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terça-feira, 18 de maio de 2021

A UNIDADE DOS CRISTÃOS E A LUTA CONTRA A BARBÁRIE

 

Marcelo Barros


 

Nesta semana, em muitos lugares do hemisfério sul, cristãos das mais diferentes Igrejas se unem na Semana de Orações pela Unidade dos Cristãos. Há mais de cem anos, esta iniciativa surgiu, tanto no ambiente católico, como em meios evangélicos. Ninguém deseja a uniformidade. A meta é a unidade na diversidade e a serviço da humanidade. Nesse ano, o tema da Semana da Unidade se inspira em uma palavra, que conforme o evangelho, depois da ceia, Jesus teria dito aos discípulos e discípulas:  “Permanecei no meu amor e produzireis muitos frutos” (Jo 15, 5- 9). É o amor do próprio Jesus em nós que se tornará elemento fundamental na missão de manifestar a realização do projeto divino para o mundo.

Nos anos mais recentes, em todos os continentes, a concentração da riqueza aumentou enormemente. As desigualdades sociais triplicaram. Mesmo durante a pandemia, enquanto mais de um bilhão de seres humanos afunda na insegurança alimentar e na pobreza extrema, o lucro da elite dos mais ricos aumenta escandalosamente.

Para manter esta realidade, governos e empresas aumentam gastos militares. O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) publicou que, em 2020, apesar da pandemia e da consequente contração da economia, o gasto dos países com armamentos alcançou US$ 1,8 trilhão, ou seja, 3,9% a mais que em 2019. Na América do Sul, o Brasil responde por mais da metade das despesas militares de todos os países juntos. Para 2021, o projeto do governo é gastar 10, 7 bilhões de reais em armas, manutenção e salários dos militares. Isso apesar de que o nosso país  não vive nenhuma guerra declarada, a não ser os massacres que, dia a dia, policiais e militares efetuam contra a população mais pobre.

Em abril de 2020, António Guterrez, secretário-geral da ONU pediu a todos os países que cessassem quaisquer atos de guerra. Toda a humanidade deveria se dedicar à guerra contra a pandemia. Apesar deste pedido, as guerras nacionais e internacionais continuaram. Para não morrerem, milhões de pessoas são obrigadas a fugir de seus territórios. 

É triste constatar que os países que mais desenvolvem a cultura armamentista e agressiva em relação aos outros são aqueles nos quais a cultura dominante é ligada a alguma religião. É mais triste ainda saber que, durante a história, o Cristianismo foi a religião que mais pregou e defendeu guerras. Apesar dos ensinamentos sociais das Igrejas que vêm do final do século XIX, o Cristianismo ainda legitima estruturas de exclusão, de racismo e de desumanidade. Milhões de brasileiros/as sofrem de desemprego e insegurança alimentar. Esta crise foi provocada não só pela pandemia. Vem de antes e tem como causa a reforma trabalhista que retirou direitos dos/as trabalhadores/as. Um dos setores que mais apoiaram essa iniquidade foi a chamada Bancada da Bíblia, formada por pastores que se dizem cristãos. Não poucos padres, bispos e grupos católicos apoiam o governo em sua opção de descuido da saúde e abandono do povo. No Rio de Janeiro o governador responsável pelo recente massacre do Jacarezinho se considera católico fervoroso e carismático. 

Diante disso, partidos e grupos políticos a favor da humanidade procuram se unir e fazer uma frente ampla para vencer o ódio e a desumanidade. Também os grupos cristãos e todas as pessoas que buscam a Deus Amor precisam se organizar em um só ecumenismo contra a barbárie. Hans Kung, o grande teólogo suíço que, partiu no mês passado, afirmou: “O mundo não terá paz se as religiões não aprenderem a dialogar entre elas e as religiões não dialogarão se as Igrejas cristãs não se unirem”.

A verdadeira unidade terá de ser construída a partir de baixo e das periferias do mundo e das Igrejas. Precisamos construí-la no na nossa vida cotidiana e no nosso trabalho. No entanto sabemos que ela é dom divino e precisamos pedi-la e nos dispor para recebê-la do Pai. Na véspera de sua paixão, Jesus orou ao Pai pela unidade de todos/as os que um dia viessem a crer nele: “para que sejam Um, assim como Eu e Tu somos um. Que eles (elas) sejam unidos, para que o mundo possa crer que Tu me enviaste” (João 17, 19- 21).

 

 

 

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

 

 

terça-feira, 26 de maio de 2020

SEMANA DA UNIDADE EM TEMPOS DE ISOLAMENTO


 

Por Marcelo Barros

 

 Cada ano, no Brasil, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, promovida pelo Conselho Nacional de Igrejas (CONIC), cai nestes dias em que preparamos para a festa de Pentecostes (próximo domingo). Desta vez, a Semana da Unidade cai nestes tempos de quarentena e nos propõe meditarmos sobre o tema: Gentileza gera gentileza. 

 

Neste período em que o mundo inteiro parou em quarentena obrigatória para evitar a contaminação do coronavírus, as Igrejas cristãs têm sido chamadas a se unirem na solidariedade a grupos mais vulneráveis. Além disso, o papa Francisco, o patriarca Bartolomeu I, primaz das Igrejas Ortodoxas e pastores evangélicos do Conselho Mundial de Igrejas buscam ajudar à humanidade a sair desta tragédia para novas formas de convivência social. É preciso organizar a sociedade, a partir do cuidado com a mãe Terra e toda a natureza.

Para este trabalho, é indispensável que as Igrejas que se olhavam de longe e cada uma se pensava como autossuficiente se conscientizem que precisam umas das outras. A cada ano, desde os últimos anos do século XIX, algumas Igrejas cristãs consagram os dias anteriores à festa de Pentecostes, portanto esta semana em que agora estamos, à oração e a gestos proféticos pela unidade cristã. No Brasil, a Semana de oração pela unidade é coordenada pelo Conselho de Igrejas Cristãs (CONIC). Cada ano, é proposto um tema ligado à missão comum das Igrejas no mundo. Neste 2020, o tema escolhido e com subsídios preparados por cristãos da ilha de Malta é Gentileza gera Gentileza. Este tema se baseia em um texto do livro dos Atos dos Apóstolos. Ali é narrado que, quando Paulo foi levado como prisioneiro para Roma, afim de ser julgado, o navio no qual ele viajava naufragou. Paulo e um grupo de prisioneiros conseguiu escapar desembarcando em uma ilha desconhecida que encontraram no caminho. Os habitantes da ilha os acolheram com toda hospitalidade e gentileza (At 28, 2). A partir desta história que está na mesma Bíblia, lida pelas mais diferentes Igrejas, esta atual Semana da Unidade propõe exercitarmos em nossas vidas essa atenção aos irmãos e irmãs que precisam da nossa hospitalidade e gentileza.

Atualmente, existe o isolamento provocado pela pandemia do Coronavírus e existem isolamentos forçados pelo modo como o mundo se organiza. A ONU acaba de reconhecer que 1% da humanidade se acha com o direito de se apropriar e usufruir de 90% de todas as riquezas do planeta, enquanto deixam os outros 10% para a multidão dos 99% dos habitantes da terra. Para isso ser possível, os países globalizam o comércio. Assim os ricos ganham mais. No entanto, criam barreiras para conter a horda de pobres e famintos que tentam sobreviver no mundo dos ricos. Em todos os continentes, se erguem muros que separam povos. Atualmente, na América do Norte, um muro imenso separa os Estados Unidos do México. Na Europa, uma muralha foi construída para isolar a Espanha do Marrocos e outro muro separa a Grécia da Turquia. No Oriente Médio, a Cisjordânia ainda palestina é separada por muro de Israel. Na Ásia, um muro eletrificado divide em dois o mesmo país e separa a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. Assim, se contam pelo mundo 18 muros que não reconhecem o outro ser humano como irmão. De acordo com a Declaração dos Direitos Humanos, assinada pela ONU em 1948, todo ser humano teria direito de migrar de um país a outro. Hoje a solidariedade aos migrantes, em países como a Itália, pode ser crime passível de prisão. Por isso, o tema desta Campanha da Fraternidade sobre gentileza como proposta cristã se torna um grito profético: Gentileza gera gentileza.

No Brasil,  nestes dias, alguns governantes e empresários preferem salvar o lucro do comércio, mesmo à custa de milhares de vidas humanas. O presidente e os cristãos que o cercam condenam milhares de brasileiros, principalmente os mais pobres e vulneráveis à morte, enquanto gritam: Deus acima de todos!  Esta Semana da Unidade vem nos recordar uma palavra de Simone Weil, intelectual francesa da primeira metade do século XX. Ela afirmava: “Eu reconheço quando alguém é de Deus não por me falar de Deus e sim pelo modo como trata as outras pessoas”.

Esta Semana de oração pela Unidade dos Cristãos nos interpela a sairmos de nosso fechamento eclesiástico. Pede de nós reconhecer os cristãos e cristãs de outras tradições como irmãos e irmãs. Recomenda termos a gentileza como estilo de vida. E nos chama à unidade, mesmo em meio a todas as diferenças. O projeto é que obedeçamos ao mandamento de Jesus de sermos unidos. Que as Igrejas respeitem a autonomia de cada uma, mas construam juntas uma comunhão. Assim, poderão testemunhar ao mundo a gentileza de Deus conosco e trabalharmos pela justiça, paz e defesa da Terra e da natureza criada e habitada pelo Amor Divino.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


terça-feira, 4 de junho de 2019

A UNIDADE NA BUSCA DA JUSTIÇA




Marcelo Barros

Procurarás a justiça, nada além da justiça” (Dt 16, 18- 20) é o tema central da Semana de orações pela unidade dos cristãos em 2019. Cada ano, no hemisfério sul, a Semana da Unidade se realiza entre o domingo da Ascensão e a festa de Pentecostes. Nesse ano, ocorre exatamente nesses dias. Ela é promovida pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) e pelo Secretariado da Unidade dos Cristãos, organismo da Igreja Católica. 

De fato, ainda hoje, muitos cristãos e mesmo ministros de Deus não se deram ainda conta da importância do movimento pela unidade cristã (Ecumenismo). Já em 1964, há 55 anos, todos os bispos católicos do mundo, reunidos no Concílio Vaticano II afirmaram: a divisão do Cristianismo em Igrejas separadas uma da outra é totalmente contrária à vontade de Jesus Cristo. Essa divisão é consequência e expressão do pecado humano e é um escândalo para o mundo. Os cristãos, aos quais Jesus mandou pregar ao mundo o mandamento do amor e da unidade, eles mesmos estão divididos. Por isso, o trabalho para recompor a unidade das Igrejas é essencial à fé e à missão de toda Igreja cristã (Decreto Unitatis Redintegratio, n. 1).

O caminho para reconstituir a unidade é trabalho de conversão interior e comunitário de todos os cristãos das diversas Igrejas. Trata-se de conversão a Jesus Cristo e ao seu projeto de amor e justiça. Essa unidade não se fará como uniformidade institucional e sim no respeito à diversidade e autonomia das Igrejas. Em 1898, o papa Leão XIII propôs a todas as comunidades católicas prepararem a festa de Pentecostes através de uma Semana de Orações pedindo a manifestação da vinda do Espírito Santo. E o papa indicou que essa semana especial de orações deveria ter como tema central a oração pela unidade das Igrejas. A unidade é dom gratuito de Deus. Por isso, a primeira coisa que se pode fazer pela Unidade é orar pela Unidade. No começo desse movimento, se afirmou: a Unidade que Deus quer e do modo que ele quiser. A oração proposta é vivida por cada pessoa individualmente. Também deve ser vivida por cada Igreja local que aceitar esse convite. Além disso, se possível e como for possível, é bom que cristãos/ãs de Igrejas diferentes se encontrem, nessa semana, para dar ao mundo esse sinal da busca da unidade pela oração e pelo diálogo.

De fato, orar pela unidade supõe que tenhamos no coração essa angústia que foi a de Jesus. Até na noite em que iria ser preso, antes de partir para o horto das Oliveiras, Ele orou: “Pai, te peço por todas as pessoas que, algum dia, ainda crerão em mim. Que elas todas sejam Um, como Tu e eu somos um. Que os meus discípulos sejam Um para que o mundo possa crer que Tu me enviaste” (Jo 17, 19 – 20).

Exatamente, nessa semana, se completam 56 anos do dia 01 de junho de 1963, quando o papa João XXIII entrava em agonia. Em meio a dores fortíssimas e agonia que durou três dias, o santo João XXIII declarou que queria oferecer a sua vida e os seus sofrimentos pela unidade dos cristãos. Em 1998, na preparação do solene Jubileu do ano 2000, o papa João Paulo II escreveu a encíclica “Ut unum sint” (Para que sejam UM). Era a primeira vez em que um papa dedicava uma encíclica ao tema da unidade dos cristãos. Ali ele afirmava que o ecumenismo não é apenas uma das tarefas da Igreja Católica, mas é o coração de toda a sua missão (UUS 1). 

 A maioria dos católicos e mesmo dos padres se diz de acordo com a preocupação pela unidade. No entanto, infelizmente, até hoje, esse assunto ainda não parece central na vida das comunidades paroquiais e das Igrejas. Mesmo dioceses abertas costumam nomear uma comissão ecumênica. Encarregam seus membros de, em nome da diocese, participarem das relações com outras Igrejas. Fazem isso e se sentem descomprometidas com o assunto. Como se a comissão de ecumenismo fosse para substituir e não para representar o conjunto da Igreja que deve ser todo envolvido nesse caminho.

Já em 1968, a coordenação da CNBB publicou um documento preparatório ao Diretório Ecumênico proposto pelo Vaticano. Ali os nossos bispos ensinavam que a pastoral ecumênica e a abertura para outras Igrejas só acontecem se se basearem em uma “ecumenicidade” de toda a pastoral e de todas as atividades eclesiais. Isso significa: ou toda a Igreja se compromete nesse caminho e vive uma abertura espiritual para a unidade, ou a pastoral ecumênica terá sempre poucos resultados positivos. 

Atualmente, esse assunto é fundamental não somente para as Igrejas, mas para a sociedade contemporânea. Em um mundo no qual, como diz o papa Francisco, milhões de pessoas vivem como descartáveis, governos  se colocam a serviço da economia que mata e propõem reformas trabalhistas, da previdência e outras que vão contra a vida dos mais pobres. É preciso que as Igrejas se unam na defesa da justiça. O Conselho Nacional de Igrejas cristãs propõem que, nessa semana da unidade de 2019, as comunidades orem especialmente em solidariedade às muitas vítimas dos crimes ambientais, especialmente pessoas afetadas pela ação predadora das empresas mineradoras. A unidade que pedimos a Deus é também comunhão com a natureza ameaçada e especialmente com os rios destruídos pela mineração como estão o rio Doce, o rio Paraopeba e mesmo o grande São Francisco. Que, nessa celebração de Pentecostes, o Espírito Santo nos ilumine para que busquemos a unidade visível das Igrejas no trabalho comum pelo direito dos pobres. Que todos/as nós demos testemunho de que Deus é Amor e Justiça.

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br


terça-feira, 15 de maio de 2018

A UNIDADE DOS CRISTÃOS E A TAREFA DA LIBERTAÇÃO



por Marcelo Barros

Desta segunda, 13 ao domingo 20 de maio, em muitos lugares do hemisfério sul, cristãos das mais diferentes Igrejas se unem na Semana de Orações pela Unidade dos Cristãos. É uma iniciativa que nasceu, há mais de cem anos, tanto no ambiente católico, como em meios evangélicos. No hemisfério norte, essa semana é celebrada em janeiro. No Sul, as igrejas históricas costumam ligar esse evento com a semana anterior à festa de Pentecostes. Pedem a graça da unidade visível de todas as pessoas batizadas, já que se acredita que "há um só batismo, uma só fé e um só Senhor" portanto a unidade fundamental já existe. Só que não se vê. O que se vê é divisão, indiferença a outras Igrejas e a arrogância de se pensar a única Igreja de Cristo.

Atualmente, todas as Igrejas envolvidas nesse caminho da unidade têm consciência de que é preciso superar a divisão, mas a diversidade é boa e deve ser mantida. Ninguém deseja a uniformidade. A meta é a unidade na diversidade e a serviço da humanidade. Nesse ano, o tema da Semana da Unidade se inspira em um verso do livro do Êxodo e diz "A mão de Deus une e liberta". Os subsídios para as reflexões e cultos foram preparados por cristãos do Caribe. Ao mesmo tempo, essas meditações sobre a unidade propõem unir as Igrejas na defesa dos migrantes e refugiados, expostos aos mais graves riscos de vida e vendo os seus direitos humanos violados.

A divisão das Igrejas impede um testemunho mais forte e unificado de todas as comunidades cristãs em favor da paz, da justiça e do cuidado com a Terra e a natureza. No mundo atual, existem mais de 20 guerras internacionais. Em muitos desses conflitos, para se matarem uns aos outros, os grupos ou povos envolvidos invocam, além de interesses econômicos e políticos, também motivos religiosos. O Estado de Israel oprime os palestinos por uma visão imperialista e racista da história. No entanto, mesmo se muitos grupos judeus e muçulmanos trabalham pelo diálogo e pela solidariedade inter-religiosa, a divisão entre as duas culturas religiosas ainda é um fator que não ajuda. No sul da Índia, se opõem muçulmanos e hinduístas, na Nigéria, muçulmanos e cristãos. Hans Kung, teólogo suíço, afirmou: “O mundo não terá paz se as religiões não aprenderem a dialogar entre elas e as religiões não dialogarão se as Igrejas cristãs não se unirem”.

Nos anos 60, o papa João XXIII convocou em Roma todos os bispos católicos do mundo no Concílio Vaticano II. Quando o papa pensou o Concílio, sua primeira intenção era abrir a Igreja Católica à unidade com as outras Igrejas. O Concílio ensinou que o projeto de Deus é a unidade, tanto dos cristãos, como de toda a humanidade. "A divisão dos cristãos é contrária à vontade divina. Contradiz o evangelho do amor e, por isso, é um obstáculo para a missão da Igreja" (U.R. 1). Se a divisão é expressão do nosso pecado, a unidade só se fará através da conversão do coração e da oração. A unidade é dom de Deus. Portanto, precisamos pedi-la e nos dispor para recebê-la do Pai. Na véspera de sua paixão, Jesus orou ao Pai pela unidade de todos/as os que um dia viessem a crer nele: “para que sejam Um, assim como Eu e Tu somos um. Que eles (elas) sejam unidos, para que o mundo possa crer que Tu me enviaste” (João 17, 19- 21).

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

A UNIDADE E A MISERICÓRDIA


Por Marcelo Barros



No Brasil e em toda a América do Sul, várias Igrejas cristãs dedicam essa semana à oração e ao trabalho pela unidade das Igrejas e pelo diálogo entre as religiões. A iniciativa de propor uma Semana de orações pela unidade dos cristãos nasceu em 1898. O papa Leão XIII propôs que a oração pela unidade das Igrejas fosse o tema principal da novena do Espírito Santo que, a cada ano, se faz em preparação à festa de Pentecostes que os cristãos celebram no próximo domingo. Orar pela unidade é importante porque, como a unidade verdadeira é dom divino, para vivê-la, precisamos nos colocar disponíveis ao Espírito de Deus e lhe pedir essa graça.

Em 1964, todos os bispos católicos reunidos no Concílio Vaticano II afirmaram que a divisão é contrária à vontade de Cristo. É consequência e expressão do pecado humano (U. R. 1). O caminho para reconstituir a unidade é um trabalho de conversão de todos, cristãos das mais diversas Igrejas, a Jesus Cristo e ao seu projeto de amor e justiça. Essa unidade não se fará como uniformidade institucional e sim no respeito à diversidade e autonomia das Igrejas.

Nesse ano, os subsídios de oração e reflexão para a Semana da Unidade foi elaborado por uma comissão ecumênica da Letônia, no norte da Europa. O tema proposto vem da carta de Pedro: “Chamados/as a proclamar os altos feitos do Senhor” (1 Pd 2, 9). Esse texto nos recorda que todos/as são chamados/as a ser povo de Deus, isso é, uma só comunidade de pessoas de várias raças e origens, chamadas a viver a aliança de intimidade divina na relação uns com  os outros.

Essa Semana de Orações pela Unidade pode ser vivida, principalmente pelos católicos, como expressão do jubileu da misericórdia. Não se trata apenas de uma atitude de piedade em relação a quem é carente. A palavra misericórdia deriva dos termos latinos misereor (tenho compaixão) cordis (a partir do coração). Portanto, é “a solidariedade que vem do coração”. É um movimento dinâmico que envolve todo o ser e a comunidade na direção de quem precisa. É urgente lembrar isso no mundo atual que, cada vez mais, discrimina  e exclui pessoas. Milhões de migrantes tentam escapar da fome ou da guerra e são impedidos de entrar nas fronteiras dos países ricos, muitos dos quais, responsáveis diretos pela situação que provoca a migração. E muitos dos que se recusam acolher os migrantes se dizem cristãos. Por isso, o tema dessa Semana da Unidade de 2016 nos faz retomar a raiz da nossa vocação de discípulos/as de Jesus: Somos chamados/as a proclamar, ou seja, testemunhar, por palavras e ações “os altos feitos”  do Senhor. Isso significa que, na base do nosso caminho humano não estão qualidades pessoais ou identidades nacionais, menos ainda riquezas ou diferenças raciais. Somos cristãos por termos sido beneficiados pelos “altos feitos do Senhor”. Deus nos chamou gratuitamente a nos unir em um só povo, sinal do seu amor misericordioso por toda a humanidade e pelo universo.

A nossa oração deve ser sempre ligada à prática da vida. A Semana da Unidade é principalmente constituída de oração em comum, mas supõe também gestos de unidade em relação a irmãos de outras Igrejas e religiões. No domingo 17 de janeiro, antes de abrir a Semana da Unidade em Roma, o papa Francisco fez uma visita à Sinagoga de Roma para expressar a sua comunhão com a comunidade judaica. Menos de um mês depois, encontrou Alexis II, patriarca de Moscou. Depois de muitas dificuldades entre a Igreja Católica e a Ortodoxa Russa, pela primeira vez, um patriarca de Moscou aceitava se encontrar com o papa de Roma. Para isso, o patriarca pedia que o encontro ocorresse em um lugar neutro e que a declaração comum fosse preparada por seus assessores. O papa Francisco cedeu em tudo o que era necessário para que o encontro ocorresse. Em sua viagem ao México, criou uma escala em Cuba só para encontrar o patriarca. Aceitou que o encontro se desse não em uma Igreja e sim no aeroporto de Havana. Tudo para abraçar o patriarca e chamá-lo sinceramente de “meu irmão”. No sábado 16 de abril, o papa se juntou a Bartolomeu I, patriarca de Constantinopla, para visitar e apoiar os milhares de migrantes e refugiados, impedidos de entrar na Europa e colocados, em um campo de concentração na ilha de Lesbos, na Grécia.


Nesse ano de 2016, em que seis Igrejas cristãs do Brasil (cinco membros do CONIC e a Aliança de Batistas do Brasil), assim como diversas entidades ecumênicas se reuniram para a 4a Campanha da Fraternidade Ecumênica - sobre o Saneamento Básico e o cuidado com a Terra, nossa casa comum, nós, cristãos de todas as Igrejas, essa Semana da Unidade prolonga e aprofunda esse caminho em comum. O cuidado com a casa comum e essa Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos nos colocam no caminho da misericórdia divina que recebemos e que devemos testemunhar e expressar aos outros irmãos. O texto bíblico que fundamenta o tema dessa semana se conclui por lembrar a misericórdia divina: “Vós sois o povo que Deus conquistou para si, para que proclameis os altos feitos daquele que das trevas vos chamou para sua luz maravilhosa. ... Vós que não tínheis alcançado misericórdia, agora alcançastes misericórdia” (1 Pd 2, 9- 10).  

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

terça-feira, 19 de maio de 2015

UNIDADE NAS DIFERENÇAS

Por Marcelo Barros


Em meio a um mundo, cada vez mais diversificado, a unidade entre pessoas e a paz no mundo representam desafios sempre mais exigentes. O Conselho Mundial de Igrejas que reúne 345 confissões cristãs promove a cada ano uma Semana de Oração e Diálogo pela Unidade das Igrejas. No Brasil, essa semana acontece nesses dias, de 17 a 24 de maio, semana anterior à festa de Pentecostes, na qual os cristãos celebram a presença amorosa do Espírito de Deus em toda a criação e no mais íntimo de toda pessoa humana. No Brasil, a Semana de Oração pela Unidade tem seus subsídios preparados e coordenados pelo CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), com apoio da CNBB e de outros organismos católicos e evangélicos. Ao escrever sua carta sobre a alegria do evangelho, o papa Francisco insistiu que, como, há mais de 50 anos, o Concílio Vaticano II afirmou: “a divisão entre os cristãos é um contratestemunho que não colabora para a paz do mundo e se constitui como um obstáculo ao cumprimento da missão evangélica” (Cf. EG n. 244-246). Por isso, cristãos das mais diversas Igrejas, membros de outras religiões e mesmo pessoas de boa vontade, não ligadas a nenhuma tradição religiosa, estão convidadas/os a entrar em uma espécie de mutirão de diálogo e de busca da comunhão que supera a divisão, mas respeita a diversidade.

Cada vez mais, o Brasil se caracteriza por uma grande pluralidade de culturas e religiões. Há milhares de anos, por todo o nosso território, povos diversos viviam suas tradições próprias e tinham seu modo de adorar o Espírito presente na natureza. Há 500 anos, com a conquista, os portugueses trouxeram o Cristianismo e impuseram a todos a Igreja Católica. Com o decorrer dos tempos, esse quadro foi transformado. Tornou-se mais rico e diversificado. Atualmente, o Cristianismo  tem quatro grandes tipos de Igrejas: as Ortodoxas, a Católica, as Evangélicas e as Pentecostais. Entre as evangélicas, temos Igrejas Luteranas, Episcopais anglicanas, a Igreja Metodista, as presbiterianas, batistas e outras. Do Pentecostalismo clássico, temos as Assembleias de Deus, a Igreja do Evangelho Quadrangular, a Congregação Cristã do Brasil e outras. Neopentecostais ou de um Pentecostalismo autônomo são a Igreja Universal do Reino de Deus, a Casa da Bênção, Renascer e outras.

Em meio a essa grande diversidade, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) é uma pequena fraternidade de Igrejas. Estas se reúnem para apoiar-se umas às outras na missão e no serviço à humanidade, assim como para estimular o respeito e o diálogo dos cristãos com as outras tradições religiosas presentes e atuantes no território nacional.

No decorrer da história, muitas vezes, em nome de Jesus, os missionários católicos e evangélicos perseguiram e condenaram as outras religiões. Aqui no Brasil, até hoje, infelizmente, há cristãos que discriminam e atacam as tradições religiosas indígenas e afrodescendentes. Esse modo de agir, além de ilegal e vergonhoso, dá um péssimo testemunho de Jesus que sempre valorizou a fé de pessoas de outras culturas e religiões, como a mulher samaritana, a sírio fenícia e o oficial romano, cujo filho, ele curou.

Nessa semana de oração pela unidade, o tema geral é tirado da conversa de Jesus com a mulher samaritana: “Dá-me um pouco da tua água” (Cf. João 4). À beira do poço, Jesus lhe havia pedido: “Dá-me de beber”. Ao saber que Jesus poderia lhe dar uma água viva que jorra para sempre, a mulher lhe pede: “Dá-me um pouco dessa água”. O evangelho mostra que a água representa tudo aquilo que cada um de nós pode compartilhar com o outro. No entanto, significa principalmente o dom do Espírito que Deus quer dar a todas as pessoas nas mais diversas culturas. Por sua ressurreição, Jesus nos comunica esse presente divino (Jo 7, 37). Com Jesus, queremos aprender o que Deus quer nos dizer através das outras expressões de fé. Respeitar as outras religiões e com elas entrar em diálogo é uma forma de testemunhar que Deus é amor e que o seu Espírito se manifesta de mil maneiras no mundo. Ele não assinou contrato de exclusividade com nenhuma religião, ou tradição espiritual. No próximo domingo, festa de Pentecostes, no mundo inteiro, as Igrejas de tradição latina iniciarão a celebração da Ceia do Senhor com uma palavra do livro da Sabedoria: “O Espírito do Senhor, o universo todo encheu. Tudo abarca em seu saber, tudo enlaça em seu amor, aleluia” (Sb 1, 7).  

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países






quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

TEREMOS ENFIM A TÃO ALMEJADA UNIDADE CRISTÃ?



Por Juracy Andrade


A proposta do papa Francisco em prol da união das igrejas Católica Romana e Ortodoxa Grega é mais uma das propostas renovadoras e recristianizadoras daquele que se apresenta aos cristãos e ao mundo, não como o Sumo Pontífice (título pagão emprestado do imperador romano), mas como o bispo de Roma (um título cristão bem singelo). Não se trata de uma novidade. O Papa Montini (Paulo 6º) e outros já haviam feito gestos ecumênicos em relação às igrejas ortodoxas Grega e Russa. A novidade é que o papa não partiu de imposições e rendições, mas deseja uma autêntica união, ou reunião, com base nos princípios comuns estabelecidos desde os primeiros séculos da Era Cristã, incluindo os que se contêm no Símbolo de Niceia: unidade, santidade, universalidade e apostolicidade (tradição apostólica). 

Isso obrigará as diversas igrejas que desejem a união, sejam ortodoxas, reformadas ou a de Roma, a muitas renúncias. Sabemos que, mesmo depois do chamado cisma do século 10º, os papas continuaram realizando concílios e proclamando unilateralmente dogmas de fé, o que foi tornando cada vez mais difícil o reencontro daquela unidade tão recomendada por Jesus Cristo. Embora o chamassem de ecumênicos, querendo significar serem de toda a Igreja de Cristo. Também o outro lado teve seus concílios. Houve de fato um concílio convocado por Roma que muito se aproximou do ecumenismo cristão, sendo inclusive convidados para ele bispos não católicos como ouvintes (o que houve também no Vaticano 1º; só que ninguém compareceu). Foi o Vaticano 2º, de 1962 a 1964, praticamente ignorado pelos papas que vieram depois, com exceção agora de Francisco que nele se apoia para muitas de suas iniciativas.

Houve também, contudo, concílios da desunião, como o de Trento (a chamada Contrarreforma, no século 16) e o Vaticano 1º, no século 19. Convocado por Pio 9º em 1868, seu conteúdo permaneceu envolto em mistério até que a revista dos jesuítas Civiltà Cattolica anunciou o grande objetivo: a proclamação como dogma de fé da infalibilidade do papa No ano seguinte, iniciava-se o concílio, que teve de ser interrompido em julho do ano seguinte devido à eclosão de mais uma guerra entre a França e a Alemanha, além da invasão de Roma pelos que lutavam pela unificação da Itália, incluindo a tomada dos Estados pontifícios. Roma foi tomada pelos seguidores de Mazzini e Garibaldi em julho de 1970. A proclamação da infalibilidade papal por Pio 9º veio a despeito da não unanimidade de opiniões entre os padres conciliares. Até hoje é mal digerida por católicos e, mais ainda, pelos protestantes e ortodoxos.

Vamos torcer cristãmente para que agora todas as igrejas realmente herdeiras da mensagem de Cristo decidam atender ao apelo do nosso único Mestre, na véspera de sua morte, voltando à unidade perdida.


Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia