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terça-feira, 26 de março de 2019

QUEREMOS NOSSOS MÁRTIRES VIVOS



Por Marcelo Barros

Mártir é um termo grego e significa testemunha. Nas religiões, é o título das pessoas que arriscam a vida e sofrem perseguições por causa da fé. No entanto, desde antigamente, se consideram mártires todas as pessoas que sofrem perseguições pela justiça e pela realização da paz eco-social que a tradição judaico-cristã considera “projeto divino para o mundo”. Conforme o evangelho, Jesus afirmou: “Bem-aventuradas as pessoas que sofrem perseguições por causa da justiça, (se creem em Deus ou não, se pertencem a uma Igreja ou não), porque delas é o reino dos céus” (Mt 5, 10).

Há poucos dias, completou-se um ano do martírio de três pessoas ligadas aos movimentos sociais. Na noite do 14 de março de 2018, no centro do Rio de Janeiro, foram metralhados a vereadora Marielle Franco e o seu motorista Anderson Gomes. Três dias antes, no Pará, tinham assassinado o militante social Pedro Sérgio Almeida, representante da Associação dos Caboclos e Quilombolas da Amazônia. Ele cobrava da prefeitura de Macarema a falta de licença ambiental da empresa Hydro que joga detritos nos rios do Pará. Um ano depois, outros irmãos e irmãs deram a vida pela mesma causa, além das centenas de pessoas que morreram, vítimas da Vale do Rio Doce em Brumadinho e de tantas outras que estão em situação de riscos.

No Brasil atual, defender o projeto da Justiça e lutar pela Vida significa correr riscos e enfrentar a morte. No Brasil e em toda América Latina, há mais de 50 anos, milhares de pessoas, homens e mulheres, sofreram torturas e muitas foram assassinadas por estarem inseridas na caminhada de libertação de nossos povos. A cada ano, na vigília de 24 de março, em toda América Latina, recordamos o martírio do bispo Oscar Romero, que deu a vida para defender os pobres de El Salvador e foi assassinado por milícias da ditadura militar como alguém de esquerda. Em nossos dias, o papa Francisco proclamou Oscar Romero como santo oficial da Igreja. O papa também iniciou o processo de canonização do índio Sepé Tiaraju, cacique que deu a vida na luta pela liberdade do povo guarani. São sinais de que a Igreja volta a valorizar como mártires, não só os/as que foram mortos por inimigos da fé, mas todas as que deram a vida para realizar o projeto divino de um mundo mais justo e de paz.

Desde os tempos antigos, também merecem o nome de mártires as pessoas que sofreram perseguições e sobreviveram. Em 1986, no 6º Encontro nacional das comunidades eclesiais de base, em Trindade, GO, as comunidades afirmaram: “Nós queremos nossos mártires vivos e não mortos”. Assim, concluíram: nesses tempos de martírio, todas as pessoas que trabalham pela justiça e pela libertação do povo têm de tomar cuidado e se proteger, sem com isso desistir ou diminuir a intensidade da sua entrega. 

Quem é cristão não pode deixar de ligar essas mortes violentas que acontecem cada dia ao martírio de Jesus. As Igrejas afirmam que, em cada eucaristia, atualizam a doação de Jesus em sua cruz. No entanto, quem está realmente vivendo a paixão e seguindo os passos de Jesus no seu testemunho de dar a vida pelos outros, parece não ser tanto religiosos/as ou pessoas que dizem fazer isso por causa da fé. Mesmo sem vinculação com a fé religiosa, eles e elas dão a vida pelas causas da justiça e da libertação. Quando as comunidades de base afirmam: “Nós queremos nossos mártires vivos”, estão gritando que precisamos de uma Igreja toda ela martirial, ou seja, testemunha da justiça e da libertação no mundo.

As Igrejas celebram a paixão de Jesus e muitos irmãos e irmãs, padres, pastores e religiosos/as vivem uma vida de muita doação e entrega às causas do povo mais empobrecido. Essa doação não é como um apêndice da sua fé e devoção a Deus. Ao contrário, é o núcleo fundamental de sua espiritualidade no seguimento de Jesus. Infelizmente, até hoje, muitos pastores e fieis ainda parecem não ligar o que dizem de Deus e a luta pela justiça que Jesus proclamou como bem-aventurança. Talvez por isso, muitas pessoas que vivem mais profundamente o testemunho da solidariedade e da entrega de suas vidas no compromisso pela justiça e pela libertação de todos prefiram nem falar de Deus. Vivem nas periferias urbanas, na luta das mulheres, na causa dos povos indígenas e na defesa das águas. E o mais estranho é que irmãos e irmãs ligados à Igreja, que, por causa da sua fé, consagram a sua vida às causas da justiça e da libertação de todos, nem sempre contam com o apoio e compreensão dos próprios pastores da Igreja.

Provavelmente, esse distanciamento da vida real das lutas do povo, por parte de muitos eclesiásticos, vem do fato de que a teologia oficial das Igrejas ainda compreende a cruz e a morte de Jesus como sacrifício religioso,  oferecido a Deus para salvar as pessoas dos seus pecados. É uma fé que separa a morte de Jesus de tantas outras mortes violentas, ocorridas, a cada dia, pela justiça. O martírio de Marielle e de tantos mártires da justiça, nos desafia a compreender a cruz de Jesus como martírio e não como sacrifício. Aí sim, a fé na ressurreição de Jesus nos faz ver além da morte. A caminhada da Igreja de base e sua inserção nas lutas de libertação nos ensinam que o martírio não é apenas uma forma de morrer, mas, principalmente, uma forma de viver. Somos testemunhas de que esse mundo tem remédio e apesar de todas as forças do mal, seguiremos nessa caminhada.  


MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

sexta-feira, 1 de abril de 2016

QUE BRASIL QUEREMOS: JUSTO OU APENAS RICO?


por Leonardo Boff



A exaltação dos ânimos nos partidos e na sociedade nos dificultam discernir o que está, efetivamente, em jogo: que Brasil queremos? Um país justo ou um país rico? Logicamente o ideal seria termos um país justo e simultaneamente rico. Mas os caminhos que escolhemos para este propósito são diferentes. Uns o impedem, outros o possibilitam.

Se quisermos que seja justo devemos optar pelo caminho da democracia republicana, quer dizer, colocar o bem geral de todos acima do bem particular. A consequência é que haverá mais políticas sociais que atendem os mais vulneráveis diminuindo assim a nossa perversa desigualdade social. Em outras palavras, haverá mais justiça social, mais participação nos bens disponíveis e com isso uma diminuição da violência. Foi o que fez o governo Lula-Dilma tirando da fome e da miséria cerca de 36 milhões de pessoas junto com outros programas sociais.

Se quisermos um país rico optamos pela democracia liberal (que guarda traços de sua origem burguesa) dentro do modo de produção capitalista ou neoliberal. O neoliberalismo coloca o bem privado acima do bem comum. Em função disso, prefere investimentos em grandes projetos e dar facilidades às indústrias para que sejam eficientes e que consigam conquistar consumidores para seus produtos. Os pobres não são esquecidos mas apenas recebem políticas pobres.

Thomas Piketty mostrou em seu livro O Capitalismo no século XXI que o melhor caminho jamais excogitado para se alcançar ariqueza é o capitalismo. Mas reconhece que lá onde ele se instala, logo se introduzem desigualdades, pois ele é montado para acumulação privada e não para a distribuição da renda. Mostra-o melhor em seu outro livro A economia da desigualdade (Intrínseca 2015). Em outras palavras, as desigualdades são injustiças sociais, pois a riqueza é feita gerando pobreza: impõe arrocho salarial, ajustes econômicos que prejudicam as políticas sociais e laborais e dificulta a ascensão das classes do andar de baixo. Predomina a concorrência e não a solidariedade. O mercado comanda a política, pratica-se a privatização de bens públicos e o Estado mínimo não deve intervir, cabendo-lhe a segurança e a garantia dos serviços básicos.

E mais: a busca desenfreada da riqueza de alguns implica a exploração dos bens e serviços naturais hoje quase exauridos a ponto de termos tocado os limites físicos da Terra. Um planeta limitado não  suporta um crescimento ilimitado de riqueza. Precisamos de quase uma Terra e meia para atendermos as demandas humanas, o que a torna insustentável, inviabilizando a própria reprodução do sistema do capital.

A macroeconomia capitalista é imposta pelos países centrais, especialmente pelos os USA, como forma de controle e de alinhamento forçado de todos às estratégias imperiais. Mas como observou o macroeconomista da Universidade de Oregon, defensor do capitalismo, Mark Thoma, agora ele já não funciona mais, pois a crise sistêmica atual parece insolvente. A ordem capitalista está conhecendo o seu limite.

Qual é o pomo de discórdia na política atual no Brasil? A oposição optou pela macroeconomia neoliberal. Líderes da oposição proclamam que os salários são altos demais, que toda a Petrobrás bem como o Banco do Brasil, a Caixa e os Correios deveriam ser privatizados. Já conhecemos esta fórmula. Ela é cruel para os pobres e danosa para os trabalhadores, pois favorece a acumulação e assim as desigualdades sociais. O capitalismo é bom para os capitalistas mas ruim para a maioria da população. A riqueza não pode ser feita à custa da pobreza e da injustice social.

Acresce ainda um elemento geopolítico que não cabe aqui detalhar. Os USA não toleram uma potência emergente como o Brasil, associada aos BRICS e à China que mais e mais penetra na América Latina. Há que desestabilizar os governos progressistas e populares com a difamação da política e de seus líderes.

O PT e os partidos e grupos progressistas querem o caminho da democracia republicana e participativa. Visam a garantir as conquistas sociais e alargá-las. Não é nada seguro que a vitória do neoliberalismo vai mantê-las,  pois obedece à outra lógica, a do capital que é a maximalização dos lucros.

O atual governo busca um caminho próprio na economia e na política internacional, com a consciência de que, dentro de pouco, a economia mundial será principalmente de base ecológica. Aí emergiremos como uma potência, capaz de ser a mesa posta para as fomes e as sedes do mundo inteiro. Esse dado não pode ser desconsiderado. Mas a centralidade mesmo será superar a vergonhosa desigualdade social, a pobreza e a miséria com políticas sociais com acento na saúde e na educação.

A oposição ferrenha ao governo Lula-Dilma tem como motor propulsor a liquidação deste projeto republicano pois lhe custa aceitar a ascenção dos pobres e de sua participação na vida social.
Mas é este projeto que responde à angústia que devorava Celso Furtado durante toda sua vida: “por que o Brasil sendo tão rico, é pobre e com tantas virtualidades continua atrasado”? A resposta dada por Lula-Dilma mitiga a queixa de Celso Furtado é boa não só para os pobres mas para todos.

Compreender esta questão é entender o foco central da crise política brasileira que subjaz às demais crises.

*Leonardo Boff é articulista do JB on line, ecologosita e escritor