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terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Templos, Igrejas e protestos

 Marcelo Barros 


 

Nesses dias, a imprensa ávida por qualquer notícia sensacionalista que legitime denúncias contra movimentos populares e partidos considerados de esquerda, se deleitou com imagens e narrativas do que chamaram de invasão de uma Igreja em Curitiba. Autoridades eclesiásticas e civis protestaram contra o desrespeito ao lugar sagrado e o assunto está sendo debatido na própria câmara de vereadores da cidade.

 O debate se dá sobre o fato dos manifestantes terem entrado na Igreja depois da Missa e terem expressado dentro do templo a denúncia contra o assassinato truculento e cruel de Moise, jovem congolês, barbaramente torturado e assassinado, em um quiosque na Barra da Tijuca. Nestes mesmos dias, ocorreu também, no Rio de Janeiro, a morte de outro negro, baleado por vizinho policial, que o confundiu com um ladrão. Naquele final de semana, em diversas regiões do Brasil, ocorreram manifestações de protestos contra esses atos extremos de racismo contra negros. Em Curitiba, no centro histórico da cidade, o ato se reuniu em frente a uma Igreja, que, historicamente, pertenceu a uma confraria negra. Depois do horário da missa, no final da tarde, os manifestantes entraram na Igreja e encerraram ali o seu protesto pacífico.

 Sobre o fato, podem se fazer várias considerações. Antes de tudo, em termos metodológicos e estratégicos, organizações populares e partidos progressistas tomaram posições críticas em relação ao ocorrido. De fato, o grupo que fazia a manifestação não sofreu nenhuma perseguição, não fugia de nenhuma repressão e não precisava ter ocupado a Igreja, sem permissão dos responsáveis pelo templo.

 Do ponto de vista institucional, todos sabem que a maioria dos eclesiásticos católicos concorda que Igrejas sejam usadas para missas de posse de governadores ou prefeitos de direita. No entanto, considera  desrespeito ao lugar sagrado qualquer manifestação de categorias populares que possa ser vista como sendo de esquerda.

Em Roma, o papa Francisco pode considerar prioritário dialogar com movimentos populares e defender a vida de migrantes africanos, mas essa não é ainda a sensibilidade de muitos ministros e fieis católicos no Brasil. As pastorais sociais da CNBB e muitos padres e agentes de pastoral participaram dos atos de protesto e de denúncia contra o racismo. Muitos religiosos gritaram com as organizações populares que “vidas negras importam”, mas para muitos cristãos, católicos e evangélicos, esse assunto parece não fazer parte do anúncio da fé e da missão da Igreja.  

 Na época da ditadura militar brasileira, em Recife, estudantes que protestavam contra a repressão ocuparam uma Igreja no centro da cidade. Assim que soube, o próprio arcebispo Dom Helder Camara foi para a Igreja e se colocou lá ao lado dos estudantes até conseguir que eles pudessem sair do templo em segurança. O mesmo ocorreu em Salvador, BA, onde a Igreja ocupada pelos rapazes e moças foi a basílica do Mosteiro de São Bento. O abade Dom Timóteo Amoroso Anastácio não somente abriu as portas da Igreja, como declarou o Mosteiro como espaço de abrigo e santuário de proteção da juventude. Do mesmo modo, em São Bernardo do Campo, em 1980, a Igreja Matriz foi abrigo para assembleias dos metalúrgicos em greve perseguidos pela ditadura.

 Atualmente, embora em outro contexto político, a sociedade tem direito de cobrar dos responsáveis das Igrejas a coerência profética com o evangelho de libertação. Originalmente, o Cristianismo não tinha templos e sim Igrejas. Enquanto os santuários se colocam como locais sagrados, Igrejas significam espaços de assembleia. Quando o apóstolo Paulo chamou as comunidades às quais escrevia de Igrejas, estava afirmando que eram assembleias de pessoas não reconhecidas como cidadãs pelo império, mas que nas comunidades cristãs, podiam se reunir e se manifestar como assembleias de cidadãos e cidadãs do reinado divino no mundo. Ainda hoje, quando manifestantes ocupam uma Igreja, de alguma forma, interpelam aos senhores do templo: Qual é o sentido e a missão da Igreja?

 Ao mesmo tempo que desejamos que os movimentos populares sempre se esmerem por respeitar educadamente a todos os ambientes e deem exemplo de diálogo com todas as pessoas com as quais se encontram, pedimos a Deus que os discípulos de Jesus aceitem retomar o caráter profético da fé cristã.

Mesmo se a postura do arcebispo e da arquidiocese de Curitiba tem sido, em geral, mais aberta e solidária, sonhamos com tempos nos quais padres e bispos não somente não se oponham, como fiquem felizes quando suas Igrejas forem ocupadas pacificamente por grupos populares que defendem a justiça e a vida para todas as pessoas humanas e na comunhão com todos os seres vivos.

 

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br  

 

 

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Sinodalidade para as Igrejas e para o mundo

 

Marcelo Barros


O papa Francisco convoca a Igreja Católica para que, no mundo inteiro, a partir das bases, todas as comunidades católicas, assim como padres, religiosos/as e bispos, aprofundem um processo de diálogo em preparação à XVI sessão do Sínodo dos Bispos. Concretamente, o papa propôs um caminho em três etapas. Até abril de 2022, deve ser a fase diocesana, constituída por ampla consulta às bases. A segunda fase, de abril a setembro deste ano, será a etapa nacional. A fase continental irá até abril de 2023. Finalmente, esse caminho comum confluirá para o encontro mundial dos bispos, em outubro de 2023 em Roma. A proposta do papa é que o Sínodo se torne um modo novo de viver a fé. Em grego, o termo syn odos significa caminho em comum. O papa Francisco afirmou: “O caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio é a sinodalidade”. (Alocução,17 de outubro de 2015)[1]”.

Desde que, a partir da Idade Média, o bispo de Roma se tornou chefe de toda a Igreja ocidental, é quase a primeira vez que um papa enfrenta oposição dentro do próprio clero e hierarquia. Alguns cardeais, bispos e muitos padres não aceitam o papa e o criticam abertamente. O problema é que, mesmo no meio dos padres e bispos que o aceitam, muitos ouvem sua palavra, mas não a traduzem em novo modo de ser Igreja.

Ao falar em sinodalidade, o papa sabe que a maioria das pessoas que coordenam as comunidades, assim como bispos, padres, religiosos/as e agentes de pastoral são preparados para obedecer e mandar e não para o  diálogo e o caminhar juntos. O Vaticano é a única monarquia absoluta que ainda persiste no Ocidente. Sua política continua arbitrária e sem transparência. Em nome do papa, o Vaticano nomeia bispos; os bispos nomeiam os padres e os padres quase só precisam prestar contas ao bispo. Não adianta o papa Francisco denunciar o clericalismo, se este é o próprio sistema atual e se sustenta pela divisão que, a partir do século IV dividiu a Igreja entre clérigos ordenados e leigos não ordenados. Enquanto este sistema não for estruturalmente modificado, falar em sinodalidade parece brincadeira para disfarçar a sobrevivência do autoritarismo eclesiástico.  

A proposta da sinodalidade que o papa faz à Igreja corresponde à democracia participativa e direta que os movimentos populares fazem à sociedade civil e aos Estados. No mundo, os sistemas políticos também estão em crises. Os partidos parecem desacreditados e os governos precisam mostrar que não são apenas gerentes credenciados pelo Capitalismo financeiro para administrar os países a serviço dos lucros da elite.

Desde algumas décadas, na América Latina e na África, os povos originários propõem para toda a humanidade o paradigma do Bem-viver, centrado na primazia da vida, no respeito aos bens comuns da humanidade e na comunhão entre as pessoas, entre os povos e com toda a natureza. Se as comunidades católicas e seus ministros levarem a sério a proposta da sinodalidade, se as Igrejas cristãs se converterem ao caminhar juntos como modo de viver o discipulado de Jesus, finalmente, poderá se tornar verdade a afirmação de um pastor da Igreja do século IV quando afirmou: “A Igreja cristã deve se organizar, como um ensaio do mundo do jeito, que Deus quer que o mundo seja”.

     

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br  

 



[1] - Cf. Francisco, Conmemoración del 50 aniversario de la institución del Sínodo de los Obispos (17 de octubre de 2015), n https://www.vatican.va/content/francesco/es/speeches/2015/october/documents/papa-francesco_20151017_50-anniversario-sinodo.html

sábado, 31 de julho de 2021

IGREJAS E PARTIDOS

Prof. Martinho Condini

 


        O  cantorcompositorinstrumentista e poeta Dorival Caymmi (1914-2008) certa vez contou em uma de suas belas músicas que “a Bahia tem trezentas e sessenta e cinco igrejas, e que na primeira ele foi batizado, na segunda crismado e na terceira ele se casaria com a mulher que ele quer bem”. Com essa letra ele faz alusão de que é possível a cada dia do ano entrar em uma igreja diferente na Bahia. Ele estava certo, mas há um detalhe, apenas na cidade de Salvador há trezentas e setenta e duas igrejas.

        Esses números demonstram a relação das famílias pertencentes à elite colonial baiana com a coroa portuguesa e o cristianismo católico.

        O motivo da lembrança desse número de igrejas em Salvador me ocorreu porque dia desses, passando pelos canais das emissoras de TV conectadas na minha televisão, constatei a existência de aproximadamente dezesseis programas religiosos. Todos transmitidos num mesmo horário. É difícil acreditar que haja algum outro lugar nesse mundo que ocorra um despropósito semelhante.

        Em sua maioria esses programas fazem apologia a “teologia da prosperidade” e a “auto-ajuda”, sempre de uma maneira apelativa e piegas.

        Os religiosos que apresentam os programas, em algum momento, relacionam o nome de Deus com a agência e conta bancária da igreja, e é claro, descaradamente pedem aos fiéis que realizem as suas doações. Dessa maneira alcançarão suas graças, garantirão seu pedacinho no paraíso e atingirão a prosperidade material que tanto almejam nesse mundo tão desigual do “capetalismo”.

        Será que há tantas igrejas falando coisas tão diferentes e importantes, para que tenhamos tantos programas religiosos assim? Ou é uma maneira de algumas pessoas acumularem  riqueza sem trabalhar? E aproveitar-se da boa fé dos fiéis?

        O que é preciso para abrir uma igreja no Brasil? Pelo que me consta, é necessário uma pessoa que receba o comissionamento e autorização de Deus, um espaço físico, algumas cadeiras de plástico ou bancos de madeira, pessoas dispostas a ouvi-la, um CNPJ e um estatuto.          Pronto! A empresa da fé e do lucro fácil está montada.

Acredito que há uma analogia entre a abertura dessas igrejas com a criação de alguns partidos políticos em nosso país. No Brasil são aproximadamente trinta partidos. Para serem abertos precisam cumprir algumas regras estabelecidas pela justiça eleitoral, que agora não vêm ao caso. A questão principal é: será que temos tantas ideologias assim a serem propagadas e defendidas? Ou o interesse está apenas no fundo partidário? Outra maneira de acumular riqueza sem trabalhar.

        Me parece que abrir igrejas e criar partidos políticos de aluguel no Brasil pode se tornar um bom negócio.

        Aí está, igrejas e partidos políticos, uma interessada no dízimo e o outro almejando o fundo partidário e apoio a qualquer liderança que esteja no poder para conceder cargos a esses partidos nanicos e às vezes não tão nanicos assim.

        Quero deixar bem claro que essa constatação não significa a minha defesa da extinção das igrejas e muito menos das representações partidárias, congresso nacional e a tão valiosa democracia. Mas sim, a extinção de igrejas que possuem “lideranças religiosas” que são na verdade “picaretas da fé” e o impedimento da criação de partidecos politiqueiros liderados por “coronéis” sem nenhum comprometimento ideológico.   

        Acredito que devemos estar atentos sim, aos embusteiros líderes dessas igrejas e aos lacaios fundadores de partidos de aluguel. Ambos, embusteiros e lacaios, são prejudiciais e nocivos a nossa sociedade. A história está nos provando isso! E como já dizia o poeta: “a história é um carro alegre, cheio de um povo contente, que atropela indiferente todo aquele que a negue”.

        As igrejas e os partidos políticos tornam-se o ópio da sociedade a partir do momento em que  as pessoas se deixam levar por  instituições inescrupulosas.

        É preciso refletir dialeticamente sobre o que ouvimos, e perceber de verdade o que está por detrás das mensagens. As sociedades se organizam e se movimentam por meio das ideologias e da política, isso é inexorável. Por isso, o momento exige cautela, reflexão, diálogo e ação para sairmos dessa condição abjeta da nossa história. “Ninguém solta a mão de ninguém”, para que construamos um Brasil para todos. 

  

*  O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com 

 

terça-feira, 6 de julho de 2021

IGREJAS E DIVERSIDADE SEXUAL

 Marcelo Barros


 

Nestes dias, a Igreja Católica ocupa manchetes da imprensa internacional com duas notícias. A primeira conta que, na 4ª feira, 17 de junho, Dom Paul Gallagher, responsável no Vaticano pelas relações com os outros Estados, entregou à embaixada italiana junto à Santa Sé nota que pede ao governo italiano que rejeite uma lei que está em tramitação no Senado. Trata-se da lei que considera crime a homofobia e declara ilegal qualquer manifestação cultural, política ou religiosa que incite pessoas à discriminação sexual e à homofobia (Cf. Corriere de la Sera, 22/06/ 2021).

Mesmo com tantos gestos e palavras do papa a favor dos migrantes, o Vaticano nunca entrou com medida diplomática contra medidas racistas e xenofóbicas do governo italiano. Agora, protesta contra esta lei. Ela impediria colégios católicos e paróquias fazerem propaganda contrária a eventos como o chamado “dia nacional contra a homofobia”. Conforme o Vaticano, impedir que escolas e paroquias continuem pregando contra a diversidade sexual é atentar contra a liberdade religiosa da Igreja.

O governo italiano respondeu ao Vaticano: A Itália é um país laical, aberto a todas as religiões, mas não preso a nenhuma.

Outra notícia é que, também nestes dias, em Washington, a assembleia dos bispos dos Estados Unidos aprovou por maioria um documento que exclui da comunhão eucarística católicos/as que, de alguma forma, se manifestem favoráveis a qualquer tipo de aborto, mesmo o terapêutico. Desde a eleição de Joe Biden, esse é o assunto mais importante para muitos bispos católicos do país (Cf. Público, Lisboa, 21/06/2021).

A maioria desses bispos nunca se manifesta sobre uma estrutura social e política que cria 44 milhões de pessoas mergulhadas na pobreza. Eles não protestam contra a polícia que a cada dia mais agride, fere e até mata pessoas negras. Nunca negaram comunhão a presidentes que provocam guerras e matam milhares de pessoas apenas para ter mais aprovação nas pesquisas de opinião. Nunca pensaram em negar a comunhão a pessoas racistas, mas quando o assunto é aborto, união gay ou moral sexual, surtam. 

Pesquisas revelam que, nos Estados Unidos, a maioria dos católicos não concorda com a posição oficial da Igreja sobre ética sexual. No mundo inteiro, quando o assunto é sexo, essa divisão entre pastores e fiéis aumenta. O papa fala em sinodalidade e consulta às bases, mas há assuntos tabus sobre os quais muitos pastores não aceitam dialogar.

No mundo inteiro, bispos e padres são, em sua maioria, pessoas éticas e corretas. No entanto, na estrutura do clero, ainda vigora uma cultura de preocupação com aparência e moralismo hipócrita que não favorece o testemunho do evangelho de Jesus. No Brasil, vivemos situações políticas sobre as quais é impossível calar totalmente. No entanto, a maioria dos pronunciamentos episcopais sobre política repete generalidades sobre justiça e direito. O povo percebe que muitos bispos e padres só se pronunciam de modo claro e forte quando o assunto é ligado à moral sexual, como dominados por uma obsessão sexual que não deixa de ser doentia.

Quem vai além da leitura fundamentalista da Bíblia sabe que não pode aplicar literalmente preceitos tribais da cultura antiga às realidades de hoje. Em nossos dias, poucos grupos cristãos se pronunciam contra a transfusão de sangue, porque a Bíblia proíbe. Ninguém defende a escravidão porque a Bíblia permite. Como explicar que ainda haja bispos e padres que usam argumentos bíblicos para explicar sua homofobia? Poderiam ouvir de Jesus o que aqueles doutores da lei que condenavam a mulher adúltera escutaram: “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”.

Por falar em pecado, Jesus acusa de pecado os religiosos do templo com sua santidade arrogante e sua idolatria do poder divinizado. Sobre ética sexual, nenhum dos quatro evangelhos registram qualquer palavra direta de Jesus sobre o assunto. Nenhuma perícope do Antigo ou do Novo Testamento trata de homoafetividade ou de algum problema de Ética Sexual para a sociedade atual. Legitimar homofobia ou se posicionar contra a diversidade sexual a partir da leitura de textos bíblicos fora do seu contexto é repetir o formalismo farisaico que Jesus condenou, ao dizer aos discípulos: “Ouvistes o que foi dito aos antigos. No entanto, agora, eu vos digo outra coisa...”.

Neste XIII Domingo comum do ano B, Marcos conta duas curas que Jesus fez (Mc 5, 21- 43). Toma a reanimação da menina, filha de Jairo como moldura da cena central. Esta foi a cura da mulher anônima que sofria de hemorragia e por isso era marginalizada e considerada pecadora. O evangelho faz daquela mulher símbolo de toda pessoa que a lei condenava. Em nossos dias, ainda há pessoas consideradas impuras pela religião ritual. São as que se identificam como LGBTQI+. São vítimas de discriminação e violência. A sociedade parece querer sufocar nas pessoas diferentes as inseguranças que a maioria dos homens não quer enfrentar interiormente.

É uma contradição escandalosa: Igrejas cristãs que deveriam ser sacramentos de humanização amorosa legitimam discriminações e violências. Não se trata de perdoar as pessoas LGBTQI+ porque elas não cometeram pecado algum. Ao contrário, ajudam a humanidade a assumir a diversidade de gêneros como contribuição à fraternidade humana que o Papa Francisco propõe na Fratelli Tutti. Se as Igrejas querem mesmo ser instrumentos de amor e unidade da família humana, precisam reconhecer, respeitar e valorizar a identidade sexual e a orientação de gênero de todas as pessoas. Cada uma delas merece ouvir os ministros de Jesus os/as chamarem de filhos e filhas, como Jesus chamou aquela mulher curada e agora integrada na comunidade.

 

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

terça-feira, 27 de outubro de 2020

A MISSÃO DAS IGREJAS, MISSÃO DE TODA A HUMANIDADE

 

Marcelo Barros

A missão de todo ser humano consiste em cuidar uns dos outros e do planeta Terra, que Deus ou a Vida nos confiou. Em meio a esta pandemia, a humanidade pode perceber claramente de que lado estão as pessoas, se a favor da vida ou se a favor do lucro da elite que domina o mundo. Neste sábado 17, pelo you tube, um sarau reuniu mais de 50 apresentações artísticas, entre músicas, encenações teatrais, espetáculos de dança e recitação de poesias. Era o lançamento festivo da campanha pelas vacinas gratuitas para todos os vírus do mundo. Ali se pedia a ONU que declarasse as vacinas contra a Covid 19 bens comuns da humanidade. E a mensagem das músicas e de outras artes nos vacinava contra outros vírus, como os da indiferença social e do individualismo. Afinal, o Brasil voltou ao mapa da fome, com mais de 17 milhões de pessoas em situação de desemprego e mais de 50 milhões em insegurança alimentar.

No domingo 04 de outubro, o papa Francisco surpreendeu a humanidade com uma encíclica que conclama todos/as a retomar a cultura da amizade social e da fraternidade universal. Dois setores da sociedade reagiram forte e negativamente à encíclica do papa. O primeiro setor foi a elite econômica, que se sentiu atacada quando o papa responsabiliza o Capitalismo pelos maiores sofrimentos da humanidade. O outro setor foi uma parte não pequena da hierarquia e do clero da própria Igreja Católica que não compreende um papa que rompeu definitivamente a aliança da Igreja com os poderosos do mundo que sempre a beneficiaram.   

Cada ano, em outubro, a Igreja Católica celebra o mês das missões. O tema deste ano de 2020 foi escolhido muito antes da pandemia que nos surpreendeu. No entanto, parece ter sido escolhido em função do momento que vivemos: “A vida é missão” e o lema que o desenvolve é a palavra do profeta: “Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8).

Ainda hoje, há cristãos que confundem missão com proselitismo e entendem de forma fundamentalista o mandado de Jesus: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a todas as nações” (Mt 28, 19). O próprio Novo Testamento revela que os apóstolos e discípulos não compreenderam estas palavras ao pé da letra. Eles não saíram pelo mundo afora para anunciar a boa notícia do reino. De fato, Paulo e seus companheiros fizeram viagens pelas cidades do Império Romano até à Europa. Entretanto, eles iam às sinagogas e fortaleciam grupos de discípulos de Jesus dentro do Judaísmo. Nem Paulo nem outros discípulos pediram aos judeus que deixassem sua religião. Nem exigiram dos gregos abandonarem sua cultura. Por isso, ele pode dizer: “eu me fiz judeu com os judeus e grego com os gregos” (1 Cor 9, 20). A mensagem de Paulo é que todas as pessoas, independentemente de sua cultura e religião, podem aceitar a proposta divina. O “reinado divino” vem ao mundo para todos. Somente mais tarde, nos anos 80, a sinagoga não aceitou mais os cristãos como membros da comunidade judaica. Então, o Cristianismo se separou do Judaísmo e se tornou religião autônoma.

Agora, na sua carta sobre a fraternidade universal, o papa Francisco pede a todas as religiões que, independentemente, de suas diferenças, se ponham a serviço da unidade de toda a família humana. Conforme os evangelhos, uma vez, discípulos contaram a Jesus que tinham encontrado alguém que expulsava o mal das pessoas. Eles tinham proibido porque aquela pessoa não pertencia ao grupo deles. Jesus os repreendeu dizendo: “Não façam isso. Quem não está contra nós é porque está do nosso lado” (Cf. Lc 9, 49- 50).

Neste mundo pluralista, é fundamental que as Igrejas recuperem esta abertura de coração. Devem ser comunidades de diálogo e acolhida do outro e nunca de intransigência e rejeição. Não há separação entre a missão das Igrejas e a missão de todas as organizações sociais que trabalham pela paz, justiça e união da humanidade. Homens como o papa João XXIII, Dom Helder Câmara e o pastor Martin-Luther King compreenderam profundamente isso. Foram profetas que transformaram o mundo e fizeram isso como poetas sensíveis e encantados com a humanidade.

No dia 11 de outubro de 1962, depois de um dia inteiro de trabalho no qual tinha inaugurado o Concílio Vaticano II com todos os bispos católicos em Roma, o papa João XXIII soube pelo seu secretário que a praça de São Pedro estava cheia de povo. Todos, com velas nas mãos, pediam para ver o papa. Este apareceu na janela, saudou a multidão e disse: “Olhem a lua cheia. Ela veio embelezar a nossa festa. Voltem para casa e dêem um abraço ou façam um gesto de carinho em nome do papa na primeira pessoa que vocês reencontrarem em casa. Digam que o papa lhes manda este gesto de amor”. Isso continua a ser o núcleo central da missão de todas as pessoas espirituais.

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

 

terça-feira, 14 de julho de 2020

POVOS INDÍGENAS, IGREJAS E MISSÃO


Por Marcelo Barros

O mundo inteiro já sabe que o projeto mais profundo do atual governo federal brasileiro é exterminar de vez todos os povos indígenas do Brasil. Diariamente, através de latifundiários, garimpeiros e madeireiros, o governo ataca impiedosamente aldeias e ameaça a vida de índios em todos os estados brasileiros. Nestes dias, a mais eficiente arma desta guerra do ódio tem sido o Coronavírus. Dos 305 povos indígenas em contato com a sociedade dominante, até o final de junho, 101 povos tinham pessoas contagiadas. Nas aldeias indígenas, o contágio chega a 84% acima da média nacional. Em vários povos, como os Xicrim no Pará e os Guarani Kaiwá no Mato Grosso do Sul, o contágio atinge proporções de epidemia. No entanto, como para todos os brasileiros, a maioria das mortes não se deve apenas ao vírus e sim ao descuido, desatenção e falta de tratamento, provocados pela atitude irresponsável e cruel do governo.

Diante disso, muita gente se pergunta o que as Igrejas cristãs, principalmente a Igreja Católica tem feito para atuar em favor da vida e defender as comunidades indígenas. Em 2019, o papa Francisco, junto com bispos e missionários/as de todo o mundo, reunidos no Sínodo para a Amazônia, propuseram uma evangelização baseada no diálogo respeitoso e no reconhecimento da presença divina em todas as religiões e culturas.

De fato, essa postura é nova como posição de um papa e de grande parte dos pastores, missionários e missionárias que atuam na região. Durante séculos, desde os tempos da colonização, as Igrejas confundiram missão com conquista. No lugar de testemunhar o evangelho de Jesus, serviram aos interesses dos impérios. As principais vítimas desse sistema foram os povos originários que há milênios vivem nesse continente. No entanto, sempre houve uma minoria de cristãos e pastores que defendia a causa indígena. Marginalizados pela cúpula eclesiástica e perseguidos pelo Império, insistiam: a missão não pode estar ligada à colonização.

Em toda a América Latina, 17 de julho lembra o falecimento da figura mais conhecida que defendeu essas posições. Foi Bartolomeu de las Casas, missionário dominicano em Santo Domingos e, depois, primeiro bispo de Chiapas, no sul do México. Entre os missionários europeus, foi o primeiro e grande  defensor da dignidade dos índios contra o sistema colonizador e escravagista. Ele tinha vindo da Espanha para a América no começo da colonização para ser senhor de escravos. No entanto, ao ver o sofrimento dos índios, se converteu e se tornou missionário e teólogo para lutar contra a escravidão. Defendeu a dignidade dos índios e escreveu o primeiro tratado de teologia e espiritualidade que ensina: nos corpos dos índios escravizados, é o próprio Jesus Cristo que é explorado.

Atualmente, quase cinco séculos depois, podemos lamentar que ao protestar contra a escravidão indígena, Las Casas não tenha sabido denunciar o próprio sistema colonizador em si mesmo. Há quem o acuse de ter aceito o tráfico e a escravidão dos africanos para substituir os índios nas minas e engenhos da colonização. Não há provas disso. O tráfico de africanos sequestrados para ser escravos na América floresceu mais a partir das últimas décadas do século XVI, quando Bartolomeu de las Casas já tinha morrido. Seja como for, mesmo com contradições inerentes à época, até hoje, os escritos desse grande missionário são referência para nova concepção de missão e de leitura da história a partir das vítimas.  

Nestes dias, a Netflix disponibiliza para acesso a primeira temporada da série A índia Catalina, figura mítica, fundadora da cidade de Cartagena de Índias, na Colômbia. Uma das personagens da série que aparece em vários capítulos é o frei Bartolomeu de las Casas. Apesar de mostra-lo como homem bom e amigo dos índios, o apresenta como funcionário do vice-reinado, o que nunca ele aceitaria ser.

No decorrer da história da Igreja, o modelo de missão inspirado na espiritualidade social libertadora se tornou conhecido como “lascasiana”. Hoje, a espiritualidade lascasiana rejeita qualquer intento de missão que tenha como objetivo conquistar adeptos para a fé. Só a fé vivida como diálogo valoriza a presença divina em toda realidade humana e respeita a diversidade das culturas. A memória de Las Casas nos chama a defender a vida e a liberdade dos índios por motivos humanos e sociais e por exigência espiritual da fé. Não podemos aceitar projetos de desenvolvimento que não levem em consideração o respeito aos povos indígenas e suas culturas. Em um diálogo com os índios, na cidade de Puerto Maldonado, na Amazônia peruana, em janeiro de 2018, o papa Francisco pediu aos líderes indígenas que ajudassem a formar uma Igreja com rosto amazônico e indígena. Que a memória de Bartolomeu de las Casas nos ajude neste caminho.


terça-feira, 2 de julho de 2019

A SOCIEDADE ATUAL E AS IGREJAS




Por Marcelo Barros

A sociedade contemporânea é marcada pela diversidade cultural e por seu caráter laical. Isso é bom e necessário para uma boa convivência de todos. De fato, não há sentido em uma religião querer dar normas morais ou pretender dominar a sociedade. No entanto, muitas vezes, o caráter laical da sociedade tem como expressão a tendência de restringir a religião ao âmbito privado da consciência de cada um. Isso vai contra a natureza de todas as religiões antigas que vêm de sociedades gregárias e se expressam sempre em formas comunitárias. Uma sociedade pluralista pode ser laica sem ser anti-religiosa e deve se abrir a todas as dimensões culturais dos diversos grupos, inclusive suas expressões religiosas. O importante é que todos os grupos religiosos se respeitem uns aos outros e se insiram na sociedade como colaboradores das melhores causas da humanidade.

No caso das Igrejas cristãs, a proposta do evangelho é que os discípulos e discípulas de Jesus sejam testemunhas de que Deus tem para o mundo um projeto de paz, justiça e comunhão com o universo. Para isso, devem se inserir na sociedade e participar como cidadãos da luta pela vida e atuar junto com todos/as em prol da justiça, paz e cuidado com a natureza.

Desde os seus inícios, a cultura judaico-cristã é marcada pela memória do Êxodo. Nela a intuição da presença divina vem como Palavra que chama quem é escravo a se libertar. Deus não é mais visto como quem nos eleva da terra ao céu e sim como energia de libertação que nos chama a transformar o mundo. Não legitima o poder e sim subverte e transforma as sociedades. Dentro dessa tradição profética, surge Jesus de Nazaré como testemunha do projeto divino de um mundo transformado. Segundo os evangelhos, ele chama isso de “reino de Deus” ou reinado divino.

Conforme os evangelhos, para mostrar esse programa divino, pouco a pouco, emergindo no mundo, Jesus propõe tirar do tesouro da fé coisas novas e velhas (Mt 13). E o mais revolucionário: propôs nova forma de crer e de falar de Deus, como Pai e Mãe de ternura, Amor, presente em nós e solidário aos/as oprimidos/as e excluídos/as do mundo. Afirmou ter sido possuído pelo Espírito de Deus (O Espírito veio sobre mim e me enviou) para curar os doentes, libertar os prisioneiros e anunciar aos pobres e oprimidos a boa notícia da libertação (Cf. Lc 4, 16- 21). Só que a libertação não seria só para um povo (os judeus) nem para uma religião (a sinagoga), mas para todos os humanos, especialmente os “de fora” (Lc 4, 25- 30). Os religiosos da época de Jesus e de todos os tempos têm dificuldade de aceitar esse amor que não tem fronteiras. Para vivenciar essa novidade, Jesus reuniu um grupo de amigos e amigas que, depois do seu desaparecimento, se constituíram como movimento dentro do Judaísmo para abrir as comunidades do Espírito ao mundo inteiro, independente de raça e religião.

Inspiradas em Jesus, ainda no século I da nossa era, nasceram as Igrejas. Igreja é um termo grego que significa assembleia. Nas periferias de cidades do mundo grego, as comunidades de discípulos e discípulas de Jesus tomam o seu nome (Ekkesia: Igreja) das assembleias de cidadãos das cidades gregas e se constituem como novas e revolucionárias assembleias de pobres e de não cidadãos do império (paroiké era o termo pelo qual eram chamados). Ora, segundo a Lei Júlia (44 A.C), no Império Romano, todas as religiões eram permitidas, mas não as associações de pobres e trabalhadores. Mesmo assim, as Igrejas se constituíram, resistiram a incompreensões e mesmo algumas perseguições por parte de autoridades do império e se firmaram no mundo antigo. No início, cada comunidade ou Igreja tinha seu estilo cultural, sua organização e sua forma de expressar a fé. A maioria das comunidades eram constituídas por pessoas pobres que na Igreja tinham reconhecida a sua dignidade e ali ensaiava um jeito novo de viver a partir da igualdade e da comunhão de bens. Essa abertura à realidade fez com que as comunidades cristãs, pouco a pouco, até sem se darem conta, foram absorvendo as culturas dos locais onde se inseriam e foram assumindo alguns elementos das antigas religiões do Império, como o sacerdócio compreendido como classe de homens sagrados e o culto como expressão de sacrifício oferecido a Deus.

Na Igreja Católica, há sete anos, temos um bispo de Roma, patriarca das Igrejas de tradição latina, que, diferentemente dos papas anteriores, insiste no diálogo humilde e despretensioso com a humanidade. Dá prioridade às pessoas sem terra, sem teto e sem trabalho. Propõe uma Igreja em saída, isso é, que bispos, padres e fieis se desloquem dos centros de poder que criam revoluções digitais que excluem a maior parte da humanidade para o mundo dos pobres e excluídos. Em sintonia com o papa, as pastorais sociais católicas e evangélicas cultivam uma espiritualidade sócio- libertadora. Assim, o caminho da intimidade com o Espírito se dá na caminhada social e política por um novo mundo possível. É nas lutas sociais e na inserção em meio aos pobres que as comunidades eclesiais de base e militantes de pastorais sociais experimentam a presença do Amor Divino conduzindo e transformando suas vidas pessoais, à medida que transforma as estruturas do mundo. Uma Igreja cristã deveria ser ensaio de uma sociedade nova alternativa, baseada na justiça, na paz e na comunhão com a Terra e com a natureza.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Francisco quer a Igreja fora das igrejas


 Por Frei Betto

      Semana passada, em Nova Iguaçu (RJ), agentes pastorais, membros de Comunidades Eclesiais de Base, adeptos da Teologia da Libertação, do Movimento Fé e Política e de movimentos sociais se reuniram para aprofundar a proposta do papa Francisco de “uma Igreja em saída”.

      Diminui o número de católicos no Brasil. A pesquisa Datafolha, de dezembro de 2016, comprovou redução de 9 milhões de fiéis em dois anos. Naquela data, apenas 50% dos entrevistados se autodeclararam católicos.

      O papa Francisco está ciente da crise do catolicismo. Por isso, propõe uma “Igreja em saída”. Isso significa romper os muros clericalistas que amarram a Igreja aos templos; flexibilizar as leis canônicas (como admitir o recasamento de divorciados); e modificar os parâmetros ideológicos (que consideram o catolicismo conatural ao capitalismo).

      Esse projeto de Francisco se choca com a “restauração identitária” ou, nas palavras do teólogo e meu primo João Batista Libanio, “volta à grande disciplina”, defendida por João Paulo II e Bento XVI. Propunham a leitura dos documentos do Concílio Vaticano II à luz do Vaticano I: predominância do Direito Canônico; Catecismo da Igreja Católica; desestímulo às Comunidades Eclesiais de Base; aceitação da liturgia tridentina; valorização dos movimentos papistas; e desconfiança diante da sociedade (tida como relativista e niilista).

      Para o projeto de “restauração identitária”, o papel da Igreja é salvar almas. Para o de “Igreja em saída”, é libertar a humanidade da injustiça e da desigualdade. As pessoas se salvam salvando a humanidade de tudo que a impede de ser a grande família dos filhos e filhas de Deus. Daí a proposta de Francisco ao incentivar os movimentos sociais a lutar por três T: terra, teto e trabalho.

      O primeiro projeto quer uma Igreja centrada na liturgia e nos sacramentos, na noção de pecado, na submissão dos leigos ao clero. Guarda nostalgia dos tempos em que a Igreja Católica ditava a moral social; merecia a reverência do Estado, que a cobria de privilégios; e, hoje, seus adeptos se sentem incomodados frente à secularização da sociedade e aos avanços da ciência e da tecnologia. 

      Ora, quantos jovens batizados na Igreja Católica estão hoje preocupados com a noção de pecado? Quantos temem ir para o inferno ao morrer? Quantos se preservam virgens até o casamento?

      O projeto de Francisco é de uma Igreja descentrada de si e centrada nos graves desafios do mundo atual: preservação da natureza; combate à idolatria do capital; diálogo entre as nações; acolhimento dos refugiados; misericórdia às pessoas; protagonismo dos movimentos populares; centralidade evangélica nos direitos dos pobres e excluídos.

      Bento XVI renunciou por reconhecer o fracasso do projeto de “restauração identitária”, ainda apoiado por expressivo número de bispos, padres e religiosas, incomodados com as orientações do papa Francisco, a quem alguns criticam abertamente.

      O novo jeito de ser católico, proposto por Francisco, corresponde ao que dizia são Domingos, fundador da Ordem religiosa a que pertenço: “O trigo amontoado apodrece; espalhado, frutifica”. Sair da sacristia para a sociedade; encarar o mundo como dádiva de Deus; descobrir a presença de valores evangélicos em pessoas e situações desprovidas de fé ou religiosidade; buscar o diálogo ecumênico e inter-religioso; estar menos na Igreja para se fazer mais presente no Reino de Deus – categoria que, na boca de Jesus, se contrapunha ao reino de César, e significa o mundo no qual a paz seja fruto da justiça, e não do equilíbrio de armas.

      A meta é o Reino de Deus, no qual “Deus será tudo em todos”, como prenunciou o apóstolo Paulo (I Coríntios 15, 28). O caminho para atingi-lo inclui os movimentos sociais, as instituições da sociedade, as ferramentas políticas. E a Igreja funciona como “posto de gasolina” para abastecer-nos na fé e na espiritualidade capaz de nos estimular como militantes da grande utopia - o mundo que Deus quer para seus filhos e filhas viverem com dignidade, liberdade, justiça e paz.

Frei Betto é escritor, autor de “Parábolas de Jesus – ética e valores universais” (Vozes), entre outros livros.
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quarta-feira, 8 de março de 2017

IGREJAS CATÓLICA ROMANA E ANGLICANA ESTÃO MAIS PRÓXIMAS

Por Juracy Andrade



No domingo 26 de fevereiro, quando o Brasil começava a mergulhar no Carnaval, o papa Francisco visitou uma igreja de confissão anglicana de Roma, a All Saints. Pela primeira vez desde o século 16, quando a Igreja da Inglaterra, uma das mais antigas da história cristã, foi desligada de Roma pelo rei Henrique 8º. Desculpem mas, já que falei em Carnaval, peço licença para acrescentar uma observação sobre o Galo da Madrugada, aquele do gostoso “Ei pessoal, ei moçada” (acréscimo ao que postei no meu blogdenegoveio blogspot.com.br). Outra coisa que prejudica o Galo e lhe fomenta o complexo de grandeza é o abraço que o globalizou. Do jeito que globalizou o Drama da Paixão de Fazenda Nova, a Rede Globo anexou o Galo.

Geralmente bem próxima da Igreja Católica Romana, na liturgia e na teologia, a Igreja Anglicana, também conhecida como Episcopal fora da Inglaterra, tem sua máxima figura religiosa no arcebispo de Cantuária (Canterbury) e também uma chefia cerimonial do soberano inglês, além de Sínodos que zelam por suas convicções teológicas.

Houve no século 19, um religioso anglicano que, após muito estudo e oração, aderiu à Igreja Romana. Foi John Henry Newman, mais tarde nomeado cardeal pelo papa Leão 13. Foi discutido, na época, se ele deveria receber uma nova ordenação, pois alguns teólogos acreditavam que teria havido uma ruptura nas ordenações e consagrações da Igreja Anglicana, que teria quebrado os laços com a tradição apostólica que vem desde os apóstolos de Jesus Cristo. No entanto, essa questão foi resolvida com o reconhecimento dos laços anglicanos com a tradição apostólica.

A ida de Francisco à igreja anglicana de All Saints, em Roma, é mais um sinal de que as duas confissões cristãs estão interessadas naquela unidade que Jesus Cristo tanto desejou e pela qual orou fervorosamente no Jardim das Oliveiras, nos momentos que precederam sua paixão e morte. Francisco pretende visitar o conflituoso Sudão do Sul em companhia de bispos anglicanos, mais um passo de ambas as confissões na direção do “que todos sejam um só” desejado por Cristo.

A chegada da Igreja Anglicana ao Brasil ocorreu com a aproximação entre as cortes de Portugal e Inglaterra e o incremento dos negócios ingleses em nosso país, após a assim dita “abertura dos portos”. O primeiro templo anglicano construído em nosso país (e na América do Sul) foi no Rio de Janeiro. Depois foram implantadas capelas em São Paulo, Santos, Belém e Recife. Aqui no Recife, o anglicanismo se desenvolveu muito pela presença de súditos britânicos em empresas como a Great Western, a Pernambuco Tramways e outras. Na 2ª Guerra Mundial, muitos filhos de ingleses aqui residentes foram lutar contra os nazistas. Os nomes daqueles que morreram na luta estão gravados na igreja anglicana do Espinheiro. E tem também, na Boa Vista, uma Rua do Padre Inglês.

Que sejamos um só, como queria e quer Cristo.



O autor é jornalista com formação em filosofia e teologia

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O ESPÍRITO SANTO HOJE NAS IGREJAS


Por  Maria Clara Lucchetti Bingemer


É sempre bom aproveitar o tempo da oitava de Pentecostes para refletir sobre o eclodir da consciência do Espírito Santo nas Igrejas cristãs. O movimento carismático e pentecostal, a percepção da presença do Espírito Santo e o surgimento de novas igrejas diferentes em forma, conteúdo e espiritualidade das igrejas cristãs históricas é um fato que merece a atenção do mundo inteiro.  Vivemos, sobretudo no Ocidente, que sempre apresentou uma pneumatologia acanhada, um verdadeiro Tempo do Espírito.  No entanto, esse eclodir do carismatismo pneumatológico deste lado do mundo não deixa de apresentar ambiguidades e questionamentos.  Portanto, não pode deixar de chamar a atenção da Teologia que se faz na academia, mas sobretudo na comunidade eclesial.

Deste lado do mundo, ou seja, no Ocidente cristão (Europa Ocidental e América), a pessoa do Espírito Santo ficou durante longo tempo um tanto esquecida, e mesmo deixada de lado. O Cristianismo ocidental configurou-se após o século IV e até o século XX por uma primazia quase absoluta do Filho, segunda pessoa da Santíssima Trindade, chegando às raias de um cristomonismo. Por outro lado, a pneumatologia oriental cresceu e desabrochou ricamente, dando a toda a teologia do Oriente cristão (Europa do Leste, Península Balcânica e Oriente Médio) uma configuração trinitária, onde pneumatologia e cristologia harmoniosamente dialogam e se entrelaçam.

Importa, então, refletir sobre este fenômeno, procurando resgatar suas raízes e analisando suas consequências. Sobretudo num tempo como o nosso, quando o movimento carismático cresce de maneira importante na Igreja do Ocidente, fazendo acontecer o pentecostalismo que quase chega por vezes a um pneumatomonismo. Vivemos, hoje, nas igrejas cristãs do Ocidente – católica ou protestantes - o risco de que a espiritualidade e a pastoral sejam marcadas por uma primazia quase absoluta do Espírito Santo, o que deixaria na sombra as outras duas pessoas divinas e, sobretudo, a espessura histórica e encarnada da pessoa do Filho e o compromisso concreto que daí resulta.

Este fato gera outras consequências teológicas e também pastorais.  Uma delas é um declinar, nas igrejas, da ligação entre experiência do Espírito e compromisso histórico. Em outras palavras, entre espiritualidade e prática. 

  Igualmente categorias como a centralidade da história, a opção pelos pobres e o binômio inseparável fé-justiça, que marcou a teologia pós-conciliar não só da América Latina mas do mundo inteiro, deixam de estar à frente da pastoral das igrejas cristãs.  Em seu lugar, surge a chamada “teologia da prosperidade”, que relaciona experiência de Deus e enriquecimento, sendo adotada por pastores que muitas vezes a impõem aos fiéis de maneira coercitiva e violenta. Esta teologia encontra seu canal de expressão em liturgias muitas vezes bastante exteriorizantes, com grande “ruído” e igual agitação, não permitindo inclusive às celebrações fornecerem aos fiéis espaço de oração e reflexão onde o coração possa sentir e a razão pensar. Mesmo autores que veem a positividade presente no movimento carismático em geral são críticos sobre esses pontos da agitação espiritual, da tomada de posse da liturgia e da desconexão com a realidade e a transformação da mesma.

Os tempos que vivemos são, sim, tempos do Espírito.  Porém, ao lado da riqueza que nos trouxeram os movimentos carismáticos que reivindicam para si e sua atuação a primazia da Terceira Pessoa da Trindade, encontramos muita ambiguidade.  Por isso, esses tempos do Espírito, há que vivê-los no contínuo discernimento.

     Por isso, é importante voltar sempre e constantemente à 1a Carta de João, capítulo 4, vv 1 ss:  "Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo.”  Discernir é preciso ainda que as alegres e ruidosas celebrações carismáticas encham os ouvidos e os espaços; ainda que seja indispensável  maior atenção à pneumatologia; ainda que os tempos plurais que hoje vivemos sejam propícios a uma importância maior da reflexão sobre o Espírito.

Perceber nos “sofrimentos do tempo presente” e em nossos próprios gemidos os “gemidos inefáveis” do Espírito (Rm 8,18.23.26) é a condição da verdadeira espiritualidade cristã. A espiritualidade cristã assim entendida é incontrolável pela teologia, que dela deve aprender a experiência de Deus que é Pai, Filho e Espírito.  Com a “ retração” da morte e ressurreição de Jesus, é o Espírito que habita em nós o responsável pelo reconhecimento da presença do Messias em nós. E isso implica aderir de todo coração a esta presença, não apenas na catarse obtida na afetividade  exacerbada, mas na obediência humilde e provada que se dá pelas dificuldades da caminhada e pelo sofrimento inexplicável nosso e alheio. Afinal, é do próprio Jesus que diz a Carta aos Hebreus: “pelo que sofreu( epathen), aprendeu ( emathen) a obediência” ( Hb 5,8).

Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ. A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc) 
  
 Copyright 2016 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


terça-feira, 8 de setembro de 2015

IGREJAS EM PROCESSO CONCILIAR

Por Marcelo Barros


Nesses dias, voltaram a circular na internet, pessoas e grupos católicos que pedem ao papa Francisco para convocar um novo concílio ecumênico. A cada dia, esse pedido agrega mais assinaturas de adesão. De fato, na Igreja Católica, o desejo de um novo Concílio ecumênico surgiu concretamente em 1999, no Sínododos Bispos em Roma, a partir de um pedido do cardeal Carlo Maria Martini e de outros bispos. A partir daí muitos ministros e fiéis aderiram ao pedido. Em Madri, existe até uma secretaria internacional do movimento por um novo Concílio.

No entanto, nos anos mais recentes, a proposta foi sendo transformada. Em primeiro lugar, atualmente, devido à importância do tema e à realidade, não parece mais ser indicado um concilio que reúna apenas bispos e sim possa se constituir como uma grande assembleia ou fórum mundial, representativa de todas as forças vivas da Igreja. Também em tempos de uma “Igreja em saída”, como propõe o papa Francisco, esse fórum eclesial deve sim tratar de temas e questões internas da Igreja, mas não pode se restringir a isso. Desde os anos 40, ainda na Alemanha nazista, o pastor Dietrich Bonhoeffer já havia sugerido um concílio de todos os cristãos sobre a paz, justiça e defesa da criação (natureza).

Tanto pelo tema, como pela proposta de serviço comum à humanidade, essa assembleia precisará reunir ministros e fiéis de todas as Igrejas cristãs que aceitarem dialogar e representantes de outras religiões que se proponham a um caminho comum. Evidentemente, um fórum dessa natureza teria de ser preparado com muita antecedência e ser precedido por diversos encontros locais, regionais e nacionais. As discussões e aprofundamentos das bases se realizariam, antes de tudo, em cada Igreja e, depois, se ampliariam até o nível ecumênico e inter-religioso. Isso é o que se chama de processo sinodal. Vem do termo grego synodos que se significa “caminho feito em comum”.

No Cristianismo, algumas Igrejas têm natureza sinodal. O sínodo é a autoridade máxima para denominações como as Igrejas Orientais Ortodoxas e, no Ocidente, as Igrejas evangélicas congregacionais. Em 1973, em Salamanca, a Comissão Fé e Constituição ligada ao Conselho Mundial de Igrejasfoi retomada pela Assembléia do CMI em Nairobi. Afirmava: “A Igrejadeve ser vista como uma comunidade conciliar de Igrejas locais, autenticamente unidas umas às outras. Nessa comunidade conciliar, cada Igreja local possui, em comunhão com as outras, a plenitude da catolicidade e dá testemunho da mesma fé apostólica.” (...) “Na vida da Igreja, o fato de se organizar em sínodo é o reflexo de que cremos em um Deus que é comunhão.” 

Na Igreja Católica Romana, depois de séculos, o Concílio Vaticano II revalorizou a realização de sínodos, tanto nos níveis locais e regionais, como no plano mundial. Em 2007, como arcebispo de Buenos Ayres, o cardeal Bergoglio foi um dos coordenadores do mais recente sínodo das Igrejas latino-americanas e caribenhas: a 5a Conferência Geral do episcopado latino-americano em Aparecida (2007). E esse sínodo o marcou muito. Ao se apresentar como “bispo de Roma”, o papa Francisco revela sua intenção de insistir mais nesse instrumento de diálogo e crescimento em comum.

O mês de setembro nos recorda a importante conferência desse mesmo episcopado católico em Medellín, Colômbia, em setembro de 1968.  Esse foi o encontro que adaptou o Concílio Vaticano II às dioceses da América Latina. Mais do que isso, nessa conferência, a Igreja Católica conseguiu inserir-se profundamente na realidade social e política do nosso continente e propor um novo modo de viver a missão em cada país e situação. A partir da conferência de Medellín, se fortaleceu a experiência das comunidades eclesiais de base. Dois anos depois, começava-se a Teologia da Libertação: um método teológico de unir fé e vida, missão da Igreja e serviço libertador dos mais pobres.


Nesse momento, em que muitos grupos pedem que as Igrejas retomem sua vocação sinodal, é importante recordarmos as propostas principais formuladas pelos bispos católicos em Medellín. Sem dúvida, a realidade mudou muito. No entanto, ninguém pode negar a força atual da proposta central dos bispos em Medellín: “Que, na América Latina e Caribe, se apresente cada vez mais claramente o rosto de uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, corajosamente comprometida com a libertação de toda humanidade e de cada ser humano em sua integralidade” (Medellin. 5, 15 a).

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países