O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador Maria Clara Bingemer. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Maria Clara Bingemer. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 27 de abril de 2020

TODAS AS VIDAS VALEM



Maria Clara Lucchetti Bingemer

Uma crise como a que vivemos não deixa de estar carregada de ensinamentos.  E ensinamentos sempre acrescentam, somam, agregam conhecimento e sabedoria, fazendo-nos ser mais humanos.  Nem todas essas lições que a crise nos dá são positivas, ensinam como fazer, mostram o caminho que temos à frente.  Algumas são negativas, apontam para o que não deve ser feito nem imitado sob hipótese alguma, mostrando-nos o que evitar para seguir caminhando.  Entre estas últimas certamente está a questão dos idosos em meio à pandemia do novo coronavírus.

Chega a ser chocante, para não dizer repulsiva, a atitude de governantes, empresários, médicos, ministros, quando se referem à maior vulnerabilidade das pessoas de mais idade e, portanto, a sua maior chance de letalidade. Esses idosos não entram em consideração quando se trata de levar adiante o isolamento social ou são objeto de descarte quando se fala da estrutura sanitária chegar ao limite para receber todos os pacientes.  É uma postura de desprezo revestido de fatalismo, mas que em verdade esconde uma concepção lamentável do que seja o ser humano e a vida humana como dom precioso que deve ser cuidada desveladamente em todos os seus estágios. 

É curioso que alguns desses mesmos que vociferam em favor de uma abertura irrestrita da quarentena já e imediatamente são os mesmos que clamam aos céus contra a interrupção da gravidez.  Quando se trata da concepção e do início da vida essas pessoas ou grupos são enfáticos em defendê-la e por ela lutar.  Por que então não mantêm a mesma coerência e ardor quando se trata da maturidade da vida, em sua etapa conclusiva?

A explicação não é tão complicada.  O próprio Papa Francisco já decifrou magistralmente a resposta em sua Exortação Apostólica “ Gaudete et Exsultate”, de 2018, sobre a santidade no mundo de hoje. No número 101 deste documento, o Papa reflete sobre como o cristão deve buscar a santidade praticando as obras de misericórdia corporais e espirituais. Observa, porém, que o evangelho de Mateus, que propõe ao crente a contemplação do Juízo Final, só menciona as corporais: dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, vestir o nu etc. 

Não quer dizer que o Papa não dê importância às obras de misericórdia espirituais.  Pelo contrário.  Uma e outra vez ao longo do documento, o pontífice exorta à paciência, ao cuidado espiritual com o próximo e tudo que constitui a atenção misericordiosa subjetiva e caridosa.  Quer deixar bem claro que sem a atenção às necessidades básicas e, portanto, corporais dos pobres e desvalidos da terra, não haverá santidade possível.  Pelo menos o que se entende como santidade dentro do Cristianismo. E toca neste ponto a delicada questão do aborto.

 “A defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada, e exige-o o amor por toda a pessoa, independentemente do seu desenvolvimento. Mas igualmente sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura, e em todas as formas de descarte. Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem a sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente”.

Com sua habitual lucidez, o Papa explica que todas as vidas valem.  E têm valor infinito. Não apenas a do nascituro indefeso, que não pode sequer gritar para defender-se.   Não só as “produtivas”, que podem trabalhar em tempo integral e produzir dividendos para o mercado.  Nem apenas os fortes, as vigorosas e belas, no ápice da existência ou mesmo em suas etapas iniciais. E valem muito.  Portanto, a luta contra a pandemia é por cada uma delas, uma a uma.  

Todas as mortes ocorridas ou por ocorrer nos diminuem como humanidade.  E não à toa lembra o Papa que entre essas vidas que valem infinitamente estão as dos “idosos privados de cuidados” ou mesmo atirados ao contágio, sob pretexto de que suas vidas são descartáveis e dispensáveis. 

Em defesa das vidas dos idosos e anciãos, podemos mencionar, além do Evangelho, do magistério de Francisco e de toda a tradição da Igreja, fontes tradicionais não cristãs.  Todas as tradições dos povos originários, todas as religiões têm enorme respeito pelos anciãos e por tudo que os mesmos representam em termos de sabedoria, capacidade de conselho, densidade identitária do grupo humano. Os idosos são venerados por toda parte. São a sede da memória de uma cultura, de uma tradição, de uma religião. 
Trata-se aqui das vidas de todos. É fundamental se buscar salvá-las com todos os meios ao alcance.  E entre estas contam-se também e plenamente as dos idosos.  Todas as vidas valem.  Igualmente as vidas que transcorrem há mais tempo, que formaram as jovens vidas que hoje são o futuro da humanidade.  Quem com essa ligeireza considera a possibilidade de assassinar seu passado, mostra-se indigno do presente e também do futuro. Esperemos que a pandemia, além de todos os sofrimentos que já trouxe, não deixe esse amargo legado. 

A teóloga Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de “Santidade, chamado à humanidade” (Editora Paulinas), entre outros livros.
  
Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>



segunda-feira, 1 de outubro de 2018

MÃES E AVÓS: SUSTENTO E GARANTIA DA SOCIEDADE




 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Em meio ao conjunto de contrassensos em que se transformou o cenário brasileiro às vésperas das eleições, o universo das mulheres atrai a atenção. São potencial eleitoral respeitável e inimigas a temer. 

É fato que em muitos países a participação política feminina tem sido decisiva para mudar contextos, transformar mentalidades e, inclusive, obter vitórias importantes.  Não seria demais lembrar o grande movimento das mães da Praça de Maio que, caminhando em círculos silenciosamente, todos os dias, com um pano branco sobre a cabeça, ajudaram a desestabilizar a cruel ditadura argentina.

Entre nós, neste momento, a atitude de alguns candidatos com mulheres tem sido particularmente eivada de machismo e preconceito.  Algumas vezes têm chegado às raias do insulto.  Como o candidato que disse a uma colega do Congresso Nacional que não a estupraria porque ela não o merecia.  O (mesmo) candidato atalhou com particular impaciência e grosseria outras mulheres que o entrevistaram ou apartearam, ou dele discordaram. Igualmente foram feitos comentários em discursos ou entrevistas de que era muito normal e até mesmo desejável que a mulher ganhasse um salário menor do que o do homem.

Tudo isso provocou a indignação das mulheres que, em tempos de feminismo já para além da terceira onda e numa sociedade onde a questão do gênero é central, não admitem mais ouvir semelhantes barbaridades.  Porém, o que mais tem provocado estupefação e indignação são as recentes declarações de um candidato a vice-presidente.

Declarou o candidato que famílias onde falta a presença masculina e paterna, e onde as crianças são criadas pelas mães e avós produzem filhos e netos desajustados, que se tornam presa fácil para o tráfico e a criminalidade.  Questionado posteriormente o candidato reafirmou suas declarações, desta vez acrescentando que sua intenção não era depreciar as mulheres, mas defendê-las, devido às duras condições em que são obrigadas a viver. 

Parece-me muito positivo que o candidato se preocupe com a situação das mulheres que não recebem do estado creches e condições adequadas para deixar seus filhos a fim de poderem trabalhar.  Em sua análise, porém, falta um detalhe: a solidariedade dessas mulheres entre si. Ao partir para o trabalho, são ajudadas pelas vizinhas, amigas e conhecidas, que tomam conta de seus filhos pequenos.   

Ao chegar em casa, as mulheres que trabalharam o dia inteiro resgatam seus filhos da casa onde se encontram, lhes dão de comer e à noite ainda participam de reuniões de comunidade, de igreja ou clubes de mães.  Por sua vez, aquelas que se responsabilizaram pelas crianças durante a jornada de trabalho das mães continuarão prontas a ajudar sempre que necessário. E assim se forma a rede de solidariedade feminina, condição fundamental para que a sociedade – e em termos maiores, a humanidade – possa crescer e desenvolver-se sem estar condenada a uma extinção prematura.

Até o presente momento, caro candidato, os homens têm, sim, sido ativos na reprodução da espécie, mas não em sua conservação.  Muitas vezes engravidam as mulheres e se vão, em busca de outras experiências, sobretudo mais novas.  As mães permanecem. E criam os filhos, enfrentando todas as dificuldades, dispostas a defender as crias e tirar o pão da boca para alimentá-las.

Nesta tarefa têm sido muito ajudadas.  Por quem?  Pelos homens?  Não exatamente.  Por outras mulheres, mais velhas, que foram as que as criaram e jamais delas desistiram.  É a cadeia imortal e milenar da maternidade, que se mantém ativa e dinâmica, gerando, nutrindo e protegendo a vida.

Perdi meu pai com nove anos de idade, fui criada por minha mãe e minha avó.  Juntas formaram o marco de ternura e vigor que me constituiu como pessoa.  Ambas foram meus exemplos e guias na vida.  Embora sentindo, sim, muita falta de meu pai, não resultei desajustada e disfuncional. 

A razão pela qual as famílias mais pobres hoje em dia perdem tantas vezes seus filhos para o tráfico não é o fato de terem mulheres como chefes e cabeças.  E sim a pobreza e a injustiça em si mesmas.  É um contexto opressor que não deixa saídas aos jovens, que não lhes apresenta oportunidades, que lhes rouba a esperança.  Dentro desse quadro sombrio, muitas vezes o tráfico e a criminalidade conseguem lançar sua mão mortal sobre eles. Mas outras vezes não.  E quando não conseguem, é quase sempre porque houve em suas origens uma mãe e uma avó para dar carinho, para estar presente, para dar vida ao preço da própria vida. 

Não culpe, por favor, as mulheres pela violência que vitima cruel e maciçamente nossa juventude.  Culpe as estruturas injustas que geram miséria e violência, e que a política teria a obrigação de ajudar a transformar. Nesta missão, sempre poderá contar com o concurso das mulheres. São elas as primeiras interessadas em construir um mundo mais humano para as novas gerações que gestaram em seus ventres. 
  
Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), sua mais recente obra, entre outros livros.

Copyright 2018 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>