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terça-feira, 20 de novembro de 2018

NEGRITUDE E SOCIEDADE



Por Marcelo Barros

Mais do que nunca, em tempos de intolerância e discriminações, se torna fundamental celebrar o 20 de novembro como dia da união e consciência negra. Há duas décadas, várias cidades brasileiras consagram esse dia como feriado para comemorar o aniversário do martírio de Zumbi dos Palmares. Toda a semana é coroada com eventos sobre a imensa contribuição das raças negras na história e na construção das culturas formadoras do Brasil de hoje. Em todo o Brasil, há eventos que, ao valorizar a negritude, se tornam importantes, não apenas para as pessoas que se definem como de raça e cultura afrodescendente, mas para toda a sociedade brasileira.

No Brasil, de acordo com a Constituição, toda expressão de racismo é considerado crime grave. No entanto, desde a recente campanha eleitoral e por responsabilidade do candidato eleito, temos assistido a nova onda de manifestações racistas, especialmente com as raças e culturas afrodescendentes. Isso não seria tão grave e não teria consequências tão trágicas se, na sociedade, esse tipo de atitude não encontrasse enraizados na memória cultural dos brasileiros o velho preconceito e a brutal discriminação racial, heranças da escravidão. Oficialmente, essa foi abolida, mas, na prática, está mantida em relações de trabalho injustas e em uma estratificação social rígida e impiedosa.

A discriminação social e o racismo não fazem bem a ninguém e não ajudam a criar um mundo mais justo e feliz. Ao contrário, trazem dor e violência tanto para as vítimas da injustiça, quanto para os que a praticam e ainda para os que com esse tipo de prática são coniventes.

O Brasil é um dos países mais negros do mundo. De acordo com o censo mais recente, voluntariamente 50, 7 da população se declarou negra. Isso significa mais da metade dos brasileiros. Infelizmente, a maioria desses irmãos e irmãs ainda representa a parte mais empobrecida da população brasileira. Em todo o Brasil, jovens negros são mais vítimas da violência estrutural de cada dia do que qualquer outra faixa da população. A maioria dos assassinatos atinge a população negra. Nas periferias de muitas cidades brasileiras, quase a cada manhã, se descobrem cadáveres de adolescentes negros e pobres. Também, a cada dia, comunidades religiosas de tradições afrodescendentes são agredidas e atacadas por grupos que se denominam cristãos.

A Constituição de 1988 garante o direito das comunidades negras e remanescentes de quilombos à posse de suas terras ancestrais e à manutenção de sua cultura própria. Conforme cálculos do governo, existem hoje no Brasil cerca de mais de 2.800 comunidades quilombolas. São verdadeiras repúblicas de homens e mulheres livres, formadas por descendentes de escravos, fugidos do cativeiro e de alguns índios e brancos que decidiram viver solidariamente com eles. Esses quilombos se espalham por quase todos os estados do país e são símbolos da resistência dos pequenos. Servem de modelos como comunidades verdadeiramente solidárias. Entretanto, ainda faltam leis complementares para por em prática à Constituição que, quando não favorece à elite, é facilmente esquecida.  Por outro lado, há diversas iniciativas no Congresso, agora facilitadas pela conjuntura do novo governo, que visam anular o prescrito na Constituição federal e dar poder aos estados de retirar quilombolas e indígenas de suas terras ancestrais.
Todos nós, brasileiros, temos responsabilidade social de trabalharmos por um país mais igualitário e justo. Os cultos de tradições religiosas afrodescendentes, mantidos vivos de geração em geração, têm sido instrumentos importantes para a unidade das comunidades e para garantir uma consciência mais profunda da dignidade dos seus membros. Para os cristãos, um valor central que a Bíblia aponta é a consciência da cidadania de todos os seres humanos, como filhos e filhas de Deus e cidadãos do seu reino. Essa revelação divina pode ser encontrada, como valor intuído e praticado nas comunidades afrodescendentes. Paulo escreveu que onde há aspiração e luta pela liberdade, aí está presente e atuante o Espírito Divino (Cf. 2 Cor 3, 16. Que esse aniversário do martírio do Zumbi confirme e reavive em todos nós o caminho de comunhão e partilha!
MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Negritude e libertação



Por Marcelo Barros

Cada vez mais no Brasil, novembro se torna o mês da consciência negra. As comemorações do aniversário do martírio de Zumbi dos Palmares, no dia 20 de novembro, provocam manifestações culturais e religiosas afrodescendentes, entre as quais, algumas duram todo o mês. Na primeira segunda feira de novembro, em cidades como Recife e o Rio de Janeiro, o centro urbano é tomado por caminhadas do povo de terreiros. Ali se juntam membros de várias nações de Candomblé, de Umbanda e outras tradições locais como a Jurema no Nordeste e a Macumba no Rio. Um dos principais objetivos dessas manifestações pacíficas é denunciar agressões que continuam ocorrendo por parte de grupos religiosos fanáticos contra comunidades religiosas afrodescendentes. Outra reinvindicação é que se revejam os programas do ensino religioso ecumênico, para que nele haja também lugar para o conhecimento cultural das religiões de tradição afro. Essas são pautas mais especificamente religiosas. No entanto, o que essas manifestações revelam de mais profundo é a vitalidade das comunidades de matriz afrodescendentes e como elas foram importantes na luta contra o racismo e no caminho da promoção e da libertação das pessoas empobrecidas no Brasil e em todo o mundo. 

As homenagens a Zumbi se fazem por sua vida consagrada a acabar com a escravidão no Brasil. Infelizmente, o Brasil foi um dos últimos países do mundo a abolir oficialmente a escravidão, já no final do século XIX (1888). Quando isso ocorreu e de forma extremamente ambígua, (os negros foram mandados à rua sem nenhuma indenização nem ajuda para sobreviver), a luta contra a escravidão já tinha mais de cem anos. Dinamarca foi o primeiro país a abolir o comércio de escravos (1792), seguida do Reino Unido (1807) e Estados Unidos em 1810. É claro que essas conquistas foram frutos não do senso de justiça ou da bondade dos patrões e sim da luta dos escravos por sua libertação. Nos países capitalistas, começava o processo de industrialização e as indústrias pediam operários capazes de manobrar máquinas e que ganhassem salários para comprar os produtos produzidos. No mundo industrial, não havia mais interesse em manter escravos da gleba. Quem lutou contra a escravidão por motivos humanitários e por convicção ética foram os revolucionários que queriam libertar a América Latina do domínio europeu. Em outubro de 1810, Miguel Hidalgo proibia a escravidão na  Nova Espanha (México). Pouco depois, na Venezuela, Simon Bolívar proclamava o direito à liberdade para índios e negros. E propunha educação para todos como caminho de promoção humana e igualdade social. Somente em 1926, a Sociedade das Nações (atual ONU) assinou a convenção que declarou ilegal a escravidão. Mesmo assim, ainda agora, em 2013, o relatório anual da ONU denuncia que, no mundo, 30 milhões de pessoas humanas ainda são vítimas de escravidão (Cf. Folha de S. Paulo, 17/10/2013). Nesse relatório internacional, o Brasil é elogiado por sua legislação e pelo trabalho do Ministério do Trabalho que tem conseguido libertar muitos lavradores escravizados em latifúndios no campo e em carvoarias. Mas, ainda existem focos de escravidão nos estados do Norte e na periferia de cidades grandes como São Paulo. 

 As tradições religiosas afro descendentes têm sido as mais fieis guardiães da dignidade e da liberdade das comunidades negras. Para as comunidades cristãs da primeira geração, Paulo escreveu: “É para que sejamos livres que Cristo nos libertou” (Gl 5, 1. 13). “Onde está o Espírito de Deus, aí tem de haver liberdade” (2 Cor 3, 17). 



MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br
 
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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

NEGRITUDE E SOCIEDADE


por MARCELO BARROS


As comemorações do 20 de novembro, dia de união e consciência negra e os eventos dessa semana de valorização da negritude  são importantes não apenas para as pessoas que se definem como de raça e cultura afrodescendente, mas para toda a sociedade brasileira. Embora em nosso país, toda expressão de racismo seja considerada crime grave e imprescritível, ainda há muito por fazer para retirar da memória cultural dos brasileiros o preconceito e a discriminação racial, heranças da escravidão, abolida oficialmente, mas, na prática, mantida em relações de trabalho injustas e em uma estratificação social rígida e impiedosa. O racismo e a discriminação social não fazem bem a ninguém e não ajudam a criar um mundo mais justo e feliz. Ao contrário, trazem dor e violência tanto para as vítimas da injustiça, quanto para os que a praticam e ainda para os que com esse tipo de prática são coniventes. 

O Brasil é um dos países mais negros do mundo. De acordo com o censo de 2010, voluntariamente 50, 7 da população se declarou negra, o que significa mais da metade dos brasileiros. Infelizmente, a maioria desses irmãos e irmãs ainda representa a parte mais empobrecida da população brasileira. Em todo o Brasil, jovens negros são mais vítimas da violência estrutural de cada dia do que qualquer outra faixa da população. A maioria dos assassinatos atinge a população negra. Por isso, são importantes as medidas para integrar e dar igual direito de cidadania social e política aos afrodescendentes. 

Há duas décadas, várias cidades brasileiras consagram o 20 de novembro, aniversário do martírio de Zumbi dos Palmares, como feriado municipal e todo o país celebra o dia consagrado à união e consciência negra. Toda essa semana é coroada com eventos sobre a imensa contribuição das raças negras na história e na construção das culturas formadoras do Brasil de hoje. 

A Constituição de 1988 garante o direito das comunidades negras e remanescentes de quilombos à posse de suas terras ancestrais e à manutenção de sua cultura própria. Conforme cálculos do governo, existem hoje no Brasil cerca de 2.842 comunidades quilombolas. São verdadeiras repúblicas de homens e mulheres livres, formadas por descendentes de escravos, fugidos do cativeiro e de alguns índios e brancos que decidiram viver solidariamente com eles. Estes quilombos espalham-se por quase todos os estados do país e são símbolos da resistência dos pequenos. Servem de modelos como comunidades verdadeiramente solidárias. Entretanto, ainda faltam leis complementares para por em prática à Constituição que, quando não favorece à elite, é facilmente esquecida.  Por outro lado, há iniciativas no Congresso que visam anular o prescrito na Constituição federal e dar poder aos estados de retirar quilombolas e indígenas de suas terras ancestrais.
Todos nós, brasileiros, temos responsabilidade social, junto com o governo, de trabalharmos por um país mais igualitário e justo. A manutenção das religiões ancestrais e de expressões culturais negras, mantidas vivas de geração em geração, têm sido instrumentos importantes para a unidade dessas comunidades e para garantir uma mais profunda consciência da dignidade dos seus membros. Para os cristãos, um valor central que a Bíblia aponta é a consciência da cidadania de todos os seres humanos, como filhos e filhas de Deus e cidadãos do seu reino. Essa revelação divina pode ser encontrada, como valor intuído e praticado nas comunidades afrodescendentes. Paulo escreveu que onde há aspiração e luta pela liberdade, aí está presente e atuante o Espírito Divino (Cf. 2 Cor 3, 16. Que esse aniversário do martírio do Zumbi confirme e reavive em todos nós o caminho de comunhão e partilha!