

 Copyright 2018 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

terça-feira, 26 de maio de 2015

SANTIDADE POLÍTICA

Por Marcelo Barros


Depois de longas discussões e atropelos, o Vaticano retomou o processo de canonização de Dom Oscar Romero. Nesse último sábado, 23 de maio, na praça principal de El Salvador, a Igreja Católica o proclamou beato, etapa anterior ao reconhecimento oficial de que ele viveu uma santidade que é exemplo para todos. Do mesmo modo, no domingo 03 de maio, com permissão de Roma, a arquidiocese de Olinda e Recife abriu o processo de canonização de Dom Helder Camara.

 Conforme a fé cristã, todas as pessoas batizadas são santificadas pela graça divina. Toda pessoa humana é imagem e chamada a ser semelhante a Deus. Então, vivos e falecidos, somos todos santos e santas, não por virtudes que possamos ter, mas pela ação do Espírito Divino em nós. Isso deve ficar claro: o papa ou a Igreja não tornam ninguém santo. Deus é que santifica todos os seus filhos e filhas, espalhados pelo mundo, pelos quais Jesus deu a vida (Jo 11, 52). Seja na Igreja Católica, seja nas Igrejas Ortodoxas, canonizar uma pessoa significa apenas declarar que, além de ter sido santificado/a por Deus, aquela pessoa é exemplo de santidade para todo mundo.

Embora todos/as os batizados/as sejam santificados, desde o início, o povo cristão sempre teve o costume de venerar especialmente algumas figuras especiais de irmãos e irmãs falecidos, cujo testemunho de vida pudesse animar o povo no caminho da fé. Assim, foram reconhecidos como exemplos de santidade os apóstolos e mártires. Eram reconhecidos como exemplos de santidade por terem dado a sua vida para que, no mundo, se realize o projeto divino. Nos primeiros séculos, os santos eram canonizados por aclamação popular. (Canonizar significa colocar o nome da pessoa no cânon, isso é, na lista dos santos reconhecidos pela Igreja como exemplos de santidade). A partir da Idade Média, surgiu o processo de canonização.

O objetivo da canonização é estimular todo o povo de Deus a percorrer o mesmo caminho de santidade. O processo de canonização analisa a vida e a obra do santo/a em questão. Até agora, se pede o reconhecimento de ao menos três milagres, operados por Deus, através da sua intercessão. Hoje, a noção de milagres deve ser revista porque a ciência atual tem uma visão bem mais ampla de cura. Em muitas religiões e tradições espirituais, existem curadores/as e pessoas que fazem milagres. Com todo respeito por essas tradições, nem sempre essas figuras de milagreiros são exemplos de ética e de vida justa. 

Também a própria Igreja mudou a forma de compreender a santidade. No decorrer da história, foram canonizados santos guerreiros, conquistadores e até cardeais que, como São Roberto Belarmino, em sua vida, dirigiram tribunais de inquisição e presidiram sessões de tortura contra cristãos considerados hereges. Sem negar que tais pessoas possam ser santos, no sentido de estar em Deus e com Deus, de fato, atualmente, só fundamentalistas e grupos terroristas considerariam tais pessoas como exemplos de santidade. Também devemos reconhecer: em outras épocas,  o modelo dominante de santidade era de ascetas que mortificavam o corpo. Quase não comiam e pareciam viver fora do mundo real. Por isso, alguns critérios do processo de canonização precisam ser revistos e modificados à luz do Evangelho.

Ao reconhecer figuras como Oscar Romero e Helder Camara como santos, o magistério da Igreja parece propor outro modelo de santidade, baseado principalmente na capacidade de viver a solidariedade humana e defender a vida e a justiça em todas as suas dimensões. Cada vez mais, o mundo precisa desse tipo de santidade social e política a serviço do reinado divino no mundo. Em si, Oscar Romero e Helder Camara nem precisariam de canonização. Ambos já são aclamados como exemplos por todo o povo. No entanto, se a hierarquia da Igreja Católica quer reconhecê-los como santos exemplares, Deus queira que seja para que todos nós nos comprometamos a seguir o exemplo e a profecia que eles nos deixaram.

No ano 2000, a Igreja Anglicana colocou no pórtico da Catedral de Westminster, em Londres, figuras de cristãos que os anglicanos consideram santos, mesmo sendo de outras Igrejas. Assim, antes do Vaticano reconhecer o bispo católico Oscar Romero como santo, o papa Bento XVI visitou Londres em 2010. Ao entrar no pórtico da Catedral anglicana, passou pela estátua de Dom Romero, já reconhecido como santo pelos anglicanos.


O que atualmente, no céu, Dom Romero e Dom Helder mais gostariam de ver na terra é toda a Igreja universal seguir as propostas de renovação eclesial feitas pelo papa Francisco, na linha que eles dois, em seu tempo, já ensaiavam. Certamente, os obstáculos existem, mas, como diz a carta aos hebreus: “Cercados por tais testemunhas, (Romero e Helder Camara) libertemo-nos dos obstáculos e corramos na direção do Cristo” (Hb 12, 1).