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terça-feira, 6 de julho de 2021

IGREJAS E DIVERSIDADE SEXUAL

 Marcelo Barros


 

Nestes dias, a Igreja Católica ocupa manchetes da imprensa internacional com duas notícias. A primeira conta que, na 4ª feira, 17 de junho, Dom Paul Gallagher, responsável no Vaticano pelas relações com os outros Estados, entregou à embaixada italiana junto à Santa Sé nota que pede ao governo italiano que rejeite uma lei que está em tramitação no Senado. Trata-se da lei que considera crime a homofobia e declara ilegal qualquer manifestação cultural, política ou religiosa que incite pessoas à discriminação sexual e à homofobia (Cf. Corriere de la Sera, 22/06/ 2021).

Mesmo com tantos gestos e palavras do papa a favor dos migrantes, o Vaticano nunca entrou com medida diplomática contra medidas racistas e xenofóbicas do governo italiano. Agora, protesta contra esta lei. Ela impediria colégios católicos e paróquias fazerem propaganda contrária a eventos como o chamado “dia nacional contra a homofobia”. Conforme o Vaticano, impedir que escolas e paroquias continuem pregando contra a diversidade sexual é atentar contra a liberdade religiosa da Igreja.

O governo italiano respondeu ao Vaticano: A Itália é um país laical, aberto a todas as religiões, mas não preso a nenhuma.

Outra notícia é que, também nestes dias, em Washington, a assembleia dos bispos dos Estados Unidos aprovou por maioria um documento que exclui da comunhão eucarística católicos/as que, de alguma forma, se manifestem favoráveis a qualquer tipo de aborto, mesmo o terapêutico. Desde a eleição de Joe Biden, esse é o assunto mais importante para muitos bispos católicos do país (Cf. Público, Lisboa, 21/06/2021).

A maioria desses bispos nunca se manifesta sobre uma estrutura social e política que cria 44 milhões de pessoas mergulhadas na pobreza. Eles não protestam contra a polícia que a cada dia mais agride, fere e até mata pessoas negras. Nunca negaram comunhão a presidentes que provocam guerras e matam milhares de pessoas apenas para ter mais aprovação nas pesquisas de opinião. Nunca pensaram em negar a comunhão a pessoas racistas, mas quando o assunto é aborto, união gay ou moral sexual, surtam. 

Pesquisas revelam que, nos Estados Unidos, a maioria dos católicos não concorda com a posição oficial da Igreja sobre ética sexual. No mundo inteiro, quando o assunto é sexo, essa divisão entre pastores e fiéis aumenta. O papa fala em sinodalidade e consulta às bases, mas há assuntos tabus sobre os quais muitos pastores não aceitam dialogar.

No mundo inteiro, bispos e padres são, em sua maioria, pessoas éticas e corretas. No entanto, na estrutura do clero, ainda vigora uma cultura de preocupação com aparência e moralismo hipócrita que não favorece o testemunho do evangelho de Jesus. No Brasil, vivemos situações políticas sobre as quais é impossível calar totalmente. No entanto, a maioria dos pronunciamentos episcopais sobre política repete generalidades sobre justiça e direito. O povo percebe que muitos bispos e padres só se pronunciam de modo claro e forte quando o assunto é ligado à moral sexual, como dominados por uma obsessão sexual que não deixa de ser doentia.

Quem vai além da leitura fundamentalista da Bíblia sabe que não pode aplicar literalmente preceitos tribais da cultura antiga às realidades de hoje. Em nossos dias, poucos grupos cristãos se pronunciam contra a transfusão de sangue, porque a Bíblia proíbe. Ninguém defende a escravidão porque a Bíblia permite. Como explicar que ainda haja bispos e padres que usam argumentos bíblicos para explicar sua homofobia? Poderiam ouvir de Jesus o que aqueles doutores da lei que condenavam a mulher adúltera escutaram: “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”.

Por falar em pecado, Jesus acusa de pecado os religiosos do templo com sua santidade arrogante e sua idolatria do poder divinizado. Sobre ética sexual, nenhum dos quatro evangelhos registram qualquer palavra direta de Jesus sobre o assunto. Nenhuma perícope do Antigo ou do Novo Testamento trata de homoafetividade ou de algum problema de Ética Sexual para a sociedade atual. Legitimar homofobia ou se posicionar contra a diversidade sexual a partir da leitura de textos bíblicos fora do seu contexto é repetir o formalismo farisaico que Jesus condenou, ao dizer aos discípulos: “Ouvistes o que foi dito aos antigos. No entanto, agora, eu vos digo outra coisa...”.

Neste XIII Domingo comum do ano B, Marcos conta duas curas que Jesus fez (Mc 5, 21- 43). Toma a reanimação da menina, filha de Jairo como moldura da cena central. Esta foi a cura da mulher anônima que sofria de hemorragia e por isso era marginalizada e considerada pecadora. O evangelho faz daquela mulher símbolo de toda pessoa que a lei condenava. Em nossos dias, ainda há pessoas consideradas impuras pela religião ritual. São as que se identificam como LGBTQI+. São vítimas de discriminação e violência. A sociedade parece querer sufocar nas pessoas diferentes as inseguranças que a maioria dos homens não quer enfrentar interiormente.

É uma contradição escandalosa: Igrejas cristãs que deveriam ser sacramentos de humanização amorosa legitimam discriminações e violências. Não se trata de perdoar as pessoas LGBTQI+ porque elas não cometeram pecado algum. Ao contrário, ajudam a humanidade a assumir a diversidade de gêneros como contribuição à fraternidade humana que o Papa Francisco propõe na Fratelli Tutti. Se as Igrejas querem mesmo ser instrumentos de amor e unidade da família humana, precisam reconhecer, respeitar e valorizar a identidade sexual e a orientação de gênero de todas as pessoas. Cada uma delas merece ouvir os ministros de Jesus os/as chamarem de filhos e filhas, como Jesus chamou aquela mulher curada e agora integrada na comunidade.

 

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

DIVERSIDADE RELIGIOSA, DOM DIVINO PARA A HUMANIDADE



Por Marcelo Barros

No Brasil, essa semana é marcada pelo dia 21, data nacional do combate à intolerância religiosa. Nessa sociedade mergulhada em desigualdade social cada vez mais violenta, o respeito e diálogo entre as religiões pode ser instrumento de humanização e testemunho do Amor Divino.

A ONU consagra o 21 de janeiro como “dia mundial das religiões”.  Desde que foi iniciada essa comemoração, o mundo se foi descobrindo sempre mais diverso e plural. Por isso, essa data se tornou importante para provocar uma reflexão profunda sobre a diversidade religiosa e combater as raízes de qualquer intolerância.

No Brasil, a Constituição Brasileira garante a liberdade de culto e o direito de todas as pessoas exercerem livremente a religião que quiserem. A Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, alterada pela Lei nº 9.459, de 15 de maio de 1997, considera crime a prática de discriminação ou preconceito contra religiões. Apesar disso, em todo o país, diariamente, ocorrem ataques a templos de cultos afro-brasileiros e agressões a comunidades que os praticam. No dia 21 de janeiro de 2000, Gildásia dos Santos, conhecida como Mãe Gilda de Ogum, Ilyaorixá do Ilê Abassá em Salvador, BA, morreu em decorrência de agressões e humilhações sofridas por parte de grupos neopentecostais. Em 2007, para que fatos como esse não aconteçam mais, o Presidente da República instituiu o 21 de janeiro como o Dia de combate à intolerância religiosa. Naquela ocasião,  a Secretaria da Presidência da República para os Direitos Humanos criou uma comissão especial para zelar pela diversidade religiosa. Além disso, em diversos estados, se criaram fóruns e grupos que velavam pelos direitos à liberdade de expressão por parte de todos os segmentos espirituais. Apesar disso, aqui e ali, ainda ocorriam atos de discriminação e de violência, principalmente contra religiões e cultos de matriz africana. Às vezes, a intolerância era clara, outras vezes, camuflada sob o pretexto de protesto contra o barulho dos tambores ou contra o sacrifício de animais.

Mais de dez anos depois, o Brasil respira um clima social e político baseado na intransigência e na prática da violência. Pior ainda é o fato de que a elite econômica e política atrelada ao Império usa formas de Cristianismo exclusivista para se legitimar.  O atual governo extinguiu as secretarias para Direitos Humanos e para a Diversidade Religiosa. Autoridades parecem ignorar o caráter laical do país. Gritam o lema nazista Deus acima de todos para disseminar uma subcultura do ódio, da intolerância ao diferente e da apologia à violência. Por isso, se torna ainda mais importante e imprescindível que a sociedade civil e os próprios grupos religiosos assumam a missão do diálogo e do combate à intolerância. Na omissão criminosa do Estado, a própria sociedade civil pode colaborar e proporcionar espaços de diálogo, mas esses só funcionarão se cada grupo religioso aprofundar o caminho do diálogo e da comunhão como vocação espiritual. De fato, todas as religiões pregam amor, compaixão e misericórdia. Entretanto, quando se tornam dogmáticas e autoritárias, se transformam em instrumentos de fanatismo e canais de intolerância. Confundem a verdade com uma forma cultural de expressar a verdade. Absolutizam dogmas e acabam justificando conflitos e guerras em nome de Deus.

No decorrer da história, infelizmente, o Cristianismo foi a religião que mais usou de violência e intolerância contra infiéis e hereges. Isso em absoluta contradição com o evangelho e o espírito de Jesus de Nazaré. Atualmente, a diversidade cultural e religiosa não é só um fato que, queiramos ou não, se impõe à humanidade. É principalmente uma graça divina e bênção para as tradições religiosas. Para que entre as religiões, o diálogo possa ser profundo, cada grupo tem de reconhecer o que Deus lhe revela, não só a partir da sua própria tradição, mas do caminho religioso do outro. No tempo do nazismo, de uma prisão alemã, escrevia o pastor Dietrich Bonhoeffer, teólogo luterano: “Deus está em mim, mas para me abrir ao outro. Em mim, é uma presença fraca para mim mesmo e é forte para o outro. No outro, a sua presença é para mim. Assim, Deus é amor e se encontra quando encontramos o outro, o diferente”.

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com


quarta-feira, 13 de março de 2019

RECONCILIAR-SE COM A DIVERSIDADE





Por Kinno Cerqueira
Tendemos ao desconforto quando nos encontramos ante uma face que não é a nossa. Não raras vezes, é demasiado incômodo suportar uma imagem que não seja a que vemos no espelho. Somos tão fascinados pela nossa maneira de ser-no-mundo, que não admitimos outras formas de existir-no-mundo. 

A diversidade aparece-nos como uma ofensa. Tornamo-nos preconceituosos e repressores. A vida de todas as pessoas – pensamos – deve ser conduzida conforme a nossa visão de mundo, que é a “correta”. Adoramos tanto a nós próprios que não conseguimos acolher o outro com suas diferenças.

Mas será que poderíamos nos reconciliar com a diversidade?

Há um poema sagrado segundo o qual Deus criou céus, terra, luz, trevas, fauna, flora, animais, um belo jardim e a humanidade. Ao concluir sua criação, passou a contemplá-la. Sentiu-se cativado pela lindeza do que estava a ver. Seus olhos lacrimejavam de tanta emoção. Nunca pensara que ficaria tão bonito...

Viu Deus
tudo quanto fizera,
e era belíssimo.
(Gn 1,31)

Deus cria a diversidade e se apaixona por ela. Encanta-se com as cores, dança ao cantar dos pássaros, rodopia nas asas do vento, escorrega por entre as folhagens das árvores, encanta-se diante do amor torrencial que, não conhecendo formas fixas nem limites, banha toda a criação, convidando todos os seres vivos para fazer, cada qual a seu modo, a experiência do amor.

Para nos livrar da feiura, Deus cria a diversidade.

A diversidade faz da vida uma sinfonia de muitos ritmos e sons, um texto de muitos textos, uma história de muitas histórias, um poema de muitos amores. Se não fôssemos diversos, estaríamos condenados à monotonia de uma vida pálida e fria. Ser-nos-ia impossível gozar o espanto da descoberta, o assombro da paixão, os imprevistos do amor. 

A diversidade – cultural, sexual, étnica, religiosa etc. – é a tinta com a qual Deus escreve seus poemas de amor no coração da vida planetária.

Somos convidados a fazer as pazes com a diversidade. Reconciliar-se com a diversidade é reconciliar-se com Deus, é voltar a ler seus belíssimos poemas de amor.

Kinno Cerqueira é pastor batista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos




terça-feira, 22 de janeiro de 2019

A GRAÇA DA DIVERSIDADE



Por Marcelo Barros

No Brasil, a cada ano, apesar do que poderá pensar sobre isso o novo governo federal, o 21 de janeiro é comemorado como “o dia nacional de combate à intolerância religiosa”. Essa data foi criada pelo presidente Lula, através da lei federal n. 11.635 de 27 de dezembro de 2007. Ao escolher esse dia, se quis homenagear a Mãe Gilda, Ialorixá do Axé Abassá de Ogum, em Salvador. Ela faleceu no dia 21 de janeiro de 2000, vítima de perseguição e ataque de um grupo neopentecostal fundamentalista que invadiu o templo do Candomblé, desrespeitou os símbolos sagrados ali representados e ofendeu gravemente a mãe de santo.

Mesmo com a criação dessa data significativa e sua celebração a cada ano, infelizmente, nos nossos dias, a intolerância religiosa tem aumentado. Pior ainda, atualmente ela é menos combatida do que antes. Mesmo em ambientes oficiais, autoridades fazem declarações que denotam intolerância e discriminação contra grupos culturais e religiosos diferentes da cultura dominante. Em vários países, há preconceitos contra muçulmanos, como se todos fossem terroristas. E a sociedade dominante cria barreiras de marginalização social e preconceitos. Os governos respondem aos fundamentalismos de grupos extremistas com um terrorismo de Estado, ainda mais nocivo e destruidor. No Brasil, a cada dia, se registram casos de discriminações e perseguições a alguns grupos religiosos, principalmente, comunidades das religiões afrodescendentes. Apesar da Constituição Brasileira defender a liberdade de culto para todas as religiões, programas de rádio e televisão pregam a intolerância e combatem os cultos afro.

O mais grave é que os ataques e atos de violência religiosa não são praticados por ateus dogmáticos, contrários à religião. São cometidos por grupos que se dizem cristãos e agem em nome de Deus. Apoiam-se em uma leitura literal e fanática de alguns textos bíblicos para justificar a imagem de um Deus cruel, violento e intolerante. Ainda bem que, até aqui, esses grupos neopentecostais e católicos de linha carismática não descobriram ainda que os mesmos livros da Bíblia que manda perseguir e destruir cultos de outros grupos manda também apedrejar mulheres adúlteras ou simplesmente pessoas que não respeitem o sábado. Será que, ao descobrirem que as mesmas leis bíblicas que condenam outros cultos permitem a escravidão de estrangeiros e mandam vender pessoas como escravas para saldar dívidas não pagas, eles passarão a praticar isso? Parecem não perceber que, em pleno século XXI, essas leis culturais da Ásia antiga não podem ser consideradas como vindas de Deus.

Em outras épocas, quase todas as Igrejas históricas condenavam hereges à morte. Também queimavam na fogueira mulheres consideradas feiticeiras ou bruxas e pessoas que praticassem formas de sexo não aprovadas pela Igreja. Durante séculos, a Igreja Católica se proclamou como a única religião verdadeira e sistematicamente combatia as outras. Somente há 50 anos, em 1965, ao concluir o Concílio Vaticano II que, em Roma, reuniu todos os bispos do mundo, a Igreja Católica publicou a declaração Nostra Aetate que reconhece o valor das outras religiões e incentiva os fieis a valorizar o diferente e praticar o diálogo. Da parte das Igrejas evangélicas históricas, em 1961, o Conselho Mundial de Igrejas, que reúne 349 confissões evangélicas e ortodoxas, em sua assembleia geral em Nova Dehli, pediu às Igrejas-membros respeito e diálogo com todas as culturas e colaboração com outras tradições religiosas.

De fato, todas as religiões pregam amor, compaixão e misericórdia. Entretanto, quando se tornam dogmáticas e autoritárias, se transformam em instrumentos de fanatismo e canais de intolerância. Confundem a verdade com uma forma cultural de expressar a verdade. Assim, absolutizam dogmas e acabam justificando conflitos e guerras em nome de Deus.

Atualmente, no mundo, a diversidade cultural e religiosa é, não somente um fato que, queiramos ou não, se impõe à humanidade. É principalmente uma graça divina e bênção para as tradições religiosas. Para que entre as religiões, o diálogo possa ser profundo, cada grupo tem de reconhecer que Deus lhe revela o seu amor e o seu projeto para a humanidade, não só através da sua própria tradição, mas também do caminho religioso do outro. No tempo do nazismo, de uma prisão alemã, escrevia o pastor Dietrich Bonhoeffer, teólogo luterano: “Deus está em mim, mas para me abrir ao outro. Em mim, é uma presença fraca para mim mesmo e é forte para o outro. Ele está no diferente, mas a sua presença é para mim. Assim, Deus é amor e se encontra quando encontramos o outro, o diferente”.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br


terça-feira, 22 de maio de 2018

A DIVINA DIVERSIDADE NAS DIFERENÇAS HUMANAS






Por Marcelo Barros

Nesse domingo 20, as Igrejas cristãs concluíram os 50 dias da celebração anual da Páscoa com a memória do dia no qual, conforme a tradição cristã, a ressurreição de Jesus deu como fruto a vinda do Espírito Santo como presença permanente de Deus nas pessoas e no mundo.

A partir de então, pode-se crer em Deus como Amor presente e atuante nas pessoas e nas relações entre todos os seres. Cada vez mais os cientistas aceitam que, por trás da evolução cósmica e convergente do universo, existe uma inteligência amorosa que dá vida e consistência a tudo. Para a tradição judaica e cristã, esse Amor que fecunda o universo se chama Deus. É Amor que cria amor em nós e no mundo. Na Bíblia, o termo espírito é feminino (ruah). Deus é mãe carinhosa que nos educa, conforta e fortalece nas lutas da vida.

Na abertura das celebrações de Pentecostes, as Igrejas antigas cantam uma palavra do livro da Sabedoria: "O Espírito do Senhor, o universo todo encheu. Tudo abarca em seu saber e tudo enlaça em seu amor. Aleluia, aleluia". Isso significa que todo o universo está cheio da energia amorosa de Deus. Os seres vivos testemunham que o amor divino é único, mas se manifesta de formas diversas na natureza e nas pessoas. Assim, o próprio Deus assume a diversidade como algo que é seu e através da qual ele se manifesta para nós.

Nesses dias, a ONU comemora duas datas nas quais se acentua a importância da diversidade. Nessa segunda-feira, 21 de maio, a cada ano, se comemora o Dia Mundial das Diversidades Culturais. Na terça-feira, 22, a ONU nos convida a refletir sobre a Diversidade biológica ou biodiversidade. Embora sejam comemorações independentes, as duas datas revelam a importância do respeito às diversidades. Na primeira comemoração, se trata das diversidades culturais e humanas. Na segunda, a preocupação é a diversidade biológica. Atualmente, os cientistas estão de acordo: o próprio fenômeno da vida acontece como uma rede de relações entre células diferentes e entre organismos diversos. Para se manter e se desenvolver, a vida precisa da biodiversidade. Quando, em nome do lucro, os proprietários de terra fazem monocultura e transformam imensas paisagens de terra em plantações de cana de açúcar, de soja ou, pior ainda, de pasto para o gado, é a própria vida que é ameaçada. O agronegócio troca a vida para todos pelo lucro para poucos.

Do lado da fé, a festa cristã de Pentecostes lembra que a primeira manifestação do Espírito de Deus aos discípulos de Jesus foi torná-los capazes de se comunicarem com pessoas de diferentes idiomas e formarem uma unidade a partir da diversidade cultural e étnica (Atos 2).

Por muito tempo, as Igrejas pensavam que a proposta divina da unidade excluía quaisquer diferenças entre si. Todos tinham de pensar igual, agir na mesma linha e dizer uma palavra única. No século III, o bispo Cipriano de Cartago já advertia: "A unidade abole as divisões, mas respeita as diferenças". E a cada ano, para preparar essa festa do Espírito que os cristãos celebram nesse domingo, várias Igrejas diferentes se unem em orações pela unidade dos cristãos. Compreendem que se trata de unidade de fé e de amor na diversidade das instituições e das formas de ser cristãos. Nada de uniformidade. Como é a realidade do universo: os astros se relacionam e se harmonizam na grande diversidade cósmica.

Na situação social e política atual, diversos movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos, ligados aos interesses do povo mais pobre se juntam em uma grande frente de esquerda. Querem deter a onda do Fascismo, cada vez mais defendido e apregoado por grandes meios de comunicação e pelas elites brasileiras. Ao ouvir notícias contraditórias, há pessoas que ficam sem saber o que pensar. Alguns se perguntam de que lado devem se colocar. Um bom critério é ver de que lado estão os movimentos sociais e as pessoas e grupos mais ligados aos pequenos e deserdados da sociedade. Como disse Jesus no evangelho: "Pai, eu te dou graças porque escondeste tuas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos" (Mt 10, 25 ss).

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

DEUS E A DIVERSIDADE DE GÊNEROS


 Por Frei Betto


      Diego Neria Lejárraga, 48, é espanhol. Nasceu mulher. Mas desde criança se sentia homem. Aos 40 anos se submeteu a cirurgias para redesignar sua sexualidade. Virou homem. O padre de sua cidade, Plasencia, acusou-o de “filha do diabo”.

      Diego escreveu ao papa Francisco antes do Natal de 2014. Indagou qual o seu lugar na “casa de Deus”. Francisco telefonou duas vezes para ele. Convidou-o a Roma, a 24 de janeiro. Diego, em companhia de sua noiva, foi recebido na casa Santa Marta, onde reside o papa. Francisco demonstrou que a Igreja Católica está aberta à diversidade sexual. Ao sair do encontro, Diego disse sentir uma imensa paz.

      O papa abraça a ousadia de Jesus, que defendeu a mulher adúltera do ataque dos fariseus; acolheu Madalena, que portava “sete demônios”, como discípula e primeira testemunha de sua ressurreição; e elogiou a veracidade de samaritana, que estava no sexto marido, e fez dela a primeira apóstola.

      O amor e, com ele, a compaixão e a misericórdia, deve soterrar preconceitos e discriminações.

      “Quem sou eu para julgar os gays?”, expressou Francisco em julho de 2013, ao deixar a Jornada Mundial da Juventude, no Rio. “Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”

      O papa está à frente da Igreja Católica no duplo sentido – como seu chefe e por sua atitude profeticamente evangélica. Em outubro de 2014, durante o sínodo dos bispos sobre a família, em Roma, cardeais rejeitaram a proposta de maior aceitação, na Igreja, de casais homossexuais. Francisco, que prefere a democracia a se impor como soberano absoluto (aliás, ele é o único do Ocidente), não contrariou os cardeais. Preferiu levantar uma pergunta que encurralou os prelados homofóbicos: casais homossexuais têm filhos. “Vamos deixar essas crianças fora da catequese?”

      Na Parada Gay de São Paulo, a 7 de junho, a atriz transexual, Viviany Beledoni, se apresentou seminua pregada à cruz. Muitos cristãos a acusaram de “blasfêmia”. Os mesmos que não consideram pecado ou crime a homofobia, e não mexem um dedo para combater a servidão da mulher como corpo-objeto abusado e explorado por homens de todas as épocas.

      No Brasil colonial os pregadores exaltavam Jesus Crucificado para que escravos se submetessem resignadamente à chibata dos senhores. Quando uma transexual utiliza a cruz como símbolo dos sofrimentos de LGBTodos, os fariseus de hoje jogam pedras na Geni... Como se a cultura machista decorresse da vontade de Deus. Isso, sim, é tomar o seu Santo Nome em vão. E querer reduzir a moralidade social à questão sexual, como enfatiza a teóloga Ivone Gebara.

      Quando a violência à diversidade de gêneros se reveste de roupagem religiosa, acende o alarme de que se choca o ovo da serpente. O nazismo resultou também da perversa ideologia religiosa que acusa os judeus de “assassinos de Cristo”.

      Matar é pecado mortal. Matar em nome de Deus é ainda mais grave. E não se mata apenas pela eliminação física. A morte simbólica usa as armas do preconceito e da discriminação para demonizar também os gays criados à imagem e semelhança de Deus – que não é homem nem mulher – e por ele são amados como filhos e filhas diletos.

Frei Betto é escritor, autor de “Paraíso Perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros livros.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A Graça da Diversidade



Por Marcelo Barros


A cada ano, no Brasil, o 21 de janeiro é comemorado como “o dia nacional contra a intolerância religiosa”. Nos anos 90, o presidente da República instituiu essa data para que se evitem acontecimentos trágicos e vergonhosos, como a morte de uma mãe de santo que sofreu um infarto ao ver sua casa invadida e saqueada por um grupo de fanáticos. 

No Brasil, a Secretaria da Presidência da República para os Direitos Humanos criou uma comissão especial para zelar pela diversidade religiosa. Além disso, existem comissões e fóruns que, em diversos estados, velam pelos direitos à liberdade de expressão de todos os segmentos espirituais. Apesar disso, aqui e ali, ainda ocorrem atos de discriminação e de violência, principalmente contra religiões e cultos de matriz africana. Às vezes, a intolerância é clara, outras vezes é camuflada e aparece sob o pretexto de protesto contra o barulho dos tambores ou contra o sacrifício de animais. 

O governo e a sociedade civil podem coibir desrespeitos e fazer cumprir a lei, mas, não podem obrigar ninguém a amar. Isso só pode ocorrer como caminho espiritual e opção de amor. O Estado pode colaborar e até proporcionar espaços de diálogo, mas eles só funcionarão se cada grupo religioso aprofundar esse caminho do diálogo e da comunhão como uma vocação espiritual.  

De fato, todas as religiões pregam amor, compaixão e misericórdia. Entretanto, quando se tornam dogmáticas e autoritárias, se transformam em instrumentos de fanatismo e canais de intolerância. Confundem a verdade com uma forma cultural de expressar a verdade. Assim, absolutizam dogmas e acabam justificando conflitos e guerras em nome de Deus. 

Infelizmente, no decorrer da história, a religião que mais usou de violência e intolerância contra “os outros” foi o Cristianismo. Isso em absoluta contradição com o evangelho e o espírito de Jesus de Nazaré. É terrível constatar que, mesmo em nossos dias, alguns grupos religiosos ainda vivem a fé como uma ideologia de conquista guerreira que não admite o direito do outro e do diferente. No Brasil, ainda existem programas de rádio e televisão, nos quais pastores e mesmo padres pregam a intolerância e condenam as religiões afrodescendentes.  

Em 1965, na declaração sobre as outras religiões, o Concílio Vaticano II proclamava oficialmente o valor das outras religiões e incentivava os católicos ao respeito ao diferente e ao diálogo. Também, em 1961, o Conselho Mundial de Igrejas, que reúne 349 Igrejas evangélicas e ortodoxas, pediu às Igrejas-membros uma atitude de respeito e diálogo com todas as culturas e colaboração com outras tradições religiosas. 

Atualmente, no mundo, a diversidade cultural e religiosa é, não somente um fato que, queiramos ou não, se impõe à humanidade. É principalmente uma graça divina e bênção para as tradições religiosas. Para que entre as religiões, o diálogo possa ser profundo, cada grupo tem de reconhecer o que Deus lhe revela, não só a partir da sua própria tradição, mas do caminho religioso do outro. No tempo do nazismo, de uma prisão alemã, escrevia o pastor Dietrich Bonhoeffer, teólogo luterano: “Deus está em mim, mas para me abrir ao outro. Em mim, é uma presença fraca para mim mesmo e é forte para o outro. Ele está no diferente, mas a sua presença é para mim. Assim, Deus é amor e se encontra quando encontramos o outro, o diferente”.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Religião e Diversidade

por MARCELO BARROS


Apesar de que todas as religiões pregam amor, compaixão e misericórdia, infelizmente, quando as religiões se tornam dogmáticas e autoritárias, todas têm sido instrumentos de fanatismo e de intolerância. Mesmo caminhos espirituais baseados na compaixão universal e na não violência absoluta como é o Budismo tem servido em alguns momentos e lugares como pretextos para intolerâncias e perseguições a dissidentes e pessoas consideradas infiéis. E durante a história, a religião que mais caiu nessa tentação da violência e da intolerância contra “os outros” e os diferentes, foi o Cristianismo. Isso em absoluta contradição com o evangelho e o espírito de Jesus de Nazaré.
     No Brasil, apesar da Constituição Brasileira defender a liberdade de culto para todas as tradições religiosas, ainda existem programas de rádio e televisão nos quais se pregam a intolerância e se combatem algumas tradições religiosas, como por exemplo, as de matriz afrodescendente.  Assim, em janeiro do ano de 2000, no Rio de Janeiro, Mãe Gilda, Yalorixá do Candomblé, viu duas vezes o seu templo ser invadido por pessoas de uma Igreja neopentecostal que entraram no templo e destruíram os assentamentos dos Orixás. E no dia 21 de janeiro, Mãe Gilda viu estampada em um jornal uma foto sua com a legenda: “Macumbeiros ameaçam a vida e o bolso dos clientes”. Ao ver aquilo, aquela senhora idosa teve um infarto e faleceu. Para que não se repitam mais fatos como esse, em 2007, o presidente Lula assinou uma portaria através da qual, cada ano, 21 de janeiro é considerado o “Dia Nacional contra a Intolerância Religiosa”.
     Para acabar com a intolerância cultural e religiosa, não basta uma lei ou decreto. É preciso transformar interiormente o processo da fé. Muitas confissões religiosas ainda confundem a verdade com uma forma cultural de expressar a verdade. Por isso absolutizam dogmas e tendem a se fechar em um autoritarismo fundamentalista. Daí, facilmente, se justificam conflitos e até guerras em nome de Deus. Em 1965, em um dos seus mais belos documentos, (a declaração Nostra Aetate), o Concílio Vaticano II proclamava o valor das outras religiões e incentivava os católicos do mundo inteiro ao respeito ao diferente e ao diálogo. Também, em 1961, o Conselho Mundial de Igrejas, que reúne mais de 340 Igrejas evangélicas e ortodoxas, pediu às Igrejas cristãs uma atitude de respeito e diálogo com todas as culturas e colaboração com outras tradições religiosas.
     Atualmente, no mundo, a diversidade cultural e religiosa é, não somente um fato que, queiramos ou não, se impõe à humanidade. Devemos reconhecê-la como graça divina e bênção para as tradições religiosas. Assim, elas podem se complementar e se enriquecer mutuamente. Nenhuma tem o monopólio da verdade. Todas estão em caminho, como peregrinas da verdade que a maioria das tradições chama de Deus. Com nenhuma religião, Deus assinou contrato de exclusividade. E ao contrário, nas diversas tradições, de um modo ou de outro, revelou que se deixa encontrar no diálogo e na abertura ao diferente.
     Para que este diálogo seja verdadeiro e profundo, cada grupo religioso tem de reconhecer o que Deus nos revela, não somente a partir da sua própria tradição, mas do caminho religioso do outro. Não para que o cristão se torne budista ou o budista se torne cristão, mas para que cada um, em sua tradição, seja enriquecido espiritualmente com a iluminação que o outro recebe.
     Para esta abertura pluralista e para o diálogo daí decorrente vale o que, no século IV, dizia Santo Agostinho: “Apontem-me alguém que ame e ele sente o que estou dizendo. Dêem-me alguém que deseje, que caminhe neste deserto, alguém que tenha sede e suspira pela fonte da vida. Mostre-me esta pessoa e ela saberá o que quero dizer” [1]



[1] - AGOSTINHO, Tratado sobre o Evangelho de João 26, 4. Cit. por Connaissance des Pères de l’Église32- dez. 1988, capa.