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quinta-feira, 12 de março de 2020

ESPIRITUALIDADE NO MUNDO DESIGUAL




Frei Betto

         Ao tratar de espiritualidade, convém percorrer a via que vai do mais íntimo ao mais genérico – como a sociedade se organiza para assegurar vida à população. Tanto a subjetividade quanto a política são dois polos desta mesma equação chamada vida. Esta brota na sexualidade e se viabiliza, como possibilidade, nas estruturas sociais, produtivas, comerciais, ou seja, nos atos políticos.
         Certa tradição atrelou a espiritualidade à moralidade e, assim, confundiu e dificultou as coisas. Por exemplo, a ideia de que um Deus distante, que habita o cume da montanha. Devemos escalá-la, levando às costas as pedras das virtudes morais. No meio da subida, pecamos, a pedra rola, e nos obriga ao eterno recomeço, como no mito de Sísifo.
         Deus não está “lá em cima”. O príncipe de Florença perguntou a Galileu se ele havia visto Deus através de seu telescópio. Diante da resposta negativa, retrucou: “Como devo acreditar em seu invento se não vê Aquele que habita os céus?” Galileu respondeu: “Se Deus não se encontra em cada um de nós, ele não se encontra em lugar nenhum”.
         Na espiritualidade evangélica não há montanhas a escalar, nem atestado de boa moral para se aproximar de Deus. Há Deus, que é Pai/Mãe amoroso, e nos ama incondicionalmente, não importa o que façamos, desde que abramos o coração a seu amor, como comprova a parábola do filho pródigo (Lucas 15, 11-32) e o encontro de Jesus com a samaritana (João 4, 1-42).
         Há lei para tudo, menos para o amor, li na traseira de um caminhão na Via Dutra. O árabe que obriga a filha a casar com o vizinho é capaz de impor a sua vontade, mas não que ela ame o marido. A liberdade é a condição do amor. Em nossa liberdade podemos acolher ou não o amor de Deus. Ele, porém, sempre nos ama, pois amar é da essência mesma de seu ser.
         Na parábola do filho pródigo, o moço comportado, que ficou em casa trabalhando com o pai, não teve festa. O outro, que saiu de casa e dilapidou a herança com farras, foi recebido com festa sem ter que se desculpar. Bastou o pai vê-lo retornar para preparar a festa de acolhida. “Deus amou primeiro”, diz João (1 João 4, 10). A iniciativa do amor é de Deus.
         O eixo da espiritualidade de Jesus era a experiência do amor de Deus e o compromisso com os oprimidos. Em um mundo como o nosso, regido pela globocolonização ou, como prefere o professor Milton Santos, globototalitarismo neoliberal, que promove o desemprego e a exclusão social de bilhões de pessoas, a espiritualidade cristã deve manter-se atenta ao episódio do encontro de Jesus com o homem rico (Marcos 10, 17-22). Este indaga o que fazer para ganhar a vida eterna. Jesus responde: “Você conhece os mandamentos” e recita-os. Curioso que Jesus só cita os mandamentos que dizem respeito ao próximo, e nenhum que diz respeito a Deus. O homem confirma que, desde pequeno, cumpre todos.
         Marcos então sublinha que “Jesus o amou” para, em seguida, recomendar ao homem: “Vai, vende os teus bens, distribui aos pobres e, depois, vem e me segue”. Diz o Evangelho que “o homem foi embora triste e aborrecido porque era muito rico”.
         O curioso é que, tendo-o amado, Jesus foi exigente com ele. Eis o conceito de amor de Jesus: quem ama é verdadeiro com o outro, ainda que a verdade doa. Quem não é verdadeiro consigo mesmo e com o outro, não ama. Amar é fazer bem ao outro, ainda que ele receba isso como um mal, como o opressor indignado por lhe privarem dos meios de oprimir. Jesus, ao amar, levava as pessoas a encontrarem a verdade, mesmo que isso criasse nelas antipatia por ele, como foi o caso dos fariseus.
         Ao homem rico, Jesus demonstrou que não se pode acercar-se de Deus sem assumir a luta por justiça. A exigência, que tanto frustrou a expectativa do abastado, era simples: dê o seu bem maior, a vida, à causa de libertação dos pobres. De fato, em uma sociedade desigual como a nossa, tudo que fazemos favorece um dos polos, o da opressão ou o dos oprimidos. Nossa balança pende para o lado escolhido por Jesus?

Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus – fé e espiritualidade no mundo atual” (Companhia das Letras), entre outros livros.


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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

BRASIL, NAÇÃO MUITO DESIGUAL





Frei Betto

       Duas pesquisas acabam de nos informar que a situação social do Brasil sofreu considerável piora nos dois últimos anos do governo Temer. A pesquisa extraoficial, feita pela Oxfam Brasil e intitulada “País estagnado, um retrato das desigualdades brasileiras”, foi divulgada em 26/11. A oficial, tornada pública em 5/12, é a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE.

       A redução da desigualdade estagnou entre 2016 e 2017. Hoje, a renda média da metade mais pobre da população é de R$ 787,69 por mês, inferior ao valor do salário mínimo (R$ 954). Sessenta por cento dos brasileiros sobrevivem com menos de um salário mínimo por mês.

       O Brasil recuou cinco anos na questão social. Voltou ao patamar de 2012. A população em situação de extrema pobreza, com renda inferior a R$ 8 por dia, passou de 13,5 milhões de pessoas, em 2016, para 15,2 milhões de pessoas, em 2017. Em um ano foram condenados à miséria 1,7 milhão de brasileiros.  

       Ampliou-se o número dos que sobrevivem abaixo da linha da pobreza, com renda diária inferior a R$ 22. Em 2016, eram 52,8 milhões de pessoas. Em 2017, 54,8 milhões sobreviviam com menos de US$ 5,50 por dia (R$ 406 por mês), patamar que, segundo o Banco Mundial, designa o nível de pobreza. Três vezes a população do Chile.

       Em 2016, os pobres tinham renda média de R$ 217,63. No ano seguinte, R$ 198,03. Perda de 9%. Já os 10% mais ricos tiveram 2,09% de aumento na renda, que chegou a R$ 9.519,10 por mês. Desses 10%, 12 milhões ganharam até R$ 17,8 mil de renda tributável. E a parcela de 1% mais rico, que abrange 1,2 milhão de brasileiros, teve rendimento médio superior a R$ 55 mil por mês.

       Para que todo esse contingente populacional deixe a pobreza é preciso investir R$ 10,2 bilhões por mês ou R$ 187 mensais por pessoa! O governo prevê destinar ao Bolsa Família, em 2019, R$ 30 bilhões. Erradicar a extrema pobreza no Brasil significa canalizar à área social quatro Bolsas Famílias.

       Para reduzir a desigualdade não bastam medidas conjunturais. São necessárias atitudes estruturantes, como a reforma tributária. Quem ganha mais deve pagar mais impostos. O sistema fiscal precisa ser progressivo, como em muitos países. Não adiantam ajustes fiscais sem políticas sociais. Nem cortar gastos da administração pública sem promover a reforma tributária com novas alíquotas de imposto de renda para os mais ricos. É preciso reduzir a tributação sobre bens e serviços e aumentá-la sobre rendimentos e patrimônios. De que vale salvar as contas do governo e jogar a maior parte da nação no desamparo?

       Se em 20 anos o nosso país reduziu pela metade a mortalidade infantil, ampliou de cinco para oito os anos de escolaridade e diminuiu o número de famílias na miséria, isso não resultou apenas da austeridade fiscal. Foi sobretudo fruto de políticas sociais.   

  Porém, nada indica que estamos na direção certa. O Judiciário reajusta seus gordos salários e os royalties do pré-sal destinados à educação são reduzidos pela metade! A renda do 1% de brasileiros mais ricos é 36 vezes superior à media do que ganham os mais pobres. O Brasil é o segundo país que mais concentra renda no topo da pirâmide social. Só perde para o Qatar.

       Em 2017, 28% da população eram crianças de 6 a 14 anos fora de escola, pessoas com mais de 14 anos analfabetas e acima de 15 anos sem o ensino fundamental completo. Sem investimento em educação não haverá redução do desemprego.

       Fala-se muito que tudo será melhor se for aprovada a reforma da Previdência. Mas  afetará os privilégios do funcionalismo público? Estudo do Ministério da Fazenda, divulgado no último dia 5, demonstra que a Previdência paga 12 vezes mais para os ricos do que para os mais pobres. De todos os benefícios previdenciários, apenas 3,3% vão para os mais pobres. O que equivale a R$ 17,8 bilhões. Os mais ricos embolsam 40,6% do bolo, ou seja, R$ 243,1 bilhões – 12 vezes mais.

       Enquanto não for dado um basta ao patrimonialismo – a ideia de que o Estado é patrimônio da elite – não haverá erradicação da pobreza e, portanto, redução da violência e da exclusão social.

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco/Anfiteatro), entre outros livros.

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