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sexta-feira, 13 de maio de 2022

Uma outra agenda (mundial): libertemos a vida ou um outro paradigma civilizatório?

 Leonardo Boff 


 

Nota préviaOrganizou-se um grupo internacional que se propunha “uma outra agenda mundial para libertar a vida”. Realizou-se a primeira sessão no dia 5/5/2022. Cada participante (ao todo uns 20 mas nem todos participaram) tinha 10-15 minutos para apresentar sua visão do tema. O articulador era o conhecido economista italiano, trabalhando na Comunidade Europeia,em Bruxelas.O propósito básico é como democratizar os conhecimentos científicos que reforçam a busca de uma agenda que tenha por objetivo libertar a vida. Apresento aqui minha curta apresentação, feita em francês, com as ideias que tenho proposto e defendido em outros escritos. Até agora, pelo visto, a nova agenda se situa ainda dentro do velho paradigma (a bolha dominante), não se colocando a questão da profunda crise que este paradigma, o da modernidade tecno-científica, provocou e que está pondo em risco o futuro de nossa vida e de nossa civilização. Daí a oportunidade de expor claramente minha posição crítica e totalmente descrente das virtualidades deste paradigma de libertar a vida, antes a está celeremente destruindo. Lboff

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Vou direto o ponto: dentro do atual paradigma civilizatório, da modernidade, é possível outra Agenda ou tocamos nos seus limites intransponíveis e temos que buscar um outro paradigma civilizatório se quisermos continuar ainda viver sobre este planeta?

Minha resposta se inspira em três afirmações de grande autoridade.

A primeira é da Carta da Terra, assumida pela UNESCO em 2003. Sua frase de abertura assume tons apocalípticos: ”Estamos diante de um momento crítico da história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro…A nossa escolha é: ou formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a destruição da diversidade da vida”(Preâmbulo).

A segunda afirmação severa é do Papa Francisco na encíclica Fratelli tutti (2020):”estamos no mesmo barco, ninguém se salva por si mesmo, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(n.32).

A terceira afirmação é do grande historiador Eric Hobsbawn em sua conhecida obra A era dos extremos(1994) em sua frase final: Não sabemos para onde estamos indo. Contudo, uma coisa é certa. Se a humanidade quer ter um futuro aceitável, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base,  vamos fracassar. E o preço do fracasso ou seja, a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão”(p.562).

 

Em outras palavras: o nosso modo de habitar a Terra, que inegáveis vantagens nos trouxe, chegou ao seu esgotamento. Todos os semáforos entraram no vermelho. Construímos o princípio da autodestruição, podendo exterminar toda a vida com armas químicas, biológicas e nucleares por múltiplas formas diferentes. A techno-ciência que nos fez chegar aos limites extremos de suportabilidade do planeta Terra (The Earth Overshoot) não tem condições, por si só, como o mostrou o Covid-19, de nos salvar. Podemos  limar os dentes do lobo pensando que lhe tiramos,ilusoriamente, sua voracidade. Mas esta não reside nos dentes mas em sua natureza.

Portando, temos que abandonar o nosso barco e ir além de uma nova agenda mundial. Chegamos ao fim do caminho. Temos que abrir um outro diferente. Caso contrário, como disse em sua última entrevista antes de morrer Sigmund Bauman: “vamos engrossar o cortejo daqueles que rumam na direção de sua própria sepultura”. Somos forçados, se quisermos viver, a nos recriar e reinventar um novo paradigma de civilização.

Dois paradigmas: do dominus  e do frater

 

Vejo nesse momento o confronto entre dois paradigmas: o paradigma do dominus e o paradigma do frater. Em outra formulação: o paradigma da conquista, expressão da vontade de poder como dominação, formulada pelos pais fundadores da modernidade com Descartes,Newton,Francis Bacon,dominação de tudo, de povos, como nas Américas, na África e na Ásia, dominação das classes, da natureza, da vida e dominação da matéria até em sua última expressão energética pelo Bóson Higgs.

O ser humano (maître et possesseur  de Descartes) não se sente parte da natureza, mas seu senhor e dono (dominus) que nas palavras de Francis Bacon “deve torturar a natureza como o torturador faz com sua vítima até que ela entregue todos os seus segredos”. Ele é o fundador do método científico moderno, prevalente até os dias de hoje.

Esse paradigma entende a Terra como mera res extensa e sem propósito, transformada num baú de recursos tidos como infinitos que permitem um crescimento/desenvolvimento também infinito. Ocorre que hoje sabemos cientificamente que um planeta finito não suporta um projeto infinito. Essa é a grande crise do sistema do capital como modo de produção e do neoliberalismo como sua expressão política.

 

O outro paradigma é o do frater: o irmão e a irmã de todos os seres humanos entre si e os  irmãos e as irmãs de todos os demais seres da natureza. Todos os seres vivos possuem como Dawson e Crick mostraram nos anos de 1950, os mesmos 20 aminoácidos e as 4 bases nitrogenadas, a partir da célula mais originária que surgiu há 3,8 bilhões de anos, passando pelos dinosauros e chegando até  nós humanos. Por isso, diz a Carta da Terra e o enfatiza fortemente o Papa Francisco em suas duas encíclicas ecológicas, Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum (2015) e a Fratelli tutti (2020): um laço de fraternidade nos une a todos,”ao irmão Sol, a irmã Lua, o irmão rio e a Mãe Terra”(LS n.92;CT preâmbulo). O ser humano se sente parte da natureza e possui a mesma origem que todos os demais seres, “o humus”(a terra fértil) de onde se deriva o homo, como masculino e feminino, homem e mulher.

Se no primeiro paradigma vigora a conquista e a dominação (paradigma Alexandre Magno e Hernan Cortes), no segundo se mostra o cuidado e a corresponsabilidade de todos com todos( o paradigma Francisco de Assis e Madre Teresa de Calcutá).

Figurativamente representando podemos dizer: o paradigma do dominus é o punho cerrado que submete e domina. O paradigma do frater é a mão estendida que se entrelaça com outras mãos para a carícia essencial e o cuidado de todas as coisas.

O paradigma do dominus é dominante e está na origem de nossas muitas crises e em todas as áreas. O paradigma do frater é nascente e representa o anseio maior da humanidade, especialmente aquelas grandes maiorias impiedosamente dominadas, marginalizadas e condenas a morrer antes do tempo. Mas ele possui a força de uma semente. Como em toda semente, nela estão presentes as raízes, o tronco, os ramos, as folhas, as flores e os frutos. Por isso por ele passa a esperança, como princípio mais que com virtudes, como aquela energia indomável que sempre projeta novos sonhos, novas utopias e novos mundos, vale dizer, nos fazem caminhar na direção de novas formas de habitar a Terra, de produzir, de distribuir os frutos da natureza e do trabalho, de consumir e de organizar relações fraternais e sororais entre os humanos e com os demais seres da natureza.

A travessia de um paradigma do dominus para o paradigma do frater.

Sei que aqui se põe o espinhoso problema da transição de um paradigma ao outro. Ele se fará processualmente, tendo um pé no velho paradigma do dominus/ conquista pois devemos garantir nossa subsistência e outro pé no novo paradigma do frater/cuidado para inaugurá-lo a partir de baixo. Aqui vários pressupostos devem ser discutidos, mas não é o momento de fazer isso. Mas uma coisa podemos avançar: trabalhando o território, o bioregionalismo, se poderá implantar regionalmente o novo paradigma do frater/cuidado de forma sustentável, pois tem a capacidade de incluir a todos e criar mais igualdade social e equilíbrio ambiental.

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Nosso grande desafio é este: como passar de uma sociedade capitalista de superprodução de bens materiais para uma sociedade de sustentação de toda a vida, com valores humano-espirituais, intangíveis como o amor, a solidariedade, a compaixão, a justa medida, o respeito e o cuidado especialmente dos mais vulneráveis. 

 

O advento de uma biocivilização

 

Essa nova civilização possui um nome: é uma biocivilização, na qual a centralidade é ocupada pela vida em toda a sua diversidade, mas especialmente a vida humana, pessoal e coletiva. A economia, a política e a cultura estão a serviço da manutenção e da expansão das virtualidades presentes em todas as formas de vida.

O futuro da vida na Terra e o destino de nossa civilização está em nossas mãos. Temos pouco tempo para fazer as transformações necessárias, pois já entramos na nova fase da Terra, seu aquecimento crescente. Falta a suficiente consciência nos chefes de estado sobre as emergências ecológicas e é muito rara ainda no conjunto da humanidade.

Leonardo Boff,teólogo,filósofo e escreveu: Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres,1999/2018; Habitar a Terra:qual é o caminho para a fraternidade universal? Vozes 2022.

 

terça-feira, 7 de julho de 2020

POPULAÇÃO DA TERRA E CIDADANIA MUNDIAL

Por Marcelo Barros

 

Nesses últimos tempos, quem acompanha as notícias sobre o Brasil pode pensar que houve alguma transformação na orientação dos grandes meios de comunicação. Mesmo as grandes redes de televisão que sempre apoiaram a extrema-direita, agora criticam o presidente e dizem: Basta! De fato, o que acontece é que eles estão, astutamente, tentando descer do barco que eles mesmos patrocinaram e que, agora, afunda. Pronunciam-se contra o Bolsonero. No entanto, continuam, ardorosamente, a defender o ministro da Economia, responsável pelas medidas que, literalmente, levam milhões de pessoas ao risco de morrer, vítimas do descuido com a pandemia do Covid 19 e do vírus da miséria e da fome. E isso ocorre no Brasil, como em outros países, como mesmo no centro do Império norte-americano.

É neste contexto que, neste sábado, dia 11 de julho, anualmente, a ONU celebra “o dia da população mundial”. Esta data foi implementada em 1989, pelo Conselho do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, para chamar atenção para as questões relacionadas com a população mundial. O dia da população mundial deve nos ajudar a viver melhor em um planeta no qual, a cada ano, a população humana cresce e os bens da terra, como água, ar e alimentação, se mostram limitados, afetados pela ação humana e sob ameaça de se tornar insuficientes.

Atualmente, grande parte da humanidade concorda com o papa Francisco que que o desafio mais urgente para a população da Terra é sobreviver ao sistema capitalista. Em nome do deus dinheiro, esse modo de organizar as relações sociais e econômicas aprofunda as desigualdades sociais, provoca desemprego e destrói a natureza. Conforme dados recentes, cinco milionários brasileiros detêm uma riqueza equivalente à metade de toda a população brasileira (Carta Capital, 27/06/ 2018).

A humanidade precisa mudar a cultura com a qual se relaciona entre si e com o planeta que habita. Somente uma organização social que se preocupe com todos os seres humanos e busque a igualdade e a justiça é ecologicamente sustentável e socialmente justificável.

Hoje, a maioria das pessoas vive em cidades. Já se contam em milhares as metrópoles com mais de um milhão de habitantes. Já somam 23, as cidades com mais de dez milhões de habitantes. São Paulo já ultrapassou vinte milhões. Nessas sociedades, ao menos aparentemente, o ideal humano é a máxima liberdade de cada um e com o mínimo de orientação. O liberalismo é um regime econômico, mas é também cultural. Cada um faz o que quer e vive como quiser. Muitas pessoas optam pela cidade grande justamente por causa do anonimato. Ninguém se mete na vida de ninguém. Através da internet e do celular, estamos sempre mais juntos e ao mesmo tempo, cada vez mais sozinhos. Isso é tido como liberdade. Todos lamentam muito que haja fome e miséria no mundo, mas ninguém renuncia a nada para resolver este problema. De acordo com os cientistas, o planeta Terra teria todas as condições de alimentar e sustentar até onze bilhões de pessoas. No entanto, como dizia o Mahatma Gandhi: “O mundo tem o suficiente para saciar as necessidades de todos os seres humanos, mas não basta para a ganância e a ambição dos ricos”.

Nesse contexto, filósofos judeus como Emmanuel Mounier e Martin Buber, baseados na fé bíblica, insistiram no valor da alteridade. Propõem que se aprofunde a importância do outro. Devemos aceitar que dependemos uns dos outros e aprender a viver a partir do outro. Também as filosofias de povos africanos como o  Ubuntu dos zulus e o Bem-viver dos povos indígenas nos propõem outro estilo de convivência humana. De acordo com esses horizontes de vida, o bem-comum e a preocupação com o outro se tornam centro da vida e garantem a convivência baseada na justiça e na paz. Para consolidar a sustentabilidade do planeta, também os animais e a natureza precisam e merecem ser tratados com respeito e não apenas como mercadoria ou mero objeto para o uso humano. Dietrich Bonhoeffer, teólogo luterano, assassinado por Hittler na Alemanha nazista, afirmava: “O Cristo está em mim para você e está em você para mim. Em mim, ele é fraco para mim mesmo e é forte para você. Em você, ele é fraco para você e é forte para mim”. 

Para as comunidades cristãs, a palavra “participação social” é a que traduz o termo grego: Koinonia, que, nas Igrejas, se tornou “comunhão”. Criar a comunhão é um projeto divino. O termo Igreja foi inspirado nas assembleias de cidadãos do mundo grego antigo. Paulo trouxe o termo Igreja para as comunidades cristãs para educá-las à participação de todos e como um ensaio do que o Espírito Divino propõe para o mundo todo. Hoje isso se traduz por cidadania, direito e dever de todos/as. Paulo escreveu à comunidade cristã de Corinto: “Através de Jesus Cristo, Deus nos chamou à comunhão, ou seja à plena participação social” (1 Cor 1, 9).

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

 

 


terça-feira, 2 de abril de 2019

PARA UM ACORDO MUNDIAL SOBRE OS DIREITOS DA VIDA





Marcelo Barros

A sociedade dominante compreende tudo como mercadoria. Tudo tem preço. A terra, a natureza até as pessoas e a própria vida têm preço. Há alguns anos, a ONU aprovou um documento chamado “A carta da Terra”. Era uma declaração dos direitos do planeta Terra. Agora, diversas organizações sociais, reunidas na Ágora dos Habitantes da Terra, trabalham pela aprovação de uma “Carta da Vida”.

A compreensão de que há bens que são comuns a todos e não podem ser privatizados supõe sociedade que tenha ainda algum senso comunitário. Se cada pessoa pensa apenas em si mesma, a regra é cada um por si, só há lugar para a propriedade privada, a competição e o mercado. Entretanto, já em 1854, nos Estados Unidos, o cacique Seattle escrevia ao presidente dos Estados Unidos : “Como se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa idéia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los? Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho”.

As comunidades indígenas e afrodescendentes têm profundo senso comunitário. Até mais da metade do século XX, a maioria dos países se orgulhava em ter educação e saúde gratuita para todos e de boa qualidade. Era o que se chamava “sociedade do bem-estar social”. Nas últimas décadas, o Capitalismo destruiu sistematicamente essa cultura e transforma tudo em mercadoria. Por isso, atualmente, no mundo inteiro, vários movimentos e organizações civis trabalham para que a Terra, a Água, o Ar, a educação básica, a Saúde, o Conhecimento e a Energia renovável sejam considerados como bens comuns, patrimônio da humanidade. Na encíclica sobre a Ecologia integral, o papa Francisco afirmou: “o clima é um bem comum, bem de todos e para todos” (Laudatum sii, 23). Alguns desses elementos, como a Terra, a Água, o Ar, as florestas e as árvores são bens necessários a todo ser vivo. Dessas manifestações da Vida no planeta, nós, seres humanos, somos administradores/as, não para dilapidar, mas para, de modo harmonioso e juto, partilhar com os outros seres. Entretanto, essa compreensão tem encontrado barreiras nas legislações nacionais.

A ONU tem dificuldades para aprovar uma carta dos direitos da Terra, da Água, do Ar e de outros recursos dados pelo Criador para uso comum da humanidade e de todo ser vivo. Se esses bens são necessários à vida de todos, ninguém deveria ter o direito de se apropriar deles. Uma empresa pública faz o tratamento da água potável e a transporta à nossa casa. É justo pagar por esse serviço, mas não pela água. Se um norte-americano usa, em média, 44 litros de água por dia, enquanto a maioria dos africanos não tem acesso nem a um litro, considera-se absurdo legislar que os maiores consumidores paguem pelo excesso, para custear o acesso a quem não pode ter nem o necessário. A quantidade mínima de água necessária às pessoas durante um dia deve ser garantida gratuitamente a todos. Toda a humanidade tem direito aos bens indispensáveis à vida.

Já há quase dez anos, uma Rede de organizações de solidariedade na Europa definiu: “Os bens comuns podem ser definidos como o conjunto de recursos, meios e práticas que permitem a um grupo se constituir como comunidade, capaz de assegurar a todos o direito a uma vida digna” (revista Nigrizia, gennaio 2011, p. 79). 

A partir desse critério, as organizações sociais podem lutar pela água como bem público, pela defesa da terra (biodiversidade, soberania alimentar), pela superação da dependência dos combustíveis fósseis, pelo livre acesso à comunicação, ao saber e à saúde. Todas as sociedades, mesmo as mais tradicionais, têm alguma forma de mercado. No entanto, tudo não é mercadoria e, como diria Jesus, o mercado deve ser em função do ser humano e da sua vida e não tudo a serviço do mercado.

Neste ano, a Campanha da Fraternidade trata da necessidade de políticas públicas que visem o bem comum. Esse bem comum é o progresso das condições sociais e econômicas para todos. É também o cuidado com a vida no planeta. Faz parte das políticas públicas garantir a sustentabilidade e a “comunidade da vida” da qual nós, humanos, fazemos parte. O cacique Seattle que, no século XIX, escreveu ao presidente dos Estados Unidos, concluía sua carta, afirmando: “Ensinem as suas crianças o que ensinamos as nossas: a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos. A terra não pertence ao homem. O ser humano pertence à terra. Todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo. O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo”.   

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

DIA MUNDIAL DOS POBRES: COMPARTILHAR IMPOTÊNCIAS


 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer


           Há alguns dias li esta frase e pareceu-me haver sido pronunciada por Francisco: optar pelos pobres é compartilhar impotências.  Agora, procurando para escrever este artigo, não encontro mais a fonte para confirmá-la.  Isso não me preocupa, pois se não é dele, poderia ser.  Este que instituiu o Dia Mundial dos Pobres parece conhecer bem sua impotência em melhorar a sorte daqueles que são golpeados pela pobreza e a indigência. Escolhe, então, partilhar com eles sua própria impotência atravessada pelo amor. 

        No Dia Mundial dos Pobres, o Papa quer proclamar o valor salvífico dos pobres ao mesmo tempo em que denunciar a indiferença com relação a eles.  Quer chamar a atenção de todos aqueles que se dizem discípulos de Jesus para a centralidade do pobre no anúncio evangélico e para a identificação do Senhor com esses irmãos menores e mais pequeninos.  E quer denunciar a sociedade atual que os exclui e oprime. 

        Muitos se perguntam: por que um dia dos pobres? Não deveria ser todo dia? É fato que todos os dias deveríamos prestar especial atenção aos mais vulneráveis e necessitados. Mas instituir um dia para se valorizar o pobre, mentalizar sua importância e seu lugar privilegiado no plano da salvação significa provocar e convocar mentes e corações de todos para a inaceitável realidade da pobreza, que é fruto da injustiça humana e não da vontade de Deus. 

      No dia marcado para essa “celebração” dos pobres – no último domingo, 19 de novembro - Francisco celebrou com eles uma Eucaristia e ofereceu-lhes um grande almoço, do qual participou.  

Assim, pôs em prática um dos elementos característicos de sua espiritualidade: não basta dar coisas ou esmolas distantes e longínquas aos pobres.  É preciso estar com eles, próximo a eles, partilhando com eles o pão da palavra, o pão eucarístico e também o pão material do qual carecem.  Importa conversar com eles, escutá-los e deixar-se ensinar por esses mestres que a vida formou duramente e que têm imensa sabedoria para partilhar conosco, enriquecendo-nos com dons inimagináveis. 

      Pronunciou também uma homilia na qual destacou a configuração de responsabilidade do amor de Deus para conosco. O amor de Deus nos cumula de dons e talentos.  Mas nos responsabiliza por eles.  E a maior desde sempre é a responsabilidade pelo outro, pelo irmão.  Não à toa, a Bíblia começa com o relato de Caim e Abel.  Diante do assassinato do irmão, interpelado por Deus: “Onde está teu irmão?” Caim responde:” Por acaso sou o guarda do meu irmão?”

     É contra essa mentalidade que Francisco institui o Dia dos Pobres.  Deseja conscientizar-nos de que somos sim, guardiões do irmão, responsáveis pelo irmão e sua vida. Se o irmão não puder viver plenamente ou dignamente, somos responsáveis.  Não podemos dizer que nada temos a ver com isso, que não nos diz respeito. Todos estamos implicados nesse sistema iníquo que enriquece desmesuradamente alguns às custas da multiplicação desenfreada de pobres, miseráveis, famintos, refugiados e todas as deformações que desfiguram a humanidade. 

        Francisco deseja conscientizar-nos de que “os pobres não são um problema: são um recurso para acolhermos e vivermos a essência do Evangelho.” São abertura privilegiada e segura de nosso caminho para Deus. Partilham conosco a fome de Deus e o desejo de ser alimentados pelo pão da vida.  Porque “dele precisamos todos nós, ninguém é excluído, porque todos somos mendigos do essencial, do amor de Deus, que nos dá o sentido da vida e uma vida sem fim.” Portanto, reconhecendo-nos pobres com os pobres, aproximamo-nos sempre mais do Deus da vida, que se fez pobre para enriquecer-nos com seus dons. 

       Na homilia da Eucaristia celebrada no último domingo, ao comentar o Evangelho dos talentos, Francisco falou sobre o pecado de omissão, tão presente em nossa sociedade.  A três servos foram dados talentos, moedas.  Dois os multiplicaram e fizeram frutificar em benefício dos outros.  Um enterrou seu talento e se omitiu.  Deixou de fazer o mal. Mas deixou igualmente de fazer o bem.

        Neste momento, Francisco chamou a atenção para uma desculpa que é constante em nosso pecado de indiferença. Não faço mal a ninguém, não roubo, não mato, não é por minha culpa que os pobres não têm como viver.  Devo cuidar dos meus e que cada um faça o mesmo.  Não basta não fazer mal. É preciso amar e fazer o bem aos queamamos e aos que Deus ama com predileção: seus filhos mais necessitados.  Somos responsáveis por eles e elas. Somos seus guardiões.  A eles devemos nossa atenção, carinho, serviço. E não menos a eficiência de nosso agir em seu favor.

            O servo fiel da parábola é aquele que tudo arriscou para multiplicar seus talentos e fazer acontecer a fecundidade do amor. 

 Só descuidou do seu próprio interesse, sendo esta a única omissão válida, lembra Francisco.  O amor não deve pôr-se somente em palavras, mas visibilizar-se em atos e obras.  Assim lembra a 1ª Carta de João; assim ensina Santo Inácio de Loyola, mestre de Francisco, na Contemplação para alcançar amor, último de seus Exercícios Espirituais; assim relembra Francisco ao instituir e celebrar o Dia Mundial dos pobres. 

Maria Clara Lucchetti Bingemer,professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio,  teóloga e autora Testemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial.
 Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

TRUMP VIOLA A PRIMEIRA VIRTUDE DA SOCIEDADE MUNDIAL


 por Leonardo Boff



Os USA sempre se distinguiram por ser um país extremamente hospitaleiro, pois, a exceção dos povos originários, os indígenas, toda a população é composta por imigrantes. Bem como o Brasil para onde vieram representantes de 60 povos diferentes.
O espírito democrático e o respeito às diferenças religiosas estão consignados na constituição. Agora surge um presidente, Donald Trump que rompe uma longa tradição norte-americana: o respeito às diferenças religiosas, rejeitando a população muçulmana especialmente vinda da Síria e a tradicional hospitalidade a todo o tipo de gente que acorria e acorre àquele país.
O filósofo Imanuel Kant (+1804) em seu ultimo escrito “A paz perpétua” propunha a república mundial (Weltrepublik) baseada fundamentalmente em dois princípios: a hospitalidade e o respeito aos direitos humanos.
Para ele a hospitalidade (usa a expressão latina “die Hospitalität) é a primeira virtude desta república mundial, porque, “todos os humanos estão sobre a Terra e todos, sem exceção, têm o direito de estar nela e visitar seus lugares e povos; a Terra pertence comunitariamente a todos”. A hospitalidade é um direito e um dever de todos.
O segundo princípio é constituído pelos direitos humanos que Kant considera “a menina-dos-olhos de Deus” ou “o mais sagrado que Deus colocou na Terra”. O respeito deles faz nascer uma comunidade de paz e de segurança que põe um fim definitivo “à infame beligerância”.
Pois esta hospitalidade está sendo negada a milhares de refugiados na Europa, escapando das guerras apoiadas pelos ocidentais, na França punindo até um fazendeiro que acolheu a muitos deles. Esta mesma hospitalidade é explicita e conscientemente recusada por parte de Donald Trump a milhares e até milhões de estrangerios e trabalhadores ilegais.
É neste contexto que vale lembrar um dos mais belos mitos da cultura grega, a hospitalidade oferecida por um casal de velhinhos – Filêmon e Báucis – a duas dividades: Júpiter, o deus supremo e seu acompanhante o deus Hermes.
Conta o mito que Júpiter e Hermes se travestiram de andarilhos miseráveis para testar quanta hospitalidade ainda restava sobre a  Terra. Foram repelidos por todos por onde quer que passassem.
Mas, eis que num entardecer, mortos de fome e de cansaço,  foram calorosamente acolhidos pelos bons velhinhos que lhes lavaram os pés, ofereceram-lhes comida e a própria cama para dormir. Tal gesto de hospitalidade comoveram os dois deuses.
Quando estavam se preparando para repousar, despindo seus trapos, resolveram revelar sua verdadeira natureza divina. Num abrir e fechar de olhos transformaram a mísera choupa num esplênido templo. Espantados os bons velhinhos se prostraram até o solo em reverência.
As divindades pediram que ambos fizessem um pedido e que seria prontamente atendido. Como se tivessem combinado previamente, Filêmon e Báucis, disseram que queriam continuar no templo recebendo os peregrinos e que no final da vida, os dois, depois de tão longo amor, pudessem morrer juntos.
E foram atendidos. Um dia, quando estavam sentados no átrio, esperando os peregrinos, de repente Filêmon viu que o corpo de Báucis se revestia de folhagens floridas e que o corpo de Filêmon também se cobria de folhas verdes.
Mal puderam dizer adeus um ao outro. Filêmon foi transformado num enorme carvalho e Báucis numa frondosa tília. As copas e os galhos se entrelaçaram no alto. E assim abraçados ficaram unidos para sempre. Os velhos daquela região, hoje no norte da Turquia, sempre repetem a lição: quem hospeda forasteiros, hospeda a Deus.
A hospitalidade é um teste para ver quanto de humanismo, de compaixão e de solidariedade existe numa sociedade. Atrás de cada refugiado para a Europa e de cada imigrante para os USA há um oceano de sofrimento e de angústia e também de esperança de dias melhores. A rejeição é particularmente humilhante, pois lhes dá a impressão de que não valem nada, de que sequer são considerados humanos.
Os refugiados vão à Europa porque antes os europeus estiveram por dos séculos lá em seus países, assumindo o poder, impondo-lhes costumes diferentes e explorando suas riquezas. Agora que são tãoo necessitados, são simplesmente rejeitados.
Vale resgatar o valor e a urgência da hospitalidade, presente como algo sagrado em todas as culturas humanas. Temos que nos reinventar como seres hospitaleiros para estarmos à altura dos milhões de refugiados e imigrantes no mundo inteiro.
Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu: A hospitalidade: direito e dever de todos, Vozes 2005.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

CRESCE A DESIGUALDADE MUNDIAL

Por Frei Betto



      Todos os anos, em janeiro, os mais ricos do mundo se reúnem em Davos, na Suíça. É o Fórum Econômico Mundial. Em contraposição a ele foi criado o Fórum Social Mundial.

      Em 2013, o Fórum de Davos alertou que o aumento acelerado da desigualdade econômica entre os povos ameaçava a estabilidade social. Em 2014, o Banco Mundial vestiu a camisa das instituições que se propõem a erradicar a pobreza e promover uma prosperidade compartilhada. (Mas duvido que tenha assumido a pele...).

     Como alertou Obama em discurso na ONU, em setembro de 2016, "um mundo no qual 1% da humanidade controla uma riqueza equivalente à dos demais 99% nunca será estável."

     Agora em 2017, a ONG britânica Oxfam, que todo ano apresenta em Davos o mapa da desigualdade mundial, expõe dados preocupantes: 1) Desde 2015, apenas 1% da população global concentra em mãos mais riqueza que os 99% restantes. 2) Ao longo dos próximos 20 anos, 500 pessoas transferirão mais de US$ 2,1 trilhões para seus herdeiros – soma mais alta que o PIB da Índia, que tem 1,2 bilhão de habitantes. 3) A renda dos 10% mais pobres aumentou cerca de US$ 65 entre 1988 e 2011, enquanto a do 1% mais ricos aumentou cerca de US$ 11.800, ou seja, 182 vezes mais. 4) Nos EUA, pesquisa recente do economista Thomas Pickety revela que, nos últimos 30 anos, a renda dos 50% mais pobres permaneceu inalterada, enquanto a do 1% mais rico aumentou 300%.

O dado mais chocante, entretanto, é a constatação de que, atualmente, apenas oito homens detêm a mesma riqueza que a metade da população do mundo (3,6 bilhões de pessoas). São eles: Bill Gates, Amancio Ortega, Warren Buffett, Carlos Slim, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg, Larry Ellison e Michael Bloomberg.

      Os ingredientes para a desintegração de nossas sociedades estão dados. O crescimento da desigualdade social é o caldo de cultura para o aumento da criminalidade, do terrorismo e da insegurança global. Como assinala a Oxfam, há cada vez mais pessoas vivendo com medo do que com esperança.

      A conjuntura atual não é promissora: Trump leva a sua xenofobia para a presidência dos EUA; o Reino Unido rompe com a União Europeia; as forças de direita ampliam seus espaços políticos nos países ricos; o preconceito e a discriminação adquirem ares de “politicamente correto”.

      Por mais que isso nos espante, a lógica do cidadão comum é simples: por que votar em candidatos progressistas se nada fazem para reduzir a aceleração da desigualdade? Por que elegê-los se os nossos salários estão deteriorados, o desemprego se amplia e os serviços sociais não funcionam adequadamente para a maioria?

      Embora as políticas sociais tenham retirado milhões de pessoas da miséria e da pobreza nas últimas décadas, ainda hoje uma em cada nove pessoas vai dormir com fome. E a fome, que não tem ideologia, facilmente reduz um homem a um animal feroz.

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do poder” (Rocco), entre outros livros.

   
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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A DESORDEM MUNDIAL: O ESPECTRO DA TOTAL DOMINAÇÃO


Por Leonardo Boff


O título é do último livro de Luiz Alberto Moniz Bandeira (Civilização Brasileira, 2016), o nosso mais respeitado analista de política internacional. O autor teve acesso às mais seguras  fontes de informação, a múltiplos arquivos, aliando  tudo a um vasto conhecimento histórico. São 643 páginas densas, mas escritas com tal fluidez e elegância que parece estarmos lendo um romance histórico.

Moniz Bandeira é antes de mais nada, um minucioso pesquisador e, ao mesmo tempo, um militante contra o imperialismo estadunidense, cujas entranhas corta com um bisturi  de cirurgião. Não sem razão, foi preso entre 1969 e 1970 e novamente em 1973 pelo temível Centro de Informações da Marinha (Cenimar), pois se opunha criticamente, no contexto da guerra-fria, ao principal suporte da ditadura:  os Estados Unidos.

Os materiais de que dispõe, lhe permitem denunciar a lógica imperial presente no subtítulo: ”guerras por procuração, terror, caos e catástrofes humanitárias”. Quem ainda nutre admiração pela democracia  norte-americana e procura se alinhar aos desígnios imperiais (como fazem neoliberais brasileiros), encontrará aqui vasto material para reflexão  crítica e dados para uma  leitura do mundo mais diferenciada.

Dois motes orientam o centro do poder do estado norte-americano com seus inumeráveis órgãos de segurança interna e externa: ”um mundo e um só império” ou”um só projeto e o espectro da total dominação (full-spectrum dominance/superiority)”. Quer dizer, a política externa norte-americana se inspira no (ilusório) “excepcionalismo”, do velho “destino manifesto”, uma variante “do povo eleito por Deus, raça superior”, chamada a difundir no mundo todo a democracia, a liberdade e os direitos (sempre na interpretação imperial que emprestam a estes termos) e se considerar (pretensamente) “a nação indispensável e necessária”, ”âncora da segurança global” ou o “único poder” (lonely power).

Já no século XVIII Edmund Burke (1729-1797) e no século XIX o francês  Alexis Tocqueville (1805-1859), pressentiram que o presidente norte-americano detinha mais poderes que um monarca absolutista. Isso degeneraria numa “military democracy”(p. 55). Efetivamente, sob George W.Bush por ocasião dos atentados às Torres Gêmeas”, se instaurou a verdadeira democracia militar, com a declaração do “war on terror” e a publicação do “patriotic act” que suspendeu os direitos civis básicos até o habeas corpus e a permissão de torturas. Na verdade isso configura um estado terrorista.

Como vários cientistas norte-americanos, citados por Moniz Bandeira (p.470), afirmaram: “não há mais uma democracia mas uma “economic élite domination” à qual se deve submeter o presidente. As decisões são tomadas pelo complexo industrial-militar (a máquina de guerra), por Wall Street (as finanças),  por ponderosas organizações de negócios e por um pequeno número de norte-americanos muito influentes. Para garantir o “espectro da total dominação” são mantidas 800 instalações militares pelo mundo afora, a maioria com ogivas nucleares e 16 agências de segurança com 107.035 civis e militares. Como afirmou H. Kissinger: ”a missão da América é levar a democracia, se necessário, pelo uso da força”(p.443). Neste lógica, de 1776-2015, portanto, em 239 anos de existência dos EUA, 218 foram anos de guerra, apenas 21 de paz (p. 472).

Esperava-se que Barack Obama desse outro rumo a esta história violenta. Ilusão. Trocou apenas os nomes, mas manteve todo o espírito excepcionalista e as torturas em Guantánamo e em outros lugares fora dos EUA como no tempo de Bush. À “perpetual war” deu o nome de “Oversee Contingency Operation”. Por decisão pessoal (criminosa), autorizou centenas de ataques com drones e com aviões não pilotados, vitimando as principais lideranças árabes (p. 476).

Com certa decepção, constatou  Bill Clinton, “desde 1945 os Estados Unidos não venceram nenhuma Guerra” (p.312). Do Iraque fugiram em sigilo e na calada da noite (p.508).

O livro de Moniz Bandeira entra em detalhes mínimos sobre a Guerra na Ucrânia, na Criméia e no Estado Islâmico na Síria, com os nomes dos principais atores e datas.

A conclusão é avassaladora: ”Onde quer que os Estados Unidos intervieram, como o “specific goal of bringing democracy”, a democracia constitui-se de bombardeios, destruição, terror, massacres, caos e catástrofes humanitárias…entraram para defender suas necessidades e interesses econômicos e geopolíticos, seus interesses imperiais”(p.513).

A mole de informações arroladas sustentam esta afirmação, não obstante as limitações que sempre poderão ser apontadas.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu Ethos Mundial: um consenso mínimo entre os humanos, Record 2009.


sexta-feira, 22 de abril de 2016

A CRISE BRASILEIRA E A GEOPOLÍTICA MUNDIAL


Por Leonardo Boff



Seria errôneo pensar a crise do Brasil apenas a partir do Brasil. Este está inserido no equilíbrio de forças mundiais do âmbito na assim chamada nova guerra fria que envolve principalmente os EUA e a China. A espionagem norte-americana, como revelou Snowden atingiu a Petrobrás e as reservas do pre-sal e não poupou até a presidenta Dilma. Isto é parte da estratégia do Pentágono de cobrir todos os espaços sob o lema:”um só mundo e um só império”. Eis alguns pontos que nos fazem refletir.

No contexto global há um ascensão visível da direita no mundo inteiro, a partir dos próprios EUA e da Europa. Na América Latina está se fechando um ciclo de governos progressistas que elevaram o nível social dos mais pobres e firmaram a democracia. Agora estão sendo assolados por uma onda direitista que já triunfou na Argentina e está se pressionando todos os países sul-americanos. Falam, como entre nós, de democracia mas, na verdade, querem torná-la insignificante para dar lugar ao mercado e à internacionalização da economia.

O Brasil é o principal atingido e o impedimento da presidenta Dilma é apenas um capítulo de uma estratégia global, especialmente das grandes corporações e pelo sistema financeiro articulado com os governos centrais. Os grandes empresários nacionais querem voltar ao nível de ganho que tinham sob as políticas neo-liberais, anteriores a Lula. A oposição à Dilma e o apoio ao seu impedimento possui um viés patronal. A Fiesp com o Skaf, a Firjan, as Federações do Comércio de São Paulo, a Associação Brasileira da Indústria Eletrônica e Eletrodomésticos (Abinee), entidades empresariais do Paraná, Espírito Santo, Pará e muitas redes empresariais estão já em campanha aberta pelo impedimento e pelo fim do tipo de democracia social implantada por Lula-Dilma.

A estratégia ensaiada contra a “primavera árabe” e aplicada no Oriente Médio e agora no Brasil e na América Latina em geral consiste em desestabilizar os governos progressitas e alinhá-los às estratégias globais como sócios agregados. É sintomático que em março de 2014 Emy Shayo, analista do JB Morgan coordenou uma mesa redonda com publicitários brasileiros ligados à macroeconomia neoliberal com o tema:”como desestabilizar o governo Dilma”. Armínio Fraga, provável ministro da fazenda num eventual governo pós-Dilma vem do JB Morgan (cf.blog de Juarez Guimarães,”Por que os patrões querem o golpe”).

Noam Chomski, Moniz Bandeira e outros advertiram que os EUA não toleram uma potência como o Brasil no Atlântico Sul que tenha um projeto de autonomia, vinculado aos BRICS. Causa grande a preocupação à política externa norte-americana a presença crescente da China, seu principal contendor, pelos vários países da América Latina, especialmente e no Brasil. Fazer frente a outro anti-poder que significam os BRICS implica atacar e enfraquecer o Brasil, um de seus membros com uma riqueza ecológica sem igual.

Talvez o nosso melhor analista da política internacional. Luiz Alberto Moniz Bandeira, autor de “A segunda Guerra Fria – geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos” (Civilização Brasileira 2013) e o deste ano “A desordem internacional”(da mesma editora) nos ajude a entender os fatos. Ele trouxe detalhes de como agem os EUA: ”Não é só a CIA… especialmente as ONGs financiadas pelo dinheiro oficial e semi-oficial como a USAID, a National Endwoment for Democracy, atuam comprando jornalistas e treinando ativistas”. O “The Pentagon´s New Map for War & Peace” enuncia as formas de desestabilização econômica e social através dos meios de comunicação, jornais, redes sociais, empresários e infiltração de ativistas Moniz Bandeira chega a afirmar que “não tenho dúvida de que no Brasil os jornais estão sendo subsidiados…e que jornalistas estão na lista de pagamento dos órgãos citados acima e muitos policiais e comissários recebem dinheiro da CIA diretamente em suas contas”(cf. Jornal GGN de Luis Nassif de 09/03/2016). Podemos até imaginar quais seriam esses jornais e os nomes de alguns jornalistas, totalmente alinhados à ideologia desestabilizadora de seus patrões.

Especialmente o pré-sal, a segunda maior jazida de gás e de petroleo do mundo, está na mira dos interesses globais. O sociólogo Adalberto Cardoso da UERJ numa entrevista à Folha de São Paulo (26/04/2015) foi explícito“Seria ingenuidade imaginar que não há interesses internacionais e geopolíticos de norte-americanos, russos, venezuelanos, árabes. Só haveria mudança na Petrobras se houvesse nova eleição e o PSDB ganhasse de novo. Nesse caso, se acabaria o monopólio de exploração, as regras mudariam. O empeachment interessa às forças que querem mudanças na Petrobrás: grandes companhias de petróleo, agentes internacionais que têm a ganhar com a saída da Petrobrás da exploração de Petróleo. Parte desses agentes quer tirar Dilma “.

Não estamos diante de um pensamento conspiratóro, pois já sabemos como agiram os norte-americanos no golpe militar em 1964, infiltrados nos movimentos sociais e politicos. Não é sem razão que a quarta frota norte-americana do Atlântico Sul está perto de nossas águas.

Devemos nos conscientizar de nossa importância no cenário mundial, resistir e buscar o fortalecimento de nossa democracia que represente menos os interesses das empresas e mais as demandas tão olvidadas de nosso povo e na construção de nosso própro caminho rumo ao futuro.

Leonardo Boff é articulista do JB online e escritor.