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terça-feira, 24 de março de 2020

ÁGUA, NECESSIDADE E DIREITO DE TODOS OS SERES VIVOS




Marcelo Barros

A ONU proclama o dia 22 de março como dia internacional da água. Cada dia mais é urgente que a humanidade inteira se dê conta de que a defesa das águas é intimamente ligada à própria sobrevivência humana e à defesa da vida no planeta.

No Rio de Janeiro, as pessoas precisam comprar água mineral para beber e reclamam que a água das torneiras vem com cor e aparência suspeitas. Os rios, cuja vida, as mineradoras  em Minas Gerais e na Amazônia destruíram, continuam assassinados. Em várias regiões do Brasil, ao mesmo tempo que as chuvas provocam destruições, a carência de água potável é cada vez mais sentida. Em várias regiões do mundo, governos mantêm conflitos pelo uso de rios que banham as fronteiras de dois ou mais países. Cada rio é reivindicado como propriedade nacional.
Nestes dias, assustados por notícias de que o Coronavírus se espalha por diversos países do mundo, cientistas começam a ligar a epidemia que nos ameaça com a destruição da natureza, a poluição das águas e o desequilíbrio do clima no planeta Terra. Pode ser que o vírus tenha se espalhado pela poluição das águas.
Os cientistas concordam que a vida surgiu de dentro das águas. Há milhões e milhões de anos, os seres humanos e os grandes mamíferos evoluíram de seres aquáticos. A água é bem essencial para a vida. Não se trata só de recurso econômico e instrumento de poder político. Em muitas tradições espirituais, a água é sinal e instrumento do amor divino. Alguns mitos indígenas contam que o primeiro sorriso divino se deu com as águas. A divindade sorriu de felicidade, quando contemplou a beleza das águas, sua primeira criação, útero de toda a vida no planeta Terra. Na Bíblia, a criação de todo o universo começa pelo Espírito Divino que pairava sobre as águas. É essa ação amorosa divina que está por princípio (expressão bíblica do Gênesis) e por trás ou no plano mais íntimo de cada ser criado.
Assim sendo, Deus só pode estar muito feliz pelo fato da ONU ter consagrado o dia 22 de março como “Dia internacional de proteção e defesa das águas”. Em outras épocas, não seria necessário dedicar um dia do ano ao problema da água. Agora, sim. No século XXI, mais de um bilhão de pessoas sofre carência de água potável e mais de 80% das doenças que, no mundo inteiro, dizimam crianças e pobres, estão ligadas ao uso de águas poluídas ou impróprias para o consumo humano. Além disso, em todos os continentes, Organismos internacionais da ONU e da sociedade internacional civil trabalham para que a água seja declarada como direito básico universal de todas as pessoas e todos os seres vivos. A água não poderia jamais ser mercantilizada e vendida como propriedade privada de multinacionais que a exploram e, através da apropriação das fontes de água, dominam povos inteiros. Índios e lavradores se reúnem em conferências regionais para curar a Terra e fazer carinho à Mãe Água. Da sociedade civil internacional sobe o apelo cada vez maior: vamos libertar a água da prisão humilhante e indigna da mercantilização e privatização.
Toda pessoa e até todo ser vivo têm direito de viver e de receber uma cota de água potável e gratuita por dia (50 litros?) para beber, cozinhar e para a sua higiene. As constituições nacionais da Bolívia e do Equador privilegiam a noção indígena do “bem viver” como meta a qual o Estado e a sociedade civil devem garantir para todos. A Constituição Bolivariana da Venezuela também defende o direito universal à Água que não deve ser privatizada, nem vista apenas como mercadoria.
Para os cristãos, no evangelho, Jesus proclama: “Se alguém tiver sede, venha a mim e beba toda pessoa que crê em mim. Como diz a Escritura: do interior do Messias, jorrarão rios de água viva” (Jo 7, 37- 39). Pela ressurreição, que celebraremos nesta Páscoa, Jesus derrama sobre nós o seu espírito de amor, como água que jorra para a vida eterna e nos faz ver em toda a água que existe no mundo sinal do amor divino.


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

terça-feira, 26 de março de 2019

QUEREMOS NOSSOS MÁRTIRES VIVOS



Por Marcelo Barros

Mártir é um termo grego e significa testemunha. Nas religiões, é o título das pessoas que arriscam a vida e sofrem perseguições por causa da fé. No entanto, desde antigamente, se consideram mártires todas as pessoas que sofrem perseguições pela justiça e pela realização da paz eco-social que a tradição judaico-cristã considera “projeto divino para o mundo”. Conforme o evangelho, Jesus afirmou: “Bem-aventuradas as pessoas que sofrem perseguições por causa da justiça, (se creem em Deus ou não, se pertencem a uma Igreja ou não), porque delas é o reino dos céus” (Mt 5, 10).

Há poucos dias, completou-se um ano do martírio de três pessoas ligadas aos movimentos sociais. Na noite do 14 de março de 2018, no centro do Rio de Janeiro, foram metralhados a vereadora Marielle Franco e o seu motorista Anderson Gomes. Três dias antes, no Pará, tinham assassinado o militante social Pedro Sérgio Almeida, representante da Associação dos Caboclos e Quilombolas da Amazônia. Ele cobrava da prefeitura de Macarema a falta de licença ambiental da empresa Hydro que joga detritos nos rios do Pará. Um ano depois, outros irmãos e irmãs deram a vida pela mesma causa, além das centenas de pessoas que morreram, vítimas da Vale do Rio Doce em Brumadinho e de tantas outras que estão em situação de riscos.

No Brasil atual, defender o projeto da Justiça e lutar pela Vida significa correr riscos e enfrentar a morte. No Brasil e em toda América Latina, há mais de 50 anos, milhares de pessoas, homens e mulheres, sofreram torturas e muitas foram assassinadas por estarem inseridas na caminhada de libertação de nossos povos. A cada ano, na vigília de 24 de março, em toda América Latina, recordamos o martírio do bispo Oscar Romero, que deu a vida para defender os pobres de El Salvador e foi assassinado por milícias da ditadura militar como alguém de esquerda. Em nossos dias, o papa Francisco proclamou Oscar Romero como santo oficial da Igreja. O papa também iniciou o processo de canonização do índio Sepé Tiaraju, cacique que deu a vida na luta pela liberdade do povo guarani. São sinais de que a Igreja volta a valorizar como mártires, não só os/as que foram mortos por inimigos da fé, mas todas as que deram a vida para realizar o projeto divino de um mundo mais justo e de paz.

Desde os tempos antigos, também merecem o nome de mártires as pessoas que sofreram perseguições e sobreviveram. Em 1986, no 6º Encontro nacional das comunidades eclesiais de base, em Trindade, GO, as comunidades afirmaram: “Nós queremos nossos mártires vivos e não mortos”. Assim, concluíram: nesses tempos de martírio, todas as pessoas que trabalham pela justiça e pela libertação do povo têm de tomar cuidado e se proteger, sem com isso desistir ou diminuir a intensidade da sua entrega. 

Quem é cristão não pode deixar de ligar essas mortes violentas que acontecem cada dia ao martírio de Jesus. As Igrejas afirmam que, em cada eucaristia, atualizam a doação de Jesus em sua cruz. No entanto, quem está realmente vivendo a paixão e seguindo os passos de Jesus no seu testemunho de dar a vida pelos outros, parece não ser tanto religiosos/as ou pessoas que dizem fazer isso por causa da fé. Mesmo sem vinculação com a fé religiosa, eles e elas dão a vida pelas causas da justiça e da libertação. Quando as comunidades de base afirmam: “Nós queremos nossos mártires vivos”, estão gritando que precisamos de uma Igreja toda ela martirial, ou seja, testemunha da justiça e da libertação no mundo.

As Igrejas celebram a paixão de Jesus e muitos irmãos e irmãs, padres, pastores e religiosos/as vivem uma vida de muita doação e entrega às causas do povo mais empobrecido. Essa doação não é como um apêndice da sua fé e devoção a Deus. Ao contrário, é o núcleo fundamental de sua espiritualidade no seguimento de Jesus. Infelizmente, até hoje, muitos pastores e fieis ainda parecem não ligar o que dizem de Deus e a luta pela justiça que Jesus proclamou como bem-aventurança. Talvez por isso, muitas pessoas que vivem mais profundamente o testemunho da solidariedade e da entrega de suas vidas no compromisso pela justiça e pela libertação de todos prefiram nem falar de Deus. Vivem nas periferias urbanas, na luta das mulheres, na causa dos povos indígenas e na defesa das águas. E o mais estranho é que irmãos e irmãs ligados à Igreja, que, por causa da sua fé, consagram a sua vida às causas da justiça e da libertação de todos, nem sempre contam com o apoio e compreensão dos próprios pastores da Igreja.

Provavelmente, esse distanciamento da vida real das lutas do povo, por parte de muitos eclesiásticos, vem do fato de que a teologia oficial das Igrejas ainda compreende a cruz e a morte de Jesus como sacrifício religioso,  oferecido a Deus para salvar as pessoas dos seus pecados. É uma fé que separa a morte de Jesus de tantas outras mortes violentas, ocorridas, a cada dia, pela justiça. O martírio de Marielle e de tantos mártires da justiça, nos desafia a compreender a cruz de Jesus como martírio e não como sacrifício. Aí sim, a fé na ressurreição de Jesus nos faz ver além da morte. A caminhada da Igreja de base e sua inserção nas lutas de libertação nos ensinam que o martírio não é apenas uma forma de morrer, mas, principalmente, uma forma de viver. Somos testemunhas de que esse mundo tem remédio e apesar de todas as forças do mal, seguiremos nessa caminhada.  


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

terça-feira, 8 de novembro de 2016

A COMUNHÃO DE TODOS OS SERES VIVOS


Por Marcelo Barros
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Nesse domingo, 06 de novembro, a Igreja Católica no Brasil celebrou a festa de Todos os Santos. Com essa celebração, a liturgia quer sinalizar que existe uma comunhão profunda entre todos os batizados. Tanto os cristãos da terra quanto os que já partiram dessa vida formam uma só unidade em Cristo. Nesse mesmo domingo, a ONU celebrou “o dia internacional para a prevenção da exploração do meio ambiente”. Há uma relação entre as duas comemorações. De fato, o motivo mais profundo do cuidado com a Terra e a natureza é que formamos com todos os seres vivos uma só comunidade da Vida e essa comunidade depende do ecossistema em que vive: a Terra, nossa casa comum.
Em todo o Brasil, as comunidades católicas já começam a receber os subsídios para a Campanha da Fraternidade de 2017 que será sobre o cuidado e a proteção dos oito biomas que estão no território brasileiro e que atualmente têm sua integridade ameaçada pela destruição ecológica.
Governos e instituições transnacionais, principais responsáveis pela destruição da natureza percebem que os desastres ecológicos lhes têm dado prejuízo. Por isso, querem preveni-los, mas sem mudar o percurso de exploração que o Capitalismo impõe. Em todos os países do Sul, continuam apoiando grandes empresas mineradoras que, para explorar o subsolo,  destroem terras, matas e rios. Promovem a agroindústria baseada em agrotóxicos e sementes transgênicas. Enquanto,  o processo econômico continuar a ter como objetivo o lucro acima de tudo, não há esperança de proteção da natureza. A própria ONU que propõe a prevenção sabe que precisa tomar a coragem de ser coerente com essa proposta.
Atualmente, a Terra abriga mais de sete bilhões de pessoas. Esse número é quase sete vezes maior do que em 1830, época da revolução industrial e início do processo de crescimento acentuado das áreas urbanas. Nos próximos 50 anos, a previsão para o mundo é de 9 bilhões de pessoas.  Como viverá essa população, se metade dos recursos hídricos disponíveis para consumo humano e 47% da área terrestre já são utilizados? Estudos afirmam: a relação entre crescimento populacional e o uso de recursos do Planeta já ultrapassou em 20% a capacidade de reposição da biosfera e esse déficit aumenta cerca de 2,5% cada ano. Isso quer dizer que a diversidade biológica – de onde vêm novos medicamentos, novos alimentos e materiais para substituir os que se esgotam – está sendo destruída muito mais rápido do que pode ser reposta. Esse desequilíbrio está crescendo. Até 2030, 70% da biodiversidade poderá ter desaparecido.
Graças a Deus, temos uma esperança. A cada dia, no mundo inteiro, cresce o número de pessoas e grupos que aprofundam a espiritualidade e se põem em diálogo para buscar novos caminhos. O resgate da dignidade da Terra, da Água e do Ar está na ordem do dia de grupos espirituais das mais diversas tradições.
Em toda a América Latina, um dos mais importantes sinais de esperança para a causa ecológica é o fortalecimento do movimento indígena. No Brasil, como em outros países, apesar da insensibilidade de governos e cumplicidade indiferente da sociedade dominante, diversos povos indígenas têm conseguido sobreviver, se reorganizar e refazer seu modo de vida tradicional. Nos Andes, na Amazônia e no Centro-oeste, cuidam da natureza e propõem como novo paradigma de civilização o Bem-Viver. O cuidado com a Terra, a Água e todos os seres vivos é elemento essencial desse processo cultural e religioso.
As próprias Igrejas cristãs que, durante séculos, pareciam não ligar o ato criador de Deus com sua atuação salvadora na história, nas últimas décadas têm todas aprofundado esta questão. O papa Francisco publicou uma encíclica sobre o cuidado da casa comum e propondo como saída para essa crise uma ecologia integral que integre a justiça socioambiental com a espiritualidade de um novo cuidado com a natureza. Todos nós somos implicados e envolvidos por essa celebração amorosa da Vida.  



 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor.