O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador diferenças. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador diferenças. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 22 de maio de 2018

A DIVINA DIVERSIDADE NAS DIFERENÇAS HUMANAS






Por Marcelo Barros

Nesse domingo 20, as Igrejas cristãs concluíram os 50 dias da celebração anual da Páscoa com a memória do dia no qual, conforme a tradição cristã, a ressurreição de Jesus deu como fruto a vinda do Espírito Santo como presença permanente de Deus nas pessoas e no mundo.

A partir de então, pode-se crer em Deus como Amor presente e atuante nas pessoas e nas relações entre todos os seres. Cada vez mais os cientistas aceitam que, por trás da evolução cósmica e convergente do universo, existe uma inteligência amorosa que dá vida e consistência a tudo. Para a tradição judaica e cristã, esse Amor que fecunda o universo se chama Deus. É Amor que cria amor em nós e no mundo. Na Bíblia, o termo espírito é feminino (ruah). Deus é mãe carinhosa que nos educa, conforta e fortalece nas lutas da vida.

Na abertura das celebrações de Pentecostes, as Igrejas antigas cantam uma palavra do livro da Sabedoria: "O Espírito do Senhor, o universo todo encheu. Tudo abarca em seu saber e tudo enlaça em seu amor. Aleluia, aleluia". Isso significa que todo o universo está cheio da energia amorosa de Deus. Os seres vivos testemunham que o amor divino é único, mas se manifesta de formas diversas na natureza e nas pessoas. Assim, o próprio Deus assume a diversidade como algo que é seu e através da qual ele se manifesta para nós.

Nesses dias, a ONU comemora duas datas nas quais se acentua a importância da diversidade. Nessa segunda-feira, 21 de maio, a cada ano, se comemora o Dia Mundial das Diversidades Culturais. Na terça-feira, 22, a ONU nos convida a refletir sobre a Diversidade biológica ou biodiversidade. Embora sejam comemorações independentes, as duas datas revelam a importância do respeito às diversidades. Na primeira comemoração, se trata das diversidades culturais e humanas. Na segunda, a preocupação é a diversidade biológica. Atualmente, os cientistas estão de acordo: o próprio fenômeno da vida acontece como uma rede de relações entre células diferentes e entre organismos diversos. Para se manter e se desenvolver, a vida precisa da biodiversidade. Quando, em nome do lucro, os proprietários de terra fazem monocultura e transformam imensas paisagens de terra em plantações de cana de açúcar, de soja ou, pior ainda, de pasto para o gado, é a própria vida que é ameaçada. O agronegócio troca a vida para todos pelo lucro para poucos.

Do lado da fé, a festa cristã de Pentecostes lembra que a primeira manifestação do Espírito de Deus aos discípulos de Jesus foi torná-los capazes de se comunicarem com pessoas de diferentes idiomas e formarem uma unidade a partir da diversidade cultural e étnica (Atos 2).

Por muito tempo, as Igrejas pensavam que a proposta divina da unidade excluía quaisquer diferenças entre si. Todos tinham de pensar igual, agir na mesma linha e dizer uma palavra única. No século III, o bispo Cipriano de Cartago já advertia: "A unidade abole as divisões, mas respeita as diferenças". E a cada ano, para preparar essa festa do Espírito que os cristãos celebram nesse domingo, várias Igrejas diferentes se unem em orações pela unidade dos cristãos. Compreendem que se trata de unidade de fé e de amor na diversidade das instituições e das formas de ser cristãos. Nada de uniformidade. Como é a realidade do universo: os astros se relacionam e se harmonizam na grande diversidade cósmica.

Na situação social e política atual, diversos movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos, ligados aos interesses do povo mais pobre se juntam em uma grande frente de esquerda. Querem deter a onda do Fascismo, cada vez mais defendido e apregoado por grandes meios de comunicação e pelas elites brasileiras. Ao ouvir notícias contraditórias, há pessoas que ficam sem saber o que pensar. Alguns se perguntam de que lado devem se colocar. Um bom critério é ver de que lado estão os movimentos sociais e as pessoas e grupos mais ligados aos pequenos e deserdados da sociedade. Como disse Jesus no evangelho: "Pai, eu te dou graças porque escondeste tuas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos" (Mt 10, 25 ss).

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

AS DIFERENÇAS RECONCILIADAS


Por Marcelo Barros

Reconciliar as diferenças é uma proposta ecumênica do Conselho Mundial de Igrejas que reúne 349 Igrejas cristãs no caminho da unidade a partir da plena aceitação da autonomia de cada uma, como também das diferenças que existem entre uma e outra. Conviver com as diferenças e mesmo aprender tcom elas é um desafio não só para as Igrejas cristãs, mas para todas as religiões e para o diálogo entre as culturas. É um problema que atualmente provoca conflitos violentos entre grupos e até entre povos. Por isso, a ONU consagrou 16 de novembro como o dia internacional da tolerância. Propõe que, nessa semana, em todos os continentes, se façam esforços pelo diálogo e compreensão entre grupos e culturas diferentes. De fato, o mundo atual é cada vez mais diversificado e pluralista. A cada momento, através dos meios de comunicação ou da internet ou simplesmente pela convivência cotidiana, pessoas de diferentes culturas e religiões devem conviver entre si. Para viver bem essa realidade, não basta tolerância. A tolerância evita o confronto e a guerra, mas não chega a criar um ambiente positivo de diálogo e compreensão. Normalmente se tolera aquilo que não se pode evitar. Ninguém quer ser apenas tolerado. As pessoas, grupos e culturas merecem ser respeitados e valorizados. Por isso, é importante deixar claro: a ONU usa o termo tolerância no sentido de aceitação, respeito e convivência entre as religiões.

A sociedade atual fala em “tolerância zero” para a corrupção que a corrói por dentro e para crimes contra a vida e a integridade das pessoas, especialmente as mais frágeis. Esse rigor é justo, mas não pode ignorar ou passar por cima a dignidade de toda pessoa humana. Menos ainda, pode ser usado como pretexto para discriminar negros, pobres e migrantes. O problema é que a lei pode impedir a discriminação e a injustiça, mas não pode obrigar ninguém a amar o diferente e a valorizar uma cultura que não é a sua. Isso supõe uma opção “espiritual”, ou seja, abertura amorosa ao diferente, como opção de vida. De fato, as religiões foram criadas para ensinar as pessoas a amar e a fazer do amor uma lente especial com a qual se olha a vida, as pessoas e as culturas. Entretanto, quando se deixam aprisionar pelo autoritarismo e pelo dogmatismo, as religiões interpretam a fé de forma rígida e se tornam fonte de intransigência, intolerância e violência. Na história, todas as religiões, de um modo ou de outro, tiveram momentos de intolerância e combateram-se entre si.

Hoje, o Brasil é um país leigo, mas ainda dominado por uma cultura de Cristandade. Infelizmente, no Congresso nacional e em outras instâncias do poder, existem pessoas ligados a grupos religiosos que creem em um Deus mesquinho, amigo dos seus amigos e discriminador contra todos os que não cabem dentro das leis religiosas que essas pessoas imaginam vir diretamente do céu. Diante desse tipo de postura, muitas pessoas honestas e justas pensam: se Deus é assim, prefiro ser ateu. Um dia, um rapaz declarou ao bispo Dom Pedro Casaldáliga: “eu sou ateu”. Dom Pedro lhe respondeu: “Ateu, de que Deus?”.

A ONU convida Igrejas, religiões e organismos da sociedade civil a unir-se na construção de uma sociedade pluralista e aberta. Toda Igreja cristã, seja qual for sua denominação, é chamada a ser verdadeiramente aberta a tudo o que é humano. Essa atitude testemunha para os outros o amor divino e nos confirma a todos no caminho do evangelho de Jesus Cristo que afirmou: “Muitas pessoas (de diferentes culturas e religiões)  virão do Oriente e do Ocidente e se sentarão à mesa do reino de Deus, enquanto aqueles que se consideravam de dentro ficarão fora” (Mt 8, 11).


Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.

terça-feira, 19 de maio de 2015

UNIDADE NAS DIFERENÇAS

Por Marcelo Barros


Em meio a um mundo, cada vez mais diversificado, a unidade entre pessoas e a paz no mundo representam desafios sempre mais exigentes. O Conselho Mundial de Igrejas que reúne 345 confissões cristãs promove a cada ano uma Semana de Oração e Diálogo pela Unidade das Igrejas. No Brasil, essa semana acontece nesses dias, de 17 a 24 de maio, semana anterior à festa de Pentecostes, na qual os cristãos celebram a presença amorosa do Espírito de Deus em toda a criação e no mais íntimo de toda pessoa humana. No Brasil, a Semana de Oração pela Unidade tem seus subsídios preparados e coordenados pelo CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), com apoio da CNBB e de outros organismos católicos e evangélicos. Ao escrever sua carta sobre a alegria do evangelho, o papa Francisco insistiu que, como, há mais de 50 anos, o Concílio Vaticano II afirmou: “a divisão entre os cristãos é um contratestemunho que não colabora para a paz do mundo e se constitui como um obstáculo ao cumprimento da missão evangélica” (Cf. EG n. 244-246). Por isso, cristãos das mais diversas Igrejas, membros de outras religiões e mesmo pessoas de boa vontade, não ligadas a nenhuma tradição religiosa, estão convidadas/os a entrar em uma espécie de mutirão de diálogo e de busca da comunhão que supera a divisão, mas respeita a diversidade.

Cada vez mais, o Brasil se caracteriza por uma grande pluralidade de culturas e religiões. Há milhares de anos, por todo o nosso território, povos diversos viviam suas tradições próprias e tinham seu modo de adorar o Espírito presente na natureza. Há 500 anos, com a conquista, os portugueses trouxeram o Cristianismo e impuseram a todos a Igreja Católica. Com o decorrer dos tempos, esse quadro foi transformado. Tornou-se mais rico e diversificado. Atualmente, o Cristianismo  tem quatro grandes tipos de Igrejas: as Ortodoxas, a Católica, as Evangélicas e as Pentecostais. Entre as evangélicas, temos Igrejas Luteranas, Episcopais anglicanas, a Igreja Metodista, as presbiterianas, batistas e outras. Do Pentecostalismo clássico, temos as Assembleias de Deus, a Igreja do Evangelho Quadrangular, a Congregação Cristã do Brasil e outras. Neopentecostais ou de um Pentecostalismo autônomo são a Igreja Universal do Reino de Deus, a Casa da Bênção, Renascer e outras.

Em meio a essa grande diversidade, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) é uma pequena fraternidade de Igrejas. Estas se reúnem para apoiar-se umas às outras na missão e no serviço à humanidade, assim como para estimular o respeito e o diálogo dos cristãos com as outras tradições religiosas presentes e atuantes no território nacional.

No decorrer da história, muitas vezes, em nome de Jesus, os missionários católicos e evangélicos perseguiram e condenaram as outras religiões. Aqui no Brasil, até hoje, infelizmente, há cristãos que discriminam e atacam as tradições religiosas indígenas e afrodescendentes. Esse modo de agir, além de ilegal e vergonhoso, dá um péssimo testemunho de Jesus que sempre valorizou a fé de pessoas de outras culturas e religiões, como a mulher samaritana, a sírio fenícia e o oficial romano, cujo filho, ele curou.

Nessa semana de oração pela unidade, o tema geral é tirado da conversa de Jesus com a mulher samaritana: “Dá-me um pouco da tua água” (Cf. João 4). À beira do poço, Jesus lhe havia pedido: “Dá-me de beber”. Ao saber que Jesus poderia lhe dar uma água viva que jorra para sempre, a mulher lhe pede: “Dá-me um pouco dessa água”. O evangelho mostra que a água representa tudo aquilo que cada um de nós pode compartilhar com o outro. No entanto, significa principalmente o dom do Espírito que Deus quer dar a todas as pessoas nas mais diversas culturas. Por sua ressurreição, Jesus nos comunica esse presente divino (Jo 7, 37). Com Jesus, queremos aprender o que Deus quer nos dizer através das outras expressões de fé. Respeitar as outras religiões e com elas entrar em diálogo é uma forma de testemunhar que Deus é amor e que o seu Espírito se manifesta de mil maneiras no mundo. Ele não assinou contrato de exclusividade com nenhuma religião, ou tradição espiritual. No próximo domingo, festa de Pentecostes, no mundo inteiro, as Igrejas de tradição latina iniciarão a celebração da Ceia do Senhor com uma palavra do livro da Sabedoria: “O Espírito do Senhor, o universo todo encheu. Tudo abarca em seu saber, tudo enlaça em seu amor, aleluia” (Sb 1, 7).  

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países