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terça-feira, 7 de maio de 2019

MEIOS DE COMUNICAÇÃO EM UMA SOCIEDADE ÉTICA




Por Marcelo Barros

Vivemos em uma sociedade de comunicação rápida, na qual o celular, a internet e as redes sociais nos ligam, instantaneamente, ao mundo inteiro. Há pouco mais de 30 anos, em termos de comunicação, a realidade era totalmente diferente. De lá para cá, o mundo viveu uma transformação que, em milênios, não conheceu. Novos meios de comunicação plasmaram uma nova cultura social e deram mais agilidade e eficiência aos meios de comunicação clássicos como a imprensa, o rádio e a televisão. 

Atualmente, os novos meios virtuais formam a opinião pública e, junto com os veículos tradicionais têm poder imenso. Estudos revelam que notícias postas na internet, falsas, ou apenas com algum fundo de verdade,  influem no resultado de eleições e decidem a Política de povos e continentes. Por isso, em todos os países, a função dos meios de comunicação social tem sido tema de reflexão e debates.

A ONU considera o 03 de maio como “dia internacional da liberdade dos meios de comunicação”. É sempre importante se perguntar de qual liberdade falamos e para que. Sem dúvida, a liberdade é fundamental, mas deveria haver liberdade para semear ódio e violência? É justo que os meios de comunicação, nas mãos das pessoas mais ricas do país, tenham liberdade de mentir e propagar notícias falsas desde que favoreçam os interesses da elite que domina o país? Como criar uma reação democrática, popular e que não seja na direção da censura e sim da crítica?

Atualmente, em muitos casos, os proprietários das grandes empresas de comunicação e agências internacionais de notícias são os mesmos acionistas dos conglomerados de petróleo e das indústrias de armamento a serem vendidos nas guerras que a imprensa estimula.

Quem acompanha os noticiários no Brasil sabe como a maioria deles privilegia a violência. Confundem a missão de informar com o trabalho de explorar ao máximo os crimes e doenças que atacam a sociedade. As notícias de um atentado que matou centenas de pessoas se misturam com um jogo de futebol do dia anterior ou o nascimento de um filhote de urso no zoológico.

Ao mesmo tempo, para combater o inimigo que o império quer esmagar, a chamada guerra híbrida usa meios mais baratos e eficientes do que soldados armados. Os meios de comunicação subsidiam uma enxurrada de notícias falsas que criam a opinião pública. Na América Latina, calam sobre o descalabro e o fracasso total do governo argentino, porque esse é de direita, mas, diariamente, divulgam notícias negativas de qualquer governo que pretenda transformar a sociedade. Assim, muita gente passa a acreditar que o governo da Venezuela é ditatorial e a oposição, feita por uma pequena elite violenta, é democrática e justa.

No Brasil, os meios de comunicação fortalecem a campanha de criminalização de movimentos populares. As grandes redes de comunicação e as notícias falsas de internet possibilitaram o golpe que derrubou o governo democrático e honesto da presidenta Dilma, demonizaram o que eles consideraram esquerda e garantiram a vitória da extrema-direita nas eleições de 2018. 

No Brasil, o dia 5 de maio foi instituído como Dia Nacional das Comunicações. Poucas pessoas sabem que, nessa data, em 1865, nascia em Mimoso, perto de Cuiabá (MT), uma grande figura das telecomunicações brasileiras: o Marechal Rondon. O nome deste grande brasileiro, descendente de índios, é lembrado quando se trata de defesa dos povos indígenas e da integração do território nacional, mas poucas pessoas o ligam às telecomunicações.

Em 1955, quando Cândido Mariano da Silva Rondon completava 90 anos, passou a ser homenageado como Patrono das Comunicações do Brasil. Talvez sua origem o impelisse a uma comunicação mais humana com os indígenas. "Morrer, se preciso for. Matar, nunca" - era o seu lema. Com ele, Rondon ganhou projeção e reconhecimento internacionais. Era outra época. Naquele tempo, mesmo se o Brasil era dominado por governos ditatoriais e a sociedade sempre foi violenta, ao menos os governantes não defendiam execuções sumárias e militares não atiravam em cidadãos que passassem de carro pela frente do quartel para irem a uma festa de criança. Provavelmente, o presidente atual e seus ministros nem queiram lembrar a figura de Rondom ou o considerem comunista como Paulo Freire, Dom Helder Camara e outros esquerdistas.

Também as Igrejas e grupos espirituais têm se servido dos meios de comunicação. A fé se torna objeto de espetáculos religiosos televisivos, sejam cultos neopentecostais ou missas-show de padres pop. Estúdios substituem templos. Misturam-se reality-show, ficção e liturgia.. Entretanto, a fé nunca pode ser objeto de publicidade.

Esse panorama está longe do evangelho de Jesus, boa noticia de que o projeto divino de paz e justiça começam a se realizar neste mundo. Por isso, muitas vezes, é fora do universo religioso que jornalistas cumprem a função de verdadeiros evangelizadores e fazem com que os meios de comunicação cumpram sua função de colaborar com a fraternidade humana em comunhão com o universo.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br



terça-feira, 12 de maio de 2015

MEIOS DE COMUNICAÇÃO E DEMOCRACIA

Por Marcelo Barros


Na semana passada, a ONU comemorou o “dia internacional pela liberdade dos meios de comunicação” e no próximo domingo, 17, celebra o “dia das telecomunicações”. Atualmente, o telefone celular e a internet nos ligam, em tempo real, ao mundo inteiro. No entanto, são ainda os noticiários da televisão e do rádio que mais formam a opinião pública.

De um lado, os proprietários das redes de rádio, televisão e jornal veem qualquer tentativa de regulação desses meios como censura e ataque à liberdade de imprensa. Do outro lado, cada dia fica mais claro que as grandes agências de comunicação servem aos interesses das elites econômicas, até porque em quase todos os países, poucas famílias possuem os meios de comunicação e sempre têm grandes interesses comerciais. As grandes agências de notícias norte-americanas são propriedades das mesmas empresas que possuem  as companhias de petróleo e indústrias de armamento.  

No Brasil e em outros países do continente, as televisões privilegiam programas que investem em preconceitos sociais, ridicularizam direitos humanos e fazem propaganda subliminar a favor da pena de morte. Sob a direção do presidente da Câmara Federal, pregam a diminuição da idade penal, como se colocar adolescentes em prisões resolvesse o problema da violência nas cidades. Além disso, criminalizam os movimentos populares e atacam de todos os modos qualquer governo que, na América Latina, pretenda transformar a sociedade. As pessoas que têm sua opinião formada através desses meios de comunicação chegam a pensar que, no Brasil, só existem corrupção política e violência e essa situação é culpa do governo federal. De fato, esse tem cometido erros e tem sua parcela de culpa, mas de um modo e por fatores contrários  a aqueles que os meios de comunicação apontam.

 Há exatamente um mês, nos dias 11 e 12 de abril, em Belo Horizonte, ocorreu o 2o Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação. Ali mais de 700 pessoas ligadas ao trabalho da comunicação e aos movimentos sociais se reuniram e reafirmaram a necessidade urgente do Brasil ter instrumentos de regulação democrática dos meios de comunicação. Em sua carta de conclusão, os/as participantes desse encontro pedem ao governo de abrir oficialmente esse debate na sociedade e concluem: “A defesa da democracia é uma das principais bandeiras de luta da sociedade brasileira. E a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática só se realiza se houver liberdade de expressão para todos e todas. Isso pressupõe a garantia do direito à comunicação” (Cf. Brasil de Fato, 16/04/2015, p. 08).

De fato, a sociedade brasileira nunca deveria aceitar que pais de família, apenas acusados de corrupção, mas não condenados por nenhum tribunal, tenham sua fotografia em capas de revista e cartazes com seu nome estampado e embaixo a legenda: “Dez anos de corrupção”. E isso é feito sem que nenhuma defesa real possa ser apresentada. É um linchamento público no estilo do velho oeste norte-americano, sem respeitar as famílias envolvidas, filhos de menor idade, apenas para saciar o ódio de classe da velha elite que não se conforma em ter sido derrotada nas últimas eleições presidenciais.  

Para os cristãos, o termo evangelho significa boa notícia no sentido do anúncio de que Deus tem um programa para o mundo. Todos nós somos chamados a testemunhar e colaborar com essa novidade. Por isso, atualmente, muitas vezes, são os/as jornalistas verdadeiramente éticos/as e profissionais de comunicação que assumem a função de verdadeiros evangelizadores, não de doutrinas religiosas e sim do projeto divino de justiça e paz para o mundo. Através desses profissionais, os meios de comunicação podem cumprir sua função de fazer desse mundo um planeta de paz e de convivência amorosa entre todos os seres humanos e em comunhão com a Terra e toda a natureza.   

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países